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quinta-feira, 25 de março de 2010

Hitler e os bons leitores de Nietzsche

por Sheila Sacks

Se as regras não mudarem, em pouco tempo as vitrines das livrarias da Alemanha voltarão a exibir um best-seller da década de 1930 (12 milhões de livros editados até 1945), banido desde o final da 2ª Grande Guerra por força da derrocada nazista.

Previsto para entrar em domínio público em 2015, 70 anos após o suicídio de seu autor, o tresloucado e pernicioso livro Mein Kampf (Minha Luta) vai estar à solta, de volta à luz do dia em um arremedo de situação que jamais deveria se repetir se houvesse um mínimo de prudência a capitanear as ações das autoridades competentes. Afinal, ressuscitar um espectro macabro que o sentido comum já ajuizou que melhor seria permanecer socado em sua tumba é como dar de ombros a um passado medonho ou mesmo cutucar a fera com vara curta.

Por conta dessa escandalosa liberação, intelectuais germânicos já se movimentam para elaborar uma edição comentada do livro de Hitler, com um tipo de enfoque que classificam de abordagem científica, ou seja o de procurar explicações e justificativas para uma matança hedionda seletiva instituída por um estado supostamente civilizado. A provável publicação acadêmica imediatamente distinguida com a terminologia de crítica (uma espécie de palavra mágica que funciona como salvo-conduto) ganhou o aval do secretário geral do Conselho Central dos Judeus da Alemanha, Stephan Kramer, para quem é melhor colocar na praça esse arrazoado infame acrescido de análises psico-sócio-políticas à edição normal do texto.

No entanto, as duas alternativas são inquietantes e talvez o prudente seria questionar um pouco mais essa resolução administrativa que pode se constituir em uma bomba relógio ambulante pronta a explodir mais adiante. Comodidades à parte, a luz vermelha está acesa e é preciso estar atento e mobilizado para manter essa obra no limbo, tratando-a como uma exceção às normas vigentes devido ao seu excepcional caráter sórdido e nocivo. E nesse caso específico, a liberdade de expressão não deveria servir de desculpa para a circulação anarquista de apologias discriminatórias e preconceituosas que achincalhem povos e raças.

Um Nietzsche edulcorado para as multidões
No rastro dessas novidades pouco alvissareiras de um futuro próximo, a terra das fábulas e dos contos de fada dos irmãos Grimm também lançou no início de 2010 mais uma coletânea de textos que procura recriar as ideias filosóficas de Friedrich Nietzsche (1844-1900), enxergando pacifismo, tolerância, admiração aos judeus e até uma suposta guinada ao pensamento social de esquerda daquele que foi o filósofo inspirador da política sanguinária de Hitler. O organizador da obra Nietzsche-Lexikon, o alemão Cristian Niemeyer, selecionou mais de 400 artigos de uma centena de autores identificados por ele como “bons leitores” do filósofo, aqueles que na sua opinião buscam entender a sutileza das ideias de Nietzsche, “sem falseá-las com interpretações pessoais”.

Fazendo coro com outras pesquisas similares, Niemeyer exime Nietzsche de apadrinhar o nazismo e o fascismo e põe a culpa de sua má-fama à irmã do filósofo, que segundo ele se apoderou de seu acervo literário, adulterando textos, cartas, a autobiografia, enfim, zoneando seus pensamentos e sua obra.

Acometido de uma doença mental que o tirou de circulação a partir de 1889 e até a sua morte, onze anos depois, Nietzsche tornou-se conhecido e celebrado justamente por seus conceitos de supremacia de raça (super-homem), aniquilamento dos fracos, desprezo às massas e rejeição ao Estado social, à democracia, à religião. Conceitos firmados, explicados e desenvolvidos por Nietzsche muito antes de seu colapso mental e da alegada intromissão da irmã. Segundo ainda Niemeyer, uma das vantagens de se entender o filósofo é que essa compreensão “pode ajudar as pessoas a viver de uma maneira aberta num mundo sem deus”. Trocado em miúdos, a filosofia de Nietzsche funcionaria como um excitante elixir para todos que se julgam “para além do bem e do mal”, título, aliás, de um de seus livros mais ilustrativos, publicado em 1886.

