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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O violino mágico (cenas de um filme polonês)

por Sheila Sacks

Há quase 5 décadas, em 19 de agosto de 1965, encerrava-se em Frankfurt, na Alemanha, o chamado Julgamento de Auschwitz. O processo durou dois anos e 22 ex-guardas da Gestapo que atuaram no campo nazista de extermínio, na Polônia, foram julgados por cumplicidade ou homicídio. Seis deles foram condenados à prisão perpétua por assassinato. As câmaras de gás de Auschwitz funcionaram de 1942 a 1944, matando mais de 1 milhão de judeus.


Ontem eu vi
“A Passageira”
de Andrzej Munk,
prenhe de horrores
trazidos do campo cão
de Auschwitz.
 Da tela suspensa
a imagem cinzenta explodiu.
Vi gente marcada, medrosa e acuada,
gente cercada de olhos farpados
e botas de grosso calibre.

Ontem eu vi um desfile singular,
gente condenada, maltratada,
marchando calada,
os olhos secos, semblantes marcados.
Gente que olhava pra mim
sem um pedido sequer.
Faces lívidas de frio e cansaço.

Na sala escura
entre poltronas vazias,
eu assisti contrito
o aflorar das feridas.
Vi, entre surpreso e aflito
a tela se abrir em clareiras
e as imagens em cadeia
afrontarem as barreira
do tempo e da sensatez.

Ontem eu vi
na cinemateca do bairro,
amontoado de ossos,
dentes arrancados e aros de óculos.
Sapatos de solas furadas,
meias rasgadas
tudo ao meu lado
restos de histórias
empesteando a sala
encharcando o espaço
de espanto e horror.

Me vi sem bússola ou mapa
em uma ilha assombrada,
porto macabro de um povo
posto à deriva pelo vil preconceito.
Altar infame e maldito
dos cavaleiros do apocalipse.

Pelos alto-falantes
do campo de Auschwitz,
ontem eu ouvi a terrível sinfonia
de soluços e gemidos.
De onde vinham tais sons,
da tela ou de um tempo
urdido nas sombras?

Ao meu lado o carrasco batia,
gritava e bramia
seis mil anos de ódio,
seis mil anos de ira.

De repente
tal qual um súbito clarão,
o raio riscou a sala
do teto ao chão.
Parecia que vinha do céu,
ou quem sabe? das longínquas
fronteiras da razão.
A multidão olhou para o alto
E sem sentir,
afrouxou o passo.

Na tela a imagem inchou,
criou corpo, peso e coragem,
adentrou pela sala e puxando-me de lado,
me fez personagem.



Ontem eu vi,
ouvi e senti
o solo do violino mágico.
Qualquer coisa tão doce e delicada
que a multidão condenada
suspirava em arpejos, acordes
e staccatos.
Na fria madrugada
só a suave melodia
servia de meia e sapato.

Também eu,
junto à multidão condenada
acompanhei a caminhada
do violino encantado.

Maltrapilho e despojado
pela estrada enlameada
eu o segui,
sem ao menos me importar
com a vingança do carrasco.

Ontem,
anteontem
ou hoje?
Quando foi afinal
no cinema
eu vi.

(O cineasta polonês Andrzej Munk morreu aos 39 anos em um acidente de carro durante as filmagens de “A Passageira”. O filme iniciado em 1961 foi concluído por seus assistentes e lançado em 1963. A história mostra uma ex-carcereira da Gestapo em Auschwitz que ao retornar de navio à Europa, na década de 1960, crê reconhecer uma antiga prisioneira levada à câmara de gás. Aí têm início as suas lembranças do campo da morte e da triste melodia do violino mágico: o adágio do Concerto nº 2 de Bach.)

domingo, 21 de julho de 2013

Ovnis: da ficção à notícia

Por Sheila Sacks

Preconceito e informações seletivas tornam a mídia ausente na apuração de fatos relacionados a fenômenos ufológicos
Publicado no site do "Observatório da Imprensa"

“A abordagem da imprensa e da maioria da mídia (acerca da ufologia) é um fracasso total” (Rubens Junqueira Villela, cientista e primeiro brasileiro a pisar no polo Sul).

Recentemente (maio de 2013), a BBC News veiculou matéria que tangencia um tema que a mídia em geral ignora ou enfoca de forma curiosa talvez por entendê-lo fantasioso. Trata-se de uma ocorrência relacionada à aparição de Ufos (unidentified flying objects) ou Ovnis (objetos voadores não identificados), termo utilizado no Brasil.

A notícia comentava o relatório da firma britânica UK Airprox Board, especializada em segurança de voos e incidentes aéreos, que analisou um episódio acontecido em 2 de dezembro de 2012, quando um avião de passageiros por pouco não colidiu com um objeto não identificado.

O avião em questão, um Airbus A320, preparava-se para aterrissar no Aeroporto Internacional de Glasgow, na Escócia, quando o piloto e os tripulantes viram um objeto à frente aparecer repentinamente e passar embaixo da aeronave, a uns dez segundos de distância, segundo o comandante. Porém, o radar não teria detectado nenhum tipo de aeroplano naquele momento, e imediatamente após o incidente foi iniciada uma busca na região sem resultados. Em um trecho da conversa registrada entre o controlador de voo, na torre de monitoramento, e o piloto do avião, logo após a passagem do objeto, este afirma “não ter certeza do que é (o objeto)”, e acrescenta que “sem dúvida é bem grande, e é azul e amarelo”.

A investigação não conseguiu determinar o tipo de objeto descrito, apesar de descartar a possibilidade de ser outra aeronave ou um balão meteorológico. No seu parecer final, a UK Airprox Board admite que as fontes de vigilância disponíveis não obtiveram êxito em rastrear nenhuma atividade que correspondesse àquela narrada pelo piloto do A320, ainda que as condições meteorológicas fossem consideradas favoráveis para a observação. Mais um entre milhares de incidentes aéreos não conclusivos ou mal explicados que a mídia se exime em apurar mais profundamente, limitando-se apenas a reportá-lo.

Governo Blair investigava Ovnis

Desde 2003, o governo britânico vem disponibilizando ao público e à mídia documentos ufológicos - antes catalogados sob a rubrica de secretos e ultrassecretos - que podem ser consultados em seu Arquivo Nacional (The National Archives - TNA). Esse acesso foi ampliado a partir de 2008 com a incorporação de novos arquivos, agora também disponíveis na internet.

Em um desses lotes abertos à consulta pública em 2012 é descrito o trabalho de agentes do Projeto UFO (UFO Desk), no período de governo do Primeiro Ministro Tony Blair (1997 a 2007), que tinham a tarefa de produzir informes diários sobre óvnis para o ministério da Defesa (MOD). Cabia ao setor acompanhar os relatos e as investigações sobre possíveis “avistamentos”, gerenciar os pedidos de consulta de dados pela mídia e pesquisadores, e manter contato com ufólogos. Um serviço assinalado como “o mais estranho da administração pública inglesa” pelo jornalista e pesquisador David Clarke, responsável pela catalogação e liberação dos arquivos UFO no TNA.

