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quinta-feira, 8 de agosto de 2024

No Brasil, lei estabelece o Dia Nacional da Lembrança do Holocausto

 

A data será celebrada anualmente em 16 de abril, dia em que faleceu Luiz Martins de Souza Dantas, em 1954, diplomata brasileiro que atuou na Europa para salvar pessoas ameaçadas pelo nazismo, emitindo vistos para que centenas de judeus pudessem entrar no Brasil. 

Sheila Sacks

A iniciativa dos ex-deputados Jorge Silva e Sergio Vidigal, apresentada na Câmara em 2017, ambos do estado do Espírito Santo, obteve no senado parecer favorável do senador Carlos Viana, de Minas Gerais, presidente da Frente Parlamentar Brasil-Israel no Senado, criada em 2019, e um dos raros congressistas brasileiros a visitar Israel após o ataque terrorista de 7 de outubro.

"Ao relembrar os horrores do Holocausto, educamos as gerações mais jovens sobre a importância do respeito aos direitos humanos, da tolerância e da diversidade. Ao dedicar um dia para a lembrança e reflexão, reafirmamos o compromisso com a verdade histórica e a necessidade de combater a desinformação. Isso é crucial para preservar a integridade dos fatos históricos e garantir que as futuras gerações tenham acesso à verdade”, afirma Viana.

Aprovada na Comissão de Cultura do Senado, em 25 de junho, sob a presidência do senador Flávio Arns, do Paraná, a lei foi sancionada um mês depois, em 29 de julho, pela presidência da República, e publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte, 30/7, na página 1, sob o nº 14.938, com as assinaturas do presidente da República e do Ministro de Direitos Humanos e da Cidadania:

“LEI Nº 14.938, DE 29 DE JULHO DE 2024

Institui o Dia Nacional da Lembrança do Holocausto.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º Esta Lei institui o Dia Nacional da Lembrança do Holocausto, a ser comemorado, anualmente, no dia 16 de abril.

Art. 2º Fica instituído, no calendário das efemérides oficiais, o Dia Nacional da Lembrança do Holocausto, a ser comemorado, anualmente, no dia 16 de abril.

Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 29 de julho de 2024;

203º da Independência e 136º da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Silvio Luiz de Almeida”

 Canais oficiais

Além de uma razoável veiculação na mídia, a criação da data mereceu matérias especiais nos portais digitais do Senado e da Câmara dos Deputados, agência GOV e Ministério de Direitos Humanos (30 e 31/7), todas ressaltando a intenção da celebração no sentido de “honrar a memória das vítimas e provocar reflexões sobre as lições aprendidas com a Segunda Guerra Mundial, que ocorreu entre 1939 e 1945”.

Os textos também exaltam o heroísmo de Souza Dantas e a razão dos autores da proposição da lei não seguirem a data oficial estipulada pela ONU (27/1) por coincidir com as férias escolares no Brasil. A data celebrada em Israel, o Yom HaShoah, em 27 do mês de nissan no calendário hebraico, também foi mencionada.

Em janeiro, a plataforma de notícias israelense Ynet, o canal online do jornal Yedioth Ahronoth, o maior do país, já adiantava que o estabelecimento de um Dia Nacional Brasileiro em Memória do Holocausto envolveu um extenso trabalho da embaixada israelense no Brasil, chefiada pelo embaixador Daniel Zonshine, e da Associação de Amizade Israel-Brasil.

Emitindo vistos

Nascido no Rio de Janeiro, Souza Dantas foi nomeado embaixador na França em 1922, onde permaneceu até 1944. Entre junho e dezembro de 1940, o diplomata emitiu mais de mil documentos e cerca de 500 vistos para judeus, refugiados e pessoas perseguidas pelo regime hitlerista, sem seguir os trâmites burocráticos oficiais. Proibido pelo governo de Getúlio Vargas de conceder qualquer tipo de visto diplomático, a partir de 1 de janeiro de 1941, ainda assim Souza Dantas driblou a ordem governamental emitindo passaportes com datas anteriores à proibição. Em 2003, ele recebeu o título de Justo entre as Nações pelo Estado de Israel.

No livro “Quixote nas Trevas” (2002), o historiador Fábio Koifman apresenta uma lista com os nomes de todas as pessoas salvas pelo diplomata enquanto trabalhava na embaixada brasileira em Paris. Tema da tese de mestrado de Koifman, o livro foi uma das bases para o processo de premiação de Dantas pelo Museu do Holocausto, em Israel. São cerca de 800 nomes, dentre os quais 425 judeus, que ele ajudou a escapar do extermínio.

Em 2020, o livro de Koifman foi traduzido para o espanhol sob o título “Souza Dantas: Justo entre las Naciones”, em uma iniciativa conjunta da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), veiculada ao Ministério das Relações Exteriores, em parceria com a Embaixada do Brasil em Buenos Aires e a Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA). A obra está digitalizada, desde 2022, no site da Fundação.

Em outra obra, “Souza Dantas e a França ocupada” (2008),também publicada e digitalizada pela FUNAG, através de seu Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD), o embaixador Álvaro da Costa Franco realizou uma compilação de documentos e correspondências redigidos por Souza Dantas no período de 1940 a 1942.   Na introdução – O diplomata e o homem - , é revelado que Dantas se casou tardiamente, em 1933, aos 57 anos, com uma viúva nascida nos Estados Unidos, Eliza Stern (Meyer, de solteira), de ascendência judaica, proveniente de uma família de industriais e banqueiros, cuja irmão comprou o jornal Post, que se transformou no influente Washington Post.

Costa Franco ressalta, porém, que o fato não influenciou o espírito humanitário de Dantas. “Seu comportamento para com os perseguidos do nazismo não foi, portanto, um ato isolado, nem se deve atribuí-lo às relações com o mundo israelita, decorrentes da origem de sua mulher. Terá brotado do fundo de um sentimento que lhe era natural. Foi o mais significativo e expressivo de sua generosidade, pelas circunstâncias e pelo número de pessoas a quem socorreu, confirmando apenas, numa grande escala, seu espírito humanitário.”

Data nacional


Segundo a enciclopédia do Museu do Holocausto de Washington, a data de 27 de janeiro foi escolhida pela ONU como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto porque marca a liberação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, ocorrido naquele dia, em 1945.

A Resolução 60/7, de 1º de novembro de 2005, também rejeita qualquer tipo de negativa da existência do Holocausto. Além da celebração oficial da ONU, muitos países criaram seus próprios dias de lembrança, os quais são frequentemente conectados aos eventos do Holocausto.

A Argentina estabeleceu o dia 19 de abril, o dia da revolta do gueto de Varsóvia, como o “Dia Nacional da Diversidade Cultural”.  A Hungria celebra o dia 16 de abril como o “Dia Nacional de Lembrança do Holocausto”, relembrando a data do estabelecimento do gueto de Munkács pelos nazistas, ocorrido em 1944.  Nos Estados Unidos, o congresso estabeleceu, em 1979, o “Dia de Lembrança”, que usualmente acontece entre o mês de abril e o início de maio, para celebrar as vítimas do regime nazista, em data que corresponde ao Yom HaShoah em Israel.

