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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Em uma manhã de 2019, bandidos mandam rosas

a partir do relato de um estranho no bar

Por Sheila Sacks


Em pé, exalando a lavanda, Dona Edite aproxima o rosto do espelho. “Até que estou arrumadinha”, avalia satisfeita com o que vê. Levando em conta as estripulias do tempo, o resultado não era de todo ruim. Afinal, aquele olhar azul celeste de galantes elogios permanecia irretocável. Ou quase. Sorri complacente com a idade, as rugas e os cabelos estriados de branco. Por alguns segundos aprecia os novos óculos de armação coral e num galanteio maroto pisca o olho esquerdo, alegre com o dia que a espera.

Vai à cozinha e encontra Letícia, descalça e de short desfiado, limpando a prateleira mais alta do armário.
 - Vou ao banco filhota, avisa em voz alta. A jovem, de pouco mais de 18 anos, move a cabeça sem retirar os minúsculos fones encaixados nos ouvidos. Empoleirada na escada, repara que a patroa está de vestido florido, rosto empoado, batom vermelho e bolsa branca a tiracolo. “Dia de pagamento, dia feliz...” cantarola em falsete, ao som dos acordes sertanejos que zunem em seus ouvidos. Fingindo não se importar com o gracejo, a velha senhora se apruma, encolhe a barriga, acena com a mão e sai porta afora.

Na ala de serviço, dona Edite dá bom dia ao faxineiro que, balde e rodo nas mãos, lê entretido qualquer coisa estampada na pilha de jornais velhos. Já no saguão, o porteiro meio que escondido atrás da bancada de madeira aciona a tranca da porta, a atenção dividida entre as imagens das câmaras de segurança e o desenho animado que colore a pequena tela da tevê.

Alcançando a rua, ela anda por mais de dez minutos até chegar ao seu destino. Transeuntes apressados misturam-se a banhistas de havaianas, idosos de andar trôpego, donas de casa com sacolas de supermercado. Eles lotam as calçadas nos cruzamentos, um pequeno exército brancaleone. Da praia sopra um vento inoportuno que desarranja os cabelos de quem anda pela avenida principal.

Já no interior do banco, dona Edite se alinha na fila dos idosos e observa o atendente, um de seus preferidos. “Melhor assim”, pensa. O jovem gorducho, como de hábito, trata-a com uma cordialidade que a deixa encabulada. Ao final, despede-se com um inebriante “até a próxima, minha linda“, carinho verbal que tem o dom de afoguear seu rosto, revolver os sentidos, confundir a mente. Tal qual uma adolescente, deixa-se levar pelo encantamento, esbarrando na porta giratória que a expele cambaleante para fora do banco, sob o olhar fixo e impessoal do segurança fardado.

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De volta ao apartamento dona Edite liga para o taxista. Em sua bolsa as notas dobradas já tinham sido contadas. - Vamos para Bonsucesso, seu Antônio, informa satisfeita, ajeitando-se no interior do táxi. 

O veículo atravessa o Corte do Cantagalo e desce para a orla da Lagoa Rodrigo de Freitas. Em uma das curvas, a velha senhora se surpreende com a visão de meia dúzia de garças perfiladas sobre um estrado à beira do espelho água. Entre nuvens, o sol acanhado parece navegar para outras paragens. O táxi percorre as duas extensas galerias do Túnel Rebouças desembocando do outro lado da cidade onde nuvens cinzentas sombreiam o céu. “Dia de pagar promessa”, associa a velha senhora apalpando o pequeno guarda-chuva no fundo da bolsa.

Pelo terceiro mês consecutivo dona Edite repete o longo trajeto de Copacabana ao bairro de Bonsucesso para cumprir a promessa assumida pelo pronto restabelecimento de uma prima muito querida. Durante seis meses ela iria doar um salário mínimo para uma creche mantida por uma dessas organizações sociais de ajuda ao próximo. O valor poderia parecer exorbitante para uma professorinha pública aposentada, mas dona Edite tinha a vantagem de ser viúva de um procurador da República. Daí a generosa pensão que sustentava as suas viagens anuais aos museus e castelos europeus, financiava as assinaturas anuais do calendário operístico do Teatro Municipal, o plano de saúde top, e outros prazeres herdados do tempo de casada, tais como as bacalhoadas semanais em um restaurante da Avenida Atlântica.

