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sábado, 30 de maio de 2009

Um repórter no Gueto de Varsóvia


por Sheila Sacks

Curzio Malaparte, jornalista italiano correspondente do Corriere della Sera, esteve no Gueto de Varsóvia em janeiro de 1942. Ele conta que a “cidade proibida” (assim chamada pelos nazistas) era circundada por um muro alto de tijolos vermelhos, “construído pelos alemães para fechar o gueto, como uma gaiola”. Na porta, vigiada por uma escolta de soldados armados da SS (Schutzstaffel - organização paramilitar nazista), estava afixado um edital instituindo a pena de morte para qualquer judeu que tentasse fugir. Por ordem expressa do governador alemão de Varsóvia, Ludwig Fischer, um guarda da Gestapo (polícia secreta nazista), “de olhar claro e frio”, o acompanhou “como uma sombra” durante toda a visita.

O jornalista relata que a sua presença ao lado de um guarda da Gestapo (polícia secreta nazista) despertou a curiosidade e o medo na multidão de “rostos barbudos, afogueados pelo frio, pela febre e pela fome”. Nas ruas do gueto ele se viu forçado a saltar, de espaço em espaço, por cima de cadáveres, já que “os mortos jaziam abandonados na neve, entre candelabros apagados, à espera das carroças dos coveiros”. A mortandade era grande e “muitos permaneciam na entrada das casas, nos corredores, nos patamares das escadas ou sobre as camas nos quartos apinhados de gente pálida e silenciosa”.

Malaparte observa ainda que os mortos eram recolhidos nas ruas e nas casas por grupos de jovens estudantes deportados da Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Holanda e Romênia. “Eram jovens intelectuais educados nas melhores universidades da Europa. Falavam francês, romeno e alemão. Entretanto, agora se apresentavam andrajosos, famintos, devorados pelos insetos e ainda doloridos das pancadas recebidas, dos insultos, dos sofrimentos padecidos nos campos de concentração e na terrível odisséia que os trouxera de Viena, Berlim, Munique, Paris, Praga e Bucareste até o gueto de Varsóvia.”

Jovens coveiros

Impressionado com os jovens coveiros, Malaparte escreve: “Eu me detinha a observá-los no seu piedoso trabalho. Tinham no rosto uma luz belíssima, nos olhos, uma juvenil vontade de se ajudarem mutuamente, de socorrer a imensa miséria do seu povo. Eles levantavam os mortos com delicadeza e os colocavam nas carroças puxadas por outros jovens andrajosos e macilentos.” Dias antes, nos guetos de Cracóvia e Czenstochowa, ele tivera uma estranha experiência com outros jovens judeus que, ao vê-lo uniformizado e ao lado de um guarda nazista, foram ao seu encontro estampando um misterioso ar de felicidade. “Parecia que a angústia da espera tinha chegado ao fim e que acolhiam aquele instante, até então temido, como uma libertação.” O jornalista conta que ao explicar que não era agente da Gestapo e nem sequer alemão, notou que a desilusão e a angústia tomaram conta de seus rostos. “Um deles”, lembra, “já tinha tirado o xale imundo e colocado nos ombros de uma senhora”, um gesto de adeus que se repetia entre os judeus quando a polícia ia buscá-los. “Ele estava lendo, em um canto da sala, quando eu apareci à porta da casa”, relata o autor. “Levantou-se de chofre, abotoou os sapatos, endireitou os trapos sujos que lhe serviam de meias, procurou o colarinho da camisa esfarrapada debaixo da gola do paletó. Tossia, cobrindo a boca com a mísera mão.”

Sem Utilidade

Desfazer-se das roupas e distribuí-las a parentes e amigos quando a Gestapo batia à porta era quase uma rotina entre os moradores dos guetos. Malaparte recorda que viu dois judeus completamente nus, um deles um rapazote de 16 anos, caminhando sobre a neve em uma manhã glacial de inverno. Ladeados por milicianos armados da SS, eles enfrentavam um frio cortante de 35 graus abaixo de zero. Sobre essa cena incrível, narrada pelo escritor ao governador da Cracóvia, Otto Wächter (morto em 1949), este justificou “amavelmente” a situação, explicando que os judeus se despiam porque, para eles, as roupas já não tinham utilidade.

