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quinta-feira, 5 de julho de 2018

O discurso inútil sobre Theresienstadt


Sheila Sacks

 “Eis que há muito tempo fala-se sobre a terra e os três quartos do que se diz passam despercebidos” (Maurice Merleau-Ponty, filósofo)

Em 2013, um ciclo de conferências reuniu pensadores brasileiros e franceses em torno de uma proposta de análise dos vários aspectos e particularidades que envolvem o silêncio – assumido, deliberado e, em certa medida, transgressor -, frente à tagarelice exacerbada do mundo contemporâneo. Isso porque a modernidade vem impondo uma aceleração forçada ao tempo e com isso uma consequente prosa contumaz, superficial, eivada de obviedades e enganos.

Essa hiperatividade da linguagem “prosaica”, que no entendimento do francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) “limita-se a tocar, por signos convencionais, significações já instaladas na cultura” (A Prosa do Mundo/1963) tem sido estimulada até por conta do fenômeno da “tirania da visibilidade” (sou visto, logo existo), uma marca das sociedades globalizadas assentadas nas redes virtuais, no consumo dirigido, na descartabilidade e no efêmero. Hoje, praticar o silêncio tornou-se “out”.

Memórias-padrão

Mesmo assim, ainda que os ambientes de clonagens linguísticas e pensamentos triviais se multipliquem, o silêncio continua sendo um mecanismo de resistência ao alcance de qualquer pessoa e um item fundamental à maturação e à reflexão, duas coordenadas que balizam o tempo da razão, da criação e da arte.

No filme “Oblivion” (2013), o diretor e autor da HQ (história em quadrinhos) que inspirou a película, Joseph Kosinski, 44 anos, realiza um exercício futurista e apresenta um mundo pós-guerra nuclear onde clones com memórias idênticas são induzidos a acreditar em supostas verdades que se comprovam posteriormente falsas.

Uma drástica antevisão do porvir que tem a sua correspondência no mundo atual, com os seres humanos cada vez mais tendendo às memórias coletivas uniformes, oriundas das massivas mensagens dos chamados “dispositivos midiáticos”, compreendendo o termo dispositivo como qualquer mecanismo que seja capaz de governar a vida, conforme enunciado pelo filósofo italiano Giorgio Agamben, 76 anos, no livrete “O que é um dispositivo” (2006).

De mártires e heróis

Nessa maré de mesmice, a garimpagem de quem por dever de ofício segue o rastro da notícia se dá no pormenor, nas entrelinhas e até no não dito. As conexões se formam na aparente linguagem coloquial, distraída e inconsequente – as tais palavras ditas ao léu - que muitas vezes perversamente encobre uma verdade, difunde uma mentira ou confunde com manobras diversionistas.

Um bom exemplo desses discursos inúteis, de palavras vãs e frases roubadas de contextos extemporâneos é o que marca o personagem do documentário “O Último dos Injustos” (Le Dernier des Injustes), do cineasta francês Claude Lanzmann, falecido neste 5 de julho, aos 92 anos.

O filme, bastante festejado pelos críticos quando de sua pré-estreia no festival de Cannes, em maio de 2013,  foi indicado ao César 2014, o maior prêmio do cinema francês.

Figura central do filme de Lanzmann, o ex-rabino de Viena Benjamim Murmelstein (1905-1989), à época das filmagens, em 1975, com 70 anos, conversa animadamente com o cineasta, então com 50 anos, em uma rua de Roma, nas cenas finais do documentário.

Presidindo o conselho judaico do campo de concentração de Theresienstadt (Terezin, em tcheco, cidade a 62 quilômetros de Praga), na Tchecoslováquia, de fins de 1944 a meados de 1945, o entrevistado tinha entre as suas funções a de se reportar periodicamente ao planejador daquele suposto “gueto modelo” – uma farsa inominável -, o tenente-coronel das forças nazistas e responsável pela logística de extermínio de milhões de judeus, Adolf Eichmann (1906-1962). Lanzmann guardou por mais de quarenta anos a entrevista, omitindo-a do longo documentário “Shoah”, exibido em 1985, alegando que na ocasião o contexto era outro.

