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terça-feira, 26 de abril de 2022

Perto da natureza: parques nacionais atraem 17 milhões de visitantes

 / Sheila Sacks /



O ecoturismo cresceu no país no ano passado superando o período de antes da pandemia que teve o seu pico, em 2019, quando 15,3 milhões de turistas visitaram unidades nacionais de conservação. Em 2021, esse número aumentou para 17 milhões. Os dados são do Ministério do Turismo.

O Parque Nacional da Tijuca, no Rio, foi a segunda área ambiental mais procurada, com 1,7 milhão de turistas, seguido pelo Parque Nacional de Jericoacoara (Ceará), com 1,6 milhão. Já a campeã de visitas foi a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca, no litoral sul de Santa Catarina, que tem 130 km de costa marítima e abrange nove municípios. Os visitantes somaram 7 milhões, um recorde. O local leva esse nome porque a baleia franca, em sua rota migratória, passa pela região entre os meses de junho e novembro.



Entre os dez parques mais visitados contam ainda o Parque Nacional da Serra da Bocaina, entre as divisas de Rio e São Paulo; o Parque Nacional do Iguaçu, no extremo oeste do Paraná; a Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio; e a Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha, arquipélago a 350 km da costa nordeste do país.

Geoparques



A novidade em 2022 é que desde 21 de abril o Brasil passa a contar com três geoparques reconhecidos pela Unesco (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. São eles: Caminhos dos Cânions do Sul - que atravessa os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul; Seridó, no Rio Grande do Norte (ambos aceitos este ano); e Araripe, no Ceará, este último o primeiro parque geológico das Américas aprovado pela Unesco, em 2006.

Os geoparque são áreas de relevância geológica reconhecidos internacionalmente, testemunhas importantes da evolução do planeta Terra. Com essa visão, a Unesco criou, em 2004, a Global Geoparks Network (GGN), uma rede internacional que hoje reúne 177 geoparques de 46 países formando um patrimônio geológico único em matéria de beleza, história e administração sustentável.



No caso dos geoparques Caminhos dos Cânions do Sul e Seridó, a decisão foi anunciada em 13 de abril, em Paris, na 214ª sessão do Conselho Executivo do órgão, e oficializada dia 21. Para a Unesco, os geoparques são os “territórios do futuro” porque geram oportunidades de renda e melhorias  nas comunidades.

Características



O geoparque sulista se caracteriza pelo bioma da Mata Atlântica, um dos ecossistemas mais ricos do planeta em termos de biodiversidade. Também apresenta grandes paleotocas (cavidades subterrâneas) do período pré-colombiano quem eram utilizadas por mega-animas já extintos como a preguiça gigante. Tem rios, dunas, lagos, cachoeiras, praias, trilhas, pousadas e toda a infraestrutura para atender o ecoturismo. A gralha azul é um dos símbolos da região.

Mas, o que mais impressiona, de acordo com a Unesco, são os cânions, os maiores da América Latina, que se estendem por 200 quilômetros. As escarpas foram formadas por processos geomorfológicos únicos durante a dissolução do supercontinente Gondwana, há cerca de 180 milhões de anos. Pesquisas geológicas postulam que Gondwana ( referência a uma região na Índia) foi um supercontinente que existiu há mais de 2oo milhões de anos antes de se dividir no que hoje são os continentes ou subcontinentes da África, América do Sul, Antártida, Índia e Austrália.



O Geoparque de Seridó fica no semiárido nordestino, tem 2.800 km2 e é composto por um bioma exclusivamente brasileiro: a Caatinga. Abriga 21 geossítios de interesse geomorfológico, paleontológico e arqueológico de mais de 500 milhões de anos e possui uma das maiores reservas de scheelita da América do Sul, um mineral estratégico usado em equipamentos de raio-x, motores de foguetes, revestimentos de mísseis etc.

O de Araripe, que se estende por uma área de 3.789 km2, é uma região importante para o registro geológico do período Cretáceo (entre 150 e 90 milhões de anos), com geossítios preservados de fragmentos de troncos e fósseis petrificados de aproximadamente 145 milhões de anos. Como, por exemplo, restos de pterossauros (variedade de réptil voador), dinossauros, tartarugas, peixes e vegetais.



O Brasil é o segundo país das Américas, depois do Canadá, a ter o maior número de geoparques internacionais. A China lidera o ranking global da Unesco, com 41 geoparques, seguida pela Espanha, com 15.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Covid-19 projeta um futuro de incertezas

  / Sheila Sacks /



Reportagem da agência britânica Reuters publicada em 7/2/2022 alerta para a situação mundial em relação à Covid-19. Sob o título Afrouxar restrições em regiões de Covid-Zero pode causar 2 milhões de mortes por ano ( em tradução livre do inglês), o correspondente em Xangai,  David Stanway, revela estudo produzido por cientistas chineses que aconselham o país a manter as restrições em relação à mobilidade das pessoas no sentido de conter o número de mortes pelos vírus.

Segundo os pesquisadores, especialistas em saúde pública, é necessário continuar com controles rígidos nos deslocamentos e aglomerações para impedir a propagação da variante Ômicron, mais infecciosa, concomitante ao empenho de desenvolver vacinas melhores para a prevenção de infecções.

Vacinas mais eficazes

A pesquisa reforça o entendimento de que a abolição de medidas isolacionistas poderia gerar milhões de mortes. A tese se baseia em estudos, gráficos e dados colhidos no Chile e na Grã-Bretanha quanto à eficácia inicial das vacinas usadas nos dois países: a CoronaVac, no Chile, e a Pfizer e Oxford/AstraZeneca, na Grã-Bretanha.

No início de fevereiro, em meio a recordes diários de mais de 30 mil casos diários, o Chile iniciou a quarta dose da vacina contra a Covid-19 para pessoas com mais de 55 anos. Cerca de 73% da população já está vacinada com as três doses. Em meados de 2020, o país conviveu por cinco meses com um plano rígido de isolamento social que fez despencar os casos do vírus, mas a partir da flexibilização viu o número de casos explodir.

O estudo dos cientistas chineses foi publicado no Boletim semanal do Centro de Controle e Prevenção de doenças da China (CCDC), uma estatal que cuida da gestão da saúde pública no país. Segundo a conclusão dos pesquisadores, a eficácia inicial das vacinas contra mortes provocadas pela Covid-19 foi de 86%; de 68% contra a doença sintomática e de apenas 30% em relação à infecção.

Assim, ainda que a taxa global de vacinação possa alcançar 95%, regiões como a China, que seguem o programa Covid-Zero, teriam mais de 234 milhões de infecções em um ano, incluindo 64 milhões de casos sintomáticos e 2 milhões de mortes. Isso se a mobilidade das populações fosse restaurada a níveis de 2019, antes da pandemia.

