
Por Sheila Sacks
Em pé, exalando a lavanda, Dona Edite aproxima o rosto do espelho. “Até que estou arrumadinha”, avalia satisfeita com o que vê. Levando em conta as estripulias do tempo, o resultado não era de todo ruim. Afinal, aquele olhar azul celeste de galantes elogios permanecia irretocável. Ou quase. Sorri complacente com a idade, as rugas e os cabelos estriados de branco. Por alguns segundos aprecia os novos óculos de armação coral e num galanteio maroto pisca o olho esquerdo, alegre com o dia que a espera.
Vai à cozinha e encontra Letícia, descalça e de short desfiado, limpando a prateleira mais alta do armário. - Vou ao banco filhota, avisa em voz alta. A jovem, de pouco mais de 18 anos, move a cabeça sem retirar os minúsculos fones encaixados nos ouvidos. Empoleirada na escada, repara que a patroa está de vestido florido, rosto empoado, batom vermelho e bolsa branca a tiracolo. “Dia de pagamento, dia feliz...” cantarola em falsete, ao som dos acordes sertanejos que zunem em seus ouvidos. Fingindo não se importar com o gracejo, a velha senhora se apruma, encolhe a barriga, acena com a mão e sai porta afora.
Na ala de serviço, dona Edite dá bom dia ao faxineiro que, balde e rodo nas mãos, lê entretido qualquer coisa estampada na pilha de jornais velhos. Já no saguão, o porteiro meio que escondido atrás da bancada de madeira aciona a tranca da porta, a atenção dividida entre as imagens das câmaras de segurança e o desenho animado que colore a pequena tela da tevê.
Alcançando a rua, ela anda por mais de dez minutos até chegar ao seu destino. Transeuntes apressados misturam-se a banhistas de sandálias havaianas, idosos de andar trôpego, donas de casa com sacolas de supermercado. Eles lotam as calçadas nos cruzamentos, um pequeno exército brancaleone. Da praia sopra um vento inoportuno que desarranja os cabelos de quem anda pela avenida principal.
Já no interior do banco, dona Edite se alinha na fila dos idosos e observa o atendente, um de seus preferidos. “Melhor assim”, pensa. O jovem gorducho, como de hábito, trata-a com uma cordialidade que a deixa encabulada. Ao final, despede-se com um celestial “até a próxima, minha linda“, carinho verbal que tem o dom de afoguear seu rosto, inebriar os sentidos, confundir a mente. Tal qual uma ébria, deixa-se levar pelo encantamento, esbarrando na porta giratória que a expele cambaleante para fora do banco, sob o olhar fixo e impessoal do segurança fardado.
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De volta ao apartamento dona Edite liga para o taxista. Em sua bolsa as notas dobradas já tinham sido contadas.
- Vamos para Bonsucesso, seu Antônio, informa satisfeita, ajeitando-se no interior do táxi. O veículo sobe o Corte do Cantagalo e desce para a orla da Lagoa Rodrigo de Freitas. Em uma das curvas, a velha senhora se surpreende com a visão de meia dúzia de garças perfiladas sobre um estrado à beira do espelho água. Entre nuvens, o sol acanhado parece navegar para outras paragens. O táxi atravessa as duas extensas galerias do Túnel Rebouças desembocando do outro lado da cidade onde nuvens cinzentas sombreiam o céu. “Dia de pagar promessa”, associa a velha senhora apalpando o pequeno guarda-chuva no fundo da bolsa.
Pelo terceiro mês consecutivo dona Edite repete o longo trajeto de Copacabana ao bairro de Bonsucesso para cumprir a promessa assumida pelo pronto restabelecimento de uma prima muito querida. Durante seis meses ela iria doar três salários mínimos para uma creche mantida por uma dessas organizações sociais de ajuda ao próximo. O valor poderia parecer exorbitante para uma professorinha pública aposentada, mas dona Edite tinha a vantagem de ser viúva de um procurador da República. Daí a generosa pensão que sustentava as suas viagens anuais aos museus e castelos europeus, financiava as assinaturas anuais do calendário operístico do Teatro Municipal, o plano de saúde top e outros prazeres herdados do tempo de casada, tais como as bacalhoadas semanais em um restaurante da Avenida Atlântica.
Entorpecida pela viagem e pelos pensamentos, ela fecha os olhos. “O tempo corre como o táxi de seu Antônio”, matuta de forma vaga, perdida entre a fronteira da consciência e do sono. Sorri ao lembrar a garotada da creche. “No Natal vou comprar uns brinquedinhos”, decide, enquanto o carro se embrenha pelo cenário desconhecido do subúrbio.
Em pouco mais de dez minutos o táxi diminui a velocidade e estaciona em uma esquina pouco movimentada de um entroncamento de duas ruas, tendo uma pequena praça ao fundo, no final de uma das vias. Um muro alto esconde a creche. De ambos os lados, casas de aparência diversas, com fachadas mal cuidadas ou parcialmente reformadas se seguem, uma após outra, sem guardar similaridade. Das calçadas irregulares de cimento irrompem raízes de amendoeiras centenárias cujos galhos e ramagens se curvam sobre os paralelepípedos das ruas por onde os raros veículos transitam. Dona Edite olha a paisagem melancólica que traz à tona remendos de uma infância aflita e reprimida.
- Não vou demorar, fala para o taxista. Tome um cafezinho por minha conta e volte daqui a meia-hora, combina.
