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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Meus Gloriosos Heróis


por Sheila Sacks

Se a década de 1940 marcou a história do século 20 pela barbárie do Holocausto ( ou Shoá, 'aniquilação', em hebraico), por sua vez também iluminou o mundo com personagens especiais, genuínos heróis de todas as épocas. Dois deles, Mordechai Anilevitch e Howard Fast merecem ser lembrados  quando mais uma vez celebramos a fé, a coragem e a liberdade na Festa das Luzes - Chanucá.

Líder da revolta do Gueto de Varsóvia, o jovem polonês Anilevitch tinha apenas 24 anos quando foi dizimado pela máquina nazista, em 1943. Já a salvo na Romênia, retornou à Polônia para organizar a resistência e mostrar ao mundo uma face judaica milenar, ancorada nos feitos e atos de nossos patriarcas e profetas. Membro do movimento sionista socialista Hashomer Hatzair, sua história de vida tem inspirando, ao longo dos tempos, gerações de jovens judeus a trilharem o caminho do idealismo, do amor à liberdade, do respeito e defesa dos valores tradicionais de nosso povo.

Também o escritor Howard Fast (1914-2003) era um jovem de 34 anos quando escreveu a versão literária sobre a luta e a resistência tenaz do sacerdote Matatias e de seus cinco filhos, tendo à frente Judá, o macabeu, diante da ordem arbitrária de um poder central que impunha o culto, as leis e os costumes gregos na terra de Israel. Um épico sobre a saga dos irmãos guerrilheiros de Modiin, belíssimo enredo de audácia e persistência vivido há mais de 2 mil anos - algo em torno de 165 antes da era comum – por uma geração aquinhoada com as bênçãos da fé, da firmeza e da devoção.

Um hino à liberdade e à coragem


A obra "Meus Gloriosos Irmãos" foi publicada em 1948 e tem a mesma idade do estado de Israel.
É um hino à liberdade e à coragem, tendo marcado a adolescência de milhares de jovens judeus em todo o mundo.

Era uma época particularmente difícil para os judeus,  do pós-holocausto e da fundação de uma nação. O livro de Fast foi um talismã dos mais importantes para muitos jovens que, militando em movimentos sionistas, deixaram o aconchego de seus lares e ignorando os apelos de pais preocupados se engajaram na luta pela terra prometida.

A determinação, a perseverança e a crença inabalável dos hashmoneus em seus objetivos encontravam semelhança e afinidade no heroísmo dos jovens da Haganá, durante aqueles anos difíceis. O escritor trouxe o bandeira de Judá para bem perto destes jovens audazes e sonhadores que liam e reliam aquelas páginas estimulantes, com o olhar e o coração em Sion.

Apesar do seu passado de militante comunista (foi preso em 1950) Fast sempre exaltou as suas raízes judaicas. Autor de mais de 80 livros traduzidos em 82 idiomas (dos quais 20 se transformaram em filmes ou seriados de TV, como 'Spartacus', de 1960), ele considerava o movimento dos kibutzim a mais importante experiência socialista do século.

Em carta ao jornalista e escritor anglo-israelense Daniel Gravon, ele conta que quando era jovem sonhava em atravessar a pé a Galileia e ir até o sul de Israel. Isto nunca aconteceu, mas em 1944, durante a 2ª Guerra Mundial, o escritor teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, a cidade de Jerusalém e outras áreas de Israel. Ele estava a bordo de um avião militar, cujo destino era o Líbano. “Eu pedi ao piloto para que voasse em baixa altitude, e ele, de bom grado, atendeu ao meu pedido”, lembra Fast. “Nós passamos por Jerusalém e seguimos para o norte. Eu observava Israel , as áreas desertas e devastadas com alguns raros borrões verdes de um kibutz, ali e acolá. Trinta e cinco anos depois, quando retornei, a mudança era enorme.”

Mensagem permanece atual


Dois anos antes de falecer, Fast manifestou a sua tristeza por não ter condições físicas para mais uma vez visitar Israel. “Eu gostaria de retornar, mas receio que isso seja só mais um sonho. Afinal, faço 87 anos no próximo mês de novembro. Eu caminho devagar e me canso facilmente”.

Corria o ano de 2001 e Fast também revelou a sua preocupação com o destino de nossa civilização, depois do ataque de 11 de setembro, nos Estados Unidos. “Vivemos em um mundo que está ficando insano e percebo que as pessoas estão evitando viajar. Eu sinto que nunca mais verei Israel e isso, para mim, é um pensamento doloroso.”

É interessante notar que passadas tantas décadas desde a publicação de "Meus Gloriosos Irmãos", o livro continua a constar na bibliografia recomendada aos madrichim para ser utilizado nas atividades com crianças e jovens, durante o período de Chanucá. Apesar do contexto sócio-cultural ter sofrido mudanças radicais e a juventude atual em nada se assemelhar àquela dos anos 1940 e 1950 – quando inexistiam a globalização e a tecnologia digital -  o conteúdo da obra de Fast permanece irretocável em seu sentido mais profundo: o de transmitir valores como o heroísmo e a bravura que não se acovardam mesmo diante de inimigos poderosos.

Com o livro de Fast, a festa de Chanucá ganhou novo contorno e uma mensagem mais moderna e vibrante. O combate dos macabeus fundiu-se com a própria luta pelo nascimento e perpetuação do estado de Israel, que mesmo nos dias que correm ainda mantém-se em alerta  na defesa de sua cultura, de seu modo de ser, de sua religião e de sua liberdade.

Em tempo: a esses dois heróis de nossa história devo em grande parte o possível mérito do conto “Araguaia, meu amor”, premiado e incluído na coletânea "Escritos Revelados". De Anilevitch, o modelo de coragem solidária, e de Fast o exemplo de uma arte narrativa engajada e inspirada.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Araguaia, meu amor


por Sheila Sacks
do livro "Escritos Revelados"  ( conto vencedor do Concurso literário Moacyr Scliar 2009, do Centro Cultural Mordechai Anilevitch do Rio de Janeiro )

O email dizia pouco: “Cara Aniela. Foi bom revê-la. Me perdoe os dez anos de silêncio. Lino.” O homem de tez morena, cabelo grisalho e porte atlético fechou o notebook. A mensagem o remetia a um tempo que teimava em voltar nos momentos mais inoportunos. Em poucas horas estaria com a família no casamento da sobrinha, na aprazível costa espanhola. Tão diferente e tão longe daquelas matas molhadas e do chão de barro de Xambioá. Uma vila sertaneja, nos idos de 1974, que na semana do carnaval mudava de humor e de roupa, em animados bailes e blocos de rua.

E foi naqueles dias perdidos no tempo que o tenente Lino conheceu Aniela, menina de 17 anos, franzina, cabelo escorrido, rosto de anjo, gestos delicados e voz baixa. Ela chegara à localidade para passar o carnaval com os avós, o seu Zé e dona Maria, donos do armazém-bar que vendia fiado para o povo da região. Tenente Lino tinha 30 anos e estava noivo de uma professora no Rio de Janeiro. Mas ficou fascinado por Aniela logo que a viu. Os avós tentaram escondê-la, mas o tenente ia ao armazém várias vezes ao dia e se convidou para jantar na casa do seu Zé na terça-feira de carnaval.

Por sua vez Aniela também não conseguia esconder a atração que sentia pelo tenente. Conversavam no balcão do armazém e na varanda da casa sob os olhares preocupados de seu Zé e dona Maria. Finda a semana, Aniela partiu e o tenente deixou com ela um número de telefone. Esperou semanas, meses, pela ligação. Entretanto, isso jamais ocorreu.

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Em Jerusalém a noite quente e abafada levou Aniela a abrir a janela. Em pé olhava o céu escuro, sem estrelas, que ameaçava desabar em sua cabeça. Há pouco havia recebido a mensagem do general em meio a um repentino mal-estar. A ansiedade que vez ou outra comprimia seu peito como uma dura couraça mostrou as garras e a fez ofegar. Lembrou do evento, há quase dez anos, no limiar do século 21, e do homem empertigado a sua frente, meia-idade, rosto magro, com sulcos profundos na testa e na face. A intensidade daquele olhar não deixava dúvidas quanto a descoberta. Por um momento Aniela sentiu vergonha dos cabelos tingidos e da maquiagem esmerada. Em um gesto mecânico de cumprimento suas mãos se tocaram e antes que alguma conversa pudesse ser iniciada ela pediu licença e se afastou.
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No amplo salão da representação diplomática o grupo de militares se despedia de seus anfitriões após alguns dias de visita à feira de armamentos em Tel Aviv. O chefe da delegação, um austero coronel do exército, mostrava-se impaciente desde que a assessora de um dos adidos sul-americanos presentes à recepção passou por ele apressada. A mulher esplêndida, de pernas bem torneadas e vestido justo orientava os garçons, do outro lado da sala. Pouco antes, ao ser apresentada ao coronel, ela pareceu constrangida e não conversou. Apartou-se do grupo e desapareceu por um das portas do salão. Agora o militar percebia que ela vinha em sua direção e estranhamente a vista começou a embaçar. Embaralhando sentidos e sentimentos se deu conta que Aniela sorria, rosto de menina, pés soltos nas gastas sandálias japonesas, cabelos escorridos em um mal-amarrado rabo-de-cavalo. Respirou fundo e sentiu um fio de suor resvalar pela nuca. Bem perto, seus corpos quase se tocando, ela estendeu um papelzinho dobrado. Surpreso, magoado, desamparado, não se conteve e sussurrou: Aniela do Araguaia.

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Estudar no colégio Pedro II deu a Aniela Rubinstein uma outra visão do mundo. Filha de uma chapeleira da comunidade judaica do Rio, ela e o irmão viviam meio que apartados de sua origem. Dona Eva, mãe de Aniela, evitava falar do passado. Dos pais, avós, irmãos e tios reduzidos a cinzas nos crematórios da Polônia. Escondida no porão da casa da professora de ginásio, Eva sobreviveu por milagre e pode dar à filha o nome de quem a acolheu. Anos depois, no navio norueguês que a transportou para a América do Sul, ela conheceu um violinista do campo de Dachau. Desembarcaram no Rio, casaram e foram morar no Estácio. Mas a tuberculose a deixou viúva e com duas crianças para alimentar.

Assim, quando Wilsão pediu a Aniela para que o ajudasse naquela missão, a resposta veio imediata. Sua idolatria juvenil por Che e Fidel e o gosto pela aventura levaram Aniela a mentir. Contou para a mãe que iria trabalhar como monitora em uma colônia de férias em Sacra Família e partiu para a região do Araguaia.
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Sob o codinome Selma foi apresentada ao seu Zé e dona Maria, donos de uma vendinha naquele fim de mundo. Trazia um documento em linguagem cifrada para ser entregue ao grupo que lutava na selva. O trato era ficar alguns dias na casa do comerciante, aguardando a resposta, e depois sumir. Porém o tenente bonitão do destacamento da região não arredava o pé das redondezas do balcão. Puxava conversa com Selma a troco de nada. Ao seu Zé elogiou a beleza e a doçura de Selma, sendo informado que a jovem era a tal neta do Espírito Santo que chegou de surpresa para visitá-lo. Uma noite, o tenente apareceu na hora do jantar. A casa ficava nos fundos do armazém e quando a figura alta, fardada, assomou na varanda, todos engoliram em seco. Mas, sorridente, o tenente pediu licença para participar da janta, pegou o banquinho na cozinha e se sentou ao lado de Selma. Nestas alturas, os dois já estavam apaixonados.