Entorpecida pela viagem e pelos pensamentos, ela fecha os olhos. “O tempo corre como o táxi de seu Antônio”, matuta de forma vaga, perdida entre a fronteira da consciência e do sono. Sorri ao lembrar a garotada da creche. “No Natal vou comprar uns brinquedinhos”, decide, enquanto o carro se embrenha pelo cenário desconhecido do subúrbio.

Em pouco mais de alguns minutos o táxi diminui a velocidade e estaciona em uma esquina que parece desabitada. A rua silenciosa avança por dezenas de metros até uma pequena praça, ao fundo, de terra batida.   Casas de aparência diversas, com fachadas mal cuidadas ou parcialmente reformadas se seguem, uma após outra, sem guardar similaridade. Das calçadas irregulares  irrompem raízes de amendoeiras centenárias cujos galhos e ramagens se curvam sobre os paralelepípedos das ruas por onde os raros veículos transitam. Dona Edite olha a paisagem melancólica que traz à tona remendos de uma infância aflita e reprimida.
- Não vou demorar, fala para o taxista. Tome um cafezinho por minha conta e volte daqui a meia-hora, combina, os olhos fixos no muro alto que esconde a creche.

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Encimado por pontudos cacos de vidros, o muro de cimento é um desafio a possíveis intrusos. Dona Edite toca a campainha já antevendo o abraço afetuoso da risonha auxiliar. Enquanto espera, alça a vista para o horizonte recortado pela admirável estrada suspensa do teleférico que se estende sobre o conjunto de favelas do Alemão, uma cidadela fortificada e inexpugnável. Atravessando as várzeas e os pontos altos dos morros apinhados de casas aboletadas umas sobre as outras, dezenas de pequenas gôndolas envidraçadas deslizam pelos cabos de aço suspensos por gigantescos pilares em um vai e vem contínuo entre as estações construídas sobre os platôs. Dona Edite mais uma vez se surpreende com a visão daquela obra de engenharia realizada há quase uma década.

Postada na calçada, pressiona mais uma vez o botão vermelho instalado na frente do muro. O táxi há muito tinha sumido em uma curva em direção à avenida. Finalmente o portão é aberto e um sujeito de boca murcha, cabelos ralos e com as roupas sujas de massa e tinta assoma à soleira.
- A creche está em obra, madame, apressa-se em explicar. E emenda: - Só volta a funcionar na semana que vem.

Dona Edite sente que a bexiga fraca dá sinais preocupantes. De supetão ela cruza o portão sem dar tempo ao homem de impedi-la.
- Preciso usar o banheiro, meu filho. É rapidinho e sei o caminho, vai dizendo enquanto aperta o passo. Mas logo sente uma pressão violenta na nuca e se dá conta de que o homem a arrasta para o interior da casa. É largada em frente a uma enorme cratera escancarada no centro da sala. Homens de torsos nus empilham sacos de entulho trazidos do fundo do buraco que se alonga em um túnel por debaixo da casa. Outros cavam a terra dura e escura. Atônita, dona Edite percebe alguns homens fardados. Um deles se aproxima, o rosto oculto por uma touca escura de malha. Das fendas do gorro, dois olhos cinzentos e frios a avaliam.
- Deje la bolsa acá, ordena. O portunhol range na voz cavernosa do gigante. Ele usa coturnos emborrachados e colete à prova de balas. Aponta o banheiro. - Adelante, va.

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No estreito e comprido banheiro dona Edite se vê sem os documentos, dinheiro, celular, relógio, sombrinha e agenda. Todos na bolsa confiscada. Tenta entender o que acontece. O susto a leva imaginar que a polícia realiza uma operação secreta, talvez algo relacionado com informações do disque-denúncia. Mas tem consciência que não é bem isso que se desenrola do outro lado da porta. Seu sexto sentido a faz desconfiar de que uma possível operação terrorista está em curso. E ela se indaga em que parte daquele roteiro de horror sua personagem esdrúxula se encaixa.

