terça-feira, 22 de maio de 2012

Em uma manhã de 2019, bandidos mandam rosas



Por Sheila Sacks


Em pé, exalando a lavanda, Dona Edite aproxima o rosto do espelho. “Até que estou arrumadinha”, avalia satisfeita com o que vê. Levando em conta as estripulias do tempo, o resultado não era de todo ruim. Afinal, aquele olhar azul celeste de galantes elogios permanecia irretocável. Ou quase. Sorri complacente com a idade, as rugas e os cabelos estriados de branco. Por alguns segundos aprecia os novos óculos de armação coral e num galanteio maroto pisca o olho esquerdo, alegre com o dia que a espera.

Vai à cozinha e encontra Letícia, descalça e de short desfiado, limpando a prateleira mais alta do armário. - Vou ao banco filhota, avisa em voz alta. A jovem, de pouco mais de 18 anos, move a cabeça sem retirar os minúsculos fones encaixados nos ouvidos. Empoleirada na escada, repara que a patroa está de vestido florido, rosto empoado, batom vermelho e bolsa branca a tiracolo. “Dia de pagamento, dia feliz...” cantarola em falsete, ao som dos acordes sertanejos que zunem em seus ouvidos. Fingindo não se importar com o gracejo, a velha senhora se apruma, encolhe a barriga, acena com a mão e sai porta afora.

Na ala de serviço, dona Edite dá bom dia ao faxineiro que, balde e rodo nas mãos, lê entretido qualquer coisa estampada na pilha de jornais velhos. Já no saguão, o porteiro meio que escondido atrás da bancada de madeira aciona a tranca da porta, a atenção dividida entre as imagens das câmaras de segurança e o desenho animado que colore a pequena tela da tevê.

Alcançando a rua, ela anda por mais de dez minutos até chegar ao seu destino. Transeuntes apressados misturam-se a banhistas de sandálias havaianas, idosos de andar trôpego, donas de casa com sacolas de supermercado. Eles lotam as calçadas nos cruzamentos, um pequeno exército brancaleone. Da praia sopra um vento inoportuno que desarranja os cabelos de quem anda pela avenida principal.

Já no interior do banco, dona Edite se alinha na fila dos idosos e observa o atendente, um de seus preferidos. “Melhor assim”, pensa. O jovem gorducho, como de hábito, trata-a com uma cordialidade que a deixa encabulada. Ao final, despede-se com um celestial “até a próxima, minha linda“, carinho verbal que tem o dom de afoguear seu rosto, inebriar os sentidos, confundir a mente. Tal qual uma ébria, deixa-se levar pelo encantamento, esbarrando na porta giratória que a expele cambaleante para fora do banco, sob o olhar fixo e impessoal do segurança fardado.

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De volta ao apartamento dona Edite liga para o taxista. Em sua bolsa as notas dobradas já tinham sido contadas.
- Vamos para Bonsucesso, seu Antônio, informa satisfeita, ajeitando-se no interior do táxi. O veículo sobe o Corte do Cantagalo e desce para a orla da Lagoa Rodrigo de Freitas. Em uma das curvas, a velha senhora se surpreende com a visão de meia dúzia de garças perfiladas sobre um estrado à beira do espelho água. Entre nuvens, o sol acanhado parece navegar para outras paragens. O táxi atravessa as duas extensas galerias do Túnel Rebouças desembocando do outro lado da cidade onde nuvens cinzentas sombreiam o céu. “Dia de pagar promessa”, associa a velha senhora apalpando o pequeno guarda-chuva no fundo da bolsa.

Pelo terceiro mês consecutivo dona Edite repete o longo trajeto de Copacabana ao bairro de Bonsucesso para cumprir a promessa assumida pelo pronto restabelecimento de uma prima muito querida. Durante seis meses ela iria doar três salários mínimos para uma creche mantida por uma dessas organizações sociais de ajuda ao próximo. O valor poderia parecer exorbitante para uma professorinha pública aposentada, mas dona Edite tinha a vantagem de ser viúva de um procurador da República. Daí a generosa pensão que sustentava as suas viagens anuais aos museus e castelos europeus, financiava as assinaturas anuais do calendário operístico do Teatro Municipal, o plano de saúde top e outros prazeres herdados do tempo de casada, tais como as bacalhoadas semanais em um restaurante da Avenida Atlântica.

Entorpecida pela viagem e pelos pensamentos, ela fecha os olhos. “O tempo corre como o táxi de seu Antônio”, matuta de forma vaga, perdida entre a fronteira da consciência e do sono. Sorri ao lembrar a garotada da creche. “No Natal vou comprar uns brinquedinhos”, decide, enquanto o carro se embrenha pelo cenário desconhecido do subúrbio.

Em pouco mais de dez minutos o táxi diminui a velocidade e estaciona em uma esquina pouco movimentada de um entroncamento de duas ruas, tendo uma pequena praça ao fundo, no final de uma das vias. Um muro alto esconde a creche. De ambos os lados, casas de aparência diversas, com fachadas mal cuidadas ou parcialmente reformadas se seguem, uma após outra, sem guardar similaridade. Das calçadas irregulares de cimento irrompem raízes de amendoeiras centenárias cujos galhos e ramagens se curvam sobre os paralelepípedos das ruas por onde os raros veículos transitam. Dona Edite olha a paisagem melancólica que traz à tona remendos de uma infância aflita e reprimida.
- Não vou demorar, fala para o taxista. Tome um cafezinho por minha conta e volte daqui a meia-hora, combina.

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O muro de cimento que cerca a creche está encimado por pontudos cacos de vidros em desafio a possíveis incursões. Dona Edite toca a campainha já antevendo o abraço afetuoso da risonha auxiliar. Enquanto espera, alça a vista para o horizonte recortado pela admirável estrada suspensa do teleférico que se estende sobre o conjunto de favelas do Alemão, uma cidadela fortificada e inexpugnável. Atravessando as várzeas e os pontos altos dos morros apinhados de casas aboletadas umas sobre as outras, dezenas de pequenas gôndolas envidraçadas deslizam pelos cabos de aço suspensos por gigantescos pilares em um vai e vem contínuo entre as estações construídas sobre os platôs. Dona Edite mais uma vez se surpreende com a visão daquela obra de engenharia realizada no início da década.

Postada na calçada, pressiona mais uma vez o botão vermelho instalado na frente do muro. O táxi há muito tinha sumido em uma curva, em direção à avenida. Finalmente o portão é aberto e um sujeito de boca murcha, cabelos ralos e com as roupas sujas de massa de cimento assoma à soleira.
- A creche está em obra, madame, apressa-se em explicar. E emenda: - Só volta a funcionar na semana que vem.

Dona Edite sente que a bexiga fraca já dá sinais preocupantes. De supetão ela cruza o portão sem dar tempo ao homem de impedi-la.
- Preciso usar o banheiro, meu filho. É rapidinho e sei o caminho, vai dizendo enquanto aperta o passo. Mas em poucos segundos ela se vê segura pelo braço e arrastada para o interior da casa. É largada em frente a uma enorme cratera escavada no centro de uma das salas. Operários de torsos nus empilham sacos de entulho trazidos do fundo do túnel que se alonga por debaixo da construção. Atônita, dona Edite percebe alguns homens fardados. Um deles se aproxima, o rosto oculto por uma touca escura de malha. Das fendas do gorro, dois olhos cinzentos e frios a avaliam. - Deje la bolsa acá, ordena. O portunhol range na voz cavernosa do gigante. Ele usa coturnos emborrachados e colete à prova de balas. Aponta o banheiro. - Adelante, va.

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No estreito e comprido banheiro dona Edite se vê sem os documentos, dinheiro, celular, relógio, sombrinha e agenda. Todos na bolsa confiscada. Tenta entender o que acontece. O susto a leva imaginar que a polícia realiza uma operação secreta, talvez algo relacionado com informações do disque-denúncia. Mas tem consciência que não é bem isso que se desenrola do outro lado da porta. Sua percepção apurada a faz desconfiar de que uma possível operação terrorista está em curso. E ela se indaga em que parte daquele roteiro de horror sua personagem esdrúxula se encaixa.

Cerra os olhos e revê o enorme mapa das favelas do Alemão, detalhado e ampliado, ocupando toda a parede da sala. Nele foram pintados grandes círculos em vermelho nos pilares do teleférico, assinalando os locais da instalação das bombas. Ensaboando nervosamente as mãos, o coração dispara. Iriam explodir o teleférico com suas dezenas de gôndolas repletas de passageiros. Será possível? pergunta-se, temendo estar delirando. Faltavam poucos dias para a data grifada na parte alta do painel: 11 de setembro. Havia escutado em algum lugar sobre as homenagens a serem feitas às vítimas do histórico atentado às torres gêmeas de Nova York, ocorrido há quase duas décadas. Nos Estados Unidos e em vários países o patrulhamento já era ostensivo. Confusa, dona Edite sente que os pensamentos se embaralham em sua cabeça.

Tomada pela ansiedade anda em círculos no pequeno espaço entre o chuveiro e a pia. Exausta, calcula que esta encerrada naquele cubículo há mais de duas horas. ”Seu Antônio deve estar longe”, admite. “Afinal, quem em sã consciência faria a besteira que eu fiz? Que se urinasse na rua, ora pitombas!”, culpa-se mortificada.

Em parte, dona Edite não estava longe da realidade. O taxista havia retornado cinco minutos após o horário combinado. Ao não avistar a velha senhora na calçada, ficou apreensivo. Tocou a campainha várias vezes. Estranhou o silêncio na casa e a ausência da passageira. Insistiu, bateu no portão, gritou o nome de dona Edite. Irritado voltou ao carro e ligou para o celular de sua cliente. A resposta veio em forma de gravação: “Recados para a caixa postal”. Pelo retrovisor viu ao longe, perto da pracinha, um homem encostado em uma moto. Desistiu de esperar. Jogou o celular no banco do carona,
acionou o motor e se pôs a caminho. Alguns metros mais adiante, em sentido contrário, uma patrulha fazia a ronda em baixa velocidade. Seu Antônio falou com os seus dois ocupantes, apontou a casa e partiu em direção à avenida principal na esperança tardia de encontrar a passageira sumida.

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Confinada no banheiro, a velha senhora se deixa ficar, completamente sem ação, sobre o tampo do vaso sanitário. Sons confusos e amortecidos pelas paredes vão ganhando contornos estranhos em sua cabeça. Pessoas discutem, as vozes alteradas pela agitação e a raiva. Escuta xingamentos, gritos de dor e o que parece ser uma movimentação de luta. Súbito a porta é aberta com um estrondo de ferragens partidas e um homem é empurrado violentamente banheiro adentro. Ele bate com as costas e a cabeça no piso de ladrilhos.
– Não faça isso, por Deus, colombiano, implora o homem com a voz engasgada. Rajadas de metralhadora desfolham o seu peito que se rompe como um vulcão em erupção. Uma larva gosmenta tinge o morto de vermelho. – Ninguna palabra, mujer, ordena o justiceiro, mirando a mulher petrificada. Com a mão faz um sinal inesperado para segui-lo. Dona Edite percebe que as pernas não respondem. O gigante de botas se afasta e ela, como se acordasse de um pesadelo, joga-se sobressaltada em direção à porta tropeçando sobre o corpo que estranhamente se contorce em convulsões.

Assustada se depara com a carnificina, o vestido florido empapado de sangue. Percorre alucinada a sala onde corpos se espalham pelo chão. Gritos e batidas vindos do túnel, agora tampado, a confundem. Um cheiro de fumaça começa a invadir a casa e ela se desespera. O mascarado corre para o fundo do quintal e com precisão e agilidade afasta os móveis empilhados que escondem uma portinhola que se abre para o terreno baldio de uma rua próxima.