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O muro de cimento que cerca a creche está encimado por pontudos cacos de vidros em desafio a possíveis incursões. Dona Edite toca a campainha já antevendo o abraço afetuoso da risonha auxiliar. Enquanto espera, alça a vista para o horizonte recortado pela admirável estrada suspensa do teleférico que se estende sobre o conjunto de favelas do Alemão, uma cidadela fortificada e inexpugnável. Atravessando as várzeas e os pontos altos dos morros apinhados de casas aboletadas umas sobre as outras, dezenas de pequenas gôndolas envidraçadas deslizam pelos cabos de aço suspensos por gigantescos pilares em um vai e vem contínuo entre as estações construídas sobre os platôs. Dona Edite mais uma vez se surpreende com a visão daquela obra de engenharia realizada no início da década.
Postada na calçada, pressiona mais uma vez o botão vermelho instalado na frente do muro. O táxi há muito tinha sumido em uma curva, em direção à avenida. Finalmente o portão é aberto e um sujeito de boca murcha, cabelos ralos e com as roupas sujas de massa de cimento assoma à soleira.
- A creche está em obra, madame, apressa-se em explicar. E emenda: - Só volta a funcionar na semana que vem.
Dona Edite sente que a bexiga fraca já dá sinais preocupantes. De supetão ela cruza o portão sem dar tempo ao homem de impedi-la.
- Preciso usar o banheiro, meu filho. É rapidinho e sei o caminho, vai dizendo enquanto aperta o passo. Mas em poucos segundos ela se vê segura pelo braço e arrastada para o interior da casa. É largada em frente a uma enorme cratera escavada no centro de uma das salas. Operários de torsos nus empilham sacos de entulho trazidos do fundo do túnel que se alonga por debaixo da construção. Atônita, dona Edite percebe alguns homens fardados. Um deles se aproxima, o rosto oculto por uma touca escura de malha. Das fendas do gorro, dois olhos cinzentos e frios a avaliam. - Deje la bolsa acá, ordena. O portunhol range na voz cavernosa do gigante. Ele usa coturnos emborrachados e colete à prova de balas. Aponta o banheiro. - Adelante, va.
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No estreito e comprido banheiro dona Edite se vê sem os documentos, dinheiro, celular, relógio, sombrinha e agenda. Todos na bolsa confiscada. Tenta entender o que acontece. O susto a leva imaginar que a polícia realiza uma operação secreta, talvez algo relacionado com informações do disque-denúncia. Mas tem consciência que não é bem isso que se desenrola do outro lado da porta. Sua percepção apurada a faz desconfiar de que uma possível operação terrorista está em curso. E ela se indaga em que parte daquele roteiro de horror sua personagem esdrúxula se encaixa.
Cerra os olhos e revê o enorme mapa das favelas do Alemão, detalhado e ampliado, ocupando toda a parede da sala. Nele foram pintados grandes círculos em vermelho nos pilares do teleférico, assinalando os locais da instalação das bombas. Ensaboando nervosamente as mãos, o coração dispara. Iriam explodir o teleférico com suas dezenas de gôndolas repletas de passageiros. Será possível? pergunta-se, temendo estar delirando. Faltavam poucos dias para a data grifada na parte alta do painel: 11 de setembro. Havia escutado em algum lugar sobre as homenagens a serem feitas às vítimas do histórico atentado às torres gêmeas de Nova York, ocorrido há quase duas décadas. Nos Estados Unidos e em vários países o patrulhamento já era ostensivo. Confusa, dona Edite sente que os pensamentos se embaralham em sua cabeça.
Tomada pela ansiedade anda em círculos no pequeno espaço entre o chuveiro e a pia. Exausta, calcula que esta encerrada naquele cubículo há mais de duas horas. ”Seu Antônio deve estar longe”, admite. “Afinal, quem em sã consciência faria a besteira que eu fiz? Que se urinasse na rua, ora pitombas!”, culpa-se mortificada.
Em parte, dona Edite não estava longe da realidade. O taxista havia retornado cinco minutos após o horário combinado. Ao não avistar a velha senhora na calçada, ficou apreensivo. Tocou a campainha várias vezes. Estranhou o silêncio na casa e a ausência da passageira. Insistiu, bateu no portão, gritou o nome de dona Edite. Irritado voltou ao carro e ligou para o celular de sua cliente. A resposta veio em forma de gravação: “Recados para a caixa postal”. Pelo retrovisor viu ao longe, perto da pracinha, um homem encostado em uma moto. Desistiu de esperar. Jogou o celular no banco do carona, acionou o motor e se pôs a caminho. Alguns metros mais adiante, em sentido contrário, uma patrulha fazia a ronda em baixa velocidade. Seu Antônio falou com os seus dois ocupantes, apontou a casa e partiu em direção à avenida principal na esperança tardia de encontrar a passageira sumida.
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Confinada no banheiro, a velha senhora se deixa ficar, completamente sem ação, sobre o tampo do vaso sanitário. Sons confusos e amortecidos pelas paredes vão ganhando contornos estranhos em sua cabeça. Pessoas discutem, as vozes alteradas pela agitação e a raiva. Escuta xingamentos, gritos de dor e o que parece ser uma movimentação de luta. Súbito a porta é aberta com um estrondo de ferragens partidas e um homem é empurrado violentamente banheiro adentro. Ele bate com as costas e a cabeça no piso de ladrilhos.
