Especialista diz que
nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem
países árabes.
Em novembro de 2005, alguns
meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza, após a Cúpula de Sharm
el-Sheikh que selou um acordo de paz entre palestinos e israelenses, um dos líderes mais radicais do Hamas, Mahmoud al-Zahar, então ministro de
Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera declarou que o
grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém,
a Judéia e a Samaria (Cisjordânia). “Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos.
Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da
face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).
Um ano depois, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, al-Zahar se recusou a reconhecer a solução de dois estados aprovada pela Resolução 181, da ONU, em 29 de novembro de 1947. “Nós jamais reconheceremos Israel. Os sionistas ocuparam nossa terra como os nazistas ocuparam a França durante a Segunda Guerra Mundial. Israel é um elemento estrangeiro no Oriente Médio. Por que os judeus não estabeleceram seu estado na Europa?” ('We Will Never Recognize Israel', em 23.10.2006).
Em nova apresentação,
desta vez na rede cristã norte-americana CBN News (The Christian Broadcasting Network),
Al-Zahar declarou
textualmente: “Nós estamos em meio a
uma terceira Guerra Mundial. Eu digo isso o tempo todo. E mais: Por que o Hamas deveria abrir mão de suas armas?
Para satisfazer Israel? Para satisfazer algum ser humano na terra? A resposta é
não”.
O especialista em história e religião islâmica da Universidade Hebraica de
Jerusalém, professor emérito Moshe
Sharon (88 anos), faz algumas observações sobre as mensagens implícitas
presentes nas palavras de Al-Zahar, hoje com 79 anos.
Profundo conhecedor da
língua e do pensamento árabes, Sharon,
nascido em Israel, vem alertando, há décadas, sobre a necessidade das
nações prestarem mais atenção à linguagem usada pelo Hamas (que significa
fervor) e por grupos como o Hezbollah e Al-Qaeda. “O
que Al-Zahar quis dizer quando falou em terceira Guerra Mundial”, explica
Sharon, “se traduz da seguinte forma: nós, muçulmanos, queremos restabelecer o Califado, da Índia e China à
Espanha. Isso porque os árabes ainda consideram a Espanha como
território islâmico (a Península Ibérica ficou sob o domínio dos árabes por 700 anos, do
séc. VIII ao XV).”
“Cristãos-sionistas”
Em outra oportunidade, Al-Zahar – autor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 - chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”
Para Sharon está
patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados
Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida
judaico-cristã do Ocidente. “Quando
Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso
pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado
palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”
O professor adverte que o Ocidente está
em perigo e deve enfrentar a situação de maneira séria. “Para muitos pode parecer uma piada esta história de dominar o mundo,
mas para os muçulmanos são palavras de Deus. Desde os primórdios, a intenção do
Islã sempre foi subjugar os povos e colocá-los sob as suas leis e regras. E
hoje, esse plano está a caminho e nós precisamos ter consciência do fato”.
E enumera alguns pontos que orientam a sua tese:
1- Está escrito literalmente no Corão
(Repetição) que “Alá enviou Maomé com
a religião verdadeira para governar sobre todas as religiões”.
2- Maomé afirmou que os judeus e os cristãos falsificaram os livros da Bíblia e
que todos os profetas são muçulmanos, inclusive Abraão, Isaac, Jacob, David e
Moisés.
3- O Sistema Islâmico diz que é preciso lutar contra aqueles que não querem
viver sob o domínio do Islã. A guerra contra os infiéis, sejam judeus ou
cristãos, chama-se Jihad (esforço,
empenho).
4- O Corão divide o planeta em duas Casas: uma se chama Dar al-Islam (Casa do Islã), onde o Islamismo governa, e a outra
Dar al-Harb ( Casa da Guerra),
como é conhecido o restante do mundo. Esta Casa da Guerra será conquistada no
final dos tempos e subjugada pelo Islã.
5 - Para a civilização islâmica, se uma terra, no passado, foi dominada pelo
Islã, ela sempre será propriedade do Islã. Daí os árabes só se referirem a
Israel como território.
6- O propósito do Islã é de se constituir em uma força militar divina para
impor a cultura islâmica. Cada muçulmano que entrega a sua vida na luta pela
disseminação do Islã se constitui em um mártir
(shaheed), não importando a maneira como essa morte possa vir a ocorrer.
Ou seja, este é um conflito bélico eterno, uma guerra sem fim, entre duas
civilizações: a da Bíblia versus a do Corão.