Fora da casa, dona Edite por um instante tem a impressão de que a sua cabeça vai explodir. De repente ela escuta o ronco estridente de uma motocicleta que avança em sua direção. Ela se vê travada pelo medo, com as pernas paralisadas. O colombiano acelera em seus calcanhares.
- Detrás, bufa o homem em fuga, respingando saliva e indicando a garupa da motocicleta. O capacete negro com o desenho de uma caveira dourada na lateral deixa entrever uma boca larga e carnuda. A velha senhora é arrancada do solo por um braço pesado como um trator. Ela se agarra à cintura do homenzarrão que a joga, como um saco de roupa suja, sobre o assento maltratado. A máquina saracoteia e ganha velocidade.
- Fogo! berra alguém, no fundo da rua. Dona Edite escuta, atrás de si, duas violentas explosões e o estrondo de uma casa vindo abaixo. Uma nuvem de poeira move-se velozmente sobre eles. O colombiano faz uma manobra arriscada e, por alguns segundos, se detém a olhar os escombros da creche envolta em chamas e fumaça.

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Já na avenida principal, ziguezagueando entre os carros, o bandido se lança para o complexo do Alemão, em um itinerário de incerteza e medo. Logo, dona Edite percebe que estão sendo seguidos. O colombiano acena para o comparsa na outra moto e este faz um sinal com uma das mãos indicando que tudo está ok.

Alguns metros acima da entrada da favela, em um estreito descampado, a velha senhora vê o incêndio lá embaixo e a confusão que se formou. Pessoas saindo de suas casas, outras acorrendo ao local, curiosos já parados em frente à creche destruída. Uma viatura de bombeiro atravessa a rua na contramão com a sirene ligada. Ao lado dos escombros, um carro da polícia está em chamas.

Equilibrando-se na garupa, dona Edite sente uma fisgada no peito quando o bandido se desvia de uma carroça de bananas e a moto ameaça derrapar. A boca está seca, a cabeça lateja e os braços e pernas parecem entorpecidos. Olha para o alto e percebe que os bondinhos do teleférico estão parados. Passageiros contrariados saltam nas estações.
– Tá pegando fogo lá na rua dos brancos, avisa o garoto para a mulher postada na janela que solta uma estridente gargalhada.

Os dois motoqueiros aceleram e se enveredam por ruelas estreitas e íngremes, desviando-se de restos de comida, latas de cerveja, garrafas, pneus, cachorros soltos, porcos e gatos, roupas estendidas em varais improvisados e da multidão de crianças que corre pelas vielas sem ter o que fazer. A poucos metros do topo da favela, uma saraivada de tiros interrompe a corrida. As motos rodopiam, estatelam-se no barro e seus ocupantes rolam pelo matagal. Dona Edite tem a queda amortecida pela copa de uma árvore e cai sobre os restos de um colchão imundo misturado ao lixo acumulado. Tenta se levantar a procura de um lugar para se esconder. Um corpo cai ao seu lado, vísceras à mostra. O sangue espirra em seu rosto e ela fecha os olhos por um minuto. A cabeça dói e um fiapo de líquido quente escorre pela face e pescoço. O homem ensanguentado urra de dor e de fúria. Nas lajes, a céu aberto, um pelotão de bandidos varre o espaço com suas metralhadoras.

Desesperada, ela se arrasta até um beco próximo. Espreme-se em um vão entre alguns casebres e deixa o corpo escorregar até o chão úmido. Os pés inchados dentro dos tênis sujos de lama e sangue a incomodam. Seus lábios balbuciam automaticamente a oração dos aflitos até o cansaço silenciá-los. Adormece e quando abre os olhos vê as luzes mortiças de algumas lâmpadas pintando a escuridão. Levanta-se com dificuldade, sob o olhar curioso de um menino que parece observá-la há algum tempo.
-Como chego ao teleférico, implora dona Edite, o vestido florido rasgado, manchado e amarfanhado. O garoto de pouco mais de seis anos chupa os dedos da mão direita e leva alguns segundos até apontar, com a outra mão, a localização da estação, um pouco abaixo de onde estavam.

No interior da gôndola, a velha senhora é a única passageira. São quase 10 horas da noite e o bondinho completa seu último trajeto para o bairro de Bonsucesso. A gigantesca favela parece envolta em um silêncio de espreita, a ressonar como um paquiderme em vigília. A viagem se estende por intermináveis quinze minutos até a linha férrea. Desorientada, ela avista um táxi e solta um berro esganiçado. Joga-se no assento do carro e antes de dizer para aonde vai, põe-se a soluçar. O taxista nota as condições deploráveis da mulher e aguarda alguns segundos. Dona Edite respira fundo e finalmente consegue articular as palavras: - Copacabana, por favor. Em seguida, esgotada e abatida se afunda no estofado e leva a mão ao coração. O pesadelo acabou.

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Em seu apartamento, dona Edite fecha as malas. A temporada em Fortaleza provavelmente será longa. A afilhada, residindo em uma base militar, longe dos parentes e às voltas com dois filhos pequenos, tinha ficado exultante com a novidade. Com um suspiro, mais uma vez a velha senhora relembra a manhã seguinte à explosão da creche. Os jornais falavam de incêndio acidental na reforma do imóvel e apontavam a presença de botijões de gás, solventes e álcool como agravantes. Seis corpos carbonizados tinham sido encontrados, sendo quatro deles dos operários da obra e dois de policiais, em ronda pelo local, que foram colhidos pelas explosões.

Porém não foram os enganos da reportagem que a surpreenderam, nem tampouco as perguntas desconfiadas de seu Antônio. Um pouco antes do meio-dia, o interfone do prédio tocou e um entregador apareceu com os documentos roubados. Ansiosa e perplexa, ela recebeu de volta a bolsa branca e os seus pertences intatos. O homem com capacete de motociclista estava abraçado a um arranjo de rosas vermelhas, envolto em papel celofane e arrematado por um laço dourado.
– A pessoa que achou seus documentos também envia as flores, justificou.

Sozinha na cozinha, dona Edite sente o coração acelerar. Lembra o meio sorriso ameaçador do homem encapsulado. O destino das rosas seria a lixeira, mas não sem antes ler o recado que estaria escondido no ramalhete. Afasta as ramagens com cuidado para não se ferir com os espinhos e encontra o cartão: “A sorte não bate duas vezes na mesma porta”, dizem as letras cuidadosamente desenhadas. “Te cuida, dona Edite”.

Os preparativos para a mudança se estenderam por uma tensa semana. Do advogado que a representaria, nesse longo afastamento, aos vizinhos, familiares e as poucas amigas, todos foram comunicados. O motivo alegado para a repentina decisão – mudança de ares – não suscitou indagações nem questionamentos. Na sua idade, pensavam, o mais recomendável seria mesmo dona Edite residir com algum parente.

Acabrunhada, ela contempla demoradamente o amplo quarto com a varanda graciosa que a viu jovem, recém-casada. Por mais de cinquenta anos esse foi o seu santuário, o sagrado refúgio dos momentos íntimos e especiais. A viuvez ainda a fazia chorar copiosamente sobre a cama de casal, admitia um tanto encabulada. Relutante, ela se despede desse passado e tranca a porta do apartamento. Letícia a ajuda com as malas e as duas entram no elevador.

Na calçada, seu Antônio põe as malas no táxi. Ela abraça a empregada e acena para o porteiro, seu Severino, a quem recorria em suas emergências domésticas. Entorpecida pelo calmante, olha ao redor e avista um desconhecido parado, ao lado de um poste de luz, na calçada oposta. Hesita, por um momento, mas logo se recompõe e entra rápido no veículo.
– Ao aeroporto, fala decidida. Seu rosto contraído e os belos olhos azuis enevoados revelam apreensão. Pela primeira vez, em todos aqueles dias de inquietação tem a desagradável impressão de que o exílio pode durar mais do que o previsto. “Meu Rio de Janeiro, eu juro que volto”, promete a si mesma, experimentando uma súbita sensação de confiança.
-Vamos pela praia, seu Antônio, resolve dona Edite. Sem pressa, acrescenta, abrindo a janela do veículo para olhar o céu límpido e sem nuvens, sempre um bom augúrio para qualquer viajante.


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Com a sinopse na mão, Rogério Reis, o veterano repórter das crônicas policiais, ouve as alterações sugeridas pela produção do seriado “Missão Rio”, a ser exibido nas tevês europeia e norte-americana na esteira dos eventos internacionais realizados em anos recentes na cidade do Rio. A começar pelo título: ao invés do atual “Dia de Pagamento”, algo mais impactante como “Terror no Alemão”. A data emblemática de 11 de setembro e sua relação com o histórico ataque às torres gêmeas em Nova York, também envolveria uma mudança de foco. Trocavam-se as milícias, os comandos das drogas e os guerrilheiros das Farc pelos mercenários do grupo terrorista al-Qaeda, cuja ramificação no Brasil estaria relacionada à compra e venda de armamentos, ao tráfico de urânio, sequestros e extorsões. A produção lembrou que o governo somente reconhecia como organizações terroristas a al- Qaeda e o Talibã. As demais - Farc, Sendero Luminoso e Hezbollah, entre outras - eram entendidas como grupos políticos.

Também seria agregada ao roteiro uma rocambolesca perseguição policial pelas ruelas da favela, incluindo os bunkers camuflados dos criminosos, as guaritas e alojamentos das tropas policiais e as estações do teleférico. Em função das mudanças, um novo personagem entraria na trama. Infiltrado na gangue, um policial da Interpol brasileira seria o olheiro dos criminosos. O agente duplo estaria observando a movimentação na rua, alertando pelo celular sobre a presença de eventuais curiosos. A imprevista chegada dos policiais e os acontecimentos seguintes provocariam um retrocesso nas investigações do órgão internacional, prestes a identificar as primeiras células terroristas nas favelas do Rio. Responsáveis pela introdução clandestina de lotes de urânio que já funcionariam como moeda forte na compra ilegal de armas, esses grupos radicais teriam instalado um poderoso aparato militar de ameaça e coerção às autoridades constituídas.

Enquanto anotava as modificações, Rogério Reis a princípio pensou em reagir e defender o texto original. Mas esse impulso durou apenas alguns segundos. Para todos os efeitos era uma história para um seriado televisivo, passível de alterações visando uma melhor comercialização no mercado exterior. A globalização e a contemporaneidade deveriam prevalecer sobre o regional no desenvolvimento do enredo, tinha alertado a produção, visto que a série já tinha sido negociada para mais de 90 países em quatro continentes.

Os demais roteiristas da equipe, já familiarizados com as sutilezas e artimanhas de textualizar histórias de olho na audiência, tiveram suas sinopses pouco modificadas. Cada uma delas a enfocar as muitas maravilhas da cidade, do Pão de Açúcar, Corcovado, Arcos da Lapa e floresta da Tijuca ao estádio do Maracanã, Ponte Rio-Niterói e favelas como a da Rocinha e do Complexo do Alemão. Cartões postais do Rio, para o bem ou para o mal, que seriam cenários de muito perigo e ação.

