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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

AK-47: os 70 anos de um ícone sinistro

Por Sheila Sacks

No livro “Gomorra”, sobre a máfia napolitana, o jornalista italiano Roberto Saviano reserva um capítulo de 31 páginas para dissertar sobre o fuzil russo Avtomat Kalashnikova, mais conhecido como AK-47. Diz que a arma matou mais do que a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, do que o vírus HIV, mais do que todos os atentados terroristas e todos os terremotos. Assinala que dezenas de países usaram o fuzil em guerras civis na Argélia, Angola, Bósnia, Burundi, Camboja, Chechênia, Colômbia, Congo, Haiti, Caxemira, Moçambique, Ruanda, Serra Leoa, Somália, Sri Lanka, Sudão e Uganda.

Saviano lembra os dois presidentes que morreram sob o fogo do Kalashnikov: o chileno Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, no palácio presidencial de “La Moneda”, em Santiago, no golpe militar que instaurou o regime ditatorial do general Augusto Pinochet; e o egípcio Anwar Sadat, em 6 de outubro de 1981, no Cairo, durante uma parada militar, três anos depois de ter assinado dois importantes acordos de paz com Israel, em Camp David. Mortes que se somam a de outros políticos, como a do general italiano Dalla Chiesa, que foi prefeito de Palermo, assassinado em 1982, e a do ditador comunista da Romênia, Nicolae Ceausescu, fuzilado em 1989. “Mortes de excelência” que segundo Saviano garantiram “uma verdadeira publicidade histórica” ao AK-47.

Concebido pelo general Mikhail Kalashnikov, que morreu em 2013, aos 94 anos, e incorporado ao exército soviético em 1947, o AK-47 é o fuzil mais popular da terra e estima-se que 250 mil pessoas são mortas anualmente baleadas pela arma. Para comemorar os 70 anos de sua invenção, foi inaugurada em uma praça de Moscou, em 19 de setembro, a estátua de Kalashnikov empunhando o célebre fuzil que, há décadas, é um dos maiores sucessos russos de exportação.

Símbolo do liberalismo

Com mais de 100 milhões de exemplares espalhados pelo mundo, o AK-47 está na bandeira de Moçambique e na bandeira do grupo fundamentalista islâmico xiita Hezbollah; nos brasões do Timor Leste e do Zimbábue; em centenas de emblemas de grupos políticos e nos vídeos de Osama Bin Laden. “É um símbolo do liberalismo, um ícone absoluto”, abaliza o autor. E explica: “A invenção desta arma permitiu a todos os grupos de poder e de micropoder ter um instrumento militar. Ninguém, depois da AK-47 pode dizer que foi vencido porque não tinha acesso a armas.”

Se na África Ocidental, o fuzil russo pode custar 50 dólares, no Iêmen é possível encontrar um AK-47 usado de segunda e terceira mãos por 6 dólares. É o que afirma Saviano em seu livro. “O kalashnikov permite que todos se tornem soldados, todos, até crianças esquálidas, e transformou em generais das Forças Armadas pessoas que não conseguiriam guiar um rebanho de ovelhas”, ironiza.

O jornalista revela que as drogas sustentam as compras dos AK-47 por grupos armados. Sejam de guerrilheiros, terroristas, paramilitares ou traficantes. “Coca em troca de armas”, enfatiza. Destaca o exemplo do ETA, o grupo separatista basco considerado terrorista pela União Europeia, que enviava cocaína através de seus militantes para receber, em troca, armas da Camorra, a máfia napolitana. Não somente kalashnikov, mas explosivos e lança-mísseis. Conhecido pelo seu histórico de quatro décadas de violência e mortes, resultando em mais de 800 vítimas fatais, o ETA obtinha a cocaína através de seus contatos com grupos guerrilheiros colombianos.

Queda do comunismo ajudou

Com a queda da “cortina de ferro” – expressão usada por Winston Churchill, em 1946, para definir as áreas na Europa sob o domínio da União Soviética – e o fim da chamada “Guerra Fria”, países como Romênia, Polônia e a ex-Iugoslávia ficaram com os seus arsenais abarrotados de armas russas e precisando se reestruturar. O desmantelamento da União Soviética em 1991, precedido pela queda do Muro de Berlim, em 1989, criou um novo cenário político-econômico na Europa e abriu as fronteiras para o mercado ilícito das armas, dirigido principalmente para grupos políticos armados da África, América Latina e do próprio Balcãs, como a Bósnia e a Sérvia.

De acordo com Saviano, a máfia napolitana pagava informalmente a dirigentes comunistas em decadência a manutenção desses depósitos de armas estocadas nos próprios países de origem. Dependendo da conveniência, essas armas eram retiradas e levadas para a Itália para serem negociadas. “Os fuzis vinham empilhados em caminhões militares que ostentavam o símbolo da OTAN ( Organização do Tratado do Atlântico Norte). Eram grandes carretas roubadas das garagens americanas da base da OTAN, em Nápoles, que graças àquela inscrição, podiam rodar tranquilamente pela Itália.”

General Kalashnikov e o fuzil AK-47
Antes, na década de 1980, durante o conflito entre a Argentina e a Inglaterra na Ilha das Malvinas, no Atlântico Sul, a Camorra também entrou no circuito para a venda informal de armas para a defesa argentina. O jornalista afirma que devido ao isolamento econômico do país à época, “ninguém teria lhe vendido oficialmente”. A chamada Guerra das Malvinas durou dois meses e foi um fiasco para a máfia. “Poucos tiros, poucos mortos, pouco consumo.” Ele conta que no mesmo dia que foi decretado o fim do conflito, o serviço secreto inglês interceptou um telefonema intercontinental entre a Argentina e uma localidade em Nápoles. “Aqui a guerra acabou”, falavam da Argentina. “Não se preocupe, haverá outras...”, responderam do outro lado do Atlântico.

Saviano é categórico ao ressaltar o poder de fogo dos clãs da região da Campânia, no sul da Itália, e de sua capital Nápoles e arredores, nas décadas de 1980 e 1990: “As guerras, da América do Sul aos Bálcãs, são feitas com as garras das famílias da Campânia.” Em Nápoles, a Camorra já fez 3.600 mortos nos últimos 30 anos.

Fuzis com a marginalidade

No Brasil, em junho, a polícia civil carioca descobriu no terminal de cargas do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro uma grande leva de armamentos escondidos em aquecedores de piscinas dentro de containers vindos de Miami. Foram apreendidos 45 fuzis AK-47 que iriam abastecer os traficantes nas favelas, no valor de R$ 1,6 milhão. Na ocasião a secretaria de Segurança informou que desde o início de 2017, 250 fuzis já tinham sido retirados das mãos de bandidos. “No Rio de Janeiro, traficante só tira onda de macho por conta disso, de ter o fuzil. A hora que tiver uma pistola, ele vai dar meia volta”, comentou o titular da Segurança, Roberto Sá, repetindo com outras palavras as observações de Saviano acerca da portabilidade do AK-47.

Pelas contas da polícia do Rio de Janeiro, cada fuzil vendido aos traficantes no mercado negro tem um custo de 20 mil reais (em torno de 6,6 mil dólares). Saviano escreve em “Gomorra” que o valor de um AK-47 está diretamente ligado à violação dos direitos humanos. Quanto mais barato o fuzil, pior são as condições de civilidade e cidadania.

Preocupado com a disseminação dessas armas de alta letalidade, contrabandeadas principalmente do Paraguai e da Bolívia, o governo brasileiro sancionou uma lei, em 26 de outubro, que torna crime hediondo, com prisão imediata e sem direito à fiança, o porte ilegal de fuzis e outros armamentos restritos às áreas militares. Somente no estado do Rio de Janeiro, do início do ano até agosto foram apreendidos 347 fuzis, 149 a mais do que em 2016.

