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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Nove anos depois, líderes bahá’ís seguem presos no Irã

Por Sheila Sacks

Em maio deste ano foi lançada uma campanha global para a libertação imediata de sete líderes da Fé Bahá’í, presos há noves anos no Irã, acusados de serem inimigos do Islã. O chamamento intitulado “Outro Ano, Não” pretende pressionar o governo de Teerã a libertar os cinco homens e duas mulheres condenados inicialmente a vinte anos de prisão. Com a redução da sentença, em 2015, para dez anos, por conta da aplicação de um novo código penal iraniano, o apelo é para que o grupo seja solto ainda este ano.

A comunidade internacional Bahá’í congrega mais de 5 milhões de adeptos em mais de 160 países, notadamente na Índia e no Irã. No Brasil, são mais de 65 mil pessoas de diferentes classes sociais, culturais e econômicas residentes em 1.300 municípios, do norte ao sul do país. Suas ações são direcionadas para os campos do diálogo inter-religioso e da promoção da igualdade racial, trabalhando em parceria com ONGs e instituições governamentais pela defesa dos direitos humanos, do desenvolvimento sustentável e da boa governança.

Uma fé perseguida

De acordo com o site oficial da comunidade Bahá’í, a sua fé é uma religião mundial independente, com leis próprias e escrituras, surgida na antiga Pérsia, atual Irã, em 1844. Foi fundada por Bahá’u’lláh (do árabe ‘A glória de Deus’), título de Mirzá Husayn Ali (1817-1892), e não possui dogmas, rituais, clero ou sacerdócio. Sua sede permanente está localizada no Centro Mundial Bahá'í,  na cidade de Haifa, um dos motivos da perseguição aos seus fiéis residentes no Irã, acusados de serem agentes pró-Israel e inimigos do Islã. No entanto, muito antes da existência do estado de Israel, a Fé Bahá’í estava presente naquele território. Isso porque os seus fundadores foram exilados e presos na colônia penal de Acre, na então Palestina, em 1868, 80 anos antes da independência de Israel, ocorrida em 1948. 

Vítimas de perseguições, os bahá´ís foram obrigados a deixarem o Irã, principalmente na década de 1950, durante o governo do Xá Reza Pahlevi, intensificando o  êxodo a partir de 1979, com a instalação da República Islâmica do Irã, do Aiatolá Khomeini. Nesse regime teocrático e fundamentalista, os bahá´ís iranianos são acusados de “infiéis” e “hostis”, e a sua comunidade de mais de 300 mil pessoas vive em permanente estado de opressão e precariedade religiosa, social e jurídica.

Em sua página oficial, a Fé Bahá’í descreve a situação crítica de seus adeptos no Irã, considerados inimigos do Estado: Desde a revolução, mais de 220 líderes da comunidade bahá’í foram mortos, locais sagrados demolidos, jovens expulsos de universidades, crianças maltratadas nas escolas, cemitérios destruídos, além da perda do direito ao trabalho, às pensões e aposentadorias.” Outro fato inédito a destacar é que os acusados não podem ter advogado de defesa.

Em razão dessa situação dramática, cerca de uma centena de bahá'ís iranianos receberam refúgio no Brasil na década de 1980. Eles se juntaram à comunidade bahá’í brasileira, cujo início remonta ao ano de 1921, quando da instalação do primeiro grupo bahá’í na cidade de Salvador, na Bahia.

Apelo Universal

Quando do lançamento da campanha pela libertação dos sete religiosos, a principal representante da Comunidade Internacional Bahá’í nas Nações Unidas, a advogada indiana Bani Dugal, exaltou a coragem do grupo e o sofrimento de suas famílias. “A nossa expectativa é que estes sete corajosos indivíduos sejam libertados até o próximo ano, ao completarem as suas penas, apesar de que, na verdade, eles não deviam sequer ter sido presos.” 

A representante fez, ainda, um relato dramático da situação dos condenados: "Os sete eram casados, com crianças, e antes de serem presos tinham vidas familiares muito queridas. Os sete eram também extremamente ativos e trabalhavam pela melhoria da sua comunidade e da sociedade iraniana como um todo. O longo período de prisão implicou, entre outras coisas, que perdessem o nascimento de netos, os casamentos dos filhos e parentes próximos, e os funerais de familiares e amigos."

Além dos sete Yaran (‘Amigos que ajudam’), como é conhecida a liderança bahá’í, mais 86 outros fiéis permanecem presos no Irã unicamente pelas suas crenças religiosas. Em 2009, após anos de luta na defesa dos bahá’í e contínuas ameaças de morte, a juíza iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz de 2003, teve que procurar refúgio na Inglaterra. “De fato, toda a comunidade bahá’í iraniana está sujeita à injustiça e crueldade, à opressão e tirania“ reforça Bani Dugal. ”Todos enfrentam políticas injustas de estrangulamento econômico, a negação de acesso ao ensino superior, e ataques maliciosos – que as autoridades não investigam - contra as suas propriedades, para não mencionar uma intensa propaganda negativa nos meios de comunicação oficiais”, acrescenta.
  
Em comunicado oficial, a “Casa Universal da Justiça”, instituição máxima da Fé Bahá’í, instalada no Monte Carmel, em Haifa, atribui ao “fanatismo rígido” dos dirigentes iranianos a conduta “irracional” de sufocar a minoria bahá’í, utilizando-se de “políticas tacanhas” que minam a credibilidade do país na esfera internacional. Composta por nove membros eleitos a cada cinco anos, a instituição exerce funções legislativa e jurídica, publica livros e documentos e administra todas as questões mundiais da fé em questão.

Os presos e suas famílias

Há dois anos, a jornalista nascida em Angola, Margarida Santos Lopes, que foi editora internacional do jornal “Público”, de Lisboa, e é especializada em assuntos que envolvem o Oriente Médio e o Islã,  publicou em seu blog um texto em que registra o perfil biográfico dos presos ( ‘Bahá’ís: Perseguidos no Irão, nem sempre amados em África’, em maio de 2015).  De início, ressalta a detenção de Mahvash Sabet, de 62 anos, professora e  responsável durante quinze anos pelo Instituto Bahá’í do Ensino Superior (atualmente fechado) onde lecionava Psicologia e Gestão. A organização educacional era uma alternativa acadêmica aos jovens bahá’ís proibidos de frequentar universidades nacionais.

Relata a jornalista que em 5 de Março de 2008, Sabet foi convocada pelo Ministério da Segurança, na cidade de Mashad, para responder a questões relacionadas com um funeral bahá’í. “Foi o início de uma campanha que levaria para a infame penitenciária de Evin, es filhos; o empresário Jamaloddin Khanjani, 81 anos (a sua mulher morreu em 2011, mas em Terã, todos os sete Yaran , detidos nas suas casas, na capital, em 14 de maio, afirma.

E prossegue: “À Mahvash Sabet juntaram-se a psicóloga Fariba Kamalabadi, 52 anos e trêle não foi autorizado a assistir ao enterro) e quatro filhos; o industrial a quem foi negado o sonho de ser médico Afif Naeimi, 53 anos e dois filhos; o engenheiro agrónomo Saeid Rezaie, 57 anos e três filhos; o assistente social forçado a ser carpinteiro Behrouz Tavakkoli, 63 anos e dois filhos; e o optometrista Vahid Tizfahm, 42 anos e um filho”, denuncia Margarida Lopes.

Lamentavelmente, a jornalista que tem uma posição bastante crítica em relação ao estado de Israel e que esteve recentemente no Irã para a revista de viagens “Volta ao Mundo”, não cita os bahá’is na interessante reportagem de exaltação à beleza natural, arquitetônica e histórica do país, apesar de detalhar um roteiro que inclui a localização dos vários grupos étnicos e religiosos que habitam a região ( ‘Uma viagem ao Irã que nunca viu’, em 19 de junho de 2017).

No entanto, os bahá’is são a maior minoria religiosa do Irã e seus líderes estão presos desde 2008 acusados pelo regime islâmico de espionagem e “corrupção na Terra”, crimes punidos com a pena de morte.

Sem provas

Para o Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Irã, com sede em Londres, não há provas para condenar nenhum dos sete religiosos. Fundado e presidido por Shirin Ebadi, 70 anos, primeira mulher muçulmana a receber um prêmio Nobel, a organização luta por uma maior conscientização dos direitos humanos no Irã, denuncia suas violações e dá apoio às famílias vítimas de perseguições política e religiosa.