Em cinco dias veio a resposta e Selma foi embora. Horas antes, o tenente deu um número de telefone e pediu para que Selma ligasse. Estaria no Rio em seis meses para uma licença. Selma prometeu telefonar. Na despedida chorou ao abraçar seu Zé e dona Maria. Semanas depois, em conversa com Wilsão em uma rua da Tijuca vem a saber da morte do casal de Xambioá, encontrado amordaçado e com tiros na cabeça. Preocupado, Wilsão diz que vai fugir do país e aconselha Aniela a fazer o mesmo.

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A ordem superior era poupar os adolescentes. O tenente Lino pediu a seu informante para que seguisse os passos de Aniela no Rio. Após trinta dias, chegou o primeiro relatório: “A pessoa em questão pertence a um grupo de judeus que usam camisas de brim azul e se reúnem em uma casa de Botafogo. Fiz amizade com o vigia e soube que são comunas, mas não atuam no Brasil. Todo ano um punhado deles vai embora para a Palestina, para viver e trabalhar em fazendas coletivas, iguais às da Cortina de Ferro. A pessoa investigada também vai deixar o país. Em anexo estão as fotocópias dos passaportes dos comunas que vão viajar no meio do ano.”
O tenente leu duas vezes o documento com selo de confidencial antes de guardá-lo no cofre. Sentia-se traído pelos sentimentos. No fundo da alma tinha a convicção de que Aniela o amava e que iria telefonar. Esperava vê-la no Rio e talvez, com o tempo, abrir o jogo. Contar que sabia de sua missão e de sua falsa identidade. Explicar a bobagem em que se meteu por pura infantilidade.

Os dois meses seguintes foram difíceis para o tenente. Infectado pela malária teve que ser hospitalizado em Belém. De volta ao destacamento, um novo relatório com carimbo de urgente já o esperava. Leu avidamente o seu conteúdo, da primeira à última palavra: “Pegamos o Wilsão... e finalizando, os comunas judeus estão de partida. Preciso de uma diretriz. Quais são as ordens, tenente?”.
No dia seguinte, após uma noite mal-dormida, o tenente despachava a resposta: “Trabalho encerrado.”

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O casamento da sobrinha na igrejinha medieval fez a esposa do general chorar. Padrinhos dos noivos, o enlace pegou a família de surpresa. Estudante de artes em Paris, a jovem namorava um colega espanhol. A gravidez inesperada acelerou a decisão de ambos de casar e conhecer a Malásia.

Depois da cerimônia, o general seguiu para a boate onde os recém-casados foram saudados por amigos alegres e poliglotas. O som vibrante da música empurrou os convidados para o centro da pista. O general, no canto do bar, imaginou Aniela lendo o email. Talvez em Tel Aviv, Jerusalém ou qualquer outra cidade daquela terra estrangeira. Sentiu uma vontade incontrolável de fumar. Na parafernália eletrônica de cores e ruídos ao seu redor, o general só ouvia mesmo o grito da angústia e da solidão que o mantinham cativo em suas teias satânicas. Pôs uma pastilha de hortelã na boca e saiu da boate. Lá dentro, a música do final da década de 1970 explodia estridente, repetindo-se em um coro de vozes cambaleantes: Please don’t go, don’t go, don’t go away, please don’t go, don’t go...

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Amanhecia em Jerusalém e Aniela entrou na sala de trabalho entulhada de folhetos, cartazes e recortes de jornais. Na parede, a folhinha estampava o ano 2009 em relevo. Estava sozinha e resolveu responder ao general: “Certos encontros, ainda que breves, sobrevivem ao tempo e a lógica. Tive a certeza disso na festa do consulado. Compreendi que a minha vida sempre esteve em suas mãos, general Lino Sotero. No Araguaia, quando não me executou. No Rio, quando permitiu a minha partida. Em Tel Aviv, quando percebi tudo isso. De alguma forma devo a você a minha história.”
Yafa Navon, da ONG World No Wars – Mundo sem Guerras.
P.S. Ainda guardo o número de telefone. Que bobagem!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Não é só Ahmadinejad que nega o Holocausto


por Sheila Sacks

Em 2006, a cidade de Munique viveu dias de glória com a realização do primeiro jogo da Copa do Mundo da Alemanha. Um estádio monumental – o Allianz Arena - que custou quase 400 milhões de dólares, serviu de cenário para a estréia do time da Casa. O antigo estádio olímpico, aquele do atentado aos atletas israelenses, em 1972, ficou apenas como palco de um movimentado concerto ao ar livre.
O escocês Kevin Macdonald, autor do premiado documentário “On Day in September” (Oscar da categoria, em 2000), que aborda o sequestro e a morte por um comando terrorista dos 11 atletas israelenses, justificou de maneira contundente o motivo que o levou a realizar o filme: “De alguma forma o Massacre de Munique foi uma transgressão inominável, a destruição de um ideal de paz e fraternidade”. Seu produtor, John Battsek, foi mais adiante: “A investigação para o documentário revelou uma história de mistério, conspiração, tragédia, inépcia e terror”.

Amigo de Hitler era presidente do Comitê Olímpico Internacional

Frente a tal enunciado, comecemos com a performace do Comitê Olímpico Internacional. A entidade era presidida, em 1972, pelo norte-americano Avery Brundage (1887-1975), o mesmo que nas Olimpíadas Nazistas de Berlim, em 1936, havia rejeitado a proposta dos Estados Unidos de boicotarem a competição, em razão dos atletas judeus alemães estarem proibidos de participar. Brundage tinha sido presidente do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, era um entusiasta do regime nazista e amigo de Hitler.
Nascido em Detroit, esse engenheiro e desportista que foi o único norte-americano a presidir o Comitê Olímpico Internacional, convenceu os seus patrícios a participarem da competição e, em troca, a sua empresa de engenharia recebeu um cheque em branco para construir a embaixada da Alemanha em Washington. Três décadas depois, em uma dessas coincidências lamentáveis, esse mesmo Brundage, na cerimônia realizada no dia seguinte à tragédia, preferiu se calar sobre o assassinato dos atletas israelenses. Em seu discurso apenas exaltou o espírito dos Jogos e anunciou que a festa não ia parar.

Abu Mazen, da Autoridade Palestina, recolheu recursos para o massacre

Há exatos dez anos, uma autobiografia intitulada “Palestine: From Jerusalém to Munich” revelou mais detalhes do ataque à Vila Olímpica. Publicada na França, em 1999, seu autor é Mohammed Oudeh (Abu Daoud), um dos mentores confessos do Massacre de Munique. No livro ele admite que o Setembro Negro era o nome-fantasia adotado pelos membros do Fatah, quando dos ataques terroristas. Daound também descreve como Yasser Arafat e o atual presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas (Abu Mazen) - o homem encarregado de levantar os recursos para a viabilização da operação – desejaram-lhe boa sorte e o beijaram no momento em que ele finalizou os preparativos para o ataque, que vitimou um total de 17 pessoas.

Tese de doutorado de Abu Mazen questiona o Holocausto

Sobre Mahmoud Abbas, vale reproduzir um item de seu histórico escolar: em 1982, dez anos depois do atentado terrorista, ele concluiu seus estudos na Universidade de Moscou, obtendo o título de PhD em História Oriental. A tese de seu doutorado questiona e nega os números do Holocausto e inclui uma fantástica aliança entre nazistas e líderes sionistas, durante a II Guerra Mundial, com o intuito de exterminar todos os judeus da Europa. A fantasia mal-intencionada travestida de “investigação histórica” intitula-se “O Outro Lado: As secretas relações entre o Nazismo e o Movimento Sionista”.

Ainda acerca do líder palestino, em 2003 a Organização israelense de Direitos Humanos Shurat Hadin Israel Law Center - que dá assistência jurídica aos judeus vítimas de atos terroristas e os representa nos fóruns internacionais - enviou cartas ao então presidente Bush e ao Chanceler Gerhard Schroeder, conclamando as autoridades norte-americanas e alemãs a abrirem uma investigação, em seus territórios, contra Mahmoud Abbas por suas comprovadas ligações com o Setembro Negro, principalmente na função de recolhedor de fundos para prover atos terroristas, como o de Munique. A ação teria consistência jurídica já que um dos atletas assassinados também tinha cidadania norte-americana e um policial alemão foi morto na operação.

Terroristas se abrigavam no centro islâmico de Munique

Em um artigo no Wall Street Jornal, em 2007, o jornalista Ian Jonhson, após consultar arquivos oficias nos Estados Unidos, Inglaterra, Suíça e Alemanha, afirmou que a cidade de Munique, há várias décadas, havia se tornado o centro irradiador de uma organização radical denominada Fraternidade Muçulmana (Muslim Brotherhood), banida do Egito por Gamal Abdel Nasser, nos anos 50. Quase todos os acusados de atos terroristas tinham, algum dia de suas vidas, passado por Munique e pelo seu centro islâmico. Essa intimidade entre a cidade alemã e os muçulmanos, segundo Jonhson, tinha se iniciado à época de Hitler, depois da invasão à União Soviética, quando o regime nazista deu uma guinada das mais espertas, transformando um milhão de soldados muçulmanos dos países da Cortina de Ferro, aprisionados em combate, em aliados e amigos do Reich. Inclusive uma dessas brigadas formada por muçulmanos foi destacada para a Polônia, onde teve participação ativa na aniquilação do Gueto de Varsóvia, em 1943.

Depois da guerra, esses combatentes nazistas se instalaram em Munique e acolheram a organização Fraternidade Muçulmana de braços abertos, sendo responsáveis pela fundação, em 1958, do Centro Islâmico de Munique. Um ano depois, participantes do Congresso Muçulmano Europeu selaram o pacto de tornar a capital da Baviera um pólo de convergência para todos os muçulmanos residentes na Europa. Um dos cléricos (imam) mais atuantes do Centro Islâmico de Munique foi Nurredin N. Nammangani, nascido no Uzbakistão e que serviu nas fileiras de Hitler, mais especificamente na organização paramilitar SS. Durante décadas (faleceu na Turquia em 2002) ele mesclou religião e anti-semitismo em suas prédicas às centenas de colegiais e universitários muçulmanos de várias partes da Europa. Outros membros da cúpula do Centro de Munique citados na reportagem também tiveram ligações documentadas com os nazistas, de acordo com a pesquisa do jornalista norte-americano.

Para o historiador alemão Stefan Meining, o Centro Islâmico de Munique está na base de uma ampla rede que se ramificou silenciosamente pelo resto do mundo, a partir do fim da II Grande Guerra, difundindo um radicalismo a favor da “guerra santa”, que simplesmente não existia antes da II Guerra Mundial. O encontro da teoria nazista com o fundamentalismo religioso da Fraternidade Muçulmana foi o responsável pelo nascimento da figura híbrida e aterradora do terrorismo moderno, uma das grandes tormentas que o mundo ocidental tem enfrentado. “Se você quer entender a estrutura política do Islã, você tem que se debruçar sobre o que aconteceu em Munique”, alerta o historiador.

Islamismo antissemita tem origens nazistas

Outro estudioso alemão, o cientista político Matthias Kuntzel, também relaciona a Fraternidade Muçulmana com as ideologias extremistas da jihad (guerra santa) dos grupos Fatah, Hamas, Hezbollah e al-Qaeda. Em seu trabalho intitulado “O Islamismo antissemita e as suas origens nazistas”, Kuntzel destaca que até 1930 a doutrina islâmica tradicional não pregava o ódio aos judeus e nem falava em guerra santa. Posteriormente, a doutrina absorveu o marketing da propaganda nazista e antissemita européia, recebeu o apoio financeiro e estratégico de Hitler - que financiou as lideranças islâmicas ligadas à Fraternidade Muçulmana (fundada em 1920) - e promoveu atos de terror, morte e perseguição aos judeus no Egito e na Palestina, ainda sob o Mandato Britânico. Slogans do tipo “Judeus fora da Palestina e do Egito” e “Morte aos Judeus” eram parte do arsenal de intimidação da Fraternidade que, após ser expulsa do Egito, se transferiu para a capital da Baviera.