No bate-papo em questão, em determinado momento o austríaco Mumelstein cita uma frase do prêmio Nobel de Literatura, Isaac Bashevis Singer (1902-1991): “Fomos todos mártires, mas nem todos os mártires foram santos”, diz ele em flagrante intuito de legitimar para a posteridade o seu polêmico comportamento durante a Shoah,  replicando a citação que, da forma como é apresentada, suscitaria dúvidas também quanto à conduta daqueles que, como ele, sobreviveram aos campos da morte.

O campo de Theresienstadt funcionou de 1941 a 1945, e aproximadamente 140 mil judeus europeus passaram por esse “gueto murado”, sendo que 33 mil morreram no local devido as péssimas condições existentes e 88 mil foram deportados e mortos em Auschwitz e Treblinka. Quinze mil crianças também viviam no gueto e menos de cem foram encontradas quando da libertação do campo. No todo, pouco mais de 17 mil prisioneiros escaparam com vida. Segundo o historiador e filósofo Gershom Scholem (1897-1982) os sobreviventes de Theresienstdt consideravam Mumelstein um traidor que merecia ser enforcado.

A escolha de cada um

Em contraponto a esse enganoso colóquio romano entre o elogiado cineasta e o “ex-representante” do campo de concentração nazista, 
registre-se uma outra conversa, quarenta anos depois, desta vez reunindo dois policiais, individualistas e sem apego às regras, no interior de uma carro em movimento no estado americano da Virgínia. A cena inserida no capítulo final da primeira temporada da série de TV “True Detective” (uma criação do roteirista Nic Pizzolatto), foi acompanhada por mais de 3,5 milhões de espectadores em uma noite invernal de 2014.

Rememorando o passado e os fatos que impactaram negativamente as suas vidas pessoais e profissionais ao longo de mais de duas décadas de parceria na polícia, o detetive Rust Cohle, personagem de Matthew McConaughey, é incisivo na sua afirmação ao colega Marty (Woody Harrelson) acerca das responsabilidades e das consequencias das ações de ambos. Ele diz de forma peremptória ao companheiro: “Todos têm uma escolha, Marty. Todos têm uma escolha.”

Enfim, o personagem central do “Último dos Injustos” teve sim uma escolha e a exerceu. Mas, diferente do detetive Cohle - que não procurou se justificar ou se poupar-, Mumelstein usou da arrogância para fundamentar a sua defesa. Maculou a frase de Singer no ilusório afã de se pôr a salvo do julgamento da história. 

Melhor faria se optasse pelo pudor do silêncio já que “as palavras sabem de nós aquilo que ignoramos delas”, como bem assinalou o poeta René Char (1907-1988), figura chave da moderna literatura francesa e herói da resistência armada contra os nazistas.


Texto atualizado e escrito originalmente em 2014








quarta-feira, 27 de junho de 2018

O conselheiro do rei de Marrocos


Por Sheila Sacks

Em um convênio inédito, o Museu do Holocausto de Washington e a instituição pública “Arquivos de Marrocos”, de Rabat, vão compartilhar documentos sobre os judeus do norte da África no período da Segunda Guerra. O objetivo é expandir o acervo do museu americano e propiciar a pesquisadores ocidentais melhores condições para conduzir os seus estudos sobre o tema.

A assinatura do acordo, no início de maio, teve a presença do conselheiro do rei Mohammed VI, o judeu marroquino André Azoulay, de 77 anos, grande incentivador do convênio. Desde 1991, ainda no reinado de Hassan II, Azoulay atua como Conselheiro real para assuntos econômicos e financeiros nos diversos programas de reformas estruturais e de revitalização daquele país árabe.

Prédios judaicos restaurados 
                             
Um dos projetos reais, também bastante incomum em se tratando de um país árabe, visa preservar a herança judaica do Marrocos, onde viviam, antes da fundação do estado de Israel, mais de 250 mil judeus (atualmente são 3 mil).
Estão sendo investidos 20 milhões de dólares para restaurar sinagogas, escolas, cemitérios e até placas de rua com os nomes judaicos originais, nos bairros judeus (mellah) das cidades de Casablanca, Marrakech,  Essaouira (antiga Mogador) e Fez.