Vivendo recluso
                
 Desde a publicação de “Gomorra”, em 2006, Roberto Saviano vive sob escolta policial, devido a ameaças de morte da Camorra. Em sua penúltima obra, “Zero Zero Zero” (2013), que desvenda as rotas e o tráfico de cocaína no mundo, ele registra uma dedicatória especial, logo na primeira página: “Dedico este livro a todos os carebinieri da minha escolta. Às 38 mil horas vividas juntos. E àquelas que ainda viveremos. Onde quer que seja.”

Onze anos depois do seu livro de estreia – que foi transportado para as telas de cinema e depois transformado em série de TV - Saviano passa a maior parte de seu tempo nos Estados Unidos, recluso, ainda que publicando nos meios de comunicação e escrevendo livros, como o recente romance “La Paranza dei Bambini” (O bando dos meninos), de 2016, sobre a deliquência juvenil em Nápoles. Lamenta que “Gomorra”, publicado quando tinha 26 anos, tenha afetado drasticamente a vida de sua família, que teve de sair de Nápoles. “Minha mãe sofreu um infarto e me senti culpado. Vim correndo dos EUA e, em parte, foi porque me senti como se lhe tivesse dado o golpe no coração (...) E meu irmão, a quem amo demais, o mesmo. Ele me diz que está comigo, mas sei que está cansado de aguentar tanto.”

As confissões foram feitas ao jornalista Daniel Verdú, do “El Pais” (29.08.2017), em um parque na cidade de Bolonha, sob os olhares atentos de cinco carabiniere. Apesar do enorme sucesso internacional – “Gomora” vendeu 10 milhões de exemplares em 40 idiomas - Saviano admite que hoje não teria escrito o livro da mesma maneira. Jurado de morte pela Camorra, ele tem pesadelos e passa por períodos de depressão. “Eu os desafiei, estava convencido de ser invencível.” Mas, em “La Paranza dei Bambini”, Saviano volta ao tema da máfia napolitana, focando em um grupo de adolescentes da Camorra, em Nápoles, que circulava pelas ruas e bairros em motos, atirando com seus fuzis AK-47, amedrontando e controlando seus moradores. Um enredo que desagradou à população e aos empresários da cidade que acusam o jornalista de criminalizar Nápoles e espalhar para o mundo uma imagem negativa do lugar.

Roberto Saviano
Porém, o romance se baseia em fatos reais, a partir de uma investigação desenvolvida pelos promotores antimafia Henry Woodstock e Francesco De Falco e que culminou, em 2015, com a prisão de dezenas de pessoas. Assim sendo, mesmo sob protestos e ameaças, Saviano não tem como excluir o AK-47 de sua literatura. O que lembra uma situação semelhante tendo o Rio de Janeiro como cenário. Desta vez atingindo o premiado cineasta José Padilha. Seus filmes “Tropa de Elite” (2007) e “Tropa de Elite 2 – Agora o inimigo é outro” (2010) que tratam das relações promíscuas entre policiais, traficantes e políticos, e onde não faltam AK-47, o levaram a sair do Brasil, em 2015, depois de se sentir ameaçado. Atualmente, ele vive com a família em Los Angeles e escreve periodicamente para um jornal carioca.

Arma de atentados e guerrilha

O AK-47 também atraiu a atenção de dois jornalistas americanos que se debruçaram sobre o tema: Larry Kahaner, que publicou em 2006 o livro “AK-47, a Arma Que Transformou a Guerra” (na edição em português), e CJ Chivers, ex-correspondente de guerra. Seu livro “The Gun: The AK-47 and the Evolution of War” é de 2010.

Escrevendo para o jornal “The New York Times”, Chivers lembra que o AK-47 é pivô de crimes espetaculares que chamam a atenção do mundo. “A lista remonta a décadas: a morte dos atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972; a tomada de uma escola em Beslan, Rússia, em 2004; os ataques em Mumbai, Índia, em 2008; o ataque a um shopping center em Nairóbi”, destaca. Ele afirma que a disseminação do fuzil mudou a guerra moderna. “À medida que os governos comunistas repassavam os kalashnikovs para aliados e terceiros, os rifles assumiram um papel inesperado: niveladores de campo de batalha.”

Entre os fatos históricos nos quais o AK-47 teve papel preponderante estão a Guerra do Vietnã, com os guerrilheiros vietcongues utilizando a arma na selva contra os americanos. “Guerrilheiros armados com kalashnikovs lutavam de igual para igual contra soldados de infantaria de uma superpotência”, assinala o jornalista. Por sua vez, nos anos 1980, forças americanas e paquistanesas treinavam combatentes islâmicos a usar o AK-47 na guerra para expulsar as forças soviéticas do Afeganistão.

No campo do terrorismo moderno, coube ao AK-47 inaugurar “a era do terrorismo kalashnikov”. Chievers cita como exemplo o atentado à Vila Olímpica de Munique onde estava a equipe israelense, assistido pelo mundo, ao vivo, pela TV. Alerta que os governos têm feito pouco para deter a proliferação desse tipo de arma, que escapou do controle das autoridades constituídas. “O kalasnikov deixou de ser uma ferramenta do Estado ou da ideologia comunista. Criado para fortalecer estados autoritários, o AK-47 ganhou credibilidade fora da lei, se transformando em símbolo de revolta, contragolpe, crime e jihad”, conclui.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O primado da rosa (atualizado)


 Como a rosa entre os espinhos... (Cântico dos Cânticos - Shir HaShirim, 2:2)

Por Sheila Sacks
publicado originalmente em 18.01.2015
Em 2006, mais de duas décadas e meia após a publicação de “O Nome da Rosa”, que até então acumulava mais de 15 milhões de exemplares vendidos, o italiano Umberto Eco, professor universitário de linguística e autor da façanha, ainda precisava explicar aos jornalistas que o entrevistavam o real sentido e o significado do título de sua obra. Publicado em 1980, quando o autor tinha 48 anos, o livro foi levado às telas em 1986, o que contribuiu para popularizar um enredo policial que discorre sobre estranhas mortes que se sucedem em um monastério medieval que abriga uma antiga biblioteca.  

Dois anos depois da primeira edição, em atenção aos seus leitores mais curiosos, Eco escreveu um pequeno livro de pouca mais de 60 páginas – “Pós-Escrito ao Nome da Rosa” - onde faz considerações sobre o sistema de trabalho que utilizou para o desenvolvimento de seu best-seller. Mas, em relação ao real significado do título, ele manteve o suspense: “Um título, infelizmente, é uma chave interpretativa. Um título deve confundir as ideias, nunca discipliná-las”, afirmou no intuito de encerrar a polêmica.

Ambientado no século 14, o livro inicialmente ganharia o título de “A Abadia do crime”, o que foi descartado, segundo o autor, porque “fixaria a atenção do leitor apenas sobre a intriga policial”. Eco reduz ao acaso a escolha do título, admitindo, contudo, que a ideia de usar o nome da rosa o agradou devido à rica simbologia e a mística religiosa que envolve a flor.

Para embaralhar ainda mais a mente do leitor, o livro de mais de 500 páginas se encerra com uma frase redigida em latim: “Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus” (A rosa antiga permanece no nome, nada temos além do nome). Emprestada do monge beneditino Bernard Morliacense, que viveu no século 12, a frase original presente no texto latino “De contemptu mundi” contém o vocábulo “roma”, ao invés de “rosa”, em alusão à antiga capital do império romano. O que dá sentido à frase, pois do histórico poder de Roma, em nossos tempos, só resta o nome. 

 A rosa do “Zohar”

Coincidentemente, em 1980, um mês antes do lançamento de “O nome da Rosa”, que ocorreu em setembro, outro livro é publicado tendo a rosa como título. Escrito pelo rabino e filósofo israelense Adin Even Steinsaltz, 80 anos, a obra de apenas 165 páginas intitulada “A rosa de treze pétalas” traz como tema a teologia e a cosmologia nativas do judaísmo conhecidas como Cabalá (‘receber’, em hebraico).

