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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Jornalismo investigativo: por dentro do sistema que financia o crime e o terrorismo

/ Sheila Sacks/ 


Não só no Brasil a lavagem de dinheiro de facções criminosas aponta indícios de conexão com grupos terroristas como Hezbollah e Al-Qaeda (como revelou a operação policial Hawala no Rio, em julho).  Também na União Europeia uma extensa e detalhada reportagem  levada a efeito por um grupo de jornalistas da Rede de Jornalismo de Investigação (IJN, na sigla em inglês) da  European Broadcasting Union (EBU) constatou que o sistema hawala, além de lavar dinheiro proveniente do tráfico de drogas, é usado por grupos criminosos para o financiamento de terrorismo e fraudes fiscais. (‘Hawala, the world's underground bank’, em 30/8/2026).

Publicada na plataforma digital da Eurovision News, a matéria se utilizou de informações reveladas por um “ex-lavador de dinheiro dinarmaquês” que participou do esquema clandestino hawala de transferência de valores.

Utilizando o nome fictício de Frank, ele contou que com o correr do tempo percebeu que o sistema não se limitava apenas a transações financeiras. “Tratava-se de financiamento de terrorismo, tráfico de drogas, prostituição e de todo tipo de outras coisas horríveis, para dizer o mínimo”, assinala.

Com origens antigas no Oriente Médio e sul da Ásia, o sistema hawala foi criado para transferir dinheiro de maneira informal através de uma rede de intermediários que movimenta crédito e dívidas entre si, sem passar por instituições bancárias.

Na clandestinidade


Por dois anos, jornalistas das emissoras públicas de rádio e TV da Dinamarca (DR), Bélgica (VRT e RTBF), Espanha (RTVE) e  Áustria (ORF) se reportaram a  cidades da Europa e do Oriente Médio para desvendar o funcionamento interno desse sistema bancário ilegal que oferece serviços financeiros a criminosos.  “Eles investigaram essas redes entrevistando operadores de hawala e seus clientes, autoridades policiais nacionais e internacionais, lavadores de dinheiro e especialistas financeiros, obtendo acesso exclusivo a milhares de registros judiciais e financeiros”, afirma o texto introdutório.

O primeiro contato direto dos jornalistas com o esquema ilegal foi através do Facebook onde um perfil oferecia transações para a Faixa de Gaza. A transferência de valores (250 euros) foi feita aos jornalistas, que não se identificaram, por um desconhecido em uma rua de Bruxelas. Horas depois, outro jornalista do pool investigativo que estava em Gaza recebeu o dinheiro no local combinado, sem questionamentos.

Por sua vez, repórteres da RTBF realizaram uma transferência na direção oposta: “um jornalista em Damasco (Síria) enviou o equivalente a 500 euros para a Bélgica, que foram recebidos horas depois por um jornalista no centro de Bruxelas, entregue por um homem na rua. Não houve registro oficial da transação e nem foi exigida qualquer documentação.”

Segundo a polícia criminal alemã, a maior parte das milhares de transações diárias globais realizadas através do sistema hawala é de origem ilícita. Com acesso exclusivo obtido no Tribunal Penal de Bruxelas sobre um caso de arrecadação de fundos para membros do grupo terrorista do Estado Islâmico (ISIS - Islamic State of Iraq and Syria), os jornalistas checaram as mensagens registradas no telefone de um suposto “Abou Adam”, corretor hawala belga que investigadores suspeitavam ser o responsável pelas transferências de dinheiro para os terroristas que atuam na Síria e no Iraque.

 O  magistrado federal Vincent Guerra, responsável pela investigação que durou quatro anos, detectou mais de cem mil mensagens de movimentação de valores somente nesse telefone em um período de nove meses. Em um grupo privado de WhatsApp  denominado “Os Comerciantes da Grande Europa”, as transações ocorriam  acima de 5.000 euros através de 532 “hawaladars” (operadores de câmbio ilegal). 

“Estamos falando de centenas de milhões de euros ou dólares circulando ao longo de alguns meses” ressalta Guerra, listando dezenas de países mencionados nas mensagens, entre eles, Brasil, Líbano, Síria, Turquia, Egito, Iêmen, Emirados Árabes, Líbia, Espanha, Malta, Grécia,França, Inglaterra e Rússia. Do Brasil, a mensagem capturada veio da cidade de São Paulo com o pedido de transferência de 120 mil dólares para Istambul.

Em novembro de 2024, Abou Adam e outros cinco palestinos foram condenados em um tribunal criminal por violação de regulamentos bancários, participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro. Dois deles também foram considerados culpados de financiamento de terrorismo. Eles receberam penas de até oito anos de prisão.

Repercussão


Simultaneamente à divulgação na Eurovision, a inglesa BBC News  repercutiu a investigação dando destaque  às atividades do grupo de WhatsApp “usado para lavar centenas de milhões de euros em dinheiro vivo em todo o mundo, financiando o crime organizado e o extremismo sem deixar rastros” (‘WhatsApp chat used to launder cash for crime and extremism’, em 30/8 2026).

Na reportagem da rede pública de rádio e TV austríaca – ORF  (‘Hawala - o sistema financeiro paralelo global’, em tradução livre), é sinalizado que o sistema hawala anualmente facilita as transferências de valores superiores a 200 milhões de dólares (172 mil milhões de euros) em todo o mundo. “Criminosos utilizam o sistema, que permite a transferência de dinheiro sem bancos ou remessas, para lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e financiamento do terrorismo.” De acordo com a responsável da unidade de crimes financeiros da Europol, Lucy Myles, o sistema ”é a espinha dorsal do crime organizado.”  (‘Das weltweite Schattenfinanzsystem’, em 30/8/2026).

Elo com terrorismo

No Brasil, a investigação da polícia do Rio que tinha como alvo empresas de fachada que lavavam dinheiro para as organizações criminosas PPC e CV se estendeu a São Paulo e à cidade de Foz Iguaçu, na Tríplice Fronteira, constatando possíveis vínculos do narcotráfico com grupos terroristas como Hezbollah e Al-Qaeda. Das 22 pessoas denunciadas, dez foram presas.