Até Bento XVI considera difícil conciliar o islamismo com a modernidade

Em setembro de 2005, o Papa Bento XVI – que doutorou-se em Teologia pela Universidade de Munique - coordenou um seminário privado em sua residência de verão, em Castelgandolfo, com religiosos e estudiosos do Islamismo. O encontro gerou polêmica porque o jesuíta norte-americano Joseph Fessio, declarou, em entrevista, meses depois, que o papa tinha dito que o Islamismo e a modernidade (democracia) não eram conciliáveis. Imediatamente, dois outros participantes do seminário se apressaram em desmentir a afirmação, declarando que não foi bem isso que o Papa quis dizer. Segundo estas fontes, o Papa havia considerado a conciliação do Islamismo com a modernidade muito difícil, mas não impossível.

É importante lembrar que o atual papa foi Arcebispo de Munique entre 1977 e 1981, e como tal fica difícil imaginar que não tenha tido contato com a liderança da Fraternidade Muçulmana do Centro Islâmico ou que não soubesse das atividades que lá ocorriam. Para o jornalista do Ásia Times, Spengler, pode parecer estranho que o Papa precise “sussurrar” quando demonstra concordância com a opinião dos muçulmanos tradicionais de que a profecia do Corão é imutável e que portanto não pode ser reformada. Diante disso, Spengler deduz que, se o Islamismo é incapaz de mudar, estamos todos caminhando para uma guerra de civilizações.

Experiência muçulmana em Munique se espalhou para outras cidades

Para o subdiretor do Instituto de Pesquisa de Contraterrorismo de Washington, Lorenzo Vidini, foi a partir de Munique que os muçulmanos conquistaram a Europa. O modelo pioneiro implantado em Munique, com uma rede de mesquitas, centros de apoio, grupos de estudos e organizações sociais espalharam-se pelo continente. “Enquanto resguardados por quatro paredes eles incitavam à guerra; para o mundo exterior o discurso era outro, com retórica moderada, e dessa forma, a Fraternidade ganhou força e aceitação política na Alemanha”. Hoje, o país tem 3,8 milhões de muçulmanos e estatísticas dão conta que, anualmente, 800 alemães se convertem ao Islamismo. Neste crescendo populacional também se inclui a comunidade judaica que, surpreendentemente, já atinge a cifra de 100 mil pessoas, constituindo-se a terceira maior da Europa. A queda do Muro de Berlim, em 1989, e a derrocada da União Soviética, em 1991, estimularam o êxodo.

Curso de Estudos Islâmicos e Judaicos promove o entendimento

Com as fronteiras abertas, os judeus do Leste Europeu esqueceram a cautela e se instalaram na Alemanha, com uma sem-cerimônia que tem provocado arrepios em muitos historiadores e sobreviventes do Holocausto. Mas, não em todos. Um exemplo é o professor israelense Menahem Ben-Sasson, ex-reitor da Hebrew University, que deu aulas na Universidade de Munique. Especialista em História Judaica da época medieval islâmica, ele participou do programa promovido pela Allianz Group, uma das maiores seguradoras do mundo, com sede em Munique. O projeto patrocina o “Curso de Estudos Islâmicos e Judaicos”, alternando professores judeus e muçulmanos, a cada semestre. Ben-Sassom conta que alguns colegas o criticaram quando ele resolveu aceitar o convite. Entretanto, o professor diz que se sentiu bem à vontade em seu trabalho e que inclusive usava a kipá quando transitava pelas ruas da cidade. Um avanço de tirar o chapéu, considerando que há pouco mais de sessenta anos, ser judeu em Munique era dispor de um passaporte para o inferno. Foi em seus arredores que funcionou o primeiro campo de concentração da Alemanha – Dachau – onde os judeus e outras minorias foram cobaias de abomináveis experiências ditas científicas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Muro, apagão e Madonna no caminho de Peres


por Sheila Sacks

Na semana em que o mundo louvava os vinte anos “sem o muro” de Berlim e a mídia definia os “muros de hoje”, erguidos em Israel (Cisjordânia) e nos Estados Unidos (fronteira com o México), como “barreiras construídas na contramão da história” (O Globo), o presidente de Israel, Shimon Peres, desembarcava em Brasília para uma visita emblemática, do ponto de vista político e diplomático, dada a confirmação da presença de Ahmadinejad no país, seis meses depois de uma anunciada visita que não se concretizou.

Com a missão subliminar de dar suporte emocional à comunidade judaica brasileira surpreendida com a disposição do governo de acolher o líder iraniano, visita defendida pelo presidente Lula, Peres amanheceu no Brasil justamente após uma noite de cão vivida por milhões de brasileiros por conta de um baita apagão que deixou às escuras 18 estados e o Distrito Federal. O colossal blecaute que há duas semanas interrompeu todas as atividades produtivas, provocando o caos nas ruas das cidades, a queima de aparelhos eletro-eletrônicos, a falta de água e prejuízos materiais da ordem de 340 milhões de reais, também esquentou os ânimos na capital federal.

Somando-se aos danos contábeis e à indignação da população, o apagão vazou na mídia internacional como um rastilho de pólvora, ganhando as manchetes internacionais que repercutiram a grita geral da imprensa local. A multiplicidade de versões e de declarações dos porta-vozes oficiais instalou um ambiente de cataclismo político em Brasília, forçando o presidente Lula, desde os primeiros minutos do day after a focar a sua atenção na administração de mais esse pepino nacional. Com o circo armado, partilhar os efeitos danosos do curto-circuito com a recepção a Shimon Peres mantendo inalterado o bom humor, não deve ter sido tarefa das mais fáceis para um anfitrião empenhado na luta por seu sucessor.

Cobertura ampla

Para esquentar ainda mais a situação, 48 horas antes dos dois eventos, um dos programas jornalísticos de maior credibilidade nos Estados Unidos – “60 Minutes” - da rede CBS, alertava sobre a possibilidade de países sofrerem ataques cibernéticos por parte de hackers. E citava o Brasil como exemplo de vulnerabilidade, ao revelar que os sistemas de controle de fornecimento de energia do país foram paralisados por invasores, nos apagões de 2005 e 2007. As afirmações, feitas por funcionários da CIA, foram igualmente lembradas pelo presidente Barak Obama, em maio último, em discurso sobre segurança em computadores.

Imediatamente articulistas se apossaram dessa probabilidade para desenrolar alguns novelos de teses conspiratórias associadas à visita do presidente de Israel. O jornalista e Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília, Feichas Martins, em sua coluna no site da ABN News - Agência Brasileira de Notícias, escreveu que “o apagão teria sido uma sutil resposta a Peres, até que o governo brasileiro esclareça com seriedade esse transtorno”. Segundo ele “o Movimento dos Sem-Terra e grupos radicais islâmicos que estariam radicados na zona de fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina (Foz do Iguaçu) planejam de forma conjunta o controle das usinas hidrelétricas situadas na região sul brasileira e noroeste do estado de São Paulo, as quais abastecem a indústria brasileira e as principais capitais, assim como o controle das imensas reservas de água potável do Aqüífero Guarani, que se estendem da Argentina até a região de Ribeirão Preto”. Tese rebatida pelo presidente da Itaipu Binacional, Jorge Miguel Samek, que descobriu um motivo mais singelo para o acidente. “Foi a Lei de Murphy”, ponderou.

Já no Rio de Janeiro, Peres teve que concorrer com a badaladíssima estadia da estrela pop Madonna, que deslumbrou e polarizou as atenções da imprensa, de megaempresários e das autoridades estaduais, desdobradas em atenções para com a deusa loura. Seus passos, passeios e atividades sociais e filantrópicas tiveram ampla cobertura, preenchendo preciosos espaços na mídia e chutando para escanteio outros assuntos relevantes. O que levou a secretária de educação do município, Claudia Costin, a comentar, em tom jocoso, que ainda assim preferia Peres à Madonna.

Religião partidária

Entretanto, para a grande massa do eleitorado brasileiro a imagem que ficou da visita de Peres ao país é mesmo aquela em que o prêmio Nobel da Paz, ao lado do jogador Ronaldo, exibe a camisa número 9, do Corinthians, presente do “Fenômeno” ao ilustre estadista israelense. Foto made in São Paulo, cidade que Madonna – ainda bem – ignorou.

No mais, a escolha do presidente Lula pelo estado da Bahia, governado pelo correligionário Jaques Wagner, para cenário de seu encontro com Mahmoud Abbas, da Autoridade Nacional Palestina, mostrou mais uma vez que ser filiado ao PT é, prioritariamente, professar a religião petista em todos os momentos da vida nacional. Com ou sem explicações posteriores às comunidades judaicas.

domingo, 15 de novembro de 2009

Por uma agência de notícias Brasil-Israel


por Sheila Sacks

Iniciativas inteligentes merecem ser elogiadas e, por que não, divulgadas e até copiadas. É o caso da Agência de Notícias Brasil-Árabe (Anba), criada em setembro de 2003, para promover uma maior comunicação entre o Brasil e os 22 países árabes. Nesses quase seis anos de funcionamento, a Anba já ganhou sete prêmios de jornalismo na categoria de reportagens website e é a única agência noticiosa citada como mídia nacional, ao lado da Agência Brasil, do Governo Federal, no site oficial do Ministério das Relações Exteriores.

Ancorada pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira e apoiada por parcerias com correspondentes e órgãos noticiosos de países árabes, a agência apresenta um site muito bem estruturado e atualizado de notícias e artigos. Isso porque o status da Anba como agência noticiosa lhe permite acompanhar a agenda de eventos, encontros e entrevistas de autoridades brasileiras, como a desenvolvida por um grupo de embaixadores árabes de Brasília em visita oficial ao Rio, em maio deste ano. A agência, através de sua correspondente, participou e reportou os encontros da missão diplomática no Palácio Laranjeiras, com o governador Sergio Cabral, e no Palácio da Cidade, com o prefeito Eduardo Paes. Também por ocasião da viagem do presidente Lula à Arábia Saudita, a agência esteve presente nos principais eventos naquele país.

Maior diálogo

Em edição bilíngue, inglês e português, a Anba se tornou um canal de comunicação necessário ao diálogo entre brasileiros e árabes, e fonte de consulta para a mídia nacional, já que desfruta de acesso irrestrito a todas iniciativas e programações instituídas pelas comunidades árabes no Brasil e no mundo. Contando com uma equipe de 15 profissionais, a agência sediada em São Paulo também mantém cooperação com agências noticiosas de outros países. Para o jornalista Eduardo Ribeiro, um dos responsáveis pelo portal de Comunicação Mega Brasil, a agência Anba, cujas iniciais significam, no idioma árabe, notícia, surgiu no vácuo da grande imprensa. Além de valorizar o intercâmbio comercial entre o Brasil e os países árabes, o objetivo da iniciativa foi o de fugir do filtro das grandes agências ocidentais e trabalhar a notícia a partir das fontes primárias, com o apoio das agências de notícias e jornais árabes.

Exemplos dessa postura podem ser observados no teor das reportagens. Em uma delas fica-se sabendo que, de acordo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o Brasil negociou em 2008 mais jogadores (81) com os clubes árabes do que com países como Itália (53) e Espanha (34). Em uma única transação de jogador brasileiro para um clube dos Emirados Árabes a cifra envolvida chegou a 38 milhões de reais. Outra notícia dá conta que a cidade de Beirute foi escolhida pela UNESCO como a capital mundial do Livro de 2009, com direito à homenagem dos Correios Brasileiros que já editou um selo postal comemorativo.