– Não faça isso, por Deus, colombiano, implora o homem com a voz engasgada. Rajadas de metralhadora desfolham o seu peito que se rompe como um vulcão em erupção. Uma larva gosmenta tinge o morto de vermelho. – Ninguna palabra, mujer, ordena o justiceiro, mirando a mulher petrificada. Com a mão faz um sinal inesperado para segui-lo. Dona Edite percebe que as pernas não respondem. O gigante de botas se afasta e ela, como se acordasse de um pesadelo, joga-se sobressaltada em direção à porta tropeçando sobre o corpo que estranhamente se contorce em convulsões.
Assustada se depara com a carnificina, o vestido florido empapado de sangue. Percorre alucinada a sala onde corpos se espalham pelo chão. Gritos e batidas vindos do túnel, agora tampado, a confundem. Um cheiro de fumaça começa a invadir a casa e ela se desespera. O mascarado corre para o fundo do quintal e com precisão e agilidade afasta os móveis empilhados que escondem uma portinhola que se abre para o terreno baldio de uma rua próxima.
Fora da casa, dona Edite por um instante tem a impressão de que a sua cabeça vai explodir. De repente ela escuta o ronco estridente de uma motocicleta que avança em sua direção. Ela se vê travada pelo medo, com as pernas paralisadas. O colombiano acelera em seus calcanhares.
- Detrás, bufa o homem em fuga, respingando saliva e indicando a garupa da motocicleta. O capacete negro com o desenho de uma caveira dourada na lateral deixa entrever uma boca larga e carnuda. A velha senhora é arrancada do solo por um braço pesado como um trator. Ela se agarra à cintura do homenzarrão que a joga, como um saco de roupa suja, sobre o assento maltratado. A máquina saracoteia e ganha velocidade.
- Fogo! berra alguém, no fundo da rua. Dona Edite escuta, atrás de si, duas violentas explosões e o estrondo de uma casa vindo abaixo. Uma nuvem de poeira move-se velozmente sobre eles. O colombiano faz uma manobra arriscada e, por alguns segundos, se detém a olhar os escombros da creche envolta em chamas e fumaça.
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Já na avenida principal, ziguezagueando entre os carros, o bandido se lança para o complexo do Alemão, em um itinerário de incerteza e medo. Logo, dona Edite percebe que estão sendo seguidos. O colombiano acena para o comparsa na outra moto e este faz um sinal com uma das mãos indicando que tudo está ok.
Alguns metros acima da entrada da favela, em um estreito descampado, a velha senhora vê o incêndio lá embaixo e a confusão que se formou. Pessoas saindo de suas casas, outras acorrendo ao local, curiosos já parados em frente à creche destruída. Uma viatura de bombeiro atravessa a rua na contramão com a sirene ligada. Ao lado dos escombros, um carro da polícia está em chamas.
Equilibrando-se na garupa, dona Edite sente uma fisgada no peito quando o bandido se desvia de uma carroça de bananas e a moto ameaça derrapar. A boca está seca, a cabeça lateja e os braços e pernas parecem entorpecidos. Olha para o alto e percebe que os bondinhos do teleférico estão parados. Passageiros contrariados saltam nas estações.
– Tá pegando fogo lá na rua dos brancos, avisa o garoto para a mulher postada na janela que solta uma estridente gargalhada.
Os dois motoqueiros aceleram e se enveredam por ruelas estreitas e íngremes, desviando-se de restos de comida, latas de cerveja, garrafas, pneus, cachorros soltos, porcos e gatos, roupas estendidas em varais improvisados e da multidão de crianças que corre pelas vielas sem ter o que fazer. A poucos metros do topo da favela, uma saraivada de tiros interrompe a corrida. As motos rodopiam, estatelam-se no barro e seus ocupantes rolam pelo matagal. Dona Edite tem a queda amortecida pela copa de uma árvore e cai sobre os restos de um colchão imundo misturado ao lixo acumulado. Tenta se levantar a procura de um lugar para se esconder. Um corpo cai ao seu lado, vísceras à mostra. O sangue espirra em seu rosto e ela fecha os olhos por um minuto. A cabeça dói e um fiapo de líquido quente escorre pela face e pescoço. O homem ensanguentado urra de dor e de fúria. Nas lajes, a céu aberto, um pelotão de bandidos varre o espaço com suas metralhadoras.Desesperada, ela se arrasta até um beco próximo. Espreme-se em um vão entre alguns casebres e deixa o corpo escorregar até o chão úmido. Os pés inchados dentro dos tênis sujos de lama e sangue a incomodam. Seus lábios balbuciam automaticamente a oração dos aflitos até o cansaço silenciá-los. Adormece e quando abre os olhos vê as luzes mortiças de algumas lâmpadas pintando a escuridão. Levanta-se com dificuldade, sob o olhar curioso de um menino que parece observá-la há algum tempo.
-Como chego ao teleférico, implora dona Edite, o vestido florido rasgado, manchado e amarfanhado. O garoto de pouco mais de seis anos chupa os dedos da mão direita e leva alguns segundos até apontar, com a outra mão, a localização da estação, um pouco abaixo de onde estavam.