A operação policial foi noticiada pela imprensa brasileira e divulgada no exterior por várias mídias, como o jornal argentino La Nacion (‘ Una investigación de lavado en la Triple Frontera une al PCC con el financiamiento de Hezbollah y Al Qaeda’, em 18/7/2026); a agência Reuters (‘Brazil charges 22 with laundering $20 million for gangs, probes possible al Qaeda link’, em 15/7/2026); e o jornal libanês online Daily Beirut (‘The Shadow Empire: How Hezbollah Wove a Network of Intelligence and Crime in Brazil’ , em 21/9/2026).

A ação também ganhou  destaque  nas plataformas digitais Insight Crime, que monitora as organizações de narcotráfico na América Latina (‘Primeiro Comando da Capital –PCC, em 20/7/2026) e Diálogos América, especializada em temas de segurança no continente (Inside Hezbollah’s Network in Brazil”, de 3/8/2026).

Em relação à matéria do Daily Beirut, o texto tem como base as informações divulgadas pelo canal de notícias Al-Arab, da Arábia Saudita, abrangendo as operações Hawala e Trapiche ( 2023), “que desmantelou uma célula em Brasília que planejava ataques contra alvos judaicos e embaixadas”, diz o jornal.  

Além de afirmar que o Brasil não é mais “um cenário secundário” para arrecadação de fundos para o Hezbollah usando redes criminosas, mas um "centro de gestão operacional local e regional totalmente equipado", a matéria descreve São Paulo como “a capital financeira” do grupo libanês xiita, pela presença e atuação de seus líderes, classificando a organização extremista como um “império sombra” (‘Shadow Empire in São Paulo’) e a América Latina como “porta de entrada e refúgio seguro para essas milícias armadas” (‘Latin America has long served as a backdoor and safe haven for armed militias like Lebanon's Hezbollah’).

Obs.: ressalta-se o ineditismo do trabalho investigativo dos jornalistas das emissoras públicas da Europa que não encontra paralelo, por exemplo, no Brasil, onde os setores públicos de comunicação atuam, especificamente, na divulgação das ações governamentais.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A Cabalá Universal que une os povos (atualizado)

Se quiseres conhecer o invisível, abre os olhos para o visível

 /  Sheila Sacks /

Se existe uma face de glamour no judaísmo que atrai e fascina, não há dúvida que seu nome é Cabalá. A filosofia mística da Árvore da Vida está presente em coletâneas de astrologia, numerologia, alquimia, simbologia, quiromancia etc. Também virou acessório esotérico de fórmulas particulares de pensamentos e reflexões que adorna os best-sellers de autoajuda.

A austríaca Ann Williams-Heller é uma dessas personagens que passou toda a sua existência à procura de Deus. A busca metafísica a levou a estudar as grandes religiões ocidentais e orientais. Durante 33 anos, primeiro em Viena e a partir de 1938 nos Estados Unidos, ela se dedicou aos estudos do hinduísmo, budismo, cristianismo e islamismo, enquanto conduzia a sua bem-sucedida carreira de escritora e conferencista para assuntos de nutrição e alimentação.

Em 1966, com o falecimento do marido, Ann sentiu-se perdida e conta que teve a sorte de conhecer uma pessoa que a introduziu nos mistérios da Cabalá. No livro “Cabala, o Caminho da Liberdade Interior”, ela detalha que durante sete anos manteve contatos mensais com um grande mestre metafísico e eminente cabalista que a aceitou como única aluna. Munida de um gravador, Ann registrou esses ensinamentos que trouxeram novas dimensões a sua vida. Estabelecendo como condição primordial que seu nome jamais fosse revelado, o Mestre, assim intitulado pela autora, trouxe luz ao seu questionamento sobre a morte e a natureza do amor.

Outra vida


Mergulhando no provérbio talmúdico “Se quiseres conhecer o invisível, abre os olhos para o visível”, Ann se empenhou em seguir a orientação de seu Mestre. “Aprendi a enxergar o que nunca vira e a escutar o que jamais ouvira. Estar desperta e consciente de que todo acontecimento, no encadeamento da vida, tem dois significados interligados: o individual e o cósmico”.

Aos poucos Ann foi abandonando o que chamou do “outro eu”, a requisitada e bem remunerada profissional de nutrição, escritora de vários livros e festejada conferencista. Na busca do “eu real”, aquele que se esconde por trás da aparência ilusória da matéria, ela encontrou na Cabalá modelos de pensamentos que incorporavam a Lei das Correspondências (o universo imprime seu reflexo sobre o ser humano e vice-versa) e até a teoria da sincronicidade (ou coincidência significativa) do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961), que acreditava na existência de uma conexão sutil, não causal, entre a mente interior e o mundo externo.

Em 1974, o então líder da Ordem Sufi do Ocidente, hoje “The Sufi Order International”, Pir (líder) Vilayat Inayat Khan (1916-2004), convida Ann para que ensine a Cabalá para os grupos sufis nos Estados Unidos e na França. A Ordem fundada em 1919, em Paris, pelo seu pai, o indiano Hazrat Inayat Khan, embora difundindo a filosofia mística e contemplativa do Islã, considerou importante trazer ao conhecimento de seus iniciados a sabedoria judaica da Cabalá. Para os que se surpreendiam, Ann explicava que os opostos, na realidade, são complementos dissimulados, aliados e jamais inimigos. Assim como as duas margens de um rio, eles funcionariam como dois aspectos ou efeitos de uma causa única.

Durante os quinze anos seguintes, Ann (que recebeu o nome sufi de Rabi-a al`Adawiyya) ministrou seminários e workshops sobre a Cabalá para os jovens sufis e para aqueles a quem ela carinhosamente denominou de “jovens de coração” ou “buscadores da eternidade”. Pessoas das mais diferentes formações e religiões que compartilham encantadas a grande aventura de encontrar respostas significativas para os enigmas da existência. Citando novamente o Mestre, ela escrevia: “Leve o passado com você! O ontem é sempre o seu mestre. Sempre será o seu companheiro de hoje e o seu amigo de amanhã. O hoje é sempre o amanhã que você construiu ontem”

Quando faleceu em 1989, os originais de seu único livro sobre a Cabalá ainda estavam com a editora que o publicou no ano seguinte.

O Rabino dos Sufis

Com aproximadamente 5 milhões de adeptos agrupados em 800 Ordens em todo o mundo (com predominância na Índia, Paquistão, Bangladesh, Egito, Sudão, China, Marrocos e Turquia), o sufismo se utiliza da meditação, da música e da dança para alcançar a paz espiritual. 

