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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

5779, o ano que vivemos


Por Sheila Sacks

Piora aquele que não se torna melhor” (Rabi Aharon de Karlin, o pregador, 1736-1772)

Curto, incompleto, insatisfatório? O ano que se foi e este que lhe sucede vão continuar velozes e vorazes, atropelando o tempo, o bom senso e os projetos sonhados?

Prisioneiro de um campo de trabalhos forçados na Sibéria, por mais de uma década, o Rebe Mendel Futerfas ( 1906-1995), que ajudou milhares de judeus a escaparem da Cortina de Ferro após a Segunda Grande Guerra, tinha uma frase emblemática, talvez resultante de sua experiência de sobrevivente do gulag soviético.

Para ele, “se você perder seu dinheiro, não perdeu nada. Dinheiro vai e dinheiro vem. Se você perdeu a saúde, perdeu metade. Você não é a pessoa que era antes. Mas, se você perder seu entusiasmo, então perdeu tudo”.

Histórias reveladoras

Nos idos de 1990, duas amigas nova-iorquinas, Yitta Halberstam e Judith Leventhal, resolveram recolher histórias de pessoas que vivenciaram fatos que geralmente são classificados como coincidências, sorte ou puro acaso. Encontros inesperados em momentos de necessidade, viagens que se revelam transformadoras, situações aparentemente insignificantes que impedem que ocorram danos ou males, grandes frustrações que abrem espaço para realizações mais felizes, momentos há muito aguardados que se concretizam em determinadas datas.

Por quase duas décadas elas publicaram uma série de oito livros com centenas dessas histórias reais, com o registro dos nomes verdadeiros dos seus personagens ou se utilizando de pseudônimos. Para as autoras, a narração de cada caso reforçava a tese de que não existiam coincidências e sim “pequenos milagres”. O que enxergaríamos como coincidências extraordinárias na verdade seriam mensagens espirituais, sinais mágicos, testemunhos misteriosos a nos alertar que não estamos sós. Uma espécie de resposta para uma pergunta ou uma oração. Um sublime retorno que receberíamos do universo.

As histórias relatadas igualmente mostravam a força do princípio espiritual de que o pensamento cria a realidade e vibrar uma determinada energia atrai uma energia semelhante. A propósito, o físico Albert Einstein disse certa vez que o homem só pode assumir duas posições sobre a existência de milagres: ou acredita que nada na vida é um milagre ou acredita que tudo na vida é um milagre.

D’us fala conosco

Assim, o Criador, os grandes mestres, os anjos e os seres espirituais que habitam a eternidade estariam ao nosso lado em cada pensamento e gesto articulados pelo binômio corpo e alma que forma a identidade individual de cada ser humano em sua existência terrena.

Apesar da concessão do livre arbítrio e a nossa liberdade de escolha, nada ocorreria acidentalmente, escrevem as autoras. Ao contrário, haveria uma forte dose de predestinação na trajetória do homem. “Quando oramos, estamos falando com D’us Quando as “coincidências” ocorrem, é D’us que está falando conosco.”

Em 1964, o cultuado Rebe M.Schneerson (1902-1994), do movimento Chabad Lubavitch, respondendo a uma carta, assinalou que não existe contradição entre o livre arbítrio humano e a Sabedoria Divina, e esta não afeta a liberdade do homem. E ilustrava a afirmação com o exemplo de uma pessoa clarividente, que tem o dom de prever acontecimentos, ou de um psicólogo que pode prever as reações de um paciente. Segundo o Rebe, esse conhecimento antecipado não vai afetar os eventos e as ações que irão acontecer.

“Porém, D’us é ilimitado em tempo e conhecimento”, escreve o Rebe, “e Sua Sabedoria se estende a todos os tempos e locais, mas nunca afeta a liberdade das ações humanas”.

Escrito nas estrelas

Em suas inúmeras palestras ao longo do tempo, as autoras continuadamente assinalavam para a plateia que as histórias relatadas em seus livros traziam à tona a força do princípio espiritual de que o pensamento cria a realidade e vibrar uma determinada energia atrai uma energia semelhante. Constatação essa que vai de encontro ao dito hassídico que atesta: “Pense o bem e o bem acontecerá!”

Um pensamento que faz lembrar novamente as palavras do Lubavitcher Rebe sobre a trajetória do homem na terra. Dizia ele que nossa missão na vida é basicamente trazer mais luz, ainda que considerasse a luta contra o mal uma atividade muito nobre quando necessária.

Ainda de acordo com Yitta e Judith muitas pessoas se manifestavam, através de cartas ou nos encontros coletivos, dizendo que mudanças significativas começaram a surgir em suas vidas, após a leitura dos livros. Isso porque elas se tornavam mais atentas às “coincidências” e à maneira de examinar o passado, a partir de então, com um olhar diferente, reconhecendo os pequenos milagres que antes não haviam identificado. E, em função dessa mudança de olhar, suas vidas se tornavam mais espirituais e iluminadas.

Em 2008, por ocasião dos 70 anos do pogrom contra os judeus ocorrido na Alemanha nazista, conhecido como a Noite dos Cristais (Kristallnacht), as autoras publicaram uma edição com 50 histórias reais sobre o holocausto e pós-holocausto, também relatando eventos inexplicáveis em que vidas humanas foram poupadas e famílias reunidas novamente. Histórias inspiradoras que mostram situações aparentemente casuais cujas ocorrências em determinados momentos deram suporte ao espírito e à fé das pessoas.
 
Enfim, um trabalho literário que despertou sentimentos de conforto, esperança e confiança nos milhões de leitores que as autoras acumularam no correr dos anos. Neste caso, cai bem o dito do rabi Elimelech de Lizensk (1717-1786), um dos fundadores do Chadissismo: “Sempre que duas pessoas se encontram, algo de bom resulta para uma terceira.”