/ Sheila Sacks/
Não
só no Brasil a lavagem de dinheiro de facções criminosas aponta indícios de
conexão com grupos terroristas como Hezbollah e Al-Qaeda (como revelou a
operação policial Hawala no Rio, em
julho). Também na União Europeia uma
extensa e detalhada reportagem levada a
efeito por um grupo de jornalistas da Rede de Jornalismo de Investigação (IJN,
na sigla em inglês) da European Broadcasting Union (EBU) constatou que o
sistema hawala, além de lavar dinheiro proveniente do tráfico de drogas, é
usado por grupos criminosos para o financiamento de terrorismo e fraudes
fiscais. (‘Hawala, the world's underground bank’, em 30/8/2026).
Publicada na plataforma digital da Eurovision News, a matéria se
utilizou de informações reveladas por um “ex-lavador de dinheiro dinarmaquês”
que participou do esquema clandestino hawala de transferência de valores.
Utilizando o nome fictício de Frank, ele contou que com o correr do
tempo percebeu que o sistema não se limitava apenas a transações financeiras.
“Tratava-se de financiamento de terrorismo, tráfico de drogas, prostituição e de
todo tipo de outras coisas horríveis, para dizer o mínimo”, assinala.
Com origens antigas no Oriente Médio e sul da Ásia, o sistema hawala foi
criado para transferir dinheiro de maneira informal através de uma rede de
intermediários que movimenta crédito e dívidas entre si, sem passar por instituições
bancárias.
Na clandestinidade
Por dois anos, jornalistas das emissoras públicas de rádio e TV da
Dinamarca (DR), Bélgica (VRT e RTBF), Espanha (RTVE) e Áustria (ORF) se reportaram a cidades da Europa e do Oriente Médio para
desvendar o funcionamento interno desse sistema bancário ilegal que oferece
serviços financeiros a criminosos. “Eles
investigaram essas redes entrevistando operadores de hawala e seus clientes,
autoridades policiais nacionais e internacionais, lavadores de dinheiro e
especialistas financeiros, obtendo acesso exclusivo a milhares de registros
judiciais e financeiros”, afirma o texto introdutório.
O primeiro contato direto dos jornalistas com o esquema ilegal foi
através do Facebook onde um perfil oferecia transações para a Faixa de Gaza. A
transferência de valores (250 euros) foi feita aos jornalistas, que não se identificaram,
por um desconhecido em uma rua de Bruxelas. Horas depois, outro jornalista do
pool investigativo que estava em Gaza recebeu o dinheiro no local combinado,
sem questionamentos.
Por sua vez, repórteres da RTBF realizaram uma transferência na direção
oposta: “um jornalista em Damasco (Síria) enviou o equivalente a 500 euros para
a Bélgica, que foram recebidos horas depois por um jornalista no centro de
Bruxelas, entregue por um homem na rua. Não houve registro oficial da transação
e nem foi exigida qualquer documentação.”
Segundo a polícia criminal alemã, a maior parte das milhares de
transações diárias globais realizadas através do sistema hawala é de origem
ilícita. Com acesso exclusivo obtido no Tribunal Penal de Bruxelas sobre um
caso de arrecadação de fundos para membros do grupo terrorista do Estado
Islâmico (ISIS - Islamic State of Iraq and Syria), os jornalistas checaram as
mensagens registradas no telefone de um suposto “Abou Adam”, corretor hawala
belga que investigadores suspeitavam ser o responsável pelas transferências de
dinheiro para os terroristas que atuam na Síria e no Iraque.
O
magistrado federal Vincent Guerra, responsável pela investigação que
durou quatro anos, detectou mais de cem mil mensagens de movimentação de
valores somente nesse telefone em um período de nove meses. Em um grupo privado
de WhatsApp denominado “Os Comerciantes
da Grande Europa”, as transações ocorriam
acima de 5.000 euros através de 532 “hawaladars” (operadores de câmbio
ilegal).
“Estamos falando de centenas de milhões de euros ou dólares circulando
ao longo de alguns meses” ressalta Guerra, listando dezenas de países
mencionados nas mensagens, entre eles, Brasil, Líbano, Síria, Turquia, Egito, Iêmen,
Emirados Árabes, Líbia, Espanha, Malta, Grécia,França, Inglaterra e Rússia. Do
Brasil, a mensagem capturada veio da cidade de São Paulo com o pedido de
transferência de 120 mil dólares para Istambul.