Confundindo-se com os primórdios do Islã e muitas vezes discriminados nos países muçulmanos, os sufis acreditam que o profeta Maomé foi um deles, pela vida simples que levava e pelo hábito de se retirar de Meca para meditar em uma caverna. No Ocidente, essa filosofia oriental é praticada em países como a Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Estados Unidos, onde a Ordem Sufi Internacional mantém mais de 100 centros de estudos. Seu líder espiritual, Zia Inayat Khan, de 55 anos, foi amigo pessoal do rabino Zalman Schachter-Shalomi (1924-2014) do movimento renovador judaico e do diálogo ecumênico.

Muito ligado aos círculos sufis e consagrado shaykh (sheik), o rabino Zalman, foi professor emérito de Psicologia da Religião e Misticismo Judaico da “Temple University”, na Filadélfia, e por uma década o Mestre de Sabedoria Universal na Universidade Naropa, no Colorado, uma instituição fundada por monges budistas tibetanos que concilia estudos superiores com práticas de contemplação e meditação.

 Autor de vários livros sobre a Cabalá e o Chassidismo (movimento ortodoxo religioso nascido na Polônia, no século 18, que prioriza a fé com devoção, espiritualidade e alegria, e a prática da piedade e da bondade), o rabino publicou em 2006  a obra “Jewish with Feeling” (Judeu com Sentimento), onde traça a rota para o exercício de um judaísmo com alma, menos mecânico e mais conectado ao coração.

 Polonês de nascimento e formado rabino em 1947 pela Ieshivá ortodoxa Lubavitch, de Nova York, Zalman estudou e manteve diálogo com outras religiões orientais, viajando até a Índia, em 1990, para se encontrar com o Dalai Lama, hoje com 91 anos (documentado no livro ‘Os Judeus no Lótus’, de Rodger Kamenetz).

 Junto com o professor de sufismo e chassidismo, Netanel Miles-Yepez, fundou a ordem sufi-chassídica “The Inayaty-Maimuni Tariqat”, única ordem sufi do mundo formada por judeus. No início de 2009, Zalman (ou Pir Zalman Sulayman Schachter-Shalomi, na Ordem sufi) e Netanel lançaram o livro de histórias e ensinamentos chassídicos “A Heart Afire: Stories and Teaching of Early Hasidic Masters”.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Os órfãos da Inquisição*

Sheila Sacks

São milhares de cidadãos com sobrenomes familiares aos brasileiros: Pereira, Araújo, Almeida, Albuquerque, Bezerra, Caldeira, Cabral, Carneiro, Dias, Cardoso, Coimbra, Melo, Lopes, Salgado, Oliveira, Mendes, Castro, Saldanha, Moreno, Pinto, Costa etc.

Entretanto, há 500 anos, nas terras da Península Ibérica, os antepassados desses milhões de brasileiros portavam nomes e identidades diferentes: Aboab, Cohen, Abravanel, Aruch, Obadia, Abulafia, Danon, Eskenazi, Hakim, Finzi, Gabirol e Gabbai, entre outros.

A mudança drástica, ocorrida em suas raízes familiares, culturais e religiosas e a ruptura radical com um passado milenar peculiar e único, resultou em uma inimaginável legião de órfãos de pais biológicos vivos. Afinal, o que significa um estreito lapso de cinco séculos frente à imensidão de um cenário macro formado por mais de três milênios de história e tradição?

A procura pela identidade primeira, representada pela ancestralidade original, tem mobilizado milhares de pessoas em várias partes do mundo interessadas em encontrar respostas a uma série de sentimentos reprimidos e a incontáveis dúvidas existenciais.

Com o intuito de ajudar essas pessoas especiais a encontrar as suas raízes, foi formalmente instituída em 2004 a Shavei Israel (Retorno a Israel), com sede em Jerusalém. A organização tem representações e emissários na Espanha, Portugal, Itália, Polônia, Rússia, Índia e na América Latina (Colômbia e El Salvador).

No Brasil, a instituição manteve por alguns anos um representante em Recife. Depois, outro emissário em Brasília. Seu fundador e dirigente, Michel Freund, acredita que existam 13 milhões de descendentes de judeus no país que ainda guardam alguma prática judaica de seus antepassados, 500 anos depois das fogueiras da Inquisição.

Pelo retorno de um povo: a missão mais que possível.

Michael Freund, 57 anos, nasceu em Nova Iorque e é formado em Finanças (Columbia University) e em Política Internacional pela Princenton University. Vivendo em Israel desde 1995, ele também percorre meio mundo para descobrir e ajudar os “judeus perdidos” a reencontrarem a sua herança milenar. A entidade mantém contato com as várias comunidades de descendentes dos chamados “falsos cristãos” ou bnei anussim (filhos dos forçados – descendentes daqueles que foram convertidos à força ao catolicismo, durante a Inquisição), nos quatro continentes (América, Europa, África e Ásia).

Preparando seminários e instalando centros de estudos e de apoio para atender a todos que têm um real interesse em recuperar as suas origens, a Shavei Israel conta com um grupo de educadores e rabinos que realizam as conversões sempre de acordo com a aprovação do Rabinato de Israel.

Em 2005, Freund se encontrou com pessoas de Burma, Espanha, Peru, Índia, Colômbia e Japão que tinham feito o “monumental passo de formalmente se unir ao povo judeu”. Eram biólogos, tradutores, professores e até mesmo um ex-padre católico. “Nesta época em que tantos jovens judeus abandonam as suas raízes judaicas, ver este despertar sem precedentes acontecendo sob os nossos olhos, com pessoas batendo a nossa porta, com sinceridade, suplicando para entrar, é emocionante e inspirador”, enfatiza.

Os judeus perdidos do Nordeste

Pesquisadores e historiadores acreditam que o nordeste do Brasil abriga uma das maiores concentrações de bnei anussim do mundo. Em 2008, 45 famílias que descobriram as suas raízes judaicas (30 de Pernambuco e 15 da Paraíba) estudavam as leis, os costumes religiosos, as festas, o calendário e o significado do retorno. Segundo o primeiro emissário no país, Eliezer Sabba, os bnei anussim podem ser encontrados principalmente nos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também existem judeus perdidos no Ceará, sertão da Bahia e norte de Minas Gerais.