No Brasil, com a iniciativa do Congresso Nacional, a lembrança do Holocausto se incluirá no calendário oficial de celebrações e acontecimentos importantes da nação, propiciando eventos e atos públicos, seminários e debates em ambiente escolar, universidades e em instituições de cultura e de cidadania.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Oriente Médio: Terrorismo e nacionalidade sob a mesma bandeira

 Sheila Sacks


Se quem nasce no Brasil é brasileiro, na França é francês, na Espanha é espanhol, na Alemanha é alemão, na Faixa de Gaza e Cisjordânia a nacionalidade está configurada no Hamas. Pesquisa divulgada em 13 de junho pelo Centro Palestino para Pesquisas Políticas e de Opinião (PSR, na sigla em inglês), sediado em Ramallah (Cisjordânia), mostra que 67% dos palestinos acham que o ataque de 7 de outubro foi uma decisão correta: 73% na Cisjordânia e 57% na Faixa de Gaza.

A pesquisa ocorreu entre 26 de maio e 1º de junho, com 64% dos entrevistados se dizendo satisfeitos com o desempenho do Hamas e considerando que o grupo terrorista será o vencedor da guerra (67% contra 11% a favor de Israel).  Para a esmagadora maioria dos palestinos, cerca de 97%, Israel é quem cometeu crimes de guerra, enquanto minguados 9% apontam o Hamas. 

A agência Reuters postou  uma pequena nota sobre a pesquisa em sua plataforma digital , mas uma análise mais apurada foi divulgada pelo instituto israelense Palestinian Media Watch (PMW). A entidade, fundada em 1996 por Itamar Marcus, tem como foco a investigação da sociedade e da política palestina, com destaque para o conteúdo dos livros escolares e didáticos fornecidos às crianças palestinas.

Assim, ficamos sabendo que para 71% dos palestinos, o Hamas – que controla a Faixa de Gaza desde 2007 -  continuaria a governar após a guerra, e seu líder, Ismail Haniyeh, teria 46% dos votos contra 5%  de Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, que devia renunciar, de acordo com 89% dos entrevistados.

Segundo Marcus, nascido em Nova York e radicado em Israel, o instituto tem uma equipe de onze pesquisadores especialistas da língua árabe que pesquisam e monitoram diariamente os jornais, programas de TV e rádio, sites e redes sociais, e também livros escolares controlados pela Autoridade Palestina.

Periodicamente são enviados a autoridades e órgãos governamentais de diversos países, organizações de direitos humanos e à mídia em geral, relatórios que expõem as atividades e mensagens de ódio e terror promovidas pelas lideranças palestinas.

Ainda de acordo com o Jerusalem Post que repercutiu a pesquisa, 1.570 adultos responderam pessoalmente as perguntas, dos quais 760 na Cisjordânia e 750 no centro e sul da Faixa de Gaza.

O foco é destruir Israel


Em artigo veiculado pela agência americana Associated Press (AP), logo após o massacre de 7 de outubro, o correspondente para o Oriente Médio, Joseph Krauss, lembrou que desde a criação do Hamas, no final da década de 1980, quando do início da primeira intifada (1987), o grupo terrorista tem se empenhado na luta armada e na destruição de Israel.

Durante todo processo de paz que culminou com o Acordo de Oslo, em 13 de setembro de 1993, escreve o jornalista, o Hamas ignorou as tratativas para por fim aos conflitos e executou dezenas de atentados suicidas que mataram centenas de civis israelenses. “Com o colapso das negociações de paz e a segunda intifada, em 2000, a violência se intensificou, mas em 2005, quando Israel retirou unilateralmente seus soldados e 8 mil colonos israelenses de Gaza, o Hamas aproveitou-se do fato politicamente, reivindicando para si a retirada, e ganhou as eleições, tirando do poder a Autoridade Palestina”,explica.

Krauss observa que ao longo de 16 anos de domínio em Gaza, quatro guerras (2008/2009, 2012, 2014 e 2021) e incontáveis conflitos que devastaram a estreita faixa costeira de 40 quilômetros situada entre Israel e o Egito, o Hamas se tornou cada vez mais armado, lançando foguetes de longo alcance, e internamente, mais popular, organizando um governo com ministérios, forças policiais e terminais de fronteira com detectores de metais e controle de passaportes.

Hamas recruta jovens para prosseguir na guerra


Recente reportagem do Jerusalem Post (23/6/2024) alertava para o possível retorno do Hamas à cidade de Khan Yunis, no sul de Gaza, e de um novo recrutamento de jovens palestinos – que poderia chegar a 20 mil -  pelo grupo terrorista. A informação, segundo o jornal, foi confirmada por “múltiplas fontes”, apesar das Forças de Defesa de Israel  (IDF, na sigla em ingês) não validarem a informação. 

Apesar de não estar mais operando em batalhões, calcula-se que ainda existem de 5 mil a 10 mil homens do Hamas atuando em células menores. A reportagem  afirma que de 14 a 16 mil terroristas integrantes dos batalhões do Hamas foram mortos (com um número semelhante de feridos), e 4 mil estão presos. O exército israelense se retirou da cidade em 7 de abril e considera que qualquer outra força do Hamas não contaria com o aparato de túneis estratégicos, locais de fabricação de armas, explosivos, foguetes e drones, bases para comunicação e coordenação de operações.

Vinte dias depois da reportagem, em 12 de julho, durante uma operação em Tel el-Awa, no norte de Gaza, perto do Hospital Shifa ( onde o Hamas estabeleceu um importante centro de comando neutralizado em março pelo exército israelense),as Forças de Defesa descobriram uma base de recrutamento e treinamento do Hamas funcionando no prédio da UNRWA ( Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio). No local também encontraram oficinas para construção de drones e explosivos, e nos arredores, um curso para fabricação de foguetes escondido em uma universidade.

Nesse novo método de recrutamento o grupo terrorista usa o desastre humanitário em Gaza do qual é o principal causador como a principal motivação para arregimentar civis, inclusive crianças, para que aprendam a construir armas. O Hamas também estaria se utilizando de casas semidestruídas para esconder armas, esperando que os militares não retornem aos locais.

Na Cisjordânia, o Hamas igualmente atua aliciando jovens para realizar ataques a Israel. Manchete do Times of Israel (21/7) informa que o Shin Bet, serviço secreto israelense, abortou um ataque terrorista a ser executado por uma célula estudantil do Hamas na Universidade Bir Zeit, em Ramallah, sob as ordens de membros do grupo terrorista baseado na Turquia. Cinco universitários foram presos, um fuzil M16 foi confiscado e milhares de dólares para a compra de armas, provenientes do Hamas da Turquia, foram apreendidos. Desde 7 de outubro, as Forças de Defesa de Israel já prenderam, na Cisjordânia, 4.400 pessoas envolvidas em atos terroristas, sendo 1.850 afiliadas ao Hamas.