Steinsaltz abre o livro com o trecho inicial do “Zohar” (‘esplendor’, em hebraico; pronuncia-se zôhar), a obra de referência da Cabalá, que dá nome à rosa e descreve a sua conexão com o povo de Israel. Está escrito: “Quem é a rosa? É Knesset Yisrael, a comunidade de Israel. Pois há uma rosa acima e uma rosa abaixo. Quanto à rosa entre os espinhos, ela tem vermelho e branco, como Knesset Yisrael tem justiça e piedade. Quanto à rosa de treze pétalas, como Knesset Yisrael ela tem treze atributos de compaixão envolvendo-a por todos os lados.”

Continuando a sua descrição da rosa mística, o “Zohar” estabelece: “E há cinco pétalas fortes sobre as quais a rosa é formada, e elas foram chamadas de salvações e agora são conhecidas como os cinco portões. E esta rosa é chamada de cálice da bênção, sobre o qual dizem: Eu beberei do cálice da salvação...” (Salmos – Tehilim, 116:13).

 Simbologia hebraica

Edição do "Zohar" (1558)
 Segundo os sábios de Israel, a rosa original tinha treze pétalas em cima e cinco pétalas mais rígidas na base. As treze pétalas ao redor da rosa corresponderiam aos treze atributos da misericórdia divina revelados ao profeta Moisés (Êxodo – Shemot, 34:6-7) e que constituem a base das orações em Yom Kipur (Dia do Perdão) e nos dias de jejum, quando são recitados. Ao nome divino são associados a compaixão, piedade, verdade, purificação e principalmente o perdão.

Ainda sobre a simbologia hebraica da rosa, o cientista, filósofo e pesquisador Michael Laitman, russo de nascimento e que vive em Israel há mais de 40 anos, observa que treze também são as palavras divinas que como pétalas cercam e protegem Israel. Fundador do Instituto de Educação e Pesquisa da Cabalá - Bnei Baruch e autor de 30 livros sobre o tema, ele explica que os vocábulos estão presentes nas duas frases iniciais do Gênesis (Bereshit), inseridos entre o nome divino citado duas vezes.  As palavras funcionariam como uma preparação para a purificação e correção da comunidade de Israel, preparando-a para receber os treze atributos da misericórdia.

 Em relação às cinco pétalas, Laitman analisa o significado de seu ensinamento: “As cinco folhas rígidas (sépalas) que cercam a rosa simbolizam a salvação” (elas têm a função de guardar a rosa dos espinhos que são entendidos como os nossos desejos egoístas). Ele lembra que a rosa também é comparada ao cálice sagrado: “Assim como o cálice da benção deve se apoiar em cinco dedos e não mais, também a rosa se assenta em cinco folhas rígidas (sépalas) que equivalem aos cinco dedos.” A rosa corresponderia ao cálice mencionado nos Salmos (Eu levantarei o cálice da salvação...).

Manuscritos escondidos

Escrito no século 2 da era comum pelo Rabi Shimon Bar Yochai (Rashbi),  o “Zohar” reúne todo o conhecimento espiritual judaico dos 3 mil anos anteriores, em especial os ensinamento da “Torá” (Pentateuco ou os cinco livros de Moisés). Nascido na Galileia, sob o domínio romano, Rashbi viveu treze anos com o filho Elazar em uma caverna onde escreveu a sua obra. Ele tinha participado da rebelião judaica contra os romanos liderada por Simão bar Kochba (ocorrida entre 132 a 135) e teve que se esconder para não ser executado. Sessenta anos antes o Segundo Templo de Jerusalém tinha sido destruído e os judeus condenados a um exílio que durou perto de dois mil anos.

Rashbi faleceu em 160 da era comum, aos 80 anos, e foi enterrado em Meron, no norte de Israel, perto de Tzfat (ou Safed), a cidade que se tornou o centro cabalístico de Israel. Por mais de mil anos os escritos do “Zohar” permaneceram escondidos em uma caverna sendo descobertos no século 13. Coube ao sábio espanhol Moses de Leon (1238-1305) a tarefa de compilar e publicar o seu conteúdo. Segundo o próprio “Zohar”, os segredos de sua sabedoria seriam revelados a todos, transcorrido o período atribuído para a correção da humanidade. Segundo o Talmud, antes do ano hebraico 6000, com o advento da era messiânica.

Missão e essência

No livro “A Rosa de 13 pétalas”, Steinsaltz chama a atenção para a missão que cada ser humano deve executar no mundo visando à correção da alma, uma tarefa específica que ninguém mais pode cumprir, mesmo que existam pessoas melhores e mais capacitadas para realizá-la. Contudo, somente àquela pessoa está destinada a fazê-la, de uma maneira pessoal e nas circunstâncias que lhe pertencem.

Isso porque o destino e a correção de uma pessoa não estão ligados somente com as coisas que ela própria faz ou cria. As existências anteriores de cada um têm influências consideráveis, visto que a vida é uma continuidade e determinados elementos que parecem não pertencer ao presente podem subir à superfície e será preciso completá-los ou corrigi-los. Cada alma tem uma determinada essência fundamental e para evoluir e se elevar ao nível correto é preciso pôr em ordem a parte que lhe cabe.


Nascido em Jerusalém, Steinsaltz foi aclamado pela revista “Time”, em 1988, como o “estudioso do milênio” por seu trabalho de estudo e divulgação do Talmud (‘estudo, aprendizagem’, em hebraico), a coletânea de explicações rabínicas sobre as leis e tradições do judaísmo. 

Leitura diária

Pelo calendário judaico estamos no ano de 5778 (correspondente a outubro de 2017), aproximando-nos do alvorecer messiânico, e apesar do conteúdo do “Zohar” se manter incompreensível para a maioria, a obra de Rashbi é acessada por milhões de pessoas que se dedicam a sua leitura diária, afirma Laitman que é membro do “World Wisdom Council” (Conselho Mundial da Sabedoria), ligado ao “Clube de Budapeste”, uma organização de pensadores e filósofos de diferentes religiões e tradições.

Mas, assim como o “Zohar”, outros documentos hebraicos foram escondidos em cavernas na Terra Santa e lá permaneceram por centenas de anos. É o caso de “Os Manuscritos do Mar Morto”, documentos com regras e recomendações religiosas escritas por membros da seita judaica dos essênios do século 1 da era comum e descobertas em 1947. Em “O nome da Rosa”, o escritor inspira-se nesses procedimentos milenares para montar a sua história e faz da biblioteca do mosteiro uma espécie de caverna que esconde uma  obra antiga e rara, dada como perdida e condenada pela Igreja.

O livro pivô da questão seria uma continuação da “Poética”, do filosofo grego Aristóteles (384-322 antes da e.c.), que trata da comédia e das virtudes do riso, um tema que a Igreja julgava estar associado à frivolidade e que dificultava a prática da fé.  Aproximando a realidade da ficção, Eco reforça a percepção de que, para determinadas gerações, livros podem ser potencialmente perigosos e, portanto, passíveis de serem destruídos.

 A rosa do paraíso

"Roseto Comunale", em Roma
Historiadores afirmam que a rosa é uma flor de origem oriental, com mais de cinco mil anos. Porém, a partir de descobertas de folhas fósseis de rosas em diversos locais do planeta, cientistas atestam que sua origem passa dos 25 milhões de anos, e é anterior à humanidade. No século 3 da era comum o rabino Joshua ben Levi, descreveu o Gan Eden (jardim do Éden) como uma paisagem de vales, rios e murtas, onde crescem 800 espécies de rosas. A descrição está nos “Midrashim” (derivado do radical hebraico ‘darash’, que significa pesquisar, investigar), manuscritos explicativos dos ensinamentos divinos em forma de parábolas, enigmas e histórias. As narrativas inicialmente orais, tendo como tema os versículos da “Torá”, foram compiladas e redigidas por sábios judeus no ano 500.

Há poucos anos, a referência mais singular (e controversa) a associar as rosas ao judaísmo aconteceu na cidade de Roma, onde a prefeitura criou um jardim municipal de rosas, o “Roseto Comunale”, sobre o cemitério judaico “L’Orto degli Ebrei”, datado do século 17.  A história, revelada em 2014 pelo jornal israelense “Haaeretz”, começou em 1934, quando o governo fascista de Benito Mussolini resolveu construir uma avenida atravessando o cemitério. As autoridades tinham prometido à comunidade judaica remover às lápides, porém o cemitério foi destruído.