Na entrevista ao Jornal do Comércio de Recife, Sabba explicou que muitos dos chamados cristãos-novos (judeu convertido à fé cristã) fugiram de Portugal para o sertão brasileiro porque era mais fácil manter as práticas judaicas, embora a Inquisição também tenha chegado ao Brasil e feito muitas vítimas.

Sobre as diversas maneiras de se reconhecer as raízes judaicas das pessoas, as mais importantes são o sobrenome e os hábitos familiares. Os sobrenomes estão geralmente associados a árvores, animais ou ao local onde viviam. Por exemplo, Matos e Selva, no interior do estado, e da Costa, no litoral.

Bezerra é outro nome que identifica um cristão-novo. Quanto aos costumes, o emissário disse que conversou com pessoas que não comiam carne de porco, mas não sabiam explicar o motivo. Outras tinham aprendido com a família a acender velas todas as sextas-feiras para o anjo da guarda, sem fazer vinculação com o sábado dos judeus. Outro costume mantido no interior semelhante ao ritual judaico seria a forma de enterrar os mortos, enrolados numa mortalha e direto na terra.

Em 2015, um segundo emissário da Shavei no Brasil, o rabino Yeshayahu Bin Nun, nascido em Brasília e descendente de bnei anussim, iniciou o reconhecimento dos cerca de 30 núcleos existentes no país. Ele escreveu que os locais geralmente careciam de infraestrutura física adequada.

Nas visitas, o rabino ressaltou a existência de um grupo de 50 pessoas que vive no Balneário Camboriú, em Santa Catarina, e uma congregação de várias centenas de pessoas em Natal, no Rio Grande do Norte. Ambas as comunidades tinham suas próprias casas de orações e em Natal foi construído um mikvê ( casa de banho para mulheres) no interior do prédio.

Da selva peruana à China pessoas retornam às raízes

Ainda na América do Sul, em 2006 Freund enviou um emissário para uma cidade na selva amazônica peruana, a pedido da comunidade de Tarapoto, a 600 quilômetros ao norte da capital Lima .Conhecida como a cidade dos Salmos, a localidade possui algumas centenas de descendentes de judeus marroquinos que conservam sobrenomes ancestrais como Ben-Zaken, Ben-Shimon e Cohen.

Outro grupo que a organização tem dado assistência é aquele formado pelos descendentes da tribo perdida de Menashé (7 mil pessoas) que vive no noroeste da Índia, nas cidades de Mizoran e Manipur. Ao longo dos anos, 4 mil já emigraram para Israel com a ajuda da Shavei. Eles se declaram descendentes dos judeus exilados pelos assírios da terra de Israel, há 2.700 anos. Quatro dos cinco livro da Torá (Velho Testamento) já foram traduzidos diretamente do hebreu para a língua local – Mizo.

Na China, os judeus da cidade de Kaifeng foram descobertos no século 17, e apesar da assimilação e da pobreza da comunidade, alguns ainda conservam a sua identidade. Dezenas deles estudam para a conversão e um deles foi a Jersualém com o intuito de se tornar rabino e ajudar os membros da comunidade a emigrar para Israel. Também os judeus da Polônia e da Rússia, devido às guerras e ao regime comunista esconderam as suas identidades judaicas e a Shavei trabalha nesses países para reforçar o retorno das comunidades as suas origens.

Na Espanha e Portugal, os países mais afetados pela Inquisição, muitos desses bnei anussim conservaram a sua identidade judaica secretamente, como foi o caso dos judeus de Palma de Mallorca e de Belmonte. Nesta última cidade, no norte de Portugal, 150 cristãos-novos que se mantiveram leais às práticas do judaísmo já foram formalmente reconhecidos por uma Corte Rabínica de Jerusalém.

De braços abertos para os que retornam

Em 2007, quando a organização ainda era pouco conhecida., fiz algumas perguntas via e-mail a Freund que antes de se dedicar à causa dos “judeus perdidos” trabalhou dois anos como vice-diretor de Comunicações e Planejamento Político do Governo israelense. Freund também é colunista do jornal Jerusalém Post e, em 2024, foi agraciado com o “Jerusalem Prize” em reconhecimento ao seu trabalho à frente da organização. Anos antes, em 2021, Freund já havia recebido do governo sérvio a Medalha de Ouro do Mérito, a mais alta comenda dada a estrangeiros, por sua atuação como presidente da Associação de Amizade Israel-Sérvia.

O que levou o senhor a fundar uma instituição como a Shavei Israel ?

- Eu decidi lançar a Shavei Israel porque percebi que o povo judeu encontrava dificuldades em ajudar mais efetivamente os descendentes dos judeus ao redor do mundo que ddesejavam investigar as suas origens judaicas. Em anos recentes, o fenômeno da globalização surgiu e alcançou aqueles indivíduos e comunidades que tinham uma conexão histórica com o povo judaico e que começaram a manifestar um crescente interesse em se reconectarem a sua herança ancestral. Eu acredito que é nossa responsabilidade, como judeus, adotar essas pessoas, estender-lhes a mão e dar as boas-vindas em seu retorno ao lar.

Através dos séculos, como conseqüência de uma cruel perseguição e exílio, muitos judeus foram forçados a se converterem a outras religiões ou deixar de lado a sua identidade judaica. Tomemos, por exemplo, Espanha e Portugal no século XV, quando centenas de milhares de judeus foram obrigados a se converterem ao catolicismo contra a sua vontade. Apesar disso, muitos continuaram a seguir o judaísmo em segredo preservando a sua identidade judaica, mesmo conscientes do grande risco que esta prática envolvia.

Conhecidos como marranos ou bnei anussim, na língua hebraica, que significa “aqueles que foram forçados”, eles mantiveram a sua identidade judaica secretamente, de geração em geração, e, atualmente, seus descendentes podem ser encontrados em toda a parte do mundo onde se fala espanhol e português, incluindo, logicamente, o Brasil, onde, talvez, esteja localizado o maior número de descendentes de judeus, possivelmente uma cifra que chega a milhões de pessoas. São exatamente essas pessoas que nós desejamos alcançar.

Contudo, eu precisaria acrescentar que o judaísmo não é uma religião missionária e nós não somos uma organização missionária. Em vez disso, nós trabalhamos com pessoas que não apenas têm uma ligação biológica com o judaísmo e os judeus, mas também uma natural identificação e que estejam interessadas em fortalecer esta conexão mais adiante.