O estudo aponta que para reduzir a incidência da Covid-19 aos níveis de gripe, a eficácia das vacinas contra a infecção precisa ser aumentada de 30%  para 40%. Contra a doença sintomática a percentagem da eficácia subiria para o patamar de 90%. Os chineses afirmam que a chave para o controle da Covid-19 está no desenvolvimento de vacinas mais eficazes na prevenção das infecções.

O epidemiologista-chefe do CCDC, Wu Zunyou, advoga medidas abrangentes para controlar o coronavírus. “Antes pensávamos que a Covid-19 podia ser basicamente contida por meio de vacinas, mas agora parece que não há um método simples de controle”, avalia. A China é a única grande economia do planeta que prossegue na estratégia da Covid-Zero, monitorando com rigor os casos da doença, isolando cidades e populações. Na Nova Zelândia, apesar de alguns protestos, o governo também segue impondo medidas restritivas, e a Austrália Ocidental permanece fechada para a maioria dos não residentes.

Tragédia da Ômicron

Um dia depois da reportagem da Reuters, a Organização  Mundial de Saúde  (OMS) lamentou publicamente o meio milhão de mortes provocada pela variante Ômicron, desde que foi detectada,  no final de novembro de 2021, há quase três meses. Cento e trinta milhões de pessoas já foram infectadas e segundo a epidemiologista da OMS, Maria Van Kerkhove,  o número pode ser bem maior. “Ainda estamos no meio dessa pandemia e muitos países não alcançaram o pico da Ômicron”, disse.

Em sua atualização semanal, a OMS informou que  a Europa deteve 58% dos novos casos confirmados,  na primeira semana de fevereiro, e 35% das mortes registradas. O continente americano representou 23% dos novos casos e 44% das mortes.

“Em tempos de uma vacina eficaz, meio milhão de pessoas morrendo é mais do que trágico”, desabafou  Abdi Mahamud, gerente de incidentes da OMS. “Enquanto todos diziam que a Ômicron é mais leve, não percebiam que meio milhão de pessoas morria desde que a variante foi descoberta.”

Novas variantes



Para piorar a situação, a descoberta da variante Ômicron em cervos de cauda branca, no condado de Staten Island, em Nova York, desperta mais uma preocupação nos cientistas. A hipótese de que os animais (30 milhões nos Estados Unidos) possam ser hospedeiros dessa cepa de vírus aumenta a probabilidade de o vírus evoluir para novas variantes.

O microbiologista veterinário Suresh Kuchipudi, da Universidade Estadual da Pensilvânia, explica que quando há circulação do vírus em animais sempre aumenta a possibilidade de o vírus sofrer uma mutação completa e escapar da atual proteção vacinal. “Então teríamos de mudar a vacina novamente”, afirma.

Análises de amostras de sangue e nasais em 131 cervos revelaram que quase 15% tinham anticorpos contra o vírus. A descoberta sugere que os animais tiveram infecções anteriores por coronavírus e eram vulneráveis a repetidas reinfecções com novas variantes.

Convivendo com a pandemia

Em recente entrevista publicada no site da organização holandesa Cordaid, de ajuda humanitária global,  o vice-presidente da Coalizão para Inovações e Prevenção de Epidemias (CEPI, na sigla em inglês), Frederik Kristensen, faz um alerta: “É 100% certo que as pandemias farão parte do nosso futuro. As incertezas são: quando, com que frequência e com que gravidade.”

Ele avalia que devido ao aumento da densidade populacional, às mudanças ambientais e a nossa crescente capacidade de viajar pelo mundo, as pandemias voltarão a acontecer, e, portanto, é preciso desenvolver novas vacinas. A prioridade deve ser desenvolver uma vacina Covid-19 à prova de variantes e preparar vacinas contra duas dezenas de doenças com potencial epidêmico. 

Apesar de mais de dois anos de combate à Covid-19, Kristensen é cético em relação ao enfrentamento de possíveis novas epidemias: “O mundo está extremamente despreparado para enfrentar qualquer tipo de doença com potencial epidêmico”, declara.

Aqui no Brasil, 1.295 mortes em um único dia marcaram sinistramente a data de 9 de fevereiro de 2022. Foi o maior número de óbitos causado pela Covid-19, desde 29 de julho do ano passado, quando foram registradas 1.354 mortes. 

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Surtos e recuos (atualização em 7/3)

No início de março, a Organização Mundial de Saúde informou que na última semana de fevereiro foram relatados 10 milhões de novos casos e mais de 60 mil mortes provocadas pelo coronovírus. Apesar de uma redução de 8% na média de casos no continente das Américas, houve um aumento de 22% na região do Pacífico Ocidental (Austrália, entre outros, que reabriu as fronteiras) e de 4% na região do Mediterrâneo Oriental que engloba a Grécia e o Egito.  Na cidade de Hong Kong, depois de dois anos de controle rígido da pandemia (somente 12 mil casos registrados), a região vive um surto avassalador de Covid-19, com 200 mil casos nos últimos dois meses.

Com a flexibilização das medidas restritivas em vários países, inclusive no Brasil, o estudo de novas vacinas e medicamentos, e a suplementação das doses de reforços, é preciso acompanhar o comportamento viral da variante Ômicron ou das novas variantes que possam surgir. O virologista Jesse Bloom, especialista em evolução de vírus do Centro de Pesquisas Fred Hutch, em Seattle (Washington), falou à revista Nature, há poucos dias, sobre os dois cenários prováveis no futuro acerca da doença.

No primeiro, a Ômicron continuaria a evoluir, criando algum tipo de variante como Ômicron-plus, pior que as sub-linhagens BA.1 ( que responde para a maioria dos casos) e BA.2, dominante em países como Índia, Filipinas e Dinamarca. A segunda possibilidade seria o aparecimento de uma nova variante, como aconteceu com a Delta, Alpha e a Ômicron.

O fato é que a medida que entramos no terceiro ano da pandemia, oscilando entre surtos e recuos, muitos especialistas preferem a cautela e uma abordagem menos incisiva diante do explícito cansaço emocional das sociedades em relação à doença e a notória aspiração coletiva de um retorno gradual ao velho normal de antes da hecatombe de 2019.

 


 

 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Holocausto, antissemitismo e inveja

 / Sheila Sacks / 



Há poucos dias, em 22 de janeiro, manchete do jornal Jerusalem Post anunciava que 2021 foi o ano mais antissemita da última década – “2021 was the most antisemitic year in the last decade”. Uma notícia dada às vésperas do Dia Internacional do Holocausto, celebrado anualmente em 27 de janeiro, e que reforça, ainda mais, o compromisso de todo o cidadão de bem de enfrentar e combater essa terrível chaga que ainda conspurca nossas sociedades.

Com base no relatório anual publicado pela Organização Sionista Mundial (World Zionist Organization) e a Agência Judaica(Jewish Agency), o jornal israelense destaca que os principais incidentes foram pichações, vandalismo, profanações e principalmente propaganda antissemita.