Em 1950, dois anos após o término da Segunda Guerra, a municipalidade obteve o acordo dos judeus romanos que sobreviveram à tragédia da “Shoá” (calamidade, em hebraico, ou Holocausto) para que o antigo cemitério fosse transformado em um parque de rosas. Uma pequena placa de pedra no formato das tábuas dos 10 mandamentos e alamedas desenhadas em forma de uma menorá, o candelabro judaico de sete braços, lembram a origem judaica do espaço.

Reunindo mais de mil variedades de rosas de vários países, o “Roseto Comunale”, hoje com 10 mil metros quadrados, é procurado por turistas e apreciadores de flores. Porém, um aviso alerta para o fato de que milhares de restos mortais jazem no subsolo, o que faz com que a maioria dos judeus, por motivos religiosos ou por decisão pessoal, sinta-se impedida de visitar esse paraíso de rosas no coração de Roma.

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O Talmud na visão do rabino Steinsaltz:
                                                                
Em primeiro lugar, uma das características do Talmud é que ele se baseia no diálogo, ele se baseia na troca. Ele é diferente dos outros livros. Ele não diz: “Eu vou lhe contar uma coisa”. Ele diz: “Vamos discutir este assunto.”

O Talmud não é um livro que prega a sanidade, mas ele cria sanidade. A sanidade é uma das coisas mais difíceis de definir. É mais fácil definir a loucura. Mas a sanidade é a capacidade de manter coisas diferentes em certo estado de equilíbrio, mas sem deixá-las imutáveis para sempre.

Quando você é criado lendo esses escritos, ao ver alguma coisa, você se pergunta: “Qual é a pergunta que devo fazer sobre isto?”

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

TV ainda domina mídia no Brasil, mas notícias digitais avançam

Por Sheila Sacks

A informação está no relatório Reuters Digital News Report 2017

Com a ressalva de que a pesquisa se concentra no Brasil urbano, o mais recente relatório da Reuters Digital News Report  sobre o consumo de mídias digitais, divulgado em 28/09 confirma que as emissoras de televisão ainda dominam o ambiente da mídia no país, com mais de 97% das famílias tendo um aparelho de TV em casa. O estudo que leva a chancela do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford (Reino Unido), destaca, porém, que as plataformas online já são as principais fontes de informações para as pessoas com maior renda e melhor nível educacional. A novidade é a ascensão do WhatsApp, em 2016, como ferramenta para compartilhamento de notícias, abalando a hegemonia do Facebook que teve uma queda de 12%. Ainda assim, esta rede social permanece na liderança, com um índice de 57%. 

A pesquisa assinala que oito em cada dez brasileiros usam o Facebook para qualquer propósito. Em 2016, os smartphones ultrapassaram os computadores como o principal canal para consumo de notícias online, com a ressalva de que 91% dos internautas acessam a web via celular. Isso, não obstante a grave crise econômica e o aumento do desemprego que contribuíram para que mais de 36 milhões de linhas móveis fossem desconectadas pelas operadoras de telecomunicações nos dois últimos anos.

Em relação à mídia impressa, o relatório registra a queda de 8% na circulação dos cinco maiores jornais do país e o fechamento do Jornal do Commércio, o mais antigo do Rio de Janeiro, fundado em 1827. Menciona ainda a informação da Folha de São Paulo que, em agosto de 2016, teve a edição impressa superada pela sua circulação digital. No entanto, a porcentagem de brasileiros que pagam por notícias online permaneceu em 22%, a mesma de 2015, com os usuários que se utilizam de bloqueador de anúncios somando 17%. Quanto aos investimentos em publicidade digital, estes aumentaram 26% quando comparados a 2015.

O Reuters também inclui no estudo um gráfico com as principais mídias online de notícias acessadas por internautas brasileiros. A liderança coube ao UOL Notícias, com 47% de usuários, seguido pelo G1 (43%) e O Globo online (43%). Com referência aos noticiosos das emissoras de televisão, o Globo News respondeu por 60% dos telespectadores, bem à frente do Jornal do SBT (36%) e do BandNews (35%). Mas segundo a avaliação dos entrevistados, o BandNews é melhor na apuração das notícias, na exposição de assuntos complexos e em assumir opiniões, acima do UOL e da Folha de São Paulo. Nesses quesitos, O Globo teve a avaliação mais fraca entre as quatro mídias pesquisadas.

A pesquisa incluiu uma análise do jornalista Rodrigo Carro, que foi bolsista do Instituto. 

Mundo digital

No âmbito global, o Reuters Digital News Report apurou que mais da metade (54%) de todos os usuários on-line nos 36 países pesquisados dizem que usam as mídias sociais como fonte de notícias, variando entre 76% no Chile e 29% no Japão e na Alemanha. Nos Estados Unidos houve um aumento de 9% para 16% no consumo de notícias pagas online, mas em contrapartida triplicou a oferta de notícias gratuitas. Muitos que pagam pelas notícias o fazem, segundo a consulta, para “ajudar a financiar o jornalismo”.
 
Sobre o fenômeno das fake news (notícias falsas), as redes sociais não receberam uma boa avaliação. Apenas um quarto dos entrevistados (24%) considera que as redes sociais sejam capazes de separar o fato da ficção. Em se tratando de meios de comunicação, essa avaliação sobe para 40%.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Perseguição à Fé Bahá'í no Irã

Por Sheila Sacks


Publicado no "Correio do Brasil"


Em maio deste ano foi lançada uma campanha global para a libertação imediata de sete líderes da Fé Bahá’í, presos há noves anos no Irã, acusados de serem inimigos do Islã. O chamamento intitulado “Outro Ano, Não” pretende pressionar o governo de Teerã a libertar os cinco homens e duas mulheres condenados inicialmente a vinte anos de prisão. Com a redução da sentença, em 2015, para dez anos, por conta da aplicação de um novo código penal iraniano, o apelo é para que o grupo seja solto ainda este ano.

A comunidade internacional Bahá’í congrega mais de 5 milhões de adeptos em mais de 160 países, notadamente na Índia e no Irã. No Brasil, são mais de 65 mil pessoas de diferentes classes sociais, culturais e econômicas residentes em 1.300 municípios, do norte ao sul do país. Suas ações são direcionadas para os campos do diálogo inter-religioso e da promoção da igualdade racial, trabalhando em parceria com ONGs e instituições governamentais pela defesa dos direitos humanos, do desenvolvimento sustentável e da boa governança.

Uma fé perseguida

De acordo com o site oficial da comunidade Bahá’í, a sua fé é uma religião mundial independente, com leis próprias e escrituras, surgida na antiga Pérsia, atual Irã, em 1844. Foi fundada por Bahá’u’lláh (do árabe ‘A glória de Deus’), título de Mirzá Husayn Ali (1817-1892), e não possui dogmas, rituais, clero ou sacerdócio. Sua sede permanente está localizada no Centro Mundial Bahá'í,  na cidade de Haifa, um dos motivos da perseguição aos seus fiéis residentes no Irã, acusados de serem agentes pró-Israel e inimigos do Islã. No entanto, muito antes da existência do estado de Israel, a Fé Bahá’í estava presente naquele território. Isso porque os seus fundadores foram exilados e presos na colônia penal de Acre, na então Palestina, em 1868, 80 anos antes da independência de Israel, ocorrida em 1948. 

Vítimas de perseguições, os bahá´ís foram obrigados a deixarem o Irã, principalmente na década de 1950, durante o governo do Xá Reza Pahlevi, intensificando o  êxodo a partir de 1979, com a instalação da República Islâmica do Irã, do Aiatolá Khomeini. Nesse regime teocrático e fundamentalista, os bahá´ís iranianos são acusados de “infiéis” e “hostis”, e a sua comunidade de mais de 300 mil pessoas vive em permanente estado de opressão e precariedade religiosa, social e jurídica.