Ao final da reunião, Rogério se sentiu encabulado com o ambiente de camaradagem e a visão do mundo daquela rapaziada talentosa e criativa que acolhiam um sujeito retrô, pinçado no redemoinho do século 20, de uma maneira admiravelmente informal e despojada. Aos 63 anos, o jornalista chegava a sombria conclusão de que a redação de um jornal não mais correspondia ao sonho que o motivou por tanto tempo a se lançar em busca da verdade na notícia. A geração de profissionais destemidos, e de certa forma idealistas em seus propósitos, estava acabada e enterrada, pensou. O mundo havia mudado, a começar pelo clima do lado de fora da emissora refrigerada. Naquele bizarro outono de 2019, os dias se mostravam perversamente abafados, estranhamente secos e anormalmente inquietantes, varridos por ventos que uivavam ao entardecer.


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À noite, da janela de seu quarto de celibatário, Rogério Reis admirou a paisagem que se descortinava majestosa. Aquele apartamento em Santa Teresa o tornava um homem feliz e era um dos poucos bens materiais adquiridos em mais de 35 anos de profissão. Estava animado como um adolescente com a perspectiva de trabalhar no texto e se integrar à irmandade dos jovens ficcionistas, seus irmãos de alma e imaginação.

Com cuidado abriu a caixinha de madeira que conservava no fundo de uma das gavetas do guarda-roupa e retirou o pen drive. Inseriu no computador o pequeno dispositivo de memória e novamente ficou estarrecido com a quantidade de informações sobre o esquema e o poderio dos senhores do crime envolvidos no fracassado atentado. Lá estavam citados nominalmente chefes de grupos paramilitares, contraventores, narcotraficantes, empresários, políticos, conhecidas autoridades, datas e valores das mesadas, contas de bancos, telefones, emails. A estratégia do ataque ao teleférico, detalhada nas várias etapas, diligentemente elaborada como uma operação de guerra. Um plano que não se esgotaria na primeira tentativa, ameaçava o homem de codinome Corvo. “A operação foi adiada, mas não suspensa. Atacaremos na ocasião oportuna e os comandos serão instruídos”, avisava.

Nos últimos meses, o jornalista tinha mantido segredo sobre o registro dessa operação terrorista que não se concretizou por um desses imbróglios do destino, mas que poderia ser reativada a qualquer momento. O dossiê eletrônico lhe foi entregue às escondidas no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, semanas depois de um mal explicado incêndio em uma creche, perto do complexo do Alemão. Na ocasião, quatro dos mais importantes chefes das milícias e das facções criminosas mais temidas da cidade, desde 2014 unificadas sob um comando central, foram assassinados em suas celas, dias antes da remoção para uma prisão federal em Rondônia.

Em flashback, o jornalista se vê sendo enviado pelo jornal para cobrir os assassinatos e a sangrenta rebelião que se seguiu. Sorrateiramente, um dos guardas havia lhe entregue o pen drive, logo após a entrevista coletiva do diretor do presídio. Na ocasião, descobriu que os mortos faziam parte do esquema do atentado ao teleférico e que um túnel subterrâneo tinha sido escavado a partir da creche até os pontos onde seriam colocados os explosivos. Entretanto, a inesperada presença de uma patrulha no local forçou a mudança de planos. A operação foi interrompida, os comparsas eliminados, a casa incendiada e o colombiano sobrevivente assassinado dias depois.

Se esses fatos tivessem chegado ao seu conhecimento em outros tempos, quando as editorias dos jornais eram menos dependentes dos conglomerados econômicos que as regiam e não tão acorrentadas a interesses e compromissos inconfessáveis, Rogério Reis iria adiante, buscando mais informações. Assim havia conquistado expressivos prêmios de reportagens. Contudo, o medo e a sensação de impotência o sitiavam em um penoso cárcere interior. Sentia que o mundo tinha se fragmentado em fortificados carteis manobrados por imperadores inatingíveis e insubmissos às leis vigentes. Todos conectados e interligados em organizações, grupos e facções. Mandarins de um submundo tentacular que transitava com naturalidade pelo legal e pelo ilícito, se assim os interesses ditassem. E, na maioria das vezes, a salvo da pressão das mídias e redes sociais, agora monitoradas e cerceadas por um severo código de regras e multas. Não havia mais os dois lados da moeda, admitia o jornalista, porque a percepção do mal se tornara obsoleta.

Fechando o armário, o jornalista empurra o minúsculo drive atolado de segredos para debaixo das camisas e meias. Seguiria com as suas aflições que, se por um lado o castigavam, por outro o impediam de desistir de si próprio. Todavia, entregava os pontos como profissional da notícia, admite. No contexto social e político de 2019, revelar a verdade seria como assinar a própria sentença de morte, no sentido mais implacável do vocábulo.


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Animado com o novo trabalho, Rogério Reis entra pela madrugada reescrevendo a sinopse. Só percebe que o quarto ganha novos contornos de luz quando ouve o baque do jornal de encontro à porta. Vai até a geladeira e sorve alguns goles de mate pelo gargalo da garrafa. Com o jornal nas mãos, um título discreto no canto esquerdo da primeira página chama a sua atenção: “Polícia suspeita que al-Qaeda já atua nas favelas cariocas”. Por instantes se vê perdido entre as dobras do sonho, os sentidos anestesiados pelo cansaço. Tinha adormecido em frente à tela do computador e precisava acordar para concluir o enredo, pensa confuso. Mas o espelho da sala reflete a imagem real de um homem insone, com os cabelos desgrenhados e barba por fazer.

Exausto, ele desaba na cadeira. Conhecia o ardiloso estratagema da mídia de veicular fatos com lógicas distorcidas e deslocar a verdade para além dos interesses intocáveis. Contudo, essa notícia bem podia ser o prenúncio de uma desconhecida e perigosa realidade a ser experimentada com a politização dos grupos criminosos. As guerras civis no mundo árabe e a crise econômica na Europa que desandou em movimentos contrários a entrada de estrangeiros, lá pelos idos de 2011, tinham empurrado famílias inteiras desses países em conflito para a América do Sul. As favelas do Rio, com as casinholas postas à venda pelos antigos moradores, incapazes de arcar com os custos cada vez maiores dos serviços de urbanização, foram tomadas por legiões de imigrantes, principalmente depois das novas leis de imigração garantindo acolhida e emprego no país. E sucursais de grupos terroristas como o Talibã e a al-Qaeda poderiam estar fincado raízes nesses redutos politizados e radicais.

Sob a ducha gelada o jornalista bufa e solta impropérios, os músculos retesados pela friagem. Veste as surradas calças de brim, a camiseta branca de algodão, procura as sandálias de velcro embaixo da cama e aos poucos recupera a sanidade. Com os cabelos ainda molhados e a sinopse na mochila, ele sai do apartamento e vai ao encontro dos produtores.

A conversa e os ajustes se estendem por três horas, findos os quais o argumento é finalmente aprovado. Seus nervos relaxam e o jornalista pressente que “Missão Rio”, o seriado, está fadado ao sucesso. Exultante, entra no bar e pede pão na chapa com café pingado. Tem duas semanas para costurar o enredo e desenvolver os diálogos. Mestre do jornalismo investigativo, Rogério Reis está determinado a afastar as brumas da apatia e da indiferença que obscureceram seus últimos anos como repórter e professor de jornalismo. Lamentava, nos longos domingos solitários, sua crescente incapacidade de incutir entusiasmo naqueles jovens universitários que sonhavam com uma profissão em que a busca da verdade era a força motriz de toda a sua atividade.

Desfazendo-se das roupas, completamente nu, Rogério Reis senta-se à frente do computador. Por alguns segundos mantém a cabeça baixa, imóvel. Impulsivamente retira os óculos. Precisa de uma grande dose de inspiração e paixão para recriar a realidade de uma forma que não seja superficial e vã. Na adaptação acordada com a produção, a heroína terá de enfrentar novos vilões. Sorri interiormente ao imaginar dona Nenê passando por todas aquelas peripécias. A homenagem tardia a única pessoa que o amou sem reservas e cobranças. Ele, o caçula rebelde de dona Edite.

De repente dá um murro na mesa, como quisesse se apartar do sentimento de perda que sempre o acomete quando seus pensamentos se remetem à mãe, aquela figura pequena e de pouca fala que o acompanhou por quatro décadas. Recoloca os óculos, respira fundo e se lança ao texto. Sente-se estranhamento leve, talvez porque liberto das pesadas amarras morais que a verdade impõe. Mas, nem por isso frívolo o bastante para não reconhecer que apesar da verdade cobrar um preço demasiado caro, neste imponderável ano de 2019, o tempo, a história e a experiência ensinam, de maneira incontestável, que segredos não são eternos.

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De costas para a plateia, o personagem de Rogério Reis mostra-se empenhado em vencer mais esse desafio. Lentamente a câmara se afasta do homem que dedilha o teclado do computador e se desloca para a janela aberta, avançando em um sobrevôo fantástico pelas paisagens de cartão-postal da cidade do Rio. Os acordes atrevidos de uma melodia rapper invadem a sala de exibição. Na tela surge o letreiro THE END e um curto aviso: “Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência.”

As luzes são acesas e as pessoas se levantam das poltronas ainda tontas pela escuridão da sala. Ordenadamente saem do cinema para a algazarra dos corredores do shopping, deixando para trás sacos vazios de pipoca e copos de papel com restos de refrigerante. É noite de sexta-feira e filas se formam nas praças de alimentação.


*** Pinturas do artista novaiorquino Marcus Jansen

terça-feira, 17 de abril de 2012

O Holocausto sob a ótica do Vaticano

Designar algo como mal é uma maneira de assinalar que aquilo abala nossa crença no mundo” (Susan Neiman, escritora)

Por Sheila Sacks

A partir da visita do papa Bento 16 aos campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, em 2006, o Vaticano vem anualmente enfatizando, por ocasião das celebrações do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto (instituído pela ONU em 27 de janeiro de 2005), a importância da lembrança dessa tragédia humana que marcou de forma ignominiosa o século 20.

Cruzando o portão de entrada do campo principal sobre o qual havia o letreiro original em alemão “Arbeit macht frei” ( o trabalho liberta) – roubado em 2009 e substituído por uma réplica- o papa rezou, acendeu uma vela em memória às vítimas do nazismo e manifestou a esperança de que “Deus não permita coisas como estas”, nunca mais. Ainda que, segundo o pontífice em seu discurso, o horizonte político seja preocupante e “que forças obscuras pareçam emergir de novo no coração dos homens”.

Em visita às celas dos prisioneiros e as áreas onde funcionavam as câmaras de gás, Bento 16 lembrou do teor das atrocidades cometidas naquele local que resultaram em mais de um milhão de mortes e expressou todo o seu espanto diante da força do Mal: “Falar neste lugar do terror é quase impossível. Neste local falham as palavras e só pode haver um silêncio comovente – silêncio que é um grito interior a Deus. Por que, Deus, o senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias?”, indagou o papa diante de sua comitiva, convidados e alguns sobreviventes presentes à cerimônia.

Símbolo extremo do Mal

Três anos depois, na residência de verão de Castel Gandolfo, o papa voltou a falar sobre o terror do nazismo, ao recordar o sacrifício da freira carmelita Edith Stein (de pais judeus) e do padre franciscano Massimiliano Kolbe que morreram no campo de Auschwitz e foram canonizados pela Igreja. “Os lagers (campos de morte) nazistas como todo campo de extermínio devem ser considerados símbolos extremos do Mal, do inferno que se abre sobre a terra”, evocou Bento 16 para um grupo de fiéis.

