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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Israel mantém fechada embaixada em Assunção


Por Sheila Sacks
Permanece fechada, desde o início de setembro, a embaixada de Israel em Assunção, por conta da atitude do governo paraguaio de voltar atrás da decisão de transferir a sua representação diplomática de Tel Aviv para Jerusalém.
O imbróglio teve início em 21 de maio, quando o então presidente Horacio Cartes esteve em Israel e, juntamente com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, participou da cerimônia de inauguração da nova sede da embaixada no bairro de Arnona, na parte sul de Jerusalém, onde dias antes haviam sido instaladas as embaixadas dos Estados Unidos e da Guatemala.
Na época, apesar de Cartes continuar exercendo o cargo de presidente do Paraguai e ter a prerrogativa legal de transferir a localização da embaixada, um novo mandatário  já tinha sido eleito no país, no pleito realizado em 22 de abril. Tratava-se de Mario Abdo Benitez que ao assumir a presidência em 15 de agosto esperou pouco mais de duas semanas para anunciar, através de seu ministro de Relações Exteriores, Luis Castiglioni, o retorno da embaixada para Tel Aviv.
Reação imediata
Ao anúncio emitido em 5 de setembro pela chancelaria do Paraguai, a reação de Israel foi dura e imediata. No mesmo dia, Netanyahu comunicou o fechamento da embaixada israelense naquele país e o cancelamento de suas atividades. A visita de uma delegação de economistas israelenses também foi suspensa.
O gabinete israelense reforçou a reação emitindo um comunicado afirmando que a decisão do Paraguai foi vista com extrema gravidade e irá obscurecer as relações bilaterais entre os dois países.
Duas semanas depois, a Agência de Israel de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Mashav), que oferece programas técnicos e sociais gratuitos,  divulgou o cancelamento de todas as ações em andamento no país, como a suspensão de bolsas de treinamento, cursos móveis e projetos planejados para o último trimestre do ano.
O programa de bolsas da Mashav compreende mais de 60 cursos intensivos de especialização profissional desenvolvidos anualmente em centros de treinamento em Israel. Os cursos têm duração de um mês e incluem áreas como agricultura, educação, desenvolvimento social, comunicação, inovação, empreendedorismo, segurança cidadã e outras.
Dentre os cursos cancelados estão àqueles voltados para a evolução social da mulher, em cooperação com os Ministérios do Trabalho e da Mulher, e os que lidam com situações de emergência, que tem o apoio do Ministério do Interior e a Secretaria Nacional de Emergência (SEM) do Paraguai.
Também foi suspensa a doação de 270 cadeiras de rodas especiais para crianças com deficiências físicas ou com mobilidade limitada, segundo a imprensa paraguaia.
Mas, apesar da interrupção desses programas de cooperação, o setor de exportação de carnes do Paraguai divulgou, no início de novembro, que foi reativada a relação comercial entre os dois países e que empresários israelenses do ramo são esperados no país em janeiro próximo.
De acordo com a Câmara Paraguaia de Carnes, a expectativa é que 2018 se encerre com a estimativa de venda de 280 mil toneladas de carne para Israel, gerando um lucro de 1,2 bilhão de dólares.
Senado ratifica decisão
Cinquenta dias após a decisão do presidente Abdo Benitez, em 25 de outubro, o senado paraguaio ratificou a iniciativa, rejeitando a petição encaminhada por cinco senadores para rever a realocação da embaixada para Tel Aviv, onde atualmente está localizada. 
Dos 35 senadores presentes na votação, apenas nove congressistas ligados ao grupo do ex-presidente Cartes apoiaram o projeto que pedia a volta da embaixada a Jerusalém.
Antes da votação, o senador Rodolfo Friedmann assinalou que o Congresso não podia interferir nesse tipo de assunto que diz respeito ao Executivo. Outros senadores presentes reclamaram publicamente da insistência de alguns colegas de prosseguirem nessa questão que, consoante à maioria dos parlamentares, já foi definitivamente resolvida pelo governo do país.
No plano da diplomacia, o clima foi mais ameno. O ministro das Relações Exteriores Castiglioni enviou uma carta ao primeiro-ministro Netanyahu, em 31 de outubro, expressando a esperança de que Israel reconsidere a sua decisão de fechar a embaixada na capital paraguaia.
Ressaltando a amizade que une os dois países, o chanceler  afirmou que o Paraguai mantém a sua representação diplomática em Israel, tendo à frente o embaixador Max Heber, esperando que Israel reabra a sua embaixada em Assunção. “Israel é nosso amigo, nosso aliado”, reforçou.
Em 2002, para reduzir custos, Israel fechou a sua embaixada no Paraguai, reabrindo-a em 2015. Em ato recíproco, o Paraguai igualmente fechou a sua representação em Israel que voltou a funcionar em 2014.
Decisão “chocante”