Em sua página oficial, a Fé Bahá’í descreve a situação crítica de seus adeptos no Irã, considerados inimigos do Estado: Desde a revolução, mais de 220 líderes da comunidade bahá’í foram mortos, locais sagrados demolidos, jovens expulsos de universidades, crianças maltratadas nas escolas, cemitérios destruídos, além da perda do direito ao trabalho, às pensões e aposentadorias.” Outro fato inédito a destacar é que os acusados não podem ter advogado de defesa.

Em razão dessa situação dramática, cerca de uma centena de bahá'ís iranianos receberam refúgio no Brasil na década de 1980. Eles se juntaram à comunidade bahá’í brasileira, cujo início remonta ao ano de 1921, quando da instalação do primeiro grupo bahá’í na cidade de Salvador, na Bahia.

Apelo Universal

Quando do lançamento da campanha pela libertação dos sete religiosos, a principal representante da Comunidade Internacional Bahá’í nas Nações Unidas, a advogada indiana Bani Dugal, exaltou a coragem do grupo e o sofrimento de suas famílias. “A nossa expectativa é que estes sete corajosos indivíduos sejam libertados até o próximo ano, ao completarem as suas penas, apesar de que, na verdade, eles não deviam sequer ter sido presos.” 

A representante fez, ainda, um relato dramático da situação dos condenados: "Os sete eram casados, com crianças, e antes de serem presos tinham vidas familiares muito queridas. Os sete eram também extremamente ativos e trabalhavam pela melhoria da sua comunidade e da sociedade iraniana como um todo. O longo período de prisão implicou, entre outras coisas, que perdessem o nascimento de netos, os casamentos dos filhos e parentes próximos, e os funerais de familiares e amigos."

Além dos sete Yaran (‘Amigos que ajudam’), como é conhecida a liderança bahá’í, mais 86 outros fiéis permanecem presos no Irã unicamente pelas suas crenças religiosas. Em 2009, após anos de luta na defesa dos bahá’í e contínuas ameaças de morte, a juíza iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz de 2003, teve que procurar refúgio na Inglaterra. “De fato, toda a comunidade bahá’í iraniana está sujeita à injustiça e crueldade, à opressão e tirania“ reforça Bani Dugal. ”Todos enfrentam políticas injustas de estrangulamento econômico, a negação de acesso ao ensino superior, e ataques maliciosos – que as autoridades não investigam - contra as suas propriedades, para não mencionar uma intensa propaganda negativa nos meios de comunicação oficiais”, acrescenta.
  
Em comunicado oficial, a “Casa Universal da Justiça”, instituição máxima da Fé Bahá’í, instalada no Monte Carmel, em Haifa, atribui ao “fanatismo rígido” dos dirigentes iranianos a conduta “irracional” de sufocar a minoria bahá’í, utilizando-se de “políticas tacanhas” que minam a credibilidade do país na esfera internacional. Composta por nove membros eleitos a cada cinco anos, a instituição exerce funções legislativa e jurídica, publica livros e documentos e administra todas as questões mundiais da fé em questão.

Os presos e suas famílias

Há dois anos, a jornalista nascida em Angola, Margarida Santos Lopes, que foi editora internacional do jornal “Público”, de Lisboa, e é especializada em assuntos que envolvem o Oriente Médio e o Islã,  publicou em seu blog um texto em que registra o perfil biográfico dos presos ( ‘Bahá’ís: Perseguidos no Irão, nem sempre amados em África’, em maio de 2015).  De início, ressalta a detenção de Mahvash Sabet, de 62 anos, professora e  responsável durante quinze anos pelo Instituto Bahá’í do Ensino Superior (atualmente fechado) onde lecionava Psicologia e Gestão. A organização educacional era uma alternativa acadêmica aos jovens bahá’ís proibidos de frequentar universidades nacionais.

Relata a jornalista que em 5 de Março de 2008, Sabet foi convocada pelo Ministério da Segurança, na cidade de Mashad, para responder a questões relacionadas com um funeral bahá’í. “Foi o início de uma campanha que levaria para a infame penitenciária de Evin, es filhos; o empresário Jamaloddin Khanjani, 81 anos (a sua mulher morreu em 2011, mas em Terã, todos os sete Yaran , detidos nas suas casas, na capital, em 14 de maio, afirma.

E prossegue: “À Mahvash Sabet juntaram-se a psicóloga Fariba Kamalabadi, 52 anos e trêle não foi autorizado a assistir ao enterro) e quatro filhos; o industrial a quem foi negado o sonho de ser médico Afif Naeimi, 53 anos e dois filhos; o engenheiro agrónomo Saeid Rezaie, 57 anos e três filhos; o assistente social forçado a ser carpinteiro Behrouz Tavakkoli, 63 anos e dois filhos; e o optometrista Vahid Tizfahm, 42 anos e um filho”, denuncia Margarida Lopes.

Lamentavelmente, a jornalista que tem uma posição bastante crítica em relação ao estado de Israel e que esteve recentemente no Irã para a revista de viagens “Volta ao Mundo”, não cita os bahá’is na interessante reportagem de exaltação à beleza natural, arquitetônica e histórica do país, apesar de detalhar um roteiro que inclui a localização dos vários grupos étnicos e religiosos que habitam a região ( ‘Uma viagem ao Irã que nunca viu’, em 19 de junho de 2017).

No entanto, os bahá’is são a maior minoria religiosa do Irã e seus líderes estão presos desde 2008 acusados pelo regime islâmico de espionagem e “corrupção na Terra”, crimes punidos com a pena de morte.

Sem provas

Para o Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Irã, com sede em Londres, não há provas para condenar nenhum dos sete religiosos. Fundado e presidido por Shirin Ebadi, 70 anos, primeira mulher muçulmana a receber um prêmio Nobel, a organização luta por uma maior conscientização dos direitos humanos no Irã, denuncia suas violações e dá apoio às famílias vítimas de perseguições política e religiosa.

A própria Shirin Ebadi é um exemplo da impiedade do regime fundamentalista do Irã. Juíza em Teerã, perdeu o cargo em 1979, logo após a revolução islâmica, sendo destituída da função porque as mulheres foram proibidas de conduzir julgamentos. Rebaixada a simples funcionária do mesmo tribunal onde era presidente, ela começou a advogar em defesa de ativistas políticos, jornalistas perseguidos e dos sete líderes bahá’ís, atividades que levaram ao seu encarceramento.

Em 1999, Ebadi ficou quase um mês presa em confinamento na prisão de Evin, acusada de perturbar a ordem pública. Foi condenada a um ano e meio de prisão e impedida de exercer a sua profissão por cinco anos, mas a pressão internacional fez o governo reduzir a pena para uma multa. Em 2008, o escritório que mantinha como centro de defesa de direitos humanos foi fechado pelas forças de segurança iranianas e o imóvel confiscado. No ano seguinte, com o agravamento das tensões políticas no Irã e as continuadas ameaças de morte, ela optou pelo exílio.

Em 2011, em visita ao Brasil para participar do encontro “Fronteiras do Pensamento”, em Porto Alegre, a ex-juíza iraniana denunciou mais uma vez a situação de violação dos direitos humanos no país. “No Irã, quem se opõe ao governo é preso. Muitos dos meus amigos estão na prisão e há relatos de assassinatos de prisioneiros políticos.” Ebadi é autora de vários livros, entre eles “Iran Awakening” (O despertar do Irã), publicado em 2006, e “Until we are free” (Até que sejamos livres), de 2016.

Causa Bahá’í na ONU

Outro importante combatente da causa Bahá’í é o diplomata originário das Ilhas Maldivas, Ahmed Shaheed, relator especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos no Irã. Eleito para o cargo, em 2011, pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, Shaheed, que vive na Inglaterra, foi reeleito pela sexta vez, no ano passado. Sua principal missão é lutar pela proteção dos direitos humanos nas sociedades islâmicas, apoiando a liberdade de religião e a abolição da pena de morte. Proibido pelas autoridades iranianas de visitar o país (desde 2005 o governo de Terã proíbe a entrada de peritos internacionais), ele emite comunicados periódicos à imprensa internacional pedindo a libertação “incondicional e imediata” dos sete líderes bahá’ís.