A visita do ministro de Relações Exteriores do Egito ao presidente Lula, em julho, também recebeu detalhada cobertura da Anba que registrou, na época, o pedido do dirigente brasileiro ao governo egípcio no sentido de um apoio eficaz à candidatura do Rio de Janeiro para a sede das Olimpíadas de 2016. A matéria sobre uma firma brasileira de abate bovino que cumpre a lei halal muçulmana mostrou que a empresa fechou uma parceria milionária com o maior grupo da África do Sul que controla 500 empresas do ramo. Segundo a agência, nos 112 países com presença de muçulmanos, estimados em 2 bilhões de pessoas, a movimentação de produtos halal gira em torno de 150 bilhões de dólares, somente no setor de alimentos.

Zenit

Mas a Anba não está sozinha. A agência internacional de notícias Zenit é mais um exemplo interessante no ramo da comunicação. Sob o slogan “O Mundo visto de Roma”, ela é constituída por profissionais e voluntários católicos baseados em diversos países que abordam os mais diferentes assuntos da atualidade sob o prisma cristão. A cobertura jornalística das atividades do Papa e as matérias exclusivas sobre questões relevantes nos âmbitos religioso, social e político são publicadas nos idiomas espanhol, inglês, francês, alemão, italiano, árabe e português.

Criada em 1997, as notícias da Zenit são republicadas em mais de 20 mil meios de comunicação, entre jornais, rádios, TVs, portais, boletins etc. Tem 520 mil assinantes cadastrados em seu correio eletrônico e centenas de milhares que consultam diariamente o seu site.

Boa Hora

Ainda que a comunidade judaica seja bem menor do que outras comunidades existentes no Brasil, notadamente a de descendentes árabes, fatos positivos que vêm ocorrendo poderão contribuir para futuras ações, principalmente na área da Comunicação Social. Com a chegada da companhia aérea israelense El Al ao Brasil, a reinstalação do Consulado israelense em São Paulo e a implantação do Consulado Honorário de Israel no Rio de Janeiro, a comunidade judaica brasileira vive um momento auspicioso. Sua importância e influência observadas nos variados segmentos da vida nacional é um dado real que atesta o progresso e a maturidade de uma coletividade que, embora pequena quantitativamente, excede em qualidades individuais.

O jornalismo comunitário ativamente praticado na comunidade judaica é hoje uma expressão sócio-cultural valiosa e ocupa uma posição de destaque, concorrendo para o fomento, a preservação e a união dos valores tradicionais e religiosos que tendem a se perder ou se diluir na grande sociedade. Também nesse nicho a coletividade judaica brasileira está bem servida, com informativos variados de federações, associações, clubes, sinagogas, escolas, grupos etc. São dezenas de boletins que semanalmente chegam às casas dos membros da coletividade via internet, aos quais se juntam mais informações oriundas de centenas de blogs que repercutem as notícias da grande mídia.

Entretanto, frente aos desafios de uma mídia profissional globalizada, muitas vezes amparada por múltiplos apêndices desestabilizantes que favorecem o crescimento subterrâneo de movimentos extremistas e as ações persuasivas calcadas em visões radicais, torna-se previdente e pertinente a implantação de um órgão de difusão externa com status informativo reconhecido, apto para funcionar como parceiro e fonte nesse segmento. Uma agência de notícias Brasil-Israel que se faça presente por meio de profissionais qualificados nos atos e eventos oficiais federais, estaduais e municipais que tenham correlação com a comunidade judaica e o Estado de Israel. Que seja ainda base de apoio para as centenas de blogs que militam nessa faixa. E no caso de reportagens e artigos relevantes publicados em outros idiomas, que os mesmos sejam democratizados pela agência através do instrumento da tradução, disponibilizando-os para todos os interessados, de profissionais da mídia a leitores em geral.

Enfim, que a agência atue como um polo de informação e formação inserido formalmente na grande rede virtual noticiosa nacional e internacional.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

As fronteiras da notícia


por Sheila Sacks

Ainda sobre a liberdade de imprensa e a parcialidade da notícia

A organização francesa Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgou em outubro o ranking anual de liberdade de imprensa que classifica as nações de acordo com a situação observada em seus territórios.

No relatório “Worldwide Press Freedom”, elaborado a partir de questionários respondidos por jornalistas, juristas, ativistas de direitos humanos e organizações parceiras de cinco continentes, é destacada a importância de um ambiente de paz, mais do que a prosperidade econômica, para a garantia da liberdade de imprensa.

E foi justamente o conflito armado em Gaza, no início do ano, o que motivou a RSF a rebaixar Israel na classificação mundial em 2009. Para a ONG a guerra é a maior ameaça e o pior cenário para a prática do livre exercício de veiculação de notícias. Em 2008, Israel ocupava o primeiro lugar entre os países do Oriente Médio a garantir as liberdades individuais e a integridade física dos profissionais de jornalismo, situação essa impossível de se manter quando em cenários conturbados por combates e atos de terrorismo, cerceados por normas e segredos militares. A guerra, que vitimou 3 jornalistas e deixou 20 feridos na área conflagrada, foi o principal argumento para a organização retirar 47 pontos de Israel e empurrá-lo para a 93ª colocação.

Vale lembrar que 127 jornalistas morreram em zonas de guerra em todo o mundo, em 2007, e nenhum em território israelense. Ano passado, das 68 mortes em serviço, 70% ocorreram no Iraque.

Simplismo e imediatismo difundem notícias parciais

Mas mesmo com uma guerra em seus calcanhares, Israel se mantém uma democracia exemplar que não pressiona ou amordaça os jornalistas. A quantidade de correspondentes estrangeiros que trabalha livremente em suas cidades - em torno de 400 - é bem acima da existente em países sob tensão contínua. Porém, já é lugar-comum a publicação de notícias e artigos maniqueístas sobre o sensível binômio “israelenses versus palestinos”, enfocado sob o prisma simplista e repetitivo de uma confrontação de forças desiguais.

O fato é que a notícia tem suas limitações e um caráter variável e até subjetivo. Isso porque mesmo se pressupondo que uma notícia seja verdadeira em relação à realidade de uma determinada ocorrência, no instante de sua veiculação ela já se torna parcial e, em alguns casos, até injusta, porque exclui o seu histórico e antecedentes. O imediatismo da notícia não contempla passado nem futuro, apenas o presente. Assim, a causa inicial, mãe de toda a insensatez, erva daninha cultivada com maestria pelos apologistas do terror – varrer Israel do mapa – raramente é mencionada. Perdido o status de novidade, o âmago da questão virou uma espécie de lenda urbana ou um pormenor démodé a ser mantido fora das fronteiras da notícia.

No entanto, países como a Síria e Irã não desistem de enviar armamentos para grupos terroristas visando à destruição de Israel, como as toneladas de morteiros, granadas e mísseis encontradas pela marinha israelense, na semana passada, escondidas entre a carga civil de um navio mercante, a 160 quilômetros da costa de Israel.

Mídia imita e repete o que a sociedade deseja ouvir

O filósofo francês Paul Virilio, de 77 anos (Cibermundo: a política do pior), afirma que a mídia contemporânea é o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias leis, ao mesmo tempo em que sustenta a pretensão de não se submeter a nenhuma outra. Segundo ele, o neutro não existe, sobretudo no domínio da notícia. Isso porque o jornalismo constrói percepções de realidade quando seleciona, destaca, descarta etc o que será apresentado ao receptador. É um jogo de sedução, afirma o jornalista e estudioso de mídias, Régis Debray, que foi amigo pessoal de Fidel Castro e Che Guevara nos anos 1960. As mídias em suas mensagens imitam o pensar e o falar dos que recebem as notícias e vice-versa, em um tipo muito singular de mimetismo. Dessa forma, a mídia, como um todo seria sempre o reflexo de uma sociedade, repercutindo o que se escuta e o que se lê e homogeneizando pensamentos.

Nesse contexto, a repetição surge como um engenhoso mecanismo de persuasão e substituição de valores. “A repetição nada muda no objeto que se repete, mas muda alguma coisa no espírito que a contempla”, escrevia sabiamente, no século 18, o autor do “Tratado da Natureza Humana”, o filósofo escocês David Hume. Sendo Israel o objeto da notícia, constata-se que, lamentavelmente, a mídia repetitiva e corrosiva não tem dado trégua. Muito menos algum crédito às sucessivas tentativas de acordos de paz ensejadas por Israel ao longo desses 61 anos de história.

A metáfora da paz não deve sobrepujar a realidade do terror

Destino melhor, porém, teve o presidente norte-americano Barak Obama que em poucos meses à frente do país foi agraciado com o prêmio Nobel da Paz, sem ter apresentado nenhum resultado concreto nesse segmento, até por exiguidade de tempo.

Para o professor e cientista político Candido Mendes, a homenagem “premia um novo estado de consciência internacional”. “Um prêmio explosivo”, avaliou o brasileiro, não tanto pela láurea ter sido instituída pelo sueco Alfred Nobel, conhecido como o pai da dinamite, mas pelo espanto “saudável” que suscitou em muitos. Entretanto, a retórica do voto de confiança nas boas intenções de um político, pelo menos aqui no Brasil soa mais como conversa fiada. Uma espécie de oratória de probabilidades ou um exercício de futurologia um tanto descabido. No campo do jornalismo seria como uma notícia sem o fato real que lhe dê base e substância. Uma anomalia.

Mas, se o prêmio de Obama foi explosivo no sentido figurado, o que se ouviu no 20° Colóquio da Academia da Latinidade, realizado no Cairo, há pouco mais de dez dias, é nitroglicerina pura. Na presença de intelectuais, sociólogos, filósofos, historiadores e políticos da França, Espanha, Itália, Portugal, Egito, Argélia, Brasil e outros, a professora Mia Bloom, da Universidade de Geórgia (EUA) e autora do livro “Morrendo para matar: a sedução do terror suicida”, falou sobre o aumento da participação de mulheres nos atentados suicidas no Iraque e em outras regiões, como Sri Lanka e Turquia. Antes restrito aos homens muçulmanos, foi constatado que desde 2008 organizações nacionalistas, movimentos religiosos e grupos terroristas como a al-Qaeda veem se utilizando cada vez mais de mulheres-bomba, com melhores resultados letais, porque elas muitas vezes ficam a salvo de revistas. E a tendência, no futuro, inclui a arregimentação de crianças.

A palestra da professora norte-americana na Academia da Latinidade – instituição criada há dez anos para funcionar como uma ponte de entendimento nas relações do Ocidente com o Oriente, principalmente com o mundo muçulmano - ocorreu dois dias depois de um dos piores atentados à bomba em Bagdá, assumido pelo braço iraquiano da al-Qaeda, que matou 135 pessoas e feriu mais de 600.

Enfim, mais um alerta assustador com base em dados reais e que como tantas outras manifestações sérias e conscientes, lamentavelmente, tende a permanecer estacionado nos meios acadêmicos, à margem da notícia e do grande público.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Quem tem medo da notícia?


por Sheila Sacks

O Brasil galgou 11 posições no ranking mundial de liberdade de imprensa em 2009, de acordo com a pesquisa anual realizada pela ONG francesa Repórteres Sem Fronteiras (RFS) em 175 países, e divulgada em 20 de outubro. Está na 71ª colocação, melhor situado que a Venezuela (124ª) e Cuba (170ª), mas ainda bem abaixo de nossos vizinhos Uruguai (29ª), Chile (40ª) e Argentina (47ª). O relatório "Worldwide Press Freedom", elaborado a partir de questionários respondidos por jornalistas, juristas, ativistas de direitos humanos e organizações parceiras de cinco continentes, classifica a guerra como a maior ameaça e o pior cenário para a prática do livre exercício de veiculação de notícias. Dinamarca e Finlândia receberam a melhor pontuação.