Segundo Clarke, a partir de 2005 com a implementação da Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act-FOIA) em todos os patamares de governo, a pressão de vários segmentos da sociedade para a divulgação dos registros oficiais sobre óvnis se acentuou e o tema foi um dos mais solicitados ao MOD para consultas. Na ocasião, o subsecretário de Estado de Defesa Tom Watson confirmou que os arquivos UFO eram os tópicos mais requisitados para liberação, seguidos das consultas sobre recrutamento, investigações funcionais e eventos históricos como a Segunda Grande Guerra e o conflito das Malvinas.

Margareth Thatcher e o Roswell inglês

Mas, apesar da liberação dos documentos - antes mantidos sob sigilo militar - um antigo funcionário do MOD, Nik Pope, que dirigiu o UFO Desk na década de 1990 e deixou o ministério em 2006, revelou que os nomes de muitas pessoas ficaram ininteligíveis para mantê-las propositadamente no anonimato e que os arquivos somente receberam o nada consta após uma análise minuciosa e a certeza de que não se constituíam ameaça à segurança nacional. Ainda assim, determinados arquivos foram retidos de acordo com as exceções estipuladas pela FOIA.

Para Pope, o mais relevante nesses registros diz respeito à segurança aérea, porque existem muitos relatos de incidentes onde aviões comerciais por muito pouco não se chocaram com objetos não identificados. Contudo, em 2009 a divisão UFO foi desativada pelo MOD que entendeu que os milhares de “avistamentos” narrados pelo público não tinham valor militar. Entretanto, o especialista acredita que o MOD continuará de forma não oficial monitorando radares e “avistamentos” relatados por pilotos militares e da aviação civil.

Um desses relatos ficou conhecido como o caso Roswell inglês, em alusão ao famoso incidente ufológico que teria ocorrido em 1947, na cidade de Roswell, no noroeste dos Estados Unidos, envolvendo a queda de um Ovni, fato negado pelas autoridades militares americanas. Na Inglaterra, no início do governo de Margaret Thatcher, na década de 1980, o “avistamento” de “luzes inexplicáveis” pairando sobre a Floresta Rendlesham – de acordo com o memorando de 13 de janeiro de 1981, assinado pelo subcomandante da base da Força Aérea Britânica (Royal Air Force – RAF) de Bentwaters, tenente-coronel Charles Halt - também foi considerado “não significativo para a Defesa”. O incidente que envolveu “avistamentos” de Ovnis se estendeu por quatro dias, em dezembro de 1980, e foi presenciado por dezenas de militares. Na época, as bases de Bentwaters e Woodbridge, no leste da Inglaterra, estavam sendo usadas pela Força Aérea dos Estados Unidos.

Por ocasião da morte de Margaret Thatcher, em abril deste ano, David Clarke lembrou que o desaparecimento da Dama de Ferro iria privar os ufólogos, definitivamente, de uma certeza sobre o real conhecimento da ex-primeira ministra sobre o incidente da Floresta Rendlesham. Ele contou que, em 1997, durante uma festa de caridade em Londres, Thatcher teve um encontro casual com a jornalista e ufóloga inglesa Georgina Bruni (1947-2008), e proferiu uma frase que intrigou a jornalista. Diante da pergunta sobre o fenômeno dos Ovnis e de sua tecnologia avançada, Thatcher teria respondido: “Você não pode dizer as pessoas” (You can’t tell the people). A afirmação acabou se transformando no título do livro que Bruni publicou em 2000 sobre suas investigações acerca do episódio de Rendlesham Forest.

Wikileaks e os documentos sobre ufos

Outra liberação de documentos ufológicos bastante aguardada por estudiosos desses fenômenos e ignorada pela mídia viria da parte de Julian Assange e de seu site Wikileaks. Em 3 de dezembro de 2010, após a publicação de mais de 250 mil telegramas diplomáticos sigilosos das embaixadas dos Estados Unidos em todo o mundo, o australiano respondendo às perguntas dos leitores do jornal britânico The Guardian confirmou que nos documentos secretos ainda não divulgados (700 mil já tinham sido publicados) existiam referências a Ovnis. Entretanto, dois meses depois, Assange admitiu em comunicado que suas afirmações sobre registros ufológicos foram superdimensionadas.

Mas, em abril deste ano, ao divulgar 1,7 milhão de documentos diplomáticos do tempo de Henry Kissinger, quando este era secretário de Estado dos EUA (1973-1977), o Wikileaks também liberou 21 telegramas que continham referências a ocorrências ufológicas. Em um deles, enviado da embaixada dos EUA em Gana, na África, a Washington, em novembro de 1973, há o registro de como o espaço aéreo havia sido violado por Ovnis, os quais se afirmavam não correspondiam a aeronaves comerciais convencionais.

Porém o registro secreto mais surpreendente sobre o tema partiu de um órgão científico federal – The Bureau of Oceans and International Environmental and Scientific Affairs (OES) – do Departamento de Estado norte-americano. Criado em 1974 pelo Congresso dos EUA para atuar na política externa em relação às mudanças climáticas, energias renováveis e situações dos oceanos e dos polos, o bureau também lida com a questão espacial e a exploração do espaço através de um escritório próprio, o “Office of Space and Advanced Technology”. No documento divulgado pelo Wikileaks, datado de 26 de março de 1975, o OES enviava um informe com o seguinte título: “Arrangements to welcome extraterrestrial life forms to the US” (Normas para dar boas-vindas a formas de vida extraterrestres pelos Estados Unidos, em tradução livre).

Ministério da Defesa recebe ufólogos

Assange está refugiado na embaixada do Equador em Londres desde junho de 2012, e um de seus mais importantes informantes, o soldado norte-americano Bradley Manning, analista de inteligência, pode ser condenado à prisão perpétua nos EUA. De acordo com o ex-senador pelo estado do Alasca, Mike Gravel, que em 2008 concorreu à indicação do Partido Democrata para a candidatura à Presidência dos EUA, a Casa Branca tem ajudado a acobertar a verdade sobre ufos. Em um painel sobre o tema, em Washington, na primeira semana de maio deste ano, ele culpou a mídia e o governo pelo acobertamento dos fatos. “O que estamos enfrentando aqui, por parte da imprensa e também do governo, é um esforço para marginalizar e ridicularizar as pessoas que possuem algum conhecimento específico.” Gravel revelou que os “relatos mais fortes” sobre Ufos vêm justamente de ex-oficiais militares.

Por aqui, um encontro inédito reuniu ufólogos e representantes do Ministério da Defesa, em Brasília, em abril deste ano, onde se determinou que todos os documentos sobre o assunto sob a responsabilidade do Exército, Marinha e Aeronáutica fossem tornados públicos, como estabelece a Lei de Acesso à Informação - LAI (Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011). A disposição do governo foi comemorada pelo ufólogo Ademar José Gevaerd, editor da revista UFO, presente ao encontro, que classificou a reunião de “histórica e sem precedentes em todo o mundo”. Além da promessa de manter um canal de comunicação permanente com os estudiosos dos fenômenos ufológicos, os militares que participaram da reunião revelaram que o maior número de requerimentos de informações ao órgão, a partir da regulamentação da LAI, em 16 de maio de 2012, tinha os óvnis como ponto de interesse, uma surpresa para os próprios ufólogos.

Falando ao repórter Pedro Peduzzi, da Agência Brasil, Gevaerd destacou que as autoridades afirmaram que o ministro da Defesa Celso Amorim respeita a ufologia e o trabalho dos ufólogos. O ministério garantiu ainda que pretende levar adiante a ideia de estabelecer um canal permanente de comunicação com a Comissão Brasileira de Ufólogos (“Ministério da Defesa e ufólogos abrem canal para troca de informações sobre óvnis”, em 19.04.2013). A Agência Brasil, portal público de notícias gerido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), produz notícias para mais de 8 mil veículos de comunicação em todo o país, com um alcance de 20 milhões de leitores.