No mundo judaico, a reviravolta do Paraguai levou a diretora de Assuntos Latino-Americanos do Comitê Judaico Americano (AJC, na sigla em inglês), Dina Siegel Vann, a classificar de “chocante” a inversão diplomática do país sul-americano. Ela chamou a atenção para o fato da Autoridade Palestina, dias depois do anúncio do Paraguai, declarar que abriria uma “embaixada” em Assunção.
Presente na posse de Abdo Benitez, em 15 de agosto, o ministro das Relações Exteriores da Autoridade Palestina, Riyad al-Maliki, no dia seguinte foi recebido pelo chanceler Castiglioni  em audiência privada. De Ramallah, ele confirmou que pressionou o governo paraguaio a mudar de rumo e considerou o fato como uma “nova conquista diplomática palestina”.
 “Reverter repentinamente uma decisão histórica, menos de quatro meses depois, suscita uma série de perguntas, inclusive quem exerceu pressão sobre o Paraguai para assim proceder”, avalia Siegel Vann. Para o governo israelense, houve sim pressão dos países árabes e promessas de futuros acordos e investimento no país influenciando a troca de posição do recém-eleito presidente.
A suposição é atestada pelo comportamento do presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, que dois dias após a decisão do governo paraguaio anunciou a abertura da embaixada de seu país em Assunção. Até então, os contatos diplomáticos eram feitos via Buenos Aires. Uma visita ao Paraguai foi agendada para dezembro.
Por sua vez, o secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Abulgueit, assegurou que a iniciativa do governo do Paraguai irá se refletir na relação com os países árabes, “consolidando a cooperação e a amizade” entre eles. Também o ministério de Exterior libanês aplaudiu a decisão paraguaia, afirmando em comunicado que “outros países deviam seguir esse exemplo”.
Outra demonstração de apoio veio do emirado do Qatar. O xeique Tamim Hamad bin Hamad al-Thani visitou o Paraguai em 3 de outubro, com uma comitiva de 100 empresários, e celebrou acordos de cooperação técnica e econômica, sendo condecorado com a mais importante láurea do país: a Ordem Nacional de Mérito no grau de “Collar Mariscal Francisco López”.
Meses antes, em abril, o ministério de relações exteriores paraguaio já tinha enviado um memorando diplomático aos Emirados Árabes Unidos (EAU) concedendo aos seus cidadãos a possibilidade de entrada sem visto no Paraguai por um período de 30 dias.
Comunidade pequena
Com 7 milhões de habitantes, o Paraguai foi destaque, no início do ano, de uma reportagem na Forbes, conceituada revista americana de negócios. Segundo a publicação, o país se apresenta hoje como “o novo líder emergente da América do Sul”, investindo em tecnologia, na construção civil, reduzindo a pobreza, diminuindo sua dependência da exportação de commodities (soja e carne, entre outras) e consolidando sua dívida pública em 22% do PIB, um dos mais baixos índices da região (no Brasil, a dívida pública, em julho, somava 77% do PIB).
A comunidade judaica no Paraguai é bem reduzida, com cerca de mil pessoas, a maioria residindo na capital. Possui 3 sinagogas (uma do Chabad, que oferece atividades complementares para crianças, jovens e adultos), uma escola judaica em tempo integral (‘Escola Estado de Israel’), um museu judaico ( com uma seção dedicada à Shoah) e associações culturais e recreativas como a Unión Hebraica do Paraguay, B'nai B'rith, Wizo, movimento Hanoar Hatzioni,  Asociasion Shalom y Amigos de Israel e mais a newsletter semanal “Hashavua”.
Em contraponto, a população muçulmana no país é calculada em 15 mil membros, conforme dados do Centro Benéfico Cultural Islámico Asunción . O atual presidente paraguaio é descendente de sírios. Seu avô, Reduan Abdo, chegou ao Paraguai na década de 1910, pela cidade de Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Brasil. A informação está no livro “Árabes en Paraguay”, de José Daniel Nasta.
Segundo a  Organização Islâmica para a América Latina e Caribe atualmente vivem 6 milhões de muçulmanos nos países do bloco. O Brasil tem 1,5 milhão, a Argentina, com 700 mil, a Venezuela (100 mil) e a Colômbia, com 40 mil. Números discrepantes em relação àqueles divulgados pela instituição americana Pew Research Center (2011) que estimou a população muçulmana nas três Américas em 5,6 milhões, incluindo os Estados Unidos (2,5 milhões) e Canadá (940 mil).
Pelos dados do centro de pesquisa Pew, que permanecem válidos, o Brasil contaria com 204 mil, o México, 111 mil, Venezuela (95 mil), Panamá (25 mil) e Colômbia, com 14 mil. Já a Argentina abrigaria 1 milhão de muçulmanos.
Casa Branca lembrou compromisso
Da parte da diplomacia americana, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, ligou para o presidente paraguaio no dia seguinte à decisão. A Casa Branca divulgou que na conversa com Abdo Benitez, a autoridade americana recordou “o compromisso prévio do Paraguai de mover a embaixada para Jerusalém como um sinal de sua relação histórica tanto com Israel como com os Estados Unidos”.
Assinalou também que o presidente paraguaio  “destacou a associação duradoura do Paraguai com Israel” e que concordou  em trabalhar conjuntamente com os Estados Unidos  para obter uma solução integral e duradoura para o conflito entre israelenses e palestinos”.