Filósofo queria os judeus fora da Alemanha
No livro em questão, Nietzsche doutrinava:”Não se permita o ingresso de outros judeus na Alemanha! E que lhes sejam fechados principalmente o império do Oriente e também a Áustria, eis o que diz claramente a voz do instinto universal, da qual preciso ouvir o aviso.”

No entender do filósofo, a Alemanha no século 19 já tinha judeus em número suficiente para causar indigestão. “O alemão vai demorar muito para digerir a quantidade de judeus que atualmente está provido, como já o fizeram os italianos, os franceses, os ingleses, graças a sua digestão mais robusta.” E prosseguia, explicativo, dissertando sobre os dois tipos de moral que percebia serem bem característicos em diferentes indivíduos. Para ele existia a moral dos senhores e a moral dos escravos, sendo que essa última seria essencialmente utilitária. Nietzsche imputava aos judeus, “povo nascido da escravidão”, a iniciativa de levaram a cabo uma miraculosa inversão de valores, como a de transformar o pobre em santo e o forte em mau.

Nietzsche se insurgia contra o que ele denominava de “virtudes passivas” (humildade, resignação, prudência, paciência, segurança) e acusava os judeus pelo que chamava de “insurreição dos escravos” no campo da moralidade. Em oposição à moral dos fortes (a dos senhores nobres e aristocratas), o Judaísmo havia criado, por um ato de vingança espiritual, uma moral servil, de culpabilidade, ressentimento e pecado. Um “antimundo” para justificar o sofrimento dos fracos, doentes e oprimidos.

Dizia Nietzsche que “a religião tem a inestimável vantagem de tornar os homens vulgares satisfeitos da sua própria posição, proporcionar-lhes paz ao coração, enobrecer a sua obediência, confortá-los e contribuir para transfigurar a sua monótona existência”. E concluía que “o que pode ser desfrutado em comum, é sempre coisa de baixo valor”.

Ideias delirantes e degeneração psicológica
Para o cofundador do movimento sionista, o húngaro Max Nordau (1849-1923), a originalidade de Nietzsche consistia na inversão tola e pueril da maneira racional de pensar. Em sua obra “Degeneração” ( Entartung), publicada em 1892, o médico, escritor, jornalista e amigo de Theodor Herzl dedica um capítulo ao filósofo alemão, afirmando que seu escritos exibem uma série de ideias delirantes provenientes de ilusões da razão e de processos orgânicos patológicos, comparáveis aos manuscritos dos doentes mentais que os psiquiatras devem ler, não por prazer, mas para prescreverem a internação do autor em um hospício.

Segundo Nordau, que exerceu a psiquiatria em Paris, degenerados psicológicos combinam relativismo moral com egoísmo, carecendo de sentido moral para distinguir o bem do mal e não apresentando sentido de indignação diante do sofrimento das pessoas.

Outro respeitado escritor, filósofo, matemático e pacifista, o inglês Bertrand Russel (1872-1970), também questionava a sanidade de Nietsche, classificando os seus escritos de “meras fantasias de poder de um homem doente”. Prêmio Nobel de Literatura em 1950, Russel justificou essa aversão no épico História da Filosofia Ocidental: “Eu não aprecio Nietzsche porque os homens a quem ele admira são os conquistadores, cuja glória está na habilidade de motivar os homens a matar.”

Nesse sentido Hitler foi um aluno aplicado de Nietzsche que fazia troça do sofrimento alheio. Em um de seus aforismos afirmou que “é preciso ter grande força de imaginação para poder sentir compaixão”. Quanto aos grandes vilões da história, estão todos alforriados na visão de Nietzsche porque não se deve julgar o passado. “A injustiça da escravidão, a crueldade na sujeição de pessoas e povos não devem ser medidas pelos nossos critérios(...) Do mesmo modo a Inquisição tinha as suas razões.”