No interior da gôndola, a velha senhora é a única passageira. São quase 10 horas da noite e o bondinho completa seu último trajeto para o bairro de Bonsucesso. A gigantesca favela parece envolta em um silêncio de espreita, a ressonar como um paquiderme em vigília. A viagem se estende por intermináveis quinze minutos até a linha férrea. Desorientada, ela avista um táxi e solta um berro esganiçado. Joga-se no assento do carro e antes de dizer para aonde vai, põe-se a soluçar. O taxista nota as condições deploráveis da mulher e aguarda alguns segundos. Dona Edite respira fundo e finalmente consegue articular as palavras: - Copacabana, por favor. Em seguida, esgotada e abatida se afunda no estofado e leva a mão ao coração. O pesadelo acabou.
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Em seu apartamento, dona Edite fecha as malas. A temporada em Fortaleza provavelmente será longa. A afilhada, residindo em uma base militar, longe dos parentes e às voltas com dois filhos pequenos, tinha ficado exultante com a novidade. Com um suspiro, mais uma vez a velha senhora relembra a manhã seguinte à explosão da creche. Os jornais falavam de incêndio acidental na reforma do imóvel e apontavam a presença de botijões de gás, solventes e álcool como agravantes. Seis corpos carbonizados tinham sido encontrados, sendo quatro deles dos operários da obra e dois de policiais, em ronda pelo local, que foram colhidos pelas explosões.
Porém não foram os enganos da reportagem que a surpreenderam, nem tampouco as perguntas desconfiadas de seu Antônio. Um pouco antes do meio-dia, o interfone do prédio tocou e um entregador apareceu com os documentos roubados. Ansiosa e perplexa, ela recebeu de volta a bolsa branca e os seus pertences intatos. O homem com capacete de motociclista estava abraçado a um arranjo de rosas vermelhas, envolto em papel celofane e arrematado por um laço dourado.
– A pessoa que achou seus documentos também envia as flores, justificou.
Sozinha na cozinha, dona Edite sente o coração acelerar. Lembra o meio sorriso ameaçador do homem encapsulado. O destino das rosas seria a lixeira, mas não sem antes ler o recado que estaria escondido no ramalhete. Afasta as ramagens com cuidado para não se ferir com os espinhos e encontra o cartão: “A sorte não bate duas vezes na mesma porta”, dizem as letras cuidadosamente desenhadas. “Te cuida, dona Edite”.
Os preparativos para a mudança se estenderam por uma tensa semana. Do advogado que a representaria, nesse longo afastamento, aos vizinhos, familiares e as poucas amigas, todos foram comunicados. O motivo alegado para a repentina decisão – mudança de ares – não suscitou indagações nem questionamentos. Na sua idade, pensavam, o mais recomendável seria mesmo dona Edite residir com algum parente.
Acabrunhada, ela contempla demoradamente o amplo quarto com a varanda graciosa que a viu jovem, recém-casada. Por mais de cinquenta anos esse foi o seu santuário, o sagrado refúgio dos momentos íntimos e especiais. A viuvez ainda a fazia chorar copiosamente sobre a cama de casal, admitia um tanto encabulada. Relutante, ela se despede desse passado e tranca a porta do apartamento. Letícia a ajuda com as malas e as duas entram no elevador.
Na calçada, seu Antônio põe as malas no táxi. Ela abraça a empregada e acena para o porteiro, seu Severino, a quem recorria em suas emergências domésticas. Entorpecida pelo calmante, olha ao redor e avista um desconhecido parado, ao lado de um poste de luz, na calçada oposta. Hesita, por um momento, mas logo se recompõe e entra rápido no veículo.
– Ao aeroporto, fala decidida. Seu rosto contraído e os belos olhos azuis enevoados revelam apreensão. Pela primeira vez, em todos aqueles dias de inquietação tem a desagradável impressão de que o exílio pode durar mais do que o previsto. “Meu Rio de Janeiro, eu juro que volto”, promete a si mesma, experimentando uma súbita sensação de confiança.
-Vamos pela praia, seu Antônio, resolve dona Edite. Sem pressa, acrescenta, abrindo a janela do veículo para olhar o céu límpido e sem nuvens, sempre um bom augúrio para qualquer viajante.
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Com a sinopse na mão, Rogério Reis, o veterano repórter das crônicas policiais, ouve as alterações sugeridas pela produção do seriado “Missão Rio”, a ser exibido nas tevês europeia e norte-americana na esteira dos eventos internacionais realizados em anos recentes na cidade do Rio. A começar pelo título: ao invés do atual “Dia de Pagamento”, algo mais impactante como “Terror no Alemão”. A data emblemática de 11 de setembro e sua relação com o histórico ataque às torres gêmeas em Nova York, também envolveria uma mudança de foco. Trocavam-se as milícias, os comandos das drogas e os guerrilheiros das Farc pelos mercenários do grupo terrorista al-Qaeda, cuja ramificação no Brasil estaria relacionada à compra e venda de armamentos, ao tráfico de urânio, sequestros e extorsões. A produção lembrou que o governo somente reconhecia como organizações terroristas a al- Qaeda e o Talibã. As demais - Farc, Sendero Luminoso e Hezbollah, entre outras - eram entendidas como grupos políticos.