A maior reportagem de todos os tempos

Entretanto, a disponibilização de documentos sigilosos sobre operações militares envolvendo “avistamentos” de Ovnis pode esbarrar em obstáculos. O coronel da Aeronáutica Alexandre Emílio Spengler, responsável pelo Serviço de Informações ao Cidadão do Ministério da Defesa admitiu que alguns documentos foram extraviados e outros destruídos, já que o decreto 79.099 de 1977 permitia a destruição de documentos sigilosos. Quanto aos pedidos de informações negados (até o momento), Spengler explicou que muitos documentos ainda estão sob sigilo pelo fato de envolverem assuntos relacionados à segurança nacional, classificados como secretos ou ultrassecretos.

Para o pesquisador e cientista Rubens Junqueira Villela, de 83 anos, antigo professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) e participante do Programa Antártico Brasileiro, a vida é um fenômeno universal e ela não está isolada ou ilhada, e sim interconectada pela própria tessitura do universo. Com mais de uma dezena de viagens ao polo Sul, ele presenciou, em 1961, um “avistamento” na Antártida a bordo do navio quebra-gelo “Glacier” da Marinha dos EUA, com outros membros da tripulação. O fato foi registrado por organizações científicas internacionais da época como o GEPA (Groupement d’Etude dês Phénomènes Aériens), da França, e o NICAP (Nacional Investigations Committee On Aerial Phenomena), dos EUA.

Em entrevista ao site Ufovia, em 2010, Villela criticou a maneira como a mídia encara a ufologia. “Com raríssimas exceções, os profissionais destes meios são incapazes de uma abordagem objetiva, investigativa e isenta de preconceitos. Simplesmente estão perdendo a maior reportagem de todos os tempos!”

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Um partido acorrentado

Por Sheila Sacks

“Assim fomos abrindo aqueles mares, Que geração alguma não abriu” (do Lusíadas, de Luís Vaz de Camões - século 16)

O “grito das ruas” ou a onda de passeatas que estourou em junho de 2013 - a partir de uma convocação do Movimento Passe Livre que briga pela tarifa zero para o transporte coletivo - vem empurrando o governo do PT a uma revisão de seu comportamento político e a uma inevitável mea culpa em relação a sua postura e ações.

Há dez anos no poder, o partido se embrenhou em um processo de mudança estética e edulcorada, perdendo a autenticidade e a sua cara original para marqueteiros ilusionistas que criaram um arremedo ficcional de um Brasil satisfeito e acomodado pela aquisição de alguns poucos bens de consumo. Essa ficção foi naturalmente acolhida pela mídia em seus espaços publicitários na imprensa, rádio e TV, com repercussões ufanistas na área de notícias numa espécie de troca de gentilezas pelas verbas federais injetadas nos meios de comunicação. Isso ajudou, e muito, no distanciamento e desvinculação do governo do PT das reais aspirações da população.

Em nome da tal governabilidade, o Partido dos Trabalhadores injetou botox e outros elementos estranhos e artificiais em sua musculatura facial, transformando-a em uma caricatura patética e irreconhecível. Com uma penca de siglas políticas pendurada em seu pescoço, o colar de falsos brilhantes se mostrou, na prática, uma eficiente corda para enforcados. Assim, o PT aterrissou em 2013 acuado e desfigurado, tomado por invasores, esses sim, bastante à vontade na cidadela conquistada. A toxina botulínica introduzida pelas siglas e figuras alienígenas presentes no governo do PT deformou e paralisou a força e a expressão do partido perante o distinto público que, durante décadas, acompanhou e aplaudiu a difícil trajetória daqueles que tinham o propósito de mudar o Brasil.

Retorno as origens

Como o mito grego de Prometeu acorrentado, o PT teve seu fígado devorado diariamente por grupos políticos alheios a sua ideologia, focados em interesses individuais, mas estrategicamente (ou perversamente) assentados em seu bloco de apoio parlamentar. As poucas horas noturnas que sobravam para o partido se recompor  - porque os políticos também dormem - mostraram-se lamentavelmente insuficientes para a sua regeneração. Perdeu-se o singular “animus” original da sigla.

Enfim, o estrago está feito e a bomba posta no colo da presidenta, em Brasília, com os grupos ditos aliados e os oposicionistas (sim, existem partidos de oposição) dando tratos à bola para saírem à francesa ou pelo menos ilesos desse gigantesco imbróglio popular para o qual contribuíram com uma inegável cota colaborativa.

Alvo preferencial das centenas de análises políticas que tentam identificar e rotular as manifestações e em paralelo demonizar o governo, a ala palaciana do PT deve estar vivenciando o paradoxo de ter que engolir em seco em sua vontade de soltar a voz. A hora seria propícia para uma volta às origens e um salto ao futuro, rasgada a máscara burlesca bordada por uma veterana classe de políticos “amigos” que nunca se ausentou do poder. O momento e as condições democráticas estão a requerer um pacto com a sociedade, essa sim, a parceira e companheira incondicional de um governo batizado pelas urnas.

A hora pediria, de forma ousada, um encontro cara a cara, sem maquiagem e firulas marqueteiras; um dizer dos desafios e das dificuldades de comandar uma máquina administrativa eivada de vícios, onde a competência do funcionalismo de carreira muitas vezes sucumbe sob o poder dos caciques externos sem compromissos com a coisa pública; e de expor, com transparência e alma lavada, as pressões intoleráveis exercidas pelos infames profissionais da política que rondam os gabinetes com suas exigências e falsos afagos.

Porém, talvez essa etapa da história já tenha sido atropelada pelo correr dos acontecimentos, e prováveis revelações, ensinam os tempos recentes, somente trazem desassossego a quem as pronuncia. Então, o que sobra para um governo estimulado pelo “grito” das ruas é o exercício da destreza e a determinação de seus comandantes no içar das velas e no navegar pelos mares revoltos dessa imensidão de país, conscientes e preparados para as prováveis tempestades que se avizinham.

Em tempo: em um piscar de olhos, o Brasil se tornou um país de analistas políticos. Todos palpitam sobre as manifestações populares e os rumos da democracia brasileira. Mas quem faz a festa, abarrotando os jornais e as telinhas de TV de opiniões acadêmicas, são mesmo os grandes conglomerados de mídia que, com outras prioridades pipocando na mesa do governo, comemoram o provável adiamento do projeto de regulamentação do setor. Um bicho papão que vem aterrorizando, já há algum tempo, o assim denominado quarto poder da República.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Cativeiro de soldado israelense inspira séries de TV

Por Sheila Sacks


Histórias reais muitas vezes tornam-se incríveis enredos para fantásticos roteiros cinematográficos ou mesmo séries de televisão. O escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011) na introdução do seu livro “O imaginário Coletivo” destaca que por trás de muitas notícias esconde-se uma história pedindo para ser contada. “É a história virtual que complementa ou amplia a história real”, assinala Scliar que por mais de 15 anos escreveu textos ficcionais para o caderno “Cotidiano” da Folha de São Paulo tendo como base as reportagens do jornal.