Hitler distribuía livros de Nietzsche para os soldados
Idolatrado pelo líder nazista, que se considerava a própria encarnação do super-homem (Übermench) do livro “Assim falou Zaratustra” (escrito entre 1883 e 1885), Nietzsche também era oferecido como leitura educativa aos soldados alemães. O veterano jornalista alemão Peter Scholl-Latour, de 86 anos, conta que os militares nazistas liam Zaratustra nas frentes de batalha para se sentirem mais motivados. Imbuídos da ideia de que eram seres superiores, posicionados muito além da moral vulgar das multidões, da gente comum, dos inferiores e débeis, julgavam-se senhores do mundo, uma nova raça de gigantes que imporia a sua vontade de poder sobre uma massa impotente e submissa.

Situação semelhante já ocorrera na Primeira Grande Guerra (1914-1918) e de acordo com outro grande admirador de Nietzsche e membro oficial do partido nazista, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), “na Alemanha ou se era contra ou a favor de Nietzsche”. Aliás, esse envolvimento declarado de Heidegger com o nazismo ( escrevia discursos para Hitler e colaborou para a expulsão de professores judeus da Universidade de Freiburg, em 1933 ) motivou o filósofo francês Emmanuel Faye, 54anos, a propor a remoção das obras de Heidegger das bibliotecas de filosofia. Em seu livro Heidegger, l'introduction du nazisme dans la philosophie (2005), Faye afirma que a obra do alemão está seriamente comprometida com a doutrina nazista.

Fotos mostram culto do ditador nazista a Nietzsche

A admiração de Hitler por Nietzsche também foi destacada pelo jornalista e escritor norte-americano William Shirer (1904-1993) em sua majestosa obra Ascenção e Queda do III Reich: “ Frequentemente Hitler visitava o museu de Nietzsche em Weimar e demonstrava publicamente a sua veneração ao filósofo posando para fotos em que aparece fitando com admiração a imagem daquele que considerava um grande homem."

Em seu livro “Hitler as nobody knows him”, publicado em 1933 (meio milhão de exemplares vendidos até 1938) o fotógrafo pessoal de Hitler, o alemão Heinrich Hoffman, incluiu uma foto do ditador ao lado da escultura de Nietzsche com a seguinte legenda: “O führer em frente ao busto do filósofo alemão, cujas ideias fomentaram dois grandes movimentos populares: o Nacional Socialismo na Alemanha e o Fascismo na Itália.” Falecido em 1957, Hoffman detinha os direitos autorais sobre os retratos oficiais de Hitler usados em selos postais e escritórios do governo e foi em sua loja de material fotográfico que o líder nazista conheceu Eva Braun, ajudante de Hoffman. Amante de Hitler por quatorze anos, eles casaram-se algumas horas antes do suicídio de ambos, em 30 de abril de 1945.
Judaísmo é o oposto de tudo que Nietzsche propagou
Recentemente o rabino-chefe da comunidade judaica britânica, Sir Jonathan Sacks, de 62 anos, foi bastante incisivo em sua condenação aos conceitos do filósofo alemão.” Particularmente considero Nietzsche uma total antítese dos valores judaicos. Eu não vejo relevância no fato de que vez ou outra ele encontre coisas agradáveis para dizer sobre os judeus. Um homem que expressou desprezo pela compaixão e pela ajuda ao próximo; pela bondade, tolerância, perseverança, humildade e amizade, mostrou isso sim, o tempo todo, o que o Judaísmo não é.”

Liderando desde 1990 as Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth e autor de duas dezenas de livros de temática judaica traduzidos em vários idiomas (Teremos Netos Judeus?, A Dignidade da Diferença, Uma Letra da Torá), o rabino Sacks – alçado à categoria de lord em 2009 - radicaliza em se tratando de Nietzsche. “Li seus escritos para saber que o Judaísmo é oposição nessa batalha, agora e para sempre."