Abdo Benitez estudou nos Estados Unidos e seu pai, acusado de enriquecimento ilícito, foi assessor direto do presidente Alfredo Stroessner, que governou o país por 35 anos, até 1989.
Preocupação com terrorismo
Entre as lideranças judaicas, houve a manifestação  do presidente do Congresso Judaico Latino-Americano (CJL), o argentino Adrián Werthein. Em entrevista ao jornal La Nación, do Paraguai, ele admitiu que “cada país traça suas próprias linhas de estratégia geopolítica”, mas, disse esperar que o novo governo paraguaio “mantenha o caminho de relações de amizade com Israel que têm sido históricas desde a criação do estado, em 1948”.
Werthein ainda enfatizou a preocupação do CJL com a chegada de grupos terroristas na região. Ele citou a presença do Hezbolah na tríplice fronteira, afirmando que é um fato inquietante não somente para as comunidades judaicas, mas também para países e governos.
O dirigente do CJL lembrou que há um ano, na cidade de Córdoba, a organização judaica juntamente com entidades representativas do cristianismo e do islamismo assinaram um documento declarando a América Latina e Caribe como “Zona de Convivência Interreligiosa”. Um passo importante no sentido de fortalecer a tolerância e a convivência harmônica, a cooperação mútua e o pluralismo das distintas crenças religiosas.
Faltou diplomacia
Mais enfático foi o desabafo do presidente da “Comunidad Judia Del Paraguay”, Jack Fleischman. Falando ao jornal ABC color, um dos maiores do Paraguai, ele lamentou a ruptura diplomática entre Israel e Paraguai e criticou a decisão do presidente Abdo Benitez .“A um amigo não se faz o que o Paraguai fez com Israel”, disse. Para Fleischman faltou diplomacia na forma como foi decidido o retorno da embaixada paraguaia para Tel Aviv.
O dirigente fez um alerta sobre a recente proximidade diplomática do Paraguai com países dominados pelo fundamentalismo muçulmano. “Eu não me preocupo com Israel. Israel sabe se cuidar sozinho. Eu me preocupo conosco, com nossos filhos, com nosso Paraguai querido, para que não seja influenciado por ideologias que vão contra o nosso modo de vida.”
Acentuando o tom do discurso, Fleischman ressaltou o perigo dessa aproximação com “países sem democracia, sem liberdade de imprensa, de culto, de movimentos sociais, onde as mulheres não podem trabalhar”. Para o ativista, as embaixadas desses governos “somente querem trazer suas ideologias e seu proselitismo para acabar dividindo a sociedade”.
Caso Messer
Foragidos da justiça do Paraguai, os brasileiros de origem judaica Dario Messer e seu filho, Dan Wolf Messer, são notícias quase diárias na mídia paraguaia. Uma situação constrangedora que de alguma forma impacta a pequena comunidade judaica do Paraguai. Eles têm paradeiro ignorado desde a expedição de uma ordem de captura internacional assinada em maio por uma juíza federal do país.
Acusado de lavagem de dinheiro e associação criminosa, Dario tem cidadania paraguaia e sempre manteve laços estreitos com o ex-presidente Horacio Cartes. Seus principais auxiliares, Ilan Crinspun e Juan Pablo Jiménez Viveros, primo de Cartes, se entregaram à Justiça e cumprem prisão preventiva desde 31 de outubro.
Os advogados de Dario Messer alegam que não há garantias legais para que o acusado se apresente ao Ministério Público paraguaio. Questionam a instalação, no Congresso, de uma comissão de deputados e senadores para investigar as atividades de Messer presidida justamente por um seu desafeto, o senador Ronaldo Friedmann.
Acusam, ainda, o estado paraguaio de confiscar ilegalmente oito propriedades de Messer, totalizando 10 mil hectares de terras, e mais 12 mil cabeças de gado, que agora estão sob o poder da Secretaria Nacional de Bens Apreendidos e Confiscados (Senabico, na sigla em espanhol).
Segundo a imprensa paraguaia, Messer criou ao menos quatro empresas, desde 2011, para a prática de lavagem de dinheiro. Ele seria dono de 152 propriedades que alcançariam mais de 100 mil hectares, quase 10 vezes o tamanho da cidade de Assunção.
 O jornal espanhol “El Pais” ( na edição brasileira online), em reportagem publicada no início de maio, quando do alerta da Interpol contra Messer, relatou que ele é acusado de ter coordenado um esquema que movimentou mais de 1,6 bilhão de dólares em 52 países. No Paraguai, os promotores do caso acreditam que o montante de recursos ilegais no país chegaria a 40 milhões de dólares.
Indagado pelo paradeiro de Messer, em uma entrevista ao canal de TV Telefuturo,um de seus advogados, Ricardo Galeano,respondeu que por dever profissional não pode revelar a localização do cliente. Mas, as suposições se voltam para Israel, onde a família de Messer se mudou em 2015. Dois anos antes, ele integrou a comitiva  do então presidente Horacio Cartes que visitava Israel pela primeira vez.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Redes sociais criam rabinos pop stars


