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domingo, 12 de maio de 2019

Israel e a maçonaria histórica


Por Sheila Sacks

No próximo ano, em maio, a cidade de Jerusalém vai sediar a “XVII Conferência Mundial de Grandes Lojas Maçônicas Regulares”, um evento que ocorre a cada 18 meses e congrega centenas de maçons de todo o planeta. Israel foi escolhido para sediar o encontro de 2020 pelos delegados presentes na conferência ocorrida em Bucareste, na Romênia, em 2014.
Atualmente reunindo cerca de 1.100 maçons – judeus, muçulmanos, cristãos e drusos israelenses - a maçonaria em Israel mantém 50 lojas ativas (já foram 70). Em maio de 2018, por ocasião da viagem a Israel de um grupo de maçons de Santa Catarina, o grão-mestre soberano honorário do supremo Conselho da Grande Loja do estado de Israel, Leon Zeldis (33º grau), fez uma explanação para os visitantes sobre a história da maçonaria na terra santa.
Com 88 anos e dezenas de livros publicados sobre a irmandade (alguns traduzidos para o português), Zeldis - que nasceu na Argentina, mas passou grande parte de sua vida no Chile -  veio residir em Israel nos anos 1960 e, em 1970 foi um dos fundadores da primeira loja maçônica de língua espanhola em Israel.
E foi justamente nesta loja, a “Fraternidade nº 62”, situada em Tel Aviv, que o venerável irmão falou aos brasileiros presentes, destacando a concepção humanista que rege a Ordem, a harmonia fraterna de seus membros e os grandes desafios frente a um mundo em contínuo processo de transformação social e tecnológica.
As Pedreiras do rei Salomão 
De acordo com Zeldis, a primeira reunião maçônica na terra prometida ocorreu em 13 de maio de 1868, na caverna de Zedequias (o 20º e último rei de Judá, morto em 697 antes da Era Comum), uma enorme gruta subterrânea de pedra calcária (reverenciada pelos maçons como ‘ As Pedreiras do rei Salomão’) que se estende por centenas de metros abaixo da cidade velha de Jerusalém.
Até a sua descoberta acidental, em 1858, por um missionário americano que passeava pela periferia da cidade, a existência da gruta foi considerada por centenas de anos como mais uma das lendas que envolvem Jerusalém. A comprovação de sua existência trouxe maior consistência à crença maçônica de que a origem da irmandade se remete aos trabalhadores que construíram o templo de Salomão e ao próprio rei, o primeiro e maior maçom segundo a narrativa histórica da Ordem.
Esse primeiro encontro de maçons, ocorrido há 151 anos na então província síria da Palestina Otomana, teve como condutor um ex-grão mestre da grande loja de Kentucky, Robert Morris, que viera ao país procurar vestígios de maçons na construção do templo do rei Salomão, três milênios atrás.
Participaram desse notável evento o governador turco da cidade de Jaffa, Nuredim Effendi, quatro maçons da comunidade americana local, o cônsul prussiano em Jerusalém e alguns oficiais do navio de guerra inglês Lord Clyde, ancorado no porto de Jaffa.
Zeldis chama a atenção para o fato de que o encontro reuniu pessoas de origens distintas, representantes cristãos católicos, anglicanos, luteranos e mórmons, assim como muçulmanos. “Esta é a fraternidade universal de nossa Ordem”, afirmou o grão-mestre israelense. Acrescentando: “Que segue preenchendo uma importante função em Israel, servindo como centro de união, onde abraçamos irmãos de qualquer origem ou religião, onde falamos qualquer idioma, todos unidos pelos mesmos ideais.”
Um mito maçônico 
A Caverna de Zedequias - localizada a poucos metros da Porta de Damasco, junto às muralhas da cidade velha de Jerusalém - , hoje um lugar turístico bastante visitado, ainda é utilizada pela maçonaria para reuniões de seus membros, principalmente em eventos internacionais com a participação de maçons de diversas nacionalidades.
Com 9 mil m² de área, mais de 100 metros de largura e altura média de 15 metros, a caverna se constitui em uma enorme pedreira de onde se supõe foram retiradas pedras de calcário branco conhecidas como “melekeh” (‘real’, da tradução do hebraico) para a edificação do templo de Salomão e de inúmeras construções milenares da cidade de Jerusalém. (Israel só teve acesso ao local após a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967). 
A maçonaria acredita que suas raízes se reportam aos construtores do templo (o primeiro Templo, destruído por Nabucodonozor, rei da Babilônia, em 586 antes da Era Comum), que seriam os trabalhadores pedreiros (‘maçons’, em francês, e ‘masons’, em inglês) citados no livro dos Reis (Melachim) da Bíblia hebraica (Tanach), muitos deles enviados por Hiram, rei de Tiro (Fenícia, atual Líbano) para ajudar a erguer o templo.
Está dito em “Melachim I – 5:32”:  “E os construtores de Salomão e Hiram e os gebalitas ( da cidade fenícia de Gebal) os lavraram e prepararam a madeira e as pedras para construir a casa.”