Em novembro de 2024, Abou Adam e outros cinco palestinos foram
condenados em um tribunal criminal por violação de regulamentos bancários,
participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro. Dois deles também
foram considerados culpados de financiamento de terrorismo. Eles receberam
penas de até oito anos de prisão.
Repercussão
Simultaneamente à divulgação na Eurovision, a inglesa BBC News repercutiu a investigação dando destaque às atividades do grupo de WhatsApp “usado
para lavar centenas de milhões de euros em dinheiro vivo em todo o mundo,
financiando o crime organizado e o extremismo sem deixar rastros” (‘WhatsApp
chat used to launder cash for crime and extremism’, em 30/8 2026).
Na reportagem da rede pública de rádio e TV austríaca – ORF (‘Hawala - o sistema financeiro paralelo
global’, em tradução livre), é sinalizado que o sistema hawala anualmente
facilita as transferências de valores superiores a 200 milhões de dólares (172
mil milhões de euros) em todo o mundo. “Criminosos utilizam o sistema, que
permite a transferência de dinheiro sem bancos ou remessas, para lavagem de
dinheiro, tráfico de drogas e financiamento do terrorismo.” De acordo com a
responsável da unidade de crimes financeiros da Europol, Lucy Myles, o sistema ”é
a espinha dorsal do crime organizado.” (‘Das
weltweite Schattenfinanzsystem’, em 30/8/2026).
Elo com terrorismo
No
Brasil, a investigação da polícia do Rio que tinha como alvo empresas de
fachada que lavavam dinheiro para as organizações criminosas PPC e CV se estendeu
a São Paulo e à cidade de Foz Iguaçu, na Tríplice Fronteira, constatando
possíveis vínculos do narcotráfico com grupos terroristas como Hezbollah e
Al-Qaeda. Das 22 pessoas denunciadas, dez foram presas.
A
operação policial foi noticiada pela imprensa brasileira e divulgada no
exterior por várias mídias, como o jornal argentino La Nacion (‘ Una investigación de lavado en la Triple Frontera une
al PCC con el financiamiento de Hezbollah y Al Qaeda’, em 18/7/2026); a agência
Reuters (‘Brazil charges 22 with laundering $20 million for gangs, probes
possible al Qaeda link’, em 15/7/2026); e o jornal libanês online Daily Beirut (‘The Shadow Empire: How
Hezbollah Wove a Network of Intelligence and Crime in Brazil’ , em 21/9/2026).
A
ação também ganhou destaque nas plataformas digitais Insight Crime, que monitora as organizações de narcotráfico na
América Latina (‘Primeiro Comando da Capital –PCC, em 20/7/2026) e Diálogos América, especializada em temas
de segurança no continente (Inside Hezbollah’s Network in Brazil”, de
3/8/2026).
Em
relação à matéria do Daily Beirut, o
texto tem como base as informações divulgadas pelo canal de notícias Al-Arab,
da Arábia Saudita, abrangendo as operações Hawala e Trapiche ( 2023), “que
desmantelou uma célula em Brasília que planejava ataques contra alvos judaicos
e embaixadas”, diz o jornal.
Além
de afirmar que o Brasil não é mais “um cenário secundário” para arrecadação de
fundos para o Hezbollah usando redes criminosas, mas um "centro de gestão
operacional local e regional totalmente equipado", a matéria descreve São
Paulo como “a capital financeira” do grupo libanês xiita, pela presença e
atuação de seus líderes, classificando a organização extremista como um
“império sombra” (‘Shadow Empire in São Paulo’) e a América Latina como “porta
de entrada e refúgio seguro para essas milícias armadas” (‘Latin America has
long served as a backdoor and safe haven for armed militias like Lebanon's
Hezbollah’).
Obs.: ressalta-se o ineditismo do trabalho investigativo dos jornalistas
das emissoras públicas da Europa que não encontra paralelo, por exemplo, no
Brasil, onde os setores públicos de comunicação atuam, especificamente, na
divulgação das ações governamentais.