“Em Gaza, não há casa sem túnel”

Para tipificar até que ponto o Hamas se integra à sociedade civil na Faixa de Gaza, o comandante da Brigada Nahal das IDF, Coronel Yair Zuckerman, afirma incisivo: “Não há casa sem túnel.” A Brigada atua em Rafah, no sul de Gaza, desde maio, com quatro batalhões de combate e unidade médica. “Rafah está abarrotada de túneis, só nos últimos dias (junho) encontrei 17”, enfatiza o coronel.

Ele explica que os túneis se conectam às casas vizinhas em um sinuoso labirinto. As entradas ficam ocultas atrás de portas de armários que por sua vez escondem paredes de concreto.  Zuckerman fala das dificuldades encontradas nos combates diários.  “As casas estão repletas de explosivos com fios que podem ser detonados à distância. Uma batalha onde os soldados lutam acima e abaixo do solo”, assinala. Na semana anterior à entrevista, um prédio em Rafah havia explodido matando quatro soldados israelenses.

Em razão da situação em Gaza e o aumento dos ataques do Hezbollah, a partir do Líbano - que lançou na última semana 160 foguetes no período de 24 horas -, o Parlamento israelense (Knesset) aprovou, em primeira leitura (16/7), estender o serviço militar de 32 para 36 meses, até 30 de junho de 2029.

Outra decisão, esta da Suprema Corte de Israel, liberou a convocação de judeus ultraortodoxos (Haredim) para servir nas Forças Armadas. Até então, eles estavam isentos do Serviço Militar.

Crimes contra a humanidade


Em um relatório de 236 páginas, a organização internacional Human Rights Watch, com sede em Nova York, denunciou em 17 de julho, após meses de averiguações, o grupo terrorista Hamas, e pelo menos quatro outros grupos armados aliados, de cometeram crimes de guerra e crimes contra a humanidade no massacre de 7 de outubro  em Israel.

“Os governos com influência sobre os grupos armados devem pressionar pela libertação urgente dos reféns civis, um crime de guerra em andamento, e para que os responsáveis ​​sejam levados à justiça”, diz o relatório.

A diretora de crise e conflito da Human Rights Watch, Ida Sawyer, afirma que os dados da pesquisa revelam  que o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro foi projetado para matar civis e tomar o máximo de pessoas possível como reféns. Entre outubro de 2023 e junho de 2024, a organização entrevistou 144 pessoas, incluindo 94 israelenses e outros cidadãos que testemunharam o ataque de 7 de outubro, familiares das vítimas, socorristas e especialistas médicos. Os pesquisadores também verificaram e analisaram mais de 280 fotografias e vídeos tirados durante o ataque e publicados nas redes sociais ou compartilhados diretamente com a instituição.

Fundada em 1978, a organização investiga, relata abusos e publica relatórios internacionais voltados para governos, empresas e grupos decisórios,  com denúncias de violações de direitos humanos. Em sua plataforma, a ONG informa que reúne 550 profissionais de 70 nacionalidades,  entre advogados, jornalistas e ativistas que trabalham para proteger civis em tempo de guerra,  crianças necessitadas, minorias vulneráveis e refugiados. Em 1997, pela sua reconhecida atuação, ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Antissemitismo no Brasil mais que triplicou em 2023, atestam organizações judaicas

Nas redes sociais, o aumento de postagens antissemitas foi de 419% em relação a 2022

Agressões verbais e físicas cresceram 86%, muitas tendo como alvo professores e estudantes judeus  

Sheila Sacks


Relatório  elaborado pela pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB), com apoio da Federação Israelita de São Paulo (FISESP), alerta que  em 2023 houve um total de 1.410 registros de antissemitismo, um aumento de 255% em relação a 2022, quando foram assinaladas 397 ocorrências. O estado de São Paulo, onde se concentra a maior parte da comunidade judaica, foi o campeão das ocorrências, com 512 registros; Rio de Janeiro (95), Rio Grande do Sul (67), Minas Gerais (37), Paraná (32), Distrito Federal (23) e Santa Catarina, com 22 casos. Classificados como Não Definidos (ND) foram 532 ocorrências.

O estudo de 54 páginas apresentado em 11 de junho  destaca que entre outubro e  dezembro de 2023, após o ataque terrorista do Hamas e a consequente reação de Israel, as manifestações antissemitas cresceram quase 800%  nas redes sociais e eventos públicos. Foram 1.119 denúncias, enquanto em igual período de 2022 o número não passou de 125. Somente em outubro de 2023 foram detectados 467 registros ante os 44 ocorridos em outubro de 2022, um aumento de 961%. 

De acordo com o documento intitulado “Antissemitismo no Brasil 2023 – O Aumento Exponencial da Intolerância aos Judeus “,  a FISEP, através de seu Departamento de Segurança Comunitária (DSC), recebeu no ano de 2023 um total de 2.113 denúncias de antissemitismo, das quais resultaram 1.410  registros. Em 2022 foram 490 denúncias.  Nas redes sociais, o Instagram concentrou 43% das manifestações e comentários antissemitas  ( 450 postagens) e o “X”, antigo Twitter, 32% (330). Houve um crescimento de ocorrências online de 419% em relação a 2022, saltando de 202 para 1.048.

O relatório também verificou que quando havia reação de Israel a agressões do Hamas e declarações “dúbias ou contra Israel “ de autoridades brasileiras, aumentava o antissemitismo nas redes sociais.

Em relação às agressões offline,  o aumento em 2023 foi de 86%, passando de 195 (2022) para 362. Merece destaque os casos em instituições de ensino. Em 2022, a maioria das ocorrências fazia apologia ao nazismo com pichação de suásticas e outros símbolos em muros de escolas. Já em 2023, houve um aumento de agressões verbais e físicas a professores e alunos judeus.  O documento  também cita ocorrências registradas  nos primeiros meses de 2024, como a agressão a uma comerciante judia, na Bahia, em fevereiro; bullying de cunho nazismo a um aluno judeu da escola paulista Beacon School (março); e a expulsão de um universitário do Centro Acadêmico da PUC-SP sob a justificativa de ser judeu sionista (maio).  “Como resultado, os judeus brasileiros se viram obrigados a alterarem seu comportamento por medo. Algo inadmissível em uma sociedade democrática”, afirma a pesquisa.

O texto – que em sua página inicial faz uma homenagem aos quatro brasileiros judeus vítimas do ataque do Hamas (Karla, Bruna, Ranani e Michel) - defende o fortalecimento nos currículos escolares da educação sobre o Holocausto e principalmente a adoção de políticas públicas eficazes por parte das instituições governamentais no combate ao discurso de ódio e à desinformação nas redes sociais, ao racismo e ao antissemitismo.