Mas, o mito maçônico de mestre maçom está focado essencialmente na figura de outro Hiram, também oriundo de Tiro, que trabalhou no embelezamento do templo. Para os maçons trata-se de Hiram Abiff , que segundo a maçonaria foi morto por se recusar a revelar os segredos do projeto do templo.  “E o rei Salomão mandou tirar Hiram de Tiro. Era filho da viúva, da tribo de Naftali, e pai era homem de Tiro, um latoeiro; e ele estava cheio da sabedoria e entendimento e habilidade para trabalhar todas as obras em cobre; e veio ao rei Salomão e executou toda a sua obra (Melachim I – 7:13-14).
Porém, outro artífice também é mencionado na construção do templo e incorporado às narrativas maçônicas. Trata-se de Adoniram (Melachim I – 5:28). Para os maçons era o mestre encarregado dos trabalhos de cortar e empilhar as madeiras das florestas do Líbano para serem utilizadas no templo. Ele e Hiram Abiff ( considerados por algumas correntes maçônicas como a mesma pessoa) seriam os mestres maçons precursores da Ordem.
A proximidade da caverna de Zedequias com o Monte do Templo, onde foram construídos, no século 7, a mesquita de Al-Aqsae e o Domo da Rocha (a Esplanada das Mesquitas) é para os maçons um forte indício de que as pedras da gruta foram transportadas para o local onde estava sendo construído o templo de Salomão.
Esta suposição fez com que durante o Mandato Britânico (1920 a 1948) pedras fossem retiradas da caverna e enviadas às novas lojas maçônicas que se instalavam em várias partes do mundo. É referida como “pedra angular” aquela que simbolicamente é o alicerce mais importante de uma construção.
Primeira loja em Jerusalém 
Mas, retornando à exposição do grão-mestre Leon Zeldis, este nos conta que Robert Morris, após retornar aos Estados Unidos, levou cinco anos para obter uma patente da maçonaria do Canadá e assim fundar, em 7 de maio de 1873, a primeira loja maçônica em Jerusalém, a “Royal Solomon Mother Lodge nº 273”. Entretanto, a loja não foi adiante e em poucos anos foi dissolvida.
Em 1880, foi instalada na cidade de Jafa a loja “A Porta do Templo de Salomão”, desta vez seguindo o Rito Mizraim, ativo no Egito. Porém, tampouco essa loja sobreviveu. Em 1906, foi obtida a patente do “Grande Oriente da França” e fundada a loja “L’Aurore”, também em Jafa, cujo nome hebraico é “Barkai”. A loja evoluiu e se tornou a mais antiga dentro da “Grande Loja do Estado de Israel”.
Nos anos seguintes, relata Zeldis, foram fundadas dezenas de lojas, com patentes das Grandes Lojas do Egito, Inglaterra, Escócia, Alemanha e Turquia. Somente em 1953 se logrou unificar todas as lojas do país, implantando a Grande Loja do Estado de Israel. “Nossa Grande Loja levantou colunas em quase todas as cidades do país”, atesta Zeldis. “Desde Nahariya, ao norte, a poucos quilômetros da fronteira com o Líbano, até Eilat ao sul, às margens do Mar Vermelho, nossas lojas trabalham em oito idiomas: inglês, francês, espanhol, romeno, turco e russo, além do hebraico e árabe que são os idiomas oficiais de Israel.”
Zeldis destaca que o passado da maçonaria em Israel está intimamente ligado ao processo de integração dos imigrantes que foram chegando ao país nos últimos séculos. “Não somente os judeus, mas também árabes muçulmanos e cristãos que vieram de outras regiões do Império Otomano (1299 a 1923), especialmente do Líbano, Síria e Egito.”
 Dificuldades contemporâneas
A diminuição do número de maçons em vários países, o envelhecimento dos atuais membros da Ordem, as fragmentações e cisões que continuam a ocorrer, “e não dão mostras de cessar”, foram apontados por Zeldis como fatores inquietantes que preocupam a maçonaria.
Entretanto, para o grão-mestre israelense a irmandade não pode se dissociar dos problemas de seu tempo, como “a instabilidade do mundo contemporâneo, a transformação veloz da tecnologia, o relativismo moral e a recusa a toda a autoridade, situações que produzem uma sensação de insegurança e incerteza”.
Nesse contexto sociocultural difícil, que impõe comportamentos, hábitos e estilos de vida bem diferentes de, por exemplo, 50 anos atrás, Zeldis faz questão de mencionar o que considera um fator positivo de inegável atrativo na maçonaria em um mundo onde o fugaz e o descartável imperam. Diz ele: “Nossas amizades têm valor permanente, nossos ideais não mudam de acordo com a moda ou o momento, nem variam segundo a geografia.”
Em sua palestra, o grão-mestre israelense igualmente avalia a importante influência da maçonaria na evolução da humanidade ao longo do tempo. “Muitos dos postulados da maçonaria como a igualdade diante da lei, a fraternidade das pessoas e dos povos, a liberdade de expressão, a educação universal, a responsabilidade mútua e a ajuda aos necessitados e muito mais passaram a integrar o acervo cultural das nações evoluídas, conduzindo a criação de numerosas instituições políticas e associações voluntárias que cumprem e põem em prática esses conceitos.”
Simbolismo e filosofia esotérica