A própria Shirin Ebadi é um exemplo da impiedade do regime fundamentalista do Irã. Juíza em Teerã, perdeu o cargo em 1979, logo após a revolução islâmica, sendo destituída da função porque as mulheres foram proibidas de conduzir julgamentos. Rebaixada a simples funcionária do mesmo tribunal onde era presidente, ela começou a advogar em defesa de ativistas políticos, jornalistas perseguidos e dos sete líderes bahá’ís, atividades que levaram ao seu encarceramento.

Em 1999, Ebadi ficou quase um mês presa em confinamento na prisão de Evin, acusada de perturbar a ordem pública. Foi condenada a um ano e meio de prisão e impedida de exercer a sua profissão por cinco anos, mas a pressão internacional fez o governo reduzir a pena para uma multa. Em 2008, o escritório que mantinha como centro de defesa de direitos humanos foi fechado pelas forças de segurança iranianas e o imóvel confiscado. No ano seguinte, com o agravamento das tensões políticas no Irã e as continuadas ameaças de morte, ela optou pelo exílio.

Em 2011, em visita ao Brasil para participar do encontro “Fronteiras do Pensamento”, em Porto Alegre, a ex-juíza iraniana denunciou mais uma vez a situação de violação dos direitos humanos no país. “No Irã, quem se opõe ao governo é preso. Muitos dos meus amigos estão na prisão e há relatos de assassinatos de prisioneiros políticos.” Ebadi é autora de vários livros, entre eles “Iran Awakening” (O despertar do Irã), publicado em 2006, e “Until we are free” (Até que sejamos livres), de 2016.

Causa Bahá’í na ONU

Outro importante combatente da causa Bahá’í é o diplomata originário das Ilhas Maldivas, Ahmed Shaheed, relator especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos no Irã. Eleito para o cargo, em 2011, pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, Shaheed, que vive na Inglaterra, foi reeleito pela sexta vez, no ano passado. Sua principal missão é lutar pela proteção dos direitos humanos nas sociedades islâmicas, apoiando a liberdade de religião e a abolição da pena de morte. Proibido pelas autoridades iranianas de visitar o país (desde 2005 o governo de Terã proíbe a entrada de peritos internacionais), ele emite comunicados periódicos à imprensa internacional pedindo a libertação “incondicional e imediata” dos sete líderes bahá’ís.

No Brasil, a posição do governo é de abstenção nas votações nos fóruns internacionais quando o tema é sobre as violações de direitos humanos no Irã. A atitude se consolidou, a partir de 2001, e o Itamaraty justifica o voto afirmando “dispor de informações que apontam avanços na situação dos direitos humanos no país”. Mas, o motivo real é evitar qualquer abalo econômico na relação entre os dois países que, em 2016, realizaram trocas comerciais no valor de 2 bilhões de dólares. 

Também desde 2015 o Brasil mantém seu voto de abstenção à renovação do mandato do relator especial para o Irã, no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Porém, o mais recente informe da relatoria especial, publicado em setembro de 2016, aponta 530 pessoas executadas no país. Em 2015, o número de execuções foi maior, atingindo entre 966 e 1054 pessoas, uma situação jamais registrada nos últimos 20 anos, segundo o relator Ahmed Shaheed.

No ano passado, ONGs ligadas à minoria religiosa Bahá’í no Irã já alertavam que o presidente Hassan Rouhani, eleito em 2013 com uma plataforma menos conservadora e mais aberta ao cenário internacional, não vinha cumprindo a sua promessa de campanha de combater a intolerância religiosa no país. Propagandas contra os adeptos dessa fé têm sido veiculadas livremente na mídia iraniana e jovens bahá’ís continuam proibidos de ter acesso às faculdades. Para especialistas em geopolítica, apesar das expectativas, não houve mudanças substanciais no Irã, porque o atual presidente ainda não transformou o histórico repressivo do país.

Rouhani foi reeleito em maio de 2017 para um novo mandato de quatro anos, com 57% dos votos do eleitorado, prometendo a retomada do diálogo com o Ocidente.


 Nota : A República Islâmica do Irã tem uma população de 82,8 milhões de pessoas, sendo 99% muçulmana ( 89 a 94% xiita e 5 a 9% sunita). O restante 1% da população é formada pelos bahá’ís ( 300 mil), cristãos (285 mil), zoroastras (25 mil), judeus (9 mil), Sabean-Mandaeans (mandeísmo) e Yarsanis (yarsanismo), estes dois últimos sem contagem oficial.

A constituição iraniana apenas considera minorias religiosas os cristãos, os zoroastras e os judeus que têm autorização para formar sociedades religiosas. Estipula, também, que todas as leis e regulamentos devem se basear em “critérios islâmicos” e na interpretação oficial da sharia (código de leis do islamismo baseado no Alcorão). Qualquer tentativa de conversão de muçulmanos é punida com pena de morte.  Por lei, os não-muçulmanos são proibidos de servir ao Judiciário, às Forças Armadas ou exercer funções públicas.

domingo, 6 de agosto de 2017

A face judaica-templária da Maçonaria


por Sheila Sacks


Publicado em "Maçonaria.Net"

 http://www.maconaria.net/a-face-judaica-templaria-da-maconaria/

Na obra “Antigas Letras”, o Grão-Mestre Leon Zeldis, 33º da Maçonaria de Israel ( The Grand Lodge of the State of Israel), chama a atenção para o fato de que os textos religiosos hebraicos onde aparecem os nomes divinos de D’us não são destruídos quando envelhecem, mas enterrados ou guardados em um lugar especial da sinagoga conhecido como guenizá. Diz a tradição judaica que qualquer fragmento de um texto sagrado que contiver o nome do Criador deve ser enterrado de acordo com determinados rituais. Entretanto, com o passar dos séculos e em função das perseguições sofridas pelos judeus, muitos documentos hebraicos foram apenas escondidos, daí o nome de guenizá (esconderijo), que corresponde em hebraico ao termo lignoze significa guardar, manter secreto.

Provavelmente, quando os primeiros templários chegaram à Terra Santa comandados por Hugues de Payen, em 1118, quase duas décadas após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados (1099), o objetivo real de sua presença não ficaria apenas circunscrito a dar proteção aos peregrinos que se deslocassem a Jerusalém. O grupo de nove nobres franceses oriundos da região de Provença que se estabeleceu na ala leste do palácio do rei Balduíno II, patriarca de Jerusalém, sob o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, passou quase dez anos promovendo escavações na área da Mesquista de Al-Aqsa, erguida sobre o local onde existiram dois grandes templos judaicos: o primeiro Templo, construído em 960 antes da Era Comum pelo rei Salomão e destruído por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.E.C., e o segundo Templo, reconstruído cinquenta anos depois no mesmo local e que resistiu até 70 da E.C. quando foi arrasado pelas legiões romanas.

No livro “A Chave de Hiram”, os autores maçons Christopher Knight e Robert Lomas destacam que os clérigos que acompanhavam os cavaleiros templários eram “todos capazes de ler e escrever em muitas línguas e eram famosos por suas habilidades em criar e decifrar códigos”. E transcrevem um comentário do historiador francês Gaetan Delaforge sobre os reais motivos dos templários: “A verdadeira tarefa dos nove cavaleiros era realizar uma pesquisa na área para recuperar certas relíquias e manuscritos que continham a essência das tradições secretas do Judaísmo e do Antigo Egito, algumas das quais provavelmente datavam do tempo de Moisés” (The Templar Tradition in the Age of Aquarius).

Uma Ordem acima de reis e rainhas

Legitimada pelo papa Honório II, em 31 de janeiro de 1128, a Ordem do Templo ganhou estatuto, regras e um comandante: o Grão-Mestre Hugh de Payens. Havia mais de 600 artigos no estatuto dos templários, segundo o historiador inglês Piers Paul Read, autor de “Os Templários”, sendo que a regra 325 relacionava-se com o uso de luvas de couro, que era consentido apenas aos capelães e aos pedreiros construtores de santuários e fortalezas. Mas, “em nenhum lugar havia qualquer menção a peregrinos ou a sua proteção, aparentemente ignorando a única razão para a criação dessa Ordem” (A Chave de Hiram). O papa seguinte, Inocêncio II, através da bula “Omne datum optimum” (1139), estabelece privilégios que tornam a instituição independente de toda interferência de autoridades políticas e religiosas. Segundo a encíclica, os templários só deviam obediência ao Papa.