Israel e o povo judeu defrontam-se com um imenso desafio demográfico. Nós somos um pequeno povo – apenas 13,5 milhões de judeus em todo o planeta! ( atualmente são 15,7 milhões) – e nossos números não crescem como seria desejável. Por conseguinte, indo ao encontro de nossos  irmãos e irmãs perdidos e trazendo-os de volta para a congregação, nós poderemos nos fortalecer, tanto espiritualmente como numericamente.  

Quais são as grandes vitórias da Shavei ?

- A instituição tem se expandido de forma extraordinária nesses anos, e nós estamos presentes, agora, em oito países ao redor do mundo, incluindo Espanha, Portugal, Brasil, Índia, Peru, Rússia, Polônia e China. Na Índia, nós temos dois centros educacionais para os Bnei Menashé, um grupo de descendentes de uma tribo perdida de Israel.

Em março de 2005, o rabino-chefe serfadita de Israel, Rabbi Shlomo Amar, reconheceu formalmente os bnei Menashé como descendentes de Israel, e então nós organizamos a ida de uma Corte Rabínica (Beit Din) à Índia, em setembro do mesmo ano, onde foi possível converter 200 membros da comunidade que retornaram ao judaísmo.

Na Espanha, Portugal e Brasil, nós temos emissários atuando em Palma de Mallorca, na cidade do Porto e em Recife (relativo ao ano de 2007) onde  trabalham com os rabinos para a comunidade local  e ao mesmo tempo realizam serviço voluntário com os bnei anussim em diversas áreas. Nós organizamos seminários e simpósios, várias vezes ao ano, e temos publicado um bom número de livros e folhetos em espanhol sobre a história judaica, sua cultura e tradições. Também em Jerusalém nós mantemos o Instituto Machon Miriam, de língua espanhola, para conversão e “retorno”, onde estudantes se preparam para submeter-se à conversão formal ao judaísmo.

Nós trabalhamos, ainda, com os descendentes dos judeus da comunidade de Kaifeng, na China, com os judeus de Subbotnik, na Rússia, e com os “judeus secretos” da Polônia. Igualmente patrocinamos uma variedade de cursos profissionalizantes para os novos imigrantes que chegam a Israel, providenciando bolsas de estudo e computadores para os estudantes carentes e fornecendo ajuda de custo nos primeiros meses de sua chegada ao país. Todo o nosso trabalho é conduzido de acordo com a Lei Judaica e sob a supervisão contínua da Chefia do Rabinato de Israel.

De que forma as pessoas podem ajudar a Shavei Israel?

- Um de nossos objetivos também é formar uma consciência entre a comunidade judaica acerca da existência de grupos como os do bnei Menashe e do bnei anussim. As pessoas precisam entender que estes grupos não existem apenas em livros de história – eles estão bem vivos e estão clamando ao povo judeu para que os ajudem e apoiem. Pessoas interessadas em conhecer um pouco mais sobre o nosso trabalho podem visitar o nosso site www.shavei.org, onde encontrarão informações em inglês, espanhol, português e catalão. Também podem enviar e-mail, nos endereços: spanhish@shavei.org ou  office@shavei.org Todos serão muito bem-vindos. A Shavei Israel também está no Facebook, Instgram e YouTube.

Obs.: Em 1949-1950, Israel realizou a Operação Tapete Mágico que resgatou 51 mil judeus do Iêmen para Israel (exilados há mais de 2 milênios). Anos depois, as Operações Moysés e Salomão retiraram 22 mil judeus da Etiópia ( segundo a tradição, descendentes da rainha de Sabá) que atualmente compõem uma comunidade em Israel de mais de 170 mil pessoas.

* Atualizado em setembro/ 2026

 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Operação policial no Rio ‘liga o PCC ao financiamento do Hezbollah e Al-Qaeda em Foz de Iguaçu’, informa La Nacion

Sheila Sacks

Deflagrada em 15 de julho pela Polícia Civil e o Ministério Público do estado do Rio de Janeiro (MPRJ), a Operação Hawala de combate à lavagem de dinheiro ligada ao tráfico de drogas se estendeu a outros estados da federação e à cidade de Foz de Iguaçu, no Paraná.

Reportagem publicada no diário argentino La Nacion (‘ Una investigación de lavado en la Triple Frontera une al PCC con el financiamiento de Hezbollah y Al Qaeda’, em 18/7/2026) destaca que a investigação iniciada na favela de São Carlos, perto do centro histórico do Rio, estabeleceu um provável elo com a lavagem de fundos para grupos terroristas, como a Al-Qaeda e o Hezbollah, em Foz do Iguaçu, na Tríplice Fronteira. Das 22 pessoas denunciadas, dez foram detidas.

De acordo com o jornalista investigativo Gérman de lós Santos, que assina a reportagem, ao detectar uma relação comercial entre uma empresa ligada aos investigados e um indivíduo sancionado pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), do Departamento do Tesouro dos EUA, por financiamento a grupos terroristas, o trabalho policial resultou em uma descoberta paralela “com repercussões internacionais”.

Ele explica que o rastreamento da lavagem de dinheiro ensejou o nome da operação (Hawala) que se refere ao sistema informal de transferência de valores, “com origens antigas no Oriente Médio e sul da Ásia”, executada através de uma rede de intermediários que movimenta créditos e dívidas entre si, sem passar por bancos. “É o mecanismo que, segundo pesquisas internacionais, historicamente conectou o comércio na Tríplice Fronteira com as redes de financiamento no Líbano.”

Empresas de fachada

Cumprindo um total de 37 buscas e apreensão nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, o objetivo inicial da polícia era desmantelar uma estrutura de dezenas de empresas de fachada registradas em vários estados que, segundo a denúncia, “lavou cerca de US$ 19 milhões (mais de 100 milhões de reais) em dinheiro do narcotráfico entre 2021 e 2024, a serviço de três facções criminosas brasileiras: o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP)”.

Documentos obtidos pelo La Nacion junto à Polícia Civil estadual confirmaram a prisão do foragido da justiça americana durante a operação. As buscas também constataram referências ao Hezbollah, a organização xiita libanesa cuja rede de arrecadação de fundos na Tríplice Fronteira está sob investigação há três décadas. O jornalista destaca, porém, que a palavra "terrorismo" não consta da declaração oficial dos procuradores da unidade antimáfia do MPRJ, e que “a hipótese de ligação com a Al-Qaeda e o Hezbollah é, por ora, uma linha de investigação policial que começa a ser aprofundada”.