Oficialmente, a maçonaria como hoje a conhecemos se estabeleceu em 24 de junho de 1717, em Londres, com a junção de quatro lojas locais. A primeira Grande Loja da Inglaterra (United Grand Lodge of England) tinha objetivos limitados, de acordo com Zeldis. “Apenas pretendiam eleger um grão-mestre e reunir-se duas vezes ao ano por ocasião dos solstícios, em junho e em dezembro.”
Surge aí a maçonaria especulativa (até então existia a maçonaria primitiva das primeiras civilizações e, a partir da Idade Média, a maçonaria operativa, dos construtores e cortadores de pedras de catedrais, mosteiros, castelos, muralhas e outras construções que se reuniam em associações) que absorveu as influências das doutrinas filosóficas e esotéricas que floresceram nos séculos 17 e 18.
“As cerimônias, os rituais e o textos maçônicos incorporaram rapidamente conceitos, símbolos e tradições da alquimia, da cabala, do hermetismo, das lendas da cavalaria, do neoplatonismo e dos cavaleiros templários”, explica Zeldis. “Esse conjunto de ideias e ideais atraíram filósofos, cientistas, aristocratas e pensadores que encontraram nas lojas maçônicas um ambiente propício para expor seus pensamentos e revelar suas descobertas, sem temer repressão política ou religiosa.”
Um espírito de liberdade, igualdade e fraternidade que também entusiasmou os chamados “apóstolos da liberdade”. Eram maçons os grandes revolucionários que promoveram a independência das colônias das Américas: George Washington (1732-1799), Simón Bolívar (1783-1830), Benito Juarez ( 1806- 1872), Giuseppe Garibaldi (1807-1882) e José Martí (1853-1895).
Plantio de árvores
Avi Baranes cumprimenta o representante do Keren Kayemet
A Grande Loja de Israel tem como grão-mestre, desde 2017, o árabe-israelense Suliman Salem. É o quarto grão-mestre dessa comunidade a ser empossado como líder maior da Ordem. Anteriormente, o grão-mestre israelense de origem judaica, Avi Baranes, exerceu o mandato por quatro anos.
Sob sua gestão, em 18 de setembro de 2015, foi inaugurada no Vale Arazim (Vale dos Cedros), nos arredores de Jerusalém, uma praça florestal, a “Masonic Forest Square”. O vale Arazim faz parte do Parque Metropolitano de Jerusalém administrado pelo “Keren Kayemet LeYisrael” (Fundo Nacional Judaico).
Na ocasião, após o plantio das primeiras mudas de árvores na praça, Baranes enfatizou os vínculos da maçonaria com Jerusalem, já que as tradições da Ordem são baseadas na construção do templo do rei Salomão. “Jerusalém é mencionada em todas as nossas reuniões ao redor do mundo. Assim, garantiremos que toda delegação que chegar a Israel venha visitar o parque e cumprir a “mitzvá” ( boa ação) de plantar uma árvore”, assegurou.  
Também o ex-grão-mestre dos maçons em Israel, Ephraim Fuchs, autor da iniciativa, comemorou: “Foi aqui, no Vale do Arazim, que os súditos do rei Salomão recolheram madeira de cedro para a construção do templo, e por isso esse local tem grande importância simbólica para os maçons. A partir dessa praça, avistamos Jerusalém, o berço internacional da maçonaria”. E completou: ”Esperamos que todos os maçons que visitam Israel venham até aqui para conhecer o local."
De acordo com a Grande Loja da Inglaterra existem hoje 6 milhões de maçons reunidos em 176 países dos cinco continentes. Somente nos Estados Unidos são 1 milhão de maçons.Na Inglaterra, 200 mil; no Brasil, 170 mil; e na França, 160 mil.
Fontes:
Leon Zeldis : “El papel de la masonería en la sociedade israeli: passado-presente–futuro”
Jerusalem Post: “Inauguration of the Masonic Forest Square in Jerusalem’, em 22.09.2015
Beith Chabad: "Melachim I "
Grande Loja de Santa Catarina
United Grand Lodge of England                                                                                          