Durante os próximos 200 anos a Ordem do Templo cresce e se expande em poder e riqueza, recebendo doações em dinheiro e propriedades na Europa. De acordo com os investigadores históricos ingleses, Michael Baigent e Richard Leigh, que pesquisaram a herança templária no surgimento da maçonaria, “em meados do século 12, a Ordem do Templo já tinha começado a se estabelecer como a mais poderosa e rica instituição isolada em toda a Cristandade, com exceção do Papado, com frotas de navios, territórios extensos e ligações secretas com líderes sarracenos” (O Templo e a Loja). Esses mesmos autores e mais Henry Lincoln ainda afirmam que coube aos templários criar e estabelecer a moderna instituição bancária. “Através de empréstimos de vastas somas a monarcas necessitados, tornaram-se os banqueiros de todos os tronos da Europa” (O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).

Com a perda de Jerusalém para os muçulmanos em 1291, a Ordem do Templo se transfere para Chipre. A ilha tinha sido conquistada pelo rei Jayme I (Coração de Leão), da Inglaterra, em 1191, e vendida, anos depois, para os templários. Em 1312, a Ordem é oficialmente extinta por um decreto papal emitido por Clemente V, sem que um veredicto conclusivo de culpa tenha sido pronunciado. Através da bula "Vox in excelso" o Papa extingue a Ordem do Templo “proibindo estritamente qualquer um de conjeturar em entrar para a referida Ordem no futuro, ou de receber ou usar seu hábito, ou de agir como um templário” (Os Templários). Em bula subsequente, a "Ad Providam", todos os bens e propriedade dos templários são transferidos para a Ordem dos Hospitalários, uma instituição similar a dos templários, que também funcionava na Terra Santa.

Na França, por ordem do rei Filipe IV, o Belo, os templários são perseguidos, presos e torturados. A Inquisição também se alastra por toda a Europa. As acusações concentram-se em supostas heresias e rituais praticados pelos membros da Ordem. O seu Grão-Mestre, Jacques de Molay, é condenado a morrer na  fogueira, na Ile de la Cité, em 1314.


Estado templário preocupava a Igreja

Setecentos anos depois desses acontecimentos, dúvidas ainda persistem sobre a verdadeira natureza da Ordem e de seus cavaleiros. Seriam eles guardiões de um conhecimento secreto adquirido na Terra Santa em contato com outras culturas ou mesmo oriundo de documentos sobre as origens do Cristianismo descobertos nas escavações? Para Baigent e Leigh, o impacto de antigas formas de pensamento cristão, não Paulinas, podem ter influenciado as atividades da Ordem no seu projeto para a criação de um Estado Templário e na sua política de reconciliar o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. “Os templários não negociavam apenas dinheiro, mas pensamentos também. Através de seu contato com as culturas muçulmana e judaica começaram a atuar como introdutores de novas ideias, novas dimensões do conhecimento, novas ciências” (O Santo Graal...).

A pesquisadora da Biblioteca do Vaticano, Bárbara Frale, em artigo publicado no “L’Osservatore Romano” (21.08.2008), jornal oficial da Santa Sé, afirma que os documentos originais do processo contra os templários, encontrados no Arquivo Secreto do Vaticano, demonstram que foram infundadas as acusações de que os cavaleiros praticavam em segredo ritos pagãos e haviam abandonado a fé cristã. De acordo com a autora, os templários não eram hereges e o que se descobriu nas atas conservadas no Vaticano é que “a disciplina primitiva do Templo e o seu espírito autêntico se haviam corrompido com o passar do tempo, deixando a porta aberta para a difusão de maus costumes” (Revelações do Arquivo Secreto do Vaticano: templários não foram hereges,no portal 'Zenit').

Aí caberia a indagação: quais seriam os “maus costumes”, segundo a avaliação da pesquisadora, adquiridos pelos templários? No mesmo artigo, Frale reconhece que “ainda há verdadeiramente muito que investigar” e adianta que o estudo da espiritualidade desta antiga ordem religiosa dará à cultura contemporânea novos motivos de discussão.


Escócia: refúgio dos templários e berço dos maçons

Da extinção oficial da Ordem até a fundação da primeira grande Loja Maçônica em Londres (1717), os autores  do “Santo Graal e a Linhagem Sagrada” registram que os templários ingleses e franceses encontraram refúgio na Escócia (país que ignorou a bula papal), e muitos deles também se integraram a outras Ordens e sociedades secretas na Alemanha, Espanha e Portugal. Conta-se que em 1689, na batalha de Killiecrankie, na Escócia, um dos aliados do rei Jayme II da Inglaterra, John Claverhouse, Visconde de Dundee, estava usando uma antiga vestimenta da Ordem do Templo, de antes de 1307, quando foi morto na luta. A referência ao fato foi publicada no jornal da primeira Loja de Pesquisas Maçônicas do Reino Unido (Quatuor Coronati), em 1920: “Lorde Dundee perdeu sua vida como líder do Partido Escocês Stuart. Segundo o testemunho do abade Calmet, ele teria sido Grão-Mestre da Ordem do Templo na Escócia” (O Santo Graal...).

Mas, muito tempo antes, nos meados do século 16, um manuscrito já comprovava a existência dos chamados franco-maçons e a sua subordinação à monarquia dos Stuart, principalmente ao soberano escocês Jaime I (1566-1625), que também foi rei da Inglaterra e da Irlanda. O historiador maçônico, Robert F. Gould, em “The History of Freemasonry”, transcreve o que era exigido dos franco-maçons à época: “... que sejais homens leais ao rei, sem nenhuma traição ou falsidade e que não tolerais qualquer traição ou falsidade, tratando de combatê-las ou notificá-las ao rei”. Segundo definição de um ilustre estudioso maçom José Maria Ragon (1781-1866), o termo franco-maçom somente se aplicaria àqueles que efetivamente cooperassem na obra de instrução e regeneração da humanidade. Os demais membros de obreiros construtores e integrantes da corporação de pedreiros seriam denominados simplesmente maçons.

Observa-se que a Grande Loja da Inglaterra, criada para centralizar a franco-maçonaria inglesa e que se constituiu no marco oficial da imagem pública da Maçonaria, foi instituída em 24 de junho de 1717, data emblemática para os templários e que lembra o nascimento de João, o Batista. A devoção a essa figura histórica é um dos elos que ligam os franco-maçons aos templários. Segundo o “Dicionário de Maçonaria”, de Joaquim Gervásio de Figueiredo 33.º, João Batista é o patrono da Maçonaria e todas as lojas maçônicas simbólicas são intituladas Lojas de São João.


A tradição judaica dos essênios

Preso e decapitado em 32 da Era Comum por ordem de Herodes Antipas, governador da Galiléia, Yochanan ben Ezequiel (nome hebraico de João Batista) provavelmente era membro da seita dos essênios, uma comunidade judaica que existiu durante os dois últimos séculos da era do Segundo Templo (150 antes da E.C. a 70 da E.C.). Historiadores judeus do século 1, Flavio Josefo e Philo de Alexandria, registraram a presença desse grupo ascético, que praticava um judaísmo ultra-ortodoxo, com jejuns frequentes e banhos rituais diários, e que habitava o deserto da Judéia, entre Jericó e Ein Guedi.

A partir de 1947, e até 1956, com a descoberta dos pergaminhos nas cavernas de Qumran (os manuscritos do Mar Morto), a tese de que os essênios eram seus autores ganhou força entre estudiosos e peritos de várias nacionalidades. Segundo Leon Zeldis 33º, os iniciados da comunidade de Qumran, cujas idades variavam entre 25 e 50 anos, aprendiam a “amar a justiça e ter aversão à maldade”. Consideravam-se herdeiros dos reis sacerdotes, simbolizados por Salomão (do hebraico Shlomo, que deriva da palavra Shalom-paz) e Melquizedek (do hebraico Malki-Tzadik, rei justo), rei de Salem (a atual Jerusalém), à época de Abraão. Alguns de seus membros, como João, o Batista, faziam votos de nazareos - do hebraico “nazir” que corresponde a “separado” ou “consagrado”. Os autores do livro “A Chave de Hiram” acreditam que “a voz que clama no deserto” poderia ser a de João Batista “que viveu uma vida dura no deserto, de retidão qumraniana, comendo apenas os alimentos permitidos, usando um cinturão de couro e uma túnica de pelo de camelo”.