Em maio, de acordo com o jornal, foi o mês onde ocorreram muitas situações de tensão, com eventos de aglomerações e incitamento contra os judeus do tipo Nakba Day, Jerusalém Day e Al-Quds Day. Também houve um acirramento na escalada de violência provocado pela disputa judicial envolvendo palestinos em Sheikh Jarrah, além dos inúmeros tumultos judaico-árabes nas cidades mistas de Israel.

A Operação Guardiões dos Muros (Operation Guardian of the Walls) que combateu terroristas do Hamas e a Jihad palestina, em Gaza, igualmente causou reações antissemitas ao redor do mundo. Iniciada em 10 de maio, destruiu 100 quilômetros de túneis subterrâneos lotados de munição.  De Gaza, os terroristas lançaram mais de 4 mil foguetes contra cidades israelenses e civis, sendo que 90% deles foram interceptados pela sistema de defesa aérea do país.

Foi observado que a cada manifestação de grupos contrários a Israel e eventos de confronto entre israelenses e palestinos, houve um aumento expressivo de incidentes antissemitas em vários locais do planeta.

Pandemia e Holocausto

Em relação à pandemia de Covid 19, que se estendeu por todo ano de 2021, um fenômeno preocupante foi observado no relatório: manifestações em várias cidades da Europa comparando a vacinação obrigatória às políticas da Alemanha nazista durante o Holocausto. Nesses protestos muitas pessoas ostentaram estrelas amarelas para destacar a suposta comparação.

De acordo com o relatório, o uso desses símbolos cria um enfoque inquietante já sentido em várias ocasiões. A chamada “banalização do Holocausto”, ou a banalização do mal, cujo objetivo principal é apequenar as dimensões trágicas e a singularidade daquele que foi o maior e o mais horrendo massacre humano do século. Portador de uma importância histórica sem precedentes na cultura moderna.

A Europa continua sendo o continente onde ocorre grande parte dos eventos antissemitas, seguido pelos Estados Unidos, com 30% dos incidentes. Houve aumento significativo de antissemitismo no Canadá e na Austrália. Em Nova York duplicou os casos, totalizando 503 incidentes em 2021, assim como em Los Angeles, que viu subir em 59% a incidência desse tipo de preconceito.

Alemanha, com 1.850 incidentes, Reino Unido (1.308), França (583, um aumento de 75% em relação a 2020) e Áustria foram os países com mais casos de antissemitismo, inclusive envolvendo agressões físicas. 

O poder maligno da inveja



Coincidentemente, no início de janeiro, o site do rabino Sir Jonathan Sacks (1948-2020) republicou uma prédica intitulada “A estrutura de uma boa sociedade” - The Structure of the Good Society.

No texto, o rabino, nascido em Londres e agraciado com o título de Lord pela rainha Elizabeth II, analisa os comandos dos “Dez Mandamentos” outorgados a Moisés no Monte Sinai. Ele explica que a Torá os chama de  asseret ha-devarim , isto é, “dez enunciados”. Daí a tradução grega, Decálogo, que significa “dez palavras”.

Em sua explanação, os comandos estariam estruturados em três grupos de três, com um décimo separado dos demais. No terceiro grupo de três comandos – contra o adultério, o roubo e o falso testemunho – são estabelecidas as instituições básicas que sustentam a sociedade. Mas, o tópico que merece maior reflexão é sua abordagem sobre a proibição autônoma que envolve a inveja: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, e seu servo, e sua serva, e seu boi, e seu asno, e tudo que seja teu próximo.”

Para o rabino Sacks, o maior desafio de qualquer sociedade é conter o fenômeno universal e inevitável da inveja, o desejo de ter o que pertence a outra pessoa. E ele lembra: “ Foi a inveja que levou Caim a assassinar Abel, fez Abraão e Isaac temerem por suas vidas porque eram casados com belas mulheres, levou os irmãos de José a odiá-lo e vendê-lo como escravo. É a inveja que leva ao adultério, ao roubo e ao falso testemunho.”

E prossegue: “Cada um de nós tem sua própria tarefa e suas próprias bênçãos, e cada um de nós é amado e estimado por Deus. Viva por essas verdades e haverá ordem. Abandone-os e haverá caos. Nada é mais inútil e destrutivo do que deixar a felicidade de outra pessoa diminuir a sua, que é o que a inveja faz. O antídoto para a inveja é, como bem disse Ben Zoma,  - regozijar-se com o que temos (Mishná Avot 4:1 ) - e não se preocupar com o que ainda não temos. As sociedades de consumo são construídas sobre a criação e intensificação da inveja, razão pela qual levam as pessoas a ter mais e desfrutar menos.”

Ao finalizar o texto, o rabino Sacks oferece aos leitores uma orientação espiritual descomplicada e ao alcance de todos. Diz ele: Trinta e três séculos depois de terem sido dados pela primeira vez, os Dez Mandamentos continuam sendo o guia mais simples e curto para a criação e manutenção de uma boa sociedade. Muitas alternativas foram tentadas, e a maioria terminou em lágrimas. O sábio aforismo permanece verdadeiro: quando tudo mais falhar, leia as instruções, conclui.

Nada mais adequado para a celebração deste 27 de janeiro de 2022, data que marca a libertação do campo da morte Auschwitz-Birkenau, há exatos 77 anos. Que as Dez Instruções iluminem as sociedades, os governos e todos aqueles que têm a responsabilidade pública de zelar pelos valores morais e manter as instituições livres e justas no respeito e defesa da liberdade de cada um.

Holocausto, Nunca Mais !


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

De engenharia, trabalho e gente

/  Sheila Sacks / 



Poucos lembram, talvez porque a grande mídia não deu atenção ou repercussão ao fato. Pesquisando no Google, apenas algumas páginas específicas reportam o evento. No entanto, há mais de uma década, em dezembro de 2008, o Brasil sediou o maior encontro da engenharia mundial, a WEC 2008 (World Engineers Convention), que pela primeira vez tinha como base o continente americano. Isso por conta principalmente das obras do PAC -  o Programa de Aceleração do Crescimento, instituído em 2007 - que realizou, em um período de cinco anos, mais de 40 mil obras nas áreas da construção civil e infraestrutura em todo o território nacional. Foi o terceiro congresso da entidade, promovido anteriormente na Alemanha e na China. 

À época, a convenção reuniu, em Brasília, mais de 5 mil profissionais da construção civil de 39 países, empresários e autoridades públicas ligados ao setor. Sob o tema “Engenharia: Inovações com Responsabilidade Social”, os debates foram norteados pelas discussões sobre meio ambiente, mudanças climáticas e engenharia sustentável, com ramificações envolvendo a responsabilidade social, a ética, a inclusão e a inovação sem degradação ambiental.

Na Declaração de Brasília, emitida ao final do encontro, os participantes enfatizaram o papel da engenharia como motor da inovação tecnológica e sua vital importância no desenvolvimento humano, social e econômico sustentável. Uma engenharia voltada para o cidadão, no sentido de tornar as cidades mais justas e interativas e menos excludentes. Uma missão a quem cabe, de forma prioritária, à engenharia pública em seus projetos e execução de moradias populares, infraestrutura, urbanização e saneamento, construção e conservação de unidades públicas de ensino, saúde, segurança, cultura e lazer, entre outros exemplos de serviços voltados para o bem estar das sociedades.