Também seria agregada ao roteiro uma rocambolesca perseguição policial pelas ruelas da favela, incluindo os bunkers camuflados dos criminosos, as guaritas e alojamentos das tropas policiais e as estações do teleférico. Em função das mudanças, um novo personagem entraria na trama. Infiltrado na gangue, um policial da Interpol brasileira seria o olheiro dos criminosos. O agente duplo estaria observando a movimentação na rua, alertando pelo celular sobre a presença de eventuais curiosos. A imprevista chegada dos policiais e os acontecimentos seguintes provocariam um retrocesso nas investigações do órgão internacional, prestes a identificar as primeiras células terroristas nas favelas do Rio. Responsáveis pela introdução clandestina de lotes de urânio que já funcionariam como moeda forte na compra ilegal de armas, esses grupos radicais teriam instalado um poderoso aparato militar de ameaça e coerção às autoridades constituídas.
Enquanto anotava as modificações, Rogério Reis a princípio pensou em reagir e defender o texto original. Mas esse impulso durou apenas alguns segundos. Para todos os efeitos era uma história para um seriado televisivo, passível de alterações visando uma melhor comercialização no mercado exterior. A globalização e a contemporaneidade deveriam prevalecer sobre o regional no desenvolvimento do enredo, tinha alertado a produção, visto que a série já tinha sido negociada para mais de 90 países em quatro continentes.
Os demais roteiristas da equipe, já familiarizados com as sutilezas e artimanhas de textualizar histórias de olho na audiência, tiveram suas sinopses pouco modificadas. Cada uma delas a enfocar as muitas maravilhas da cidade, do Pão de Açúcar, Corcovado, Arcos da Lapa e floresta da Tijuca ao estádio do Maracanã, Ponte Rio-Niterói e favelas como a da Rocinha e do Complexo do Alemão. Cartões postais do Rio, para o bem ou para o mal, que seriam cenários de muito perigo e ação.
Ao final da reunião, Rogério se sentiu encabulado com o ambiente de camaradagem e a visão do mundo daquela rapaziada talentosa e criativa que acolhiam um sujeito retrô, pinçado no redemoinho do século 20, de uma maneira admiravelmente informal e despojada. Aos 63 anos, o jornalista chegava a sombria conclusão de que a redação de um jornal não mais correspondia ao sonho que o motivou por tanto tempo a se lançar em busca da verdade na notícia. A geração de profissionais destemidos, e de certa forma idealistas em seus propósitos, estava acabada e enterrada, pensou. O mundo havia mudado, a começar pelo clima do lado de fora da emissora refrigerada. Naquele bizarro outono de 2019, os dias se mostravam perversamente abafados, estranhamente secos e anormalmente inquietantes, varridos por ventos que uivavam ao entardecer.
Também seria agregada ao roteiro uma rocambolesca perseguição policial pelas ruelas da favela, incluindo os bunkers camuflados dos criminosos, as guaritas e alojamentos das tropas policiais e as estações do teleférico. Em função das mudanças, um novo personagem entraria na trama. Infiltrado na gangue, um policial da Interpol brasileira seria o olheiro dos criminosos. O agente duplo estaria observando a movimentação na rua, alertando pelo celular sobre a presença de eventuais curiosos. A imprevista chegada dos policiais e os acontecimentos seguintes provocariam um retrocesso nas investigações do órgão internacional, prestes a identificar as primeiras células terroristas nas favelas do Rio. Responsáveis pela introdução clandestina de lotes de urânio que já funcionariam como moeda forte na compra ilegal de armas, esses grupos radicais teriam instalado um poderoso aparato militar de ameaça e coerção às autoridades constituídas.
Enquanto anotava as modificações, Rogério Reis a princípio pensou em reagir e defender o texto original. Mas esse impulso durou apenas alguns segundos. Para todos os efeitos era uma história para um seriado televisivo, passível de alterações visando uma melhor comercialização no mercado exterior. A globalização e a contemporaneidade deveriam prevalecer sobre o regional no desenvolvimento do enredo, tinha alertado a produção, visto que a série já tinha sido negociada para mais de 90 países em quatro continentes.Os demais roteiristas da equipe, já familiarizados com as sutilezas e artimanhas de textualizar histórias de olho na audiência, tiveram suas sinopses pouco modificadas. Cada uma delas a enfocar as muitas maravilhas da cidade, do Pão de Açúcar, Corcovado, Arcos da Lapa e floresta da Tijuca ao estádio do Maracanã, Ponte Rio-Niterói e favelas como a da Rocinha e do Complexo do Alemão. Cartões postais do Rio, para o bem ou para o mal, que seriam cenários de muito perigo e ação.
Ao final da reunião, Rogério se sentiu encabulado com o ambiente de camaradagem e a visão do mundo daquela rapaziada talentosa e criativa que acolhiam um sujeito retrô, pinçado no redemoinho do século 20, de uma maneira admiravelmente informal e despojada. Aos 63 anos, o jornalista chegava a sombria conclusão de que a redação de um jornal não mais correspondia ao sonho que o motivou por tanto tempo a se lançar em busca da verdade na notícia. A geração de profissionais destemidos, e de certa forma idealistas em seus propósitos, estava acabada e enterrada, pensou. O mundo havia mudado, a começar pelo clima do lado de fora da emissora refrigerada. Naquele bizarro outono de 2019, os dias se mostravam perversamente abafados, estranhamente secos e anormalmente inquietantes, varridos por ventos que uivavam ao entardecer.
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À noite, da janela de seu quarto de celibatário, Rogério Reis admirou a paisagem que se descortinava majestosa. Aquele apartamento em Santa Teresa o tornava um homem feliz e era um dos poucos bens materiais adquiridos em mais de 35 anos de profissão. Estava animado como um adolescente com a perspectiva de trabalhar no texto e se integrar à irmandade dos jovens ficcionistas, seus irmãos de alma e imaginação.