Lembra ainda a definição de antissemitismo proposta pela Aliança Internacional pela Memória do Holocausto (IHRA) e desde 2016 adotada por diversos países, inclusive o Brasil (2021), e alguns estados brasileiros, como o Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, Minas Gerais ( em 8/7/2024), Rondônia e Roraima: O antissemitismo é uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são orientadas contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas. A IHRA é formada por 35 países membros e 9 observadores, contando com o Brasil e o Uruguai no segundo grupo.

A comunidade judaica brasileira, segundo o Censo 2010, tem 107.329 pessoas e representam 0,06% da população. É a segunda maior comunidade da América Latina, depois da Argentina. 

Conselho  Nacional de Direitos Humanos prepara relatório

Em maio deste ano, o presidente da Comissão de Direito Internacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção RJ, e conselheiro da Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Carlos Nicodeno, já tinha apontado a falta de uma política nacional para combater o neonazismo. Em declaração à Agência Brasil, plataforma de notícias do governo, ele afirmou: “O  Brasil não tem políticas específicas de enfrentamento ao neonazismo, crime que tem registrado aumento de denúncias especialmente em anos eleitorais."

Na visita de um grupo de integrantes do Conselho à sede da OAB, no Rio, em 26 de junho, Nicodeno se manifestou sobre a necessidade “de um plano educacional preventivo para desconstruir ideias equivocadas que futuramente resultem em práticas preconceituosas".

Vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, o Conselho é formado por 22 conselheiros, 11 dos quais são designados por diferentes órgãos e instituições do Poder Público e outros 11 são representantes da sociedade civil, eleitos em encontro nacional convocado por edital público.

Em abril, uma equipe do Conselho já tinha ido a Santa Catarina para realizar um trabalho de apuração e encontros com autoridades locais, como parte de um estudo que tem sido desenvolvido, há alguns meses, sobre o crescimento de células neonazistas no país.  Até o final do ano o grupo espera produzir um relatório para adoção de políticas públicas de enfrentamento contra atos neonazistas no país, a ser entregue à Organização das Nações Unidas (ONU).

“Está colocado um desafio de pensar uma política nacional de enfrentamento a essa propagação dos atos neonazistas, que passa por um aprimoramento do sistema de Justiça, de segurança pública, além de estabelecer ações no campo da educação e direitos humanos”, ressalta Nicodemos.

A promotora de Justiça, Roberta Rosa Ribeiro, em reunião na sede do Ministério Público do Rio de Janeiro (26/6) também reforçou  a premência de uma ação efetiva contra  atos violentos e discursos de ódio às minorias no país. “Resta evidente a urgência no necessário enfrentamento do crescimento dos atos neonazistas no Brasil e, em especial, no Estado do Rio de Janeiro, tendo em vista a complexidade do tema e os impactos negativos à sociedade e aos integrantes de grupos vulnerabilizados, os quais são destinatários dos atos de violência praticados pelos integrantes destas organizações criminosas, o que coloca em risco a nossa Democracia.”

Em matéria de leis, o Brasil reúne uma jurisdição que coíbe qualquer prática de racismo, preconceito ou discriminação por religião ou credo. Em 5 de janeiro de 1989 foi publicada no Diário Oficial da União a Lei 7.716 (que teve a redação atualizada pela Lei 9.459, de 13/5/1997) que no seu artigo 20 rege: Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional (pena: reclusão de um a três anos e multa). Logo a seguir, no inciso 1º, determina especificamente que fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo, resulta em uma pena de reclusão de dois a cinco anos e multa.

Dados oficiais só vão até 2022

Segundo dados da ONG SaferNet, que tem como foco a promoção e defesa dos Direitos Humanos na internet, no primeiro semestre de 2022 houve um aumento de 120% em relação ao mesmo período de 2021, no tocante a denúncias de neonazismo. Em 2021, sua Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, que trabalha com o apoio do Ministério Público Federal, recebeu e processou 14.476 denúncias anônimas de neonazismo na internet. O número é 60,7% maior que as 9.004 denúncias registradas em 2020.

A  antropóloga e pesquisadora Adriana Dias, falecida em 2023 e considerada uma das principais estudiosas sobre o neonazismo no Brasil, alertava que no início de 2022 existiam mais de 530 núcleos extremistas no país, resultado de um crescimento de 270% destas células entre 2019 e 2021.  O estado de Santa Catarina é um dos que mais geram preocupações. Somente em Blumenau foram mapeadas 63 dessas células.

De acordo ainda com o Observatório Judaico, citado no relatório preliminar do CNDH entregue em abril ao Conselho da ONU, cujos dados também param em 2022,  foram coletados no período 348 registros, sendo que 169 (44%) correspondem a violações antissemitas e neonazistas identificadas na imprensa (e reproduzidas na web) e redes sociais.  De 2019 ao primeiro semestre de 2022, houve um total de 55 registros de antissemitismo e 114 de neonazismo. O documento observa que os episódios neonazistas praticamente dobraram a cada ano: do total de 114 eventos, 12 ocorreram em 2019, 21 em 2020, 49 em 2021 e 32 até junho de 2022.

Considerando por tipo de ação, as manifestações representam 42%, as agressões verbais (25% ), propaganda (15%), violência física e vandalismo (10%) e deslegitimação do estado de Israel, 8%.

O relatório preliminar – que classifica o cenário atual de “alarmante” (Agência Brasil, em 9/4/2024), também revela dados obtidos pelo Núcleo Investigativo da CNN sobre o número de inquéritos abertos pela Polícia Federal para investigar casos de apologia ao nazismo. Em uma década houve aumento de 900%, passando de 11 casos em 2011 para 110 em 2020. O crescimento maior se deu entre 2018 e 2020, quando os registros saltaram de 20 para mais de 100 por ano.

No entanto, esses números não refletem o verdadeiro “cenário atual” de antissemitismo e neonazismo no país, porque não incluem dados de 2023 e o marco divisório que se constitui no hediondo massacre do Hamas, em 7 de outubro – que matou aproximadamente 1.300 israelenses e sequestrou 250, entre crianças, mulheres e idosos, conforme o relatório da CONIB -, e na inevitável reação das Forças de Defesa de Israel na Faixa de Gaza no sentido de eliminar a estrutura de guerra da organização terrorista.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Holocausto: Estado do Rio adere à definição de Antissemitismo da Aliança Internacional - IHRA

Solenidade aconteceu três dias antes das cerimônias memoriais do Iom HaShoá (Dia da Memória do Holocausto), em Israel (27 de Nissan, 5/6 de maio), quando uma sirene de dois minutos parou o país, na parte da manhã, para lembrar os 6 milhões de mortos vítimas do regime nazista, entre 1933 e 1945.