domingo, 14 de abril de 2019

Um amigo de Israel na Alemanha


Por Sheila Sacks

Perto de completar um ano no cargo de embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, Richard Grenell, 52 anos, logo no primeiro dia de sua função publicou um tweet que provocou alvoroço nos meios diplomáticos de Berlim. 

Disse ele: “As empresas alemães que têm negócios com o Irã devem abandonar as operações imediatamente.” Neste mesmo dia, 8 de maio de 2018, Donald Trump anunciou a retirada dos EUA do acordo nuclear com o Irã.

Desde então, Grenell – que foi porta-voz dos EUA na ONU, de 2001 a 2008 - tem se mostrado um amigo incondicional do estado de Israel, atuando publicamente contra as atividades do movimento anti-Israel BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções); instando pelo total banimento da organização terrorista Hezbollah do território alemão, o que já ocorreu no Reino Unido, em março (a Alemanha aceita o que chama “a ala política” do Hezbollah, que no Líbano tem assentos no parlamento); e encorajando a Alemanha a se afastar de vez do acordo nuclear de 2015, com o Irã.

Em janeiro, Grenell obteve uma vitória diplomática para os EUA, com a Alemanha proibindo as aeronaves da empresa aérea iraniana Mahan Air de operar no país, por suspeita de dar suporte técnico e recursos para os terroristas xiitas do Hezbollah. Calcula-se que com a proibição se inibiu um fluxo de 345 milhões de dólares que seria direcionado à organização terrorista.

Desde 2011, essa companhia aérea foi banida dos EUA acusada de transportar agentes e armas para ações terroristas. E, no início de abril, o governo americano colocou a Guarda Revolucionária do Irã, a tropa especial do regime dos aiatolás, na lista de grupos terroristas.

Muito que fazer

Porém, em relação à Alemanha, o país continua no acordo com o Irã, não obstante empresas alemãs como a Siemens, a Bayer e a Telekom terem reduzido ou encerrado suas operações naquele país. Em fevereiro, o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier parabenizou o Irã por ocasião das comemorações da revolução islâmica de 1979.

Ainda em fevereiro, desafiando um pedido de extradição dos EUA, o governo alemão deportou para a Turquia o terrorista turco Adem Yilmaz, responsável pelo assassinato de dois militares americanos, em um atentado em 2008.

A posição do presidente Trump que reconheceu Jerusalém como capital de Israel, em dezembro de 2017, é outro ponto de discórdia entre a Alemanha e os EUA. 

O país foi um dos 128 estados membros da ONU que votaram a favor de uma resolução que considera “nula e sem efeito” a decisão do governo americano. Um tema que Grenell propõe em todos os seus encontros diplomáticos, insistindo que o reconhecimento de Jerusalém é a constatação de uma realidade.

Somente em 2018, a Alemanha votou por 16 vezes a favor de resoluções anti-Israel nas Nações Unidas, de um total de 21, e se absteve em quatro delas. São resoluções que, entre outras, condenam Israel pelo tratamento dado aos palestinos e que pedem que Israel devolva as colinas de Golan à Síria.

Hoje, no país do holocausto, vivem cerca de 140 mil judeus (116 mil oficialmente registrados, segundo as entidades judaicas), a terceira maior comunidade judaica da Europa ocidental, atrás da França (450 mil judeus) e Reino Unido (300 mil). 

Coincidentemente, ano passado aumentaram, em quase 10% em relação a 2017, as ocorrências de atos antissemitas no país, atingindo a marca de 1.646 ações notificadas.

Memorial recebe críticas

Essa escalada ascendente de ações antissemitas já tinha levado o arquiteto americano Peter Eisenman a declarar, em 2016, que não julgaria possível instalar o seu polêmico Memorial do Holocausto de Berlim nos tempos atuais.