Por Sheila Sacks

Com considerável número de seguidores na internet, rabinos ortodoxos estão se alçando ao patamar de estrelas pop stars, em anos recentes, algo inimaginável, por exemplo, no século 20. Tendo o estudo da Torá como tema prioritário, eles disseminam os fundamentos da religião judaica nas redes sociais através de vídeos caseiros que são assistidos e compartilhados por judeus e não judeus de todos os rincões do planeta.

Nessa onda virtual, vários rabinos brasileiros, alguns residentes em Israel, semanalmente oferecem aulas nas redes sociais sobre os vários aspectos da religião judaica, de forma coloquial e inspiradora.

É o milagre da era tecnológica que, se por um lado aproxima o judaísmo das pessoas que não frequentam as sinagogas ou estão afastadas da religião, também traz preocupação e temor a esses mesmos judeus do ramo ortodoxo pelo potencial risco de malefícios, em especial a dependência viciante, a exposição à violência e à pornografia, e a desagregação familiar.  Fatores negativos alarmantes associados à internet. 

Uso restrito

 Há quase duas décadas, a corte rabínica do segmento ultraortodoxo Haredi classificou a internet como “um veneno mortal que queima as almas”.  Atualmente vivem em Israel 1 milhão de haredim, representando 12% da população, e a previsão é que o grupo aumente consideravelmente até 2065, quando serão 40% dos cidadãos israelenses. 

Relatório anual do “Israel Democracy Institute” – um centro independente de pesquisa sediado em Jerusalém -  aponta o uso da internet, em 2016, por 54% dos haredim, um aumento significativo em comparação a 2009, quando o uso estava restrito a 28% dos seus integrantes.

 Porém, os judeus ortodoxos em geral são muito cautelosos no uso da internet, utilizada essencialmente para fins de trabalho. Ainda assim, eles são aconselhados a empregar filtros e outras salvaguardas. Em relação à família, suas crianças e jovens não têm permissão de acessar a internet, ou, em alguns casos, é permitido um acesso muito limitado.

A preocupação é tanta que em 2012, cerca de 60 mil judeus ortodoxos lotaram dois estádios em Nova York para debaterem a melhor forma de proteção contra as ameaças da internet, principalmente em relação às crianças que ficam expostas a pornografia e sites violentos.

 Perigo espiritual

Anos antes, em 2007,  a seita ultraortodoxa Ger ou Gur Hassidim( fundada na Polônia, em 1859, pelo rabino  Yitzchak Meir Alter), lançou uma campanha para proibir totalmente o uso da internet por seus membros, alertando para os perigos espirituais do uso dos computadores e por considerar a internet “um mal disfarçado” , um autêntico “satã corruptor”.

Em editorial no jornal israelense “Hamodia”, voltado para o público haredi, os líderes dos Gur Hassidim criticavam o “declive espiritual” da juventude exposta a imagens proibidas veiculadas pela internet e se diziam atentos ao “mal-estar das pessoas que buscam um modo de vida fora do abismo”.