Citando a odisséia do Êxodo, o religioso lembra que há 33 séculos o Judaísmo se mostrou como uma voz revolucionária ao enfrentar o poder supremo do faraó para resgatar os indefesos. “As religiões do mundo antigo eram justificativas do status quo. Explicavam por que os ricos e poderosos tinham de ser ricos e poderosos. O Judaísmo mudou essa concepção. A liberdade começa quando partilhamos nosso pão com os outros. Em Pessach lemos: Este é o pão da aflição que nossos ancestrais comeram no Egito. Deixe que todos os famintos venham e comam.”

terça-feira, 16 de março de 2010

Nunca Mais


Em Jerusalém, o presidente Lula reacende a chama eterna no Memorial Yad Vashem – Museu do Holocausto, em memória aos seis milhões de judeus que foram exterminados pelos nazistas na 2ª Grande Guerra.

Repetir várias vezes “nunca mais” como sugeriu Lula, é o que já faz há seis décadas cada israelense, ao acordar todas as manhãs, em sua titânica luta para tornar perene a nação de Moisés.


Repetir várias vezes “nunca mais” é o que os judeus da Diáspora prometem para si mesmos em dezenas de idiomas, dia após dia, toda vez que o mundo se mostra radical e fundamentalista.

E que assim seja para todo o sempre:
Nunca Mais !

quarta-feira, 10 de março de 2010

Aécio coração de estudante


por Sheila Sacks
Aécio, Cabral e Lula, os caras do Brasil, com Sarkozy
publicado, na primeira versão, no Rio Total




Há 25 anos um infortúnio marcou o cenário político brasileiro. O mineiro Tancredo Neves, primeiro presidente civil eleito por um Colégio Eleitoral, depois dos chamados anos de chumbo iniciados com o golpe militar de 1964, é enterrado sob forte comoção nacional na cidade histórica de São João del-Rei.

Hospitalizado às pressas na véspera da posse, o veterano político, de 75 anos, - que foi deputado federal por seis vezes, senador, primeiro-Ministro, ministro da Justiça e governador de Minas – morreu de infecção generalizada, três meses depois de eleito, em 21 de abril de 1985.
Figura-chave, junto com Ulysses Guimarães, para a viabilização do retorno do Brasil à democracia, seu funeral foi transmitido ao vivo pelas TVs de todo o país e uma melodia deu o tom e o clima emocionado de despedida. Tratava-se da composição predileta de Tancredo Neves, obra do seu conterrâneo Milton Nascimento em parceria com Wagner Tiso, uma espécie de hino aos novos tempos de liberdade e justiça que assomavam no horizonte.

A canção de Minas que marcou o Movimento das Diretas Já

Composta em 1983, dois anos antes da morte de Tancredo, “Coração de Estudante” tornou-se a trilha sonora das “Diretas, Já”, movimento civil pelas eleições presidenciais livres que mobilizou milhões de brasileiros em passeatas e comícios em todo o país, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo nos idos de 1984. O processo culminou com a eleição indireta de Tancredo Neves, em 15 de janeiro de 1985, tornando-o o último mineiro a ser eleito presidente do Brasil.
Anos depois, a musa e trovadora argentina Mercedes Sosa, falecida em 2009, traduziu para toda a América Latina os inspirados versos da belíssima mensagem que carimbou uma época de ebulição e aspirações democráticas: “Corazón de estudíante, hay que cuidar de la vida, hay que cuidar de este mundo, comprender a los amigos, alegría y muchos sueños, iluminando los caminos. Verdes, planta y sentimiento, hoja, corazón, juventud y fe.”
Em 2007 Israel recebe a visita de um governador mineiro

Duas décadas depois da morte de Tancredo, uma venturosa coincidência traz o seu neto Aécio Neves, governador de Minas, ao solo sagrado de Israel em 2007, quando da comemoração dos 60 anos da decisão histórica das Nações Unidas que reconheceu o direito dos judeus a sua terra milenar.