Meses antes, em maio de 2009, o pontífice já tinha ressaltado o papel da memória no combate ao esquecimento. Em Jerusalém, ao lado do presidente de Israel, Shimon Peres, Bento 16 falou da importância da lembrança “para impedir que um horror semelhante pudesse desonrar novamente a humanidade”. Na sala dos Nomes do Museu do Holocausto Yad Vashem, (até 2010 já haviam sido identificados nominalmente quatro milhões de judeus assassinados pela Alemanha nazista), o papa exortou os homens de bem a honrar aqueles que perderam a vida, mas jamais perderam seus nomes. “Que os nomes dessas vítimas não pereçam nunca! Que o seu sofrimento não seja nunca negado, diminuído ou esquecido! E que toda pessoa de boa vontade vigie para erradicar do coração do homem qualquer coisa capaz de acarretar tragédias semelhantes a essa!”, declarou, após conversar com sobreviventes e depositar uma coroa de flores no local.

Repercutindo as palavras do papa, o porta-voz do Vaticano e diretor da sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi, expressou o desejo de que “a lembrança da Shoá (‘catástrofe’, em hebraico) leve a humanidade a refletir sobre a imprevisível potência do Mal quando conquista o coração do homem”. Em editorial, no programa semanal “Octava Dies” do Centro Televisivo do Vaticano (2009), padre Lombardi advertiu que o extermínio de seis milhões de judeus se configura em uma “espantosa manifestação da potência do Mal que desafia a fé na própria existência de Deus”. Segundo o porta-voz, o papa não só condena toda forma de esquecimento e de negação da tragédia do extermínio como também expõe as dramáticas interrogações que esse evento tem proposto à consciência do homem e do crente.

A memória que confronta o Mal

Em janeiro de 2012, lembrando mais uma vez a data da libertação do campo de Auschwitz, o Vaticano reafirmou a importância das pessoas não se esquecerem, passados 67 anos, “da tragédia infame do Holocausto”. Sob o título “Preservar a Memória”, padre Lombardi redigiu a mensagem em que remete à memória dolorosa do Holocausto como “o lugar teológico da pergunta mais radical sobre Deus e sobre o Mal”. Segundo o religioso, “a memória do Holocausto é um ponto de confronto crucial na história da humanidade para entender o que está em jogo quando se fala em dignidade irrenunciável de toda a pessoa humana, da universalidade dos direitos humanos e do compromisso por sua defesa”.

Sacerdote jesuíta de 69 anos, o italiano Federico Lombardi estudou matemática e teologia na Alemanha. Em 1990 foi nomeado diretor Geral da rádio Vaticano e dez anos depois assumiu a direção do Centro Televisivo. Indicado por Bento 16, em 2006, para chefiar a Sala de Imprensa, Lombardi tornou-se responsável pela gerência de todas as mídias do Vaticano.

Daí a importância de seu comunicado que representa o pensamento oficial da Igreja Católica sobre a tragédia. De acordo, ainda, com o porta-voz da Santa Sé, “se existiram homens capazes de chegar a tão absurda atrocidade, ninguém nos assegura que no futuro isso não possa se repetir”. Lembrando que a geração das testemunhas, que viveu os tempos e horrores do Holocausto, está diminuindo rapidamente, padre Lombardi acentuou que “a memória dolorosa se torna advertência para o hoje e para todos os tempos”. E assume um compromisso: “ Nós também continuaremos a fazer isso (lembrar as vítimas) neste dia, em solidariedade, em primeiro lugar, ao povo de Israel e a todas as vítimas do absurdo ódio homicida.”

O Mal na esfera do homem

A tocante indagação do sumo pontífice sobre a ausência de Deus diante do horror de Auschwitz – um fato histórico que ameaça a noção teológica tradicional do sentido do mundo e da existência humana – mostra uma perplexidade que o pensamento filosófico já tentou responder em tempos anteriores frente a outros eventos caracterizados pela ascendência do Mal.

No século 18, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) já havia retirado Deus e outros enunciados incompreensíveis presentes na metafísica (área da filosofia que busca dar explicações sobre a essência dos seres e as razões de estarmos no mundo), dos limites do conhecimento humano. Dessa forma, fora da perspectiva religiosa, a questão do Mal não estaria intrinsecamente ligada a Deus, e questionamentos à Sua presença (ou ausência) diante de males naturais, como terremotos e tsunamis, e males morais - dos quais o Holocausto é um exemplo assustador – soariam descabidos e alienados de propósito.

Na obra “Trabalho sobre o Mito”, o filósofo Hans Blumenberg (1920-1966), que chegou a ser preso e levado a um campo de concentração, em 1944, ao analisar o célebre poema “Prometheus”, de Goethe (1749-1832), escrito em 1774, e seu impacto sobre a filosofia alemã, observa que a ideia central transmitida pelo autor é a de que “ Deus teria que organizar o mundo de forma diferente caso houvesse se preocupado com o homem”. A tragédia de Prometeu, submetido ao suplício diário por um poder despótico e arbitrário, reflete a impotência do homem para entender ou explicar o Mal em suas formas mais avassaladoras. Essa dificuldade de compreensão é sempre profundamente perturbadora à consciência moral clássica que vincula o sofrimento ao castigo e ao pecado. Considerando uma situação como a dos campos de extermínio, onde seres humanos, sob os auspícios do estado, violaram as normas da sensatez e da razão praticando atos contra cidadãos inocentes que não deixam espaço para justificação ou explicação, pode-se afirmar que Auschwitz revelou uma nova face do Mal ainda mais espantosa: a da barbárie burocratizada, alienada, e altamente desenvolvida.

Uma ameaça à alma humana

É o que observa a autora do livro “O Mal no Pensamento Moderno”, a norte-americana Susan Neiman, que dirige o “Eistein Forum” , instituição alemã que discute os grandes temas universais : “O que choca e modifica nossa compreensão do mal em Auschwitz é que os assassinos não eram bestas e demônios e se comportavam como tais e sim seres humanos comuns, que levavam uma vida mundana como qualquer outro. Isso foi conceitualmente devastador porque revelou uma possibilidade na natureza humana que esperávamos não ver.”

Segundo Neiman, Auschwitz modificou nossa compreensão sobre o problema do mal, já que as condições de educação e cultura na Alemanha não deveriam conduzir a formas de barbárie tão sofisticadas quanto avassaladoras, mas a uma genuína civilização. As câmaras de gás foram introduzidas para, simultaneamente, matar o maior número de pessoas possível poupando as vítimas de uma morte agonizante e os assassinos de visões que atormentassem suas consciências. De acordo ainda com a pensadora, os agentes da SS realizavam seu trabalho seguindo a ordem burocrática das atividades cotidianas, paradoxalmente “despidos de sinais de má-intenção”. Para o filósofo judeu alemão Gunther Anders (1902-1992) - que exilou-se nos Estados Unidos em 1936 e retornou à Alemanha em 1950 - os crimes cometidos em Auschwitz e nos demais campos de extermínio se constituíram em ameaças, não à humanidade em si, mas à alma humana, porque seria preciso um coração muito duro (ou mesmo ausência de alma) para levar uma criança a uma câmara de gás.

E assim como o Talmud (livro milenar das leis judaicas e comentários rabínicos) ensina que salvar uma vida é como salvar o mundo, o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821- 1881), de forma literária, adverte que assassinar uma criança é suficiente para amaldiçoar o mundo. Porém, em Auschwitz, “o pensamento parou, pois as ferramentas da civilização pareciam tão impotentes para lidar com aquele acontecimento quanto o foram para evitá-lo. Dessa forma, qualquer um poderia levar um tiro por fazer bem o seu serviço, assim como outros poderiam escapar da seleção da morte fazendo o mesmo”(Neiman). Os campos da morte, continua Neiman, distorceram os pressupostos mais básicos da racionalidade que ordena os mundos normais, instituindo “assassinatos em massa no século 20 que não foram nem fruto da paixão, nem da ignorância”.

Ilógico e irracional

Sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald, na Polônia, e por mais de uma década exercendo a função de grão-rabino de Israel, Israel Meir Lau, de 75 anos, teve os pais e irmãos assassinados nos campos da morte. Para o religioso, o fato do nazismo e da solução final para a eliminação dos judeus terem como berço uma Alemanha onde a população judaica se encontrava mais integrada e adaptada à sociedade secular, mostra que o antissemitismo é ilógico e que não é possível enfrentá-lo de maneira racional. “Alguns perguntam onde estava D´us durante o Holocausto, mas nós devemos perguntar onde estava o homem durante o Holocausto. Como foi possível que homens cultos, que amavam a filosofia e a música, cortassem crianças em pedaços e à noite retornassem aos seus lares para beijar seus filhos e regar suas flores? Essa é a pergunta que jamais deverá calar”, afirma Lau.

Autor do livro de memórias “Lúlek – a história do menino que saiu do campo de concentração para se tornar o grão-rabino de Israel”, Meir Lau é atualmente rabino-chefe da cidade de Tel-Aviv e presidente do Museu em memória das vítimas do Holocausto (Yad Vashem), de Jerusalém.

Lembrança coletiva

Em 1953, cinco anos após a fundação do estado de Israel, o então primeiro-ministro David Bem Gurion instituiu o Yom HaShoá – Dia de Memória do Holocausto, escolhendo a data de 27 de Nissan (calendário hebraico) para a celebração por sua associação ao “Levante do Gueto de Varsóvia”, a rebelião armada de jovens judeus contra a ocupação nazista, ocorrida em 19 de abril de 1943. A homenagem acontece geralmente cinco dias depois do término da Páscoa judaica (Pessach), quando o país para e seus cidadãos, onde estiverem, guardam dois minutos de silêncio, honrando a memória dos que pereceram nos formos crematórios ou foram covardemente fuzilados.

Enfim, uma data dolorosa a ser lembrada ainda que a memória de fatos tão escabrosos envergonhe a humanidade. Nesse aspecto, aliás, tanto o Vaticano quanto as lideranças judaicas estão de acordo que a lembrança deve funcionar como um aviso de alerta para governos e cidadãos. E para aqueles que têm o dom ou a capacidade de perceber o Mal em todas as suas formas sutis e enganadoras, vale a ressalva de que de nada servirá essa percepção se a omissão e o silêncio forem as opções escolhidas. Citando Kant: “Só as escolhas mais difíceis revelam liberdade absoluta”. Auschwitz que o diga!

terça-feira, 20 de março de 2012

The Spirit e outros personagens de Will Eisner

por Sheila Sacks

Cartunista introduziu temas judaicos nas histórias em quadrinhos

Anualmente, no mês de março, os aficionados de histórias em quadrinhos comemoram uma data muito especial: o nascimento de um dos mais importantes cartunistas de todos os tempos, autor do justiceiro mascarado "The Spirit", herói das HQs dos anos 1940. Nova-iorquino do Brooklyn, o genial Will Eisner deu vida ao investigador da polícia Denny Colt e à imaginária "Central City", transportados de maneira magistral para as telas dos cinemas, em 2008, pelo também desenhista e cineasta Frank Miller.

Neste 2012, a semana dedicada ao cartunista – Will Eisner Week - tem sido celebrada em várias cidades norte-americanas com exposições, palestras e painéis de discussões sobre os trabalhos do artista. De Nova York a Los Angeles, Portland, Minneapolis, Pittsburgh e São Francisco, para citar alguns centros conhecidos, eventos têm sido organizados em universidades, bibliotecas e museus. Em outubro de 2011, o trabalho de Eisner pôde ser apreciado pelos visitantes do Rio Comicon (Festival Internacional de Quadrinhos e Cultura Pop) que trouxe, pela primeira vez ao Brasil, a exposição “O Espírito vivo de Will Eisner”, com 106 obras originais do autor, materiais de trabalho e a estátua em bronze do personagem The Spirit.