No Brasil, a posição do governo é de abstenção nas votações nos fóruns internacionais quando o tema é sobre as violações de direitos humanos no Irã. A atitude se consolidou, a partir de 2001, e o Itamaraty justifica o voto afirmando “dispor de informações que apontam avanços na situação dos direitos humanos no país”. Mas, o motivo real é evitar qualquer abalo econômico na relação entre os dois países que, em 2016, realizaram trocas comerciais no valor de 2 bilhões de dólares. 

Também desde 2015 o Brasil mantém seu voto de abstenção à renovação do mandato do relator especial para o Irã, no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Porém, o mais recente informe da relatoria especial, publicado em setembro de 2016, aponta 530 pessoas executadas no país. Em 2015, o número de execuções foi maior, atingindo entre 966 e 1054 pessoas, uma situação jamais registrada nos últimos 20 anos, segundo o relator Ahmed Shaheed.

No ano passado, ONGs ligadas à minoria religiosa Bahá’í no Irã já alertavam que o presidente Hassan Rouhani, eleito em 2013 com uma plataforma menos conservadora e mais aberta ao cenário internacional, não vinha cumprindo a sua promessa de campanha de combater a intolerância religiosa no país. Propagandas contra os adeptos dessa fé têm sido veiculadas livremente na mídia iraniana e jovens bahá’ís continuam proibidos de ter acesso às faculdades. Para especialistas em geopolítica, apesar das expectativas, não houve mudanças substanciais no Irã, porque o atual presidente ainda não transformou o histórico repressivo do país.

Rouhani foi reeleito em maio de 2017 para um novo mandato de quatro anos, com 57% dos votos do eleitorado, prometendo a retomada do diálogo com o Ocidente.


 Nota : A República Islâmica do Irã tem uma população de 82,8 milhões de pessoas, sendo 99% muçulmana ( 89 a 94% xiita e 5 a 9% sunita). O restante 1% da população é formada pelos bahá’ís ( 300 mil), cristãos (285 mil), zoroastras (25 mil), judeus (9 mil), Sabean-Mandaeans (mandeísmo) e Yarsanis (yarsanismo), estes dois últimos sem contagem oficial.

A constituição iraniana apenas considera minorias religiosas os cristãos, os zoroastras e os judeus que têm autorização para formar sociedades religiosas. Estipula, também, que todas as leis e regulamentos devem se basear em “critérios islâmicos” e na interpretação oficial da sharia (código de leis do islamismo baseado no Alcorão). Qualquer tentativa de conversão de muçulmanos é punida com pena de morte.  Por lei, os não-muçulmanos são proibidos de servir ao Judiciário, às Forças Armadas ou exercer funções públicas.

domingo, 6 de agosto de 2017

A face judaica-templária da Maçonaria


por Sheila Sacks


Publicado em "Maçonaria.Net"

 http://www.maconaria.net/a-face-judaica-templaria-da-maconaria/

Na obra “Antigas Letras”, o Grão-Mestre Leon Zeldis, 33º da Maçonaria de Israel ( The Grand Lodge of the State of Israel), chama a atenção para o fato de que os textos religiosos hebraicos onde aparecem os nomes divinos de D’us não são destruídos quando envelhecem, mas enterrados ou guardados em um lugar especial da sinagoga conhecido como guenizá. Diz a tradição judaica que qualquer fragmento de um texto sagrado que contiver o nome do Criador deve ser enterrado de acordo com determinados rituais. Entretanto, com o passar dos séculos e em função das perseguições sofridas pelos judeus, muitos documentos hebraicos foram apenas escondidos, daí o nome de guenizá (esconderijo), que corresponde em hebraico ao termo lignoze significa guardar, manter secreto.

Provavelmente, quando os primeiros templários chegaram à Terra Santa comandados por Hugues de Payen, em 1118, quase duas décadas após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados (1099), o objetivo real de sua presença não ficaria apenas circunscrito a dar proteção aos peregrinos que se deslocassem a Jerusalém. O grupo de nove nobres franceses oriundos da região de Provença que se estabeleceu na ala leste do palácio do rei Balduíno II, patriarca de Jerusalém, sob o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, passou quase dez anos promovendo escavações na área da Mesquista de Al-Aqsa, erguida sobre o local onde existiram dois grandes templos judaicos: o primeiro Templo, construído em 960 antes da Era Comum pelo rei Salomão e destruído por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.E.C., e o segundo Templo, reconstruído cinquenta anos depois no mesmo local e que resistiu até 70 da E.C. quando foi arrasado pelas legiões romanas.

No livro “A Chave de Hiram”, os autores maçons Christopher Knight e Robert Lomas destacam que os clérigos que acompanhavam os cavaleiros templários eram “todos capazes de ler e escrever em muitas línguas e eram famosos por suas habilidades em criar e decifrar códigos”. E transcrevem um comentário do historiador francês Gaetan Delaforge sobre os reais motivos dos templários: “A verdadeira tarefa dos nove cavaleiros era realizar uma pesquisa na área para recuperar certas relíquias e manuscritos que continham a essência das tradições secretas do Judaísmo e do Antigo Egito, algumas das quais provavelmente datavam do tempo de Moisés” (The Templar Tradition in the Age of Aquarius).

Uma Ordem acima de reis e rainhas

Legitimada pelo papa Honório II, em 31 de janeiro de 1128, a Ordem do Templo ganhou estatuto, regras e um comandante: o Grão-Mestre Hugh de Payens. Havia mais de 600 artigos no estatuto dos templários, segundo o historiador inglês Piers Paul Read, autor de “Os Templários”, sendo que a regra 325 relacionava-se com o uso de luvas de couro, que era consentido apenas aos capelães e aos pedreiros construtores de santuários e fortalezas. Mas, “em nenhum lugar havia qualquer menção a peregrinos ou a sua proteção, aparentemente ignorando a única razão para a criação dessa Ordem” (A Chave de Hiram). O papa seguinte, Inocêncio II, através da bula “Omne datum optimum” (1139), estabelece privilégios que tornam a instituição independente de toda interferência de autoridades políticas e religiosas. Segundo a encíclica, os templários só deviam obediência ao Papa.

Durante os próximos 200 anos a Ordem do Templo cresce e se expande em poder e riqueza, recebendo doações em dinheiro e propriedades na Europa. De acordo com os investigadores históricos ingleses, Michael Baigent e Richard Leigh, que pesquisaram a herança templária no surgimento da maçonaria, “em meados do século 12, a Ordem do Templo já tinha começado a se estabelecer como a mais poderosa e rica instituição isolada em toda a Cristandade, com exceção do Papado, com frotas de navios, territórios extensos e ligações secretas com líderes sarracenos” (O Templo e a Loja). Esses mesmos autores e mais Henry Lincoln ainda afirmam que coube aos templários criar e estabelecer a moderna instituição bancária. “Através de empréstimos de vastas somas a monarcas necessitados, tornaram-se os banqueiros de todos os tronos da Europa” (O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).

Com a perda de Jerusalém para os muçulmanos em 1291, a Ordem do Templo se transfere para Chipre. A ilha tinha sido conquistada pelo rei Jayme I (Coração de Leão), da Inglaterra, em 1191, e vendida, anos depois, para os templários. Em 1312, a Ordem é oficialmente extinta por um decreto papal emitido por Clemente V, sem que um veredicto conclusivo de culpa tenha sido pronunciado. Através da bula "Vox in excelso" o Papa extingue a Ordem do Templo “proibindo estritamente qualquer um de conjeturar em entrar para a referida Ordem no futuro, ou de receber ou usar seu hábito, ou de agir como um templário” (Os Templários). Em bula subsequente, a "Ad Providam", todos os bens e propriedade dos templários são transferidos para a Ordem dos Hospitalários, uma instituição similar a dos templários, que também funcionava na Terra Santa.

