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domingo, 3 de junho de 2018

Charges do mal atingem comunidade judaica do Chile


Por Sheila Sacks

Aumenta o número de charges anti-Israel e antijudaicas na internet, enquanto permanecem raras as charges que defendem Israel

A pequena e laboriosa comunidade judaica chilena, de cerca de 18 mil membros, está passando por tempos difíceis. O aumento do antissemitismo no Chile liderado por descendentes de palestinos residentes no país, que hoje somam perto de 500 mil  pessoas – a maior comunidade palestina fora do Oriente Médio – , tem provocado constrangimentos e momentos de tensão, agravados pela lentidão das autoridades locais em coibir manifestações preconceituosas, abusos e agressões verbais.

O presidente da Ccomunidade Judaica do Chile (CJCh), Shai Agosin, denuncia que a linha entre antissionismo e antissemitismo está se tornando indistinta. Ele conta que a Federação Palestina do Chile tem publicado repetidas charges antijudaicas em seu site se utilizando de caricaturas semelhantes às usadas pelo semanário nazista Der Stürmer, da década de 1930.

Em 2016,o Centro Simon Wiesenthal de direitos humanos já tinha manifestado seu repúdio à veiculação dessas charges em documento endereçado a então presidente Michelle Bachelet. 

Recentemente, o Comitê Judaico Americano (AJC, na sigla em ingês), enviou uma carta ao atual presidente Sebastián Piñera, empossado em março, externando  a sua preocupação em relação ao ambiente hostil aos judeus, principalmente nas universidades. “Sob a bandeira de solidariedade ao povo palestino, o direito dos judeus chilenos de expressarem o seu apoio a Israel vem sendo questionado e até mesmo negado.”

Sem dúvida, o cartum político é um instrumento de crítica e de convencimento. Porém,quando o alvo é Israel, o que se observa é que a arte da caricatura e da charge se converte em uma arte armada em um campo de guerra, com artistas milicianos se valendo de todos os artifícios enganosos da propaganda e do imaginário racista para degradar a identidade judaica e o estado de Israel. Muitos desses cartunistas, aliciados por grupos extremistas, beligerantes e antissemitas.

São charges do mal que incitam à violência e estimulam a intolerância, principalmente entre os jovens. No Chile atual, que recebeu em maio a visita oficial de  Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, universitários promovem boicote acadêmico a Israel e tentam proibir estudante judeu de participar de conselho estudantil. Situações que não combinam com a imagem de um país considerado modelo de democracia e de direitos humanos na América Latina.

Brasileiro entre os mais antissemitas

Em relação ao Brasil, é importante lembrar que o cartunista Carlos Latuff foi listado, em 2012, como o terceiro maior antissemita do mundo. A listagem elaborada pelo Centro Simon Wiesenthal colocava na liderança o egípcio sunita Mohammed Badie, guia supremo da Irmandade Muçulmana, condenado à prisão perpétua em 2017, seguido do iraniano xiita Mahmud Ahmadinejad,na época presidente do Irã.

Latuff , de 49 anos, que se autodenomina um artista político que abraçou a causa palestina, prossegue com seus cartuns ofensivos contra Israel, reproduzidos por inúmeros sites de notícias, como Portal Vermelho, OperaMundi, Diário do Centro do Mundo(DCM), Carta Capital e Folha de São Paulo, entre outros. 

Em 2006, Latuff foi premiado com o segundo lugar em uma competição internacional denominada “Charges sobre o Holocausto”, promovida pelo governo de Ahmadinejad.

Hasbará na arte do cartum

Apesar dos protestos de organizações judaicas, houve um crescimento descomunal, nas mídias nacional e internacional, de charges maldosas contra o estado de Israel que utilizam caricaturas preconceituosas e medievais dos judeus em seus desenhos. Por outro lado, os cartuns que apoiam Israel são em número reduzido, insuficientes para reparar os danos provocados por este tipo de “arte”.

Implementar e propagar, nos meios de comunicação e nas redes sociais, as charges que  mostram a realidade da situação do conflito de Israel com os palestinos, em uma espécie de Hasbará ilustrativa, é uma alternativa para ser contrapor a essa enxurrada infame de cartuns que denigrem a história e a identidade judaica.



Artistas alemães contribuíram para o Holocausto

O fenômeno perturbador das charges antissemitas tem sido objeto de pesquisa do professor Luiz Nazario, 61 anos, doutor em História pela Universidade de São Paulo (com a tese “O Papel do Cinema na preparação do Holocausto”) e profundo estudioso de temas que envolvem o nazismo, o antissemitismo e o  terrorismo contextualizados nas áreas da propaganda, do cinema e da animação. Desde 1997 é professor de Cinema na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG). Tem 19 livros publicados.