 Mundo sustentável

Ocorrendo a cada quatro anos, a última edição da WEC, na Austrália, em 2019, manteve seu foco na sustentabilidade e na responsabilidade social (cidades sustentáveis), incorporando ao tema -  “Projetando um mundo sustentável: os próximos 100 anos” - as preocupações com as mudanças climáticas e os desafios na gestão de tecnologia de energias renováveis, objetivos alinhados com a agenda global da ONU para o desenvolvimento sustentável da década 2020-2030 (17 Goals to Transform Our World).

Segundo esse organismo mundial, até 2030 cerca de 60% da população do planeta (5 bilhões) estará vivendo nas cidades. Nesse quadro que se visualiza, uma das 17 metas a serem atingidas diz respeito ao desenvolvimento de cidades sustentáveis, inclusivas e seguras, com uma infraestrutura adequada em relação a itens fundamentais como coleta de lixo e redes de água, esgoto, energia, transporte etc. Hoje, as cidades ocupam apenas 3% das terras de nosso globo terrestre, porém são responsáveis por 60 a 80% do consumo de energia e 75% das emissões de carbono. São 3,5 bilhões de citadinos, sendo que mais de 820 milhões morando em favelas e locais insalubres. 

Em 2023, a 7ª edição da WEC será na cidade de Praga, na República Tcheca, com o tema "Engenharia para a Vida", uma abordagem sobre os desafios da tecnologia para o desenvolvimento sustentável da civilização.

 Gerenciando obras e expectativas




 Responsável pelo emprego direto de 2,4 milhões de brasileiros, em 2021, a Construção Civil, entendida em sua forma tradicional, costumeiramente atrai abordagens tecnológicas associadas às inovações e ao aperfeiçoamento de itens técnicos tendo em vista a própria natureza científica e matemática do serviço e a formação específica e especializada de seus profissionais. No campo do trabalho aplicado, a prioridade está centrada na escolha dos materiais, equipamentos e maquinário a serem utilizados nas edificações e que devem, virtuosamente, se conjugarem com a qualidade e a funcionalidade desejáveis, adequando-se ainda a uma planilha de custos e prazos previamente calculada. A meta final é a entrega da obra de acordo com o planejamento e a expectativa iniciais, fatores que se preservados até o concluir dos serviços vão garantir o sucesso da empreitada em termos técnicos e contratuais.

Diferentemente ao que ocorre nos projetos endereçados à área privada, focados preferencialmente na responsabilidade técnica do gestor, as obras no setor público incorporam a variante do compromisso socioeconômico da cidadania, um valor já percebido e cobrado pelas comunidades envolvidas. Se em tempos passados o responsável por uma obra de edificação pública tinha como única preocupação cumprir minimamente os requisitos técnicos e burocráticos que acompanham esse tipo de trabalho, alijando-se de qualquer ação participativa que pudesse ser interpretada como um comprometimento sociopolítico, hoje essa visão de gestor público está superada face à percepção de que atender bem o propósito coletivo é atribuição básica de uma empresa que gerencia obras com recursos governamentais.

Novos padrões

Essa mudança de ótica nas instituições públicas tem ocorrido sob a égide dos núcleos governamentais que atuam nas diversas esferas do poder público - federal, estadual e municipal – promovendo as boas práticas de gestão e  introduzindo modelos contemporâneos de administração que insiram conceitos, normas, condutas e valores  voltados à promoção social das populações.  É um novo paradigma de gestão organizacional, pautado no ícone da contínua aprendizagem e aprimoramento, que estimula a incorporação de padrões de cooperação, participação, confiança e de solidariedade.

Especialistas em gestão como Noel Tichy, 75 anos,  professor de comportamento organizacional da Universidade de Michigan (EUA) e autor de mais de 30 livros sobre o tema, considera de profunda importância motivar os funcionários com uma visão empolgante do trabalho que realizam. Exemplo desse modelo é relatado por Brian Dumaine, antigo editor da revista norte-americana “Fortune”, no artigo “Por que nós trabalhamos?”. Jornalista premiado e autor de artigos sobre liderança e investimentos, ele se vale de uma parábola para reafirmar a importância da noção de “missão” no cotidiano das tarefas. Citando três tipos de operários que executam o mesmo tipo de serviço – talhar uma pedra com um martelo e um cinzel – Dumaine conta que o primeiro se sente frustrado e irritado porque considera aviltante o trabalho que faz. O segundo, ao explicar que talha a pedra para um prédio, não parece nem zangado nem satisfeito. Já o terceiro cantarola feliz e, enquanto esculpe a pedra, responde com orgulho que está construindo uma catedral.

 Visão compartilhada

Dessa forma, a tradicional noção de capacitação técnica não seria o valor preponderante a atuar na condução do trabalho em uma empresa. O engenheiro aeroespacial Peter Senge, Ph.D. em administração organizacional pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA) e autor do best-seller “A Quinta Disciplina”, aponta o engajamento do profissional “em relação aos princípios, às diretrizes e ao futuro que a empresa pretende criar e alcançar”, como um fator decisivo na evolução sustentável e competitiva da organização. A essa disciplina apreendida pelo grupo funcional ele chama de “visão compartilhada”, que seria acrescida do raciocínio sistêmico (a quinta disciplina), indispensável na consecução dos objetivos traçados.

Em uma entrevista à revista norte-americana “HSM Management”, no final da década de 1990, Senge questiona alguns mitos corporativos como a excelência de programas de treinamento e a importância da tecnologia de informação. Para ele é preciso pensar no tipo de aprendizado que a tecnologia proporciona, já que uma pessoa pode até receber mais informações graças à tecnologia, mas se não possuir as capacidades necessárias para aproveitá-las, de nada adiantará, visto que a informação não cria aprendizado. ”Esse é um enorme mal-entendido que afeta muitas pessoas. A informação só pode nos ajudar a aprender alguma coisa que já entendemos.” Quanto aos programas de treinamento, Senge considera que poucos profissionais aprendem as coisas que são realmente importantes nesses programas. “O aprendizado ocorre no dia a dia, ao longo do tempo, e sempre acontece quando as pessoas estão às voltas com questões essenciais ou se vêm diante de desafios.“

 Responsabilidade social




Desde os anos 1970, o tema da responsabilidade social das empresas, em relação às comunidades onde estão inseridas, tem sido foco de debates e de uma extensa literatura. Nota-se que a filosofia desse conceito é abrangente, englobando problemas sociais, econômicos e ambientais como pobreza, desemprego, segurança no trabalho, poluição e desmatamento, além de aspectos legais e jurídicos referentes a desapropriações e remoção de moradores, para citar alguns. Porém, o entendimento mais comum do termo é aquele que traduz a responsabilidade empresarial como um comportamento socialmente responsável, do ponto de vista ético, praticado pelas organizações em suas atividades-fim.