Fonte de inspiração para a série de TV israelense Hatufim (“Sequestrado”, em hebraico), a história de Gilad Shalit, capturado pelo grupo radical Hamas que o manteve prisioneiro por mais de cinco anos, traz ingredientes psicológicos interessantes capazes de provocar desdobramentos e mudanças de ordem pessoal, religiosa e política nos principais envolvidos no episódio.

Shalit era um soldado israelense de 19 anos quando em 25 de junho de 2006 militantes palestinos ligados ao Hamas atacaram o posto militar onde servia na fronteira com a Faixa de Gaza e o levaram. Durante o tempo em que esteve desaparecido a incerteza sobre o seu destino – se estava morto, ferido ou continuava vivo – não impediu que sucessivas campanhas por seu regresso ganhassem espaço e força em Israel e em outras partes do mundo.

Em 2010, os pais de Shalit acompanhados por ativistas empreenderam uma marcha de 12 dias, da Galileia a Jerusalém, onde permaneceram acampados por mais de um ano em frente à residência do primeiro-ministro Benjamim Netanyahu para pressionar o governo a assumir um acordo que trouxesse o soldado de volta.

A libertação de Shalit ocorreu em 18 de outubro de 2011, no Egito, após um acordo entre o governo de Israel e o Hamas. Foram soltos 1.027 prisioneiros palestinos, 280 deles condenados à prisão perpétua pela morte de civis israelenses. Falando à TV egípcia, pouco antes de retornar a Israel, Shalit mostrou-se confiante de que a libertação de centenas de prisioneiros em troca de sua vida pudesse contribuir para a paz entre israelenses e palestinos.

Seriado antecipa desfecho que comoveu a nação

Levando a assinatura de Gideon Raff – um roteirista e diretor de filmes de 40 anos, nascido em Jerusalém e que estudou cinema em Los Angeles -, o seriado Hatufim ou Prisioners of War (“Prisioneiros de Guerra”, título em inglês) teve seus primeiros 10 episódios exibidos pela TV israelense em 2010, entre março e maio. No mesmo ano foi escolhida como a melhor série dramática pela Israeli Academy of Film and Television, instituição que reúne 750 representantes da indústria de TV e cinema do país.

Curiosamente, apesar do sucesso e das críticas positivas, a segunda temporada da série, com 14 capítulos, só foi produzida e apresentada dois anos depois, nos últimos meses de 2012, a reboque do seriado norte-americano Homeland, baseado na criação do próprio Raff, e que arrebatou os mais importantes prêmios da TV americana: os troféus Emmy (2012) e Globo de Ouro (2013), ambos como a melhor série dramática.

Embora explorando o tema do retorno à pátria de militares capturados pelo inimigo, as séries Hatufim e Homeland têm histórias e personagens diferentes. Na primeira, são dois os soldados que regressam a Israel após 17 anos de cativeiro no Líbano em mãos de extremistas islâmicos. A série se inicia com a troca dos soldados por terroristas presos em Israel acusados de um atentado a bomba que matou dezenas de pessoas. Os israelenses voltam com os restos mortais de um terceiro militar morto em uma sessão de tortura e a partir daí a história gira em torno das dificuldades dos personagens em superarem o trauma do cativeiro e se adaptarem a um novo cotidiano. Também avaliações psicológicas revelam discrepâncias em seus relatos e uma investigação é iniciada para descobrir o que eles possam estar escondendo.

No roteiro desenvolvido por Howard Gordon e Alex Gansa para a plateia norte-americana, o protagonista é um oficial dos EUA que se acredita morto no Iraque, após ser capturado pela al Qaeda, e que retorna ao país oito anos depois de seu sumiço. Resgatado do cativeiro é saudado como herói pela população, mas surgem suspeitas em órgãos de segurança de que ele faça parte de uma célula terrorista que planeja um ataque em solo americano.

Em janeiro de 2013, ao receber o prêmio de melhor atriz por seu trabalho em Homeland, a novaiorquina Claire Danes, que protagoniza uma agente da CIA, declarou que a série é uma das favoritas do presidente Barack Obama. “Isso deixa claro a relevância do trabalho. A história fala da ansiedade e do desassossego que vivemos como sociedade, em uma nova era onde não está claro quem é o inimigo”, disse. Dentro dessa percepção, o atentado ocorrido na maratona de Boston, em 15 de abril, que resultou na morte de 3 pessoas e teve 264 feridos, muitos deles com mutilações e queimaduras, é um exemplo trágico dessa nova realidade. Os autores do crime, os irmãos Tsarnaev nascidos na Chechênia, viviam nos EUA e eram cidadãos americanos.

Esse tema, aliás, do inimigo que está entre nós, em nossa casa, tem mexido com a cabeça de roteiristas mundo afora. Em 2013, a franquia de Hatufim ganhou novos espaços e o seriado vai ser produzido na Rússia e no México, com histórias adaptadas as suas realidades.

No cativeiro, Shalit ouviu rádio e assistiu TV

Mas, voltando a Shalit, seis meses depois de sua volta ele se desligou oficialmente do exército israelense e logo em seguida tornou-se colunista esportivo do jornal Yediot Aharanot, o mais lido do país. Em seu primeiro artigo, Shalit contou que o amor pelos esportes o ajudou a suportar os anos de cativeiro e foi capaz de prover alguma conexão pessoal com seus captores. Fã de futebol e basquete, ele acompanhava os jogos dos times israelenses através da rádio e os campeonatos das ligas europeias nos canais de TV árabes. “Engajar-me no esporte me deu força para não desistir”, escreveu. Era uma espécie de pausa temporária da realidade ao meu redor.” E acrescenta: “Nas conversas acerca dos jogos, o denominador comum era o esporte. Sobre política eu nunca concordei em falar com eles.”

Em outubro de 2012, para marcar um ano da libertação do ex-refém, a TV israelense (Canal 10) exibiu um documentário a partir de alguns relatos pinçados na imprensa. A correspondente para o Oriente Médio da BBC, Yolande Knell, comentando o conteúdo do documentário, observou: “Em um trecho, Shalit revela que para lidar com a ansiedade e o tédio do cativeiro ele desenhava mapas de sua cidade natal Mitzpe Hilla, para lembrar, imaginar os lugares. Disse que tentava ser otimista e se focar nas pequenas e boas coisas que tinha, e que seus sequestradores o alimentavam bem, jogavam xadrez e dominó e quase nunca o agrediam. Podia assistir a notícias na televisão em árabe, e depois acabou ganhando um rádio onde podia ouvir estações israelenses. E que, às vezes, assistia junto aos sequestradores os programas de esportes e filmes na TV.”

Operação militar matou planejador do sequestro

Um mês depois da apresentação do documentário, em 14 de novembro, o comandante das Brigadas Izz el-Deen al-Qassam (braço armado do Hamas), Ahmed al-Jabari, 52 anos, morreu durante uma operação militar israelense na cidade de Gaza. O carro que dirigia foi atingido por um projétil seletivo e se incendiou. Jabari foi o carcereiro de Shalit e gerenciou toda a operação de custódia do prisioneiro, transportando-o por cinco anos para diferentes esconderijos até a sua libertação. Inclusive esteve presente na entrega de Shalit para os intermediários egípcios em Rafah, na fronteira com o Sinai, em uma das poucas vezes em que apareceu em público.