Em uma entrevista ao semanário alemão “Die Zeit”, Eisenman, de 86 anos e ascendência judaica, afirmou que o clima social na Alemanha mudou, e o que antes era considerado aceitável agora vem sendo alvo de questionamentos.

O arquiteto recebeu críticas pelo aspecto anônimo da obra, sem nomes das vítimas, e principalmente pelo seu formato aberto e acessível a qualquer um, permitindo selfies e comportamentos inadequados replicados pelos usuários nas redes sociais, ignorando que o local é um tributo às vítimas do maior genocídio da história moderna.

O Memorial aos Judeus Assassinados na Europa ( nome oficial da obra) foi inaugurado em maio de 2005, depois do projeto de Eisenman vencer uma competição de design em 1997. Está instalado na região central de Berlim, próximo ao Portão de Brandemburgo.

Composto de 2.711 blocos de concreto -  com comprimento e largura semelhantes, mas de diferentes alturas - dispostos em um terreno aberto e inclinado de 19 mil metros quadrados,o projeto permite que os visitantes percorram o seu interior como estivessem em um labirinto.

Todos os blocos de concreto foram revestidos de uma solução especial para evitar pichações. Mas Eisenman foi contra a medida e na véspera da inauguração, em entrevista ao “Spiegel Online”, afirmou, de forma surpreendente, que o memorial não é um lugar sagrado e se pichassem uma suástica, “isso seria o reflexo de como as pessoas se sentem”.

Na mesma entrevista ele confirmou que era contrário a construção de um centro de informações sobre o Holocausto. Entretanto, um anexo subterrâneo foi construído e o local guarda os nomes de todas as vítimas registradas pelo museu Yad Vashem, de Jerusalém.

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"Desculpe, pai, estou pensando em pedir um passaporte alemão"

A frase dá título a um artigo do jornalista judeu, Adrian Goldberg, publicado no site da BBC News, no final de dezembro de 2018. Nascido na Inglaterra, ele é um veterano apresentador de programas na rede britânica de rádio e TV, e resolveu tornar público o conflito moral que o aflige.

O motivo é o Brexit que vai provocar o desligamento do Reino Unido da União Europeia (UE) e a necessidade de seus cidadãos portarem vistos para viajar ou trabalhar em cada um dos 27 países que compõem o bloco. 
A saída foi mais uma vez adiada, desta vez para 31 de outubro, e enquanto a situação não se resolve, milhares de judeus ingleses,  filhos e netos de alemães mortos ou sobreviventes do Holocausto, se movimentam na busca de passaportes desse país.
Desde 2016, após o plebiscito no Reino Unido que consagrou a saída do país da União Europeia, a embaixada germânica em Londres recebeu mais de 3.380 pedidos de cidadania alemã, nos termos do artigo 116 da Constituição daquele país que beneficia os descendentes de judeus perseguidos pelo nazismo. Nos anos anteriores, a média de solicitação desses documentos não passava de 50.
Uma situação inimaginável, sabendo-se o que se passou na Alemanha nazista, há quase oito décadas. Agora, centenas de judeus britânicos têm a cidadania de um país onde seus avós mal conseguiram escapar vivos, observa Michael Newman, presidente da Associação Britânica de Refugiados Judeus, um grupo fundado em 1941 por judeus que fugiram do Holocausto.
Em seu artigo, Goldberg admite que obter o passaporte alemão pode ser útil para ele e suas três filhas para terem trânsito livre em mais de duas dezenas de países como qualquer cidadão da UE. Mas, para isso, teria que adotar a nacionalidade do país que assassinou a maior parte da família de seu pai. Uma atitude que poderia ser entendida como uma traição. 
O jornalista conta que visitou o cemitério onde o pai está sepultado em busca de resposta e dias depois indagou a sua mãe o que o pai, um fugitivo do nazismo, pensaria sobre isso. A mãe admitiu que provavelmente ele não aprovaria a ideia.
O pai de Goldberg, Rudy, faleceu há seis anos. Ele chegou à Inglaterra junto com a irmã, antes da guerra, graças a um programa apoiado pelo governo britânico intitulado Kindertransport que permitiu que 10 mil jovens judeus alemães se instalassem no país. Dessa maneira, foi salvo do Holocausto, casou, teve 4 filhos e viveu para conhecer os netos e bisnetos.
Enquanto isso, na Alemanha do século 21, a chanceler Angela Merkel faz um desabafo face à situação da comunidade judaica no país: “ Nos desanima o fato de que nenhum jardim de infância, nenhuma escola, nenhuma sinagoga poderem prescindir de proteção policial."
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Forças Armadas da Alemanha terão capelão judeu
Os 300 judeus alemães que estão alistados nas Forças Armadas da Alemanha (Bundeswehr), homens e mulheres, agora vão poder contar com um rabino em suas fileiras. A ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, anunciou que vai nomear  um rabino como capelão militar atendendo pedido do Conselho Central de Judeus, organização que representa a comunidade judaica do país.
Desde a derrota na 1ª Grande Guerra (1914-1918), com a dissolução do então exército alemão, o país não tinha um rabino para oficiar os cultos religiosos e prestar assistência aos soldados. Após a 2ª Grande Guerra, foram os capelães judeus dos exércitos aliados estacionados na Alemanha Ocidental que abriram suas congregações militares à participação dos judeus que viviam no país.
Ao comunicar a decisão, a ministra alemã agradeceu às mulheres e homens judeus que servem no Bundeswehr, acrescentando que cada soldado, incluindo judeus e muçulmanos, tem o direito à prática religiosa e ao cuidado pastoral.
Os solados alemães não são obrigados a identificar a sua religião no momento do alistamento, mas o ministério da Defesa estima que um pouco mais da metade do contingente tenha se declarado espontaneamente. Assim, o ministério listou 53 mil militares protestantes, 41 mil católicos, 3 mil muçulmanos e 300 judeus, de um universo de 182 mil militares ativos.