Conhecidos teóricos da administração, como o filósofo e economista de origem austríaca Peter Drucker (1909-2005) e o americano Robert M. Grant, consultor e autor do livro “Análise da Estratégia Contemporânea”, traduzido em mais de 12 idiomas, destacam a necessidade de uma gestão de empresas voltada para a evolução da sociedade moderna, já que as empresas são importantes e influentes agentes sociais, e seus gestores são percebidos como lideranças pelas comunidades onde atuam.

Na obra “O Líder do Futuro” os autores Hesselbein, Goldsmith e Beckard enfocam o lado humanístico na condução empresarial. Para eles, o propósito de uma administração organizacional deve ser o de tornar eficazes os pontos fortes das pessoas e irrelevantes as suas fraquezas. O livro datado de 1996 advoga que as posturas serão mais úteis do que as habilidades e que as futuras lideranças vão flexibilizar as hierarquias, construindo um sistema de trabalho mais fluido: “O maior capital das empresas serão as pessoas que as compõem. Conseguir o comprometimento delas e colher o fruto de suas mentes criadoras deverá ser o grande desafio do século 21”.

 Carisma e oportunidades

Esse novo conceito de liderança se afasta do primitivo modelo de liderança carismática, onde não havia espaço para a argumentação ou contestação. Um tipo de comando criticado pelo próprio Drucker, o cultuado guru “inventor da gestão”, que aos 95 anos, em sua última entrevista à imprensa norte-americana (reproduzida pela revista “Exame” em fevereiro de 2006, sob o título “Liderança é Conversa Fiada”) questiona a fixação dos gestores executivos pela formação de líderes: “É um erro afirmar que as escolas de negócios formam líderes. Sua tarefa consiste em formar medíocres competentes para que realizem um trabalho competente Permita-me dizer com toda a sinceridade: não acredito em líderes. Toda essa conversa sobre líderes é uma bobagem muito perigosa. É tudo conversa fiada. Entristece-me constatar que, encerrado o século 20, com líderes como Hitler, Stálin e Mao, as pessoas ainda estejam em busca de quem as comande, apesar de todo esse mau exemplo. Acho que tivemos carisma demais nos últimos 100 anos."

Autor de dezenas de livros sobre práticas de administração de empresas, Drucker sempre acreditou que os bons resultados obtidos em uma gestão não advêm das soluções de problemas e sim de se saber explorar as novas oportunidades que se apresentam. Também alertava para a interpretação confusa dos gestores sobre os termos “eficácia – fazer a coisa certa – e eficiência – fazer certo as coisas”. Segundo o teórico “é difícil achar algo tão inútil quanto fazer com grande eficiência algo que simplesmente não deveria ser feito”. Mas mesmo assim, assinalava Druker, as ferramentas utilizadas - sobretudo conceitos contábeis e dados - estavam todas voltadas à eficiência. “O que precisamos é de um jeito de identificar áreas de eficácia (de possíveis resultados relevantes) e de um método para nos concentrarmos nelas”, recomendava.

 Aprender e desaprender

Em 1930, na obra “O Mal-Estar na Civilização”, o fundador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), já especificava as três grandes forças causadoras da infelicidade no ser humano: o próprio corpo “condenado à decadência e à dissolução”; o mundo exterior “repressivo” e “ameaçador”; e os relacionamentos com os outros, essa última correspondendo a frustração mais difícil de se lidar e adequadamente rotulada de “a fonte social do sofrimento”.  Reconhecendo-se a importância das relações pessoais no contexto das organizações, torna-se um desafio para qualquer gestor desenvolver um clima de harmonia, integração e satisfação em sua comunidade funcional, face à diversidade dos “modelos mentais” inerentes a cada indivíduo.

No livro “A Força dos Modelos Mentais” (2005) os consultores norte-americanos Yoram Wind e Colin Crook explicam que esses processos cerebrais e emocionais - frutos de influências familiares, escolares, culturais e religiosas que se somam às experiências e vivências na fase adulta - moldam todos os aspectos da vida de uma pessoa e muitas vezes, no âmbito profissional, eles não acompanham ou não correspondem à realidade do momento, dificultando e limitando a evolução de uma carreira que poderia ser promissora. Caberia, pois, aos profissionais se reestruturarem, desfazendo-se de antigos referenciais e adaptando-se aos novos conceitos de competência e padrões de comportamento sinalizados pela empresa. “Daí a importância de aprender, desaprender e reaprender para construir nossos conhecimentos sob novos paradigmas”, desafiam Wind e Crook.

 Satisfação e identidade

 Mas, para Freud a insatisfação humana é um fato imutável porque “nascemos com um programa inviável que é atender aos nossos instintos, mas o mundo não o permite”. Ou seja, o homem, faça o que fizer, estará condenado a conviver com a frustração na vida privada e profissional. Logo, gerenciar atividades e serviços da mais alta complexidade e tecnologia empresarial como grandes obras de engenharia também é administrar expectativas pessoais que não devem ser desconsideradas ou minimizadas pelos gestores.

Em uma pesquisa na cidade de Pittsburgh, na Pensilvânia (EUA), na década de 1950, quando a localidade ainda era um grande pólo siderúrgico e o maior produtor de aço do mundo, o professor e psicólogo Frederick Herzberg, falecido em 2000, realizou entrevistas com 200 engenheiros e contadores de onze indústrias da região para descobrir os fatores que geravam satisfação e insatisfação no ambiente de trabalho. Percebeu que elementos relacionados com o conteúdo do trabalho (motivação), tais como o desenvolvimento do potencial intelectual, a possibilidade de crescimento profissional e a autorrealização, eram fortes indutores para a criação de um clima de satisfação entre os funcionários. Por outro lado constatou que o contexto físico e as condições de trabalho e de remuneração, mesmo apresentando ótimos padrões, não aumentavam o grau de satisfação entre os empregados, apesar de funcionarem como barreiras de contenção contra a insatisfação.

Esse estudo, compilado no livro “A Motivação para o Trabalho” (1959), serviu de base para outras centenas de observações e análises sobre modelos e teorias de administração produzidas ao longo do tempo que têm ajudado a redefinir o conceito de trabalho empresarial nas organizações públicas e privadas. Hoje, as empresas já incorporam às suas atividades econômicas e tecnológicas valores como o capital intelectual, o talento e a inovação, ferramentas insuperáveis na produção de ações que objetivem resultados promissores nos ambientes internos e externos em que atuam.

