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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Meus Gloriosos Heróis


por Sheila Sacks

Se a década de 1940 marcou a história do século 20 pela barbárie do Holocausto ( ou Shoá, 'aniquilação', em hebraico), por sua vez também iluminou o mundo com personagens especiais, genuínos heróis de todas as épocas. Dois deles, Mordechai Anilevitch e Howard Fast merecem ser lembrados  quando mais uma vez celebramos a fé, a coragem e a liberdade na Festa das Luzes - Chanucá.

Líder da revolta do Gueto de Varsóvia, o jovem polonês Anilevitch tinha apenas 24 anos quando foi dizimado pela máquina nazista, em 1943. Já a salvo na Romênia, retornou à Polônia para organizar a resistência e mostrar ao mundo uma face judaica milenar, ancorada nos feitos e atos de nossos patriarcas e profetas. Membro do movimento sionista socialista Hashomer Hatzair, sua história de vida tem inspirando, ao longo dos tempos, gerações de jovens judeus a trilharem o caminho do idealismo, do amor à liberdade, do respeito e defesa dos valores tradicionais de nosso povo.

Também o escritor Howard Fast (1914-2003) era um jovem de 34 anos quando escreveu a versão literária sobre a luta e a resistência tenaz do sacerdote Matatias e de seus cinco filhos, tendo à frente Judá, o macabeu, diante da ordem arbitrária de um poder central que impunha o culto, as leis e os costumes gregos na terra de Israel. Um épico sobre a saga dos irmãos guerrilheiros de Modiin, belíssimo enredo de audácia e persistência vivido há mais de 2 mil anos - algo em torno de 165 antes da era comum – por uma geração aquinhoada com as bênçãos da fé, da firmeza e da devoção.

Um hino à liberdade e à coragem


A obra "Meus Gloriosos Irmãos" foi publicada em 1948 e tem a mesma idade do estado de Israel.
É um hino à liberdade e à coragem, tendo marcado a adolescência de milhares de jovens judeus em todo o mundo.

Era uma época particularmente difícil para os judeus,  do pós-holocausto e da fundação de uma nação. O livro de Fast foi um talismã dos mais importantes para muitos jovens que, militando em movimentos sionistas, deixaram o aconchego de seus lares e ignorando os apelos de pais preocupados se engajaram na luta pela terra prometida.

A determinação, a perseverança e a crença inabalável dos hashmoneus em seus objetivos encontravam semelhança e afinidade no heroísmo dos jovens da Haganá, durante aqueles anos difíceis. O escritor trouxe o bandeira de Judá para bem perto destes jovens audazes e sonhadores que liam e reliam aquelas páginas estimulantes, com o olhar e o coração em Sion.

Apesar do seu passado de militante comunista (foi preso em 1950) Fast sempre exaltou as suas raízes judaicas. Autor de mais de 80 livros traduzidos em 82 idiomas (dos quais 20 se transformaram em filmes ou seriados de TV, como 'Spartacus', de 1960), ele considerava o movimento dos kibutzim a mais importante experiência socialista do século.

Em carta ao jornalista e escritor anglo-israelense Daniel Gravon, ele conta que quando era jovem sonhava em atravessar a pé a Galileia e ir até o sul de Israel. Isto nunca aconteceu, mas em 1944, durante a 2ª Guerra Mundial, o escritor teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, a cidade de Jerusalém e outras áreas de Israel. Ele estava a bordo de um avião militar, cujo destino era o Líbano. “Eu pedi ao piloto para que voasse em baixa altitude, e ele, de bom grado, atendeu ao meu pedido”, lembra Fast. “Nós passamos por Jerusalém e seguimos para o norte. Eu observava Israel , as áreas desertas e devastadas com alguns raros borrões verdes de um kibutz, ali e acolá. Trinta e cinco anos depois, quando retornei, a mudança era enorme.”