Cerra os olhos e revê o enorme mapa das favelas do Alemão, detalhado e ampliado, ocupando toda a parede da sala. Nele foram pintados grandes círculos em vermelho nos pilares do teleférico, assinalando os locais da instalação das bombas. Ensaboando nervosamente as mãos, o coração dispara. Iriam explodir o teleférico com suas dezenas de gôndolas repletas de passageiros. Será isso possível? pergunta-se, temendo estar delirando. Faltava pouco mais de uma semana para a data grifada na parte alta do painel: 11 de setembro. Havia escutado em algum lugar sobre as homenagens a serem feitas às vítimas do histórico atentado às torres gêmeas de Nova York, ocorrido há quase duas décadas. Nos Estados Unidos e em vários países o patrulhamento já era ostensivo. Confusa, dona Edite sente que os pensamentos se embaralham em sua cabeça.

Tomada pela ansiedade anda em círculos no pequeno espaço entre o chuveiro e a pia. Exausta, calcula que esta encerrada naquele cubículo há mais de duas horas. ”Seu Antônio deve estar longe”, admite. “Afinal, quem em sã consciência faria a besteira que eu fiz? Que se urinasse na rua, ora pitombas!”, culpa-se mortificada.

Em parte, dona Edite não estava longe da realidade. O taxista havia retornado cinco minutos após o horário combinado. Ao não avistar a velha senhora na calçada, fica apreensivo. Toca a campainha várias vezes. Estranha o silêncio na casa e a ausência da passageira. Insisti, bate no portão, grita o nome de dona Edite. Irritado volta ao carro e liga para o celular de sua cliente. A resposta vem em forma de gravação: “Recados para a caixa postal”. Pelo retrovisor vê ao longe, perto da pracinha, um homem encostado em uma moto. Desiste de esperar. Guarda o celular, aciona o motor e se põe a caminho. Alguns metros mais adiante, em sentido contrário, uma patrulha faz a ronda em baixa velocidade. Seu Antônio fala com os seus dois ocupantes, aponta a casa e parte em direção à avenida principal na esperança tardia de encontrar a passageira sumida.

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Confinada no banheiro e completamente sem ação, dona Edite se deixa ficar abandonada sobre o tampo do vaso sanitário. Sons confusos e amortecidos pelas paredes vão ganhando contornos esquisitos em sua cabeça. Pessoas discutem, as vozes alteradas pela agitação e a raiva. Escuta xingamentos, gritos, urros de dor e o que parece ser uma movimentação de luta. Súbito a porta é aberta com um estrondo de ferragens partidas e um homem é empurrado violentamente banheiro adentro. Ele bate com as costas e a cabeça no piso de ladrilhos.
– Não faça isso, por Deus, colombiano, implora o homem com a voz engasgada. Em resposta, rajadas de metralhadora desfolham o seu peito que se rompe como um vulcão em erupção. Uma larva gosmenta tinge o morto de vermelho.
– Ninguna palabra, mujer, ordena o justiceiro mirando a mulher petrificada. A touca suja de sangue é jogada ao chão e com a mão faz um sinal inesperado para segui-lo. Dona Edite percebe que as pernas estão imobilizadas pelo terror. O gigante de botas se afasta e a velha senhora como um boneco de mola dá um salto e se joga sobressaltada em direção à porta tropeçando sobre os pedaços do morto que estranhamente se contorcem em convulsões.

Desordenada, ela se depara com a carnificina, o vestido florido empapado de sangue. Atravessa alucinada a sala onde corpos se espalham pelo chão. Gritos e batidas vindos do buraco tampado por pedras a confundem. Uma nuvem de calor e fumaça se eleva do chão e ela se desespera. O homem corre para o fundo do quintal e com precisão e agilidade afasta os móveis empilhados que escondem uma portinhola que se abre para o terreno baldio de uma rua próxima.

Fora da casa, dona Edite por um instante tem a impressão de que a cabeça vai explodir. De repente ela ouve o ronco estridente de uma motocicleta que vem em sua direção. Travada pelo medo, as pernas não a obedecem. O colombiano acelera em seus calcanhares.
- Detrás, bufa o desconhecido em fuga, respingando saliva e indicando a garupa da motocicleta. A velha senhora é arrancada do solo por um braço pesado como um trator. Ela se agarra à cintura do homenzarrão que a joga como um saco de roupa suja sobre o assento maltratado. A máquina saracoteia e ganha velocidade.
- Fogo! berra alguém, no fundo da rua. Dona Edite escuta, atrás de si, duas violentas explosões e o estrondo de uma casa vindo abaixo. Um furacão de poeira move-se velozmente sobre a rua. O colombiano faz uma manobra arriscada e, por alguns segundos, se detém a olhar os escombros da creche abraçada pelas chamas e rolos de fumaça.