Inovação nas HQs

Com sua arte e força criativas, Eisner tinha pouco mais de vinte anos quando embarcou nessa extraordinária aventura onde o talento de desenhista e a imaginação literária se uniram para moldar um dos personagens mais instigantes das HQs. Transitando pela lendária Central City, a cidade dos sonhos, desilusões, dramas, crimes e situações bizarras, o estranho policial surge das trevas da morte para combater o mal e não dar trégua aos bandidos. Em um universo noir de jogos de sombras, ângulos insólitos e planos incomuns, Denny Colt, julgado morto, renasce em sua fúria e revolta. De terno, gravata, chapéu, luvas e máscara, ele se transforma em The Spirit, o mocinho diferente, contraditório, sem superpoderes, roído pelas dúvidas e cingido pelo imponderável.

À parte as histórias policiais nada convencionais, "The Spirit" revolucionou os comics utilizando-se de inventivos recursos narrativos, de enquadramentos inesperados de imagens, e lançando mão de primeiros planos para destacar um detalhe. Essa nova linguagem gráfica com perspectivas cênicas de cunho cinematográfico introduzida por Eisner angariou um exército de 5 milhões de ávidos leitores semanais, somente nos Estados Unidos. As tirinhas, iniciadas em 1940, foram publicadas até 1952, mas seus enredos e ilustrações, utilizando narrativas paralelas e desenhos expressionistas, romperam com as técnicas tradicionais, marcando um novo capítulo no desenvolvimento da arte do cartoon.

Considerado por especialistas do gênero o mestre das histórias em quadrinhos de todos os tempos, William Erwin Eisner nasceu em 1917, no bairro nova-iorquino do Brooklin. Era filho de imigrantes judeus muito pobres, e quando criança trabalhava vendendo jornais nas ruas para completar a renda familiar. Foi esse o seu primeiro contato com as histórias em quadrinhos, cujas ilustrações o encantavam e com as quais desenvolveu um profundo amor pelo desenho gráfico. Já aos oito anos resolveu se dedicar ao desenho, apesar da oposição da mãe. Além do herói Spirit, Eisner também foi o criador de "Sheena, a Rainha da Selva", que virou série de TV (1955) e filme (1984).

Personagens judeus de Nova York

Mas, apesar do enorme sucesso obtido com a série "The Spirit", Will Eisner resolve dar uma guinada em sua vida e em sua arte, surpreendendo fãs e seguidores. Depois de realizar trabalhos de propaganda e de publicidade, e também trabalhar na adaptação para as HQs de obras clássicas, como Don Quixote e Moby Dick, ele edita, em 1978, uma publicação ilustrada, com temas sérios e para leitores adultos, classificada pelo próprio autor de "graphic novel" (histórias longas, impressas em papel especial e publicadas em formato de álbum).

A novidade provoca uma reviravolta no mundo dos comics. O trabalho “Contrato Com Deus e Outras Histórias” mostra a vida de pessoas comuns e fala dos dramas do dia a dia de sua Nova York natal. Sem limitação de páginas, com temática e desenho livres de qualquer formatação, os romances gráficos se tornam populares e conquistam seguidores entusiastas. As aventuras protagonizadas por heróis são deixadas para trás e os habitantes anônimos da Big Apple – muitos deles imigrantes e judeus como os pais de Eisner – assumem os papéis principais no pincel do artista.

Combinando ficção com histórias reais, Eisner cria relatos intensos e dramáticos, com destaque para a temática judaica. Os anos passados nos bairros do Brooklin e do Bronx são retratados em uma série de trabalhos que incluem “O Sonhador”, “O Edifício” e “No Coração da Tempestade”.. Este último mostra a sua infância e adolescência. Segundo Eisner, a linha central dessa graphic novel é o racismo. “O livro se inicia no trem, quando sou convocado para a guerra. Pela janela visualizo cenas que me lembram as histórias pelas quais eu passei, dentre elas minha primeira experiência com o racismo.”

Em 1983, para comemorar os 15 anos da publicação de “Contrato com Deus”, é lançada uma edição especial da obra, em ídiche (língua falada por muitos judeus europeus, assemelhada ao alemão e escrita com caracteres hebraicos). No Brasil, o universo de Eisner ganha a cena teatral, com as peças “New York”, apresentada em Curitiba (1990), “Pessoas Invisíveis”, produzida no Rio de Janeiro (2002) e “Avenida Dropsie”, exibida em São Paulo (2005). Ainda no Brasil, a produtora Marisa Furtado realiza um documentário sobre Eisner (1999), o primeiro sobre a carreira do artista.

Preconceito e Antissemitismo

Suas duas últimas obras, “Fagin,o Judeu” e “The Plot” (O Complô) abordam temas espinhosos. A primeira é uma revisão histórica de uma figura mal retratada por Charles Dickens, em seu livro Oliver Twist. A visão estereotipada do personagem serviu para disseminar o preconceito entre os leitores do autor inglês e Eisner apresenta a sua visão sobre o assunto. A segunda trata da verdadeira origem de um documento forjado por autoridades russas, em 1903, conhecido como “Os Protocolos dos Sábios de Sião”. A farsa foi descoberta em 1921 e revelou que o texto dos Protocolos foi extraído de uma sátira política francesa escrita por Maurice Joly, em 1864, intitulada “O Diálogo no Inferno”. O texto descrevia uma fictícia discussão de Maquiavel e Montesquieu para um plano de conquista por Napoleão III, cujo nome foi substituído por “os judeus”.

“The Plot” foi lançado nos Estados Unidos em maio de 2005, alguns meses depois do falecimento de Eisner. No Brasil, a editora paulista Companhia das Letras publicou a versão brasileira da obra em novembro de 2006. Em entrevista ao “New York Times”, em 2004, Eisner falou do trabalho: “Acabo de concluir e estou editando uma novela gráfica de caráter polêmico. Trata-se da verdadeira história da origem de uma das maiores e mais infames fraudes do mundo, os Protocolos de Sião”. Justificando seu interesse pelo tema, Eisner contou que buscou no passado uma forma de enfocar o antissemitismo que continua sendo uma questão atual. “Eu estava na Internet e descobri uma página promovendo “os Protocolos” para leitores do Oriente Médio. Fiquei chocado em descobrir que muita gente ainda acredita que a história é real e fiquei perturbado quando vi a quantidade de sites que divulgam essas mentiras para os muçulmanos. Concluí que algo precisava ser feito.”

O Leonardo da Vinci dos Quadrinhos

Will Eisner tinha 87 anos quando faleceu em 3 de janeiro de 2005. Pioneiro dos comics de adultos e criador do termo “arte seqüencial” que deu novo status ao gênero, ele deixou seguidores respeitados, como o autor e desenhista Frank Miller, que dirigiu os filmes “Batman, o Cavaleiro das Trevas” e “Sin City”, e Alan Moore, criador de Watchmen, levado às telas em 2009. Considerado o Leonardo da Vinci dos quadrinhos pela revista “Civilization”, editada pelo Congresso americano, o artista emprestou o seu nome para o mais importante prêmio de quadrinhos do mundo – o Eisner Award .

No ano de sua morte, o jornal “The Washington Post”, ao descrever a trajetória do cartunista, sublinhou que Eisner fez da luta contra a intolerância uma forma de arte. Aqui no Brasil, Maurício de Souza, criador dos personagens Mônica e Cebolinha, também lamentou a perda de Eisner, que esteve várias vezes no Brasil : “Foi como se eu tivesse perdido outro pai. Ele era o meu ídolo, o meu guru”, afirmou.

A genialidade da arte de Eisner – que jamais excluiu a sua identidade judaica no decorrer da vida profissional e que não a manteve restrita às fronteiras tribais dos fãs dos comics - também foi devidamente reconhecida pela prestigiada “Nacional Foundation for Jewish Culture”, instituição americana fundada em 1960 para promover e preservar a cultura judaica. Em 2002, a entidade outorgou ao artista o prêmio máximo pelo conjunto de sua obra.

Em tempo: A série de animação “Turma do Penadinho”, do nosso cartunista Maurício de Souza, a ser exibida pela Cartoon Network, ainda em 2012, terá uma cena em que o personagem Penadinho usa uma máscara preta similar a do detetive Colt, em uma homenagem a Eisner e ao imortal "The Spirit".

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O médico e o livro: lembrando Moacyr Scliar



por Sheila Sacks

“Às vezes, o meu lado médico estranha o meu lado escritor...” (Moacyr Scliar)

Um dos mais importantes escritores brasileiros de origem judaica, Moacyr Scliar faleceu no ano passado, em 27 de fevereiro, para tristeza de milhares de leitores que o admiravam. Paralelamente aos seus escritos, Scliar manteve-se fiel a sua profissão de médico, atuando na área da saúde pública como médico sanitarista e exercendo o magistério como professor universitário na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

Em 2007, repercutindo as pesquisas do Ibope realizadas em anos anteriores que indicavam o alto grau de credibilidade da classe médica entre os brasileiros, entrevistei o escritor e médico gaúcho, então com 70 anos e irradiando vitalidade. Ele não se mostrou surpreso com o resultado que apontava um índice de confiabilidade de 81% para a categoria dos médicos, à frente de instituições como as Forças Armadas, a Igreja Católica, jornais e TV (em 2011, esse índice ficou em 76%). Para o escritor, um componente influente nessa avaliação estaria relacionado com a própria imagem da profissão médica que arrola qualidades altruístas admiradas e reconhecidas pela população, como a dedicação e o sacrifício pessoal.

Livros sobre Oswaldo Cruz e Noel Nutels

Autor de mais de 70 obras, várias delas premiadas no Brasil e no exterior, Moacyr Scliar (1937-2011) iniciou-se na literatura em 1962, com o livro “Histórias de um Médico em Formação”. Em 2005 lançou “O Olhar Médico: crônicas de medicina e saúde”, que também enfocava a área médica, reunindo 55 crônicas publicadas no jornal gaúcho Zero Hora. Com obras traduzidas em 12 idiomas e eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 2003, o “imortal” Scliar também escreveu sobre as vidas dos médicos sanitaristas Oswaldo Cruz (Sonhos Tropicais) e Noel Nutels (A Majestade do Xingu), este último um indigenista judeu que realizou trabalho pioneiro com os índios da Amazônia, nas décadas de 1940 e 1950.

Filho de imigrantes russos, Scliar formou-se pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (fez curso de pós-graduação em Medicina em Israel, em 1970) e atuou como professor visitante na Brown University (Rhode Island) e na Universidade do Texas (Austin), nos Estados Unidos. Doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública (Rio de Janeiro), sua tese de doutorado, apresentada em 1999 sob o título “Da Bíblia à Psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica”, obteve nota máxima, com louvor. Em um trecho do trabalho, Scliar destaca que entre 1899, data da introdução do Prêmio Nobel de Medicina, até 1989, foram laureados trinta e nove médicos judeus.

Em Porto Alegre, sua idade natal, Scliar coordenou o Programa de Educação em Saúde na Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, trabalhou na Fundação Nacional de Saúde e foi consultor do Ministério da Saúde. Também chefiou o Departamento de Saúde Coletiva da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre.