Mensagem permanece atual


Dois anos antes de falecer, Fast manifestou a sua tristeza por não ter condições físicas para mais uma vez visitar Israel. “Eu gostaria de retornar, mas receio que isso seja só mais um sonho. Afinal, faço 87 anos no próximo mês de novembro. Eu caminho devagar e me canso facilmente”.

Corria o ano de 2001 e Fast também revelou a sua preocupação com o destino de nossa civilização, depois do ataque de 11 de setembro, nos Estados Unidos. “Vivemos em um mundo que está ficando insano e percebo que as pessoas estão evitando viajar. Eu sinto que nunca mais verei Israel e isso, para mim, é um pensamento doloroso.”

É interessante notar que passadas tantas décadas desde a publicação de "Meus Gloriosos Irmãos", o livro continua a constar na bibliografia recomendada aos madrichim para ser utilizado nas atividades com crianças e jovens, durante o período de Chanucá. Apesar do contexto sócio-cultural ter sofrido mudanças radicais e a juventude atual em nada se assemelhar àquela dos anos 1940 e 1950 – quando inexistiam a globalização e a tecnologia digital -  o conteúdo da obra de Fast permanece irretocável em seu sentido mais profundo: o de transmitir valores como o heroísmo e a bravura que não se acovardam mesmo diante de inimigos poderosos.

Com o livro de Fast, a festa de Chanucá ganhou novo contorno e uma mensagem mais moderna e vibrante. O combate dos macabeus fundiu-se com a própria luta pelo nascimento e perpetuação do estado de Israel, que mesmo nos dias que correm ainda mantém-se em alerta  na defesa de sua cultura, de seu modo de ser, de sua religião e de sua liberdade.

Em tempo: a esses dois heróis de nossa história devo em grande parte o possível mérito do conto “Araguaia, meu amor”, premiado e incluído na coletânea "Escritos Revelados". De Anilevitch, o modelo de coragem solidária, e de Fast o exemplo de uma arte narrativa engajada e inspirada.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Araguaia, meu amor


por Sheila Sacks
do livro "Escritos Revelados"  ( conto vencedor do Concurso literário Moacyr Scliar 2009, do Centro Cultural Mordechai Anilevitch do Rio de Janeiro )

O email dizia pouco: “Cara Aniela. Foi bom revê-la. Me perdoe os dez anos de silêncio. Lino.” O homem de tez morena, cabelo grisalho e porte atlético fechou o notebook. A mensagem o remetia a um tempo que teimava em voltar nos momentos mais inoportunos. Em poucas horas estaria com a família no casamento da sobrinha, na aprazível costa espanhola. Tão diferente e tão longe daquelas matas molhadas e do chão de barro de Xambioá. Uma vila sertaneja, nos idos de 1974, que na semana do carnaval mudava de humor e de roupa, em animados bailes e blocos de rua.

E foi naqueles dias perdidos no tempo que o tenente Lino conheceu Aniela, menina de 17 anos, franzina, cabelo escorrido, rosto de anjo, gestos delicados e voz baixa. Ela chegara à localidade para passar o carnaval com os avós, o seu Zé e dona Maria, donos do armazém-bar que vendia fiado para o povo da região. Tenente Lino tinha 30 anos e estava noivo de uma professora no Rio de Janeiro. Mas ficou fascinado por Aniela logo que a viu. Os avós tentaram escondê-la, mas o tenente ia ao armazém várias vezes ao dia e se convidou para jantar na casa do seu Zé na terça-feira de carnaval.

Por sua vez Aniela também não conseguia esconder a atração que sentia pelo tenente. Conversavam no balcão do armazém e na varanda da casa sob os olhares preocupados de seu Zé e dona Maria. Finda a semana, Aniela partiu e o tenente deixou com ela um número de telefone. Esperou semanas, meses, pela ligação. Entretanto, isso jamais ocorreu.