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Já na avenida principal, ziguezagueando entre os carros, o bandido se lança para o complexo do Alemão, em um itinerário de incerteza e medo. Logo, dona Edite percebe que estão sendo seguidos. O colombiano acena para o comparsa na outra moto e este faz um sinal com uma das mãos indicando que tudo está bem.

Alguns metros acima da entrada da favela, em um estreito descampado, a velha senhora avista o incêndio lá embaixo e a confusão que se formou. Pessoas deixando as suas casas, outras acorrendo ao local, curiosos já amontoados em frente à creche destruída. Uma viatura dos bombeiros atravessa a rua na contramão com a sirene ligada. Ao lado dos escombros, um carro da polícia está em chamas.

Equilibrando-se na garupa, dona Edite sente uma fisgada no peito quando o bandido se desvia de uma carroça de bananas e a moto ameaça derrapar. A boca está seca, a cabeça lateja e os braços e pernas parecem entorpecidos. Olha para o alto e percebe que os bondinhos do teleférico estão parados. Passageiros contrariados saltam nas estações.
– Tá pegando fogo lá na rua das margaridas, grita o garoto para a mulher na janela que solta uma gargalhada estridente.

Os dois motoqueiros aceleram e se enveredam pelas ruelas estreitas e íngremes, desviando-se de restos de comida, latas de cerveja, garrafas e pneus. Cachorros soltos, porcos e gatos famintos perambulam por entre roupas estendidas em varais improvisados em meio a criançada que corre pelas vielas sem ter o que fazer. A poucos metros do topo da favela, uma saraivada de tiros interrompe a corrida. As motos rodopiam, estatelam-se no barro e seus ocupantes rolam pelo matagal. Dona Edite tem a queda amortecida pela copa de uma árvore e cai sobre os restos de um colchão imundo misturado ao lixo acumulado. Tenta se levantar a procura de um lugar para se esconder. Um corpo cai ao seu lado, vísceras à mostra. O sangue espirra em seu rosto e ela fecha os olhos por um minuto. A cabeça dói e um fiapo de líquido quente escorre pela face e pescoço. O homem ensanguentado grita de dor e fúria. Nas lajes, a céu aberto, um pelotão de bandidos varre o espaço com suas metralhadoras.

Desesperada, ela se arrasta até um beco próximo. Espreme-se em um vão entre alguns casebres e deixa o corpo exausto cair ao chão. Os pés inchados dentro dos tênis sujos de lama a enojam. O chão barrento exala forte fedor de urina. Seus lábios balbuciam a oração dos aflitos até o cansaço, o medo e a desesperança silenciá-los. Adormece e e quando novamente abre os olhos as luzes mortiças de algumas lâmpadas pintam a escuridão. Levanta-se com dificuldade, sob o olhar curioso de um menino que parece observá-la há algum tempo.
-Como chego ao teleférico, implora dona Edite. O vestido florido virou um trapo amarfanhado e ela tem consciência de sua figura patética.  O garoto de pouco mais de seis anos chupa os dedos de uma das mãos e leva alguns segundos até apontar, com a outra mão, a localização da estação, um pouco abaixo de onde estavam.

No interior da gôndola, a velha senhora é a única passageira. São quase 10 horas da noite e o bondinho completa seu último trajeto para o bairro de Bonsucesso. A gigantesca favela parece envolta em um falso silêncio de espreita, a ressonar como um paquiderme em vigília. A viagem se estende por intermináveis quinze minutos até a linha férrea. Desorientada, ela avista um táxi e solta um berro esganiçado. Joga-se no assento do carro e antes mesmo de dizer para aonde vai, põe-se a soluçar. O taxista nota as condições deploráveis da mulher e aguarda alguns segundos. Pergunta o que aconteceu. Dona Edite respira fundo e finalmente consegue articular as palavras:
- Copacabana, por favor. Em seguida, exaurida pelos acontecimentos se afunda no estofado e leva a mão trêmula ao coração.

