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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Minissérie vai reviver criminoso nazista que se escondeu no Brasil por quase duas décadas

/ Sheila Sacks / 

Em 2026, o best-seller “Os meninos do Brasil”, de Ira Levin (1976), vai virar minissérie na plataforma de streaming Netflix,  que reúne 301,6 milhões de assinantes globais, sendo 25 milhões no Brasil. Anúncio divulgado na mídia em novembro passado (18/11/2025) informa que as gravações serão feitas na Espanha, Reino Unido e Bulgária.

Do mesmo autor de “O bebê de Rosemary”, levado ao cinema em 1968, “The boys from Brazil”, no título original, também teve uma versão cinematográfica em 1978. O livro revive a figura do médico nazista Josef Mengele, criminoso de guerra acusado de realizar experimentos cruéis em prisioneiros no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia ocupada. De acordo com a trama, trinta anos depois ele lidera uma organização com a finalidade de restabelecer o Terceiro Reich através de clones de Hitler. 

A obra de ficção parte do pressuposto, que se mostrou real, de que Josef Mengele, conhecido como O Anjo da Morte, vivia na América do Sul. De fato, Mengele fugiu para a Argentina após a guerra, residiu no Paraguai e se estabeleceu no Brasil por quase duas décadas sem ser importunado. Morreu em São Paulo, aos 67 anos, três anos após a publicação do livro (reportagem documental da Pública, agência de jornalismo investigativo, de 11/2/2025, aborda a estadia de Mengele no Brasil, sob o título ‘Anjo da morte: Como médico nazista Josef Mengele viveu com regalia por 18 anos no Brasil’).

Documentos secretos

Com a desclassificação de 1.850 documentos sobre nazistas que buscaram refúgio na Argentina, disponibilizados online pelo AGN - Archivo General de la Nación,  o público em geral já pode acessar detalhes da trajetória de Mengele e de outros criminosos nazistas que se esconderam no Cone Sul no pós-guerra.

Reportagem do El País assinala que Josef Mengele chegou ao porto de Buenos Aires em junho de 1949, a bordo do navio North King, quatro anos após o término da guerra. Tinha 38 anos e entrou na Argentina com um passaporte emitido pela Cruz Vermelha (‘O rastro dos nazistas Mengele e Eichmann na Argentina’, em 30/4/2025).

Dez anos depois, já com o nome na lista de nazistas mais procurados, ele foge para o Paraguai e, com a captura de Adolf Eichmann (1960) pelo Mossad, o serviço de inteligência israelense, esconde-se no Brasil.

Matéria da Fox News Digital (30/11/2025) revela que “Mengele entrou clandestinamente no Brasil em algum momento de 1960 pela Tríplice Fronteira. Ele foi auxiliado por fazendeiros germano-brasileiros, simpatizantes nazista, que lhe forneceram diversos esconderijos rurais por vários anos” (‘Como o criminoso de guerra nazista Josef Mengele escapou da captura na América Latina, revelado em arquivos desclassificados’, na tradução livre do inglês).

Retirado do mar sem vida na tarde de 27 de fevereiro de 1979, Mengele ficou estendido na areia da praia de Bertioga, no litoral paulista, até a chegada do policial que constatou que o corpo não apresentava sinais de afogamento, como vômito ou água saindo pela boca. O cabo da PM, Dias Romão, então conclui ”que se tratava de um caso de morte súbita ocorrida na água: talvez um ataque cardíaco ou um derrame.”

No documento do morto constava o nome de Wolfgang Gerhard, austríaco, viúvo de 54 anos, técnico mecânico, residente no bairro Novo Brooklin, na cidade de São Paulo. Um casal de amigos, ambos austríacos, Wolfram e Liselotte Bossert, que sabiam que o morto era Mengele e esconderam o fato, dividiam a casa de veraneio perto da praia e disseram que viram Gerhard entrar na água e depois cambalear.

Enterrado no dia seguinte no Cemitério do Rosário, na cidade de Embu, depois de o corpo ser liberado pelo Instituto Médico Legal, a causa da morte não foi conclusiva. Em 1985, após a exumação do corpo e a análise dos restos mortais, é confirmada a verdadeira identidade do carrasco nazista, um dos assassinos mais procurados do planeta.

Atrocidades

Médico em Auschwitz, de 1943 a 1945, o capitão Josef Mengele, da SS (abreviação de Schutzstaffel, organização paramilitar ligada ao partido nazista), fugiu do campo de extermínio dez dias antes da entrada das tropas soviéticas no local.

Nos dois anos em que esteve no comando do “hospital” do barracão 10, centenas de experimentos atrozes em judeus e ciganos foram realizados, segundo anotações e relatos de sobreviventes. As denominadas “pesquisas científicas” incluíam a exposição prolongada a raios-X, cirurgias, administração de medicamentos desnecessários, amputações de membros e inoculações intencionais de bactérias infecciosas.