Na sacada do Hotel King David, no coração de Jerusalém, Aécio falou de sua emoção em conhecer o país. Na entrevista transmitida pela TV Brasil, ele declarou: ”Tenho viajado e estimulado outros membros do governo a fazer o mesmo, mostrando o que Minas pode oferecer a investidores de todo o mundo. Aqui em Israel, estou conhecendo não apenas a história dos israelenses, mas a história da humanidade”.

Acompanhado de líderes empresariais e assessores, Aécio participou em Tel Aviv de um encontro com 40 empresários israelenses dos setores de informática, irrigação e de segurança. Visitou a indústria aeroespacial de Israel (IAI), a empresa de segurança Ness, a Bolsa de Diamantes e o Museu do Holocausto. “O Brasil é uma democracia estável como Israel e Minas aqui veio convidar empreendedores israelenses para serem parceiros no nosso desenvolvimento para mútuo benefício de nossos povos”, disse Aécio.

A visita de quatro dias a Israel foi vista na época por articulistas israelenses como a mais importante e sugestiva de uma autoridade brasileira nos últimos anos. Expressando publicamente a sua admiração por Shimon Peres e pelo estado de Israel, Aécio Neves cativou a todos que o conheceram em seus encontros com personalidades israelenses, o que levou o jornalista brasileiro Nahum Sirotsky, correspondente em Israel, a escrever um entusiástico artigo no portal IG intitulado “Aécio Neves conquista israelenses”.

Vale registrar que Tancredo Neves foi companheiro de ministério do diplomata Oswaldo Aranha, o brasileiro que presidiu a 2ª Assembléia da ONU em 1947 e se tornou peça decisiva na aprovação do documento. Foi no segundo governo Getúlio Vargas (1951-1954), exercendo o cargo de ministro da Justiça enquanto Oswaldo Aranha era ministro da Fazenda.

Aécio Neves é o governador com a melhor avaliação do país

O governador Aécio Neves, 50 anos, traz de berço o matiz democrático que caracterizou o comportamento e as ações de Tancredo Neves. Ele começou cedo na política, aos 22 anos, como secretário particular do avô. Ao assumir o governo de Minas pela primeira vez, em 2003, Aécio lembrou a frase de Tancredo Neves, feita em 1983, quando o avô foi empossado governador: “O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade, porque este é um Estado que não se curva, não ajoelha, não rasteja”.
A inspiração vem dos inconfidentes e de Tiradentes, o grande mártir da independência do Brasil, nascido em Minas e enforcado em 1792, no mesmo dia e mês do falecimento de Tancredo. Está também expressa na bandeira do estado, com a frase “Libertas quae sera tamen (Liberdade ainda que tardia).

Neste 3 de março, editorial do jornal Estado de Minas criticou a “arrogância” de lideranças políticas que diante de um possível fracasso de candidaturas oposicionistas querem se valer do “reconhecimento nacional construído pelo governador Aécio Neves para colocar Minas a reboque”. E lança a pergunta: “Se o mais bem avaliado entre os governadores da última safra de gestores públicos é capaz de vitaminar uma chapa insossa e em queda livre, por que Aécio não é o candidato a presidente?”


Aécio faz parte de uma nova geração de políticos brasileiros – na qual se inclui o simpático e competente governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral - que preza os valores democráticos na condução de suas gestões e repudiam radicalizações ideológicas. Administradores afinados com as boas experiências internacionais e focados em programas e ações sociais positivas e integradas voltadas para a população de baixa renda, são isentos de preconceitos quando se trata de importar ideias e tecnologias que deram certo no ocidente desenvolvido. São políticos que sabem lidar com a globalização e que têm renovado o ambiente nacional com saudáveis e indispensáveis ares de modernidade.