Nascido em Gaza, Jabari foi do grupo palestino Fatah e depois se ligou ao Hamas, financiando e dirigindo atentados terroristas contra Israel. Ele planejou o ataque suicida a um ônibus em Kfar Darom, na faixa de Gaza, que matou 7 soldados israelenses e um civil, em 1995. Por ocasião da Segunda Intifada, o período de 2000 a 2006 marcado por sucessivos confrontos entre militantes palestinos e forças israelenses na Cisjordânia e Faixa de Gaza, Jabari direcionou vários ataques a bomba contra Israel, matando centenas de civis. Foi também o responsável pela escalada de ataques com foguetes de forte poder destrutivo às cidades israelenses densamente povoadas como Ashkelon, Ashdod e Beersheva, no sul do país. Somente em 2012, mais de 800 foguetes de médio e longo alcances foram disparados pelo Hamas contra o território israelense e a operação militar “Pilar Defensivo”, na qual Jabari foi morto, teve o propósito de eliminar os locais de treinamento e de lançamentos desses foguetes.

Sem sentimento de vingança

Com a morte de Jabari, o semanário alemão Der Spigel – um dos mais importantes da Europa com circulação semanal de 900 mil exemplares – enviou seu jornalista político Dieter Bednarz para uma entrevista com Shalit em Israel. O encontro se deu na Galileia, na casa de dois pavimentos onde o ex-prisioneiro reside com os pais. O repórter alemão conta que Shalit disse não ter percebido a presença de Jabari ao seu lado no dia da libertação. “Eu só olhava para frente, não para o lado ou para trás”, justificou. Contudo, fotos publicadas na mídia mundial mostram Jabari e Shalit juntos, lado a lado, de uma forma que fica difícil supor que ambos jamais se comunicaram.

Sobre os anos de cativeiro, segundo o repórter, Shalit se mostrou hesitante, parecendo lutar com cada frase que pronunciava. Ele revelou que não sentiu satisfação quando soube da morte de Jabari porque nem mesmo conhecia a pessoa. Mais adiante, o repórter assinala uma frase dita por Shalit que o impressionou: “The killing has to stop” (“a matança tem que parar”, em tradução livre).

Na reportagem, Bednarz destaca que após essa mensagem a conversa foi interrompida pelo pai de Shalit, com a alegação de que o filho precisava ser deixado em paz, pois não é uma figura pública (“the boy needs to be left alone. Gilad isn”t a public figure”). Para o jornalista, Shalit não demonstrou sentimentos de vingança, apesar dos anos de cativeiro e da provação pela qual passou. No dia da entrevista, destacou Bednarz, sua ansiedade era para assistir na TV uma partida de futebol entre os times ingleses do Arsenal e Tottenham.

Meses antes, Shalit tinha estado no set de Homeland, em Jaffa, cuja produção filmou algumas cenas em Israel, sendo fotografado ao lado de Claire Danes.

Biografia inédita a caminho

Mas, ainda que Shalit procure se manter afastado das questões políticas e tente viver uma vida normal, situações ocorrem em que ele se vê envolvido de alguma forma com seu passado. Foi o que ocorreu na Catalunha, em 2012, quando resolveu assistir a um jogo entre os times do Barcelona e do Real Madri e houve manifestações contra a sua presença no estádio. Segundo Shalit, ele foi acompanhado por uma equipe de segurança em função das ameaças de protesto por grupos pró-palestinos.

O incidente causou constrangimento ao clube e a direção do Barcelona emitiu uma nota afirmando que não convidou Shalit para o jogo, apenas aceitou seu pedido para ver uma partida durante a visita que faria a cidade. O clube ainda informou que esse procedimento foi estendido a três representantes palestinos.

Enfim, vai ser difícil Shalit se desprender de um passado que mobilizou uma nação durante meia década e que envolveu decisões políticas delicadas e embaraçosas, como a libertação de mais de mil presos palestinos, muitos deles autores confessos de crimes de terrorismo que resultaram em mortes de civis.

Em outubro próximo, por ocasião do segundo aniversário de sua libertação, três jornalistas investigativos prometem lançar um livro sobre o ex-prisioneiro do Hamas, com base em documentos e material inédito. As pesquisas foram iniciadas no ano passado e vão incluir informações até então não publicadas por questões de segurança, gravações e depoimentos dos pais e do próprio Shalit. Um indício de que a história de Shalit ainda guarda muitos segredos que talvez não se revelem totalmente nesse primeiro livro. De qualquer maneira, o tema já se mostrou um prato cheio em se tratando de tensão psicológica, conflitos morais e situações-limite, componentes dramáticos que acompanham um militar em seu retorno à pátria após um punhado de anos convivendo com a realidade e a verdade do inimigo.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Terror em Boston: calaram o leitor?

Por Sheila Sacks

para o "Observatório da Imprensa"
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed744_calaram_o_leitor


‘À imprensa não basta parecer honesta, tem que ser honesta’

O atentado em Boston coberto por O Globo proporcionou aos estudiosos de mídia uma aula de edição jornalística poucas vezes tão explícita. A oportunidade dever ter sido comemorada por mestres em comunicação sempre focados no garimpo de exemplos expressivos que possam servir para o estudo e a análise conjunta com seus pupilos universitários das peculiaridades que sitiam a veiculação de notícias e opiniões.

No caso específico da notícia - a explosão de duas bombas na linha de chegada da Maratona de Boston, provocando 3 mortes e mais de cem feridos – e seus desdobramentos ( perseguição, morte de um dos suspeitos e captura do outro ), a mesma além de marcar as primeiras páginas do jornal por um tempo acima da média em se tratando de um fato internacional, mobilizou um time razoável de correspondentes, especialistas e comentaristas que repercutiram vários aspectos do drama que se abateu sobre a população de Boston e os americanos em geral.

Mas, apesar de todo aparato midiático visando oferecer ao leitor os mais variados ângulos e abordagens do atentado, a notícia estranhamente passou ao largo da página reservada à opinião dos leitores. Estes, comumente atentos, participativos e opinativos, desta vez se quedaram mudos no decorrer da ebulição dos acontecimentos que abalaram o Ocidente pelo teor de insegurança que injetam no cotidiano dos habitantes desse planeta (exceção a três comentários publicados no dia seguinte ao atentado).

Exibindo entre quinze a vinte cartas diariamente, a maioria via e-mail, sobre temas e reclamações distintas, com ênfase nas manchetes e assuntos políticos polêmicos, o espaço Dos Leitores é uma espécie de termômetro cívico da sociedade e do país e como tal atrai um público formado por assessorias de órgãos públicos, autoridades governamentais, políticos, ONGs e uma diversificada gama de profissionais ativos e aposentados. Os textos curtos, claros e objetivos, de propósitos argumentativos muitas vezes acrescentam ou complementam pontos de vista defendidos de forma mais abrangente pela linha editorial do jornal ou ainda revelam e ampliam detalhes que criam novas perspectivas para temas conhecidos.

O dia a dia das manchetes

Acompanhando, dia a dia, o espaço e a importância dados à notícia do atentado fica mais difícil aceitar a mudez dos leitores em que muitos costumeiramente repetem de alguma forma o ponto de vista do jornal, mas a outros ainda se permite uma opinião independente, compondo um diversificado painel de interesses e tendências.