Diante da polêmica, o falecido rabino Ovadia Yosef (1918-2013), então líder espiritual do partido ortodoxo Shas, que representa a comunidade seefardita, propôs a criação de uma internet própria, com conteúdo restrito.  Atualmente o Shas é o quinto maior partido do Knesset.

Sem WhatsApp

Em 2016, intensificando a campanha contra a internet, rabinos do Gur proibiram o uso do aplicativo WhatsApp aos seus seguidores, exceto para fins de trabalho. No encontro realizado em Jerusalém foi reforçada a proibição do uso de telefones celulares com internet, principalmente nas sinagogas e arredores.  Apesar da orientação, muitos membros desse segmento religioso continuam a usar celulares com a internet filtrada, os chamados “smartphones kosher”.

De acordo com o site da organização Beit Chabad,  do movimento ortodoxo Chabad-Lubavitch, à parte a preocupação com a internet e também com a televisão (que não é aconselhada), os hassidim fazem uso de telefones celulares, dirigem carros e usufruem de outras formas de tecnologia.

Reconhecendo que a “internet é impecável em sua capacidade de disseminar informação e valores da Torá”, cujo melhor exemplo é o importante trabalho virtual desenvolvido pela organização, a ressalva do Chabad-Lubavitch permanece na medida em que proliferam sites que o movimento considera prejudiciais à família.

Torá e internet

Em junho de 2018, uma pesquisa sobre o uso da internet em Israel pelos rabinos haredi, desta vez conduzida pelo professor Yoel Cohen, da Escola de Comunicação da “Ariel University”, em Samaria, mostrou que 51% deles fazem uso dessa tecnologia. O estudo também revelou que 71% dos rabinos haredi têm computador, um número bem menor do que o alcançado pelos rabinos de outros segmentos ortodoxos, cuja percentagem atinge 98%. 

A pesquisa averiguou que pelo menos 70% dos rabinos das diversas correntes, inclusive os haredim, usam o computador para preparar as aulas de Torá. Porém, tratando-se de mídias sociais, os haredim não as utilizam, diferente de um quarto dos rabinos de outros segmentos religiosos que disseram ter contas na mídia social.

Foram distribuídos 330 questionários para serem respondidos anonimamente. Segundo o professor Cohen, a consulta demonstrou que a campanha contra o uso da internet levada a cabo pela liderança haredi e por outros grupos ultraortodoxos, ao longo dos anos, não conseguiu banir essa tecnologia em sua totalidade. 

Diante do fato, ele acredita que os rabinos haredi e os demais têm um desafio contínuo no século 21 “que é avançar com suas comunidades em direção à revolução tecnológica, garantindo os valores e a ética do judaísmo e mantendo o compromisso de que os padrões sociais judaicos permaneçam em vigor como eram antes da era do computador e da internet”.

Donos da Internet

Em outro extremo, um artigo publicado em 2009, no site da instituição americana “Freedom Research Foundation, e republicado em 2014 no site da organização holandesa pró-palestina “Stop the Occupation”, menciona de forma crítica os nomes dos judeus envolvidos com o Google, Facebook, Wikipedia, Yahoo!, MySpace e eBay. 

O texto intitulado “The Jewish hand behind Internet” (A mão judaica por trás da Internet) descreve as supostas afiliações judaicas com cada um dos gigantes da internet e o controle que exercem sobre os mesmos.

Claramente agressivo, o artigo faz uma ligação entre os empreendedores judeus da internet e o estado de Israel que juntos representariam um único mecanismo de poder na rede.   “Os judeus, contrariando as visões liberais que oficialmente dizem professar, em atos repressivos demonstram que sempre buscam dominar o fluxo de informações e que não toleram qualquer dissidência”, afirma.

São citados Sergey Brin (Google), Jim Wales (Wikipedia), Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg (Facebook), entre outros. Em tom de zombaria, o artigo também ridiculariza a prática da filantropia, classificando-a de “um passatempo judaico favorito”. Por fim, o texto ameaça: “Chegou a hora do resto do mundo não judeu saber que a liberdade de informação na internet está seriamente ameaçada.”

O artigo insultuoso e ofensivo aos judeus ganhou a repulsa de grupos antirracistas e foi denunciado pelo Centro de Informação e Documentação de Israel ( Center for Information and Documentation Israel - CIDI) que apresentou uma queixa formal ao Gabinete de Reclamações e Discriminação na Internet (Dutch Complaints Bureau for Discrimination on the Internet – MDI ) contra a organização holandesa, acusada por incitamento ao ódio e à discriminação.