Reportagem da plataforma de notícias Infobae, com sede em Buenos Aires, assinada por Daniel Cecchini, jornalista investigativo e um dos autores do livro Cárceles, sobre as prisões na Argentina, reporta as atividades de Mengele em Auschwitz. Uma das práticas usadas era transformar gêmeos em siameses, costurando as crianças pelas costas, o que resultava em mortes posteriores por infecção. Seus corpos então eram dissecados para “estudos comparativos” (‘El día que Mengele llegó a Auschwitz y los siniestros experimentos científicos que lo llevaron a ser el ángel de la muerte’, em 23/5/2023).

Tentativas de alterar a cor da íris dos olhos dos prisioneiros por meio de injeções de substâncias químicas também eram feitas juntamente com a extração dos globos oculares de pessoas com cores diferentes de íris que eram assassinadas para a realização dessa prática. Alguns globos eram enviados a Berlim para “análise” e outros eram exibidos em frascos em seu escritório.

Cobaias humanas

Matéria semelhante, ainda no Infobae (7/2/2025), esta do jornalista Alberto Amato, que foi editor da revista Clarín, apresenta o assustador depoimento do médico judeu Vexler Jancu, ex-prisioneiro de Auschwitz. “Ao entrar no consultório de Mengele, vi uma mesa de madeira. Sobre ela havia amostras de olhos. As cores variavam do amarelo pálido ao azul claro, verde e violeta. Os olhos estavam perfurados como borboletas. Pensei que tinha morrido e já estava no inferno."

Amato conta que o general Juan Perón, então presidente da Argentina, conheceu Mengele quando este realizava manipulação genética em animais para produzir gêmeos, “uma obsessão do nazista em Auschwitz” quando se servia de seres humanos como cobaias. Conforme descrição de uma testemunha, o judeu húngaro Miklós Nyiszli, “em uma única noite, Mengele matou pessoalmente 14 gêmeos com uma injeção de clorofórmio diretamente no coração”. Após os assassinatos, ele realizava estudos comparativos nos corpos, muitos deles infectados propositadamente com bactérias do tifo e escarlatina (‘El nazi que se refugió en Argentina, fabricó juguetes y fundó un laboratorio: el final de Mengele, el monstruo que nunca tuvo paz’).

Rede de apoio

Na Itália, antes de embarcarem para a Argentina, Mengele e Eichmann tiveram a ajuda do bispo austríaco Alois Hudal, que era próximo do Cardeal Giovanni Montini, secretário do Papa Pio XII e, posteriormente, do Papa Paulo VI. “Mengele obteve um cartão de identidade da Itália, número 114, em nome de Helmut Gregor. Eichmann tinha o seu, em nome de Riccardo Klement, número 131”, relata Amato.

Uma rede clandestina de oficiais da SS liderada por Hans-Ulrich Rudel, que serviu na força aérea nazista Luftwaffe, organizava as rotas de fuga, geralmente tendo a cidade de Gênova como ponto de embarque. Rudel trabalhava no setor aéreo argentino, desde 1948, e era amigo de Perón.

Com o apoio financeiro da família, estabelecida na cidade de Günsburg, na Baviera, e proprietária da fábrica Mengele Agrartechnik, de máquinas agrícolas, Mengele tornou-se empresário na Argentina. “Fabricava brinquedos, fundou um laboratório e era sócio da empresa Fadrofarm, um laboratório de medicamentos”. Mas, com a captura de Eichman, “dormia com uma pistola Walther carregada debaixo do travesseiro.”

Em 1977, dois anos antes de sua morte, o filho de Mengele, Rolf, valendo-se de um passaporte falso, visitou o pai em uma viagem clandestina ao Brasil. “Ele não admitiu ter feito nada de errado”, afirmou Rolf. “E não demonstrou culpa ou remorso. Disse que estava cumprindo ordens.”

Outras prioridades

Em entrevista ao correspondente Marcelo Ninio, da Folha de São Paulo (2010), Rafi Eitan, que comandou a operação de captura de Eichmann, contou que a inteligência israelense sabia do paradeiro do criminoso nazista. "Fui ao Brasil com outro agente em 1962 e confirmamos que Mengele vivia sob a identidade falsa nos arredores de São Paulo”. Eitan, na época com 84 anos, justificou que o governo desistiu da operação porque estava com outras prioridades como proteger as fronteiras do país. Também não desejava criar um possível incidente diplomático com o Brasil semelhante ao que ocorreu na Argentina (‘Mossad descobriu Mengele no Brasil, mas não o deteve’, em 31/10/2010).

Lembrando que em 1965 o nazista Herberts Cukurs, foragido no Brasil, foi atraído para o Uruguai e executado naquele país por agentes do Mossad, em 23 de fevereiro. Responsável por milhares de mortes de judeus na Letônia e conhecido como o “Açougueiro de Riga”, ele era empresário bem sucedido no Rio de Janeiro, onde vivia desde 1946. Um dos agentes, Yaakov Meidad, do grupo que capturou Eichmann, se passou por empresário austríaco em visita ao Rio e fez uma oferta de negócios a ser acertada no país vizinho. O corpo de Cukurs foi encontrado pela polícia uruguaia onze dias depois, em um baú de madeira, com um bilhete: "Aqueles que não esquecerão" (‘Os carrascos nazistas que fugiram para o Brasil’, Deutsche Welle, em 3/2/2025).