Com cuidado abriu a caixinha de madeira que conservava no fundo de uma das gavetas do guarda-roupa e retirou o pen drive. Inseriu no computador o pequeno dispositivo de memória e novamente ficou estarrecido com a quantidade de informações sobre o esquema e o poderio dos senhores do crime envolvidos no fracassado atentado. Lá estavam citados nominalmente chefes de grupos paramilitares, contraventores, narcotraficantes, empresários, políticos, conhecidas autoridades, datas e valores das mesadas, contas de bancos, telefones, emails. A estratégia do ataque ao teleférico, detalhada nas várias etapas, diligentemente elaborada como uma operação de guerra. Um plano que não se esgotaria na primeira tentativa, ameaçava o homem de codinome Corvo. “A operação foi adiada, mas não suspensa. Atacaremos na ocasião oportuna e os comandos serão instruídos”, avisava.
Nos últimos meses, o jornalista tinha mantido segredo sobre o registro dessa operação terrorista que não se concretizou por um desses imbróglios do destino, mas que poderia ser reativada a qualquer momento. O dossiê eletrônico lhe foi entregue às escondidas no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, semanas depois de um mal explicado incêndio em uma creche, perto do complexo do Alemão. Na ocasião, quatro dos mais importantes chefes das milícias e das facções criminosas mais temidas da cidade, desde 2014 unificadas sob um comando central, foram assassinados em suas celas, dias antes da remoção para uma prisão federal em Rondônia.
Em flashback, o jornalista se vê sendo enviado pelo jornal para cobrir os assassinatos e a sangrenta rebelião que se seguiu. Sorrateiramente, um dos guardas havia lhe entregue o pen drive, logo após a entrevista coletiva do diretor do presídio. Na ocasião, descobriu que os mortos faziam parte do esquema do atentado ao teleférico e que um túnel subterrâneo tinha sido escavado a partir da creche até os pontos onde seriam colocados os explosivos. Entretanto, a inesperada presença de uma patrulha no local forçou a mudança de planos. A operação foi interrompida, os comparsas eliminados, a casa incendiada e o colombiano sobrevivente assassinado dias depois.
Se esses fatos tivessem chegado ao seu conhecimento em outros tempos, quando as editorias dos jornais eram menos dependentes dos conglomerados econômicos que as regiam e não tão acorrentadas a interesses e compromissos inconfessáveis, Rogério Reis iria adiante, buscando mais informações. Assim havia conquistado expressivos prêmios de reportagens. Contudo, o medo e a sensação de impotência o sitiavam em um penoso cárcere interior. Sentia que o mundo tinha se fragmentado em fortificados carteis manobrados por imperadores inatingíveis e insubmissos às leis vigentes. Todos conectados e interligados em organizações, grupos e facções. Mandarins de um submundo tentacular que transitava com naturalidade pelo legal e pelo ilícito, se assim os interesses ditassem. E, na maioria das vezes, a salvo da pressão das mídias e redes sociais, agora monitoradas e cerceadas por um severo código de regras e multas. Não havia mais os dois lados da moeda, admitia o jornalista, porque a percepção do mal se tornara obsoleta.
Fechando o armário, o jornalista empurra o minúsculo drive atolado de segredos para debaixo das camisas e meias. Seguiria com as suas aflições que, se por um lado o castigavam, por outro o impediam de desistir de si próprio. Todavia, entregava os pontos como profissional da notícia, admite. No contexto social e político de 2019, revelar a verdade seria como assinar a própria sentença de morte, no sentido mais implacável do vocábulo.
Com cuidado abriu a caixinha de madeira que conservava no fundo de uma das gavetas do guarda-roupa e retirou o pen drive. Inseriu no computador o pequeno dispositivo de memória e novamente ficou estarrecido com a quantidade de informações sobre o esquema e o poderio dos senhores do crime envolvidos no fracassado atentado. Lá estavam citados nominalmente chefes de grupos paramilitares, contraventores, narcotraficantes, empresários, políticos, conhecidas autoridades, datas e valores das mesadas, contas de bancos, telefones, emails. A estratégia do ataque ao teleférico, detalhada nas várias etapas, diligentemente elaborada como uma operação de guerra. Um plano que não se esgotaria na primeira tentativa, ameaçava o homem de codinome Corvo. “A operação foi adiada, mas não suspensa. Atacaremos na ocasião oportuna e os comandos serão instruídos”, avisava.
Nos últimos meses, o jornalista tinha mantido segredo sobre o registro dessa operação terrorista que não se concretizou por um desses imbróglios do destino, mas que poderia ser reativada a qualquer momento. O dossiê eletrônico lhe foi entregue às escondidas no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, semanas depois de um mal explicado incêndio em uma creche, perto do complexo do Alemão. Na ocasião, quatro dos mais importantes chefes das milícias e das facções criminosas mais temidas da cidade, desde 2014 unificadas sob um comando central, foram assassinados em suas celas, dias antes da remoção para uma prisão federal em Rondônia.