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Em Jerusalém a noite quente e abafada levou Aniela a abrir a janela. Em pé olhava o céu escuro, sem estrelas, que ameaçava desabar em sua cabeça. Há pouco havia recebido a mensagem do general em meio a um repentino mal-estar. A ansiedade que vez ou outra comprimia seu peito como uma dura couraça mostrou as garras e a fez ofegar. Lembrou do evento, há quase dez anos, no limiar do século 21, e do homem empertigado a sua frente, meia-idade, rosto magro, com sulcos profundos na testa e na face. A intensidade daquele olhar não deixava dúvidas quanto a descoberta. Por um momento Aniela sentiu vergonha dos cabelos tingidos e da maquiagem esmerada. Em um gesto mecânico de cumprimento suas mãos se tocaram e antes que alguma conversa pudesse ser iniciada ela pediu licença e se afastou.
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No amplo salão da representação diplomática o grupo de militares se despedia de seus anfitriões após alguns dias de visita à feira de armamentos em Tel Aviv. O chefe da delegação, um austero coronel do exército, mostrava-se impaciente desde que a assessora de um dos adidos sul-americanos presentes à recepção passou por ele apressada. A mulher esplêndida, de pernas bem torneadas e vestido justo orientava os garçons, do outro lado da sala. Pouco antes, ao ser apresentada ao coronel, ela pareceu constrangida e não conversou. Apartou-se do grupo e desapareceu por um das portas do salão. Agora o militar percebia que ela vinha em sua direção e estranhamente a vista começou a embaçar. Embaralhando sentidos e sentimentos se deu conta que Aniela sorria, rosto de menina, pés soltos nas gastas sandálias japonesas, cabelos escorridos em um mal-amarrado rabo-de-cavalo. Respirou fundo e sentiu um fio de suor resvalar pela nuca. Bem perto, seus corpos quase se tocando, ela estendeu um papelzinho dobrado. Surpreso, magoado, desamparado, não se conteve e sussurrou: Aniela do Araguaia.

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Estudar no colégio Pedro II deu a Aniela Rubinstein uma outra visão do mundo. Filha de uma chapeleira da comunidade judaica do Rio, ela e o irmão viviam meio que apartados de sua origem. Dona Eva, mãe de Aniela, evitava falar do passado. Dos pais, avós, irmãos e tios reduzidos a cinzas nos crematórios da Polônia. Escondida no porão da casa da professora de ginásio, Eva sobreviveu por milagre e pode dar à filha o nome de quem a acolheu. Anos depois, no navio norueguês que a transportou para a América do Sul, ela conheceu um violinista do campo de Dachau. Desembarcaram no Rio, casaram e foram morar no Estácio. Mas a tuberculose a deixou viúva e com duas crianças para alimentar.

Assim, quando Wilsão pediu a Aniela para que o ajudasse naquela missão, a resposta veio imediata. Sua idolatria juvenil por Che e Fidel e o gosto pela aventura levaram Aniela a mentir. Contou para a mãe que iria trabalhar como monitora em uma colônia de férias em Sacra Família e partiu para a região do Araguaia.
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Sob o codinome Selma foi apresentada ao seu Zé e dona Maria, donos de uma vendinha naquele fim de mundo. Trazia um documento em linguagem cifrada para ser entregue ao grupo que lutava na selva. O trato era ficar alguns dias na casa do comerciante, aguardando a resposta, e depois sumir. Porém o tenente bonitão do destacamento da região não arredava o pé das redondezas do balcão. Puxava conversa com Selma a troco de nada. Ao seu Zé elogiou a beleza e a doçura de Selma, sendo informado que a jovem era a tal neta do Espírito Santo que chegou de surpresa para visitá-lo. Uma noite, o tenente apareceu na hora do jantar. A casa ficava nos fundos do armazém e quando a figura alta, fardada, assomou na varanda, todos engoliram em seco. Mas, sorridente, o tenente pediu licença para participar da janta, pegou o banquinho na cozinha e se sentou ao lado de Selma. Nestas alturas, os dois já estavam apaixonados.