quarta-feira, 20 de março de 2019

As “ur-lodges” transnacionais, o business do pó e os extraterrestres


Por Sheila Sacks

Contam-se aos milhares os livros em que a Maçonaria aparece como tema central. Seja em ficção ou com o rótulo de histórico. 

Em 2014,  um deles tornou-se best-seller na Itália, face as suas revelações explosivas. Apesar do boicote da mídia, a obra atravessou fronteiras, ganhou uma versão em inglês, em 2016, e no ano seguinte foi traduzido para o espanhol (‘Masones. Todos sus secretos al descubierto’).

 O autor, Gioele Magaldi, é contundente:diante de páginas tão desconcertantes e embaraçosas, a tática usada pelos citados é a conspiração do silêncio. Historiador, filósofo, escritor e também mestre maçom, da corrente progressista, Magaldi fundou o movimento maçônico “Grande Oriente Democratico” e preside a organização política “Movimento Roosevelt”. 

Ele conta que lhe foi oferecido dinheiro e cargos para que não publicasse o livro. Também sofreu ameaças, mas diante de um mundo mais brutal e sanguinário, ele achou necessário divulgar a sua pesquisa. Para ele, a única ideologia ainda não totalmente implantada no planeta é justamente a democracia.

As “ur-lodges” transnacionais

O livro, de 656 páginas, intitulado “Massoni Societá a Respondabilitá Limitata - La Scoperta delle Ur-Lodges” expõe a existência de um nível superior de elite internacional maçônica, abrigada em 36 superlojas  - as ‘ur-lodges’ - secretas e transnacionais,  divididas radicalmente em conservadoras (leia-se reacionárias e antidemocráticas) e progressistas, que reúnem maçons e líderes não iniciados, dos mais altos escalões da política mundial, das finanças, da mídia, das forças armadas, serviços secretos, juízes, intelectuais, artistas e lideranças eclesiásticas.

Essas centenas de personalidades conhecidas mundialmente, dos mais variados matizes políticos e até fundamentalistas - se encontram nesses santuários secretos que Magaldi também nomina, um a um, e atuam independentemente de seus próprios países em qualquer tomada de decisão relacionada a questões globais. As superlojas ditam as suas condições às estruturas subjacentes como a União Europeia, o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o Clube Bilderberg etc. 

São esses núcleos que influenciam fortemente os principais acontecimentos geopolíticos e a ordem financeira mundial, aí compreendendo as crises econômicas, as guerras, as revoluções políticas e até os ataques terroristas. Magaldi afirma que as “ur-lodges” são as verdadeiras protagonistas da história do século 20 e deste amanhecer do século 21.

Políticas públicas e programas econômicos regionais são influenciados e monitorados por essa rede transnacional de poder

Pacto pela globalização



A primeira superloja, a “Thomas Paine”, foi instalada em Londres, em 1849, e segundo Magaldi, muitas foram criadas a partir do término da segunda Grande Guerra.