Entre os 100 melhores livros

Em 2007 publicou “O Texto ou a Vida”, uma coletânea de crônicas, contos, trechos de romances, ensaios e comentários do autor sobre o processo criativo de cada um deles. Vale lembrar que a sua obra "O Centauro no Jardim", publicada em 1980, foi selecionada entre os 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos de acordo com o National Ydish Book Center, dos Estados Unidos. Scliar assim resumiu o tema do livro: “É a história de uma criatura com dupla identidade, assim como os filhos de imigrantes judeus. O ambiente familiar e da escola israelita é diferente do ambiente universitário e do trabalho. Ter várias identidades não é problema nenhum, ao menos que a pessoa tenha alguma dificuldade emocional para lidar com essas identidades. O meu personagem, o centauro, tinha. E é por isso que deu um romance”. Figura da mitologia grega, o centauro é um ser metade homem, metade cavalo.

Abaixo, Moacyr Scliar responde as nossas perguntas:

Qual é a sua leitura sobre o resultado da pesquisa do Ibope, em 2005, que apontou a categoria dos médicos como a instituição de maior credibilidade do país?
MS- Um resultado mais ou menos esperado. Em outras pesquisas os médicos também estavam nos primeiros lugares. Isto corresponde à imagem da profissão, que envolve desprendimento, dedicação e até sacrifício pessoal, mas corresponde também à experiência pessoal de cada um. Não há ninguém que não seja grato a, pelo menos, um médico.

Muitos médicos são também filósofos, escritores, artistas, políticos e até presidentes da República como foi Juscelino Kubitschek. A que o senhor atribui essa dualidade presente na carreira de tantos médicos?
MS- Ao lado humanista da profissão. Ser médico é interessar-se pela condição humana, em geral na doença, mas também na vida cotidiana. Este interesse, junto com a disposição especial que a pessoa eventualmente tenha, acaba se estendendo a outras áreas.

Na sua tese de doutorado o senhor relata a enorme quantidade de médicos judeus na Espanha e Portugal, à época da Inquisição. A fuga desses profissionais para o Brasil permite afirmar que os primeiros médicos do país foram judeus?
MS- Certamente. Muitos historiadores médicos em nosso país apontam para este fato. Depois da Inquisição, outros períodos de perseguições provocaram a fuga de médicos judeus para o Brasil.

O trabalho desses doutores de alguma forma contribuiu para a evolução da medicina brasileira?
MS- De novo, a resposta é afirmativa. Para ficarmos num único exemplo, podemos citar o Hospital Albert Einstein (São Paulo), que é um verdadeiro centro de referência.

A percentagem de médicos judeus no Brasil e no mundo é extraordinariamente alta em comparação com a proporção de judeus na população em geral. A religião ou a tradição judaica é um fator de peso nesta escolha?
MS- Sim. Saúde e doença são mencionadas abundantemente no Tanach e no Talmud. Na Antiguidade, o médico era basicamente alguém que dava conselhos, e isto de novo está dentro da tradição do Judaísmo, que sempre respeitou a figura do "chacham", do sábio. Mas havia também um motivo prático e penoso. A medicina é uma profissão "portátil", resulta de um conhecimento que está na cabeça do médico e em sua habilidade. Para um grupo humano que não raro era expulso de países, isto era uma coisa importante, tanto mais que a medicina dava status. Não foram poucos os judeus que trabalharam como médicos de reis, de sultões e de nobres. Maimônides, que atendia o sultão Saladino, é um exemplo.

Nota: Tanach (os 24 livros que compõem o chamado Antigo Testamento); Talmud (Leis judaicas e Comentários); Maimônides (médico e filósofo nascido na Espanha, no século XII).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Dia do Holocausto à moda da casa

por Sheila Sacks

"A segunda coisa melhor do que saber aproveitar uma oportunidade é saber deixá-la passar." (Benjamim Disareli, político inglês)

Publicado no site Observatório da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed681_dia_do_holocausto_a_moda_da_casa

Instituído pela ONU em 2005, o Dia Internacional do Holocausto tem sido celebrado anualmente na maioria dos países que contam com comunidades judaicas. A data escolhida, 27 de janeiro, lembra o dia da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, em 1945, pelas tropas soviéticas, na Segunda Guerra Mundial (em Israel, a cerimônia ocorre em data diversa e de acordo com o calendário hebraico. Em 2012 será em 19 de abril). No Brasil, a homenagem às vítimas do genocídio nazista – que culminou com o extermínio de um terço da população judaica à época (6 milhões, sendo 1,5 milhão de crianças) e de milhares de negros, ciganos, maçons, homossexuais, deficientes físicos, comunistas, socialistas, dissidentes políticos e outros grupos minoritários considerados inferiores e descartáveis pela Alemanha de Hitler – tem sido prestigiada por governadores, ministros e principalmente pelo gabinete da Presidência da República, nas figuras do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff.

Em 2012, o evento mudou de data e endereço, deslocando-se de São Paulo e Porto Alegre para a Bahia em razão da agenda da presidente Dilma, que visitava o estado no dia 30 de janeiro para dar início às obras do Complexo de Camaçari, incluídas no PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento). Horas depois, a presidente viajaria com o governador da Bahia, Jacques Wagner, para Cuba e Haiti. No dia anterior, um domingo (29/1), foi então realizada a cerimônia no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, que ganhou uma inabitual visibilidade na mídia nacional (geralmente discreta em relação a esse tipo de evento), em razão do teor do discurso da presidente e da própria presença do governador petista, de ascendência judaica.

Estado palestino é lembrado

Fadada a ser mais uma cerimônia de recordação, entre tantas que se celebram em várias partes do mundo, a homenagem atraiu o interesse da mídia por um detalhe fora do contexto que funcionou como uma senha mágica tão a gosto dos repórteres de plantão. Ainda na noite de domingo, a fala presidencial já repercutia na maioria dos noticiosos da internet, e na manhã de segunda-feira os jornais destacavam, nos títulos, o pronunciamento que, lamentavelmente, atropelou as mais comezinhas normas de delicadeza que todo convidado deve ter com seu anfitrião.

Utilizando-se da oportunidade oferecida pela cerimônia aberta ao público e diante da comunidade judaica presente que patrocinava o evento, a presidente Dilma, de posse do discurso preparado por sua assessoria, reafirmou a posição brasileira de defesa de um estado palestino que, curiosamente, desejou que fosse “democrático e não segregador”. Sabendo-se que o Itamaraty advoga, desde dezembro de 2010, o reconhecimento de um estado palestino com fronteiras de antes da Guerra dos Seis Dias (1967), postura ratificada pela presidente brasileira na abertura dos trabalhos da ONU, em setembro de 2011, lamenta-se que seus assessores tenham inserido esse item no texto da homenagem, de forma superficial e atemporal, visto que as negociações de paz acerca dos chamados territórios ocupados é um dos mais sensíveis temas enfrentados pelo governo de Israel, em sua política externa e interna (até o conflito, a população israelense estava subjugada a graves fatores de vulnerabilidade e insegurança).

Recados presidenciais

Mas, se o palanque não foi o mais adequado, a tática para atrair manchetes se revelou positiva. Vejamos os títulos das matérias publicadas nos dias 29 e 30 de janeiro: “Na Bahia, Dilma defende estado palestino” (O Estado de S.Paulo); “Na Bahia, Dilma defende criação do estado palestino” (O Globo); “Em evento sobre Holocausto, Dilma defende estado palestino (Jornal do Brasil e Terra Notícias); “Na Bahia, Dilma volta a defender criação do estado palestino” (UOL notícias). Também a agência espanhola de notícias, EFE, distribuiu a matéria sobre o evento de forma semelhante: ”Holocausto commemoración: Rousseff destaca la necesidad de un Estado palestino para la paz em Oriente Medio”. “Al acto vários representantes de la comunidad judia en Brasil y representantes diplomáticos israelíes, así como el gobernador del estado de Bahía, del que Salvador es capital, Jacques Wagner.” O site de notícias israelense de língua espanhola Aurora veiculou no seu link sobre América Latina, em 30.01.2012: “Brasil: Es necessário um Estado palestino para la paz em O. Medio”. “Gobierno considera ‘imprescindible’ la creación de un Estado palestino para lograr la paz en Oriente Medio durante en un acto de homenaje a las víctimas del Holocausto.”

Acredita-se que o Dia de memória das vítimas do Holocausto foi criado para lembrar, de alguma forma, as atrocidades que os homens e seus regimes políticos são capazes de praticar sob a égide de um poder discriminador, prepotente e sem limites. O uso da data, em Salvador, com o intuito de produzir mensagens políticas ideológicas, sub-reptícias e extemporâneas à homenagem, se mostrou um equívoco do ponto de vista de atender à finalidade do evento, ainda que satisfizesse alguns assessores palacianos que sentindo-se em casa, pelo fato da Bahia ter um governador petista, puseram a presidente Dilma para apadrinhar o Estado palestino em meio à cerimônia aos mortos do regime nazista. Uma manobra que deve ter levado os convidados a engolirem em seco, mas que, no final das contas, rendeu uma boa pauta de fim de semana para a mídia, sempre atenta e disposta a repercutir recados presidenciais que possam resultar em observações críticas ou polêmicas. Só que desta vez, se alguém se sentiu ofendido ou desconfortável com o rumo imposto à solenidade, estranhamente calou-se e permaneceu em silêncio.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Em Portugal, cidade medieval terá museu judaico

Sinais hebraicos na região datam de mais de 5 séculos

por Sheila Sacks

Catalogada como uma das doze “aldeias históricas” de Portugal, a cidade de Trancoso, no centro-norte de Portugal, surpreende os visitantes pela imponência de suas muralhas e pela beleza de seus monumentos, igrejas e castelos medievais. Foi nessas paragens que, em 1282, Isabel de Aragão, então com 12 anos (canonizada 400 anos depois como Santa Isabel), entra na Igreja de São Bartolomeu para se casar com D.Dinis, rei de Portugal, que lhe dá o povoado como dote.

Situado a uma mesma distância de Lisboa e de Madri (em torno de 350 quilômetros dessas capitais), o município de Trancoso, no distrito da Guarda, subregião da Beira Interior, abriga 11 mil moradores e um patrimônio histórico e arquitetônico que engloba um antigo bairro judeu, provavelmente estabelecido no século 15 por judeus fugitivos da Espanha, após o édito de expulsão assinado em 1492 pelos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela.

Nesse centro histórico rodeado por altas muralhas e um majestoso portão medieval – a antiga Porta d’El Rei em homenagem ao rei D.Dinis – está sendo construído pela municipalidade um museu judaico. Denominado “Centro de Interpretação Judaica Isaac Cardoso”, em memória ao médico e filósofo judeu nascido em Trancoso, em 1603, o prédio terá uma sala de exposições, espaço museológico dedicado ao passado da presença judaica na região, sala de documentação bibliográfica e um pequeno templo de orações para visitantes judeus (Beth Mayim Haim – Casa das Águas Vivas). De acordo com o presidente da Câmara Municipal de Trancoso, Julio Sarmento, está sendo investido 1,2 milhão de euros na construção do museu, com uma coparticipação comunitária de 85%.

Rabinos visitam Trancoso

Em dezembro de 2011 estiveram em Trancoso os rabinos Shlomo Riskin, presidente do “Centro para o Entendimento e Cooperação Judaico-Cristão de Israel” (Center for Jewish- Christian Understanding and Cooperation - CJCUC), e Elisha Salas, da organização “Shavei Israel” (que faz a conversão dos chamados “judeus perdidos”, aqueles descendentes dos judeus forçados a abandonar a religião), que atua em Portugal. Em visita ao local onde será implantado o museu, os religiosos mostraram-se entusiasmados com a solidariedade e o apoio do município de Trancoso e agradeceram à população, seus técnicos e os autores do projeto, arquitetos Gonçalo Byrne e José Laranjeira. “Este centro judaico dedicado a Issac Cardoso, uma destacada figura judaica portuguesa, e a sinagoga que vai comportar são uma expressão fantástica de que a memória dos perseguidos pela Inquisição e seus descendentes está viva, mais de 500 anos após a conversão forçada, a expulsão e a resistência, mesmo que em segredo, que preservou a cultura e a fé”, disse o rabino Riskin.