Em uma entrevista online, em 2009, o professor Nazario respondeu gentilmente as minhas perguntas sobre a arte das charges ou cartuns que têm como alvo o estado de Israel e os judeus. Seus esclarecimentos ainda permanecem atuais porque, nesse aspecto, lamentavelmente, o mundo pouco mudou.

● A arte, como expressão imaginativa e criativa, estaria conceitualmente imune às amarras da ética filosófica tradicional (e suas normatizações em relação ao Bem e ao Mal)?

- Tenho me batido, em meus escritos sobre arte e ideologia, contra a ideia corrente de que o artista é um ser divino, acima do Bem e do Mal. Naturalmente, talentos específicos distinguem um artista de outros cidadãos que não possuem os mesmos talentos, mas esse privilégio não isenta o privilegiado da responsabilidade por suas ações. Se o artista é capaz de sintetizar numa imagem toda uma situação, sua síntese possui um poder de impacto que deve ser considerado.

Ao engajar sua arte numa causa, o artista sabe – ou deveria saber – exatamente o que está em jogo. Nenhum artista é obrigado a engajar sua arte. Mas se ele engaja sua arte numa causa justa, por mais liberdade, paz, progresso, verdade, ele deve ser recompensado por prestar voluntariamente um serviço à humanidade. Da mesma forma, se ele engaja sua arte numa causa criminosa, por mais terror, guerra, miséria, mentira, ele deve ser punido por contribuir voluntariamente com a desumanidade. A forma dessa punição deve ser estabelecida pela sociedade.

Claro que certas sociedades podem aproveitar-se dessa medida para punir os artistas que as incomodem, estabelecendo uma nova censura, um novo totalitarismo etc. Daí o receio de se estabelecer critérios de punição para artistas. Os artistas alemães contribuíram em massa com o regime nazista, desempenhando muito bem a parte que lhes coube na execução nacional do Holocausto. Nenhum deles foi punido por isso. E mesmo Leni Riefenstahl, tão próxima de Hitler, glorificando o regime nazista com seus filmes de propaganda, foi enfim reabilitada.

Cartum como arma de guerra

É crível ao artista/cartunista, no ato da criação, sublimar suas ideologias e preconceitos?

- Como disse, o engajamento da arte é uma opção política do artista. Se um cartunista como Carlos Latuff dispõe-se a diabolizar os israelenses para tornar aos olhos do mundo a causa dos palestinos, que ele adotou, mais humana, ele sabe exatamente a que processos e técnicas sua arte precisa recorrer. Tendo o domínio de sua arte, ele expressa exatamente o que deseja expressar. Não pode alegar posteriormente inocência quanto a isso.

Naturalmente, tal artista não quer ser visto como racista, e por isso ele se diz de esquerda, deprecia neonazistas e sustenta condenar, em sua arte, apenas um Estado imperialista que massacra palestinos. Mas ao concentrar a humanidade em apenas um dos lados do conflito, diabolizando o outro lado, assume, em sua arte, que todos os crimes podem ser cometidos contra o lado diabolizado.

● De que forma a arte do cartum tem sido usada como uma arma dissimulada de guerra?

- O cartum sempre foi usado como arma de guerra, desde a Primeira Guerra Mundial. Veja-se a animação “O afundamento do Lusitânia” (The Sinking of Lusitania, EUA, 1918), do cartunista Winsor McCay, com mais de 25 mil desenhos numa animação realista, enfatizando o peso dramático da mensagem dirigida contra a Alemanha, cujos submarinos haviam torpedeado e afundado aquele navio de passageiros, resultando em 1.195 vítimas civis, das quais 128 eram cidadãos norte-americanos.

Na Segunda Guerra o uso do cartum na propaganda contra o inimigo foi intensificado, tanto pelo Eixo quanto pelos Aliados. Mas nem toda propaganda de guerra (caricaturas, animações, filmes etc.) é condenável. É preciso distinguir as propagandas que expressam pontos de vista humanos de solidariedade, amor à liberdade e defesa de uma causa justa das que expressam pontos de vista desumanos, ódio à liberdade, defesa de uma causa injusta.

Há propagandas aliadas que, ao combater o racismo e a agressão do Eixo também se mostraram racistas e agressoras. Nenhuma causa deve servir de pretexto para o artista desafogar a própria bestialidade. 

O que ocorre atualmente no conflito Israel-Palestina é o uso internacional do repertório de clichês antissemitas da caricatura antissemita tradicional (dos séculos XIV-XIX), cujas fontes são os sermões da Igreja católica; e nazista (dos anos de 1920-1940), cujas fontes são “Os protocolos dos sábios do Sião”.