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Em seu apartamento, dona Edite fecha as malas. A temporada em Fortaleza provavelmente será longa. A afilhada, residindo em uma base militar, longe dos parentes e às voltas com dois filhos pequenos, tinha ficado exultante com a novidade. Abatida, a velha senhora lembra mais uma vez a manhã seguinte à explosão da creche. Os jornais falavam de incêndio acidental na reforma do imóvel e apontavam a presença de botijões de gás, solventes e álcool como agravantes. Seis corpos carbonizados tinham sido encontrados, sendo quatro deles dos operários da obra e dois de policiais, em ronda pelo local, que foram colhidos pelas explosões.

Porém não foram os enganos da reportagem que a surpreenderam, nem tampouco o mau-humor de seu Antônio ao telefone. Um pouco antes do meio-dia, o interfone do prédio tocou e um entregador apareceu com os documentos roubados. Ansiosa e perplexa, ela recebeu de volta a bolsa e os seus pertences intatos. O homem com capacete de motociclista estava abraçado a um arranjo de rosas vermelhas, envolto em papel celofane e arrematado por um laço dourado.
– A pessoa que achou seus documentos também envia as flores, disse devagar.

A velha senhora se sobressalta ao lembrar o meio sorriso ameaçador do homem encapsulado. O destino das rosas foi a lixeira, mas antes, com o coração aos pulos, ela  leu o recado escondido no ramalhete. “A sorte não bate duas vezes na mesma porta”, diziam as letras cuidadosamente desenhadas no cartão. “Te cuida, dona Edite”.

A ameaça surtiu efeito. Os preparativos para a mudança não passaram de uma semana. Do advogado que a representaria, nesse longo afastamento, aos vizinhos, familiares e as poucas amigas, todos foram comunicados. O motivo alegado para a repentina decisão – mudança de ares – não suscitou indagações nem questionamentos. Na sua idade, pensavam, o mais recomendável seria mesmo dona Edite residir com algum parente.

Acabrunhada, ela contempla demoradamente o amplo quarto com a varanda graciosa que a viu jovem e recém-casada. Por mais de cinquenta anos esse foi o seu santuário, o sagrado refúgio dos momentos íntimos e especiais. A viuvez ainda a fazia chorar copiosamente sobre a cama de casal, admitia para si mesmo um tanto encabulada.

Relutante, ela se despede desse passado e fecha a porta do apartamento. Letícia a ajuda com as malas e as duas entram no elevador. Na calçada, seu Antônio põe as malas no táxi. Ela abraça a jovem e acena para o porteiro, seu Severino, a quem recorria em suas emergências domésticas. Entorpecida pelo calmante, olha ao redor e percebe, do outro lado da rua, um desconhecido encostado no poste de luz. Seu rosto está parcialmente encoberto pela aba de um boné.  Hesita por um momento mas logo se recompõe e entra rápido no veículo.


– Ao aeroporto, fala decidida. O rosto contraído e os pequenos olhos azuis enevoados revelam apreensão. Pela primeira vez, em todos aqueles dias de inquietação, tem a desagradável impressão de que o exílio pode durar mais do que o previsto. “Meu Rio de Janeiro, eu juro que volto”, promete a si mesma, experimentando uma súbita sensação de confiança.
-Vamos pela praia, seu Antônio, resolve dona Edite. - Sem pressa, acrescenta, abrindo a janela do veículo para olhar o céu límpido e sem nuvens, sempre um bom augúrio para viajantes e fugitivos.

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Com a sinopse na mão, Rogério Reis, o veterano repórter das crônicas policiais, ouve as alterações sugeridas pela produção milionária do seriado “Missão Rio”, a ser exibido nas tevês europeia e norte-americana, em 2021, na esteira dos eventos internacionais realizados em anos recentes na cidade do Rio, a partir dos Jogos Olímpicos de 2016.  A começar pelo título: ao invés do atual “Dia de Pagamento”, algo mais impactante como “Terror no Alemão”. A data emblemática de 11 de setembro e sua relação com o histórico ataque às torres gêmeas em Nova York, também envolveria uma mudança de foco. Trocavam-se as milícias, os comandos das drogas e os guerrilheiros colombianos pelos mercenários do grupo terrorista al-Qaeda e seus assemelhados, como o Talibã, Hezbollah e o ressuscitado Isis,  cujas ligações no Brasil  envolveriam a compra e venda de armamentos, o tráfico de urânio, sequestros e extorsões. 