Em outra oportunidade, convidado para um jantar de gala em homenagem ao general-governador da Polônia, Hans Frank (enforcado em 16 de outubro de 1946), o jornalista se viu envolvido em um animado bate-papo sobre o gueto de Varsóvia. Era um banquete dedicado à Diana caçadora, figura mitológica, e a cúpula nazista compareceu em peso. O local era o palácio Bruhl, antiga sede do Ministério das Relações Exteriores da Polônia transformado no QG do governo alemão de Varsóvia. No cardápio iguarias como faisões, lebres e um gamo das florestas de Radziwilow, trazido por dois criados de libré azul. Em seu dorso estava cravada uma rubra bandeirinha hitleriana com a negra cruz gamada”. Para a sua surpresa, Malaparte foi o primeiro a ser servido pela “virtude” de ter nascido italiano. Presente à mesa, o governador de Varsóvia, Ludwig Fischer (morto em 1947), escorria com a colher um molho dourado sobre as fatias de carne e detalhava como eram sepultados os judeus no gueto: ”uma camada de cadáveres e uma camada de cal”, explicava, como se dissesse “uma fatia de carne e uma camada de molho”.

Modelo de eficiência

Saboreando um charuto após o jantar, o autor lembra que um dos convidados ofereceu-lhe, em um cálice de cristal, a tradicional bebida dos caçadores alemães, o turkischblut ou “sangue de turco”, uma mistura do rubro vinho de Borgonha, “um Volnay denso e tépido, com o pálido champagne de Mumm”. Ao seu lado, o “general-gouverneur Frank” elogiava a organização imposta ao gueto de Varsóvia, considerando-a um “verdadeiro modelo para toda a Polônia”. Por sua vez o governador de Varsóvia, Fischer, discursava sobre a eficiência de seu trabalho, assinalando, com orgulho, “que no mesmo espaço em que, antes da guerra, viviam 300 mil pessoas, estavam agora mais de um milhão e meio de judeus”. Apenas, modestamente se eximia da culpa de todos no gueto ficarem “um pouco apertados”.

Os diálogos surrealistas daquela elite cruel e cínica eram anotados mentalmente por Malaparte em sua trajetória de repórter de uma civilização em ruínas. Enquanto os homens de Hitler discorriam sobre judeus e guetos no gabinete atapetado cheirando a conhaque e tabaco, e suas mulheres – as fraus – “tricotavam ao pé do fogo de lenha de carvalho que crepitava na lareira”, a realidade nas gélidas ruas do gueto de Varsóvia não comportava eufemismos. Ali, “bandos de cães ossudos farejavam o ar atrás dos fúnebres comboios, e tropéis de meninos maltrapilhos, trazendo no semblante os sinais da fome, da insônia e do medo, recolhiam na neve os trapos, os pedaços de papel, as latas vazias, as cascas de batatas e todos aqueles preciosos rebotalhos que a miséria, a fome e a morte sempre deixam atrás de si”.



domingo, 17 de maio de 2009

Os Jardins de Varsóvia

por Sheila Sacks
(premiado no Concurso literário da Hebraica-Rio em 2004)

E vieram dias de tragédia e horror...

Abril já finda
e o frio ainda habita,
ariano e tirano,
os canteiros dos jardins
de Varsóvia.

Pelas ruas estreitas do gueto,
cidadela espúria e sem lei,
o sangue e a revolta
tingem portas e janelas.

É abril de 43
(poucos agora lembram),
mês de liberdade
e milagres,
tempo de quebrar as algemas,
fugir do Egito
e iniciar a viagem.
Mês de ver o mar
abrir os braços
e o pão cair do céu
como uma graça.

Na rua Mila
a batalha explode.
O gueto está em chamas
e as pessoas tombam,
sob as lanças do faraó.
A luta não dá trégua,
pelotões se sucedem
fazendo valer a força
das bombas e canhões.
Aos gritos,
a ordem é cumprida à risca,
pelos soldados do apocalipse.

De casa em casa,
de esquina em esquina,
o mensageiro da morte
estampa a sua escrita sinistra:
“Que do gueto não reste
viva alma
para contar a história.”

Mas o gueto resiste,
teimoso insiste
em não se entregar.
Nos porões, esgotos, bueiros e telhados,
a guerrilha se mostra
atrevida,
destemida.
Os insurretos,
combatentes da última trincheira,
emergem como praga
fazendo estragos,
somando perdas e danos
aos filhos do tirano.

Pouco sobrou
nesse abril de 43,
do viçoso bairro
de sacadas floridas,
livrarias, cafés e teatros.
O gueto é uma praça
de guerra,
terra arrasada por gafanhotos
e sapos.
Um cemitério de almas
inquietas,
insepultas,
que vagam céleres
à procura de um porto seguro.

No quartel da rua Mila
a hora é de despedida.
Os jovens trocam abraços,
se desejam sorte.
Daqui por diante
é cada um por si
e Deus por todos.
Na voz do comandante
Anielewicz,
os insurretos ouvem
a última mensagem:
- Ano que vem
em Jerusalém!

Portando fuzis
e granadas,
o grupo se dispersa
pelos esconderijos
e ruelas.

