/ Sheila Sacks /
Com mais de 27 toneladas de cocaína apreendidas em 2019, o maior complexo portuário da América Latina, situado no litoral paulista, viu a quantidade da droga confiscada se reduzir radicalmente nos anos seguintes, baixando para 7,4 toneladas em 2025. No entanto, carregamentos de cocaína continuavam a ser apreendidos nos portos europeus apesar da vigilância e rastreamento dos contêineres nos terminais de carga de Santos.
Reportagem da Insight Crime – uma instituição de jornalismo investigativo, sediada em Washington, com foco nas organizações criminosas da América Latina – revelou que agentes federais, reforçando o monitoramento e analisando novas informações, descobriram que integrantes da organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) tinham se infiltrado nas comunidades que se encontram às margens do cais e através delas carregavam toneladas de cocaína para os enormes navios cargueiros na entrada do canal.
Constataram também uma mudança na rota tradicional e a utilização do continente africano como destino final temporário de onde posteriormente despachavam os carregamentos rumo à Europa para as quadrilhas internacionais realizarem a distribuição da droga ('Is Brazil’s Biggest Port Winning the Fight Against Drug Traffickers?', em 2/3/2026).
A diversificação das rotas pôde ser constatada
essa semana (6/7/2026) com a apreensão pela Polícia Federal de 437 quilos de
cocaína no Porto de Santos. A droga estava escondida em uma carga de sucata de
ferro com destino aos Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio e foi interceptada
pela Receita Federal durante inspeção aduaneira.
Quatro anos antes, em 2022, o mesmo Insight Crime apontava o porto de Santos como “ponto crucial para o comércio global de cocaína”. Na ocasião, o jornalista investigativo Chris Dalby, fundador da plataforma World of Crime e autor de livros sobre os cartéis do México e da Venezuela, revelou a apreensão de perto de duas toneladas de cocaína em um único dia em carregamentos que sairiam de Santos em direção à Europa.
A informação teve como base o portal de notícias em espanhol defensa.com, especializado em temas das áreas militar, de defesa e segurança. Foram descobertos 265 quilos da droga escondidos em uma carga de café que seguiria para o porto de Le Havre (França); mais 730 quilos da droga em um container carregado de suco de laranja com destino à Valência (Espanha); e mais 504 quilos de cocaína em uma carga de açúcar que seguiria para Gana (‘How Brazil’s Port of Santos Became Cocaine’s World Trade Center’, em 13/1/2022).
O autor explica na reportagem que a ascensão do porto de Santos como “importante ponto de saída internacional de cocaína” teve como fator primordial a expansão da facção criminosa PCC que “ampliou seus tentáculos de tráfico de drogas por toda a região, concentrando-se principalmente no Paraguai e na Bolívia”.
Dessa forma, a droga produzida na Bolívia é transportada através do Paraguai e do território brasileiro até Santos, sob o controle de integrantes do PCC que domina todo o fluxo de cocaína nos países vizinhos.
Segundo Dalby, a principal parceira do PCC na Europa é a 'Ndrangheta, a máfia italiana da região sul da Calábria. Citando dados da Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), o jornalista escreve que essa organização criminosa permitiu que a cocaína que saísse de Santo entrasse na Europa pelos portos de Roterdã e Antuérpia, sendo posteriormente distribuída às máfias russa, dos Bálcãs e marroquinas.
“A 'Ndrangheta também ajudou a estabelecer acordos de tráfico de drogas entre o PCC e grupos criminosos na África Ocidental, que ficavam com parte da cocaína em troca de auxílio no transporte de grandes quantidades para a Europa”.
Outros intermediários internacionais lembrados por Dalby também incluiriam as máfias sérvias, de acordo com relatório da Europol (European Union Agency for Law Enforcement Cooperation), de 2019, e o cartel irlandês comandado pelo “ narcotraficante mais notório do país, Daniel Kinahan,”, dono de terras e negócios no Brasil (The Irish Sun, em 8/10/2020).
Recentemente foi noticiado que um ex- funcionário do porto de Santos foi condenado pela justiça brasileira a onze anos de prisão por burlar a fiscalização e permitir o envio de 416 quilos de cocaína para a Suíça escondidos em sacas de café (‘Chefe de terminal facilitou envio de 416 kg de cocaína para a Suíça’, no Metrópoles, em 30/6/2026).
O episódio aconteceu em 2022 e a denúncia partiu das autoridades suíças que identificaram a carga como provinda do porto de Santos e encaminharam a informação à Polícia Federal (PF). Apesar da justificativa do réu que alegou ter sido ameaçado por dois indivíduos, com os desconhecidos de posse de fotos de sua esposa e filho, e que foi coagido a facilitar a remessa da droga no contêiner, ele foi o único condenado.
Na sentença, de acordo com o Metrópoles, foi ressaltado que o crime foi cometido com o auxílio de outras pessoas, mas os suspeitos não foram identificados pela investigação. ”Esses indivíduos teriam sido os responsáveis por recrutar Diogo (o réu), fornecer o celular para comunicação e realizar a contaminação física do contêiner com a droga no galpão.”
Em 2025, o Porto de Santos registrou a maior movimentação de cargas de sua história: 186,4 milhões de toneladas, um crescimento de 3,6% em relação a 2024, quando havia alcançado 179,8 milhões. Foram 137,4 milhões de toneladas exportadas e 49 milhões importadas em 5,9 milhões de contêineres padrão. Esse volume representa 30% de toda corrente comercial do país (‘Porto de Santos bate novo recorde em 2025 e amplia participação no comércio exterior’, no G1, em 18/1/2026).