Correspondente na cidade de Rosário, German de lós Santos é autor premiado de três livros sobre as máfias do narcotráfico e, em 2015, ganhou o Prêmio Adepa ( Asociación de Entidades Periodísticas Argentinas) pela melhor reportagem investigativa sobre narcotráfico publicada pelo La Nacion. É professor da cátedra “Periodismo de Investigación” na Universidade Católica Argentina (UCA).

Centros de arrecadação

Descrevendo sobre a operação em Foz de Iguaçu, a reportagem ressalta o envolvimento de empresários de origem libanesa supostamente ligados ao Hezbollah. Também em São Paulo, observa o jornalista, sobrenomes árabes estão entre os denunciados.

Desde os ataques à embaixada israelense e ao centro comunitário judaico AMIA, em Buenos Aires (1992 e 1994), as cidades da Tríplice Fronteira são consideradas centros logísticos de arrecadação para organizações terroristas. Em 2018, escreve German, o líder da clã Barakat foi preso a pedido da Justiça Federal argentina e, em 2021, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou uma rede da Al-Qaeda no Brasil ( três homens e duas empresas), a primeira designação desse tipo no país.

Para o autor, um desses indivíduos, ou outros adicionados posteriormente à lista, pode ser o homem cuja transação com as empresas da família Zayoun desencadeou esta nova fase da investigação. “Armas fluem da Argentina e do Paraguai para as facções; a cocaína viaja pelo Canal Paraná-Paraguai e atravessa para os portos do Atlântico; o dinheiro é lavado através do sistema Hawala entre Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Líbano, sem nunca passar por um banco. Todos os três fluxos utilizam a mesma geografia e, como sugere o processo aberto no Rio de Janeiro, às vezes os mesmos operadores.”

Facções terroristas

A plataforma Insight Crime que monitora as organizações de narcotráfico na América Latina também destacou a operação no Rio, lembrando que os Estados Unidos designaram o PCC, em junho de 2026, como organização terrorista (FTO - Foreign Terrorist Organization).

Reportando o histórico do grupo criminoso, a matéria (‘Primeiro Comando da Capital –PCC, em 20/7/2026) ressalta que a organização foi formada após o massacre ocorrido no presídio paulista do Carandiru, em outubro de 1992, onde mais de 100 presos foram mortos pelas forças de segurança, após uma rebelião. “Eles começaram a expressar solidariedade a outra facção carcerária, o Comando Vermelho (CV – também designado organização terrorista pelos EUA), adotando o lema ‘paz, justiça e liberdade’ e defendendo a revolução e a destruição do sistema capitalista.”

A Insight Crime assinala ainda que o PCC realizou o maior assalto a banco da história de São Paulo, em 1999, roubando cerca de 32 milhões de dólares, e que em 2001 “coordenou a maior rebelião prisional do mundo, com o fechamento simultâneo de 29 unidades prisionais em todo o estado.”

Ligações perigosas

Para o cientista político Emanuele Ottolenghi, consultor sênior da plataforma digital 240 Analytics, que reúne especialistas em rastreamentos de fluxos financeiros de risco, o Brasil abriga, há quase 30 anos e de forma permanente, o principal representante regional do Hezbollah.

Em artigo publicado no site de notícias Infobae,  (‘Dentro de la red de Hezbollah en Brasil’, em  3/8/2026), o autor cita a operação Hawala e observa que o país ocupa uma posição central na estratégia da organização para a América Latina, representando “um desafio significativo para a segurança regional” devido às relações que criou, ao longo dos anos, com os principais grupos criminosos da região.”

Autor do livro “Inside Iran's Islamic Revolutionary Guards Corps”, Ottolenghi considera que Brasil deveria adotar  medidas semelhantes já postas em prática na  Argentina que, em 2019, designou o Hezbollah como organização terrorista e no mesmo ano criou o Registro Público de Pessoas e Entidades Vinculadas a Atos de Terrorismo e seu Financiamento (RePET), com base no banco de dados dos EUA. “Instrumentos desse tipo poderiam ampliar a capacidade do Estado de desarticular um componente fundamental de convergência entre terrorismo e o crime no Brasil e reduzir a capacidade das facções criminosas de lavar recursos de origem ilícita.”, reforça o especialista.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A relevância e o jornalismo de resultados

/ Sheila Sacks /

Qual seria o limite ético a ser incorporado no jornalismo quando este impõe uma suposta relevância a um fato como notícia que a princípio não estaria no foco de milhares de leitores?

O grau de relevância é uma das armas potentes da imprensa capaz de dar um empoderamento a fatos, muitos deles específicos, que se alçam a notícias de teor de grande interesse informativo, recebendo cobertura especial e espaços generosos do jornal.

A estratégia tem por meta criar no público alvo uma percepção negativa (ou positiva) de uma situação, pondo de lado critérios jornalísticos e se valendo de outros parâmetros de interesse do jornal. 

É o caso da reportagem publicada pelo O Globo sobre o trabalho home office dos servidores federais, com chamada de primeira página (‘Número de servidores federais em home office cresce e já supera 100 mil’, em 14/7/2026). E logo abaixo, o gancho da leitura: ”Dados do Ministério da Gestão mostram que 24% dos 445 mil servidores elegíveis atuam no home office integral ou no híbrido.Fatia cresceu desde 2024.”

O que se observa é que um fato meramente administrativo, incluso na implementação de uma estratégia de gestão pública, é elevado a um nível de manchete sem o estofo cabível. A notícia não engloba qualquer tipo de denúncia ou irregularidade como, por exemplo, funcionários fantasmas, e nem avaliação negativa em relação à eficiência e a política de resultados do teletrabalho. Discute-se a cultura organizacional e engajamento.

Funcionalismo em foco

Outras reportagens questionando o trabalho remoto já haviam sido publicadas pelo jornal em anos anteriores: “Home office federal: governo tem 16% dos servidores em trabalho remoto, que terá novas regras”, em 18/10/2024, e “Reforma Administrativa: como vai ficar o home office dos servidores? Entenda”, em 10/9/2025.