Deputado federal por 4 vezes, ele foi eleito pela segunda vez em 2006 para o governo de Minas. Em todas as consultas realizadas por diferentes institutos de pesquisa, no decorrer das duas gestões, sua avaliação como governador atingiu índices positivos acima dos demais concorrentes. Na mais recente pesquisa, em dezembro de 2009, Aécio também aparece em primeiro lugar na pesquisa Datafolha sobre os melhores governadores do Brasil, recebendo a nota 7,5 em uma escala de 0 a 10. E mais: é um apaixonado pelo Rio de Janeiro.

Lula cogitou Aécio para ser seu sucessor

Segundo maior colégio eleitoral do país, Minas Gerais comemora os 100 anos de nascimento de Tancredo Neves neste ano de 2010. Para muitos, chegou a hora de um mineiro autêntico ocupar a presidência. Mantendo um ótimo relacionamento com o atual grupo da presidência da República, são conhecidas as manifestações de amizade e carinho do presidente Lula por Aécio que, antes da candidatura de Dilma Rousseff (mineira de nascimento mas com trajetória política feita no Rio Grande do Sul), teve o seu nome cogitado para a sucessão.
Foi em 2007, quando em entrevista a Folha de São Paulo o presidente Lula surpreendeu governistas e oposicionistas declarando apoio a uma eventual candidatura do governador de Minas à Presidência da República, desde que Aécio trocasse de partido. No mesmo ano o jornal francês Le Monde apontou o mineiro como um dos nomes fortes para a sucessão presidencial de 2010. Na matéria, o jornal destacava o perfil conciliador de Aécio e sua boa relação com o presidente Lula. Na ocasião, para aqueles já o viam como o sucessor de Lula, Aécio respondia que “ser presidente não é um plano de carreira, mas uma questão de destino”.

Concordando ou não, o mais provável é que a trajetória presidencial de Aécio está mesmo escrita nas estrelas, agora ou mais a frente. Essa percepção foi registrada pelo jornal Correio Braziliense, em meados do ano passado, na reportagem “Lula teme Aécio como a candidato à presidência”. Segundo a apreciação de cabeças coroadas do Planalto seria mais fácil um candidato governista vencer o governador de São Paulo, José Serra, do que derrotar Aécio, já que o crescimento do governador de Minas torna-se inevitável em função de sua capacidade de articulação e de suas boas relações com os partidos e a esquerda.
Minas, o gigante silencioso que decide

Do tamanho da França, o estado de Minas Gerais apresenta a terceira maior economia do país, depois de São Paulo e Rio de Janeiro, e é responsável por 18% das exportações brasileiras. Tem 20 milhões de habitantes ( o segundo mais populoso) distribuídos em 853 municípios. Foi lá que se instalou, em 1976, a maior fábrica de automóveis da Fiat fora da Itália, que emprega 20 mil trabalhadores e é responsável por 30% da venda de carros da marca em todo o mundo.
Aliás, os números da economia mineira impressionam: possui o segundo maior rebanho bovino do país, com 22,3 milhões de cabeças de gado; é o maior produtor de leite ( quase 30% da produção nacional), de café (49% ) e de feijão do país. É líder na produção de cimento e na área industrial produz 38% do aço nacional e 53% do ferro gusa. Somente a empresa Vale do Rio Doce, maior produtora de minério de ferro do mundo e que atua em Minas foi responsável, em 2009, pela extração de 238 milhões de toneladas do produto. Além do minério de ferro, Minas exporta o ferro-nióbio, minério de chumbo, ferro fundido bruto, laminados de ferro e aço, celulose, soja e granito.


Minas Gerais também é o maior produtor de ouro, gemas e diamantes do Brasil, daí o interesse do governador Aécio Neves em conhecer a Bolsa de Diamantes de Tel Aviv. O estado responde por 63% da exportação brasileira de ouro em barras, fios e chapas; 43% da exportação de gemas coradas e 72% da produção brasileira de diamantes. Empresas israelenses, há mais de dez anos, participam do crescimento econômico de Minas através de associações nas indústrias de café e na área tecnológica.