Em 1981, e por 20 ano, as “ur-lodges”  promoveram uma paz interna de onde surgiu a globalização. Esse elo foi rompido a partir do atentado de 11 de setembro de 2001. Desde então, adverte Magaldi, se trava uma guerra subterrânea que mexe com o destino do Ocidente. Uma das superlojas, assinalada pelo autor como “a loja da vingança e do sangue”  é a “Hathor Pentalpha”, da qual fazia parte Bin Laden.

O autor critica a mídia que em geral confunde as causas com os efeitos ou se concentra em causas secundárias, mirando grupos e conglomerados econômicos, dissimulando um cenário que não é o real. Daí a publicação do livro, centrado nas superlojas e na dinâmica de suas articulações e ações por trás do renascimento da Europa, depois da 2ª Grande Guerra, chegando aos escabrosos e significativos eventos de nossos dias.

Acesso aos arquivos

Durante quatro anos Magaldi pesquisou e analisou 6 mil documentos e arquivos originários dessas ”ur-lodges” aos quais teve acesso, em países diversos, com o apoio de quatro eminentes protagonistas do establishment massônico mundial que permanecem ocultos no livro.  Para garantia pessoal, cópias desse material compilado e fotografado pelo autor foram colocadas sob a custódia de advogados em Londres, Paris e Nova York.

No livro, Magaldi aborda o “back office” das superlojas nos diferentes eventos mundiais dos últimos trinta anos do século 20, como a liquidação da União Soviética, a integração política e econômica da Europa, a reunificação da Alemanha, a ascenção de Margareth Thatcher no Reino Unido e o fim da Operação Condor com a democratização da Argentina.

No que toca ao conflito de Israel com os palestinos, ele adianta que a solução se dará a medida que expoentes moderados dos grupos Al-Fatah e da OLP  se integrem aos círculos massônicos internacionais.

Na lista dos líderes mundiais vivos integrantes das superlojas estão  Barack Obama, Vladimir Putin, Angela Merkel, Silvio Berlusconi, Christine Lagarde, George  W. Bush, Tony Blair, Abu Bakr Al- Baghdadi ( líder do Estado Islâmico e membro da ur-lodge ‘Hathor Pentalpha’), Nicolas Sarkozy, Recep  Tayyip  Erdoğan e Bill Gates,  entre tantos outros citados na obra.

 Em relação aos que já morreram, estão listados John Kennedy, Martin Luther King, papa João 23, Nelson Mandela, Osama bin Laden,  Antônio Salazar, Franklin Roosevelt, Deng Xiaoping, George Bush (fundador da superloja ‘Hathor Pentalpha’),Salvador Allende, Josef Stalin, Isaac Rabin, Golda Meir, Vladimir Lenin, Augusto Pinochet, Tancredo Neves, Raúl Alfosín, Hugo Chávez, Gianni Agnelli, Margareth Thatcher, Zygmunt Bauman, Moshe Dayan, John Keynes e Mahatma Gandhi, entre muitos outros.

Figuras históricas também são lembradas como Simon Bolívar, José de San Martín, José Martí e Guiseppe Garibaldi, maçons que mudaram a trajetória dos países da América Latina.

O “Papa bom”

Em relação ao papa João 23 ( nascido na província de Bérgamo, no norte da Itália), Magaldi  conta que como arcebispo em Istambul, Angelo Giuseppe Roncalli teve sua primeira iniciação maçônica na “ur-lodge Ghedullah”, em 1940, comprometida com o estudo da Cabalá.

Em 1949, em Paris, recebeu sua segunda iniciação na “ur-lodge” progressista “Montesquieu”. Em 1950, foi iniciado oficialmente como irmão na Ordem Rosacruz. 

As informações detalhadas sobre todos essas afirmações se baseam em uma ampla documentação arquivada na superloja “Ghedullah”.
De acordo com Magaldi, a eleição de Roncalli como papa, em 28 de outubro de 1958, foi comemorada pelos maçons, individualmente, e pelas superlojas.

Encontro final

Em sua resenha sobre o livro de Magaldi, o vice-presidente do Movimento Roosevelt, Marco Moiso, destaca que o último capítulo da obra registra o encontro de quatro cardeais maçônicos, que não têm seus nomes revelados. 

Eles estão à vontade para falar das experiências vividas e expor o papel catalisador dessas superlojas no cenário mundial. São maçons de idade avançada, muitos ricos, aristocratas, fundadores de várias “ur-lodges”, especifica Moiso. Um com raízes americanas e britânicas, o segundo um franco-alemão, o terceiro um árabe-islâmico e o último do Extremo Oriente.