Dessa vez, no dia seguinte à reportagem, a editoria abriu seu espaço nobre para se posicionar abertamente contra o home office no setor público, despojando-se de uma dúbia neutralidade mantida até então.

No texto (‘Aumento de home office no setor público é retrocesso’, em 15/7/2026), a argumentação contra o teletrabalho tem como modelo o setor privado onde é afirmado que “ a tendência é oposta”. As “boas razões” recomendadas pelo jornal para a volta dos servidores federais às repartições teriam como escopo facilitar o trabalho das chefias, visto que “no regime remoto, chefes de departamento percebem dificuldades de comunicação e gestão de equipes”, além de “reuniões menos produtivas” e “falta de motivação”.

O raciocínio se vale até do presidente americano como exemplo de governança nesses particular. " Ao voltar à Casa Branca, o republicano Donald Trump decretou o fim do trabalçho remoto."

Produtividade e avaliação

No entanto, no texto do dia anterior, é explicado que os servidores federais que trabalham em home office têm gestão por metas e resultados, com a produtividade e eficiência avaliadas mensalmente. Informando, ainda, que do total de 107,8 mil servidores em teletrabalho,“a maioria, 73,6 mil (68,4%), está no modelo híbrido.”

A matéria inclui a nota do Ministério de Gestão e Inovação (MGI) que destaca a auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) em cinco órgãos federais, com o registro positivo do tribunal ao teletrabalho, atestando “o aprimoramento nos mecanismos de controle e acompanhamento de metas, fortalecendo a gestão por desempenho”.

Redução de gastos

Levantamento do mesmo TCU (2025) realizado em 23 órgãos federais sobre eventuais reduções de despesas na modalidade de home office reporta informações de várias unidades da Federação como a da Advocacia Geral da União (AGU). Esta obteve uma economia com locações de imóveis, no período de 2019 a 2023, da ordem de R$ 30 milhões. Em contrapartida, os custos operacionais cresceram R$ 9,2 milhões desde 2021, com o retorno gradual dos servidores.

Dados do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) enviados ao TCU também registram uma economia de R$ 22 milhões nas unidades do Ministério Público (segundo semestre de 2020), com uma delas informando que houve redução de 44% no consumo de água, 31% no de energia e 74% no de papel.

Em relação à Defensoria Pública União (DPU), números do Sistema Integrado de Gerenciamento de Pessoal indicam que o gasto com auxílio transporte baixou 41% em 2020 (retornando a 50% em 2023), e que o adicional de insalubridade que havia caído para 53% subiu para 90% em outubro de 2023.

O documento do TCU (Acórdão 526/2025) publicado no site do tribunal, em 17/3/2025, apresenta ainda, na seção de “aspectos financeiros”, as despesas listadas pelos órgãos da Administração Federal que mais pesam nos custos operacionais, tais como serviços públicos (água, energia elétrica, telefonia); infraestrutura (conservação de imóveis próprios, locação de imóveis); viagens e deslocamentos (diárias, passagens, manutenção e combustível de veículos próprios, locação de veículos); materiais de consumo e de escritório (café, copos descartáveis, impressão, papel, produtos de limpeza); e benefícios e vantagens (auxílio transporte, adicional de insalubridade).

Dados do Portal da Transparência mostram que a administração federal conta atualmente com 987,5 mil servidores ativos, além de 1,05 milhão de aposentados e pensionistas vinculados aos órgãos da União (‘Número de servidores públicos federais poderá ultrapassar 1 milhão após aprovação de projeto no Senado', no Correio da Manhã, em 11/3/2026).

Pandemia e home office

Capital da República até 1960 quando foi substituída por Brasília, o Rio de Janeiro concentra mais de uma centena de repartições públicas federais. De acordo com o Anuário Estatístico do IBGE (2024) são 85.792 funcionários federais civis ativos, o segundo maior contingente depois de Brasília, com 93.938 mil. 

Relator do grupo de trabalho que elaborou a proposta da Reforma Administrativa (PEC 38/2025, em processo de discussão no Congresso),  que deverá restringir o percentual de servidores em home office,  o deputado federal Pedro Paulo é do Rio de Janeiro e ocupou a pasta da Casa Civil e foi secretario de Fazenda e Planejamento na prefeitura do Rio. 

Como político ligado à cidade, ele acompanha a difícil recuperação do centro comercial e histórico do Rio, juntamente com o empenho das autoridades municipais e o apoio da mídia na tentativa de revitalizar a área, desestruturada pela pandemia de Covid 19. 

Passados mais de cinco anos, a região continua com centenas de edifícios comerciais esvaziados, prédios públicos abandonados e deteriorados, milhares de salas de escritórios fechadas, número incontável de lojas e restaurantes com negócios encerrados. 

A municipalidade vem tentando reverter a situação com programas de incentivos e investimentos em parceria com o setor imobiliário e de serviços, inclusive dando o aval para a adaptação de prédios comerciais em residenciais. No entanto, ainda é flagrante a degradação de imóveis privados e públicos na área, muitos deles de órgãos federais, persistindo as dificuldades para a retomada dos negócios e comércio na área. 

Imóveis vazios

.Repercutindo “a sensação de decadência do bairro”, reportagem de O Globo constata a imagem de abandono do centro, que ocorre “do ponto de vista urbanístico, cultural, social e econômico (‘Nos últimos 4 anos, mais da metade das agências bancárias e postos de atendimento no Centro do Rio fecharam as portas, deixando imóveis vazios’, em 13/5/2025).  

Nesse contexto, o jornal saudou a “reocupação gradual” do edifício sede da Petrobrás, após a reforma do imóvel (‘Petrobras inicia reocupação de sede histórica no Centro do Rio após primeira grande revitalização em 50 anos’, em 12/6/2026), mas, enfatizando, em reportagem posterior, a difícil situação do centro do Rio, “com imóveis de grande porte, muitos deles históricos, sem uso, degradados ou à espera de uma solução definitiva” (‘ Palacete invadido, antigo IML, hospital fechado e sede histórica dos Correios retratam desafios da revitalização do Centro do Rio’, em 24/7/2026).