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

5779, o ano que vivemos


Por Sheila Sacks

Piora aquele que não se torna melhor” (Rabi Aharon de Karlin, o pregador, 1736-1772)

Curto, incompleto, insatisfatório? O ano que se foi e este que lhe sucede vão continuar velozes e vorazes, atropelando o tempo, o bom senso e os projetos sonhados?

Prisioneiro de um campo de trabalhos forçados na Sibéria, por mais de uma década, o Rebe Mendel Futerfas ( 1906-1995), que ajudou milhares de judeus a escaparem da Cortina de Ferro após a Segunda Grande Guerra, tinha uma frase emblemática, talvez resultante de sua experiência de sobrevivente do gulag soviético.

Para ele, “se você perder seu dinheiro, não perdeu nada. Dinheiro vai e dinheiro vem. Se você perdeu a saúde, perdeu metade. Você não é a pessoa que era antes. Mas, se você perder seu entusiasmo, então perdeu tudo”.

Histórias reveladoras

Nos idos de 1990, duas amigas nova-iorquinas, Yitta Halberstam e Judith Leventhal, resolveram recolher histórias de pessoas que vivenciaram fatos que geralmente são classificados como coincidências, sorte ou puro acaso. Encontros inesperados em momentos de necessidade, viagens que se revelam transformadoras, situações aparentemente insignificantes que impedem que ocorram danos ou males, grandes frustrações que abrem espaço para realizações mais felizes, momentos há muito aguardados que se concretizam em determinadas datas.

Por quase duas décadas elas publicaram uma série de oito livros com centenas dessas histórias reais, com o registro dos nomes verdadeiros dos seus personagens ou se utilizando de pseudônimos. Para as autoras, a narração de cada caso reforçava a tese de que não existiam coincidências e sim “pequenos milagres”. O que enxergaríamos como coincidências extraordinárias na verdade seriam mensagens espirituais, sinais mágicos, testemunhos misteriosos a nos alertar que não estamos sós. Uma espécie de resposta para uma pergunta ou uma oração. Um sublime retorno que receberíamos do universo.

As histórias relatadas igualmente mostravam a força do princípio espiritual de que o pensamento cria a realidade e vibrar uma determinada energia atrai uma energia semelhante. A propósito, o físico Albert Einstein disse certa vez que o homem só pode assumir duas posições sobre a existência de milagres: ou acredita que nada na vida é um milagre ou acredita que tudo na vida é um milagre.

D’us fala conosco

Assim, o Criador, os grandes mestres, os anjos e os seres espirituais que habitam a eternidade estariam ao nosso lado em cada pensamento e gesto articulados pelo binômio corpo e alma que forma a identidade individual de cada ser humano em sua existência terrena.

Apesar da concessão do livre arbítrio e a nossa liberdade de escolha, nada ocorreria acidentalmente, escrevem as autoras. Ao contrário, haveria uma forte dose de predestinação na trajetória do homem. “Quando oramos, estamos falando com D’us Quando as “coincidências” ocorrem, é D’us que está falando conosco.”

Em 1964, o cultuado Rebe M.Schneerson (1902-1994), do movimento Chabad Lubavitch, respondendo a uma carta, assinalou que não existe contradição entre o livre arbítrio humano e a Sabedoria Divina, e esta não afeta a liberdade do homem. E ilustrava a afirmação com o exemplo de uma pessoa clarividente, que tem o dom de prever acontecimentos, ou de um psicólogo que pode prever as reações de um paciente. Segundo o Rebe, esse conhecimento antecipado não vai afetar os eventos e as ações que irão acontecer.

“Porém, D’us é ilimitado em tempo e conhecimento”, escreve o Rebe, “e Sua Sabedoria se estende a todos os tempos e locais, mas nunca afeta a liberdade das ações humanas”.

Escrito nas estrelas

Em suas inúmeras palestras ao longo do tempo, as autoras continuadamente assinalavam para a plateia que as histórias relatadas em seus livros traziam à tona a força do princípio espiritual de que o pensamento cria a realidade e vibrar uma determinada energia atrai uma energia semelhante. Constatação essa que vai de encontro ao dito hassídico que atesta: “Pense o bem e o bem acontecerá!”

Um pensamento que faz lembrar novamente as palavras do Lubavitcher Rebe sobre a trajetória do homem na terra. Dizia ele que nossa missão na vida é basicamente trazer mais luz, ainda que considerasse a luta contra o mal uma atividade muito nobre quando necessária.