Sheila Sacks

Depois de São Paulo, foi a vez do estado do Rio de Janeiro aderir à Definição Funcional de Antissemitismo da Aliança Internacional para Lembrança do Holocausto (IHRA). A cerimônia ocorreu na sexta-feira, 3 de maio, no Palácio Guanabara, onde o governador Claudio Castro assinou o documento acompanhado de lideranças judaicas.

A definição, adotada por 40 países e decidida na plenária de Bucareste, em 26 de maio de 2016, afirma que “o antissemitismo é uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa como ódio aos judeus. As manifestações retóricas e físicas do antissemitismo são dirigidas a indivíduos judeus ou não judeus e/ou às suas propriedades, a instituições comunitárias judaicas e instalações religiosas".

Importante destacar que a cidade do Rio, capital do estado, já tinha aderido ao protocolo desde o ano passado, em 3 de novembro de 2023, menos de um mês após o massacre de 7 de outubro, tornando-se a primeira cidade brasileira a adotar a definição da IHRA.

Na ocasião, o prefeito Eduardo Paes abriu o Palácio da Cidade para as lideranças judaicas e fez questão de assegurar que a prefeitura está atenta às manifestações de preconceito. "Quero que todos vocês aqui, na cidade do Rio de Janeiro, se sintam muito tranquilos. Não vamos deixar que ninguém sofra algum tipo de preconceito por causa de sua origem, fé ou religião. Tenham a prefeitura do Rio como parceira de vocês", afirmou.

Anteriormente, em 9 de outubro, dois dias depois do brutal ataque, a sede do legislativo carioca foi iluminada de azul e branco, cores da bandeira de Israel, em um ato de apoio e solidariedade às vítimas do massacre. A iniciativa da Comissão dos Direitos Humanos da Casa teve o apoio da presidência da Câmara.

Não esquecer

A IHRA é formada por 35 países membros, entre eles Argentina, Canadá, Estados Unidos,  Portugal, Espanha, Suécia, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, entre outros, e 8 países observadores: Brasil, Uruguai, Chipre, Turquia, Moldávia, Bósnia e Herzegovina, Mônaco e Nova Zelândia.

O Brasil aderiu à IHRA em 9 de novembro de 2021, como país observador, cumprindo os trâmites exigidos. E no seu comunicado à imprensa, publicado no site oficial do governo, o Itamaraty afirmou que “a diplomacia brasileira buscará trabalhar dentro da IHRA para promover a educação e a pesquisa sobre o Holocausto, bem como para melhorar as políticas nacionais de combate ao antissemitismo”.  

Também lembrou que o Brasil é o “lar da segunda maior comunidade judaica da América Latina e a décima maior do mundo, e se orgulha de ter acolhido famílias que fugiram dos horrores do Holocausto”.

A data da adesão, 9 de novembro, marca o pogrom nazista de 1938, conhecido como a “Noite dos Cristais”, o violento ataque nazista que se deu em toda a Alemanha e nas regiões ocupadas da Áustria e da antiga Tchecoslováquia. Centenas de sinagogas, lojas e residências judaicas foram vandalizadas, saqueadas, incendiadas e destruídas. Pelo menos 91 judeus foram brutalmente assassinados.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Jornalista que vive em kibutz na fronteira diz que coexistência exige “posição de força” de Israel

  /  Sheila Sacks /

Bat Ayin Artists

Descendente de judeus do Iraque, Zvi Yehezkeli nasceu em Jerusalém, fala árabe fluentemente, tem três títulos acadêmicos pela Universidade Hebraica, é especialista em geopolítica do Oriente Médio, trabalhou na agência de segurança Shin Bet, foi chefe do departamento de assuntos árabes do Canal 10, da TV israelense, é autor da série de documentários "Allah Islam" (2012) sobre a influência da Irmandade Muçulmana  na Europa, e passou dois anos (2016 e 2017) percorrendo a Europa e os Estados Unidos sob falsa  identidade para investigar o papel da Irmandade nos dois continentes, o que resultou em uma nova série - Under a False Identity (Falsa Identidade, em tradução livre) – exibida no mesmo canal, em 2018. Desde 2022 chefia a seção árabe de notícias e é analista político do canal 13 News.

Com essas credenciais pontuadas por uma inegável coragem, Yehezkeli tem afirmado que a coexistência pacífica com os árabes só é possível a partir de um estado que demonstre força e que tenha poder de fogo. Residente na comunidade Bat Ayin, a oeste de Gush Etzion, ao sul de Jerusalém, na fronteira com a Cisjordânia, o jornalista de 54 anos conta que convive com os árabes “ombro a ombro”, mas é preciso se sentir forte. “Assim eles não vão se meter com você”, diz.

O Jerusalem Post repercutiu em sua plataforma digital (25/4/2024) as declarações de Yehezkeli que é cético em relação à extinção do ódio profundo que continua a alimentar a violência contra os israelenses e os judeus em geral. “Quando os árabes reconstruírem Gaza e ensinarem novamente que somos descendentes de macacos e porcos e que deveríamos ser erradicados, haverá outro 7 de Outubro”, antevê.

“Estamos em uma guerra contra o mal”, reforça. "O Hamas disse que veio para purificar o mundo dos judeus imundos. Esta é a banalidade do mal, como foi o nazismo.”

Prenúncio de um Ocidente islamizado

No início de 2018, alguns meses antes da série Falsa Identidade ir ao ar,  Yehezkeli foi entrevistado pelo jornal Israel Hayom sobre o trabalho que o levou a percorrer mesquitas, escolas, livrarias e centros muçulmanos. “Todo mundo me dizia que a bomba é o ISIS ( sigla em inglês do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, ou Daesh), isso porque quem poderia ser mais perigoso do que aqueles lunáticos.  Mas tento explicar que existe um novo tipo de bomba – uma bomba silenciosa chamada Irmandade Muçulmana.”

A propósito, Yehezkeli lembra que um importante funcionário da defesa de Israel o alertou sobre o grupo terrorista. "É como fosse uma pequena espinha encravada no rosto, sendo o verdadeiro câncer a Irmandade Muçulmana."  A organização nascida no mundo árabe está proibida de atuar em países mais moderados como o Egito e a Arábia Saudita. 

Pelo que viu e ouviu em suas viagens, o jornalista acredita que em 10 ou 20 anos alguns países europeus estarão sob o domínio da Irmandade. E cita a França, Bélgica e Dinamarca. “Eles (Irmandade) sorrateiramente irão pegar as rédeas das mãos de pessoas importantes. Se não for feito de forma pacífica, usarão a força. Eles têm uma estratégia clara e o fim do jogo é a conquista. A Irmandade ditará o tom", vaticina.