Em flashback, o jornalista se vê sendo enviado pelo jornal para cobrir os assassinatos e a sangrenta rebelião que se seguiu. Sorrateiramente, um dos guardas havia lhe entregue o pen drive, logo após a entrevista coletiva do diretor do presídio. Na ocasião, descobriu que os mortos faziam parte do esquema do atentado ao teleférico e que um túnel subterrâneo tinha sido escavado a partir da creche até os pontos onde seriam colocados os explosivos. Entretanto, a inesperada presença de uma patrulha no local forçou a mudança de planos. A operação foi interrompida, os comparsas eliminados, a casa incendiada e o colombiano sobrevivente assassinado dias depois.
Se esses fatos tivessem chegado ao seu conhecimento em outros tempos, quando as editorias dos jornais eram menos dependentes dos conglomerados econômicos que as regiam e não tão acorrentadas a interesses e compromissos inconfessáveis, Rogério Reis iria adiante, buscando mais informações. Assim havia conquistado expressivos prêmios de reportagens. Contudo, o medo e a sensação de impotência o sitiavam em um penoso cárcere interior. Sentia que o mundo tinha se fragmentado em fortificados carteis manobrados por imperadores inatingíveis e insubmissos às leis vigentes. Todos conectados e interligados em organizações, grupos e facções. Mandarins de um submundo tentacular que transitava com naturalidade pelo legal e pelo ilícito, se assim os interesses ditassem. E, na maioria das vezes, a salvo da pressão das mídias e redes sociais, agora monitoradas e cerceadas por um severo código de regras e multas. Não havia mais os dois lados da moeda, admitia o jornalista, porque a percepção do mal se tornara obsoleta.Fechando o armário, o jornalista empurra o minúsculo drive atolado de segredos para debaixo das camisas e meias. Seguiria com as suas aflições que, se por um lado o castigavam, por outro o impediam de desistir de si próprio. Todavia, entregava os pontos como profissional da notícia, admite. No contexto social e político de 2019, revelar a verdade seria como assinar a própria sentença de morte, no sentido mais implacável do vocábulo.
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Animado com o novo trabalho, Rogério Reis entra pela madrugada reescrevendo a sinopse. Só percebe que o quarto ganha novos contornos de luz quando ouve o baque do jornal de encontro à porta. Vai até a geladeira e sorve alguns goles de mate pelo gargalo da garrafa. Com o jornal nas mãos, um título discreto no canto esquerdo da primeira página chama a sua atenção: “Polícia suspeita que al-Qaeda já atua nas favelas cariocas”. Por instantes se vê perdido entre as dobras do sonho, os sentidos anestesiados pelo cansaço. Tinha adormecido em frente à tela do computador e precisava acordar para concluir o enredo, pensa confuso. Mas o espelho da sala reflete a imagem real de um homem insone, com os cabelos desgrenhados e barba por fazer.
Exausto, ele desaba na cadeira. Conhecia o ardiloso estratagema da mídia de veicular fatos com lógicas distorcidas e deslocar a verdade para além dos interesses intocáveis. Contudo, essa notícia bem podia ser o prenúncio de uma desconhecida e perigosa realidade a ser experimentada com a politização dos grupos criminosos. As guerras civis no mundo árabe e a crise econômica na Europa que desandou em movimentos contrários a entrada de estrangeiros, lá pelos idos de 2011, tinham empurrado famílias inteiras desses países em conflito para a América do Sul. As favelas do Rio, com as casinholas postas à venda pelos antigos moradores, incapazes de arcar com os custos cada vez maiores dos serviços de urbanização, foram tomadas por legiões de imigrantes, principalmente depois das novas leis de imigração garantindo acolhida e emprego no país. E sucursais de grupos terroristas como o Talibã e a al-Qaeda poderiam estar fincado raízes nesses redutos politizados e radicais.
Sob a ducha gelada o jornalista bufa e solta impropérios, os músculos retesados pela friagem. Veste as surradas calças de brim, a camiseta branca de algodão, procura as sandálias de velcro embaixo da cama e aos poucos recupera a sanidade. Com os cabelos ainda molhados e a sinopse na mochila, ele sai do apartamento e vai ao encontro dos produtores.
A conversa e os ajustes se estendem por três horas, findos os quais o argumento é finalmente aprovado. Seus nervos relaxam e o jornalista pressente que “Missão Rio”, o seriado, está fadado ao sucesso. Exultante, entra no bar e pede pão na chapa com café pingado. Tem duas semanas para costurar o enredo e desenvolver os diálogos. Mestre do jornalismo investigativo, Rogério Reis está determinado a afastar as brumas da apatia e da indiferença que obscureceram seus últimos anos como repórter e professor de jornalismo. Lamentava, nos longos domingos solitários, sua crescente incapacidade de incutir entusiasmo naqueles jovens universitários que sonhavam com uma profissão em que a busca da verdade era a força motriz de toda a sua atividade.
Desfazendo-se das roupas, completamente nu, Rogério Reis senta-se à frente do computador. Por alguns segundos mantém a cabeça baixa, imóvel. Impulsivamente retira os óculos. Precisa de uma grande dose de inspiração e paixão para recriar a realidade de uma forma que não seja superficial e vã. Na adaptação acordada com a produção, a heroína terá de enfrentar novos vilões. Sorri interiormente ao imaginar dona Nenê passando por todas aquelas peripécias. A homenagem tardia a única pessoa que o amou sem reservas e cobranças. Ele, o caçula rebelde de dona Edite.