Para a RSF, a paz, mais do que a prosperidade econômica, garante a liberdade de imprensa. Daí, a queda abrupta de Israel, perdendo 47 posições, face ao conflito armado em Gaza, ocorrido no início deste ano. Em 2008, Israel ocupava o primeiro lugar entre os países do Oriente Médio a garantir as liberdades individuais e a integridade física dos profissionais de jornalismo, situação essa impossível de se manter quando em cenários conflagrados por combates e atos de terrorismo, cerceados por normas e segredos militares. A guerra, que vitimou três jornalistas e deixou 20 feridos, foi o principal argumento para a organização baixar a pontuação de Israel em 2009. Mas, mesmo ocupando a 93ª posição na tabela da RSF, abaixo dos Emirados Árabes (86ª) e Kuwait (60ª), a democracia israelense se mantém bem distante de regimes autocráticos como o do Irã – bombardeado com a 172ª colocação e ladeado pela Coreia do Norte, China, Birmânia, Eritreia e Cuba.

Retirada da publicidade oficial

Em recente declaração, Ahmadinejad acusou a mídia de ser "uma arma pior do que a nuclear" quando nas mãos de países ocidentais. Opinião revelada após a sua reeleição, em meados de 2009, face aos intensos protestos da população. O resultado do pleito colocou o país em uma autêntica crise e instaurou uma paranóia com relação aos jornalistas e blogueiros. A constatação é da RSF, diante das notícias de que o número de jornalistas fugindo do Irã é o maior desde a Revolução Islâmica, em 1979. Seis jornais foram fechados, muitos jornalistas estão presos e mais de 2 mil perderam seus empregos.

Em 2007, denunciando um aumento de censura online no mundo, a RSF já havia acusado o Irã, a Tunísia e o Egito de promoverem a prisão de inúmeros blogueiros e o encerramento forçado de vários sites noticiosos. Portanto, não é de se admirar que três jornalistas oriundos de nações muçulmanas (Somália, Tunísia e Azerbaijão) tenham sido agraciados pelo Committee to Protect Journalists (CPJ), com sede em Nova York, com o prêmio internacional de Liberdade de Imprensa 2009. Os três profissionais (Mustafá Abdinur, Naziha Réjiba e Eyulla Fatullayev) atuam com muita dificuldade em seus países, sofrendo perseguições por parte das autoridades, sendo que o último amargou oito anos de prisão.

Por ocasião do Dia Mundial da Imprensa, em 3 de maio, a Unesco soltou um comunicado lembrando que a censura ainda faz parte do dia-a-dia de muitos países e que os jornalistas continuam a ver a sua profissão e a própria vida, em muitos casos, ameaçadas. Desde 2003 foram registradas 170 mortes de jornalistas em serviço e segundo a organização "nunca foi tão perigoso ser jornalista". Para o presidente da Sociedad Interamericana de Prensa (SIP), o jornalista colombiano Enrique Santos Calderón, a imprensa ainda é assombrada pela atitude hostil de líderes de estado intolerantes e pela violência contra os jornalistas e a mídia. Em países da América Latina, como a Venezuela, Argentina, Equador, Nicarágua, Bolívia e Uruguai, a crítica a ações do governo não é bem-vinda, afirma Calderón. "Qualquer posição contrária à oficial é rejeitada, pressionada e punida. Entre os métodos utilizados para silenciar os opositores está a redução ou a retirada completada da publicidade oficial. No sentido contrário, aqueles que apóiam as políticas governamentais recebem benefícios."

"Compromisso em ouvir opiniões"

A propósito, o orçamento oficial para publicidade e propaganda do governo brasileiro nos meios de comunicação em 2009, aprovado pelo Congresso, foi de meio bilhão de reais. Valor esse que já dobrou, se contabilizados os gastos de publicidade de empresas públicas, como a Petrobrás e o Banco do Brasil, que têm receitas próprias para a área. A novidade é a democratização dessas verbas, desde o ano passado distribuídas para mais de 5 mil veículos de comunicação em todo o país, entre emissoras de rádio, TVs, jornais e revistas. O governo Fernando Henrique, que se utilizou praticamente dos mesmos recursos, considerando a correção monetária, não tinha mais que 500 beneficiados.

Ainda em relação ao Brasil, a RSF considerou que o país avançou com o fim da Lei de Imprensa (instituída à época da ditadura) decretada em 1° de maio deste ano. Também mereceram elogios os esforços do governo Lula para ampliar o acesso à informação, ainda que não estejam banidos os atos de violência contra os meios de comunicação, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, e a censura prévia em alguns estados brasileiros, onde as autoridades dominam a mídia local.

Em 29 de setembro, é um fato a registrar, o presidente Lula foi homenageado pela Associação Internacional de Radiodifusão pelo trabalho em defesa da liberdade de expressão. Congregando 17 mil emissoras de rádio e TV nas Américas e na Europa, a instituição, representada aqui no Brasil pela Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abert), considerou Lula "um exemplo para os governantes", classificando-o como um político democrata, pelo seu espírito de convivência "com uma imprensa independente e com o contraditório". Dias antes, Lula já tinha sido laureado, em Nova York, por sua defesa das instituições democráticas no Brasil. O prêmio de Serviço Público, concedido pelo Centro Internacional Woodrow Wilsom para Acadêmicos, tem a finalidade de homenagear "indivíduos que servem com distinção na vida pública e demonstram compromisso especial em ouvir sempre opiniões informadas e pontos de vista ponderados em sua atividade".
Declaração acolhida como heresia

Em 2006, falando no programa Observatório da Imprensa, na TV Brasil, o presidente Lula já enfatizava a importância da mídia em sua trajetória política: "Eu nasci para o mundo político graças à liberdade de imprensa. No momento em que o movimento sindical ainda era pouco difundido na imprensa brasileira, no ano de 1975, fiz parte de um conjunto de dirigentes sindicais que chamou a atenção de uma parte da imprensa brasileira". Anteriormente, Lula tinha posto a sua assinatura na Declaração de Chapultepec, um documento elaborado em 1994, no México, pela Sociedad Interamericana de Prensa para difundir a importância da liberdade da imprensa.

Composto de 10 itens que condenam a censura e o cerceamento ao livre exercício do jornalismo, o documento vinha subscrito por 44 chefes de Estado e por dezenas de entidades internacionais. De início, o documento assinala, em seu primeiro parágrafo, que não há pessoas nem sociedades livres sem liberdade de expressão e de imprensa. E que toda pessoa tem direito a buscar e receber informação, expressar opiniões e divulgá-las livremente. Destaca ainda que nenhum meio de comunicação ou jornalista deve ser penalizado por difundir a verdade, criticar ou fazer denúncias contra o poder público.

No início do ano, uma declaração do presidente Lula publicada na revista Piauí eriçou a imprensa e melindrou os jornalistas. Entrevistado, ele falou que não tinha mais o hábito de ler jornal de manhã para não perder o humor logo cedo, já que tinha problema de azia. E disse ainda que raramente assistia TV. Acolhida como uma heresia, volta e meia a mídia rememora a frase de Lula quando pressente um provável movimento do governo no sentido de limitar ou minimizar alguma informação.

Plágio em trabalhos acadêmicos

Entretanto, hoje a conceituação de notícia, à parte a sua intenção de agradar ou desagradar, é bem diferente daquela do início do século passado, quando o termo era definido como "algo que sei hoje, mas que não sabia ontem". A notícia atualmente é "aquilo que entendo hoje, mas que já conhecia desde ontem" (Folha de S.Paulo). E ao se entender a notícia, muitas delas podem, sim, provocar azia e mal-estar também no público leitor.

Dois exemplos recentes e ilustrativos. Primeiro a notícia para lá de esdrúxula e de certa maneira bastante embaraçosa para qualquer sociedade que prioriza a educação: nas inscrições para concurso de varredor de rua e recolhedor de lixo na cidade do Rio de Janeiro, que não exigem curso fundamental completo, verificou-se que 50 ostentavam o grau de doutorado, 24 de mestrado, 86 de pós-graduação e mais de mil tinham curso superior completo. Todo esse estudo para se habilitar ao cargo de gari e a um salário mensal de pouco mais de 700 reais, já incluídos os benefícios sociais.
A outra notícia, veiculada dias depois, abordava o crescimento da utilização do plágio nos trabalhos acadêmicos para a obtenção dos graus de mestrado e doutorado. Na fraude, os plagiadores só se dão ao trabalho de trocar título e alternar parágrafos. Muitos se servem de sites da internet e dos serviços de firmas de redação de monografias, dissertações e teses para ludibriar e assim garantir o cobiçado canudo. A apropriação indevida de trabalhos e teses alheias foi detectada em faculdades conceituadas, como a Federal Fluminense (UFF) e a Universidade de Brasília (UnB).

Conclusão: notícia ruim é somente aquela que não vem a público.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Chávez no Mercosul:mudança de rumo?


por Sheila Sacks


Hugo Chavez está vencendo a queda de braço com o Parlamento brasileiro e prepara-se para invadir o Mercosul. Após três anos de pressões, ironias e ameaças veladas do líder populista, a comissão do Senado validou o passaporte de ingresso da Venezuela chavista no bloco, com direito a voz, voto e veto nas questões básicas do grupo. Oficializa-se, portanto, nos trópicos do continente americano, um panorâmico palanque público para o venezuelano lançar os seus ataques verbais e propagandísticos contra Israel (país com o qual Chávez cortou relações diplomáticas no início de 2009) e, por acréscimo, promover a desavergonhada apologia ao urânio nuclear do Irã.

Depoimentos de ativistas de direitos humanos eram contrários ao ingresso

Voltando no tempo, em meados de 2009 um fato relevante passou a descoberto pela mídia nacional. Foi a 37ª reunião da Cúpula do Mercosul, ocorrida em Assunção (24 e 25 de julho) e boicotada por Hugo Chávez, inquieto com a demora do nada consta dos congressos do Brasil (Senado) e do Paraguai à investidura da Venezuela bolivariana como membro pleno do bloco, com direito a voto decisório nas questões que envolvem os países do Cone Sul. A aspiração de Chávez, ao solicitar o ingresso no Mercosul, em 2006, jamais foi a de ser um mero participante. Sua intenção era se alçar a membro pleno, para poder comandar ações e ter a visibilidade dos países-membros fundadores: Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Interessante é que quinze dias antes da Cúpula de Assunção, em uma dupla audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, dois cidadãos venezuelanos, Leopoldo López, economista formado em Harvard e duas vezes prefeito da cidade de Chacao, perto de Caracas, e o jornalista e ativista de direitos humanos, Gustavo Tovar-Arroyo, deram depoimentos contrários ao ingresso da Venezuela no Mercosul. López em seu testemunho instou os senadores presentes a visitarem a Venezuela (segundo ele o país mais perigoso do continente americano) para verificarem in loco a criminalização das vozes discordantes e a falta de democracia no país, situações que contrariam os princípios fundamentais da Carta do Mercosul.

Há mais de dez anos no poder (foi eleito em dezembro de 1998), Chávez também foi duramente criticado pela ONG Human Rights Watch (HRW), no ano passado. No relatório divulgado em Caracas, em setembro de 2008, a organização denunciou o acentuado e grave enfraquecimento das instituições democráticas na Venezuela, a intolerância política, a violação de direitos básicos, a intimidação e a censura nos meios de comunicação, o controle do Judiciário, a repressão aos opositores do regime e a discriminação em concursos públicos daqueles que não se perfilam com o governo. O documento de 267 páginas enfatiza a perda das liberdades civis ocorrida nessa década, com a limitação do acesso à informação e a elaboração de listas negras, utilizadas para excluir das estatais os servidores que não votem a favor do governo. Em resposta às críticas, Chaves expulsou do território venezuelano o representante da organização, José Miguel Vivanco.