Idioma do Islã
Professor
do Departamento de Estudos Islâmicos da Universidade Hebraica de Jerusalém,
desde 1971, Sharon
já publicou vários livros sobre a história, religião e a cultura orientais,
inclusive sobre a fé Bahá'í. É especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), profundo
conhecedor da Shi’a (seita xiita
predominante no Irã e no Iraque) e foi consultor para Assuntos
Árabes do Governo de Israel, no período do primeiro-ministro Menachem Begin
(1977-1983). Ele é incisivo ao questionar a posição de políticos ocidentais
que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e
intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo
islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (significa submissão), aquele dos
oradores das mesquitas que vociferam horríveis sermões contra os judeus e os
cristãos. Daí que o uso de nossa terminologia e vocabulário para abordar temas
como democracia ou fundamentalismo equivale a falar sobre futebol usando termos
de beisebol. Para falar com o Islã, você precisa usar o idioma do Islã”,
acentua o historiador.
Sharon lembra também que
nestas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo
cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou desta tática em
Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a
tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e
marchou com dez mil soldados sobre a cidade. Tal fato histórico, aliás, foi
mencionado por Yasser Arafat, quando semanas depois do Acordo de Oslo (1994)
ele se justificou em uma mesquita na África do Sul. O professor Sharon gravou o discurso em que
Arafat pedia desculpas pela sua assinatura no documento, dizendo: “Vocês acham que
eu poderia assinar algo com os judeus contrário ao que dizem as regras do Islã?
Não foi assim. Eu fiz exatamente o que o profeta Maomé fez”. Para Sharon, Arafat estava simplesmente
falando: “Lembrem-se da história de
Hudaybiya”.
“Palavras não pagam impostos”
O provérbio árabe -
palavras não pagam impostos - define bem as características das negociações
utilizadas pelos muçulmanos e que devem ser entendidas da seguinte forma: “tratados não são permanentes”. Sharon conta
que aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas
de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles
seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro
de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez
o inimigo
falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma
concordância que, mais adiante, não se concretizou.
Em 2007, conversei pelo telefone com Sharon e ele contou que jamais foi
convidado para realizar palestras no Brasil ou em outro país da América Latina.
De 1999 a 2020 presidiu o Centro de Estudos Bahá’í, na Universidade de
Jerusalém, única cátedra no mundo dedicada a essa crença oriental e pacifista
originária da Pérsia (atual Irã) que congrega 300 mil fiéis naquele país.
Com oito milhões de seguidores, segundo estimativa do Centro Mundial Bahá'í, localizado no Monte Carmel, em Haifa, a fé está presente em mais de 200 países, inclusive no Brasil, com mais de 60 mil adeptos (no Irã são perseguidos e presos pelo regime dos aiatolás sob acusação de serem pró-Israel).
Em 2017, a Câmara de Deputados promoveu em
Brasília uma sessão solene em homenagem ao bicentenário de nascimento do
fundador da fé Bahá’í, o profeta iraniano Baha’u’lláh nascido em 1817. Na ocasião foi ressaltada a importância da
crença e das ações dessa comunidade espiritualista tanto no Brasil como no mundo,
visto ser considerado “o segundo grupo mais espalhado pelo mundo depois do
Cristianismo”.
Batalha de civilizações
Repetindo o que vem
dizendo em seminários acadêmicos na Europa, Sharon destaca que Israel está na linha
de frente na batalha de civilizações, mas também precisa da ajuda das nações do
Ocidente, porque
no momento em que o radicalismo muçulmano se apropriar do controle de armas de
destruição em massa – químicas, biológicas e atômicas – estas serão
implacavelmente usadas.
Apesar de os avisos de Moshe Sharon projetarem um futuro inquietante para o nosso
planeta, a grande mídia teima em se ater a fatos correntes sem se aprofundar no
cerne da questão. Talvez pela sua condição de judeu-israelense, muitos
jornalistas e intelectuais, instintivamente, façam um pré-julgamento de seus
estudos. Entretanto, alguns pesquisadores de religiões monoteístas e observadores
da cultura islâmica já citam o especialista israelense como importante fonte de
referência. É o caso do teólogo Samuele Bacchiocchi (1938-2008) doutor em
História Cristã, com 15 livros publicados. Formado pela Pontifical Gregorian
University, de Roma, e mestre de Teologia da Andrews University, em Michigan,
Samuele introduziu os conceitos de Moshe Sharon em suas conferências e também
no artigo “Reflexões sobre Terrorismo
e Intolerância”. É dele a seguinte frase: “Lamentavelmente, os repórteres que cobrem o
conflito entre Israel e os palestinos/árabes não oferecem quaisquer lampejos de
quais são as forças ideológicas em ação por trás destas guerras”.






