Seguindo a sequência de manchetes que por onze dias pontuou as primeiras páginas de O Globo, torna-se evidente, relevante e constrangedor a exclusão da opinião dos leitores. Senão vejamos: 16 de abril (3ª feira): “A Volta do Terror – 15 Segundos de Horror“; 17/4 (4ª feira): “Estado de Alerta – EUA ainda sem explicação para o novo atentado”; 18/4 (5ª feira): “EUA já têm suspeito de ataque em Boston”; 19/4 (6ª feira): “Atentado em Boston – FBI exibe imagens de suspeitos e pede ajuda”; 20/4 (sábado): “Com Boston sitiada, FBI mata um suspeito e prende o irmão - Caçada a jovens muçulmanos de origem chechena mobiliza os EUA”; 21/4 (domingo): “Terror em Boston – EUA buscam motivo para o atentado”; 22/4 (2ª feira): “Terror em Boston – Para polícia, suspeitos planejavam mais ataques”; 23/4 (3ª feira): “Terror nos EUA – Suspeito pode pegar pena de morte”; 24/4 (4ª feira): “Atentado em Boston - Guerras (no Afeganistão e no Iraque) teriam motivado o ataque”; 25/4 (5ª feira): “Atentado em Boston – Suspeitos tiveram subsídios nos EUA”; 26/4 (6ª feira): “Terror em Boston: Polícia atirou em suspeito desarmado”.

À parte os dois editoriais - “Terror parece ter vindo para ficar” (17/4) e “Enfrentando a banalidade do mal“ (23/4) – , o primeiro alertando o Brasil que vai sediar grandes eventos e o segundo instando os EUA a não recuarem na ampliação da lei de imigração, a seção ”Opinião” trouxe a público a preocupação manifesta do jornalista e analista político Rasheed Abou-alsamh (“Torcendo para que não seja muçulmano”, em 19/4). O time fixo de colunistas também não se furtou em produzir textos sobre o terrível evento: Veríssimo (“Imagens” e “Verniz”, em 18 e 25/4); Luiz Garcia (“Maluco solitário?”, 19/4); Zuenir Ventura (“Da favela para Boston”, 20/4); João Ubaldo Ribeiro (“Medo e Controle”) e Dorrit Harazim (“O medo do outro”), em 21/4.

Nos EUA, brasileiros opinam

O atentado ocorreu em 15 de abril, feriado anual em Boston, quando a cidade comemora o “Dia dos Patriotas” e promove a maratona que atrai atletas de todo o mundo, inclusive do Brasil. Essa particularidade também foi destacada por O Globo na primeira página, em 16/4: “Brasileiros perto da tragédia – Cento e trinta e um brasileiros estavam entre os 25 mil participantes da Maratona de Boston...”. Note-se que a presença de brasileiros na condição de turistas ou de moradores da cidade foi uma tônica sempre presente e bastante explorada pelas reportagens e entrevistas levadas a efeito pelos correspondentes do jornal e nos noticiários televisivos da rede. A decisão de privilegiar os brasileiros nos EUA nas incontáveis entrevistas sobre o atentado, porém, não correspondeu a uma ação similar no Brasil em relação aos seus leitores.

Custa crer que dentre as mais de 250 cartas recebidas em média diariamente pelo jornal nenhuma abordasse o atentado em Boston. Se existiu algum tipo de cerceamento com base em um zelo prepotente de chamar a si, imprensa, a função de censor, três motivos logo saltam à vista: a proximidade de megaeventos como a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude, em junho e julho; a origem e a fé dos suspeitos; e a reforma da lei da imigração nos EUA. Evitar comentários por parte dos leitores à qualidade de nosso sistema de segurança (no Rio já existe um bordão: Imagine na Copa?), às possíveis ligações de ações terroristas ao radicalismo islâmico ou aos milhares de imigrantes de hábitos e valores distintos aos nossos, favorecendo a uma suposta xenofobia, pode ser uma motivação que se sustente à medida que se acredite que o espaço do leitor tem assumida importância e repercussão. O silêncio forçado estaria, dessa forma, a serviço de uma falsa alienação que, contudo, desmerece e agride a inteligência e a percepção política do público leitor.

Afinal, afastar o leitor de opinar sobre um assunto que afeta diretamente a sociedade em sua integridade física e que faz parte da pauta da mídia mundial e da agenda de preocupações dos governos não condiz com a saudável prática democrática da liberdade de expressão. Inspira e incentiva a produção de conjeturas e suposições muitas vezes mirabolantes e aquém da verdade. Por isso seria de bom tom O Globo admitir publicamente o marco regulatório do leitor que já vem sido exercido internamente pelo jornal, e num rasgo de coragem e honestidade trazer à luz os temas e os personagens indisponíveis aos comentários e argumentação dos leitores. A esses, diferente da mulher de César que precisa parecer honesta, lhe bastam unicamente o jornal se manter honesto e claro em suas proposições. A despeito da crescente multidão de cidadãos que continuadamente manifestam sua desconfiança e descrença na independência e honestidade dos grandes impérios da mídia no que diz respeito ao cumprimento de seu compromisso ético com o leitor, ainda o elo essencial de sustentação moral dos meios de comunicação.

domingo, 31 de março de 2013

Manhã de verão

Por Sheila Sacks

(Ser poeta é despir as palavras das imagens e sons cotidianos  e vesti-las de sentidos e sensações  extemporâneos)


Cá estou eu olhando o sol e não sendo poeta

vejo o sol.

Cá estou eu frente ao mar e não sendo poeta

digo mar.

Cá estou eu pisando na areia e não sendo poeta

tropeço.

Os banhistas se assustam e murmuram:

insolação.


Abro os olhos.

O céu é uma coroa dourada de franjas escarlates.

Delírio? Molham a minha boca.

“Pressão baixa”, arriscam.

Mãos suaves e cuidadosas me fazem sentar.

De quem são?

Uma imagem borrada se aproxima e sorri.



De repente me dou conta. Cadê meus óculos, camarada?

Afundo os dedos na areia, apalpo, reviro, remexo,

em vão. Deixa pra lá, me aconselham.



Desconfiada, impotente, sentindo a alma ferida,

choro. Inutilmente.

Não sou poeta. Sou míope, balbucio.

Um dos banhistas levanta o polegar em sinal de apoio.

- Também nós, cara pálida, não somos poetas.

Falei poeta?

-Ei, vocês! Tenham dó. Me devolvam os óculos!

 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ameaça nuclear sem heróis

Por Sheila Sacks
Especial para o Observatório da Imprensa

“Um dos fatos mais trágicos de nosso século é que esse ‘não’ às armas nucleares tem sido falado tão raramente, tão suavemente, e por tão poucos.” (Henri J.M. Nouwen, teólogo e escritor)

Nos primeiros dias de 2008, duas semanas após o encontro sobre mudanças climáticas realizado em Bali, na Indonésia - que reuniu mais de 190 nações sob a batuta da Organização das Nações Unidas (ONU) -, o jornal britânico “The Guardian” nominou 50 pessoas que no seu entender seriam capazes de frear a destruição do planeta. Cada uma delas recebeu o título meritório de “green heroes”, os heróis verdes da Terra.

Al Gore (vice-presidente no governo de Bill Clinton), Ângela Merkel (chanceler alemã), o ator norte-americano Leonardo DiCaprio e a brasileira Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente, foram alguns dos guerreiros agraciados pelo empenho no combate ao aquecimento global e as conseqüências catastróficas que ameaçam o nosso habitat: degelo das calotas polares, ciclones, furacões, enchentes, deslizamentos, maremotos, secas extremas etc.