O Museu de Judaísmo Marroquino, criado pela comunidade judaica de Casablanca, em 1997, é um exemplo notável. Foi totalmente reformado com o apoio da Fundação do Patrimônio Cultural Judaico-Marroquino (FPJM, na sigla em francês). O espaço abriga objetos de culto e de valor cultural que lembram a história, a religião, as tradições e a vida cotidiana dos judeus na civilização marroquina.

Azoulay explica que em 1995 o Conselho das Comunidades Judaicas do Marrocos resolveu instituir uma fundação específica para preservar o legado judaico no país. A “Fédération du Patrimoine Culturel Juif Marocain” (FPJM) tem a missão de reabilitar e restauras sinagogas e demais construções judaicas, sendo reconhecida pelo governo marroquino como uma organização de utilidade pública.

Desde então, com a cooperação do governo, também foram reformados 167 cemitérios judaicos em todo o país, com a restauração de 12 mil sepulturas.

 Congraçamento das religiões

Azoulay, que também é conselheiro da “Aliança de Civilizações das Nações Unidas” (UNAOC), presidente da “Fundação Três Culturas”, em Sevilha, na Espanha, e comanda a “Anna Lidh Foundation”, com sede em Alexandria, no Egito, foi agraciado em março deste ano com o prêmio “Líder Judeu Sefardita” , ofertado pela “Fundação de Preservação da História Visual do Povo Judeu”  (PJVH, na sigla em inglês), em Nova York, que destacou seu trabalho em prol do congraçamento das religiões e da preservação da história e cultura judaicas no Marrocos.

Um dos resultados pode ser observado na alteração da constituição do país, que em 2011 inseriu um inciso em que afirma que o Marrocos “foi nutrido e enriquecido por influências hebraicas.” Ainda assim, por ser membro da Liga Árabe, o Marrocos desde 2001 não mantém laços diplomáticos oficiais com Israel, o que não impede que mais de 50 mil israelenses visitem o país, a cada ano.

Ano passado foi inaugurada uma rota Tel Aviv-Casablanca, com conexão na Ilha de Malta.


Em abril, na competição internacional de Judô que ocorreu em Marrocos, a judoca israelense Timna Nelson-Levy teve a emoção de subiu ao pódio e escutar o hino “hatikva”, tendo ao fundo a bandeira de Israel. Ela conquistou a medalha de ouro no “Agadir Grand Prix” e a execução do hino israelense neste país muçulmano foi um fato inédito que provocou orgulho em Israel, mas que gerou uma forte polêmica entre os marroquinos.


Reação adversa

Apesar a singularidade do Marrocos em relação ao mundo árabe, também neste país existe considerável oposição a Israel, principalmente vinda de alguns setores políticos. O partido da Justiça e Desenvolvimento (PJD, na sigla em francês), muçulmano conservador, que governa o país desde 2011, protestou publicamente contra a exibição da bandeira de Israel e a execução do hino israelense que foi tocado pela primeira vez na história do reino de Marrocos.

Qualificou o ato de “inaceitável e provocador para com os sentimentos dos cidadãos marroquinos”, exortando a “expulsão” da comitiva israelense. Na nota, o PJD propôs a punição dos promotores do evento pela “profanação do solo marroquino” e concluiu afirmando que “Jerusalém foi e sempre será a capital da Palestina”.

A repercussão nas redes sociais foi intensa e os ânimos ficaram acirrados, com os usuários insistindo para que os organizadores da competição fossem processados.

Obstáculos e boicotes

Durante anos, atletas israelenses têm enfrentado obstáculos e boicotes em eventos esportivos realizados em países árabes com maioria muçulmana.

Em novembro de 2017, o próprio Marrocos inicialmente ameaçou não conceder os vistos para a equipe israelense de Judô participar do Campeonato Mundial de Judô, em Marrakech. Várias organizações ligadas ao partido que governa o país realizaram um ato de protesto contra a presença da delegação israelense. Mas, ao final, os atletas israelenses puderam usar as insígnias israelenses nos uniformes.


No mês anterior, em outra competição, judocas israelenses conquistaram cinco medalhas, no “Grand Slam” de Abu Dhabi, mas as autoridades dos Emirados Árabes não permitiram que a equipe de 12 atletas exibisse o distintivo de Israel (ISR) nos uniformes, nem portassem bandeiras ou que o hino fosse executado.