Júlio Sarmento adiantou que serão produzidos vários conteúdos multimídia e que haverá referências a judeus naturais e residentes em Trancoso que foram vítimas da Inquisição. A historiadora Carla Santos, que investiga a presença judaica na região, sustenta que os judeus já viviam em território português desde os primórdios da Idade Média e que essa vivência prolongou-se por um período de, pelo menos, mil anos, “balizados arqueológica e legalmente entre os anos de 482 e 1496”, data do édito de expulsão de Portugal da minoria religiosa. “Em consequência da expulsão dos judeus e mouros, alguns membros da comunidade judaica converteram-se ao cristianismo, ainda que, apenas, aparentemente. Naturalmente os mais abastados saíram do país constituindo parte da diáspora de origem sefardita”, explica.

Herança judaica

Outra estudiosa do tema, Antonieta Garcia, docente da Universidade da Beira Interior, afirma que é preciso aprofundar as investigações sobre as figuras judaicas que marcaram a região, mas cuja influência permanece desconhecida. “Por exemplo, onde houve uma forte presença judaica, o comércio teve um desenvolvimento espantoso. É o caso de Trancoso”, exemplifica. A historiadora aponta ainda como uma herança de prática religiosa e costumes judaicos, o forte significado da celebração da Páscoa. A proximidade com a Espanha é outro diferencial: “O que esta região tinha de diferente era a proximidade da fronteira. Desde que nasceu a Inquisição até o seu final, no século 19, circulavam muitos judeus neste local, entre Portugal e Espanha e por entre diferenças religiosas”, explica.

Atualmente várias excursões são realizadas tendo Trancoso e outras cidades do distrito da Guarda (antiga região da Beira Alta) como foco. Pesquisadores e turistas judeus de várias nacionalidades têm visitado essas localidades interessados em conhecer um passado medieval envolto em segredos e mistérios por força do poder do Santo Ofício que perdurou por três séculos em Portugal. A Rua da Alegria, no centro histórico de Trancoso, junto à muralha, seria uma das principais vias do antigo bairro judeu, cujos moradores, em 1496, antes do édito da expulsão, representavam a quinta parte de toda a população da cidade.

Um dos lugares mais característicos do antigo bairro é a “Casa do Gato Preto” ou a “Casa do Rabino”, que muitos acreditam ter sido uma sinagoga. O imóvel de arquitetura medieval apresenta desenhos de raízes hebraicas esculpidos na fachada principal. Investigadores interpretam como sendo as portas de Jerusalém, um pelicano ou pomba, quatro semblantes e o leão de Judá. Em um outro imóvel, descobriu-se uma mezuzá no interior da parede, artefato usado até hoje pelos judeus para santificar as suas casas. Colocado na parte superior do batente direito da porta de entrada, a mezuzá (do hebraico umbral) contém um pequeno rolo de pergaminho com duas passagens bíblicas e se constitui em uma proteção divina ao lar.

Sinais e caracteres gravados nas paredes de pedra e nos umbrais das portas da entrada das casas denominados cruciformes (cruzes de variados formatos) também revelam que aquelas habitações pertenciam aos chamados cristãos-novos, judeus que aparentemente professavam a fé cristã. Olhados com desconfiança pelos católicos tradicionais, que acreditavam que muitos desses conversos continuavam a praticar em segredo ritos judaicos, os cristãos-novos desenhavam cruzes nas portas de suas moradias com o intuito de serem poupados pela Inquisição, introduzida em Portugal em 1536.

Judeus ilustres

A cidade de Troncoso também é conhecida como o berço natal de Gonçalo Anes, o Bandarra (1500-1556), um misterioso trovador, provavelmente de ascendência judaica, que possuidor de um bom conhecimento das Escrituras, profetizou sobre o futuro do reino de Portugal. Seus versos messiânicos tiveram grande aceitação entre os cristãos-novos e serviu de inspiração e muitos escritores como Fernando Pessoa, o maior poeta português da era contemporânea. Acusado de judaísmo pela Inquisição, Bandarra – que era sapateiro de profissão – teve as suas trovas incluídas no catálogo de livros proibidos pela Igreja e foi condenado pelo tribunal do Santo Ofício a nunca mais interpretar a Bíblia e escrever sobre assuntos de teologia.

Sobre Bandarra, Fernando Pessoa escreveu: Sonhava, anônimo e disperso/ O Império por Deus mesmo visto,/Confuso como o Universo/E plebeu como Jesus Cristo./Não foi nem santo nem herói/Mas Deus sagrou com Seu sinal/ Este, cujo coração foi / Não português, mas Portugal (do livro “Mensagem” – uma coletânea de poemas sobre grandes personagens portugueses).

Já Isaac Cardoso, que dará seu nome ao Centro de Interpretação Judaica, embora nascido em Trancoso, ainda criança mudou-se com a família para a Espanha. Estudou em Salamanca e lecionou filosofia e depois medicina em Valladolid. Foi médico da corte real até que, em 1648, mudou-se para Veneza, onde assumiu publicamente a sua condição de judeu e adotou o nome de Issac (o de batismo era Fernando). De 1653 até o final de seus dias, em 1683, voltou a exercer a medicina em Verona, simultaneamente escrevendo dezenas de livros, entre eles, “Del Origen Del Mundo”, “Philosophia Libera” e “Las Excelências de los hebreus” (dedicado ao judeu português Jacob de Pinto), em que cita Bandarra como “o profeta de Trancoso”.

Encontro com Bento 16

No início de 2011, meses antes da visita a Trancoso, o rabino Shlomo Riskin se reuniu com o Papa Bento 16, no Vaticano, para falar sobre o trabalho desenvolvido pelo Centro para o Entendimento e Cooperação Judaico-Cristão (CJCUC), entidade a qual preside e que promove o diálogo teológico e de fé com os cristãos que vivem em Israel. Membro do Grão-Rabinato de Israel, o rabino Riskin disse ao Papa que tem procurado aliviar a pobreza nessa comunidade religiosa. Também está empenhado em permanecer solidário com os irmãos e irmãs cristãos em Israel e advogar por eles. “Pela primeira vez na história dos judeus, nós, como maioria, devemos tratar das minorias religiosas, e é obrigação do judaísmo aderir ao preceito bíblico que diz: Amarás o estrangeiro que vive em tua terra.” De acordo com o rabino Riskin, o Papa se mostrou satisfeito e respondeu: “Temos de trabalhar juntos”.

Uma das ações propostas pelo CJCUC foi a de criar programas para instruir os rabinos de Israel e da diáspora no diálogo entre judeus e cristãos visando melhorar a compreensão e cooperação em questões religiosas e morais. “Eu tive a oportunidade de contar isso brevemente a Sua Santidade”, disse Riskin. “Falamos das atuais oportunidades de diálogo para que os cristãos que viajam a Israel possam conhecer mais as raízes judaicas de sua fé.”

Entusiasmado com o que viu em Trancoso, o rabino Riskin considera que o museu judaico vai se constituir em uma referência não só para Portugal, mas também e sobretudo para o mundo, valorizando a tradição e o passado da presença judaica em termos culturais, sociais, históricos e patrimoniais. “Funcionará como um centro de aglutinação para judeus e cripto-judeus que retornaram ou pretendem retornar à identidade judaica, sempre numa atitude de cultura, conhecimento, estudo e fé”, reafirmou Riskin que desde 1983 dirige a comunidade de Efrat, cidade que fica entre Belém e Hebron.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Japão não é aqui

Por Sheila Sacks

publicado no site "Observatório da Imprensa"
http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed677_o_japao_nao_e_aqui

“Jornalismo é uma questão de ênfase” (Paulo Francis)

Quatro dias antes de se completar um ano do mais grave fenômeno climático em número de vítimas que atingiu o país, o jornal O Globo,se antecipando à data, encartou um suplemento especial sobre o tema em sua edição dominical [8/1], enfatizando o imenso esforço que a população atingida pela tragédia vem fazendo para retomar a rotina. A chuva torrencial sobre a região serrana do Rio de Janeiro, que matou 918 pessoas e deixou 215 desaparecidos, ocorrida na madrugada de 12 de janeiro de 2011 nas cidades turísticas de Petrópolis, Teresópolis, Friburgo e arredores, voltou a ter destaque na mídia por conta das chuvas que desde os primeiros dias de 2012 castigam o interior do estado, desta vez em municípios próximos da divisa com Minas Gerais.

A reportagem (“A vida de Brayan”, em alusão ao menino nascido em uma maternidade de Teresópolis “enquanto o mundo desabava”) focaliza ações individuais de ajuda aos desabrigados; os mutirões que têm reunido moradores e instituições empenhados na construção de novas moradias; a recuperação da lavoura e a criação de uma cooperativa; a presença do poder público nas ações iniciais de emergência e socorro às vítimas, na transferência de verbas para a reconstrução dos acessos destruídos pelas enchentes e na ativação de programas de ajuda financeira às famílias que perderam suas casas (aluguel social), sem faltar o relato das investigações em curso, a cargo da Controladoria Geral da União (GCU), sobre possíveis irregularidades na utilização desses recursos por parte de funcionários das prefeituras, donos de construtoras e firmas de serviço.

Destruição e falência de empresas

Ainda que o encarte seja crítico em relação às ações governamentais (“Enxurrada de promessas só foi cumprida parcialmente”), houve espaço razoável na reportagem para que representantes do poder público falassem sobre o trabalho desenvolvido na região no decorrer de 2011. A insistência da mídia em minimizar as iniciativas levadas a efeito pelo governo (limpeza das áreas atingidas, remoção de barreiras, reconstrução de acessos, dragagem de rios, melhoria no sistema de alarme de cheias, mapeamento de áreas de risco geológico, instalação de sirenes e pluviômetros em áreas vulneráveis etc) porque sua abrangência e resultados não atenderam à totalidade da imensa demanda que tais tragédias costumam requerer, denota um tipo de ênfase tendencial, quase institucionalizada, por parte da maioria dos meios de comunicação.

Desta vez, o enquadramento noticioso se fixou em aspectos comparativos entre o Brasil e o Japão – país assolado, em março de 2011, por uma tríplice tragédia: terremoto, tsunami e vazamento nuclear – no que concernem à grandeza do estrago e os resultados obtidos em todo o processo de socorro às vítimas, atendimento às populações e recuperação física das localidades atingidas pelas catástrofes. Editoriais, colunistas e comentaristas de notícia repercutiram e ampliaram o enfoque das críticas, ancorados na afirmação simplista e padronizada de que “ muito pouco ou nada foi feito”, permitindo-se ainda desconsiderar os obstáculos geológicos, jurídicos e burocráticos que têm atrasado os trabalhos de reconstrução.

“Foram quatro dias de horror, nos quais os japoneses enfrentaram um terremoto, seguido de um tsunami e finalizado com explosões na usina nuclear de Fukushima Daiichi – com um saldo de cidades inteiras destruídas, 20 mil mortos ou desaparecidos, 70 mil refugiados nucleares, 800 mil casas total ou parcialmente destruídas, 400 mil pessoas deslocadas de seus lares, além de destruição de toda a infraestrutura de uma vasta área e a falência de milhares de empresas” (coluna de Ricardo Setti – Veja online de 14/12/11). O preço da reconstrução está sendo estimado pelo governo japonês em 235,8 bilhões de dólares.