Também seria agregada ao roteiro uma rocambolesca perseguição policial pelas ruelas da favela, incluindo os bunkers camuflados dos criminosos, as guaritas e alojamentos das tropas policiais e as estações do teleférico. Em função das mudanças, um novo personagem entraria na trama. Infiltrado na gangue, um policial da Interpol seria o olheiro dos criminosos. O agente duplo estaria observando a movimentação na rua, alertando pelo celular sobre a presença de eventuais curiosos. A imprevista chegada dos policiais e os acontecimentos seguintes provocariam um retrocesso nas investigações do órgão internacional, prestes a identificar as primeiras células terroristas nas favelas do Rio. Responsáveis pela introdução clandestina de lotes de urânio que já funcionariam como moeda forte na compra ilegal de armas, esses grupos radicais teriam instalado um poderoso aparato militar de ameaça e coerção às autoridades constituídas.


Enquanto anota as modificações, Rogério Reis a princípio pensa em reagir e defender o texto original. Mas esse impulso dura apenas alguns instantes. Para todos os efeitos era um seriado televisivo, uma coprodução internacional, passível de alterações visando uma melhor comercialização no mercado exterior. A globalização e a contemporaneidade deveriam prevalecer sobre o regional no desenvolvimento do enredo, tinham alertado os produtores, visto que a série já tinha sido negociada para mais de 90 países em quatro continentes.

Os demais roteiristas da equipe, já familiarizados com as sutilezas e artimanhas de textualizar histórias de olho na audiência, tiveram suas sinopses pouco modificadas. Cada uma delas a enfocar as muitas maravilhas da cidade e suas conexões com crimes, mistério e ação : do Pão de Açúcar, Corcovado, Arcos da Lapa, floresta da Tijuca ao estádio do Maracanã, Ponte Rio-Niterói, Aterro do Flamengo e favelas como a da Rocinha e do Complexo do Alemão. Cartões postais do Rio, para o bem e para o mal, cenários de muito perigo e violência a incitarem a imaginação de autores e produtores.

Finda a reunião, por instantes Rogério se sente um tanto deslocado com o ambiente de camaradagem e a própria visão do mundo daquela rapaziada talentosa e criativa que acolhiam, de uma maneira admiravelmente informal e despojada,  um sujeito retrô, pinçado no redemoinho do século 20. Aos 63 anos, o jornalista chegava a sombria conclusão de que a redação de um jornal não mais correspondia ao sonho que o motivou por tanto tempo a se lançar em busca da verdade na notícia. A geração de profissionais destemidos, e de certa forma idealistas em seus propósitos, estava acabada e enterrada, pensou. O mundo havia mudado, a começar pelo clima do lado de fora da emissora gelada. Naquele bizarro inverno de fim de década os dias se mostravam perversamente abafados, estranhamente secos e anormalmente inquietantes, varridos por ventos que uivavam ao entardecer.


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À noite, da janela de seu quarto de celibatário, Rogério Reis admira a paisagem que se descortina majestosa. Aquele apartamento em Santa Teresa o tornava um homem feliz e era um dos poucos bens adquiridos em mais de 35 anos de profissão. Estava animado como um adolescente com a perspectiva de trabalhar no texto e se integrar à irmandade dos jovens ficcionistas, seus irmãos de alma e imaginação.

Com cuidado abre a caixinha de madeira que mantém escondida no fundo de uma das gavetas do guarda-roupa e retira o pendrive metalizado. Insere no antiquado computador o pequeno dispositivo de memória e mais uma vez fica estarrecido diante da quantidade de informações sobre o esquema e o poderio dos senhores do crime envolvidos no fracassado atentado de 2019. Lá estavam citados nominalmente chefões de grupos paramilitares, contraventores, narcotraficantes, policiais, empresários, políticos, conhecidas autoridades, datas e valores das mesadas, contas de bancos, telefones, e-mails. A estratégia do ataque ao teleférico, detalhada nas várias etapas, diligentemente elaborada como uma operação de guerra. Um plano contra a presença nas favelas da Força Urbana Nacional e que não se esgotaria na primeira tentativa, ameaçava o homem de codinome Corvo. “A operação foi adiada, mas não suspensa. Atacaremos na ocasião oportuna e os comandos serão instruídos”, avisava.