Era abril de 43
(muitos vão lembrar),
mês de liberdade
e milagres.
Tempo de refazer
a longa travessia,
de se pôr na dianteira,
pés nas areias
com Moisés e Aarão.
Mês de aprumar
os ombros,
manter o rifle atento
e o coração aceso,
porque muito além do gueto
e dos jardins de Varsóvia,
uma aliança é firmada,
um destino é selado
na imensidão do Sinai.

Além, muito além
dos jardins de Varsóvia.

sábado, 2 de maio de 2009

Muro de Jerusalém


Meu muro de devoção,
ainda me espanto diante
de ti!

Sheila Sacks

Aqui estou eu,
calado e perplexo
diante das pedras
desse muro incomum.
Como aportei,
para que ou por que,
pouco se me dá.
Perguntas não faço.
O fato é um só:
eu cheguei.

Se vim a passeio,
passaporte estrangeiro,
que importância isso faz?
A verdade está aí,
para o que der e vier:
eu estou aqui.

Olho o muro e me vejo em mil.
Sou Moché, sou Yeudá,
sou Bar Kochba, sou Anielewicz.
Sou todos que um dia,
com gana e coragem,
lutaram por mim.

Faço uma prece,
sem mesmo saber rezar.
Quero a Torá no meu coração
(antes tarde do que nunca).
Nada mais tem importância,
a não ser estar aqui, de pé,
diante desse muro incomum.

Quero tudo que tenho direito:
a kipá na cabeça,
o talit sobre os ombros,
as lágrimas molhando o rosto.
Quero a terra, o céu e a alma infinita,
toda a história passada a limpo.
Quero mergulhar de cabeça,
quero ser meu povo!

Tanto tempo vaguei,
preso a tramas,
manhas e artimanhas
de um mundo comum.
Sou o filho que volta,
sem nunca ter passado da esquina.
Indeciso, arrogante,
produto bem acabado
da cultura pagã.
Sou aquele que chamam de jovem,
filho dileto da mixórdia ocidental.

Porém,
sabe-se lá por que cargas d’água,
aqui estou eu,
calado e perplexo,
diante desse muro de pedra.
Cheguei despreparado,
curioso turista,
sem âncora ou amarras,
cidadão do mundo!

Que tolo eu fui.
Aqui, frente a esse muro incomum,
a mentira se desfaz,
perde a pose e a graça.
Diante do muro que resta
eu choro o tempo de engano e espera.
Tudo o que eu não fui
por descaso e preguiça
na hora devida.

Mas agora,
de cara para esse muro de pedra,
exijo a lei e o feito.
Da Torá o mais ínfimo preceito.
Quero o início, o esplendor e a febre,
também a liberdade e a voz
dos nossos rabis e profetas.

Quero cumprir a promessa,
vencer o deserto,
o vento e a fera.
Frente a frente,
posição de sentido,
a profecia vive na terra prometida.

Frente ao muro,
coração aos pulos,
digo, grito, repito e repiso:
quero mergulhar de cabeça,
quero me descobrir!

Muro do Rio não é o de Berlim


por Sheila Sacks
publicado no portal Eco Debate

A partir de um questionamento do escritor português José Saramago, 86 anos, sobre a validade de se utilizarem muros para evitar a expansão das favelas cariocas sobre o que resta da Mata Atlântica, uma das florestas tropicais mais ameaçadas do mundo, a imprensa do circuito Rio-São Paulo abriu generosos espaços para seus articulistas repercutirem e ampliarem os comentários sociológicos do Nobel da Literatura (1998) sobre o tema.

Em sucessivos artigos, Elio Gaspari (O Globo e Folha de S.Paulo) e Zuenir Ventura deram mostras de compartilhar os mesmos pontos de vista do escritor, enxergando preconceito e discriminação aos mais pobres na iniciativa do governo estadual. Por sua vez, o antropólogo Roberto DaMatta (O Globo) lembrou que, diferentemente do que ocorre no Brasil, até as casas nos Estados Unidos não costumam ter muros. Com a polêmica instalada, uma questão que se propunha ser meramente técnico-ambiental adquiriu ares de atitude segregacionista e estigmatizante, comparável ao muro de Berlim, de acordo com as argumentações de Saramago e Gaspari, que, inclusive, encolheu o tamanho da muralha para 43 quilômetros em seu artigo "O muro do Cabral e o bilhete da Marta" (01/04/2009).

Nunca é demais lembrar que o muro de Berlim, construído em 1961, tinha 155 quilômetros de extensão, muros com 4 metros de altura, 67 quilômetros de gradeamento metálico, cercas eletrificadas, valas com cinco metros de profundidade, 302 torres de observação, 20 bunkers e mais de 200 pistas para o patrulhamento de policiais e cães. Enfim, uma construção com aparato militar e de característica ideológica e política que perdurou durante 28 anos como símbolo da Guerra Fria. Ao longo da muralha, dezenas de rodovias, ferrovias e bairros foram divididos e famílias ficaram impossibilitadas de se visitarem.