A política é acalmar a população

Já na região serrana do Rio, segundo os parlamentares que integraram a CPI das chuvas na Assembleia Legislativa (Alerj), encerrada em setembro de 2011, a tempestade, além de provocar mais de mil vítimas, entre mortos e desaparecidos, afetou meio milhão de pessoas, deixando 35 mil desalojados, mais de 7 mil desabrigados, um prejuízo de 4 bilhões de reais, além da estimativa de recuperação das cidades em dois anos (“Um ano da tragédia na região serrana” – O Fluminense, em 11/1/12). Relatório da Comissão Especial de Medidas Preventivas e Saneadoras de Catástrofes Climáticas da Câmara dos Deputados revela que as tragédias naturais no estado do Rio de Janeiro foram agravadas pelo incremento da construção civil e a reocupação de áreas de risco. “Os deputados afirmam que, na serra fluminense, 85% das áreas atingidas por deslizamentos em 2011 foram desmatadas ou alteradas pela ação do homem” (“Mesmo com histórico de tragédias, Brasil não investe em prevenção” – O Globo, em 11/1/12). Um cenário, portanto, de causas e soluções diferentes daquelas propostas no Japão onde os moradores deverão retornar as suas moradias reconstruídas, excetuando aqueles que residiam nos arredores da usina nuclear de Fukushima.

Neste aspecto, aliás – o de realocamento de famílias –, o governo do Japão tem sido bastante questionado pelos habitantes das cidades próximas à usina por não estar adotando uma política séria de proteção à saúde. Protestos têm sido organizados em Tóquio contra a posição do governo de concentrar esforços em “aliviar” a preocupação pública prometendo reduzir a exposição radioativa em áreas afetadas ao invés de realizar remoções. Pesquisa realizada na região demonstrou que um terço dos cidadãos de Fukushima desejaria mudar, mas não o fazem pelos problemas e custos que isso acarretaria. Na manifestação antinuclear realizada em Tóquio para lembrar os seis meses do vazamento da usina, manifestantes exibiram faixas e cartazes que demonstravam a sua revolta: “A radioatividade não tem fronteiras” e “Do Japão ao mundo: Perdão!” (“Protestos antinucleares marcam 6 meses de crise em Fukushima” – agência EFE, em 11/9/11).

A ativista Aileen Mioko Smith, que lidera a organização não governamental Green Action Japan, critica as medidas do governo japonês: “Nossas reuniões com funcionários para pedir mais rapidez em programas de evacuação dos grupos de alto risco são respondidas com promessas de limpeza do lixo radioativo. Isto é totalmente irresponsável.” Também a representante da ONG Mães de Fukushima contra a Radiação, Ayako Ooga, mostra-se decepcionada com a posição do governo: “Não é a recuperação que imaginávamos. A política é acalmar a população, mas o que queremos são ações honestas do governo.” Para a Green Action Japan, os novos padrões adotados pelas autoridades com relação ao nível aceito de radiação não protegem a população mais vulnerável, como crianças, mulheres grávidas e idosos (“Muitos lutam para salvar a infância em Fukushima” – Inter Press Service, em 9/11/11).

US$ 30 milhões destinados à indústria baleeira

Em outra cidade, Ishinomaki, no noroeste do Japão, milhares de desabrigados passam o rigoroso inverno em casas improvisadas. Um vídeo produzido pela agência France Presse, em dezembro de 2011 (“Cidades japonesas continuam destruídas 9 meses após tsunami”), apresenta um panorama de devastação, com entulho, mato, escombros e casas arrasadas. Muitas famílias, com a chegada da neve, estão vivendo nas ruínas do que foram as suas casas. O governo admite que a reconstrução vai demorar e que ainda não há previsão de entrega de moradias permanentes. Os atingidos pela tragédia também se mostram preocupados com o fim da concessão do seguro-desemprego que termina em fevereiro de 2012. Em outra cidade, Onagawa, os desabrigados vivem em contêineres de navio, uma alternativa para os que ficaram sem teto.

Além das críticas à condução da política de realocamento e reparação de danos decorrentes do vazamento nuclear, o governo japonês também está sendo acusado de desviar 30 milhões de dólares dos fundos destinados à recuperação das áreas atingidas pelo terremoto e tsunami para subvencionar o programa anual de caça às baleias. A ONG Greenpeace denunciou que esses recursos estão sendo gastos para proteger a frota baleeira que já está no Ártico (“Japão promove caça de baleias com verba de pós-tsunami, diz ONG” – Folha de S.Paulo, em 7/12/11). As autoridades japonesas inicialmente justificaram o uso da verba como uma forma de ajudar na recuperação das comunidades costeiras que trabalham nesse tipo de atividade, depois recuaram e disseram que os recursos vieram dos impostos.

Apesar da pesca da baleia para fins comerciais ser proibida desde 1986 pela Comissão Baleeira Internacional (CBI), anualmente em torno de mil baleias são mortas pelos pesqueiros japoneses, sob protestos de países como a Austrália, Holanda e Estados Unidos e de várias organizações ambientalistas. Uma delas, a Sea Shepherd, que com seus barcos há sete anos tenta evitar as atividades da frota baleeira no oceano Antártico, lembra que a prioridade no uso de verbas é para atender os atingidos pela catástrofe. O fundador da ONG, Paul Watson, insiste nesse ponto. “De qualquer maneira, a pergunta deve ser feita: quando as pessoas estão desabrigadas por causa do desastre, por que 30 milhões de dólares são destinados à indústria baleeira para defender a sua operação de caça ilegal no Santuário Antártico das Baleias?”

Ações para reduzir riscos e mortes

Mas, voltando à região serrana, a intervenção nas áreas atingidas não ficará limitada à limpeza e desobstrução das vias, a remoção de entulhos, consertos emergenciais e a retomada dos serviços interrompidos. Isso já foi feito em grande parte das localidades. Será preciso realizar obras de razoável tecnologia de engenharia para tornar as cidades seguras do ponto de vista habitacional. O realocamento de centenas de famílias que residem em áreas de encostas e margens de rios muitas vezes esbarra na escassez de terrenos planos e seguros ofertáveis à compra pelo poder público ou mesmo passíveis de serem desapropriados para a construção de novas casas e bairros. Muitas vezes terrenos que parecem viáveis para a moradia acabam não recebendo o nada consta ambiental.

O governo do estado do Rio afirma que aplicou 49 milhões de reais em 2011 em várias frentes de trabalho na Região Serrana, principalmente as emergenciais e as voltadas para restaurar a normalidade dos acessos e serviços nas localidades. Por sua vez, a reconstrução de dezenas de pontes, grande parte delas pequenas, vão ser realizadas após estudos de viabilidade. As enxurradas mudaram as margens dos rios e a quantidade de água que passava debaixo das pontes. Setores ambientais do estado tiveram que analisar os projetos. Com o mapeamento de 170 pontos de alto risco (os temporais de janeiro de 2011 provocaram 777 deslizamentos em sete municípios da serra fluminense), o cálculo dos técnicos é de que será preciso 1 bilhão de reais para tornar as encostas seguras, além dos 147 milhões de reais que já estão sendo investidos em 30 pontos considerados prioritários. Outros 265 milhões de reais serão necessários para a realização de trabalhos de dragagem, canalização, construção de barragens e implantação de um parque fluvial (“Estado diz que precisa de mais R$ 1 bi para encostas”, O Globo, em 12/1/12). A disposição do governo também é de construir cinco mil casas para atender aqueles que perderam ou tiveram as suas moradias interditadas ou condenadas pela Defesa Civil. Atualmente, 7.372 famílias recebem ajuda do governo por meio do aluguel social no valor de R$ 500 mensais.

Em 2007, quando da primeira conferência sobre redução dos riscos de catástrofes organizada pela ONU, a crescente vulnerabilidade das cidades já preocupava. “A progressiva urbanização, conjugada com as alterações climáticas, criará novas situações de stress para os povoamentos urbanos, tornando milhões de pessoas ainda mais vulneráveis a catástrofes”, alertava o então subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários e coordenador de ajuda de emergência, John Holmes, chamando a atenção ainda para a necessidade de se implementar ações que pudessem evitar ou reduzir os riscos e as mortes.“Um planejamento eficaz, a elaboração de orçamentos corajosos e a aplicação de políticas que impeçam a fixação de seres humanos em zonas de perigo são indispensáveis. Temos de velar para que os hospitais, as escolas, os transportes e as redes de água consigam resistir aos riscos decorrentes de catástrofes.”

Avanço “em direção ao fim”

Em relação à região serrana, “a ocupação de Áreas de Proteção Permanente- APPs (áreas cobertas ou não por vegetação nativa, que têm como função preservar os recursos hídricos, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo de fauna e flora e proteger o solo) maximizou os impactos dos desarranjos do clima e sua variabilidade”, explica a coordenadora do Programa de Mudanças Climáticas e Resposta a Desastres da organização não-governamental Care Brasil, Leila Soraya Menezes. Ela alerta para o fato de que áreas de extremo risco de desastre estão ocupadas por comunidades inteiras, em geral comunidades em situação de extrema vulnerabilidade social. “O que aconteceu na serra fluminense mostra como a ocupação intensa de APPs protegidas pelo nosso Código Florestal, como dunas, mangues, encostas e topos de morro, beiras de rio e matas, que cumprem papel natural de redução de riscos, podem potencializar uma tragédia.” Relatório de Inspeção do Ministério do Meio Ambiente já havia revelado que as áreas mais atingidas foram justamente as APPs, onde as pessoas habitavam irregularmente áreas à beira ou muito próximas às margens dos cursos dos rios e áreas de encostas de morros com grande declividade e que esses moradores morreram atingidos por inundações e deslizamentos de terra” (“Mudanças climáticas –Sociedade de risco”, portal Ipea).

Em suma, em ambas as catástrofes houve equívocos na condução dos trabalhos a serem realizados que resultaram em omissões e erros de avaliação. A reconstrução de qualquer área submetida à fúria de um desastre natural, além de requerer custos estratosféricos, é um desafio que exige, após os primeiros dias de reação emergencial, um planejamento gerencial conjugado envolvendo várias estruturas e mecanismos governamentais simultaneamente, com propostas e ações alternativas já prevendo os possíveis cerceamentos jurídicos e ambientais que costumam interromper e atrasar os cronogramas de obras. Consciente dessa questão, a ONU promoveu em maio de 2011, em Genebra, juntamente com o Banco Mundial, a primeira conferência sobre reconstrução (World Reconstruction Conference). Presente ao encontro, a diretora do departamento de finanças, economia e desenvolvimento urbano do banco, Zoubida Allaoua, resumiu a essência dos debates: “Queremos aprender com o passado e chegar a um acordo sobre uma nova estrutura que agilize a reconstrução após uma catástrofe, aprovar normas comuns, melhorar a qualidade e aumentar a transparência.”

Metas que precisam ser implementadas com certa urgência. Neste início de ano, face aos desastres climáticos de 2011, o relógio do Juízo Final foi adiantado em um minuto, deslocando-se para 23h55m. De acordo com o Boletim dos Cientistas Atômicos, grupo que criou este mecanismo em 1947, além da disseminação das armas nucleares, o que pesou no avanço “em direção ao fim” foi a falta de empenho global no combate às mudanças climáticas que têm provocado desastres naturais de grande monta, com prejuízos bilionários e milhares de mortes, principalmente em países em desenvolvimento pouco capacitados para lidar com esses tipos de catástrofes.