Em cinco dias veio a resposta e Selma foi embora. Horas antes, o tenente deu um número de telefone e pediu para que Selma ligasse. Estaria no Rio em seis meses para uma licença. Selma prometeu telefonar. Na despedida chorou ao abraçar seu Zé e dona Maria. Semanas depois, em conversa com Wilsão em uma rua da Tijuca vem a saber da morte do casal de Xambioá, encontrado amordaçado e com tiros na cabeça. Preocupado, Wilsão diz que vai fugir do país e aconselha Aniela a fazer o mesmo.

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A ordem superior era poupar os adolescentes. O tenente Lino pediu a seu informante para que seguisse os passos de Aniela no Rio. Após trinta dias, chegou o primeiro relatório: “A pessoa em questão pertence a um grupo de judeus que usam camisas de brim azul e se reúnem em uma casa de Botafogo. Fiz amizade com o vigia e soube que são comunas, mas não atuam no Brasil. Todo ano um punhado deles vai embora para a Palestina, para viver e trabalhar em fazendas coletivas, iguais às da Cortina de Ferro. A pessoa investigada também vai deixar o país. Em anexo estão as fotocópias dos passaportes dos comunas que vão viajar no meio do ano.”
O tenente leu duas vezes o documento com selo de confidencial antes de guardá-lo no cofre. Sentia-se traído pelos sentimentos. No fundo da alma tinha a convicção de que Aniela o amava e que iria telefonar. Esperava vê-la no Rio e talvez, com o tempo, abrir o jogo. Contar que sabia de sua missão e de sua falsa identidade. Explicar a bobagem em que se meteu por pura infantilidade.

Os dois meses seguintes foram difíceis para o tenente. Infectado pela malária teve que ser hospitalizado em Belém. De volta ao destacamento, um novo relatório com carimbo de urgente já o esperava. Leu avidamente o seu conteúdo, da primeira à última palavra: “Pegamos o Wilsão... e finalizando, os comunas judeus estão de partida. Preciso de uma diretriz. Quais são as ordens, tenente?”.
No dia seguinte, após uma noite mal-dormida, o tenente despachava a resposta: “Trabalho encerrado.”

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O casamento da sobrinha na igrejinha medieval fez a esposa do general chorar. Padrinhos dos noivos, o enlace pegou a família de surpresa. Estudante de artes em Paris, a jovem namorava um colega espanhol. A gravidez inesperada acelerou a decisão de ambos de casar e conhecer a Malásia.

Depois da cerimônia, o general seguiu para a boate onde os recém-casados foram saudados por amigos alegres e poliglotas. O som vibrante da música empurrou os convidados para o centro da pista. O general, no canto do bar, imaginou Aniela lendo o email. Talvez em Tel Aviv, Jerusalém ou qualquer outra cidade daquela terra estrangeira. Sentiu uma vontade incontrolável de fumar. Na parafernália eletrônica de cores e ruídos ao seu redor, o general só ouvia mesmo o grito da angústia e da solidão que o mantinham cativo em suas teias satânicas. Pôs uma pastilha de hortelã na boca e saiu da boate. Lá dentro, a música do final da década de 1970 explodia estridente, repetindo-se em um coro de vozes cambaleantes: Please don’t go, don’t go, don’t go away, please don’t go, don’t go...

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Amanhecia em Jerusalém e Aniela entrou na sala de trabalho entulhada de folhetos, cartazes e recortes de jornais. Na parede, a folhinha estampava o ano 2009 em relevo. Estava sozinha e resolveu responder ao general: “Certos encontros, ainda que breves, sobrevivem ao tempo e a lógica. Tive a certeza disso na festa do consulado. Compreendi que a minha vida sempre esteve em suas mãos, general Lino Sotero. No Araguaia, quando não me executou. No Rio, quando permitiu a minha partida. Em Tel Aviv, quando percebi tudo isso. De alguma forma devo a você a minha história.”
Yafa Navon, da ONG World No Wars – Mundo sem Guerras.
P.S. Ainda guardo o número de telefone. Que bobagem!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Não é só Ahmadinejad que nega o Holocausto