Favelas em áreas de preservação

Já os 11 quilômetros de muros que o governo do estado do Rio de Janeiro inicialmente se dispõe a erguer nas encostas de 11 favelas da zona sul da cidade, visam basicamente a estabelecer um traçado definido e visível das áreas de risco e de preservação ambiental onde não mais seria permitida a construção de moradias. Os muros de concreto com 3 metros de altura se estenderiam pelas laterais e fundos das comunidades, permanecendo a parte frontal com as mesmas características. Aliás, algumas tentativas parecidas foram feitas pela prefeitura, há alguns anos, utilizando dormentes de trilhos e cercas de cabos de aço para demarcar as zonas de risco. Mas essas iniciativas não surtiram efeito.

Em dezembro de 2008, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Fundação SOS Mata Atlântica apresentaram dados preocupantes referentes ao período de 2005 a 2008. Em todo o estado do Rio de Janeiro, o índice de desmatamento dobrou em relação à pesquisa anterior (2000-2005), com a supressão de 205 hectares de floresta nativa, o equivalente a 300 campos de futebol.
Outro estudo, desta vez realizado pela Federação da Indústria do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), também apontou uma expansão horizontal das favelas. Com base em imagens de satélite, verificou-se que em 88 favelas cariocas fotografadas em 2002 e 2007 houve um crescimento de 250.279 metros quadrados, o que equivaleria ao surgimento de quatro novas favelas do porte da Dona Marta, na zona sul do Rio, onde vivem 10 mil pessoas.

Ainda de acordo com uma reportagem publicada no jornal O Globo (01/07/2006), uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas do Município descobriu que 17 favelas, entre elas o Morro da Babilônia, em Copacabana, já ocupavam áreas de preservação ambiental.

A Mata Atlântica, que abriga 60% das espécies ameaçadas de extinção no Brasil, atualmente está reduzida a 7,3% de sua vegetação original. Na tentativa de proteger o que sobrou dessa imensa floresta, que está presente em 17 estados brasileiros, o presidente Lula assinou, em 21 de novembro de 2008, decreto regulamentando os dispositivos da Lei Federal nº 11.428, de 2006, conhecida como a Lei da Mata Atlântica. Entre outros itens, a lei veda a supressão da vegetação primária para fins de edificação nas regiões metropolitanas e áreas urbanas, define a Mata Atlântica como patrimônio nacional, delimita o seu domínio, proíbe o desmatamento e cria critérios a sua manutenção e regeneração.

Cerca viva
Na mesma linha de atuação, 53 entidades ambientalistas e institutos de pesquisa, o Ministério do Meio Ambiente e os governos do Rio, São Paulo e Espírito Santo firmaram um pacto pela restauração da Mata Atlântica (07/04/2009) no sentido de recuperar, até 2050, 10% da floresta original, o que corresponderia a 15 milhões de hectares, área equivalente a três vezes o território do estado do Rio de Janeiro.

Vale destacar que 20% do aquecimento global é provocado pelo desmatamento.
Dois outros fatores que pesaram na implementação de marcos mais definidos para delimitar as áreas de preservação ambiental dizem respeito à segurança dos moradores dessas comunidades e à responsabilidade civil dos governantes quanto a esse quesito. Os deslizamentos de encostas devido às chuvas têm se acentuado bastante nos centros urbanos justamente em razão da construção de moradias em locais de risco. Tais desastres provocam graves conseqüências, como bloqueio de vias de circulação e, principalmente, soterramento de casas, com ocorrência de mortes. Os poderes constituídos têm responsabilidade civil nessas tragédias e processos correm nos tribunais de Justiça do Rio, onde o estado muitas vezes é acusado de omissão e ausência de providências cabíveis, estando sujeito a ser condenado por danos morais e materiais.

Esse problema, aliás, já está sendo assimilado pelas camadas mais pobres da população que, segundo recente pesquisa Datafolha, aprova a construção dos muros. A consulta mostrou que 51% das pessoas que têm renda mensal inferior a dois salários mínimos são a favor e 60% dos moradores das favelas não acreditam que os muros vão separar ricos e pobres na cidade.

E, por fim, a prefeitura já acenou com a possibilidade de plantio de vegetação ao longo do muro existente na favela Dona Marta, que como os demais seriam revestidos de uma cerca viva que, com o passar do tempo e o seu natural desenvolvimento, se integrariam de forma harmoniosa e segura à paisagem.