E para culminar, atletas de Marrocos e dos Emirados se recusaram a cumprimentar os israelenses que os derrotaram.

Festival une judeus e muçulmanos

Ainda que não faltem dificuldades no relacionamento de Israel com Marrocos, recentemente duas delegações daquele país visitaram Israel. Uma composta por empresários marroquinos,cineastas e escritores, e a outra formada de mulheres que participaram de palestras sobre a emancipação feminina.

Outro fato a destacar que contribui para uma melhor relação entre judeus e muçulmanos é o Festival de Música Andaluz que acontece todos os anos na cidade de Essaouira (antiga Mogador), na costa Atlântica de Marrocos.

 Por iniciativa de Azoulay, desde 2003 esta cidade portuária, de 70 mil habitantes, abriga o “Festival des Andalousies Atlantiques” que atrai milhares de admiradores e reúne músicos e cantores judeus e muçulmanos especializados nesse tipo de música medieval nascida na região da Andaluzia, na Península Ibérica, também conhecida como Al-Andalus (denominação árabe) e Sefarad (nome em hebraico).

Durante oito séculos, a partir de 711, quando os mouros dominaram esta parte da Espanha atual, floresceu uma cultura única, de raízes árabe-judaica-andaluz, até hoje lembrada e cultivada.

O evento de 2017 contou com as apresentações conjuntas do rabino e cantor de origem marroquina Haim Louk  e do tenor muçulmano Abderrahim Souiri, acompanhados da orquestra de músicos árabes “Tetouan Mohamed Larbi Temsamani”, regida pelo maestro Mohamed El-Amine Akrami.

O rabino Louk, que vive nos Estados Unidos, já gravou mais de 100 CDs e se apresenta regularmente em recitais de música clássica andaluz em Israel, Espanha, França, Bélgica, Canadá e Polônia. Ele canta textos da Torá em hebraico embalados pela melodia andaluz sefardita.

Em geral, o festival se desenvolve em 3 dias, com apresentação de concertos instrumentais, espetáculos de canto e dança, além de seminários e debates em torno da riqueza das diversidades culturais que compõe a cultura andaluz. Em 2017, foi feita uma homenagem especial ao rabino e poeta marroquino David Elkaïm (1865-1942).

Para Azoulay - pai de Audrey Azoulay, ex-ministra da Cultura da França e atual diretora geral da UNESCO - Essaouira é o que o Oriente Médio já foi e que ainda pode ser.


domingo, 17 de junho de 2018

Cidades espanholas se politizam contra Israel

Por Sheila Sacks

É reação aos conflitos na fronteira de Gaza, ocorridos em maio, durante os festejos do 70º aniversário da independência do país

Mais uma vez, Israel se vê às voltas com atos hostis procedentes de cidades espanholas. A prefeitura de Oviedo, capital da região das Astúrias, cancelou esta semana a participação da orquestra israelense de Natania e a apresentação do grupo de ballet da programação cultural planejada para depois das férias do verão.

De acordo com o produtor do evento, a decisão foi “política”, no sentido de a cidade sinalizar que não quer abrigar ou manter atividades israelenses na região.

Em Valência, a terceira maior cidade da Espanha, foi aprovada na semana passada uma moção proposta pelo partido de esquerda “Podemos” para boicotar cidadãos e empresas israelenses e tornar a cidade, de 800 mil habitantes, “livre do apartheid de Israel” e a maior zona do mundo de apoio ao BDS (Boicote, desinvestimento e sanções).

Também na semana passada, o Conselho da cidade de Barcelona (1,6 milhão de habitantes) e as prefeituras das cidades catalãs de Terrassa e Badalona emitiram comunicado propondo o embargo de armas contra Israel e exortaram o governo espanhol e  os demais governos da Europa a apoiarem a medida.

Agressão na TV

Na campanha com o BDS para atacar Israel, o líder do “Podemos”, Pablo Iglesias Turrión, em entrevista à TV pública espanhola RTVE, há poucos dias,  chamou o estado de Israel de um “país criminoso e ilegal”.

Em 2014, ele visitou Israel e Cisjordânia com uma comitiva de deputados da esquerda europeia, e teve o acesso negado ao território de Gaza. Na ocasião ele criticou o governo espanhol por gastar 300 milhões de euros na compra de mísseis Spike israelenses, da empresa Rafael ( Rafael Advanced Defense Systems Ltd.), e pela venda de material militar a Israel, em 2013, no valor de 4 milhões de euros.