Este uso não se faz mais contra o Judeu (isto é, contra o povo judeu), mas contra o Estado Judeu (isto é, contra todos os judeus que se identificam com este Estado). É como se o antissemitismo, após a criação de Israel, redimensionasse seu ódio ao Judeu para o ódio ao Estado Judeu. Nesta operação, os “antissionistas” esperam dividir o povo judeu entre sionistas e não-sionistas e ainda conquistar uma parcela deles para a causa da destruição da Israel.

Imagens agressivas e deformadas

Algumas técnicas imagéticas dessas caricaturas:
1. Animalização dos judeus ortodoxos (pintados sob a forma de ratos, aranhas, serpentes, dragões, etc.);
2. Diabolização das autoridades israelenses (Primeiros-Ministros com chifres e caudas de diabo, cercado de chamas do inferno; renomeação de Israel como “Israelixo” ou “Israhell” etc.);
3. Negação do Holocausto (associação de Auschwitz a um parque de diversões com inserção de uma roda gigante, por exemplo);
4. Dessacralização da Estrela de Davi (sistematicamente associada a suásticas, crimes, opressões e massacres);
5. Troca histórica de papéis em situações históricas diversas (substituição das tropas SS por soldados israelis, da suástica pela Estrela de Davi, de judeus vitimados no Holocausto por palestinos vitimados por Israel);
6. Pacifismo (associação da causa da destruição da Israel à Pomba da Paz, sempre ferida, mutilada, esmagada e morta por Israel, o “eterno perturbador da paz”, como Hitler, causador da guerra mais mortífera de toda a História, chamava os judeus); etc.

● Qual é o papel da globalização nesse contexto?

- A globalização deu à História a dimensão do tempo real, ou seja, tudo acontece em todo lugar ao mesmo tempo. O mundo, que sempre foi um, agora é mais um que nunca. Todos os internautas têm acesso a todas as informações de todos os lugares o tempo todo. Mas algumas verdades horríveis não são assimiladas e a má-fé cresce na mesma medida.

Numa disciplina que leciono, Cinema e História, um aluno meu escolheu analisar o filme “Paradise Now”. Como poucos, ele percebeu que o homem-bomba palestino era santificado na cena do banquete, construída como na Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. Mas ao mesmo tempo, recusou-se a perceber o sentido dessa santificação. Ele sabia o que eu pensava a respeito. Mas se ele concordasse comigo precisaria recusar a santidade da causa palestina, o que ele não estava preparado a aceitar, pois se os terroristas palestinos não forem santos, Israel não seria mais tão detestável. E ele precisava odiar Israel, precisava que Israel fosse o Mal para manter funcionando sua visão de mundo, inteiramente baseada na má-fé.

Fascismo de esquerda

Quais os fatores que favorecem, na sociedade brasileira atual, a disseminação do preconceito e a demonização de Israel?

- A ideia de que para ser cool, in, fashion, basta odiar os Estados Unidos (o Grande Satã) e Israel (o Pequeno Satã), e de que todo o resto virá automaticamente. Pensar dá muito trabalho, é mais fácil seguir o rebanho. E se a nova onda é um novo tipo de fascismo, é o que se terá no Brasil. Aliás, é o que já temos. Um novo fascismo de esquerda, com discriminação total a Israel e aos EUA.

Escritores e artistas como Gore Vidal, José Saramago, John Le Carré, Jean Ziegler e Mikos Theodorakis ajudaram a dar, através de declarações raivosas contra Israel nas mídias de consumo, prestígio intelectual ao pathos antissemita. Mesmo escritores e artistas judeus precisam, agora, para fazer sucesso junto às mídias, mostrar-se contra Israel em certa medida, como o fez Susan Sontag cujos ensaios admiro, em seus discursos políticos, incluindo o de agradecimento ao Prêmio Jerusalém (2001), pela coletânea “Ao Mesmo Tempo”.

Cineastas israelenses devem fazer como Amos Gitai: criticar Israel em filmes e entrevistas, ou não ganharão prêmios e retrospectivas em festivais internacionais de cinema. A obrigação de atacar os EUA e Israel generalizou-se. Não que os EUA e Israel sejam inatacáveis, mas quando se atacam apenas EUA e Israel, e não se atacam os Estados que efetivamente suprimem liberdades civis, acobertam terroristas, doutrinam crianças, perseguem minorias, inferiorizam mulheres etc. então não se trata de críticas exprimindo uma visão humanista, mas de difamações propagando uma visão desumana.