Porém, em termos de aniquilamento da raça humana o fato concreto, urgente e inconteste continua sendo a ameaça nuclear que, fatidicamente, não prospera sozinha nessa segunda década do século 21. A proliferação das armas químicas e biológicas é hoje uma realidade igualmente científica e apavorante e, em razão desse ambiente inseguro para a humanidade o ponteiro do Relógio do Juízo Final (Doomsday Clock), instituído como um alerta simbólico pelo BAS (Bulletin of Atomic Scientists), foi adiantado em 2012 em mais um minuto.

Mídia e sociedade ausentes

Estamos, pois, a cinco minutos da meia-noite, horário que marca a destruição nuclear ou o fim da vida como a conhecemos. Criado em 1949 por físicos do “Projeto Manhattan” que desenvolveram a bomba atômica para os EUA (muitos deles ganhadores do prêmio Nobel), o relógio do fim do mundo vem emitindo sinais de alerta desde 1953, ano em que os soviéticos realizaram a sua primeira experiência com a bomba de hidrogênio, meses depois do teste nuclear norte-americano nas Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico.

Atualmente, devido ao contínuo desenvolvimento das armas nucleares e as públicas dificuldades de concluir acordos no sentido de cessar a sua produção, o Conselho de Segurança do BAS advertiu que a humanidade está em situação de risco. Segundo seus cientistas existem hoje 19.500 armas nucleares ativas, o suficiente para destruir a Terra várias vezes.

Mas, apesar dos avisos do BAS e das previsões sombrias suscitadas pela possibilidade de que ataques nucleares possam acontecer, a mídia prossegue estranhamente distraída quanto à prioridade, o destaque, o espaço e a assiduidade do tema na organização de suas pautas. O resultado desse distanciamento é a percebível ausência de preocupação por parte da sociedade brasileira e de seus cidadãos, individualmente, com o perigo latente e sem escapatória representado pelo apocalipse nuclear, em contraste com a atenção e a sistemática militância que os mesmos dispensam à problemática ecológica e climática.

Faz-se oportuno no atual estágio de evolução dos programas nucleares que a mídia ponha seus craques em campo e mostre ao distinto leitor quem de fato está engajado na batalha contra a proliferação de armas e artefatos nucleares, se é que existam heróis nesse intrincado jogo de poder. O propalado princípio de utilização da energia nuclear para fins pacíficos (geração de eletricidade) e a complexidade científica do tema têm dificultado uma abordagem mais constante e incisiva por parte dos meios de comunicação. Mas essas variáveis não devem servir de barreiras para enfrentar e atingir o cerne da questão que é o enriquecimento do urânio ou plutônio para construção de bombas nucleares.

Observa-se que uma espécie de escudo tecnológico se impôs à natural sensibilidade e agudeza jornalísticas presentes nas grandes questões internacionais e que neste caso específico têm sucumbido às polêmicas e à aridez que envolve o tema. Exceções aos acidentes de forte apelo popular que ganharam manchetes como os ocorridos nas usinas nucleares de Chernobyl, em 1986, na Ucrânia, onde um reator explodiu (especialistas estimam que 8 mil pessoas morreram em consequência do fato e que 17 mil podem desenvolver câncer nos próximos 50 anos), e Fukushima, no Japão, atingida por um tsunami em 11 de março de 2011, contaminando o ar e o solo das cidades que existiam nas proximidades.

Gastos com arsenal nuclear

Na dança dos números, calcula-se que atualmente os EUA e Rússia possuem mais de 26 mil armas nucleares, apesar de em 2010 o Pentágono ter anunciado que havia reduzido em 84% o seu arsenal atômico desde os tempos da Guerra Fria – quando chegou a ter 31.255 na década de 1960 - em função de acordos de desarmamento e de negociações do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Com 5.113 ogivas prontas para serem usadas, os EUA admitem que ainda há 4.600 ogivas que foram “aposentadas” mas ainda não foram desmontadas (“EUA declaram arsenal nuclear de 5.113 ogivas” – Agência Reuters, em 03.05.2010)

Dono do maior arsenal militar do planeta, os EUA prometem reduzir em 5 bilhões de dólares o seu orçamento militar de 2013, que totaliza cerca de 525 bilhões de dólares. Em fevereiro, o jornal New York Times revelou que o país possui 1,7 mil armas nucleares e que o presidente Barack Obama estuda diminuir esse número. Quanto à Rússia, a estimativa é que Moscou tenha 4.237 ogivas estratégicas para ataques a longa distância. Mas, o número total do arsenal russo estaria entre 15 mil a 17 mil ogivas.

Ainda que os EUA e a Rússia façam promessas públicas de redução do seu estoque de armas nucleares (cuja real quantidade ninguém sabe precisar), o Instituto de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri) divulgou, em 2012, que as duas potências prosseguiam no trabalho de modernização de seu sistema de armas nucleares e que o gasto total no setor militar em 2011 havia atingido 1,74 trilhão de dólares. Oito países (EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão e Israel) concentravam 4.400 armas nucleares operacionais, com 2 mil aptas para serem usadas em combate a qualquer momento (“Estudo aponta modernização do arsenal nuclear no mundo” – Deutsche Welle, em 6 de junho de 2012).

Em paralelo, a instituição sueca também detectou que o comércio de armas convencionais não estacionou nem diminuiu. Entre 2007 e 2011 houve um aumento de 24% na comercialização dessas peças, principalmente por conta da militarização de países asiáticos como a Índia (a maior importadora de armas), Coreia do Sul, Paquistão, China e Singapura. Os maiores vendedores de armas continuavam sendo os EUA e a Rússia, mobilizando mais de 50% do mercado: o primeiro com 30% das vendas a 75 países e os russos com uma fatia de 23%.

Investimentos militares aumentam

Por conseguinte, alertas de cientistas e de instituições científicas pouco impressionam as potências nucleares e não inibem as nações de reservarem mais recursos para as áreas militares. O presidente da comissão de Defesa do Parlamento russo, Vladimir Komoedov, anunciou que entre 2013 e 2015 serão investidos 101,15 bilhões de rublos (cerca de 3,2 bilhões de dólares) para reforçar o arsenal nuclear do país, o triplo do que foi gasto em 2012. E para 2015 a previsão dos gastos militares chegará aos 3 trilhões de rublos (cerca de 96 bilhões de dólares), grande parte destinada à Força de Mísseis Estratégicos (FME). Exemplo dessa diretriz é a entrada em atividade, no início deste ano, do mais moderno submarino nuclear russo já construído, com capacidade para transportar 16 mísseis balísticos intercontinentais de alcance de mais de 8 mil quilômetros.

Autoridades da Rússia explicam que a construção de mísseis nucleares é necessária “para manter o equilíbrio estratégico no confronto geopolítico com os Estados Unidos.” Segundo o porta-voz do ministério da Defesa, coronel Vadim Koval, “o desenvolvimento do programa americano antimíssil global e a implantação do conceito de Ataque Global Imediato estimulam as Forças Armadas russas a buscar uma resposta assimétrica.” (“Rússia irá reforçar o seu escudo nuclear” – Gazeta Russa, em 14 de novembro de 2012).