Ainda de acordo com Yitta e Judith muitas pessoas se manifestavam, através de cartas ou nos encontros coletivos, dizendo que mudanças significativas começaram a surgir em suas vidas, após a leitura dos livros. Isso porque elas se tornavam mais atentas às “coincidências” e à maneira de examinar o passado, a partir de então, com um olhar diferente, reconhecendo os pequenos milagres que antes não haviam identificado. E, em função dessa mudança de olhar, suas vidas se tornavam mais espirituais e iluminadas.

Em 2008, por ocasião dos 70 anos do pogrom contra os judeus ocorrido na Alemanha nazista, conhecido como a Noite dos Cristais (Kristallnacht), as autoras publicaram uma edição com 50 histórias reais sobre o holocausto e pós-holocausto, também relatando eventos inexplicáveis em que vidas humanas foram poupadas e famílias reunidas novamente. Histórias inspiradoras que mostram situações aparentemente casuais cujas ocorrências em determinados momentos deram suporte ao espírito e à fé das pessoas.
 
Enfim, um trabalho literário que despertou sentimentos de conforto, esperança e confiança nos milhões de leitores que as autoras acumularam no correr dos anos. Neste caso, cai bem o dito do rabi Elimelech de Lizensk (1717-1786), um dos fundadores do Chadissismo: “Sempre que duas pessoas se encontram, algo de bom resulta para uma terceira.”

domingo, 12 de agosto de 2018

Disputa de terra no Brasil causa assassinatos


Por Sheila Sacks

Nos dois últimos anos aumentou a média de assassinatos e chacinas de trabalhadores rurais e diminuiu os recursos governamentais para programas de ajuda às famílias do campo. Uma dobradinha perversa que representa um retrocesso na política agrária do país.


Reprovado por 82% da população brasileira, segundo  pesquisa do Datafolha divulgada em 10 de junho, o governo Temer não só atinge o maior índice de impopularidade das últimas três décadas para um presidente,  como também entra nas páginas da história apresentando um número recorde de assassinatos em conflitos no campo, ocorridos nos dois anos de sua gestão.

De acordo com o relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT)  “Conflitos do Campo Brasil”, divulgado em 4 de junho, desde 2003 ( quando foram registrados 73 assassinatos) não ocorriam tantas mortes por disputas de terra no país. Em 2017 foram 71 assassinatos, dez a mais em relação a 2016, quando foram registrados 61 crimes no campo. Desses assassinatos, 31 mortes ocorreram em cinco chacinas.

Também em comparação a 2016 aumentaram as tentativas de assassinatos em 63% (de 74 investidas para 120) e as ameaças de morte em 13% (de 200 para 226). A diminuição de 6,8% no número de conflitos no campo, em 2017, com 1.431 ocorrências, fez com que o índice de um assassinato por 25 conflitos, registrado em 2016, quando se sucederam 1.536 conflitos, alcançasse um assassinato por 20 conflitos.
 
Mapa de assassinatos da Global Witness
(cor mais escura assinala maior número de mortes) 
Aumenta a brutalidade 

O professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Cláudio Maia, ao analisar os dados de 2017 notificados pela CPT identificou que em dois dos massacres - o de Colniza (MT), com nove  mortos, e o de Pau D’Arco (PA), com dez mortos -  a quantidade de pessoas assassinadas só foi menor do que na emblemática chacina de Eldorado dos Carajás, ocorrida em 17 de abril de 1996, com 19 mortes. Quanto ao número de massacres, desde 1998 não se registrava, em um único ano, mais do que dois massacres.

Para Airton Pereira, autor do livro “Do Posseiro ao Sem-terra”, e José Batista Afonso, advogado da CPT, em Marabá, que acompanham os conflitos no campo, o que assusta é identificar o “grau de brutalidade e crueldade” que acompanharam os massacres. “Cadáveres degolados, carbonizados, ensanguentados, desfigurados. Exemplos que deverão ficar marcados para sempre na alma de homens, de mulheres, de jovens e crianças. Uma pedagogia do terror”, relatam.

A CPT esclarece que registra como massacre quando em um conflito, no mesmo dia, são assassinadas três ou mais pessoas. Por isso, após uma divulgação inicial, em 16 de abril, sobre os números de assassinatos em conflitos no campo, a Pastoral decidiu incluir como massacre o caso de Canutama (AM) – em que três pessoas desapareceram quando faziam um levantamento para a regularização de lotes - , aumentando para cinco o número de ocorrências em 2017. 