Em relação particularmente aos franceses, Yehezkeli é muito crítico. “Ninguém verifica os currículos das escolas muçulmanas  em solo francês. Se estão a ensinar o Islã tolerante ou o Islã que considera todos os outros como infiéis e cuja missão é espalhar o califado, seu domínio e controle. Esse é um processo gradual e é mais perigoso do que um ataque surpresa”, reflete. Hoje vivem 10 milhões de muçulmanos na França.

O jornalista revela que permaneceu duas semanas em bairros periféricos, a meia hora do centro de Paris, e enquanto esteve por lá, não falou uma palavra de francês, apenas árabe. “Nos cafés, mulheres e homens ficam afastados. É exatamente como estar num país muçulmano."

Munido de passaportes falsos, Yehezkeli se passou por jornalista palestino, empresário jordaniano, repórter sírio, refugiado e xeique. Ele chegou a entrevistar membros do ISIS no telhado de uma casa visando despistá-los, caso fosse descoberto. Na Turquia de Erdoğan (no poder desde 2014), Yehezkeli e a equipe foram detidos pela polícia em uma rua de Istambul. Ele usava passaporte israelense e mostrou as autorizações do governo turco para a realização da reportagem. Porém, no carro em que viajavam estavam escondidos passaportes falsos e grande parte do material de filmagem de suas andanças pela Europa. "O medo foi enorme", confessa, "e a visão de passar o resto de minha vida em uma prisão turca era assustador." Mas, depois de duas horas de interrogatório e muita tensão, a equipe foi liberada com um aviso de que todos seriam vigiados. 

Tempestade anunciada

Em relação aos Estados Unidos, já em 2013, um documentário intitulado Jihad in America:The Grand Deception traçava as raízes do Islamismo e sua influência no território americano. O filme, que conquistou vários prêmios, foi produzido pela organização The Investigative Project on Terrorism (IPT), fundada em 1995 por Steven Emerson, uma das principais autoridades em redes, financiamento e operações terroristas islâmicas nos EUA.

Segundo Noah Beck, autor de Os Últimos Israelenses (um romance apocalíptico de 2012 sobre as armas nucleares iranianas e outras questões geopolíticas no Oriente Médio), o documentário demonstra com detalhes assustadores o quanto a Irmandade Muçulmana se infiltrou na sociedade americana – desde os meios de comunicação aos campi universitários, e nas esferas governamentais estadual e federal.

No artigo que escreveu em 2015, analisando o filme para a plataforma de notícias Breitbart News, Beck já citava casos de discursos de ódio no meio acadêmico e parecia antever os acontecimentos que estão a se desenrolar nas universidades americanas, agora em 2024. “Se as universidades são cada vez mais dominadas por uma agenda islâmica e é nas universidades onde se treina o futuro da nossa democracia, que tipo de futuro nos espera?”, indagava.

No Falsa Identidade, no capítulo sobre os Estados Unidos, Yehezkeli entrevista o autor do livro 2064 – América Islâmica, escrito em 2014 por Wayne Rawlins, que mudou o nome para Abu Bakar , e este é afirmativo no objetivo de seu trabalho. “Nossa missão é inculcar valores islâmicos no coração de cada americano.” E comemora: “Este ano (2018), mais de 90 muçulmanos norte-americanos (na sua maioria democratas)  concorrem a cargos públicos.”

Seu parceiro, Yusuf al-Muslet, explica na entrevista que para levar adiante a Jihad no Ocidente  (guerra santa, segundo os muçulmanos),  a “Da'wah” é a arma número 1. Moldado na década de 1970 no Egito, o sistema Da'wah centra-se primeiro nos desfavorecidos e representa o Islã missionário e focado na caridade como uma solução generosa para os necessitados de qualquer credo. É a parte “suave” da Jihad para atrair as pessoas. Porém, adverte  Yehezkeli , o Ocidente deve compreender que a Jihad suave é até muito mais perigosa  do que a guerra da Jihad aberta. “ Não é possível combater o terrorismo com sucesso, a menos que também compreendamos a sua base ideológica fundamental. Na Sharia ( código de leis muçulmanas) não tem lugar para a liberdade de expressão. Os seus valores e os do sonho do Califado não o permitem.”

A Irmandade Muçulmana  transformou o Islão numa agenda política, e esta mistura de religião e política tornou-se conhecida como Islamismo. Desde a sua fundação, em 1928, a organização estabeleceu presença em mais de 70 países, e inúmeras instituições em todo o mundo adotaram a sua estratégia e objetivos.

Nas décadas de 1970 e 1980 foram construídos, pelos países árabes produtores de petróleo, mais de 1.500 mesquitas, 2 mil escolas, 200 faculdades e 210 centros islâmicos em países muçulmanos e da Europa.

Por trás das organizações sociais

O mais recente trabalho investigativo de Yehezkeli  para a TV foi a série Double Agent , exibida no canal 13, no final de 2022. “Foram 3 mil horas de filmagens e dezenas de entrevistas”, explica ao Jerusalem Post (22/11/2022). A história é sobre uma sueca pró-palestina que chega a Israel como turista para estudar arquitetura. Ela conhece um colono da comunidade de Eli, na fronteira com a Cisjordânia, que lhe explica o ângulo israelense do conflito. Aos poucos a mulher se introduz numa organização de direitos humanos na Cisjordânia e torna-se agente de um serviço de inteligência israelense.

Um ano depois, a agente participa de reuniões com membros do Hamas que contam como usam e operam as organizações sociais e de direitos humanos para angariar fundos, inclusive o BDS, e a estreita  ligação  do grupo terrorista com a Irmandade Muçulmana na Europa.

“Tudo foi muito complicado, usamos câmaras escondidas e precisávamos garantir que nossa agente estivesse segura”, afirma. A série foi produzida com a colaboração da organização Ad Khan, fundada em 2015 por um grupo de oficiais das Forças de Defesa de Israel (FDI) e veteranos da inteligência do exército. A agência conta com agentes infiltrados e já realizou centenas de missões de espionagem com o objetivo de dificultar e obstruir atividades e operações anti-israelenses  cujo financiamento vem de países estrangeiros e de outros organismos antissemitas. A organização é independente e conta com departamentos de pesquisa, jurídico, político e de mídia.

Lógica do Ocidente não é a lógica do Hamas

Cinco dias após o massacre de 7 de outubro, Yehezkeli foi a TV e disse  que não ficou surpreso com a violência, mas com o sucesso obtido pelo Hmas. “Eles romperam todos os muros, as cercas, as câmeras, os programas secretos, o maior projeto de segurança em Israel. Que eles eram cruéis, nós sabíamos, mas não achávamos que eles conseguiriam fazer tudo isso em menos de uma hora."

Avisos, segundo o jornalista, não faltaram. “Mesmo os avisos mais explícitos foram ignorados,” reitera. “Posso mostrar filmes onde eles dizem que vão invadir nossas comunidades, nossas terras, massacrar nossos filhos, se lhes dermos dinheiro e trabalho. E atesta: “A primeira regra do Hamas é a Jihad, e eles a praticam de muitas maneiras. O pensamento ocidental não funciona no Oriente Médio - nem no Iraque, nem no Afeganistão, e não com o Hamas. Pensamos que as muitas concessões fariam o Hamas ficar em silêncio. Nós os subestimamos.”