Congresso americano considera Venezuela uma ameaça a países vizinhos

Convidado a participar de uma audiência do Senado,há poucos meses, o jurista Celso Lafer, que foi embaixador do Brasil junto à ONU e ministro das Relações Exteriores, também se posicionou contra o ingresso da Venezuela no Mercosul, assinalando que um dos problemas delicados da atual agenda internacional é justamente a possibilidade da entrada daquele país no bloco. Para Lafer, existe um conflito de concepções entre a Venezuela e os países do Mercosul, principalmente no que se refere à defesa da democracia e dos direitos humanos. Em outro campo, relatório do Congresso americano divulgado em julho deste ano revela a crescente infiltração do narcotráfico e o alto grau de corrupção no governo e exército venezuelanos. O documento constata o nascimento de um ameaçador narcoestado assentado na América Latina com graves conseqüências aos países vizinhos. De acordo ainda com o estudo, a Venezuela de Chávez vem se transformando no principal centro de distribuição de cocaína produzida na Colômbia e no maior porto de embarque da droga para os Estados Unidos (cerca de 17% da produção mundial do produto).

Liberman alerta para o crescimento de movimentos radicais na América do Sul

Confirmando as relações perigosas da Venezuela com o ilícito, armas fabricadas na Suécia e vendidas a Caracas foram encontradas com a guerrilha colombiana das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), expondo ainda mais a estreita ligação de Chávez com grupos armados que desafiam estados democráticos. Situação enfatizada pelo ministro Liberman, em sua passagem este ano pela Argentina, quando destacou, na entrevista ao jornal La Nación, a perigosa influência de Chávez no fortalecimento de movimentos radicais na América do Sul e a ameaça que tais grupos terroristas representam para o Brasil, Argentina e Paraguai, países da Tríplice Fronteira. Entretanto, certo que a Venezuela em breve ganhará o status de membro votante no Mercosul, Hugo Chávez já se articula com os dirigentes de Cuba, Nicarágua, Equador e Bolívia para criar uma espécie de partido político latino-americano para sustentar as suas posições no bloco.

Regimes autoritários em ascensão no Cone Sul

Analisando a situação da América Latina, o cientista político norte-americano Francis Fukuyama - que em seu livro “O Fim da História” (1992) afirma ser a democracia liberal o ponto final da história dos sistemas políticos, descartando o comunismo e a utopia socialista – acusa os dirigentes populistas de países como Venezuela, Equador e Bolívia de promoverem reformas constitucionais com o único objetivo de aumentarem o seu próprio poder, instituindo regimes autoritários. Falando no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, Fukuyama disse ser difícil imaginar uma sociedade moderna que não precise de algum tipo de democracia, porque esse sistema político é o que mantém o maior índice de variedade cultural e é compatível com a diversidade de idéias, ao contrário das teocracias muçulmanas e outros regimes fechados.

Também para o pensador italiano Norberto Bobbio (1909-2004), a democracia é o governo das leis por excelência, opondo-se a qualquer forma autocrática de governo. Daí que a democracia pode se dar ao luxo de errar porque os procedimentos democráticos permitem corrigir os erros. O que não acontece hoje na autocracia eletiva da Venezuela, segundo Celso Lafer. Lá, não se aplicam as idéias de Bobbio que tem uma frase exemplar sobre a excelência da democracia sobre os outros regimes: “A grande vantagem da democracia é que ela não corta cabeças. Conta cabeças.”

Nesse sentido, a ratificação da Venezuela de Chávez no Mercosul, em breve com novos poderes, se inclui como mais um dado inquietante na atual geografia política do continente.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Borges:uma maneira judaica de narrar histórias


por Sheila Sacks

Lançado em outubro pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o livro “Borges e outros rabinos”, de Lyslei Nascimento, destaca e analisa a forte influência da escrita judaica no modelo narrativo presente nas obras do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), ícone da literatura latino-americana do século XX. Professora de Literatura da UFMG, com pós-doutorado na Universidade de Buenos Aires, Lyslei coordena o Núcleo de Estudos Judaicos da universidade, é editora da revista digital “Arquivo Maaravi”, e responde pelo convênio de intercâmbio discente entre a UFMG e a “Academy of Art and Design“, de Jerusalém. Traduziu o livro “A Ficção Marrana”, do sociólogo argentino Ricardo Forster, e “Planetas sem Boca”, do poeta e ensaísta uruguaio Hugo Achugar. Em 2006 participou, em Israel, de dois seminários internacionais sobre memória e história da Shoah.

Qual é o tema central de “Borges e outros rabinos”?

- Pesquisadores importantes como Saul Sosnowski e Edna Aizenberg já haviam, em excelentes trabalhos, demonstrado a presença da cultura judaica em Borges. Eu, além dessa referência, notei que havia uma dicção judaica, ou seja, um modo de escrever/ler os livros, um culto aos livros, aos comentários.

O que leva Borges a se sentir tão atraído pela tradição judaica?

- A Buenos Aires em que Borges nasceu favoreceu essa atração. Cosmopolita, com imigrantes de todas as partes do mundo, incluindo os judeus, a cidade portenha foi o berço desse envolvimento de Borges com o judaísmo. Não podemos desconsiderar, também, a herança cristã protestante da avó, Fanny Haslam, que, segundo o escritor, sabia toda a Bíblia de cor.

Como você conceituaria a tríade tempo-espaço-memória nas narrativas de Borges?

-Tempo e espaço, em Borges, são relativizados e atravessados pela memória. Desse modo, como no conto "O milagre secreto", um escritor judeu, no momento em que está para ser fuzilado, pede a D-us um tempo para terminar uma peça de teatro. Nesse espaço de morte, cumprido o tempo que é a ele concedido, como ao rei Ezequias, na Bíblia, o escritor pode terminar a obra inacabada, não efetivamente, mas pela memória. O que está em jogo, na literatura borgiana, não é um tempo sagrado, mítico, mas um tempo-espaço da memória. O escritor, no conto, se vale dessa memória para terminar seu trabalho.

Quais as obras de Borges onde mais se evidenciam as influências da mitologia judaica?

- Explicitamente, o conto "O aleph"; o poema "O Golem", considerado por Borges como o mais perfeito de toda a sua obra; as conferências dedicadas à Cabala; os contos sobre o nazismo: "O milagre secreto" e "Deutches Requiem", além de Ema Zunz e os poemas dedicados a Israel. Implicitamente, são incontáveis as referências: à Cabala, aos livros, à Bíblia, à cultura sefaradi, ao Hebraico, a Spínoza... realmente, são infinitas as referências e alusões.

É possível afirmar que Borges fez da mística judaica, com seus signos, alegorias e metáforas, a base de sua inspiração literária?

- Sim, a mística judaica deu a Borges um motivo literário, porque o fazia refletir sobre a linguagem, a criação, o verbo, as palavras e as coisas, como queria Foucault. Mas não só a riqueza da mística judaica, a Cabala, foi inspiração para os contos e poemas de Borges, também a história dos judeus, o amor que nutria por Israel. Quando a Argentina se torna um covil de nacionalistas antissemitas, Borges faz publicar o belíssimo poema "A Israel", reafirmando seu apoio ao Estado judaico. Um exemplo a ser seguido hoje, por todos nós.

O que busca Borges, ao se apropriar e ficcionalizar os mitos judaicos em sua escrita?

- Sobretudo, ele entende a tradição judaica como um acervo, um arquivo de bens culturais, que ele acessa com maestria. A saga judaica, da tribo ao Estado de Israel, são fascinantes, o amor dos judeus aos livros, a forma desse amor de manifestar em lendas, mitos e comentários fascina Borges, que disso tudo se aproxima para criar sua obra inigualável.

domingo, 18 de outubro de 2009

Nostradamus e o enigma do fim dos tempos

por Sheila Sacks



O ano judaico de 5770 se iniciou em setembro de 2009 e, segundo o calendário lunar hebraico, daqui a 231 anos, no ano comum de 2240, terá início o 7° milênio (6001). Até lá, tudo pode acontecer, quando se trata de Nostradamus e suas misteriosas profecias.



Por que tanta gente, quando quer explicar o inexplicável, ainda cita esse obscuro vidente, nascido há 500 anos e que, aparentemente, não dizia coisa com coisa?

O maior fenômeno midiático de todos os tempos tem nome e sobrenome: Michel de Nostradame, codinome Nostradamus. Jogando por terra conceitos básicos da boa comunicação, como a clareza e a objetividade, o mago é o exemplo mais radical de que a desordem redacional dá ibope.

Valendo-se de uma misteriosa e complexa fonte de informações – a mística judaica – Nostradamus fez seu pé-de-meia junto aos poderosos e, de quebra, ganhou uma cadeira cativa na galeria dos notáveis da História.

Interesse sobre o mago aumentou depois do atentado de 11 de setembro

Já virou rotina na mídia: a cada desastre natural, ato de terrorismo ou situação anormal no planeta, uma multidão de curiosos e pseudo-estudiosos surgem do nada para garimpar o seu minuto de fama, divulgando rocambolescas teorias com base em obscuros versos de um médico-astrólogo que viveu na Renascença. Nascido em 1503, na região da Provença, no sul da França, Michel de Nostradame transformou-se no maior fenômeno literário e cibernético de todos os tempos.

Segundo os pesquisadores de plantão, depois do atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro (2001), Nostradamus ganhou status de ídolo, sendo uma das palavras mais acessadas na Web. Também estão contabilizados milhares de livros, cujos autores recontam e interpretam, a seu bel-prazer, os textos do vidente, muitos com a ressalva de que dedicaram 30 a 40 anos de suas vidas em pesquisas full time. Talvez esta seja uma das razões para que muitos afirmem que As Profecias seja o livro mais editado de todos os tempos, depois da Bíblia.

Também conhecida como Centúrias, a obra é uma seqüência de 942 quadras (versos em quatro linhas), agrupadas em conjuntos de 100. O primeiro fascículo foi publicado em 1555, e os demais, dois e três anos depois. Em 1568, dois anos após a morte do vidente, apareceu a versão que chegou até os nossos dias, com a inclusão de mais três centúrias.

Origem judaica de Nostradamus o obrigou a se esconder da Inquisição

Em seu livro “The Jewish Doctor: A Narrative History”, o norte-americano Michael Nevins conta que ambos os avós de Nostradamus eram médicos e o influenciaram em seus estudos de matemática, astrologia, latim, grego e hebraico. “Eles participaram ativamente da educação do neto, introduzindo-o na medicina, no trato com as ervas naturais e, principalmente, no secreto estudo da Cabalá e da alquimia”.

Segundo o autor, que também é médico, quando o rei da França, Luis XII, conhecido como o Pai do Povo (reinou de 1498 a 1515), obrigou os judeus a se converterem, ameaçando com o confisco de bens e a pena de morte, a família de Nostradamus obedeceu, mas secretamente continuou a professar a religião judaica.

Formado pela Universidade de Montpellier, Nostradamus começou a praticar medicina a partir de 1525. Ele viajava bastante, exercendo a sua função de médico, ainda que praticasse uma medicina pouco ortodoxa, com o uso de ervas e plantas. Isso durante o dia, porque quando chegava a noite, ele reunia-se à rede secreta de alquimistas e cabalistas em seus estudos, principalmente no campo da astrologia.