Entre os vários temas, os quatro conversam sobre o pacto que uniu as superlojas pela globalização. E o representante americano da maçonaria neo-aristocrática, testemunha, sem papas na língua, as táticas adotadas ao longo do tempo para impor padrões de uniformização global nas políticas econômicas dos países. 

Diz ele, textualmente: “Para fazer as pessoas aceitarem essas reformas idiotas e impopulares, você deve assustá-las como faria com as crianças”. Uma afirmação despida de qualquer disfarce moral e que faz sentido diante da “network” (rede) draconiana de programas governamentais econômicos impostos às populações globalizadas que restringem ganhos sociais, independente dos países que os adotam.

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O business do pó 

Não existe mercado no mundo mais rentável que o de cocaína”, escreve o jornalista italiano Roberto Saviano, autor do best-seller “Gomorra” (2006). “A cocaína é um bem anticíclico”, explica, “não teme nem a escassez de recursos nem a inflação dos mercados”. Mais adiante, nas páginas do livro “Zero zero zero” , publicado em 2013, faz um registro cruel: “Há muitíssimos cantos do mundo que vivem sem hospitais, sem web, sem água corrente. Mas, não sem pó.”

 A observação se aplica à ação da polícia federal (operação Flak), desencadeada em fevereiro, contra uma organização criminosa instalada no estado de Tocantins que transportou, entre 2017 e 2018, nove toneladas de cocaína em 23 voos em aeronaves adulteradas.

 Dos 27 estados da federação, Tocantins – que foi desmembrado do estado de Goiás, em 1988 -  ocupa a quarta pior posição em matéria de abastecimento de água, saneamento básico e atendimento de saúde. A média salarial per capita é de 937 reais, inferior a um salário mínimo.

 No livro “Cocaína, a rota caipira” (2017), o jornalista Allan de Abreu ratifica Saviano quando este afirma que “a droga se vende mais facilmente que o ouro e seus ganhos superam os do petróleo”.

 Abreu revela, em seu livro de 824 páginas: “A pasta base sai do interior da Bolívia ao preço de U$ 800, por quilo. Na fronteira passa a custar U$ 2 mil. Em São Paulo, o preço fica entre U$ 8 e U$12 mil, e quando chega a Europa o preço sobe para U$ 50 mil.”

 Ainda de acordo com Saviano, metade das 80 a 110 toneladas da droga que transitam pelo Brasil fica por aqui mesmo, para o consumo de 2,8 milhões de brasileiros. O país é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, ficando abaixo apenas dos Estados Unidos, com 4 milhões de consumidores.

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Extraterrestres 

Para o astrobiólogo britânico Charles Cockell, professor  da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e diretor do Centro de Astrobiologia do Reino Unido, se a vida extraterrestre exisitir ela pode parecer “estranhamente”similar à da terra porque a física restringe a forma.

Para ele, as leis físicas são as mesmas em todos os lugares. A gravidade, por exemplo, é onipresente, não exclusiva do nosso sistema solar. Portanto, as mesmas restrições estão em todo lugar. Moléculas orgânicas, na Terra ou em outro ambiente, ainda se desintegram em altas temperaturas e se desativam nas baixas.

Também certos ingredientes são indispensáveis para a vida em quase todo lugar. O carbono é o elemento ideal para montar a vida florescente e a água é o melhor solvente para transportá-lo.

Em seu livro “As equações da Vida” (tradução livre), Cockell sugere uma biologia universal. Ele afirma que as leis da física canalizam a vida para formas restritas e delimitam o escopo da evolução. Assim, a maior parte dos seres vivos, segundo a sua teoria, é talhada por regras que podem ser “chocantemente” estreitas. 

Nosso próprio planeta é um exemplo. No oceano, criaturas com corpos finos e adaptáveis predominam no sentido de se moverem rápido pela água. Na terra, a maioria dos animais tem membros ou apèndices para se movimentar, e no céu os pássaros são governados pelas leis de aerodinâmica. 

Cockell observa que os alienígenas talvez não tenham braços e pernas, mas sim tentáculos para agarrar objetos. E que, provavelmente, na cabeça eles podem ter olhos, ouvidos e uma boca, mas não da maneira que conhecemos. “Uma boca não precisa estar precisamente abaixo dos olhos”, assinala.

Dessa forma, adaptações alienígenas semelhantes à vida terrestre – de humanoides a beija-flores – podem ter surgido em bilhões de mundos.

(Do artigo de Bill Retherford para a revista Forbes)