por Sheila Sacks

Em 2006, a cidade de Munique viveu dias de glória com a realização do primeiro jogo da Copa do Mundo da Alemanha. Um estádio monumental – o Allianz Arena - que custou quase 400 milhões de dólares, serviu de cenário para a estréia do time da Casa. O antigo estádio olímpico, aquele do atentado aos atletas israelenses, em 1972, ficou apenas como palco de um movimentado concerto ao ar livre.
O escocês Kevin Macdonald, autor do premiado documentário “On Day in September” (Oscar da categoria, em 2000), que aborda o sequestro e a morte por um comando terrorista dos 11 atletas israelenses, justificou de maneira contundente o motivo que o levou a realizar o filme: “De alguma forma o Massacre de Munique foi uma transgressão inominável, a destruição de um ideal de paz e fraternidade”. Seu produtor, John Battsek, foi mais adiante: “A investigação para o documentário revelou uma história de mistério, conspiração, tragédia, inépcia e terror”.

Amigo de Hitler era presidente do Comitê Olímpico Internacional

Frente a tal enunciado, comecemos com a performace do Comitê Olímpico Internacional. A entidade era presidida, em 1972, pelo norte-americano Avery Brundage (1887-1975), o mesmo que nas Olimpíadas Nazistas de Berlim, em 1936, havia rejeitado a proposta dos Estados Unidos de boicotarem a competição, em razão dos atletas judeus alemães estarem proibidos de participar. Brundage tinha sido presidente do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, era um entusiasta do regime nazista e amigo de Hitler.
Nascido em Detroit, esse engenheiro e desportista que foi o único norte-americano a presidir o Comitê Olímpico Internacional, convenceu os seus patrícios a participarem da competição e, em troca, a sua empresa de engenharia recebeu um cheque em branco para construir a embaixada da Alemanha em Washington. Três décadas depois, em uma dessas coincidências lamentáveis, esse mesmo Brundage, na cerimônia realizada no dia seguinte à tragédia, preferiu se calar sobre o assassinato dos atletas israelenses. Em seu discurso apenas exaltou o espírito dos Jogos e anunciou que a festa não ia parar.

Abu Mazen, da Autoridade Palestina, recolheu recursos para o massacre

Há exatos dez anos, uma autobiografia intitulada “Palestine: From Jerusalém to Munich” revelou mais detalhes do ataque à Vila Olímpica. Publicada na França, em 1999, seu autor é Mohammed Oudeh (Abu Daoud), um dos mentores confessos do Massacre de Munique. No livro ele admite que o Setembro Negro era o nome-fantasia adotado pelos membros do Fatah, quando dos ataques terroristas. Daound também descreve como Yasser Arafat e o atual presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas (Abu Mazen) - o homem encarregado de levantar os recursos para a viabilização da operação – desejaram-lhe boa sorte e o beijaram no momento em que ele finalizou os preparativos para o ataque, que vitimou um total de 17 pessoas.

Tese de doutorado de Abu Mazen questiona o Holocausto

Sobre Mahmoud Abbas, vale reproduzir um item de seu histórico escolar: em 1982, dez anos depois do atentado terrorista, ele concluiu seus estudos na Universidade de Moscou, obtendo o título de PhD em História Oriental. A tese de seu doutorado questiona e nega os números do Holocausto e inclui uma fantástica aliança entre nazistas e líderes sionistas, durante a II Guerra Mundial, com o intuito de exterminar todos os judeus da Europa. A fantasia mal-intencionada travestida de “investigação histórica” intitula-se “O Outro Lado: As secretas relações entre o Nazismo e o Movimento Sionista”.

Ainda acerca do líder palestino, em 2003 a Organização israelense de Direitos Humanos Shurat Hadin Israel Law Center - que dá assistência jurídica aos judeus vítimas de atos terroristas e os representa nos fóruns internacionais - enviou cartas ao então presidente Bush e ao Chanceler Gerhard Schroeder, conclamando as autoridades norte-americanas e alemãs a abrirem uma investigação, em seus territórios, contra Mahmoud Abbas por suas comprovadas ligações com o Setembro Negro, principalmente na função de recolhedor de fundos para prover atos terroristas, como o de Munique. A ação teria consistência jurídica já que um dos atletas assassinados também tinha cidadania norte-americana e um policial alemão foi morto na operação.