Na França, por ordem do rei Filipe IV, o Belo, os templários são perseguidos, presos e torturados. A Inquisição também se alastra por toda a Europa. As acusações concentram-se em supostas heresias e rituais praticados pelos membros da Ordem. O seu Grão-Mestre, Jacques de Molay, é condenado a morrer na  fogueira, na Ile de la Cité, em 1314.


Estado templário preocupava a Igreja

Setecentos anos depois desses acontecimentos, dúvidas ainda persistem sobre a verdadeira natureza da Ordem e de seus cavaleiros. Seriam eles guardiões de um conhecimento secreto adquirido na Terra Santa em contato com outras culturas ou mesmo oriundo de documentos sobre as origens do Cristianismo descobertos nas escavações? Para Baigent e Leigh, o impacto de antigas formas de pensamento cristão, não Paulinas, podem ter influenciado as atividades da Ordem no seu projeto para a criação de um Estado Templário e na sua política de reconciliar o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. “Os templários não negociavam apenas dinheiro, mas pensamentos também. Através de seu contato com as culturas muçulmana e judaica começaram a atuar como introdutores de novas ideias, novas dimensões do conhecimento, novas ciências” (O Santo Graal...).

A pesquisadora da Biblioteca do Vaticano, Bárbara Frale, em artigo publicado no “L’Osservatore Romano” (21.08.2008), jornal oficial da Santa Sé, afirma que os documentos originais do processo contra os templários, encontrados no Arquivo Secreto do Vaticano, demonstram que foram infundadas as acusações de que os cavaleiros praticavam em segredo ritos pagãos e haviam abandonado a fé cristã. De acordo com a autora, os templários não eram hereges e o que se descobriu nas atas conservadas no Vaticano é que “a disciplina primitiva do Templo e o seu espírito autêntico se haviam corrompido com o passar do tempo, deixando a porta aberta para a difusão de maus costumes” (Revelações do Arquivo Secreto do Vaticano: templários não foram hereges,no portal 'Zenit').

Aí caberia a indagação: quais seriam os “maus costumes”, segundo a avaliação da pesquisadora, adquiridos pelos templários? No mesmo artigo, Frale reconhece que “ainda há verdadeiramente muito que investigar” e adianta que o estudo da espiritualidade desta antiga ordem religiosa dará à cultura contemporânea novos motivos de discussão.


Escócia: refúgio dos templários e berço dos maçons

Da extinção oficial da Ordem até a fundação da primeira grande Loja Maçônica em Londres (1717), os autores  do “Santo Graal e a Linhagem Sagrada” registram que os templários ingleses e franceses encontraram refúgio na Escócia (país que ignorou a bula papal), e muitos deles também se integraram a outras Ordens e sociedades secretas na Alemanha, Espanha e Portugal. Conta-se que em 1689, na batalha de Killiecrankie, na Escócia, um dos aliados do rei Jayme II da Inglaterra, John Claverhouse, Visconde de Dundee, estava usando uma antiga vestimenta da Ordem do Templo, de antes de 1307, quando foi morto na luta. A referência ao fato foi publicada no jornal da primeira Loja de Pesquisas Maçônicas do Reino Unido (Quatuor Coronati), em 1920: “Lorde Dundee perdeu sua vida como líder do Partido Escocês Stuart. Segundo o testemunho do abade Calmet, ele teria sido Grão-Mestre da Ordem do Templo na Escócia” (O Santo Graal...).

Mas, muito tempo antes, nos meados do século 16, um manuscrito já comprovava a existência dos chamados franco-maçons e a sua subordinação à monarquia dos Stuart, principalmente ao soberano escocês Jaime I (1566-1625), que também foi rei da Inglaterra e da Irlanda. O historiador maçônico, Robert F. Gould, em “The History of Freemasonry”, transcreve o que era exigido dos franco-maçons à época: “... que sejais homens leais ao rei, sem nenhuma traição ou falsidade e que não tolerais qualquer traição ou falsidade, tratando de combatê-las ou notificá-las ao rei”. Segundo definição de um ilustre estudioso maçom José Maria Ragon (1781-1866), o termo franco-maçom somente se aplicaria àqueles que efetivamente cooperassem na obra de instrução e regeneração da humanidade. Os demais membros de obreiros construtores e integrantes da corporação de pedreiros seriam denominados simplesmente maçons.

Observa-se que a Grande Loja da Inglaterra, criada para centralizar a franco-maçonaria inglesa e que se constituiu no marco oficial da imagem pública da Maçonaria, foi instituída em 24 de junho de 1717, data emblemática para os templários e que lembra o nascimento de João, o Batista. A devoção a essa figura histórica é um dos elos que ligam os franco-maçons aos templários. Segundo o “Dicionário de Maçonaria”, de Joaquim Gervásio de Figueiredo 33.º, João Batista é o patrono da Maçonaria e todas as lojas maçônicas simbólicas são intituladas Lojas de São João.


A tradição judaica dos essênios

Preso e decapitado em 32 da Era Comum por ordem de Herodes Antipas, governador da Galiléia, Yochanan ben Ezequiel (nome hebraico de João Batista) provavelmente era membro da seita dos essênios, uma comunidade judaica que existiu durante os dois últimos séculos da era do Segundo Templo (150 antes da E.C. a 70 da E.C.). Historiadores judeus do século 1, Flavio Josefo e Philo de Alexandria, registraram a presença desse grupo ascético, que praticava um judaísmo ultra-ortodoxo, com jejuns frequentes e banhos rituais diários, e que habitava o deserto da Judéia, entre Jericó e Ein Guedi.

A partir de 1947, e até 1956, com a descoberta dos pergaminhos nas cavernas de Qumran (os manuscritos do Mar Morto), a tese de que os essênios eram seus autores ganhou força entre estudiosos e peritos de várias nacionalidades. Segundo Leon Zeldis 33º, os iniciados da comunidade de Qumran, cujas idades variavam entre 25 e 50 anos, aprendiam a “amar a justiça e ter aversão à maldade”. Consideravam-se herdeiros dos reis sacerdotes, simbolizados por Salomão (do hebraico Shlomo, que deriva da palavra Shalom-paz) e Melquizedek (do hebraico Malki-Tzadik, rei justo), rei de Salem (a atual Jerusalém), à época de Abraão. Alguns de seus membros, como João, o Batista, faziam votos de nazareos - do hebraico “nazir” que corresponde a “separado” ou “consagrado”. Os autores do livro “A Chave de Hiram” acreditam que “a voz que clama no deserto” poderia ser a de João Batista “que viveu uma vida dura no deserto, de retidão qumraniana, comendo apenas os alimentos permitidos, usando um cinturão de couro e uma túnica de pelo de camelo”.

Na obra “Os Manuscritos do Mar Morto”, o professor e doutor em teologia Geza Vermes destaca que os membros da seita se consideravam “o verdadeiro Israel”, fiéis representantes das autênticas tradições religiosas. Os sacerdotes, chamados de “filhos de Zadok” (o sacerdote da Casa de David), se constituíam na autoridade máxima da comunidade. A hierarquia era rigorosa. Cada membro era inscrito na “ordem de seu grau”. O mais alto cargo recaía na pessoa do Guardião, conhecido também como “Mestre” (maskil, em hebraico). Eram também instruídos a reconhecer “um filho da Luz” de um “filho das Trevas”. Na lista de infrações e de suas penas correspondentes, o pecado mais grave que demandaria em imediata expulsão da congregação seria qualquer tipo de transgressão, por ato ou omissão, às diretrizes da Lei de Moisés.

Em um dos manuscritos – o Preceito do Messianismo – é especificado que somente a partir dos 30 anos os homens eram tidos como maduros, podendo participar das assembleias, de casos em tribunais e tomar assento nos altos escalões da seita. O neófito vindo de fora que se arrependia de seu “caminho de corrupção”, iniciava-se “no juramento da Aliança” no dia em que conversava com o Guardião, mas nenhum estatuto da seita deveria ser divulgado a ele. Na avaliação do professor Geza Vermes, o retrato que assoma da leitura dos manuscritos em relação às ideias e aos ideais religiosos dos essênios é uma observância fanática à Lei de Moisés. No campo político, os essênios eram frontalmente contra a dinastia de Herodes e o domínio dos romanos sobre a Terra Santa.