O partido “Podemos” faz parte da coalizão que derrubou recentemente o ex- primeiro-ministro Mariano Rajoy  para substituí-lo pelo líder socialista Pedro Sanchez, do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), empossado em 2 de junho.

Batalha nos tribunais

Esse conjunto de ações para constranger o estado israelense tem sido corajosamente enfrentado pelo grupo espanhol pró-Israel ACOM (Acción y Comunicación), sob a presidência de Angel Mas, 50 anos, um executivo do ramo de seguro hipotecário. A organização, que tem sido fundamental na defesa dos interesses políticos de Israel na Espanha, já prepara uma ação legal na Justiça contra Valência e seu voto a favor do boicote.

Desde a sua criação, há oito anos, as iniciativas judiciais da ACOM em tribunais da Espanha levaram a anulação ou suspensão de 24 moções aprovadas por municípios espanhóis para boicotar Israel. Sob a pressão da ACOM, pelo menos sete municípios voltaram atrás em seus endossos ao BDS e 14 tiveram canceladas nos tribunais suas resoluções a favor do BDS. Outras ações ainda estão pendentes de decisão judicial.

Entretanto, em março, um juiz espanhol aceitou uma ação penal impetrada pelo Comitê de Solidariedade da Causa Árabe contra Angel por suposta incitação ao ódio e intimidação contra os boicotes a Israel.

É a primeira vez que um presidente de entidade pró-Israel está sendo levada aos tribunais da Espanha e com isso o grupo deve rever as estratégias até então adotadas. A alegação de incitação advém do fato de que a ACOM acusa o BDS de agir como uma organização antissemita, e em relação à intimidação, a base da denúncia mira as ações legais da ACOM contra os municípios espanhóis que adotaram a política do movimento BDS de boicote a Israel.

Apoio político e verbas públicas

De acordo com Angel, o movimento BDS se radicalizou e se tornou virulento na Espanha, a partir de 2014, com o surgimento do partido de extrema esquerda chavista “Podemos”, financiado pela Venezuela e Irã. Tendo perdido muitas ações nos tribunais da Espanha, o BDS vem mudando de tática, segundo Angel. “Eles estão mirando os indivíduos em uma campanha de difamação na tentativa de tornar os judeus espanhóis e Israel indefesos.”

Relatório conjunto divulgado ano passado pela ACOM e a ONG Monitor revela que somente em 2015 o BDS na Espanha recebeu seis milhões de euros de subvenções públicas oriundas de administrações regionais e municipais que respaldaram suas atividades anti-Israel no país. A ACOM também identificou que seis das muitas organizações pró-BDS que operam na Espanha já receberam mais de 33 milhões de euros de dinheiro público, desde 2014.

O presidente da ACOM reconhece que essa é uma luta que requer tempo, esforço e recursos. “Fomos expulsos há 500 anos, mas isso não acontecerá novamente.”

Atualmente, 30 mil judeus vivem na Espanha, a maioria em Málaga, Madri e Barcelona.



domingo, 3 de junho de 2018

Charges do mal atingem comunidade judaica do Chile


Por Sheila Sacks

Aumenta o número de charges anti-Israel e antijudaicas na internet, enquanto permanecem raras as charges que defendem Israel

A pequena e laboriosa comunidade judaica chilena, de cerca de 18 mil membros, está passando por tempos difíceis. O aumento do antissemitismo no Chile liderado por descendentes de palestinos residentes no país, que hoje somam perto de 500 mil  pessoas – a maior comunidade palestina fora do Oriente Médio – , tem provocado constrangimentos e momentos de tensão, agravados pela lentidão das autoridades locais em coibir manifestações preconceituosas, abusos e agressões verbais.

O presidente da Ccomunidade Judaica do Chile (CJCh), Shai Agosin, denuncia que a linha entre antissionismo e antissemitismo está se tornando indistinta. Ele conta que a Federação Palestina do Chile tem publicado repetidas charges antijudaicas em seu site se utilizando de caricaturas semelhantes às usadas pelo semanário nazista Der Stürmer, da década de 1930.