Apoio nuclear ao Irã

Simultaneamente à evolução e expansão de tecnologia nuclear para uso próprio, a Rússia vem mantendo convênios de cooperação nesta área com o Irã desde 1995. Em 2010, a primeira usina nuclear iraniana iniciou as suas operações com combustível fornecido pela Rússia. Localizada no sul do país, a usina de Bushehr foi concluída pelos russos e nesse início de 2013 ligada à rede de energia nacional, operando em plena capacidade.

Apesar de o governo do Irã negar que faça uso da energia nuclear para fabricação de bombas atômicas, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) anunciou no final de 2012 que a capacidade iraniana de produzir urânio a 20% - usado para fins militares - iria aumentar de 15 kg a 25 kg mensais, após a instalação de mais mil centrífugas na usina subterrânea de Fordow. Meses antes, relatório divulgado pelo Instituto para a Ciência e a Segurança Internacional (ISIS), de Washington, afirmava que o Irã estava mais perto de obter a quantidade de urânio indispensável para montar uma arma nuclear. De acordo com o estudo, a usina de enriquecimento de urânio de Natanz, com 10 mil centrífugas, levaria de dois a quatro meses para acumular 25 Kg de urânio enriquecido a 90% necessários para fabricar uma bomba nuclear (“Irã pode ter material para bomba atômica em dois meses, diz instituto” – Voz da Rússia online, em 09.10.2012)

Uma hipótese não descartada por Moscou pelo que se apreende das palavras do ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergéi Lavror, durante encontro da CICA (Conferência sobre Interação e as Medidas de Confiança na Ásia), em setembro de 2012. A CICA tem 24 países-membros - entre eles Rússia, China, Índia, Paquistão, Irã, Israel, Egito, territórios palestinos, Turquia, Iraque, e Jordânia - e não-membros como Coreia do Norte, Líbano e Síria, e foi instituída em 1999 como um fórum entre governos de países da Ásia para o fomento da paz, segurança e estabilidade na região.

Na ocasião, o diplomata destacou o programa nuclear iraniano como uma das questões mais urgentes a serem debatidas e negociadas pela comunidade internacional: “O Exército e a Marinha do Irã já possuem mísseis táticos capazes de atingir instalações navais e terrestres dos EUA na região”, disse. Unidades e equipamentos de infraestrutura, portos, usinas de dessalinização de água também podem ser atacados pelo Irã, acrescentou. O chefe da diplomacia russa citou a possível ajuda que o Irã pode receber de aliados como o Hezbollah libanês, a milícia xiita Exército de Mahdi (Iraque) e de organizações fundamentalistas islâmicas do Afeganistão (Talibãs), Iêmen e Barein.

Armas nucleares nas mãos de terroristas

Em fevereiro de 2012, meses antes da abertura das Olimpíadas de Londres, o jornal britânico “The Daily Telegraph” publicou uma reportagem acusando o Irã de estar ampliando sua parceria com a rede terrorista al-Qaeda, oferecendo financiamento e treinamento a seus membros. A informação teria partido de especialistas em segurança e risco político que temiam algum tipo de ataque durante o evento. Um ano antes, os EUA já tinham denunciado formalmente o Irã de se aliar à al-Qaeda, permitindo que a rede utilizasse o solo iraniano para levar armas, dinheiro e combatentes às suas bases no Afeganistão e no Paquistão. A notícia publicada pelo The Wall Street Journal informava que o Departamento do Tesouro americano havia descoberto uma operação de angariação de fundos para as atividades da al-Qaeda, envolvendo centenas de milhares de dólares. Os recursos provenientes de doações de países do Golfo Pérsico, principalmente do Kuwait e Catar, eram operados por agentes da al-Qaeda baseados no Irã.

Mas, a suspeita de que a al-Qaeda possa ter armas nucleares não é recente. Em 1999, o cientista político Yossef Bodansky, ex-diretor do Centro contra terrorismo do congresso dos EUA e autor de vários livros sobre o tema, afirmou que sim. Seu colega Paul L. Williams, ex-consultor do FBI sobre crime organizado e terrorismo, autor do livro “Al Qaeda Connection” também acha possível. Ambos os especialistas sugerem que a rede terrorista adquiriu armas nucleares de fabricação soviética dos chechenos. “Em 1995”, conta Williams, “os chechenos plantaram uma bomba radiológica no Izmailovsky Park, perto de Moscou. A bomba foi feita de césio-137 e se tivesse sido detonada, poderia ter matado milhares de russos. Este incidente representa o primeiro caso de uma bomba nuclear a ser implantada como uma arma de terror”, afirma. William ainda relata que depois da guerra as armas foram vendidas a al-Qaeda e agentes britânicos infiltrados em campos de treinamento da organização no Afeganistão, em 2000, viram armas nucleares sendo fabricadas.

Armas nucleares no varejo

O que vai ao encontro das afirmações do então braço direito de Osama Bin Laden e atual chefe da organização, Ayman al-Zawahiri, semanas depois do atentado de 11/9. Em entrevista ao jornalista paquistanês Hamid Mir, ele teria dito: ”Senhor Mir, se você tem 30 milhões de dólares, vá o senhor ao mercado negro da Ásia Central, ponha-se em contato com um cientista soviético descontente e lhe asseguro que ele lhe dará dezenas de valises de bombas inteligentes.” A revelação foi feita pelo jornalista em um programa da TV australiana, em 2004, três anos após o ataque da al-Qaeda às torres gêmeas em Nova York. Segundo Mir, que foi o único repórter a entrevistar os terroristas em 2001, Zawahiri ainda explicou: “Eles entraram em contato conosco. Nós enviamos nosso pessoal para Moscou, Tashkent (capital do Uzbequistão) e outros países asiáticos. Nosso pessoal negociou e comprou algumas bombas pequenas.”

Em 2006, Mir voltou ao tema e falou para o site de notícias WND (WorldNetDaily) sobre o seu encontro, dias antes, com um engenheiro egípcio que tinha perdido um olho depois de participar de um teste nuclear da al-Qaeda, na província de Kunar, no Paquistão. O jornalista contou que ficou perturbado e deprimido com o encontro porque o engenheiro teria revelado que o pesadelo nuclear estava chegando à América. “O American Hiroshima, nome que os líderes da al-Qaeda escolheram para o plano de ataque aos EUA, irá acontecer tão logo que os norte-americanos lancem um ataque às instalações nucleares do Irã”, falou Mir. Trabalhando como âncora do canal de notícias Geo News, na capital paquistanesa, Hamid Mir escapou de um atentado terrorista em novembro do ano passado, quando uma bomba foi deixada em seu carro, embaixo do assento.

Por fim, apesar do aparente propósito público de Obama de reduzir o arsenal atômico mundial, ampliam-se as ameaças de guerra nuclear contra o Ocidente. Na semana passada (07.03.2013), em resposta às recentes sanções impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, o regime ditatorial da Coreia do Norte - que realizou um teste nuclear subterrâneo em 12 de fevereiro, o terceiro de sua agenda atômica - ameaçou os EUA com um “ataque nuclear preventivo”. O vice-ministro de Defesa daquele país, Kang Pyo-yong, anunciou que mísseis intercontinentais carregados de ogivas nucleares estariam prontos para atingir Washington, “a fortaleza do imperialismo americano e ninho do mal”.