 Yehezkeli começou na rádio do Exército e ainda jovem trabalhou no canal 1 da TV de Israel. No seu trabalho de jornalismo investigativo entrevistou Yasser Arafat e Mahmoud Abbas, entre outros líderes árabes. Ele recebeu educação laica, mas já adulto se voltou para o judaísmo ortodoxo que pratica fielmente. A guinada se deu depois de uma viagem à Índia quando teve contato com movimento religioso Chabad. Casou com uma jovem ortodoxa e o casal tem 7 filhos.  Apesar de ser uma estrela da TV, com suas análises políticas e produção de documentários,  a família não tem TV em casa.

domingo, 17 de março de 2024

Ignorância e indulgência ajudam o terrorismo no Oriente Médio

 Sheila Sacks

 




Comparações mal-intencionadas e irresponsáveis entre Gaza e o Holocausto emitidas por alguns chefes de estado do quadrante latino das Américas, parecem ser desconsideradas, não causam escândalos e nem abalam reputações.

Foi o que se apreende da matéria assinada pela articulista de O Globo, Janaína Figueiredo, sob o título “Sem mea-culpa no Planalto” (23/2/2024).

E justifica: “O custo para Lula, em termos de relações externas, não foi elevado. Ele abraçou uma causa e não pretende soltá-la.” E prossegue: “Lula e seus assessores não falam em autocrítica, mea-culpa nem nada parecido. Não se faz a avaliação de que a fala sobre Lula comparando o que Israel faz na Faixa de Gaza com o que Hitler fez com os judeus causou danos à imagem do Brasil.”

Uma avaliação, no mínimo, espantosa, porque parte do princípio de que o disparate na fala do presidente brasileiro não vale muita coisa. Ou, como já reportava o historiador Gaspar Barléu, lá pelos idos do século 17, em sua análise sobre a dominação holandesa em Recife: “ultra aequinotialem non peccavi” (não existe pecado abaixo do Equador).

Logo, reforçando a tese “dos sem pecados”, que mistura ignorância, irrelevância, esculhambação, irresponsabilidade verbal, desrespeito, populismo e alguma dose de cinismo, alguns dirigentes da região latina, como os presidentes  da Colômbia, Bolívia, Venezuela e Cuba, de imediato fizeram coro à fala de Lula em sua afirmativa de um genocídio em Gaza, comparável ao Holocausto.  Políticos companheiros que empurram a história real para escanteio, atropelam os fatos, fecham os olhos para as organizações terroristas, dão de ombros frente a um país minúsculo, única democracia no Oriente Médio, acuado por vizinhos hostis armados e nutridos por uma ideologia de destruição.

O Hamas, de pronto, agradeceu o apoio do presidente brasileiro, e um de seus integrantes, em gravação de vídeo, classificou de "postura corajosa" a comparação ofensiva entre Gaza e o Holocausto.

O continente europeu e os EUA, por sua vez, ainda enxergam a América Latina (Sul e Central) de maneira benevolente, como um conjunto de países pobres, desiguais e folclóricos, às voltas com graves problemas sociais. Dessa forma, preferem não se imiscuir em querelas públicas com seus governantes, pouco relevantes na geopolítica mundial, a não ser que ideologias não toleráveis possam ameaçar a tranquilidade do gigante do Norte, como foi a revolução cubana na década de 1960.

 Milícias e traficantes   

Ainda que não exista paralelo no Brasil de uma organização terrorista do molde do Hamas – com profundo envolvimento e apoio da população local - o país tem várias milícias paramilitares que dominam comunidades e praticam extorsão, e grupos armados de narcotraficantes,  como o PCC e o Comando Vermelho, que com suas ações violentas e ilegais mobilizam policiais civis e militares dos estados, e até a Força Nacional de Segurança Pública, em confrontos que acabam vitimando crianças e civis em geral.

Esses casos ocorrem principalmente nas incursões em comunidades de favelas e periferias ( com sua geografia de ruelas estreitas, subidas íngremes e esconderijos nas matas) onde ocorrem tiroteios entre policiais  e bandidos, com vítimas inocentes sendo atingidas por “balas perdidas”, uma alegoria inventada pela imprensa brasileira que serve como escudo de proteção aos policiais no âmbito judiciário.

No episódio da fuga de dois traficantes do Comando Vermelho do presídio de segurança máxima de Mossoró, no Rio Grande Norte (14/2),  a polícia federal prendeu, dez dias depois, o dono do sítio que abrigou os bandidos, mediante mandato judicial acusatório de “colaboração”,  por ele ter recebido a quantia de 5 mil reais para esconder a dupla, ainda que o homem alegasse que foi ameaçado. 

Transpondo o fato para Israel e substituindo os traficantes do Comando Vermelho por terroristas do Hamas, de que forma seria possível levar à prisão uma população de 2 milhões de habitantes se utilizando de um mandato judicial de “colaboração”, como o que foi expedido pela Justiça Federal brasileira? 

De acordo com relatório da ONG Palestinian Media Watch (PMW), divulgado após 7/10, a Autoridade Palestina (AP) iria pagar, de imediato, um total de 2,8 milhões de dólares para as famílias dos terroristas do Hamas mortos nos confrontos com Israel. O chamado “fundo dos mártires” recompensa a família de cada terrorista com uma pensão vitalícia, de menor ou maior valor, dependendo do número de judeus assassinados.

O “pagamento para assassinar” (Pay for Slay) foi instituído em 2014 pela AP para promover atos terroristas contra Israel e  segundo o instituto de pesquisa de segurança, “Jerusalem Center for Public Affairs, os salários mensais e benefícios que recompensam as famílias dos terroristas mortos, presos ou libertados, somam 300 milhões de dólares, anualmente. Diante do fato, qualquer análise sobre a sociedade de Gaza desemboca na realidade chocante de uma população estruturada e alimentada pelo terrorismo, a matança e a guerra contra Israel.

Alertas à população

Na guerra contra o Hamas e em se tratando de cidades cortadas por redes de túneis subterrâneos construídos pelos terroristas, a solução mais fácil seria explodir com tudo, o que as forças de Defesa de Israel não o fazem para evitar mortes de civis.  Um combate incomparavelmente difícil se levado em conta outros conflitos ora em curso em nosso planeta.

 Governantes conscientes sabem das dificuldades de manter uma guerra nessas condições. Alertas à população de Gaza são enviados de várias formas antes dos ataques e a insistência do Hamas em persistir na guerra, mesmo diante do sofrimento dos civis, é de uma arrogância e perversidade que mereceriam o repúdio público mundial.