 Identidade e ação



Com essa opção pela gestão social, que se traduz por um gerenciamento mais participativo e solidário, focado no diálogo, no desenvolvimento das pessoas e no interesse público das comunidades, as empresas vão se aproximando, pouco a pouco e de forma extraordinária, da filosofia política de Hannah Arendt (1906-1975) – uma das mais cultuadas pensadoras do século 20 –, algo impensável há alguns anos. Isso porque para Arendt, autora de “A Condição Humana” (1958), a suposição de que a identidade de uma pessoa transcenda, em grandeza e importância, tudo o que ela possa fazer ou produzir, seria um elemento indispensável da dignidade humana. Juntamente com a assombrosa capacidade de agir do ser humano, da qual, segundo a filósofa, “se pode esperar o inesperado e o infinitamente improvável, independentemente da produção de coisas, porque cada homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo singularmente novo”.

 



domingo, 26 de setembro de 2021

O mistério do Círculo de Gigantes

/ Sheila Sacks /


Por ocasião da celebração dos 73 anos da fundação do estado de Israel, em abril último, a editora da plataforma de notícias online ISRAEL21c, Nicky Blackburn, listou 73 curiosidades acerca do país como uma homenagem à diversidade e também à singularidade desse pequeno grande mundo encravado no Oriente Médio.

Dentre os tópicos citados, a jornalista chama a atenção para um monumento pré-histórico descoberto na década de 1960, conhecido  como Gilgal Refaim - círculo de gigantes, na tradução do hebraico, uma referência ao povo que, segundo fontes bíblicas, se distinguia por sua enorme estatura e viveu naquela região (reino de Bashan/Basã - Devarim/Deuteronômio).

Um ano antes, o mesmo site já havia classificado Gilgal Refaim como um dos 10 maiores  mistérios da Terra Santa, e indagava: Quem construiu o Stonehenge israelense?, em alusão ao complexo pré-histórico megalítico do Reino Unido, um dos mais visitados do mundo.  

Situado no norte de Israel, na região de Golã/Golan, a estrutura é formada por gigantescos círculos concêntricos de mais de 42 mil toneladas de pedra basalto, cuja construção, segundo arqueólogos, beira há 5 mil anos. Autor de uma tese de doutorado sobre o local, o arqueólogo Michael Freikman, da Universidade Hebraica de Jerusalém, calcula que a estrutura exigiu milhares de dias de trabalho. “Talvez até um milhão”, arrisca. Segundo ele, a construção pode ter levado cerca de 25 anos para ficar pronta, isso se 100 pessoas estivessem trabalhando. “Um esforço tremendo e terrivelmente caro”, avalia o especialista.

O também arqueólogo Uri Berger, pesquisador de tumbas megalíticas, diz que o local é enigmático, "com fragmentos de informações",  e que cada estudioso tem uma versão sobre a sua edificação e finalidade. E muitos deles, talvez envolvidos com a grandiosidade da estrutura, buscam nas escavações,  documentos antigos e interpretações bíblicas, os vestígios de um legado espiritual secreto. 

A civilização oculta


Várias décadas após o suiço Erich von Däniken surpreender milhões de pessoas com a teoria de que as divindades reverenciadas pela humanidade seriam seres extraterrestres - de uma civilização adiantada que visitou o planeta terra em tempos pré-históricos ('Eram os deuses astronautas', livro publicado em 1968) -, uma outra tese não menos polêmica sobre o tema tem sido defendida por dois pesquisadores ingleses. De acordo com Philip Gardiner, escritor, roterista e diretor de documentários, e seu parceiro Gary Osborn, os deuses não seriam alienígenas, mas humanos e de origem terrena, oriundos de uma civilização misteriosa e avançada que sobreviveu aos dilúvios e outros cataclismos.

Na obra “O Priorado Secreto” (2006), os autores, que já publicaram uma dezena de livros sobre sociedades ocultas e profecias, escrevem: “Talvez seja difícil de acreditar, mas evidências consistentes sugerem que conhecimentos técnicos avançados circulavam entre nós muito antes das datas convencionais atribuídas à pré-história humana e que uma cultura desconhecida havia codificado indícios reconstituíveis desses conhecimentos.” 

Uma das evidências físicas citadas pelos ingleses se refere ao Círculo de pedras de Refaim (círculo dos gigantes) - Gilgal Refaim, em hebraico, e Rujm el-Hiri ( monte de pedras do gato selvagem), em árabe -  que os autores consideram um dos maiores mistérios de Israel. Situado na região das colinas de Golã, a 16 quilômetros a leste do mar da Galileia, o complexo foi erguido sobre uma planície, cujas reais dimensões só podem ser vistas do alto. Uma caverna, no centro da estrutura, talvez funcionasse como câmara mortuária.

O monumento  de pedra, que arqueólogos calculam possa ter sido erguido há mais de 5 mil anos, passou despercebido por séculos e só foi detectado através de uma pesquisa aérea. As imagens foram liberadas por Israel em 1968 após a “guerra dos seis dias” (1967).

Gardiner e Osborn defendem que edificações colossais como as pirâmides do Egito, o complexo monolítico Stonehenge, no sul da Inglaterra, as esculturas gigantes de pedra na Ilha de Páscoa (província do Chile), entre outras, foram erguidas sob a inspiração dessa civilização, originalmente formada por gigantes (a Bíblia também menciona povos gigantes – os nefilim, refaim e enacim - no Gênesis, Números e Josué) que, à parte as suas obras arquitetônicas instigantes deixaram um legado de conhecimento espiritual codificado em mitos, símbolos, lendas e fábulas. Histórias e “contos de fadas” passados oralmente de geração em geração, em grande parte por pessoas simples que não tinham consciência dos segredos contidos nas narrativas.

Conhecimento avançado


Para os pesquisadores, tanto a humanidade atual como as primeiras civilizações tradicionais que conhecemos jamais possuíram uma compreensão plena e acabada desse antigo sistema de conhecimento. As informações foram passadas através do tempo de forma fragmentada, sendo mal interpretadas e mal conceituadas. Gardiner e Osborn afirmam que essa misteriosa “ordem sacerdotal” teria civilizado a humanidade, talvez após uma catástrofe global. “Com o tempo, devido ao seu conhecimento científico, sabedoria espiritual e suposta capacidade extrassensorial, os povos menos desenvolvidos que conviviam pacificamente com esses seres mais avançados começaram a considerá-los deuses”. A base dessa argumentação vem da constatação da presença do mesmo sistema fundamental de crenças nas várias religiões existentes em todos os quadrantes do mundo, embora cada uma delas use denominações próprias, práticas e rituais diferentes.

A fonte desse sistema de crenças estaria nos antigos cultos solares e na experiência da “iluminação”. Segundo os autores, o padrão cíclico da natureza, a experiência renovadora do sol e os seus movimentos estão intrinsecamente vinculados ao efeito iluminador do “despertar” interior, do “renascer” e da experiência da “iluminação”. Eles citam a figura bíblica de Sansão, cujo nome deriva do hebraico shemesh (sol) que é idêntico a shamash, o deus sol dos sumérios. Quando Sansão tem seus cabelos cortados por uma mulher e perde a sua força descomunal, observa-se a simbologia do sol presente na narrativa porque sua cabeleira representa o poder irradiador dos raios de sol.