Durante o último ano, o jornalista tinha mantido segredo sobre o registro da operação terrorista que não se concretizou por um desses imbróglios do destino, mas que poderia ser reativada a qualquer momento. O dossiê eletrônico lhe foi entregue às escondidas no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, semanas depois de um mal explicado incêndio em uma creche, perto do complexo do Alemão. Na ocasião, quatro dos mais importantes chefes das milícias e das facções criminosas mais temidas da cidade, unificadas sob um comando central, foram assassinados em suas celas, dias antes da remoção para uma prisão federal em Rondônia.

Como cenas de flashback, o jornalista rememora o dia em que foi enviado pelo jornal para cobrir os assassinatos e a sangrenta rebelião que se seguiu. Sorrateiramente, um dos guardas havia lhe entregue o pendrive, logo após a entrevista coletiva do diretor do presídio. Na ocasião, descobriu que os mortos faziam parte do esquema do atentado ao teleférico e que um túnel subterrâneo tinha sido escavado a partir da creche até os pontos onde seriam colocados os explosivos. Entretanto, a inesperada presença de uma patrulha no local forçou a mudança de planos. A operação foi interrompida, os comparsas eliminados, a casa incendiada e o colombiano sobrevivente assassinado dias depois.


Se esses fatos tivessem chegado ao seu conhecimento em outros tempos, quando as editorias dos jornais eram menos dependentes dos conglomerados econômicos  e não tão acorrentadas a interesses e compromissos inconfessáveis, Rogério Reis iria adiante, buscando mais informações. Assim havia conquistado expressivos prêmios de reportagens. Contudo, o medo e a sensação de impotência o sitiavam em um penoso cárcere interior. Sentia que o mundo tinha se fragmentado em fortificados carteis manobrados por imperadores inatingíveis e insubmissos às leis vigentes. Todos conectados e interligados em organizações, grupos e facções. Mandarins de um submundo tentacular que transitavam com naturalidade pelo legal e pelo ilícito, se assim os interesses ditassem. E, na maioria das vezes, a salvo da pressão das mídias e redes sociais, agora monitoradas e cerceadas por um severo código de regras e multas imposto pelo Judiciário. Não havia mais os dois lados da moeda, dizia para si mesmo,  porque a percepção do mal se tornou obsoleta.

Fechando o armário, o jornalista empurra o minúsculo drive atolado de segredos para debaixo das camisas e meias. Seguiria com as suas aflições, que se por um lado o castigavam por outro o impediam de desistir de si próprio. Todavia, entregava os pontos como profissional da notícia. No contexto social e político de 2019 revelar a verdade seria como assinar a própria sentença de morte, no sentido mais implacável do vocábulo. E um ano depois, na solidão de seu apartamento, constatava que a máxima permanecia terrivelmente verdadeira.


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Animado com o novo trabalho, Rogério Reis entra pela madrugada reescrevendo a sinopse. Só percebe que o quarto ganha novos contornos de luz quando ouve o jornal ser jogado de encontro à porta. Vai até a geladeira e sorve alguns goles de mate pelo gargalo da garrafa. Com o jornal nas mãos, um título discreto no canto esquerdo da primeira página chama a sua atenção: “Polícia suspeita que grupo terrorista já atua nas favelas cariocas”. Por instantes se vê perdido entre as dobras do sonho, os sentidos anestesiados pelo cansaço. Tinha adormecido em frente à tela do computador e precisava acordar para concluir o enredo, pensa confuso. Mas o espelho da sala reflete a imagem real de um homem insone, com os cabelos desgrenhados e barba por fazer.