Em 2016,o Centro Simon Wiesenthal de direitos humanos já tinha manifestado seu repúdio à veiculação dessas charges em documento endereçado a então presidente Michelle Bachelet. 

Recentemente, o Comitê Judaico Americano (AJC, na sigla em ingês), enviou uma carta ao atual presidente Sebastián Piñera, empossado em março, externando  a sua preocupação em relação ao ambiente hostil aos judeus, principalmente nas universidades. “Sob a bandeira de solidariedade ao povo palestino, o direito dos judeus chilenos de expressarem o seu apoio a Israel vem sendo questionado e até mesmo negado.”

Sem dúvida, o cartum político é um instrumento de crítica e de convencimento. Porém,quando o alvo é Israel, o que se observa é que a arte da caricatura e da charge se converte em uma arte armada em um campo de guerra, com artistas milicianos se valendo de todos os artifícios enganosos da propaganda e do imaginário racista para degradar a identidade judaica e o estado de Israel. Muitos desses cartunistas, aliciados por grupos extremistas, beligerantes e antissemitas.

São charges do mal que incitam à violência e estimulam a intolerância, principalmente entre os jovens. No Chile atual, que recebeu em maio a visita oficial de  Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, universitários promovem boicote acadêmico a Israel e tentam proibir estudante judeu de participar de conselho estudantil. Situações que não combinam com a imagem de um país considerado modelo de democracia e de direitos humanos na América Latina.

Brasileiro entre os mais antissemitas

Em relação ao Brasil, é importante lembrar que o cartunista Carlos Latuff foi listado, em 2012, como o terceiro maior antissemita do mundo. A listagem elaborada pelo Centro Simon Wiesenthal colocava na liderança o egípcio sunita Mohammed Badie, guia supremo da Irmandade Muçulmana, condenado à prisão perpétua em 2017, seguido do iraniano xiita Mahmud Ahmadinejad,na época presidente do Irã.

Latuff , de 49 anos, que se autodenomina um artista político que abraçou a causa palestina, prossegue com seus cartuns ofensivos contra Israel, reproduzidos por inúmeros sites de notícias, como Portal Vermelho, OperaMundi, Diário do Centro do Mundo(DCM), Carta Capital e Folha de São Paulo, entre outros. 

Em 2006, Latuff foi premiado com o segundo lugar em uma competição internacional denominada “Charges sobre o Holocausto”, promovida pelo governo de Ahmadinejad.

Hasbará na arte do cartum

Apesar dos protestos de organizações judaicas, houve um crescimento descomunal, nas mídias nacional e internacional, de charges maldosas contra o estado de Israel que utilizam caricaturas preconceituosas e medievais dos judeus em seus desenhos. Por outro lado, os cartuns que apoiam Israel são em número reduzido, insuficientes para reparar os danos provocados por este tipo de “arte”.

Implementar e propagar, nos meios de comunicação e nas redes sociais, as charges que  mostram a realidade da situação do conflito de Israel com os palestinos, em uma espécie de Hasbará ilustrativa, é uma alternativa para ser contrapor a essa enxurrada infame de cartuns que denigrem a história e a identidade judaica.



Artistas alemães contribuíram para o Holocausto

O fenômeno perturbador das charges antissemitas tem sido objeto de pesquisa do professor Luiz Nazario, 61 anos, doutor em História pela Universidade de São Paulo (com a tese “O Papel do Cinema na preparação do Holocausto”) e profundo estudioso de temas que envolvem o nazismo, o antissemitismo e o  terrorismo contextualizados nas áreas da propaganda, do cinema e da animação. Desde 1997 é professor de Cinema na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG). Tem 19 livros publicados.

Em uma entrevista online, em 2009, o professor Nazario respondeu gentilmente as minhas perguntas sobre a arte das charges ou cartuns que têm como alvo o estado de Israel e os judeus. Seus esclarecimentos ainda permanecem atuais porque, nesse aspecto, lamentavelmente, o mundo pouco mudou.

● A arte, como expressão imaginativa e criativa, estaria conceitualmente imune às amarras da ética filosófica tradicional (e suas normatizações em relação ao Bem e ao Mal)?