Nevins relata que Nostradamus, em 1537, teve a Inquisição em seu calcanhar e durante seis anos ele vagou pela Europa, sendo os seus passos, durante esta época, pouco conhecidos. Com a publicação de suas primeiras profecias, ele conquista a fama e torna-se o favorito da rainha Catarina de Médici (1519-1589).

Profecias lembram textos de livros hebraicos

Para o francês Robert Benazra, fundador do Cahiers Kabbalah (revista de estudos sobre a mística Judaica, na década de 1980) e pesquisador do Répertoire Chronologique Nostradamique - um compêndio de 700 páginas com documentos e publicações sobre Nostradamus - o estilo literário das profecias lembra os textos do Talmud (comentários rabínicos a Torá/Pentateuco) “sem uma ordem cronológica definida, saltando frequentemente de um tema para outro, tendo por base a associação de ideias e apoiados em um jogo de palavras somente compreensível para os iniciados”.

Benazra destaca que o astrólogo, em carta ao seu filho César, dá a entender que é um estudioso da Cabalá, ao afirmar que inúmeras obras escondidas ao longo do tempo lhe foram reveladas. Os livros seriam o Bahir, o Zohar e o Yetsirah (que fala da criação do mundo), documentos fundamentais para o estudo da Cabalá. Os trabalhos já seriam conhecidos na Provença, nos séculos XIII e XIV, trazidos pelos ancestrais judeus de Nostradamus.

Em outro trecho, o vidente diz textualmente que “as revelações são recebidas em minhas continuadas vigílias noturnas”, em alusão aos estudos da Cabalá que devem ser feitos, preferencialmente, entre a meia-noite e a madrugada. Ele também escreve que o “Deus imortal faz revelações aos profetas através de anjos bons e em meio ao fogo”, lembrando Moisés no deserto e a sarça ardente (Êxodo 3.2).

Já na “Carta a Henrique II, Rei da França” (marido de Catarina de Médici, que reinou de 1547 a 1559), Nostradamus faz um registro da sua hereditariedade ao assinalar o instinto natural recebido de seus antepassados.

Simbolismo da Cabalá é a principal influência

O caráter conservador presente nos escritos e nas observações da quase totalidade dos místicos é apontado pelo renomado historiador e teólogo alemão, Gershom Scholem (1897-1982), como uma característica resultante da própria educação recebida pelo aprendiz e da influência religiosa do seu guia espiritual, que vai inspirá-lo e o conduzir pela vida afora (no caso de Nostradamus, os seus avós).

Na obra “A Cabalá e o seu Simbolismo”, Scholem observa que o místico sempre carrega dentro de si uma herança antiga, permeada de elementos tradicionais, e com símbolos de seu próprio mundo. “Por que um místico cristão sempre tem visões cristãs, e não as de um budista?”, dispara o autor, que lembra ainda que a palavra Cabalá significa tradição recebida.

Outro dado importante é que Nostradamus nasceu no berço europeu da Cabalá, onde por volta de 1180, apareceria o surpreendente documento cabalista conhecido como Sefer Bahir (Livro Luminoso), escrito numa mistura de hebraico e aramaico. Segundo Scholem, esse pequeno livro de 30 a 40 páginas, é um texto difícil, cheio de ditos e teses enigmáticas, que faz afirmações ambíguas acerca do problema do mal, a partir de um dos versículos do Velho Testamento: “Do Norte irromperá o mal sobre todos os habitantes da terra” (Jeremias1:14– Neviim/Profetas).

Coincidentemente, Nostradamus parece ter incorporado este conceito, porque em suas Centúrias o imprevisível sempre vem do norte: “Aparecerá, no céu no norte, um grande cometa” (Cen.II-43) e “De repente ergue-se no céu uma enorme chama, quando os do Norte fizerem a sua experiência” (Cen.VI-97). Scholem também chama a atenção para uma das características mais marcantes entre os primeiros cabalistas que surgiram em Languedoc, na Provença: a sua postura diante do conceito do mal e do demoníaco. Enquanto os filósofos judeus consideravam um problema menor, para os cabalistas o mal sempre foi um assunto dos mais sensíveis e instigantes.

A associação com o número 7 nas Centúrias

Outro livro que exerceu grande influência no misticismo judaico europeu e nos estudiosos da Cabala foi o Sefer há-Temuná (Livro da Configuração ou da Imagem), que surgiu na Catalunha, por volta de 1250. Entre outros temas o texto fala de 7 ciclos cósmicos que durariam, cada um, sete mil anos, ao fim dos quais se somariam mais mil anos, formando o 50º milênio do Jubileu (Santificareis o 50º ano... Levítico 25.10). Cada ciclo seria governado por um atributo diferente de Deus, resultando em períodos mais austeros e outros menos severos.

Observa-se, ainda, que um dos maiores mestres da astrologia na Europa Medieval, o rabino espanhol Abraham ben Meir Ibn Ezra (1089-1167), ensinava que o sistema astrológico de tempo se estruturava sobre 7 ciclos ou planetas (Saturno, Vênus, Júpiter, Mercúrio, Marte, a Lua e o Sol). Cada um influenciaria o mundo por um período de 354 anos e 4 meses, repetindo-se ao término de cada conjunto de ciclos. Médico e erudito, ele viveu na Provença quatro séculos antes do nascimento de Nostradamus, sendo o autor de cerca de 200 livros sobre os mais variados assuntos - religião, filosofia, astronomia, gramática hebraica e matemática -, nove deles voltados à astrologia (o mais conhecido é o Sefer há-Olam – O Livro do Mundo).

A frequência do número 7 nas páginas do Velho Testamento, número associado à própria Criação e a símbolos, eventos e normas básicas do judaísmo, também pode ser observada na obra de Nostradamus. Ele registra o número 7 em várias quadras de suas Centúrias e Presságios: O cometa brilhará por 7 dias... (Cen.II-41); O ano de 1999 e 7 meses... (Cen. X-72); Outro que não o Papa ocupará o trono de São Pedro por 7 meses...(Cen.VIII-93); Um outro (poder) restabelecerá a monarquia até o sétimo milênio... (Cen.I-48); Por semearem a morte, 7 países da Europa serão mortalmente feridos... (Pr. 40); A grande cidade de 7 colunas... (Cen.I-69).

Mas, é na quadra X-74, uma das mais conhecidas e citadas, que se verifica uma clara transposição da mística judaica quanto ao ciclo cósmico, ao ano do Jubileu e a era messiânica (com a ressurreição dos mortos, presente na oração judaica diária da Amidá/18 bênçãos). Os versos da quadra dizem: “No ano do grande sétimo número completado, aparecerá nesta ocasião os jogos da hecatombe, não longe da idade do grande milênio, quando os mortos sairão de suas tumbas”.

Ano judaico começa no 7° mês bíblico

O rabino Chaim Zukerwar – nascido no Uruguai e que estudou a Cabalá em seminários rabínicos de Jerusalém – lembra que o número 7 costuma indicar os ciclos e os processos que abrangem a dobradinha tempo e espaço, aparecendo nos textos judaicos de tradição oral e escrita. Em sua obra “As 3 dimensões da Kabalá”, ele dá alguns exemplos: “Em seis dias Deus criou os céus e a terra, e no sétimo dia descansou (Shabat/sábado); Sete dias formam uma semana; durante 7 dias é celebrada a festa de Pessach (Páscoa judaica/libertação dos judeus no Egito); 7 semanas depois é Shavuot (Outorga da Lei-Torá); Sete meses depois de Pessach é Sucot ( Festa das Cabanas)” etc.

Outro dado interessante é que o ano novo judaico começa no sétimo mês bíblico (1º de Tishrei/setembro-outubro), Rosh Hashaná, ainda que o primeiro mês do calendário judaico seja Nissan (março-abril), quando se comemora a Páscóa judaica. O ano regular tem 354 dias, encerrando-se em 29 de Elul (agosto-setembro).


Previsões se estendem até o ano de 2240

Além dos números, as datas incluídas em seus versos também instigam e alimentam o mito Nostradamus. Benazra assinala que na carta ao “Rei da França”, em 1558, Nostradamus é muito preciso quando escreve que as suas previsões vão de 14 de março de 1557 até o início do 7º milênio, em... 3797 (?), cobrindo um período de 2240 anos.

Para o pesquisador, o vidente utilizou-se do calendário hebraico em seu enigma cronológico: o ano de 1557 corresponderia ao ano hebreu de 5318; o ano de 2001 equivaleria ao 5762; e 2240 ao ano 6001 do calendário judaico, às portas do 7º milênio. Logo, as datas de “julho de 1999” ou “11 de setembro de 2001”, que provocaram acaloradas discussões e controvérsias, estariam inseridas em uma contagem de tempo alheia ao período da chamada Era Comum, já que Nostradamus, como cabalista, não contabilizaria o fim dos dias pelo Novo Testamento.

Uma curiosidade: a médium mais famosa da Inglaterra, Doris Collins (1918-2003), conhecida por reivindicar para si poderes de clarividência e de cura, declarou que conseguiu manter contato com Nostradamus uma única vez. Ele lhe teria dito que, embora tivesse mudado de religião, isso não modificaria o fato real de que nascera judeu (site Cristian Answers.net).

Planetas determinam o destino do homem

No livro “Universo Kabbalístico”, o inglês Z’ev ben Shimon Halevi – escritor e professor de Cabalá - afirma que a astrologia sempre esteve dentro da Cabalá judaica, apesar de muitos negarem o fato. “Até no Talmud há muita discussão sobre a influência do macrocosmo sobre o homem: por exemplo, um rabino chamado Hanina argumentava que os planetas determinavam a sina de uma pessoa, e um outro rabino, conhecido como Rava, declarava que a sorte de um indivíduo não dependeria de merecimento, mas do seu planeta regente”.

Halevi assinala que nesses debates com rabinos contrários à ideia do poder atuante dos astros, ninguém negava a validade das influências celestiais, apenas o seu “governo” sobre Israel. “A palavra mazalot, que significa zodíaco, tem a mesma raiz de mazal (fortuna), e até hoje os judeus usam a expressão mazal tov (boa sorte) nas festas e celebrações, sem se darem conta de que a palavra trata de influências astrológicas”, explica o professor. E mais: o número 77 é o valor da palavra hebraica mazal.

Nostradamus também previu a criação do estado de Israel

Outro tema abordado por Nostradamaus em suas Centúrias diz respeito ao retorno do povo judeu à terra de seus antepassados. O pesquisador Robert Benazra lembra que na quadra III-97 o astrólogo escreveu: “A nova lei ocupará a nova terra, em direção a Síria, Judéia e Palestina, o grande império bárbaro desabará...”. O conteúdo dos versos está em sintonia com as profecias de Zacarias (Eu farei chegar o meu povo e ele permanecerá no centro de Jerusalém – VIII.8) e de Isaías (Nesse dia os sobreviventes de Israel irão voltar- X.20; O Eterno juntará os exilados de Israel e reunirá os dispersos de Judá, dos quatro cantos do mundo- XI.12).

“Deus faz os seres humanos profetizarem”

Estudioso da mística judaica, Nostradamus tinha conhecimento de que, segundo o Talmud, a era dos “Verdadeiros Profetas” tinha chegado ao fim na primeira geração do Segundo Templo (515 antes da Era Comum). Mas, provavelmente, também teria lido “O Guia dos Perplexos”, escrito em 1190 por Maimônides. Na obra, o grande médico e filósofo judeu, nascido na Espanha, expõe os Treze Princípios da Fé e fala sobre a crença de que “Deus faz os seres humanos profetizarem”. Porém, o espírito da verdadeira profecia só retornaria ao povo judeu um pouco antes da Era Messiânica e da total revelação da Torá (o conteúdo dos espaços em branco, entre as palavras, seriam dados a conhecer).