O único perpetrador da guerra em Gaza é o grupo terrorista Hamas, a partir do inominável massacre de 7 de outubro; do desumano sequestro dos reféns, muitos já mortos; da lavagem cerebral dos palestinos, desde da mais tenra idade regada no ódio e no extermínio de judeus; das provocativas exigências para a entrega dos reféns; e, do incitamento  para que  outros grupos terroristas, como a Jihad Islâmica, também de Gaza, o Hezbollah, no Líbano, o Estado Islâmico (ISIS ou Daesh), do Iraque e Síria, e os Houthis, do  Iemen, ataquem alvos judaicos e aliados do Ocidente.

A suposta luta por um estado palestino esconde o real objetivo do Hamas: destruir o estado de Israel. E para isso contam com o apoio ostensivo da população. Em Gaza não existe diversidade de opiniões, como em Israel, nem partidos do centro, da direita, da esquerda ou ortodoxo. Todos apoiam e seguem o Hamas e sua cartilha de ódio.

Desde que Israel se tornou um estado soberano, em 1948, a ordem dos povos árabes é excluí-lo do mapa do Oriente Médio. Uma sucessão de atentados terroristas e de guerras sangrentas compõe a história dramática da sociedade israelense. A solução de dois estados nunca existiu na pauta dos países árabes, e só persiste como agenda pública de líderes ocidentais que dão cambalhotas nas tentativas frustradas de arranjos que possam agradar , de alguma forma, o mundo islâmico. 

No ataque de 7 de outubro foram assassinados ativistas que ajudavam os palestinos de Gaza, quando doentes ou carentes, a ter um atendimento de saúde mais especializado em Israel. Durante décadas, a agência da ONU para os chamados refugiados palestino (UNRWA, na sigla em inglês) foi a galinha dos ovos de ouro do Oriente Médio, entupida de dinheiro doado pelos países do primeiro mundo, que sempre fizeram vista grossa em relação à correta destinação dos recursos da chamada  “ajuda humanitária”. 

Por muitos anos Israel alertou nos fóruns internacionais sobre os recursos da UNRWA sendo desviados para o Hamas e sua estrutura de terror. Mas, os chamados comissários e responsáveis pela agência pouco atuaram para estancar o fluxo de dinheiro corrompido.

Parceria com Hamas

O desdobrar de 7/10 tornou público a espúria ligação da UNRWA com o Hamas. O porta-voz do governo israelense, Eylon Levy, em uma declaração em vídeo, no final de janeiro, afirmou que a UNRWA é uma fachada para o Hamas. "A agência foi comprometida de três maneiras: contratando terroristas em massa, permitindo que suas instalações fossem usadas para atividades militares do Hamas e se apoiando no Hamas para a distribuição da ajuda na Faixa de Gaza", disse ele.

Levy também afirmou que "cerca de 10% dos funcionários são membros do Hamas ou da Jihad Islâmica, e cerca de 50% são parentes de primeiro grau desses membros". No início deste mês (março/2024), o governo de Israel reiterou  que 450 funcionários da UNRWA são agentes militares inscritos em grupos terroristas de Gaza.

Somente os Estados Unidos doam anualmente entre 300 a 400 milhões de dólares para a UNRWA, de acordo com o porta-voz do Departamento de Estado, Matt Miller. No início de março, a União Europeia anunciou que até o final de 2024 vai enviar 82 milhões de euros (perto de 440 milhões de reais) de ajuda humanitária para a UNRWA.

Terrorismo e drogas

Em 2017, o coronel da reserva israelense Dany Tirza, consultor de segurança e um dos planejadores da barreira de defesa de 700 quilômetros que separa Israel da Cisjordância (construída entre 2000 e 2006 para conter os ataques terroristas), já alertava sobre as ligações do Hamas com o cartel de drogas de Sinaloa, no México, com a finalidade de introduzir drogas sintéticas (metanfetaminas) no Oriente Médio e assim obter mais lucro para as suas operações terroristas.

Nessa aliança do mal, membros dos Hamas ensinavam os criminosos do cartel a construírem túneis subterrâneos para atravessarem a fronteira dos EUA com as drogas. À época, o então secretário de estado do governo Trump, o republicano Rex Tillerson, também afirmou a congressistas  que existiam ligações entre o Cartel de Sinaloa e os terroristas do Estado Islâmico.

Em outubro do ano passado, diante do brutal ataque do Hamas, as plataformas de notícias do México ( sdpnotícias, Vanguardia MX, MVS noticias, Cambio 22 e RadioFormula) voltaram ao tema, repercutindo as declarações de  Dany Tirza ao jornalista investigativo Óscar Balmen, especializado em pautas de crime organizado. O militar israelense  revelou que detidos palestinos confirmaram o acordo existente entre os terroristas e o Cartel de Sinaloa, desde 2000,  que consistia em ensinar os traficantes a construir túneis subterrâneos  para o transporte de drogas de Tijuana, na fronteira, a San Diego, nos EUA, em troca de vultosas quantias de dinheiro.

Tirza ainda acrescentou que para maximizar os lucros, o Hamas entrou no tráfico de drogas sintéticas no Oriente Médio, principalmente no Líbano e no Egito. Para a Federação de Agências Americanas IC (United States Intelligence Community), o Cartel de Sinaloa é a maior e maios poderosa organização de tráfico de drogas do mundo, criada por Joaquin “El Chapo” Gusman, em prisão perpétua nos EUA, desde 2019.  Um sindicato de crime global, mais influente  do que o Cartel de Medellín, do colombiano Pablo Escobar, quando a rede de tráfico estava no auge (1972 a 1993).

O britânico Jeremy McDermott, um dos fundados da mídia InSight Crime, jornalismo investigativo com foco no crime organizado na América Latina e Caribe,  disse a BBC News (2/3/24) que  houve uma fragmentação na região em relação ao tráfico, a partir da pandemia, quando os Estados ficaram paralisados. “Não existem mais cartéis que controlam todos os elos da cadeia de atividades criminosas.”

  A reportagem ressalta que organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), do Brasil, ou o Trent de Aragua, da Venezuela, conseguiram expandir sua presença fora das fronteiras graças a esse tipo de “subcontratação criminosa”. Ex-oficial do exército inglês e com muitos anos de trabalho como correspondente na Colômbia e em outros países do continente,  McDermott observa que a diversificação da carteira criminosa (tráfico de seres humanos e de armas, prostituição, expansão das drogas sintéticas, falsificação de medicamentos, assassinatos de aluguel e a mineração ilegal) ocorre num contexto de fragilidade dos sistemas judiciais e de segurança na região. "A corrupção sempre foi um problema, mas hoje a democracia está mais sitiada do que nunca pelo crime organizado. Vemos a penetração sistemática desses grupos no Estado", conclui.

Atualmente, Israel mantém relações diplomáticas com todos os países das Américas do Sul e Central e do Caribe, exceto Cuba, Bolívia e Venezuela.