De repente dá um murro na mesa, como quisesse se apartar do sentimento de perda que sempre o acomete quando seus pensamentos se remetem à mãe, aquela figura pequena e de pouca fala que o acompanhou por quatro décadas. Recoloca os óculos, respira fundo e se lança ao texto. Sente-se estranhamento leve, talvez porque liberto das pesadas amarras morais que a verdade impõe. Mas, nem por isso frívolo o bastante para não reconhecer que apesar da verdade cobrar um preço demasiado caro, neste imponderável ano de 2019, o tempo, a história e a experiência ensinam, de maneira incontestável, que segredos não são eternos.
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De costas para a plateia, o personagem de Rogério Reis mostra-se empenhado em vencer mais esse desafio. Lentamente a câmara se afasta do homem que dedilha o teclado do computador e se desloca para a janela aberta, avançando em um sobrevôo fantástico pelas paisagens de cartão-postal da cidade do Rio. Os acordes atrevidos de uma melodia rapper invadem a sala de exibição. Na tela surge o letreiro THE END e um curto aviso: “Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência.”
As luzes são acesas e as pessoas se levantam das poltronas ainda tontas pela escuridão da sala. Ordenadamente saem do cinema para a algazarra dos corredores do shopping, deixando para trás sacos vazios de pipoca e copos de papel com restos de refrigerante. É noite de sexta-feira e filas se formam nas praças de alimentação.
*** Pinturas do artista novaiorquino Marcus Jansen
Exausto, ele desaba na cadeira. Conhecia o ardiloso estratagema da mídia de veicular fatos com lógicas distorcidas e deslocar a verdade para além dos interesses intocáveis. Contudo, essa notícia bem podia ser o prenúncio de uma desconhecida e perigosa realidade a ser experimentada com a politização dos grupos criminosos. As guerras civis no mundo árabe e a crise econômica na Europa que desandou em movimentos contrários a entrada de estrangeiros, lá pelos idos de 2011, tinham empurrado famílias inteiras desses países em conflito para a América do Sul. As favelas do Rio, com as casinholas postas à venda pelos antigos moradores, incapazes de arcar com os custos cada vez maiores dos serviços de urbanização, foram tomadas por legiões de imigrantes, principalmente depois das novas leis de imigração garantindo acolhida e emprego no país. E sucursais de grupos terroristas como o Talibã e a al-Qaeda poderiam estar fincado raízes nesses redutos politizados e radicais.
Sob a ducha gelada o jornalista bufa e solta impropérios, os músculos retesados pela friagem. Veste as surradas calças de brim, a camiseta branca de algodão, procura as sandálias de velcro embaixo da cama e aos poucos recupera a sanidade. Com os cabelos ainda molhados e a sinopse na mochila, ele sai do apartamento e vai ao encontro dos produtores.
A conversa e os ajustes se estendem por três horas, findos os quais o argumento é finalmente aprovado. Seus nervos relaxam e o jornalista pressente que “Missão Rio”, o seriado, está fadado ao sucesso. Exultante, entra no bar e pede pão na chapa com café pingado. Tem duas semanas para costurar o enredo e desenvolver os diálogos. Mestre do jornalismo investigativo, Rogério Reis está determinado a afastar as brumas da apatia e da indiferença que obscureceram seus últimos anos como repórter e professor de jornalismo. Lamentava, nos longos domingos solitários, sua crescente incapacidade de incutir entusiasmo naqueles jovens universitários que sonhavam com uma profissão em que a busca da verdade era a força motriz de toda a sua atividade.
Desfazendo-se das roupas, completamente nu, Rogério Reis senta-se à frente do computador. Por alguns segundos mantém a cabeça baixa, imóvel. Impulsivamente retira os óculos. Precisa de uma grande dose de inspiração e paixão para recriar a realidade de uma forma que não seja superficial e vã. Na adaptação acordada com a produção, a heroína terá de enfrentar novos vilões. Sorri interiormente ao imaginar dona Nenê passando por todas aquelas peripécias. A homenagem tardia a única pessoa que o amou sem reservas e cobranças. Ele, o caçula rebelde de dona Edite.
De repente dá um murro na mesa, como quisesse se apartar do sentimento de perda que sempre o acomete quando seus pensamentos se remetem à mãe, aquela figura pequena e de pouca fala que o acompanhou por quatro décadas. Recoloca os óculos, respira fundo e se lança ao texto. Sente-se estranhamento leve, talvez porque liberto das pesadas amarras morais que a verdade impõe. Mas, nem por isso frívolo o bastante para não reconhecer que apesar da verdade cobrar um preço demasiado caro, neste imponderável ano de 2019, o tempo, a história e a experiência ensinam, de maneira incontestável, que segredos não são eternos.
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De costas para a plateia, o personagem de Rogério Reis mostra-se empenhado em vencer mais esse desafio. Lentamente a câmara se afasta do homem que dedilha o teclado do computador e se desloca para a janela aberta, avançando em um sobrevôo fantástico pelas paisagens de cartão-postal da cidade do Rio. Os acordes atrevidos de uma melodia rapper invadem a sala de exibição. Na tela surge o letreiro THE END e um curto aviso: “Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência.”
As luzes são acesas e as pessoas se levantam das poltronas ainda tontas pela escuridão da sala. Ordenadamente saem do cinema para a algazarra dos corredores do shopping, deixando para trás sacos vazios de pipoca e copos de papel com restos de refrigerante. É noite de sexta-feira e filas se formam nas praças de alimentação.
*** Pinturas do artista novaiorquino Marcus Jansen


