Exausto, ele desaba na cadeira. Conhecia o ardiloso estratagema da mídia de veicular fatos com lógicas distorcidas e deslocar a verdade para além dos interesses intocáveis. Contudo, essa notícia bem podia ser o prenúncio de uma desconhecida e perigosa realidade a ser experimentada com a politização dos grupos criminosos. As guerras civis no mundo árabe e a crise econômica na Europa que desandou em movimentos contrários a entrada de estrangeiros, lá pelos idos de 2011 e nos anos seguintes, tinham empurrado famílias inteiras desses países em conflito para a América do Sul. As favelas do Rio, com as casinholas postas à venda pelos antigos moradores, incapazes de arcar com os custos cada vez maiores dos serviços de urbanização, foram tomadas por legiões de imigrantes, principalmente depois das novas leis de imigração garantindo acolhida e emprego no país. E sucursais de grupos terroristas radicais  poderiam estar fincado raízes nesses redutos já politizados. 

Sob a ducha gelada o jornalista bufa e solta impropérios, os músculos retesados pela friagem. Veste as surradas calças de brim, a camiseta branca de algodão, procura as sandálias de velcro embaixo da cama e aos poucos recupera a sanidade. Com os cabelos ainda molhados e a sinopse na mochila, ele sai do apartamento e vai ao encontro dos produtores.

Três horas depois, fechado os ajustes das principais cenas, o argumento é finalmente aprovado. Ainda com os nervos tensionados pela conversa, o jornalista mesmo assim pressente que “Missão Rio”, o seriado, está fadado ao sucesso. Exultante, entra no bar e pede pão na chapa com café pingado.
Um homem ao seu lado puxa conversa e fala sobre a violência na cidade. Conta a história de um sequestro de uma passageira e parece meio bêbado. Antes de ganhar a rua, Rogério observa que o estranho entra no táxi estacionado em frente. 

Em casa, ele se dá duas semanas para costurar o enredo e desenvolver os diálogos. Mestre do jornalismo investigativo, Rogério Reis está determinado a afastar as brumas da apatia e da indiferença que obscureceram seus últimos anos como repórter e professor de jornalismo. Lamentava, nos longos domingos solitários, sua crescente incapacidade de incutir entusiasmo naqueles jovens universitários que sonhavam com uma profissão em que a busca da verdade era a força motriz da atividade.

Desfazendo-se das roupas, completamente nu, senta-se à frente do computador. Por alguns segundos mantém a cabeça baixa, imóvel. Impulsivamente retira os óculos. Precisa de uma grande dose de inspiração e paixão para recriar a realidade de uma forma que não seja superficial e vã. Na adaptação acordada com a produção, a inusitada heroína terá de enfrentar novos vilões. Pensa no homem do bar e na sua história de folhetim. Sorri interiormente ao imaginar dona Nenê passando por todas aquelas peripécias. A homenagem tardia a única pessoa que o amou sem reservas e cobranças. Ele, o caçula rebelde de dona Nenê, agora viva e presente na pele de dona Edite.

De repente dá um murro na mesa, como quisesse se apartar do sentimento de perda que sempre o acomete quando seus pensamentos se remetem à mãe, aquela figura pequena e de pouca fala que o acompanhou por mais de quatro décadas. Recoloca os óculos, respira fundo e se lança ao texto. Sente-se estranhamento leve, talvez porque liberto das pesadas amarras morais que a verdade impõe. Mas, nem por isso frívolo o bastante para não reconhecer que apesar da verdade cobrar um preço demasiado caro, como cobrou no imponderável ano de 2019, o tempo, a história e a experiência têm ensinado, de maneira incontestável, que segredos não são eternos.


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De costas para a plateia, o personagem de Rogério Reis mostra-se empenhado em vencer mais esse desafio. Lentamente a câmara se afasta do homem que dedilha o teclado de seu computador e se desloca para a janela aberta, avançando em um sobrevoo fantástico pelos cenários de cartão-postal do Rio. Os acordes atrevidos de uma melodia rapper invadem a sala de exibição, enquanto as imagens submergem  e uma sucessão de letrinhas miúdas assoma o telão.


Minutos depois, as luzes se acendem e as pessoas se levantam das poltronas  ainda tontas pela escuridão. Ordenadamente saem do cinema para a algazarra dos corredores do shopping, deixando para trás sacos amassados de pipoca e copos de papel com restos de refrigerante. É noite de sexta-feira e filas já se formam nas praças de alimentação.

Escrito originalmente em 2012. 
Pintura do artista novaiorquino Marcus Jansen