A Pastoral destaca que os assassinatos de trabalhadores rurais sem-terra, de indígenas, quilombolas, posseiros, pescadores, assentados, entre outros, tiveram um crescimento brusco a partir de 2015, quando ocorreram 50 mortes. São três anos consecutivos de um processo cumulativo de assassinatos que envergonham o país.  Até então,  entre 2004 e 2014, os índices anuais não ultrapassavam o limite de 39 mortes. Na década em questão, houve até uma redução do número de vítimas fatais resultante dos conflitos no campo, com o registro de 28 mortes, em 2007 e 2008, e 25 mortes em 2009.

O gráfico “Assassinatos 2003-2017”  está incluído no relatório da Pastoral que, desde 1985, acompanha, registra, denuncia e divulga publicamente as mortes e os massacres envolvendo os conflitos no campo.

Expansão das áreas de conflito

O professor e geógrafo Carlos Walter Porto Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense (UFF), assinala que nos últimos anos houve uma expansão das áreas onde os conflitos ocorrem. Em 2008, os confrontos envolviam 6,5 milhões de hectares. Em 2016, a área aumentou para 23,6 milhões de hectares, e em 2017, atingiu 37 milhões de hectares.

Autor de vários livros sobre o tema, sendo o mais recente “Amazônia: encruzilhada civilizatória. Tensões territoriais em curso” (2017), Porto Gonçalves observa que o aumento na violência no campo se intensificou a partir de 2015, com a “ruptura política” provocada pelo processo de  impeachment de Dilma Rousseff. Foram 132 assassinatos em 2016 e 2017.

Essa “ruptura” pode ser constatada nas ações políticas que se sucedem a partir de 2016. Segundo o CPT os recursos para a obtenção de terras foram reduzidos em mais de 60%, comparados aos valores de 2015. Igualmente os valores para a ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural) foram cortados pela metade, e o programa de Aquisição de Alimentos (PAA) que recebeu R$ 439 milhões, em 2016, baixou para R$ 150 milhões, no ano passado. Para 2018, a Pastoral afirma que o governo Temer já reduziu em 35% os recursos para a agricultura familiar e suprimiu mais de 56% dos valores destinados ao programa de segurança alimentar e nutricional para as famílias do campo.

Modelo agrícola concentrado

Em contrapartida, as indústrias de agrotóxicos movimentaram cerca de R$ 30 bilhões, somente em 2017, e pelas contas da “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida” o país deixou de arrecadar, pelo menos, R$ 1,3 bilhão, visto que muitos desses produtos estão isentos do pagamento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e, em muitos estados, são beneficiados com uma redução de até 60% da base de cálculo do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

Líder mundial do ranking de consumo de agrotóxicos, o Brasil despende, no mínimo, US$ 1,28 em tratamento médico com intoxicações a cada 1 dólar gasto com agrotóxico. Lembrando que a exposição dos trabalhadores rurais aos agrotóxicos, ao longo do tempo, causa diversos tipos de câncer e outras doenças que vão aparecer, também, nos consumidores de alimentos contaminados.  

A advogada Naiara Bittencourt, do movimento “Terra de Direitos”, enfatiza que políticas agrícolas que induzem ao consumo de agrotóxicos configuram “um modelo agrícola concentrado, dependente e envenenado”.

Impunidade e retrocesso

Desde 1985, a Pastoral divulga anualmente, em abril (em memória ao massacre de Eldorado dos Carajás), o relatório sobre a violência na área rural brasileira. Este ano, devido aos seguidos ataques hackers à sede da Pastoral, em Goiânia, fato denunciado pela organização, o relatório final só foi apresentado no início de junho. Nos 32 anos de aferição desses dados, a Pastoral catalogou 1.904 assassinatos, sendo que desse total 220 mortes foram resultantes de 46 massacres.

O documento também ressalta o ambiente de impunidade que ajuda a fomentar a violência no campo. Em mais de três décadas, apenas 8% dos assassinatos foram julgados, com a condenação de 31 mandantes de assassinatos e 94 executores.

Ainda assim, segundo o secretário nacional da CTP, Antônio Canuto, vai ser difícil encontrar os 31 mandantes em alguma cadeia. “Todos eles estão soltos”, afirma. “É a evolução da impunidade”, reforça.

No início de 2018, ao divulgar uma prévia do balanço sobre a questão agrária em 2017, a Pastoral já havia alertado para o “sombrio ciclo de retrocessos políticos” que o país estava sofrendo. Apesar de dados parciais que apontavam para 65 assassinatos (depois contabilizados para 71), a instituição chamou a atenção para o clima de terror que vingou em 2017, com assassinatos praticados com requintes de crueldade e a escalada da prática da chacina como método de aniquilação.