Segundo o rabino Yossef Benzecry, da sinagoga Beit Chabad, não se sabe como nem quando a era do Messias irá chegar. Há uma data-limite que é o ano judaico de 6000 ( ano comum de 2240). Esse prazo se deve ao fato de que cada milênio simboliza um dia da semana e o sétimo dia, o sábado, corresponde ao período de paz, descanso, tranquilidade e espiritualidade. Assim, a Era Messiânica corresponderia ao Milênio Sabático.

Até lá, os Sábios levariam adiante a Tradição e, apesar da inspiração, conhecimento, visões e previsões que poderiam ser dotados, a percepção que se formou foi a de que a cada geração que se sucedia, o nível espiritual tornava-se inferior à anterior, resultando em uma frase muito usada pelos mestres aos seus discípulos: “Se nossos predecessores foram como anjos, nós somos apenas homens”.

Investindo nessa máxima, Nostradamus utilizou com sucesso a sua ancestralidade e os conhecimentos do hebraico e da Cabalá - ainda uma fonte oculta e incompreensível para a maioria das pessoas – para ditar as suas herméticas previsões. O efeito paradoxal e confuso de seus versos funcionou a seu favor e a sua obra tem se mostrado um campo aberto a exercícios de adivinhações e a teorias relacionadas com o fim do mundo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Eleições na Unesco: Sobre palavras e ações


por Sheila Sacks

Vamos iniciar o nosso texto com uma pergunta: será que o leitor ou alguém de suas relações tinha conhecimento, há algumas semanas, do nome e da nacionalidade do chefe da Unesco, a agência da ONU para Educação, Ciência e Cultura? Pois é, o diplomata japonês Koïchiro Matsuura exerce esse importante cargo de diretor-geral desde 1999 (em 2005 foi reeleito por mais quatro anos) e é quase certo que o grande público continuaria alheio a esse detalhe se não fosse o imbróglio constrangedor de sua sucessão, disputada por um ministro da cultura que já propôs a queima de livros em hebraico.


Considerado favorito, o egípcio Farouq Hosni só perdeu na quinta apuração, de forma apertada, por apenas quatro votos. Ou seja, foi apoiado por 27 dos 58 membros do comitê votante. Uma derrota preocupante, pois revela o tamanho da adesão obtida pelo candidato do Egito, malgrado a imensa repercussão negativa de sua candidatura, expressa de maneira veemente nos meios de comunicação por intelectuais, jornalistas, diplomatas, educadores e até políticos de várias nações.


Em relação à participação do Brasil, a questão desde o início foi tratada publicamente pela diplomacia brasileira como uma troca de favores. Tanto que o chanceler Celso Amorim jamais se sentiu inibido em suas justificativas em prol da candidatura egípcia, ainda que as mesmas fossem questionadas por muitos em razão da flagrante incompatibilidade com o que se convencionou designar de ética e de bons costumes. Envolvido até o pescoço nas tramas de bastidores da geopolítica – um jogo de poder usualmente apresentado pela mídia sob uma artificiosa terminologia que agrega siglas e títulos como G-8, G-20, emergentes, países em desenvolvimento etc. – o ministro já sinalizava, em maio deste ano, o rumo do voto brasileiro.


Tolerância zero para o antissemitismo


Na ocasião, entrevistado pelo jornal Folha de S.Paulo, ele descartou qualquer apoio à candidatura do diplomata Marcio Barbosa, diretor-adjunto da Unesco, por ver nela uma ameaça à pretensão do Rio de Janeiro em sediar a Olimpíada de 2016. Segundo Amorim, "cada candidatura tem um custo para as outras e pode gerar desgaste em termos de apoio", visto que naquele momento o governo brasileiro estava empenhado na candidatura do Rio para abrigar os Jogos Olímpicos: "Fizemos uma opção geopolítica", afirmou o ministro. "O Brasil tem uma aproximação com os países árabes e africanos que apoiam a candidatura egípcia." Uma posição que, aparentemente, colaborou para a conquista das Olimpíadas para o Brasil na votação em Copenhague (2/10), dez dias depois das eleições na Unesco, encerradas em 22 de setembro.


Interessante é que o ministro de Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, que esteve em julho no Brasil e depois estendeu a sua viagem à Argentina, Peru e Colômbia (primeira visita de um ministro do exterior israelense ao Brasil, em 22 anos), também parece advogar uma nova configuração para a política externa de seu país. De acordo com o portal de notícias "Aurora-Israel", o gabinete do ministro elaborou um estudo sigiloso sobre a política externa de Israel praticada no passado em relação ao resto do mundo. "Durante décadas", revela o documento, "Israel se descuidou por completo de regiões como a América Latina, África, Europa Oriental, Bálcãs (sudeste europeu), América Central e sudeste asiático. O Ministério de Relações Exteriores transformou-se em um ministério de relações israelenses-palestinos. E o custo dessa negligência tem sido imenso, evidenciando-se na ONU e em outros centros internacionais." Segundo o site, essa nova política defendida por Lieberman prevê uma maior aproximação com outras potências mundiais e com os países em desenvolvimento, buscando novos parceiros, além da sua já consolidada aliança com os Estados Unidos.


Por outro lado, o estudo também preconiza uma política de "tolerância zero" para comportamentos e expressões de antissemitismo em qualquer parte do mundo.


Vozes importantes não calaram


Mas, voltando à votação na Unesco, que deu uma vitória apertada à diplomata búlgara Irina Bolkova, custa a crer que uma organização composta por 193 países-membros e voltada basicamente para a difusão da educação, principalmente nas nações mais pobres, escapou, por pouco, de ser comandada por um personagem que em um determinado momento de sua vida pública foi capaz de expressar pensamentos tão mórbidos e racistas em relação a uma cultura e a um povo.


Criada em 1945 e sediada em Paris, a Unesco também tem como metas prioritárias contribuir para a paz e a segurança mediante o pluralismo e a diversidade de ideias, a liberdade de imprensa e a salvaguarda do patrimônio cultural dos povos, representada pela preservação das entidades culturais e tradições orais, a promoção de livros e a leitura. E foi exatamente aí, no quesito "livros", que o diplomata egípcio se aproximou do abominável, ao defender perante o parlamento, em 2008, a queima de livros israelenses em todas as bibliotecas de seu país. Não sem antes expelir ofensas inaceitáveis e desrespeitosas ("a cultura israelense é inumana, agressiva, racista, pretensiosa, rouba o que não lhe pertence...") que, se dirigidas a outras nações, talvez resultassem em um penoso impasse diplomático. No entanto, devido ao papel do Egito como mediador em conflitos na região e ao tratado de paz entre os dois países, que vigora há 30 anos, o assunto não teve conseqüências mais sérias.


Importantes vozes, porém, não se calaram diante de tamanho descalabro e repercutiram suas objeções à candidatura do egípcio. A escritora francesa Simone Weil, a primeira mulher a presidir o Parlamento europeu (1979-1982), condenou as declarações de Hosni e pediu o boicote à sua candidatura. O secretário-geral da organização Repórteres Sem Fronteiras, o jornalista Jean-Fraçois Julliard, lembrou que o diplomata egípcio não era um bom candidato para a Unesco porque representava um país que não respeita a liberdade de expressão, principalmente na internet. O combativo Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz de 1986, acompanhado de outros intelectuais, alertou a comunidade internacional, em artigo no jornalLe Monde, sobre o passado e as declarações racistas de Hosny.


Compromissos não podem ser questionados


Contudo, houve uma pessoa em todo esse contexto permeado de palavras de indignação, protestos e manobras de bastidores, a quem coube produzir um gesto raro e admirável, quase um ato de redenção, capaz de sugerir um viés de esperança em um mundo político cada vez mais afastado dos valores morais que devem nortear o comportamento e as ações nas sociedades civilizadas. Trata-se de Manuel Maria Carrilho, embaixador de Portugal na Unesco, que não aceitou as instruções de votar no candidato egípcio, o que obrigou o governo português a enviar outro diplomata a Paris para executar as suas instruções.


Portugal decidiu apoiar Hosni na expectativa de contar com o voto do Egito à sua candidatura a membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU para o biênio 2011-2012. Carrilho, de 58 anos, se recusou a comparecer às últimas votações e a imprensa portuguesa especulou que o diplomata tenha alegado razões de consciência para não votar no egípcio, denunciado por suas declarações antissemitas e por representar um país onde se pratica a censura.


Muito respeitado em Portugal, Carrilho é doutor em Filosofia Contemporânea, escritor, jornalista (foi colunista do jornalLe Monde e manteve uma coluna semanal, até 2008, no jornal Diário de Notícias, um dos mais lidos do país), ministro da Cultura (1995-2000), deputado e vice-presidente do Partido Socialista, de 2002 a 2008. Entre medalhas e condecorações recebidas, destacam-se a Gran Cruz da Ordem de Mérito Civil, do rei da Espanha (1996), a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, do governo brasileiro (1997) e o Grand Offícier da Légion d’Honneur, do governo francês (1999).


Nomeado embaixador de Portugal junto à Unesco em janeiro deste ano, o diplomata apoiava a austríaca Benita Férreo-Waldner, da Comissão Européia, instituição que representa e defende os interesses dos países europeus. Esta foi a primeira opção do governo português para o comando da Unesco e quando a comissária retirou a sua candidatura, Portugal passou a apoiar o candidato egípcio. Sobre a diferença de opiniões com Carrilho, o Ministério de Negócios Exteriores de Portugal declarou, em nota à imprensa, que "os compromissos do Estado português são superiores e não podem ser postos em causa". Conforme publicado no matutinoDiário de Notícias, "a decisão de Carrilho de não votar não merece comentários".


Os "destruidores de livros"


Contudo, a sua corajosa atitude se enquadra de forma primorosa no elucidativo pensamento do escritor norte-americano Ernest Hemingway acerca do que seja, de fato, um feito. Dizia o prêmio Nobel de Literatura de 1954: "Jamais confunda movimento com ação."


Vale lembrar ainda que o que estava em jogo, prioritariamente, era a mudança do comando da mais importante e respeitada organização internacional de fomento à educação e cultura, bastião da luta contra o preconceito e a censura nos meios de comunicação. Bem mais do que eleger, por exemplo, um síndico de prédio que, mesmo assim, se deseja que tenha bons antecedentes. A retórica de amenizar os pensamentos explicitados pelo candidato egípcio com artifícios do tipo de que "não foi bem isso que ele quis dizer" e que "a declaração foi retirada de seu contexto original" consiste em argumentações escapistas que não convencem. Na realidade, as palavras devem sem manipuladas com cuidado, pois são mais poderosas que bombas atômicas. Conselho da época de 1930, da britânica Pearl Strachan Hurd, que continua a valer neste século 21.


Estimular, através das palavras, uma prática condenável que a humanidade deseja crer que jamais será ressuscitada, é uma afronta à inteligência e à sensibilidade das pessoas de bem. O filósofo e poeta alemão Heinrich Heine já escrevia, lá pelos idos de 1820, que aqueles que se mostram dispostos a queimar livros acabam, cedo ou tarde, por queimar homens. Palavras proféticas, tendo em vista que, um século mais tarde, livros de grandes autores como Freud, Marx, Einstein, Mann, Zweig, Remarque e o próprio Heine arderam em fogueiras públicas nas principais cidades da Alemanha, precedendo a tragédia do Holocausto.


Em seu livro História Universal da Destruição dos Livros (2006), o venezuelano Fernando Baez aponta o ódio, o medo, a soberba, a intolerância e a sede de poder como os motivos que animam os chamados "destruidores de livros" a seguir adiante. "Na verdade, a intenção deles nunca foi destruir o objeto em si, mas o que este representa – o vínculo com a memória, o patrimônio de ideias de toda uma civilização."