Terroristas se abrigavam no centro islâmico de Munique

Em um artigo no Wall Street Jornal, em 2007, o jornalista Ian Jonhson, após consultar arquivos oficias nos Estados Unidos, Inglaterra, Suíça e Alemanha, afirmou que a cidade de Munique, há várias décadas, havia se tornado o centro irradiador de uma organização radical denominada Fraternidade Muçulmana (Muslim Brotherhood), banida do Egito por Gamal Abdel Nasser, nos anos 50. Quase todos os acusados de atos terroristas tinham, algum dia de suas vidas, passado por Munique e pelo seu centro islâmico. Essa intimidade entre a cidade alemã e os muçulmanos, segundo Jonhson, tinha se iniciado à época de Hitler, depois da invasão à União Soviética, quando o regime nazista deu uma guinada das mais espertas, transformando um milhão de soldados muçulmanos dos países da Cortina de Ferro, aprisionados em combate, em aliados e amigos do Reich. Inclusive uma dessas brigadas formada por muçulmanos foi destacada para a Polônia, onde teve participação ativa na aniquilação do Gueto de Varsóvia, em 1943.

Depois da guerra, esses combatentes nazistas se instalaram em Munique e acolheram a organização Fraternidade Muçulmana de braços abertos, sendo responsáveis pela fundação, em 1958, do Centro Islâmico de Munique. Um ano depois, participantes do Congresso Muçulmano Europeu selaram o pacto de tornar a capital da Baviera um pólo de convergência para todos os muçulmanos residentes na Europa. Um dos cléricos (imam) mais atuantes do Centro Islâmico de Munique foi Nurredin N. Nammangani, nascido no Uzbakistão e que serviu nas fileiras de Hitler, mais especificamente na organização paramilitar SS. Durante décadas (faleceu na Turquia em 2002) ele mesclou religião e anti-semitismo em suas prédicas às centenas de colegiais e universitários muçulmanos de várias partes da Europa. Outros membros da cúpula do Centro de Munique citados na reportagem também tiveram ligações documentadas com os nazistas, de acordo com a pesquisa do jornalista norte-americano.

Para o historiador alemão Stefan Meining, o Centro Islâmico de Munique está na base de uma ampla rede que se ramificou silenciosamente pelo resto do mundo, a partir do fim da II Grande Guerra, difundindo um radicalismo a favor da “guerra santa”, que simplesmente não existia antes da II Guerra Mundial. O encontro da teoria nazista com o fundamentalismo religioso da Fraternidade Muçulmana foi o responsável pelo nascimento da figura híbrida e aterradora do terrorismo moderno, uma das grandes tormentas que o mundo ocidental tem enfrentado. “Se você quer entender a estrutura política do Islã, você tem que se debruçar sobre o que aconteceu em Munique”, alerta o historiador.

Islamismo antissemita tem origens nazistas

Outro estudioso alemão, o cientista político Matthias Kuntzel, também relaciona a Fraternidade Muçulmana com as ideologias extremistas da jihad (guerra santa) dos grupos Fatah, Hamas, Hezbollah e al-Qaeda. Em seu trabalho intitulado “O Islamismo antissemita e as suas origens nazistas”, Kuntzel destaca que até 1930 a doutrina islâmica tradicional não pregava o ódio aos judeus e nem falava em guerra santa. Posteriormente, a doutrina absorveu o marketing da propaganda nazista e antissemita européia, recebeu o apoio financeiro e estratégico de Hitler - que financiou as lideranças islâmicas ligadas à Fraternidade Muçulmana (fundada em 1920) - e promoveu atos de terror, morte e perseguição aos judeus no Egito e na Palestina, ainda sob o Mandato Britânico. Slogans do tipo “Judeus fora da Palestina e do Egito” e “Morte aos Judeus” eram parte do arsenal de intimidação da Fraternidade que, após ser expulsa do Egito, se transferiu para a capital da Baviera.