Na obra “Os Manuscritos do Mar Morto”, o professor e doutor em teologia Geza Vermes destaca que os membros da seita se consideravam “o verdadeiro Israel”, fiéis representantes das autênticas tradições religiosas. Os sacerdotes, chamados de “filhos de Zadok” (o sacerdote da Casa de David), se constituíam na autoridade máxima da comunidade. A hierarquia era rigorosa. Cada membro era inscrito na “ordem de seu grau”. O mais alto cargo recaía na pessoa do Guardião, conhecido também como “Mestre” (maskil, em hebraico). Eram também instruídos a reconhecer “um filho da Luz” de um “filho das Trevas”. Na lista de infrações e de suas penas correspondentes, o pecado mais grave que demandaria em imediata expulsão da congregação seria qualquer tipo de transgressão, por ato ou omissão, às diretrizes da Lei de Moisés.

Em um dos manuscritos – o Preceito do Messianismo – é especificado que somente a partir dos 30 anos os homens eram tidos como maduros, podendo participar das assembleias, de casos em tribunais e tomar assento nos altos escalões da seita. O neófito vindo de fora que se arrependia de seu “caminho de corrupção”, iniciava-se “no juramento da Aliança” no dia em que conversava com o Guardião, mas nenhum estatuto da seita deveria ser divulgado a ele. Na avaliação do professor Geza Vermes, o retrato que assoma da leitura dos manuscritos em relação às ideias e aos ideais religiosos dos essênios é uma observância fanática à Lei de Moisés. No campo político, os essênios eram frontalmente contra a dinastia de Herodes e o domínio dos romanos sobre a Terra Santa.

Os livros secretos de Moisés

Dizimada pelos romanos em 66-70 da E.C., a comunidade de Qumram pode ter enterrado sua história, seus segredos e sua tradição secreta ligada a Moisés em algum lugar do templo de Jerusalém, seguindo a prática judaica de não destruir documentos sagrados (a cidade de Jerusalém fica a 40 minutos de carro de Qumram). Na obra “A Chave do Hiram”, os autores aventam a hipótese desses manuscritos terem sido descobertos pelos templários, no século 12, em função das sigilosas escavações realizadas no local por mais de uma década. No livro “A Odisseia dos Essênios”, o historiador britânico Hugh Schonfield faz referência aos livros secretos que Moises teria dado a Josué para que ele os mantivesse ocultos “até os dias de arrependimento”.

No livro do escritor francê Michel Lamy - "Os Templários. Esses senhores de Mantos Brancos"(1997) -  é lembrado o interesse do abade Estevão Harding, amigo e mentor de Bernardo de Clairvaux (incentivador da criação da Ordem dos Templários e autor de suas regras), por textos hebraicos. O abade procurava a ajuda de rabinos nas suas traduções do hebraico dos livros do Velho Testamento. Para Lamy, esse intenso interesse por textos hebraicos demonstram a crença na existência de um tesouro oculto enterrado sob o monte do Templo e algum tipo de relação com o lugar que mais tarde se tornou a moradia dos templários. O historiador Piers Paul Read também destaca que uma das primeiras traduções encomendadas pelos templários na Terra Santa foi a do “Livro dos Juízes”, do Velho Testamento. “Havia uma íntima e inquestionável identificação dos cristãos da Palestina com os israelitas de antigamente” (Os Templários).

Erguido pelo rei Salomão para abrigar a “Arca da Aliança” – relicário das palavras divinas a Moisés no deserto - , o grande Templo de Jerusalém concentrava nesse local toda a sua santidade. Construído sobre o Monte Moriá, o aposento onde ficava a arca sagrada era o lugar mais recôndito do Templo, chamado de “o Sagrados dos Sagrados” (Kodesh há-Kodashim), recinto cuja santidade era tal que somente o grande sacerdote (Cohen Gadol, em hebraico) tinha permissão de lá entrar, uma única vez durante o ano, no Dia do Perdão - Yom Kipur (Revista Morashá).

A adoção pelos templários e maçons dessa simbologia estruturada nos mistérios e segredos que se iniciam com Abraão, tem seu ápice em Moisés, se perpetua com a construção do Primeiro Templo por Salomão e sofre transmutações generalizadas a partir dos primórdios da Era Comum (após a destruição da comunidade de Qumram), ainda permanece envolta em véus em sua nascente e tem se mostrado um desafio para a Igreja Católica. De igual forma, a imensa quantidade de publicações, teorias e suposições a respeito do tema ainda não produziu uma resposta diferente daquela que anima e justifica o trabalho da maioria dos pesquisadores: a da “busca pela verdade” .


Os guardiões da Aliança

Em “As Intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto”, o leitor acompanha a trajetória dos manuscritos, desde das primeiras descobertas no deserto da Judeia, em 1947, durante o mandato britânico na Palestina, até o início da década de 1990, quando o conteúdo de muitos documentos ainda não tinha sido divulgado. A batalha para o livre acesso e publicação de mais de 800 manuscritos por parte de inúmeros pesquisadores de renome mundial é relatada por Michael Baigent e Richard Leigh que culpam a chamada “equipe internacional” comandada pelo padre Roland de Vaux, da École Biblique de Jerusalém, de manter por longo tempo o monopólio sobre os manuscritos. A polêmica se estendeu até a imprensa através das páginas do influente jornal americano "New York Times" que em editorial publicado em 9 de julho de 1989 criticou a morosidade das pesquisas, observando que “passados 40 anos, um círculo de estudiosos indolentes continua esticando o trabalho, enquanto o mundo espera e as preciosas peças vão se desmanchando em pó”.

Hoje sabemos que os membros da comunidade de Qumram costumavam referir-se a si próprios como “os guardiões da Aliança”. Tal conceito se baseia essencialmente na grande importância da “Aliança”, que impunha um voto formal de obediência, total e eterna, à Lei de Moisés. Daí a expressão “Ossei ha-Torá”, encontrada em um dos pergaminhos, que pode ser traduzida por “Agentes da Lei”, expressão talvez que fosse a origem da palavra essênio (As intrigas em torno dos Manuscritos...). Mas, para o pesquisador Robert Eisenman, autor de vários livros sobre os Manuscritos, termos como essênios, zadoques, zanoreanos, zelotes, sicários, ebionitas (os pobres) apontam para um mesmo grupo ou movimento ortodoxo de rigoroso cumprimento da lei mosaica.

Em seu estudo “Paulo como herodiano”, apresentado na Sociedade de Literatura Bíblica (Society of Biblical Literature), em 1983, Eisenman credita a Paulo (Saulo de Tarso) o papel de agente secreto dos romanos, após ser ameaçado de morte pelos “zelosos da Lei”. A partir dos manuscritos e de referências encontradas no Novo Testamento, o pesquisador afirma que a entrada de Paulo em cena mudou o rumo da história. “O que começou como um movimento localizado dentro da estrutura do judaísmo existente, e cuja influência se restringia aos limites da Terra Santa, se transformou em algo de uma escala e magnitude que ninguém na época poderia ter previsto. O movimento que estava nas mãos da comunidade de Qumran foi efetivamente convertido em algo que não tinha mais lugar para seus criadores” (As Intrigas em torno dos Manuscritos...).

Para os autores ingleses de “A Chave de Hiram”, Saulo de Tarso não conhecia profundamente os ritos nazoreanos da comunidade de Qumram e a sua simbologia da “ressurreição em vida”, cerimônia adotada pela Maçonaria em seu ritual de 3º Grau. Em um dos manuscritos encontrados, denominado “Preceitos da Comunidade”, é explicado que ao entrar na comunidade o sectário era elevado a uma “altura eterna” e unido ao “Conselho Eterno” e à “Congregação dos Filhos do Céu” (Geza Vermes, em “Os Manuscritos do Mar Morto”).

Outro importante estudioso dos manuscritos, o historiador John Allegro, em seu livro “The Treasure of the Copper Scroll” que traz a tradução completa do Manuscrito de Cobre, explica que “Qumram” é uma palavra árabe moderna e que no século 1 da E.C. o local era conhecido como Qimrôn, raiz da palavra hebraica que significa abóbada, arco, portal. O pesquisador também observou a utilização de códigos no Manuscrito de Cobre quando são citados os 64 esconderijos com metais preciosos e manuscritos pertencentes à Comunidade. Detalhe igualmente notado pelo padre J.T.Milik, que fazia parte da equipe internacional que analisou os manuscritos em Jerusalém. O religioso constatou a presença de técnicas de codificação críptica em alguns documentos secretos que continham informações sobre eventos futuros.