- Tenho me batido, em meus escritos sobre arte e ideologia, contra a ideia corrente de que o artista é um ser divino, acima do Bem e do Mal. Naturalmente, talentos específicos distinguem um artista de outros cidadãos que não possuem os mesmos talentos, mas esse privilégio não isenta o privilegiado da responsabilidade por suas ações. Se o artista é capaz de sintetizar numa imagem toda uma situação, sua síntese possui um poder de impacto que deve ser considerado.

Ao engajar sua arte numa causa, o artista sabe – ou deveria saber – exatamente o que está em jogo. Nenhum artista é obrigado a engajar sua arte. Mas se ele engaja sua arte numa causa justa, por mais liberdade, paz, progresso, verdade, ele deve ser recompensado por prestar voluntariamente um serviço à humanidade. Da mesma forma, se ele engaja sua arte numa causa criminosa, por mais terror, guerra, miséria, mentira, ele deve ser punido por contribuir voluntariamente com a desumanidade. A forma dessa punição deve ser estabelecida pela sociedade.

Claro que certas sociedades podem aproveitar-se dessa medida para punir os artistas que as incomodem, estabelecendo uma nova censura, um novo totalitarismo etc. Daí o receio de se estabelecer critérios de punição para artistas. Os artistas alemães contribuíram em massa com o regime nazista, desempenhando muito bem a parte que lhes coube na execução nacional do Holocausto. Nenhum deles foi punido por isso. E mesmo Leni Riefenstahl, tão próxima de Hitler, glorificando o regime nazista com seus filmes de propaganda, foi enfim reabilitada.

Cartum como arma de guerra

É crível ao artista/cartunista, no ato da criação, sublimar suas ideologias e preconceitos?

- Como disse, o engajamento da arte é uma opção política do artista. Se um cartunista como Carlos Latuff dispõe-se a diabolizar os israelenses para tornar aos olhos do mundo a causa dos palestinos, que ele adotou, mais humana, ele sabe exatamente a que processos e técnicas sua arte precisa recorrer. Tendo o domínio de sua arte, ele expressa exatamente o que deseja expressar. Não pode alegar posteriormente inocência quanto a isso.

Naturalmente, tal artista não quer ser visto como racista, e por isso ele se diz de esquerda, deprecia neonazistas e sustenta condenar, em sua arte, apenas um Estado imperialista que massacra palestinos. Mas ao concentrar a humanidade em apenas um dos lados do conflito, diabolizando o outro lado, assume, em sua arte, que todos os crimes podem ser cometidos contra o lado diabolizado.

● De que forma a arte do cartum tem sido usada como uma arma dissimulada de guerra?

- O cartum sempre foi usado como arma de guerra, desde a Primeira Guerra Mundial. Veja-se a animação “O afundamento do Lusitânia” (The Sinking of Lusitania, EUA, 1918), do cartunista Winsor McCay, com mais de 25 mil desenhos numa animação realista, enfatizando o peso dramático da mensagem dirigida contra a Alemanha, cujos submarinos haviam torpedeado e afundado aquele navio de passageiros, resultando em 1.195 vítimas civis, das quais 128 eram cidadãos norte-americanos.

Na Segunda Guerra o uso do cartum na propaganda contra o inimigo foi intensificado, tanto pelo Eixo quanto pelos Aliados. Mas nem toda propaganda de guerra (caricaturas, animações, filmes etc.) é condenável. É preciso distinguir as propagandas que expressam pontos de vista humanos de solidariedade, amor à liberdade e defesa de uma causa justa das que expressam pontos de vista desumanos, ódio à liberdade, defesa de uma causa injusta.

Há propagandas aliadas que, ao combater o racismo e a agressão do Eixo também se mostraram racistas e agressoras. Nenhuma causa deve servir de pretexto para o artista desafogar a própria bestialidade. 

O que ocorre atualmente no conflito Israel-Palestina é o uso internacional do repertório de clichês antissemitas da caricatura antissemita tradicional (dos séculos XIV-XIX), cujas fontes são os sermões da Igreja católica; e nazista (dos anos de 1920-1940), cujas fontes são “Os protocolos dos sábios do Sião”.