Outro exemplo mencionado diz respeito ao maior profeta e libertador do povo de Israel, Moshé Rabenu ou Moisés, autor dos cinco primeiros livros (Pentateuco) da Bíblia hebraica (Torá) que contêm os fundamentos legais, morais e éticos do judaísmo. Gardiner e Osborn escrevem que em Êxodo 34, a citação é de que Moisés desceu do Monte Sinai com seu rosto “emitindo raios luminosos”. Os autores ressaltam que o profeta cresceu no palácio do faraó como um príncipe egípcio e provavelmente foi iniciado na tradição, simbologia e astrologia egípcias do culto ao sol, às estrelas e aos padrões cíclicos da natureza. Entretanto, em Devarim (Palavras), também chamado de Deuteronômio, o quinto livro de Moisés, é feita uma advertência para que os hebreus não se envolvam com esses cultos: “Levantando teus olhos ao céu e vendo o sol, a lua, as estrelas e todo o exército do céu, não te deixes seduzir para adorá-los e servi-los! (4:19).

Adiantando-se no tempo, os autores chegam até os essênios. Seita judaica que existiu nos últimos séculos antes da Era Comum, seus integrantes viviam em Qumrã, no deserto da Judeia, perto do Mar Morto. De acordo com os documentos escondidos em cavernas e descobertos a partir de 1947 (Manuscritos do Mar Morto), essa comunidade se autodenominava “Filhos da Luz” e o “governador” era chamado de “coroa”, uma alusão à sua condição de “ser iluminado”. Os pesquisadores acentuam que a superação da morte também tinha no sol a sua inspiração. “Os movimentos do sol produziram lendas sobre o lugar para onde o deus sol vai e por que volta e serviram para encobrir ideias sobre como nós mesmos poderíamos, supostamente, reencarnar ou receber uma nova vida.”

O despertar do “eu interior”


O fenômeno universal do culto ao Sol, segundo os autores, estaria intrinsecamente vinculado - em todas as crenças - ao efeito iluminador do “despertar” interior ou à experiência da “iluminação”. Para o homem primitivo, o sol físico vivificador também representava o “sol interior” que se alcança no instante da “iluminação”. Essa experiência espiritual e mística obtida através da meditação e de jejuns em que o indivíduo transporta a sua consciência humana limitada a alturas transcendentais - onde a mente é revitalizada e inundada com novas informações e conhecimentos - é na verdade o despertar para a verdadeira natureza da realidade. A pessoa adquire uma percepção mais intensa de si mesma e do cosmos, e este seria o verdadeiro significado por trás do culto ao sol.

Para a dupla de ingleses, esse sistema de crenças que abrange as antigas ideias da árvore do mundo (a árvore da Vida, na Cabalá), a reencarnação, o renascimento, o culto do céu - com tudo o que o envolve como o sol, a lua, as estrelas e os astros - , com nomes que de alguma forma significam “brilhar” ou “ser brilhante”, também migrou para a Europa, talvez levado pelas tribos do norte de Israel deportadas pelos assírios, no início do primeiro milênio antes da Era Comum (as chamadas tribos perdidas). Pela tradição, os sacerdotes da Europa celta (formada por diversas etnias que povoaram o oeste do continente a partir do segundo milênio antes da Era Comum) eram chamados druidas (significando “o saber do carvalho”). Eles praticavam a adivinhação, a astrologia e o culto à árvore. Em suas narrativas é creditado a Hu Gadarn Hyscion (filho de Isaac), um hebreu egípcio, a fundação do terceiro templo no círculo de pedras gigantes de Stonehenge.

Mais evidências


No livro “As digitais dos deuses” (Fingerprints of the Gods, publicado em 1995), o jornalista e pesquisador nascido na Escócia, Graham Hancock, igualmente defende a tese da existência de uma civilização adiantada, anterior a pré-história convencional da humanidade. Ele se utiliza de um documento datado de 1513 - o mapa-múndi Piri Reis – desenhado pelo almirante do mesmo nome, em Constantinopla. O mapa mostra a costa ocidental da África, a costa oriental da América do Sul e a costa norte da Antártida, esta última região desconhecida até 1818, 300 anos depois de Piri Reis ter desenhado o mapa.

Outro mistério diz respeito à indicação de ausência de gelo em parte do território antártico conhecido como a Terra da Rainha Maud (área da Antártida oriental reclamada pela Noruega), uma prova geológica que confirma que o mapa se baseou em um documento original de pelo menos 4 mil anos antes da Era Comum quando a costa estava livre de gelo. “Em outras palavras, o verdadeiro enigma desse mapa de 1513 não está tanto no fato de ter incluído um continente que só foi descoberto em 1818, mas em mostrar parte da linha costeira desse mesmo continente em condições de ausência de gelo que terminaram há 6 mil anos e que desde então não se repetiram”, enfatiza Hancock. Ele conta que o almirante deixou uma série de notas escritas no mapa, admitindo que seu papel foi de compilar e copiar desenhos de cartógrafos que retroagiam a épocas anteriores à pré-história.

Ainda acerca do mapa de Piri Reis, o escritor e professor universitário norte-americano graduado em Harvard, Charles Hapgood (1904-1982), especializado em antropologia e história da ciência, argumentava que alguns mapas básicos antigos usados pelo almirante seriam fundamentados em fontes de uma época ainda mais recuada da antiguidade. Empenhado na formulação da teoria do deslocamento da crosta terrestre, considerada por Albert Einstein “fascinante”, Hapgood dizia  que a terra foi extensamente mapeada por uma civilização até então desconhecida e ainda não descoberta, dotada de alto grau de progresso tecnológico, que existiu há mais de 4 mil anos antes da Era Comum.

Catástrofes extinguiram civilizações



Propondo a teoria de que o eixo de rotação da terra mudou pelo menos três vezes nos últimos 100 mil anos, por força de deslocamentos da crosta terrestre provocados pelo degelo das calotas polares, Hapgood considerava que tais rupturas globais podem ter dado origem a cataclismos e provocado a extinção de civilizações desconhecidas e avançadas como a da Antártida, destruída por uma mudança catastrófica. Para validar a tese, estudo das carcaças de mamutes congelados encontrados na Sibéria mostrou que esses animais extintos há 10 mil anos tinham em suas bocas um tipo de capim proveniente de climas quentes, apesar de tais animais terem sido descobertos em terras geladas.  

Seguindo a mesma linha de investigação, pesquisadores da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, revelaram a presença de palmeiras no território da atual Antártida, descobertas através de perfurações no gelo que trouxeram à tona o pólen de palmeiras e de outras árvores de climas quentes como os baobás oriundos das estepes africanas. Segundo os estudiosos, há 53 milhões de anos o clima desse continente era semelhante ao sul do Brasil, com invernos em torno de 10ºC e verões com temperatura de 25º C. Desde 1953, o professor Hapgood  já sustentava que grandes regiões da Antártida permaneceram livres do gelo até 4 mil anos antes da Era Comum, lembrando que pelo consenso acadêmico as primeiras civilizações se desenvolveram no crescente fértil do Oriente Médio por volta de 3 mil anos antes da Era Comum.