No início do ano (14/1/2026) a sede da prefeitura foi palco do lançamento do livro “Rio, Capital do Brasil: Ensaios sobre a Capitalidade”, uma coletânea de textos de acadêmicos que analisam o papel do Rio de Janeiro como capital do país, desde o período colonial.  Na ocasião, o prefeito Eduardo Paes ressaltou o que, segundo ele, “todo carioca sente na pele: o Rio nunca foi uma cidade comum.” 

- Foram quase 200 anos de capital do Brasil, e isso não é apenas um dado histórico. Isso moldou a cidade, a política, a cultura e a própria ideia de Brasil, disse. 

Uma afirmação que encontra ressonância na alma carioca e em se tratando de O Globo reverbera na lógica contra o regime home office dos funcionários federais, um dos possíveis vilões da lenta recuperação dessa fatia do Rio.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Porto de Santos: Narcotráfico muda rota para driblar fiscalização

 / Sheila Sacks /

Com mais de 27 toneladas de cocaína apreendidas em 2019, o maior complexo portuário da América Latina, situado no litoral paulista, viu a quantidade da droga confiscada se reduzir radicalmente  nos anos seguintes, baixando para 7,4 toneladas em 2025. No entanto, carregamentos de cocaína continuavam a ser apreendidos nos portos europeus apesar da vigilância e rastreamento dos contêineres nos terminais de carga de Santos.

Reportagem da Insight Crime – uma instituição de jornalismo investigativo, sediada em Washington, com foco nas organizações criminosas da América Latina – revelou que agentes federais, reforçando o monitoramento e analisando novas informações, descobriram que integrantes da organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) tinham se infiltrado nas comunidades que se encontram às margens do cais e através delas carregavam toneladas de cocaína para os enormes navios cargueiros na entrada do canal.

Constataram também uma mudança na rota tradicional e a utilização do continente africano como destino final temporário de onde posteriormente despachavam os carregamentos rumo à Europa para as quadrilhas internacionais realizarem a distribuição da droga ('Is Brazil’s Biggest Port Winning the Fight Against Drug Traffickers?', em 2/3/2026).

A diversificação das rotas pôde ser constatada essa semana (6/7/2026) com a apreensão pela Polícia Federal de 437 quilos de cocaína no Porto de Santos. A droga estava escondida em uma carga de sucata de ferro com destino aos Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio e foi interceptada pela Receita Federal durante inspeção aduaneira.   

 Peça-chave

Quatro anos antes, em 2022, o mesmo Insight Crime apontava o porto de Santos  como “ponto crucial para o comércio global de cocaína”. Na ocasião, o jornalista investigativo Chris Dalby, fundador da plataforma World of Crime e autor de livros sobre os cartéis do México e da Venezuela, revelou a apreensão de perto de duas toneladas de cocaína em um único dia em carregamentos que sairiam de Santos em direção à Europa.

A informação teve como base o portal de notícias em espanhol defensa.com, especializado em temas das áreas militar, de defesa e segurança. Foram descobertos 265 quilos da droga escondidos em uma carga de café que seguiria para o porto de Le Havre (França); mais 730 quilos da droga em um container carregado de suco de laranja com destino à Valência (Espanha); e mais 504 quilos de cocaína em uma carga de açúcar que seguiria para Gana (‘How Brazil’s Port of Santos Became Cocaine’s World Trade Center’, em 13/1/2022).

O autor explica na reportagem que a ascensão do porto de Santos como “importante ponto de saída internacional de cocaína” teve como fator primordial a expansão da facção criminosa PCC que “ampliou seus tentáculos de tráfico de drogas por toda a região, concentrando-se principalmente no Paraguai e na Bolívia”.

Dessa forma, a droga produzida na Bolívia é transportada através do Paraguai e do território brasileiro até Santos, sob o controle de integrantes do PCC que domina todo o fluxo de cocaína nos países vizinhos.

Segundo Dalby,  a principal parceira do PCC na Europa é a 'Ndrangheta, a máfia italiana da região sul da Calábria. Citando dados da Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), o jornalista escreve que essa organização criminosa permitiu que a cocaína que saísse de Santo entrasse na Europa pelos portos de Roterdã e Antuérpia, sendo posteriormente distribuída às máfias russa, dos Bálcãs e marroquinas.

“A 'Ndrangheta também ajudou a estabelecer acordos de tráfico de drogas entre o PCC e grupos criminosos na África Ocidental, que ficavam com parte da cocaína em troca de auxílio no transporte de grandes quantidades para a Europa”.

Outros intermediários internacionais lembrados por Dalby também incluiriam as máfias sérvias, de acordo com relatório da Europol (European Union Agency for Law Enforcement Cooperation), de 2019, e o cartel irlandês comandado pelo “ narcotraficante mais notório do país, Daniel Kinahan,”, dono de  terras e negócios no Brasil (The Irish Sun, em 8/10/2020).

 Condenação

Recentemente foi noticiado que um ex- funcionário do porto de Santos foi condenado pela justiça brasileira a onze anos de prisão por burlar a fiscalização e permitir o envio de 416 quilos de cocaína para a Suíça escondidos em sacas de café (‘Chefe de terminal facilitou envio de 416 kg de cocaína para a Suíça’, no Metrópoles, em 30/6/2026).

O episódio aconteceu em 2022 e a denúncia partiu das autoridades suíças que identificaram a carga como provinda do porto de Santos e encaminharam a informação à Polícia Federal (PF). Apesar da justificativa do réu que alegou ter sido ameaçado por dois indivíduos desconhecidos de posse de fotos de sua esposa e filho, e que foi coagido a facilitar a remessa da droga no contêiner, ele foi o único condenado.

Na sentença, de acordo com o Metrópoles, foi ressaltado que o crime foi cometido com o auxílio de outras pessoas, mas os suspeitos não foram identificados pela investigação. ”Esses indivíduos teriam sido os responsáveis por recrutar Diogo (o réu), fornecer o celular para comunicação e realizar a contaminação física do contêiner com a droga no galpão.”

Em 2025, o Porto de Santos registrou a maior movimentação de cargas de sua história: 186,4 milhões de toneladas, um crescimento de 3,6% em relação a 2024, quando havia alcançado 179,8 milhões. Foram 137,4 milhões de toneladas exportadas e 49 milhões importadas em 5,9 milhões de contêineres padrão. Esse volume representa 30% de toda corrente comercial do país (‘Porto de Santos bate novo recorde em 2025 e amplia participação no comércio exterior’, no G1, em 18/1/2026).