Nota: No livro “O Templo e a Loja”, os pesquisadores Richard Leigh e Michael Baigent relatam a descoberta de um cemitério com mais de cem lápides de templários durante as escavações  no Castelo de Pèlerin (Castelo do Peregrino) ou Fortaleza de Atlit, na década de 1980, a 10 quilômetros ao sul da cidade de Haifa, na costa norte do país, junto ao Mediterrâneo. A construção, erguida em 1218, foi a maior fortaleza da Ordem do Templo no então Reino Latino de Jerusalém e ainda são visíveis as ruínas da fortificação. Uma das tumbas dos templários ficou em exposição no Museu Arqueológico Rockefeller, na parte leste de Jerusalém.


Texto atualizado (escrito originalmente em 2011)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Em uma manhã de 2019, bandidos mandam rosas

a partir do relato de um estranho no bar

Por Sheila Sacks

(publicado originalmente em 22 de maio de 2012)

Em pé, exalando a lavanda, Dona Edite aproxima o rosto do espelho. “Até que estou arrumadinha”, avalia satisfeita com o que vê. Levando em conta as estripulias do tempo, o resultado não era de todo ruim. Afinal, aquele olhar azul celeste de galantes elogios permanecia irretocável. Ou quase. Sorri complacente com a idade, as rugas e os cabelos estriados de branco. Por alguns segundos aprecia os novos óculos de armação coral e num galanteio maroto pisca o olho esquerdo, alegre com o dia que a espera.

Vai à cozinha e encontra Letícia, descalça e de short desfiado, limpando a prateleira mais alta do armário.
 - Vou ao banco filhota, avisa em voz alta. A jovem, de pouco mais de 18 anos, move a cabeça sem retirar os minúsculos fones encaixados nos ouvidos. Empoleirada na escada, repara que a patroa está de vestido florido, rosto empoado, batom vermelho e bolsa branca a tiracolo. “Dia de pagamento, dia feliz...” cantarola em falsete, ao som dos acordes sertanejos que zunem em seus ouvidos. Fingindo não se importar com o gracejo, a velha senhora se apruma, encolhe a barriga, acena com a mão e sai porta afora.

Na ala de serviço, dona Edite dá bom dia ao faxineiro que, balde e rodo nas mãos, lê entretido qualquer coisa estampada na pilha de jornais velhos. Já no saguão, o porteiro meio que escondido atrás da bancada de madeira aciona a tranca da porta, a atenção dividida entre as imagens das câmaras de segurança e o desenho animado que colore a pequena tela da tevê.

Alcançando a rua, ela anda por mais de dez minutos até chegar ao seu destino. Transeuntes apressados misturam-se a banhistas de havaianas, idosos de andar trôpego, donas de casa com sacolas de supermercado. Eles lotam as calçadas nos cruzamentos, um pequeno exército brancaleone. Da praia sopra um vento inoportuno que desarranja os cabelos de quem anda pela avenida principal.

Já no interior do banco, dona Edite se alinha na fila dos idosos e observa o atendente, um de seus preferidos. “Melhor assim”, pensa. O jovem gorducho, como de hábito, trata-a com uma cordialidade que a deixa encabulada. Ao final, despede-se com um celestial “até a próxima, minha linda“, carinho verbal que tem o dom de afoguear seu rosto, inebriar os sentidos, confundir a mente. Tal qual uma ébria, deixa-se levar pelo encantamento, esbarrando na porta giratória que a expele cambaleante para fora do banco, sob o olhar fixo e impessoal do segurança fardado.

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De volta ao apartamento dona Edite liga para o taxista. Em sua bolsa as notas dobradas já tinham sido contadas.
- Vamos para Bonsucesso, seu Antônio, informa satisfeita, ajeitando-se no interior do táxi. O veículo atravessa o Corte do Cantagalo e desce para a orla da Lagoa Rodrigo de Freitas. Em uma das curvas, a velha senhora se surpreende com a visão de meia dúzia de garças perfiladas sobre um estrado à beira do espelho água. Entre nuvens, o sol acanhado parece navegar para outras paragens. O táxi percorre as duas extensas galerias do Túnel Rebouças desembocando do outro lado da cidade onde nuvens cinzentas sombreiam o céu. “Dia de pagar promessa”, associa a velha senhora apalpando o pequeno guarda-chuva no fundo da bolsa.

Pelo terceiro mês consecutivo dona Edite repete o longo trajeto de Copacabana ao bairro de Bonsucesso para cumprir a promessa assumida pelo pronto restabelecimento de uma prima muito querida. Durante seis meses ela iria doar um salário mínimo para uma creche mantida por uma dessas organizações sociais de ajuda ao próximo. O valor poderia parecer exorbitante para uma professorinha pública aposentada, mas dona Edite tinha a vantagem de ser viúva de um procurador da República. Daí a generosa pensão que sustentava as suas viagens anuais aos museus e castelos europeus, financiava as assinaturas anuais do calendário operístico do Teatro Municipal, o plano de saúde top e outros prazeres herdados do tempo de casada, tais como as bacalhoadas semanais em um restaurante da Avenida Atlântica.

Entorpecida pela viagem e pelos pensamentos, ela fecha os olhos. “O tempo corre como o táxi de seu Antônio”, matuta de forma vaga, perdida entre a fronteira da consciência e do sono. Sorri ao lembrar a garotada da creche. “No Natal vou comprar uns brinquedinhos”, decide, enquanto o carro se embrenha pelo cenário desconhecido do subúrbio.

Em pouco mais de dez minutos o táxi diminui a velocidade e estaciona em uma esquina que parece desabitada. A rua silenciosa avança por dezenas de metros até uma pequena praça, ao fundo, de terra batida.   Casas de aparência diversas, com fachadas mal cuidadas ou parcialmente reformadas se seguem, uma após outra, sem guardar similaridade. Das calçadas irregulares  irrompem raízes de amendoeiras centenárias cujos galhos e ramagens se curvam sobre os paralelepípedos das ruas por onde os raros veículos transitam. Dona Edite olha a paisagem melancólica que traz à tona remendos de uma infância aflita e reprimida.
- Não vou demorar, fala para o taxista. Tome um cafezinho por minha conta e volte daqui a meia-hora, combina, os olhos fixos no muro alto que esconde a creche.

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Encimado por pontudos cacos de vidros, o muro de cimento é um desafio a possíveis intrusos. Dona Edite toca a campainha já antevendo o abraço afetuoso da risonha auxiliar. Enquanto espera, alça a vista para o horizonte recortado pela admirável estrada suspensa do teleférico que se estende sobre o conjunto de favelas do Alemão, uma cidadela fortificada e inexpugnável. Atravessando as várzeas e os pontos altos dos morros apinhados de casas aboletadas umas sobre as outras, dezenas de pequenas gôndolas envidraçadas deslizam pelos cabos de aço suspensos por gigantescos pilares em um vai e vem contínuo entre as estações construídas sobre os platôs. Dona Edite mais uma vez se surpreende com a visão daquela obra de engenharia realizada no início da década.

Postada na calçada, pressiona mais uma vez o botão vermelho instalado na frente do muro. O táxi há muito tinha sumido em uma curva em direção à avenida. Finalmente o portão é aberto e um sujeito de boca murcha, cabelos ralos e com as roupas sujas de massa e tinta assoma à soleira.
- A creche está em obra, madame, apressa-se em explicar. E emenda: - Só volta a funcionar na semana que vem.

Dona Edite sente que a bexiga fraca dá sinais preocupantes. De supetão ela cruza o portão sem dar tempo ao homem de impedi-la.
- Preciso usar o banheiro, meu filho. É rapidinho e sei o caminho, vai dizendo enquanto aperta o passo. Mas logo sente uma pressão violenta na nuca e se dá conta de que o homem a arrasta para o interior da casa. É largada em frente a uma enorme cratera escancarada no centro da sala. Homens de torsos nus empilham sacos de entulho trazidos do fundo do buraco que se alonga em um túnel por debaixo da casa. Outros cavam a terra dura e escura. Atônita, dona Edite percebe alguns homens fardados. Um deles se aproxima, o rosto oculto por uma touca escura de malha. Das fendas do gorro, dois olhos cinzentos e frios a avaliam.
- Deje la bolsa acá, ordena. O portunhol range na voz cavernosa do gigante. Ele usa coturnos emborrachados e colete à prova de balas. Aponta o banheiro. - Adelante, va.

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No estreito e comprido banheiro dona Edite se vê sem os documentos, dinheiro, celular, relógio, sombrinha e agenda. Todos na bolsa confiscada. Tenta entender o que acontece. O susto a leva imaginar que a polícia realiza uma operação secreta, talvez algo relacionado com informações do disque-denúncia. Mas tem consciência que não é bem isso que se desenrola do outro lado da porta. Seu sexto sentido a faz desconfiar de que uma possível operação terrorista está em curso. E ela se indaga em que parte daquele roteiro de horror sua personagem esdrúxula se encaixa.