terça-feira, 2 de março de 2010

Bem-vindos ao paraíso

por Sheila Sacks

Quando papai comprou o plymouth de quatro portas, a minha vida mudou. Eu tinha sete anos e morava em um ponto esquecido à esquerda da linha férrea que cortava a zona norte. O carro seminovo tinha cromados reluzentes, pneus de bandas brancas e assentos de couro. Papai mostrou a novidade em uma tarde de primavera e mamãe, radiante, beijou-o no meio da rua. No domingo, de vestido florido e sandálias de solado alto, ela anunciou que íamos ao Cais do Porto. Emocionados, meu irmão e eu colamos os narizes nos vidros das janelas e assistimos o casario urbano correr frente aos nossos olhos, como um filme a céu aberto.

1

No cais os navios enormes causavam espanto. Sobreviventes da guerra, dois primos de papai chegavam da Europa. Os rapazes desembarcaram do velho cargueiro equilibrando-se em uma estreita escada de corda. Usavam casacos pesados e pareciam assustados. Papai abraçou-os e sussurrou qualquer coisa em ídiche. Mamãe traduziu a saudação, estendendo-lhes a mão. “Bem-vindos ao paraíso”, disse em voz alta, despertando a atenção das pessoas no píer.

Nos dias posteriores uma chuva persistente entristeceu a semana. Rezei para a chuva parar. Em uma manhã acordei com o sol no quintal. A claridade me cegava, mas assim mesmo eu teimava em encarar o sol. “Vamos à praia no domingo”, exclamei confiante, enquanto mamãe bordava. “De carro”, insisti, ao perceber um olhar maroto em minha direção.

Algumas semanas depois, brincando na areia do Arpoador, escutei os primos de papai anunciarem a novidade: fariam a aliá em breve. Mamãe traduzia as frases, e o entusiasmo com que falavam sobre a nova vida em Israel fez o meu coração disparar. “Mas, o paraíso é aqui”, imitei mamãe apontando o mar que espumava sobre a areia. Mas os jovens pareciam não entender, encolhidos sob a sombra do guarda-sol de gomos coloridos. Mamãe sentada sobre a esteira de palha, de maiô preto e chapelão de ráfia piscou o olho para mim e balançou a cabeça afirmativamente.
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Naquele verão do final dos anos 50 papai iniciou um novo ritual aos domingos. Acordávamos cedo, entrávamos no carro e seguíamos para Copacabana. O prédio escondido pelos tapumes estava sendo finalizado. Enquanto ele conferia o avanço nas obras do futuro apartamento, ficávamos no carro. Mamãe, no banco da frente, abanava-se com o leque japonês não escondendo a impaciência. Após uma espera que parecia durar horas, papai surgia na calçada. Com um suspiro de alívio, mamãe saltava fora do veículo e lá íamos nós caminhando pela rua arborizada rumo à praia. “Um sonho antigo, esse de morar em Copacabana”, confidenciou mamãe, ao telefone, em conversa com vovó.
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E assim foram-se passando os meus domingos. Como um pequeno milagre, o domingo de praia se incorporou aos hábitos da família, agora instalada no novo apartamento e surpreendida pela auspiciosa chegada de um bebê. Problemas e discussões podiam esperar. Compromissos, visitas e encontros eram adiados. Andar pela areia úmida, estirar os corpos ao sol e se banhar nas águas geladas redimiam as agruras da semana. Esquecido na garagem do prédio, o carro sem serventia foi dado ao porteiro. A lojinha no subúrbio passada adiante. Os livros e suas histórias mágicas, a praia em sua beleza inigualável e a pequena poupança de trinta anos de labuta bastavam para um viver de prazer e harmonia.

Dúzias de anos depois, já velhinhos, mamãe e papai ainda se sentavam na areia para ler e namorar o mar. “Bem-vindos ao paraíso”, eu lembrava da frase dita há tanto tempo na beira do cais. Meus pais sorriam e se entreolhavam imaginando, talvez, um paraíso celeste bem parecido com aquele em que viviam, com muito sol, areia e mar, e onde todos os dias seriam domingos de praia.