Até Bento XVI considera difícil conciliar o islamismo com a modernidade

Em setembro de 2005, o Papa Bento XVI – que doutorou-se em Teologia pela Universidade de Munique - coordenou um seminário privado em sua residência de verão, em Castelgandolfo, com religiosos e estudiosos do Islamismo. O encontro gerou polêmica porque o jesuíta norte-americano Joseph Fessio, declarou, em entrevista, meses depois, que o papa tinha dito que o Islamismo e a modernidade (democracia) não eram conciliáveis. Imediatamente, dois outros participantes do seminário se apressaram em desmentir a afirmação, declarando que não foi bem isso que o Papa quis dizer. Segundo estas fontes, o Papa havia considerado a conciliação do Islamismo com a modernidade muito difícil, mas não impossível.

É importante lembrar que o atual papa foi Arcebispo de Munique entre 1977 e 1981, e como tal fica difícil imaginar que não tenha tido contato com a liderança da Fraternidade Muçulmana do Centro Islâmico ou que não soubesse das atividades que lá ocorriam. Para o jornalista do Ásia Times, Spengler, pode parecer estranho que o Papa precise “sussurrar” quando demonstra concordância com a opinião dos muçulmanos tradicionais de que a profecia do Corão é imutável e que portanto não pode ser reformada. Diante disso, Spengler deduz que, se o Islamismo é incapaz de mudar, estamos todos caminhando para uma guerra de civilizações.

Experiência muçulmana em Munique se espalhou para outras cidades

Para o subdiretor do Instituto de Pesquisa de Contraterrorismo de Washington, Lorenzo Vidini, foi a partir de Munique que os muçulmanos conquistaram a Europa. O modelo pioneiro implantado em Munique, com uma rede de mesquitas, centros de apoio, grupos de estudos e organizações sociais espalharam-se pelo continente. “Enquanto resguardados por quatro paredes eles incitavam à guerra; para o mundo exterior o discurso era outro, com retórica moderada, e dessa forma, a Fraternidade ganhou força e aceitação política na Alemanha”. Hoje, o país tem 3,8 milhões de muçulmanos e estatísticas dão conta que, anualmente, 800 alemães se convertem ao Islamismo. Neste crescendo populacional também se inclui a comunidade judaica que, surpreendentemente, já atinge a cifra de 100 mil pessoas, constituindo-se a terceira maior da Europa. A queda do Muro de Berlim, em 1989, e a derrocada da União Soviética, em 1991, estimularam o êxodo.

Curso de Estudos Islâmicos e Judaicos promove o entendimento

Com as fronteiras abertas, os judeus do Leste Europeu esqueceram a cautela e se instalaram na Alemanha, com uma sem-cerimônia que tem provocado arrepios em muitos historiadores e sobreviventes do Holocausto. Mas, não em todos. Um exemplo é o professor israelense Menahem Ben-Sasson, ex-reitor da Hebrew University, que deu aulas na Universidade de Munique. Especialista em História Judaica da época medieval islâmica, ele participou do programa promovido pela Allianz Group, uma das maiores seguradoras do mundo, com sede em Munique. O projeto patrocina o “Curso de Estudos Islâmicos e Judaicos”, alternando professores judeus e muçulmanos, a cada semestre. Ben-Sassom conta que alguns colegas o criticaram quando ele resolveu aceitar o convite. Entretanto, o professor diz que se sentiu bem à vontade em seu trabalho e que inclusive usava a kipá quando transitava pelas ruas da cidade. Um avanço de tirar o chapéu, considerando que há pouco mais de sessenta anos, ser judeu em Munique era dispor de um passaporte para o inferno. Foi em seus arredores que funcionou o primeiro campo de concentração da Alemanha – Dachau – onde os judeus e outras minorias foram cobaias de abomináveis experiências ditas científicas.