Cerra os olhos e revê o enorme mapa das favelas do Alemão, detalhado e ampliado, ocupando toda a parede da sala. Nele foram pintados grandes círculos em vermelho nos pilares do teleférico, assinalando os locais da instalação das bombas. Ensaboando nervosamente as mãos, o coração dispara. Iriam explodir o teleférico com suas dezenas de gôndolas repletas de passageiros. Será isso possível? pergunta-se, temendo estar delirando. Faltava pouco mais de uma semana para a data grifada na parte alta do painel: 11 de setembro. Havia escutado em algum lugar sobre as homenagens a serem feitas às vítimas do histórico atentado às torres gêmeas de Nova York, ocorrido há quase duas décadas. Nos Estados Unidos e em vários países o patrulhamento já era ostensivo. Confusa, dona Edite sente que os pensamentos se embaralham em sua cabeça.

Tomada pela ansiedade anda em círculos no pequeno espaço entre o chuveiro e a pia. Exausta, calcula que esta encerrada naquele cubículo há mais de duas horas. ”Seu Antônio deve estar longe”, admite. “Afinal, quem em sã consciência faria a besteira que eu fiz? Que se urinasse na rua, ora pitombas!”, culpa-se mortificada.

Em parte, dona Edite não estava longe da realidade. O taxista havia retornado cinco minutos após o horário combinado. Ao não avistar a velha senhora na calçada, fica apreensivo. Toca a campainha várias vezes. Estranha o silêncio na casa e a ausência da passageira. Insisti, bate no portão, grita o nome de dona Edite. Irritado volta ao carro e liga para o celular de sua cliente. A resposta vem em forma de gravação: “Recados para a caixa postal”. Pelo retrovisor vê ao longe, perto da pracinha, um homem encostado em uma moto. Desiste de esperar. Guarda o celular, aciona o motor e se põe a caminho. Alguns metros mais adiante, em sentido contrário, uma patrulha faz a ronda em baixa velocidade. Seu Antônio fala com os seus dois ocupantes, aponta a casa e parte em direção à avenida principal na esperança tardia de encontrar a passageira sumida.

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Confinada no banheiro e completamente sem ação, dona Edite se deixa ficar abandonada sobre o tampo do vaso sanitário. Sons confusos e amortecidos pelas paredes vão ganhando contornos esquisitos em sua cabeça. Pessoas discutem, as vozes alteradas pela agitação e a raiva. Escuta xingamentos, gritos, urros de dor e o que parece ser uma movimentação de luta. Súbito a porta é aberta com um estrondo de ferragens partidas e um homem é empurrado violentamente banheiro adentro. Ele bate com as costas e a cabeça no piso de ladrilhos.
– Não faça isso, por Deus, colombiano, implora o homem com a voz engasgada. Em resposta, rajadas de metralhadora desfolham o seu peito que se rompe como um vulcão em erupção. Uma larva gosmenta tinge o morto de vermelho.
– Ninguna palabra, mujer, ordena o justiceiro mirando a mulher petrificada. A touca suja de sangue é jogada ao chão e com a mão faz um sinal inesperado para segui-lo. Dona Edite percebe que as pernas estão imobilizadas pelo terror. O gigante de botas se afasta e a velha senhora como um boneco de mola dá um salto e se joga sobressaltada em direção à porta tropeçando sobre os pedaços do morto que estranhamente se contorcem em convulsões.

Desordenada, ela se depara com a carnificina, o vestido florido empapado de sangue. Atravessa alucinada a sala onde corpos se espalham pelo chão. Gritos e batidas vindos do buraco tampado por pedras a confundem. Uma nuvem de calor e fumaça se eleva do chão e ela se desespera. O homem corre para o fundo do quintal e com precisão e agilidade afasta os móveis empilhados que escondem uma portinhola que se abre para o terreno baldio de uma rua próxima.

Fora da casa, dona Edite por um instante tem a impressão de que a cabeça vai explodir. De repente ela ouve o ronco estridente de uma motocicleta que vem em sua direção. Travada pelo medo, as pernas não a obedecem. O colombiano acelera em seus calcanhares.
- Detrás, bufa o desconhecido em fuga, respingando saliva e indicando a garupa da motocicleta. A velha senhora é arrancada do solo por um braço pesado como um trator. Ela se agarra à cintura do homenzarrão que a joga como um saco de roupa suja sobre o assento maltratado. A máquina saracoteia e ganha velocidade.
- Fogo! berra alguém, no fundo da rua. Dona Edite escuta, atrás de si, duas violentas explosões e o estrondo de uma casa vindo abaixo. Um furacão de poeira move-se velozmente sobre a rua. O colombiano faz uma manobra arriscada e, por alguns segundos, se detém a olhar os escombros da creche abraçada pelas chamas e rolos de fumaça.

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Já na avenida principal, ziguezagueando entre os carros, o bandido se lança para o complexo do Alemão, em um itinerário de incerteza e medo. Logo, dona Edite percebe que estão sendo seguidos. O colombiano acena para o comparsa na outra moto e este faz um sinal com uma das mãos indicando que tudo está bem.

Alguns metros acima da entrada da favela, em um estreito descampado, a velha senhora avista o incêndio lá embaixo e a confusão que se formou. Pessoas deixando as suas casas, outras acorrendo ao local, curiosos já amontoados em frente à creche destruída. Uma viatura dos bombeiros atravessa a rua na contramão com a sirene ligada. Ao lado dos escombros, um carro da polícia está em chamas.

Equilibrando-se na garupa, dona Edite sente uma fisgada no peito quando o bandido se desvia de uma carroça de bananas e a moto ameaça derrapar. A boca está seca, a cabeça lateja e os braços e pernas parecem entorpecidos. Olha para o alto e percebe que os bondinhos do teleférico estão parados. Passageiros contrariados saltam nas estações.
– Tá pegando fogo lá na rua das margaridas, grita o garoto para a mulher na janela que solta uma gargalhada estridente.

Os dois motoqueiros aceleram e se enveredam pelas ruelas estreitas e íngremes, desviando-se de restos de comida, latas de cerveja, garrafas e pneus. Cachorros soltos, porcos e gatos famintos perambulam por entre roupas estendidas em varais improvisados em meio a criançada que corre pelas vielas sem ter o que fazer. A poucos metros do topo da favela, uma saraivada de tiros interrompe a corrida. As motos rodopiam, estatelam-se no barro e seus ocupantes rolam pelo matagal. Dona Edite tem a queda amortecida pela copa de uma árvore e cai sobre os restos de um colchão imundo misturado ao lixo acumulado. Tenta se levantar a procura de um lugar para se esconder. Um corpo cai ao seu lado, vísceras à mostra. O sangue espirra em seu rosto e ela fecha os olhos por um minuto. A cabeça dói e um fiapo de líquido quente escorre pela face e pescoço. O homem ensanguentado grita de dor e fúria. Nas lajes, a céu aberto, um pelotão de bandidos varre o espaço com suas metralhadoras.

Desesperada, ela se arrasta até um beco próximo. Espreme-se em um vão entre alguns casebres e deixa o corpo exausto cair ao chão. Os pés inchados dentro dos tênis sujos de lama a enojam. O chão barrento exala forte fedor de urina. Seus lábios balbuciam a oração dos aflitos até o cansaço, o medo e a desesperança silenciá-los. Adormece e e quando novamente abre os olhos as luzes mortiças de algumas lâmpadas pintam a escuridão. Levanta-se com dificuldade, sob o olhar curioso de um menino que parece observá-la há algum tempo.
-Como chego ao teleférico, implora dona Edite. O vestido florido virou um trapo amarfanhado e ela tem consciência de sua figura patética.  O garoto de pouco mais de seis anos chupa os dedos de uma das mãos e leva alguns segundos até apontar, com a outra mão, a localização da estação, um pouco abaixo de onde estavam.

No interior da gôndola, a velha senhora é a única passageira. São quase 10 horas da noite e o bondinho completa seu último trajeto para o bairro de Bonsucesso. A gigantesca favela parece envolta em um falso silêncio de espreita, a ressonar como um paquiderme em vigília. A viagem se estende por intermináveis quinze minutos até a linha férrea. Desorientada, ela avista um táxi e solta um berro esganiçado. Joga-se no assento do carro e antes mesmo de dizer para aonde vai, põe-se a soluçar. O taxista nota as condições deploráveis da mulher e aguarda alguns segundos. Pergunta o que aconteceu. Dona Edite respira fundo e finalmente consegue articular as palavras:
- Copacabana, por favor. Em seguida, exaurida pelos acontecimentos se afunda no estofado e leva a mão trêmula ao coração.