Os livros secretos de Moisés

Dizimada pelos romanos em 66-70 da E.C., a comunidade de Qumram pode ter enterrado sua história, seus segredos e sua tradição secreta ligada a Moisés em algum lugar do templo de Jerusalém, seguindo a prática judaica de não destruir documentos sagrados (a cidade de Jerusalém fica a 40 minutos de carro de Qumram). Na obra “A Chave do Hiram”, os autores aventam a hipótese desses manuscritos terem sido descobertos pelos templários, no século 12, em função das sigilosas escavações realizadas no local por mais de uma década. No livro “A Odisseia dos Essênios”, o historiador britânico Hugh Schonfield faz referência aos livros secretos que Moises teria dado a Josué para que ele os mantivesse ocultos “até os dias de arrependimento”.

No livro do escritor francê Michel Lamy - "Os Templários. Esses senhores de Mantos Brancos"(1997) -  é lembrado o interesse do abade Estevão Harding, amigo e mentor de Bernardo de Clairvaux (incentivador da criação da Ordem dos Templários e autor de suas regras), por textos hebraicos. O abade procurava a ajuda de rabinos nas suas traduções do hebraico dos livros do Velho Testamento. Para Lamy, esse intenso interesse por textos hebraicos demonstram a crença na existência de um tesouro oculto enterrado sob o monte do Templo e algum tipo de relação com o lugar que mais tarde se tornou a moradia dos templários. O historiador Piers Paul Read também destaca que uma das primeiras traduções encomendadas pelos templários na Terra Santa foi a do “Livro dos Juízes”, do Velho Testamento. “Havia uma íntima e inquestionável identificação dos cristãos da Palestina com os israelitas de antigamente” (Os Templários).

Erguido pelo rei Salomão para abrigar a “Arca da Aliança” – relicário das palavras divinas a Moisés no deserto - , o grande Templo de Jerusalém concentrava nesse local toda a sua santidade. Construído sobre o Monte Moriá, o aposento onde ficava a arca sagrada era o lugar mais recôndito do Templo, chamado de “o Sagrados dos Sagrados” (Kodesh há-Kodashim), recinto cuja santidade era tal que somente o grande sacerdote (Cohen Gadol, em hebraico) tinha permissão de lá entrar, uma única vez durante o ano, no Dia do Perdão - Yom Kipur (Revista Morashá).

A adoção pelos templários e maçons dessa simbologia estruturada nos mistérios e segredos que se iniciam com Abraão, tem seu ápice em Moisés, se perpetua com a construção do Primeiro Templo por Salomão e sofre transmutações generalizadas a partir dos primórdios da Era Comum (após a destruição da comunidade de Qumram), ainda permanece envolta em véus em sua nascente e tem se mostrado um desafio para a Igreja Católica. De igual forma, a imensa quantidade de publicações, teorias e suposições a respeito do tema ainda não produziu uma resposta diferente daquela que anima e justifica o trabalho da maioria dos pesquisadores: a da “busca pela verdade” .


Os guardiões da Aliança

Em “As Intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto”, o leitor acompanha a trajetória dos manuscritos, desde das primeiras descobertas no deserto da Judeia, em 1947, durante o mandato britânico na Palestina, até o início da década de 1990, quando o conteúdo de muitos documentos ainda não tinha sido divulgado. A batalha para o livre acesso e publicação de mais de 800 manuscritos por parte de inúmeros pesquisadores de renome mundial é relatada por Michael Baigent e Richard Leigh que culpam a chamada “equipe internacional” comandada pelo padre Roland de Vaux, da École Biblique de Jerusalém, de manter por longo tempo o monopólio sobre os manuscritos. A polêmica se estendeu até a imprensa através das páginas do influente jornal americano "New York Times" que em editorial publicado em 9 de julho de 1989 criticou a morosidade das pesquisas, observando que “passados 40 anos, um círculo de estudiosos indolentes continua esticando o trabalho, enquanto o mundo espera e as preciosas peças vão se desmanchando em pó”.

Hoje sabemos que os membros da comunidade de Qumram costumavam referir-se a si próprios como “os guardiões da Aliança”. Tal conceito se baseia essencialmente na grande importância da “Aliança”, que impunha um voto formal de obediência, total e eterna, à Lei de Moisés. Daí a expressão “Ossei ha-Torá”, encontrada em um dos pergaminhos, que pode ser traduzida por “Agentes da Lei”, expressão talvez que fosse a origem da palavra essênio (As intrigas em torno dos Manuscritos...). Mas, para o pesquisador Robert Eisenman, autor de vários livros sobre os Manuscritos, termos como essênios, zadoques, zanoreanos, zelotes, sicários, ebionitas (os pobres) apontam para um mesmo grupo ou movimento ortodoxo de rigoroso cumprimento da lei mosaica.

Em seu estudo “Paulo como herodiano”, apresentado na Sociedade de Literatura Bíblica (Society of Biblical Literature), em 1983, Eisenman credita a Paulo (Saulo de Tarso) o papel de agente secreto dos romanos, após ser ameaçado de morte pelos “zelosos da Lei”. A partir dos manuscritos e de referências encontradas no Novo Testamento, o pesquisador afirma que a entrada de Paulo em cena mudou o rumo da história. “O que começou como um movimento localizado dentro da estrutura do judaísmo existente, e cuja influência se restringia aos limites da Terra Santa, se transformou em algo de uma escala e magnitude que ninguém na época poderia ter previsto. O movimento que estava nas mãos da comunidade de Qumran foi efetivamente convertido em algo que não tinha mais lugar para seus criadores” (As Intrigas em torno dos Manuscritos...).

Para os autores ingleses de “A Chave de Hiram”, Saulo de Tarso não conhecia profundamente os ritos nazoreanos da comunidade de Qumram e a sua simbologia da “ressurreição em vida”, cerimônia adotada pela Maçonaria em seu ritual de 3º Grau. Em um dos manuscritos encontrados, denominado “Preceitos da Comunidade”, é explicado que ao entrar na comunidade o sectário era elevado a uma “altura eterna” e unido ao “Conselho Eterno” e à “Congregação dos Filhos do Céu” (Geza Vermes, em “Os Manuscritos do Mar Morto”).

Outro importante estudioso dos manuscritos, o historiador John Allegro, em seu livro “The Treasure of the Copper Scroll” que traz a tradução completa do Manuscrito de Cobre, explica que “Qumram” é uma palavra árabe moderna e que no século 1 da E.C. o local era conhecido como Qimrôn, raiz da palavra hebraica que significa abóbada, arco, portal. O pesquisador também observou a utilização de códigos no Manuscrito de Cobre quando são citados os 64 esconderijos com metais preciosos e manuscritos pertencentes à Comunidade. Detalhe igualmente notado pelo padre J.T.Milik, que fazia parte da equipe internacional que analisou os manuscritos em Jerusalém. O religioso constatou a presença de técnicas de codificação críptica em alguns documentos secretos que continham informações sobre eventos futuros.


Nota: No livro “O Templo e a Loja”, os pesquisadores Richard Leigh e Michael Baigent relatam a descoberta de um cemitério com mais de cem lápides de templários durante as escavações  no Castelo de Pèlerin (Castelo do Peregrino) ou Fortaleza de Atlit, na década de 1980, a 10 quilômetros ao sul da cidade de Haifa, na costa norte do país, junto ao Mediterrâneo. A construção, erguida em 1218, foi a maior fortaleza da Ordem do Templo no então Reino Latino de Jerusalém e ainda são visíveis as ruínas da fortificação. Uma das tumbas dos templários ficou em exposição no Museu Arqueológico Rockefeller, na parte leste de Jerusalém.


Texto atualizado (escrito originalmente em 2011)