Este uso não se faz mais contra o Judeu (isto é, contra o povo judeu), mas contra o Estado Judeu (isto é, contra todos os judeus que se identificam com este Estado). É como se o antissemitismo, após a criação de Israel, redimensionasse seu ódio ao Judeu para o ódio ao Estado Judeu. Nesta operação, os “antissionistas” esperam dividir o povo judeu entre sionistas e não-sionistas e ainda conquistar uma parcela deles para a causa da destruição da Israel.

Imagens agressivas e deformadas

Algumas técnicas imagéticas dessas caricaturas:
1. Animalização dos judeus ortodoxos (pintados sob a forma de ratos, aranhas, serpentes, dragões, etc.);
2. Diabolização das autoridades israelenses (Primeiros-Ministros com chifres e caudas de diabo, cercado de chamas do inferno; renomeação de Israel como “Israelixo” ou “Israhell” etc.);
3. Negação do Holocausto (associação de Auschwitz a um parque de diversões com inserção de uma roda gigante, por exemplo);
4. Dessacralização da Estrela de Davi (sistematicamente associada a suásticas, crimes, opressões e massacres);
5. Troca histórica de papéis em situações históricas diversas (substituição das tropas SS por soldados israelis, da suástica pela Estrela de Davi, de judeus vitimados no Holocausto por palestinos vitimados por Israel);
6. Pacifismo (associação da causa da destruição da Israel à Pomba da Paz, sempre ferida, mutilada, esmagada e morta por Israel, o “eterno perturbador da paz”, como Hitler, causador da guerra mais mortífera de toda a História, chamava os judeus); etc.

● Qual é o papel da globalização nesse contexto?

- A globalização deu à História a dimensão do tempo real, ou seja, tudo acontece em todo lugar ao mesmo tempo. O mundo, que sempre foi um, agora é mais um que nunca. Todos os internautas têm acesso a todas as informações de todos os lugares o tempo todo. Mas algumas verdades horríveis não são assimiladas e a má-fé cresce na mesma medida.

Numa disciplina que leciono, Cinema e História, um aluno meu escolheu analisar o filme “Paradise Now”. Como poucos, ele percebeu que o homem-bomba palestino era santificado na cena do banquete, construída como na Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. Mas ao mesmo tempo, recusou-se a perceber o sentido dessa santificação. Ele sabia o que eu pensava a respeito. Mas se ele concordasse comigo precisaria recusar a santidade da causa palestina, o que ele não estava preparado a aceitar, pois se os terroristas palestinos não forem santos, Israel não seria mais tão detestável. E ele precisava odiar Israel, precisava que Israel fosse o Mal para manter funcionando sua visão de mundo, inteiramente baseada na má-fé.

Fascismo de esquerda

Quais os fatores que favorecem, na sociedade brasileira atual, a disseminação do preconceito e a demonização de Israel?

- A ideia de que para ser cool, in, fashion, basta odiar os Estados Unidos (o Grande Satã) e Israel (o Pequeno Satã), e de que todo o resto virá automaticamente. Pensar dá muito trabalho, é mais fácil seguir o rebanho. E se a nova onda é um novo tipo de fascismo, é o que se terá no Brasil. Aliás, é o que já temos. Um novo fascismo de esquerda, com discriminação total a Israel e aos EUA.

Escritores e artistas como Gore Vidal, José Saramago, John Le Carré, Jean Ziegler e Mikos Theodorakis ajudaram a dar, através de declarações raivosas contra Israel nas mídias de consumo, prestígio intelectual ao pathos antissemita. Mesmo escritores e artistas judeus precisam, agora, para fazer sucesso junto às mídias, mostrar-se contra Israel em certa medida, como o fez Susan Sontag cujos ensaios admiro, em seus discursos políticos, incluindo o de agradecimento ao Prêmio Jerusalém (2001), pela coletânea “Ao Mesmo Tempo”.

Cineastas israelenses devem fazer como Amos Gitai: criticar Israel em filmes e entrevistas, ou não ganharão prêmios e retrospectivas em festivais internacionais de cinema. A obrigação de atacar os EUA e Israel generalizou-se. Não que os EUA e Israel sejam inatacáveis, mas quando se atacam apenas EUA e Israel, e não se atacam os Estados que efetivamente suprimem liberdades civis, acobertam terroristas, doutrinam crianças, perseguem minorias, inferiorizam mulheres etc. então não se trata de críticas exprimindo uma visão humanista, mas de difamações propagando uma visão desumana.