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Em seu apartamento, dona Edite fecha as malas. A temporada em Fortaleza provavelmente será longa. A afilhada, residindo em uma base militar, longe dos parentes e às voltas com dois filhos pequenos, tinha ficado exultante com a novidade. Abatida, a velha senhora lembra mais uma vez a manhã seguinte à explosão da creche. Os jornais falavam de incêndio acidental na reforma do imóvel e apontavam a presença de botijões de gás, solventes e álcool como agravantes. Seis corpos carbonizados tinham sido encontrados, sendo quatro deles dos operários da obra e dois de policiais, em ronda pelo local, que foram colhidos pelas explosões.

Porém não foram os enganos da reportagem que a surpreenderam, nem tampouco o mau-humor de seu Antônio ao telefone. Um pouco antes do meio-dia, o interfone do prédio tocou e um entregador apareceu com os documentos roubados. Ansiosa e perplexa, ela recebeu de volta a bolsa e os seus pertences intatos. O homem com capacete de motociclista estava abraçado a um arranjo de rosas vermelhas, envolto em papel celofane e arrematado por um laço dourado.
– A pessoa que achou seus documentos também envia as flores, disse devagar.

A velha senhora se sobressalta ao lembrar o meio sorriso ameaçador do homem encapsulado. O destino das rosas foi a lixeira, mas antes, com o coração aos pulos, ela  leu o recado escondido no ramalhete. “A sorte não bate duas vezes na mesma porta”, diziam as letras cuidadosamente desenhadas no cartão. “Te cuida, dona Edite”.

A ameaça surtiu efeito. Os preparativos para a mudança não passaram de uma semana. Do advogado que a representaria, nesse longo afastamento, aos vizinhos, familiares e as poucas amigas, todos foram comunicados. O motivo alegado para a repentina decisão – mudança de ares – não suscitou indagações nem questionamentos. Na sua idade, pensavam, o mais recomendável seria mesmo dona Edite residir com algum parente.

Acabrunhada, ela contempla demoradamente o amplo quarto com a varanda graciosa que a viu jovem e recém-casada. Por mais de cinquenta anos esse foi o seu santuário, o sagrado refúgio dos momentos íntimos e especiais. A viuvez ainda a fazia chorar copiosamente sobre a cama de casal, admitia para si mesmo um tanto encabulada.

Relutante, ela se despede desse passado e fecha a porta do apartamento. Letícia a ajuda com as malas e as duas entram no elevador. Na calçada, seu Antônio põe as malas no táxi. Ela abraça a jovem e acena para o porteiro, seu Severino, a quem recorria em suas emergências domésticas. Entorpecida pelo calmante, olha ao redor e percebe, do outro lado da rua, um desconhecido encostado no poste de luz. Seu rosto está parcialmente encoberto pela aba de um boné.  Hesita por um momento mas logo se recompõe e entra rápido no veículo.
– Ao aeroporto, fala decidida. O rosto contraído e os pequenos olhos azuis enevoados revelam apreensão. Pela primeira vez, em todos aqueles dias de inquietação, tem a desagradável impressão de que o exílio pode durar mais do que o previsto. “Meu Rio de Janeiro, eu juro que volto”, promete a si mesma, experimentando uma súbita sensação de confiança.
-Vamos pela praia, seu Antônio, resolve dona Edite. - Sem pressa, acrescenta, abrindo a janela do veículo para olhar o céu límpido e sem nuvens, sempre um bom augúrio para viajantes e fugitivos.

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Com a sinopse na mão, Rogério Reis, o veterano repórter das crônicas policiais, ouve as alterações sugeridas pela produção do seriado “Missão Rio”, a ser exibido nas tevês europeia e norte-americana na esteira dos eventos internacionais realizados em anos recentes na cidade do Rio, a partir dos Jogos Olímpicos de 2016.  A começar pelo título: ao invés do atual “Dia de Pagamento”, algo mais impactante como “Terror no Alemão”. A data emblemática de 11 de setembro e sua relação com o histórico ataque às torres gêmeas em Nova York, também envolveria uma mudança de foco. Trocavam-se as milícias, os comandos das drogas e os guerrilheiros colombianos pelos mercenários do grupo terrorista al-Qaeda e seus assemelhados como o brutal Isis,  cujas ligações no Brasil  envolveriam a compra e venda de armamentos, o tráfico de urânio, sequestros e extorsões. A produção lembrou que o governo somente reconhecia como organizações terroristas a al- Qaeda e o Talibã. As demais - Farc, Sendero Luminoso e Hezbollah, entre outras - eram entendidas como grupos políticos.

Também seria agregada ao roteiro uma rocambolesca perseguição policial pelas ruelas da favela, incluindo os bunkers camuflados dos criminosos, as guaritas e alojamentos das tropas policiais e as estações do teleférico. Em função das mudanças, um novo personagem entraria na trama. Infiltrado na gangue, um policial da Interpol seria o olheiro dos criminosos. O agente duplo estaria observando a movimentação na rua, alertando pelo celular sobre a presença de eventuais curiosos. A imprevista chegada dos policiais e os acontecimentos seguintes provocariam um retrocesso nas investigações do órgão internacional, prestes a identificar as primeiras células terroristas nas favelas do Rio. Responsáveis pela introdução clandestina de lotes de urânio que já funcionariam como moeda forte na compra ilegal de armas, esses grupos radicais teriam instalado um poderoso aparato militar de ameaça e coerção às autoridades constituídas.


Enquanto anotava as modificações, Rogério Reis a princípio pensa em reagir e defender o texto original. Mas esse impulso dura apenas alguns instantes. Para todos os efeitos era um seriado televisivo, passível de alterações visando uma melhor comercialização no mercado exterior. A globalização e a contemporaneidade deveriam prevalecer sobre o regional no desenvolvimento do enredo, tinha alertado a produção, visto que a série já tinha sido negociada para mais de 90 países em quatro continentes.

Os demais roteiristas da equipe, já familiarizados com as sutilezas e artimanhas de textualizar histórias de olho na audiência, tiveram suas sinopses pouco modificadas. Cada uma delas a enfocar as muitas maravilhas da cidade e suas conexões com crimes, mistério e ação : do Pão de Açúcar, Corcovado, Arcos da Lapa, floresta da Tijuca ao estádio do Maracanã, Ponte Rio-Niterói, Aterro do Flamengo e favelas como a da Rocinha e do Complexo do Alemão. Cartões postais do Rio, para o bem e para o mal, cenários de muito perigo e violência a incitarem a imaginação de autores e produtores.

Finda a reunião, por instantes Rogério se sente um tanto deslocado com o ambiente de camaradagem e a própria visão do mundo daquela rapaziada talentosa e criativa que acolhiam, de uma maneira admiravelmente informal e despojada,  um sujeito retrô, pinçado no redemoinho do século 20. Aos 63 anos, o jornalista chegava a sombria conclusão de que a redação de um jornal não mais correspondia ao sonho que o motivou por tanto tempo a se lançar em busca da verdade na notícia. A geração de profissionais destemidos, e de certa forma idealistas em seus propósitos, estava acabada e enterrada, pensou. O mundo havia mudado, a começar pelo clima do lado de fora da emissora gelada. Naquele bizarro inverno de fim de década os dias se mostravam perversamente abafados, estranhamente secos e anormalmente inquietantes, varridos por ventos que uivavam ao entardecer.


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À noite, da janela de seu quarto de celibatário, Rogério Reis admira a paisagem que se descortina majestosa. Aquele apartamento em Santa Teresa o tornava um homem feliz e era um dos poucos bens adquiridos em mais de 35 anos de profissão. Estava animado como um adolescente com a perspectiva de trabalhar no texto e se integrar à irmandade dos jovens ficcionistas, seus irmãos de alma e imaginação.