A partir dessa perspectiva, o autor de “As digitais dos deuses” observa que alguns dos mitos mais impressionantes e duradouros que a humanidade herdou dos tempos antigos dizem respeito a uma pavorosa catástrofe global. " De onde vêm esses mitos?", pergunta Hancock. "Por que, embora procedam de culturas diferentes, seus temas são parecidos? E se são realmente memórias, por que não existem registros históricos das catástrofes históricas que parecem aludir?" 

São indagações que se inserem nas narrativas do dilúvio bíblico e que também são encontradas na tradição de outros povos, como no livro sagrado dos maias (Popol Vuh). “Em todo o mundo são conhecidas mais de 500 lendas que falam do dilúvio" prossegue Hancock, "e em uma pesquisa de 86 delas em continentes diferentes, um pesquisador especializado, Dr. Richard Andree, concluiu que 62 eram inteiramente independentes da versão hebraica.”

Pistas falsas

Já o historiador e arqueólogo francês Robert Charroux (1909-1978) vai mais longe nas suas considerações sobre essas civilizações desconhecidas, afirmando que antepassados superiores construíram naves siderais, viajaram no cosmos e conheceram a energia atômica. Em seu livro “A história desconhecida dos homens desde há cem mil anos” (1963), o autor defende que os poucos sobreviventes dessa humanidade superior “legaram aos seus descendentes uma grandiosa mensagem, advertindo-os porém das consequências das suas próprias descobertas”. Dessa forma, no decorrer dos séculos “centros de contraverdade têm ocultado este conhecimento, mantido embora por sociedades de iniciados”, afirma o francês.

Para Gardiner e Osborn existe uma espécie de “sacerdócio secreto” advindo dessa civilização desconhecida que desenvolveu um método de grande eficácia para chegar ao êxtase espiritual. Herdeiro e guardião do conhecimento da “iluminação interior” e das correntes místicas, esse priorado revela vestígios semelhantes nas grandes religiões e nas várias doutrinas esotéricas. “Platão foi um iniciado nesses mistérios. Ele diz que foi posto numa pirâmide durante três dias, morreu simbolicamente, renasceu e então conheceu os segredos dos mistérios”, escrevem os autores de “O Priorado Secreto”.

O esplendor da Cabalá

É interessante observar que a obra central da corrente mística do judaísmo, a Cabalá (‘tradição’, em hebraico), se denomina Sefer HaZohar ou o “Livro do Esplendor”, uma referência à luz e à iluminação. Atribuído ao rabi Shimón Bar Yochai (Rashbi), que viveu no século 2 da Era Comum, o Zohar também é chamado de “Chochmat ha-Emet” (a sabedoria da verdade). Até ser verbalizado, esse conhecimento advindo da Torá era transmitido oralmente pelos primeiros cabalistas denominados “nistarim” (os ocultos). 

O rabino Chaim David Zukerwar (1956-2009), em seu livro “As 3 dimensões da Cabalá: Essência, Infinito e Alma”, escreve: “A fonte da Luz é a causa e origem de toda a criação. Por essa razão a denominação empregada pela Cabalá para designar a energia de vidas é Or – luz, em hebraico.” Paradoxalmente, os sábios também afirmam que a luz que foi feita no primeiro dia da Criação ( E D’us disse “Que haja luz, e houve luz”) foi “oculta aos justos no mundo vindouro”. A explicação dada pelo Zohar indica que as palavras hebraicas “Or” (luz) e “Raz” (segredo) são numericamente equivalentes, isto é, que estão relacionadas uma com a outra. Isso significaria que a luz original do início dos tempos só retornará em seu esplendor original com a evolução espiritual e o compromisso do homem com o bem, em um tempo porvir.

A bênção do sol


Das muitas tradições judaicas, a bênção do sol praticada ao longo das gerações apresenta uma característica única: o seu ritual somente se dá a cada 28 anos, quando o sol, de acordo com os sábios, retorna à posição exata onde estava no momento de sua criação. Diz o Bereshit: “E fez D’us os dois luzeiros grandes: o luzeiro maior para governar o dia; e o luzeiro menor para governar a noite... E foi noite e foi manhã, dia quarto.” Para celebrar esse mandamento (mitzvá), as pessoas se reúnem ao ar livre e é recitada uma benção especial – Bircat Hachamá (benção do sol) - precedida e seguida de salmos e preces. Sempre ocorrendo em uma manhã de quarta-feira – o dia da semana no qual D’us colocou em órbita o sol, a lua e todos os corpos celestes - o último encontro se deu em 8 de abril de 2009 (ano judaico de 5769), quando mais uma vez foi recitada a prece que lembra os milagres divinos: “Bendito és Tu, Senhor nosso D’us, que reencena as obras da Criação.” (Baruch Ata Adonai, Eloheinu Melech HaOlam Ossê Maassê Bereshit).

Mas, apesar das explicações rabínicas sobre a benção do Sol – que tem o intuito de louvar a Criação Divina -, pesquisadores como Gardiner e Osborn insistem em enxergar vestígios desse ritual ancorados a uma tradição desconhecida anterior a dos hebreus. O arqueólogo e historiador Zecharia Sitchin (1920-2010), estudioso dos idiomas antigos orientais, expõe em seu livro “O código cósmico” (2003), a familiaridade dos antigos hebreus com as constelações do zodíaco, iniciada com Terach, pai de Abrãao (Avraham) em Ur, na Suméria (atual Iraque). Ele faz uma correspondência entre os 12 signos zodiacais com os 12 filhos de Ismael (“Dele nascerão dozes chefes; E sua nação será grande” - Gênesis 17:20), os 12 filhos de Jacob (“E o número dos filhos de Jacob foram doze” – Gênesis 35), e as 12 tribos que povoaram a Terra Prometida, após o Êxodo, uma constância que, em sua opinião, “preserva a  exigência-santidade do Doze celeste”.

Sitchin, que viveu em Israel e nos Estados Unidos, revela que a expressão hebraica “mazal-tov”, pronunciada nas festividades e entendida pela maioria como “boa sorte”, significa literalmente “uma boa e favorável constelação zodiacal”. Segundo o arqueólogo o termo deriva do acadiano (a mãe das línguas semitas), em que manzalu significa “estação” – a estação zodiacal na qual o sol “estacionava” no dia do casamento ou nascimento. Ele também assegura que a monumental e enigmática estrutura de círculos de pedra na planície das colinas de Golã, o Gilgal Refaim, foi um observatório astronômico construído por uma civilização desconhecida, 7 mil anos antes da Era Comum.

Teoria que o arqueólogo israelense Uri Berger afirma ser plausível ao observar que já foi identificado que nos dias mais curtos e mais longos do ano ( solstícios de junho e dezembro) o nascer do sol se alinha com a abertura das rochas basálticas do monumento.