Com cuidado abre a caixinha de madeira que mantém escondida no fundo de uma das gavetas do guarda-roupa e retira o pen drive metalizado. Insere no computador antiquado o pequeno dispositivo de memória e mais uma vez fica estarrecido diante da quantidade de informações sobre o esquema e o poderio dos senhores do crime envolvidos no fracassado atentado, um ano antes. Lá estavam citados nominalmente chefões de grupos paramilitares, contraventores, narcotraficantes, policiais, empresários, políticos, conhecidas autoridades, datas e valores das mesadas, contas de bancos, telefones, e-mails. A estratégia do ataque ao teleférico, detalhada nas várias etapas, diligentemente elaborada como uma operação de guerra. Um plano contra a presença nas favelas da Força Urbana Nacional e que não se esgotaria na primeira tentativa, ameaçava o homem de codinome Corvo. “A operação foi adiada, mas não suspensa. Atacaremos na ocasião oportuna e os comandos serão instruídos”, avisava.


Durante o último ano, o jornalista tinha mantido segredo sobre o registro da operação terrorista que não se concretizou por um desses imbróglios do destino, mas que poderia ser reativada a qualquer momento. O dossiê eletrônico lhe foi entregue às escondidas no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, semanas depois de um mal explicado incêndio em uma creche, perto do complexo do Alemão. Na ocasião, quatro dos mais importantes chefes das milícias e das facções criminosas mais temidas da cidade, unificadas sob um comando central, foram assassinados em suas celas, dias antes da remoção para uma prisão federal em Rondônia.

Como cenas de flashback, o jornalista rememora o dia em que foi enviado pelo jornal para cobrir os assassinatos e a sangrenta rebelião que se seguiu. Sorrateiramente, um dos guardas havia lhe entregue o pen drive, logo após a entrevista coletiva do diretor do presídio. Na ocasião, descobriu que os mortos faziam parte do esquema do atentado ao teleférico e que um túnel subterrâneo tinha sido escavado a partir da creche até os pontos onde seriam colocados os explosivos. Entretanto, a inesperada presença de uma patrulha no local forçou a mudança de planos. A operação foi interrompida, os comparsas eliminados, a casa incendiada e o colombiano sobrevivente assassinado dias depois.


Se esses fatos tivessem chegado ao seu conhecimento em outros tempos, quando as editorias dos jornais eram menos dependentes dos conglomerados econômicos  e não tão acorrentadas a interesses e compromissos inconfessáveis, Rogério Reis iria adiante, buscando mais informações. Assim havia conquistado expressivos prêmios de reportagens. Contudo, o medo e a sensação de impotência o sitiavam em um penoso cárcere interior. Sentia que o mundo tinha se fragmentado em fortificados carteis manobrados por imperadores inatingíveis e insubmissos às leis vigentes. Todos conectados e interligados em organizações, grupos e facções. Mandarins de um submundo tentacular que transitavam com naturalidade pelo legal e pelo ilícito, se assim os interesses ditassem. E, na maioria das vezes, a salvo da pressão das mídias e redes sociais, agora monitoradas e cerceadas por um severo código de regras e multas imposto pelo Judiciário. Não havia mais os dois lados da moeda, dizia para si mesmo,  porque a percepção do mal se tornou obsoleta.

Fechando o armário, o jornalista empurra o minúsculo drive atolado de segredos para debaixo das camisas e meias. Seguiria com as suas aflições, que se por um lado o castigavam por outro o impediam de desistir de si próprio. Todavia, entregava os pontos como profissional da notícia.  No contexto social e político de 2019 revelar a verdade seria como assinar a própria sentença de morte, no sentido mais implacável do vocábulo. E um ano depois, na solidão de seu apartamento, a máxima permanecia terrivelmente verdadeira.


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Animado com o novo trabalho, Rogério Reis entra pela madrugada reescrevendo a sinopse. Só percebe que o quarto ganha novos contornos de luz quando ouve o jornal ser jogado de encontro à porta. Vai até a geladeira e sorve alguns goles de mate pelo gargalo da garrafa. Com o jornal nas mãos, um título discreto no canto esquerdo da primeira página chama a sua atenção: “Polícia suspeita que al-Qaeda já atua nas favelas cariocas”. Por instantes se vê perdido entre as dobras do sonho, os sentidos anestesiados pelo cansaço. Tinha adormecido em frente à tela do computador e precisava acordar para concluir o enredo, pensa confuso. Mas o espelho da sala reflete a imagem real de um homem insone, com os cabelos desgrenhados e barba por fazer.

Exausto, ele desaba na cadeira. Conhecia o ardiloso estratagema da mídia de veicular fatos com lógicas distorcidas e deslocar a verdade para além dos interesses intocáveis. Contudo, essa notícia bem podia ser o prenúncio de uma desconhecida e perigosa realidade a ser experimentada com a politização dos grupos criminosos. As guerras civis no mundo árabe e a crise econômica na Europa que desandou em movimentos contrários a entrada de estrangeiros, lá pelos idos de 2011 e nos anos seguintes, tinham empurrado famílias inteiras desses países em conflito para a América do Sul. As favelas do Rio, com as casinholas postas à venda pelos antigos moradores, incapazes de arcar com os custos cada vez maiores dos serviços de urbanização, foram tomadas por legiões de imigrantes, principalmente depois das novas leis de imigração garantindo acolhida e emprego no país. E sucursais dos grupos terroristas Talibã e al-Qaeda poderiam estar fincado raízes nesses redutos politizados e radicais.

Sob a ducha gelada o jornalista bufa e solta impropérios, os músculos retesados pela friagem. Veste as surradas calças de brim, a camiseta branca de algodão, procura as sandálias de velcro embaixo da cama e aos poucos recupera a sanidade. Com os cabelos ainda molhados e a sinopse na mochila, ele sai do apartamento e vai ao encontro dos produtores.

Três horas depois, fechado os ajustes das principais cenas, o argumento é finalmente aprovado. Ainda com os nervos tensionados pela conversa, o jornalista mesmo assim pressente que “Missão Rio”, o seriado, está fadado ao sucesso. Exultante, entra no bar e pede pão na chapa com café pingado.
Um homem ao seu lado puxa conversa e fala sobre a violência na cidade. Conta a história de um sequestro às avessas e parece meio bêbado. Antes de ganhar a rua, Rogério dá a mão ao estranho demonstrando solidariedade ao que ouviu. 

Ele tem duas semanas para costurar o enredo e desenvolver os diálogos. Mestre do jornalismo investigativo, Rogério Reis está determinado a afastar as brumas da apatia e da indiferença que obscureceram seus últimos anos como repórter e professor de jornalismo. Lamentava, nos longos domingos solitários, sua crescente incapacidade de incutir entusiasmo naqueles jovens universitários que sonhavam com uma profissão em que a busca da verdade era a força motriz da atividade.

Desfazendo-se das roupas, completamente nu, senta-se à frente do computador. Por alguns segundos mantém a cabeça baixa, imóvel. Impulsivamente retira os óculos. Precisa de uma grande dose de inspiração e paixão para recriar a realidade de uma forma que não seja superficial e vã. Na adaptação acordada com a produção, a inusitada heroína terá de enfrentar novos vilões. Pensa no homem do bar e na sua história de folhetim. Sorri interiormente ao imaginar dona Nenê passando por todas aquelas peripécias. A homenagem tardia a única pessoa que o amou sem reservas e cobranças. Ele, o caçula rebelde de dona Nenê, agora viva e presente na pele de dona Edite.

De repente dá um murro na mesa, como quisesse se apartar do sentimento de perda que sempre o acomete quando seus pensamentos se remetem à mãe, aquela figura pequena e de pouca fala que o acompanhou por mais de quatro décadas. Recoloca os óculos, respira fundo e se lança ao texto. Sente-se estranhamento leve, talvez porque liberto das pesadas amarras morais que a verdade impõe. Mas, nem por isso frívolo o bastante para não reconhecer que apesar da verdade cobrar um preço demasiado caro, como cobrou no imponderável ano de 2019, o tempo, a história e a experiência têm ensinado, de maneira incontestável, que segredos não são eternos.


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De costas para a plateia, o personagem de Rogério Reis mostra-se empenhado em vencer mais esse desafio. Lentamente a câmara se afasta do homem que dedilha o teclado de seu computador e se desloca para a janela aberta, avançando em um sobrevoo fantástico pelos cenários de cartão-postal do Rio. Os acordes atrevidos de uma melodia rapper invadem a sala de exibição, enquanto as imagens submergem  e uma sucessão de letrinhas miúdas assoma o telão.


Minutos depois, as luzes se acendem e as pessoas se levantam das poltronas  ainda tontas pela escuridão. Ordenadamente saem do cinema para a algazarra dos corredores do shopping, deixando para trás sacos amassados de pipoca e copos de papel com restos de refrigerante. É noite de sexta-feira e filas já se formam nas praças de alimentação.


*** Pintura do artista novaiorquino Marcus Jansen