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terça-feira, 23 de junho de 2026

Justiça no país é mal avaliada e traz insegurança à cidadania

/ Sheila Sacks /


A contestação da Suprema Corte italiana à condenação de uma ex-deputada pelo STF e a consequente negativa para a sua extradição (22/5) porque não foram respeitados os direitos fundamentais de defesa da acusada, levanta um questionamento moral.  Será a prática do Direito, em determinadas angulagens, um exercício de manipulação da Lei?

 Em outro caso recente, este ocorrido no Rio de Janeiro, uma juíza concedeu perdão judicial a uma mãe que, por omissão, colaborou para o assassinato do filho de 4 anos (2021). A razão da benesse seria o suposto sofrimento infligido à ré na prisão, vítima de constantes ameaças, e seu linchamento virtual nas redes sociais.

 Às situações descritas se juntam milhares de outras desconhecidas do grande público que aumentam à insegurança jurídica dos cidadãos, acrescidas de uma morosidade inimaginável em que processos se estendem por décadas, notadamente os da área trabalhista, cujo término só se dá muitos anos depois do falecimento do autor.

 Desconfiança e vulnerabilidade


 Pesquisa publicada no mês passado (5/5) pelo instituto Real Time Big Date, sediado em Brasília, revela que mais da metade dos brasileiros (55%) não confiam no STF. Por sua vez, a organização internacional World Justice Project (WJP), com sede em Washington e escritórios em Singapura e Cidade do México, em seu relatório anual 2025 sobre o Índice de Estado de Direito Global (Rule of Law Index ), divulgado em outubro do ano passado, situou o Brasil na 78ª posição entre 143 países pesquisados.

 A avaliação da organização, que trabalha para promover o Estado de Direito no mundo, incluiu 8 quesitos, entre eles a situação dos “direitos fundamentais”, “justiça civil e criminal”, “governo aberto”, “ausência de corrupção” e “ limitações de poderes do governo”. O Brasil recebeu nota geral de 0,50 numa escala de 0 a 1 (a média global se situou em 0,55) ficando abaixo de países com histórico de ditaduras como os Emirados Árabes (37ª), Ruanda (39ª), Qatar (41ª), Kuwait (53ª), Indonésia (69ª) e República Dominicana (76ª).

 Nas análises por itens, o relatório aplicou as notas mais baixas à justiça civil (0,27) pela morosidade no andamento dos processos no país; à atuação da justiça criminal (0,33) em relação à salvaguarda dos direitos do acusado; à percepção de corrupção (0,45) e o não respeito aos direitos fundamentais (0,50).

 Com o pior desempenho, a Venezuela encerrou a lista na 143ª posição, precedida pelo Afeganistão, Camboja, Haiti e Nicarágua. Na América do Sul, países como Uruguai (23ª), Chile (35ª) e Argentina (65ª) apresentaram melhores pontuações do que o Brasil.

 Mais esperteza que sapiência

 A sucessiva e interminável criação de normas, regras, quesitos, itens, adendos etc., estruturada em um nascedouro de leis primárias, ordinárias e de outras titulagens, se consolidou através dos tempos em um campo fértil para o desempenho da advocacia que, em qualquer área, da civil à criminal, recolhe meticulosamente nas entrelinhas diferentes mensagens, intenções, artimanhas, subterfúgios e artifícios linguísticos para a defesa de suas teses.

 Consultar na literatura forense decisões anteriores, associando interpretações, pressupostos e premissas em inter-relacionamentos de intenções e ideias direcionadas à captura do alvo, tem se mostrado um procedimento alicerçado mais na “esperteza” do que no saber jurídico.

 Sem direitos de defesa

 Em se tratando do STF, ao questionar o papel do magistrado integrante da Primeira Turma que condenou a brasileira, a Justiça italiana argumenta que não houve imparcialidade no julgamento porque o mesmo atuou como vítima (sentindo-se prejudicado pelo ataque hacker aos dados do sistema do CNJ - – Conselho Nacional de Justiça), testemunha e juiz executor da sentença.

 No documento é citado trecho do tratado assinado em 1980 com o Brasil em que está explicitado que à pessoa acusada será assegurado “o respeito aos direitos mínimos de defesa”, o que na visão da Justiça daquele país não ocorreu. “Emergiram diversos elementos capazes de suscitar dúvidas sobre a imparcialidade, sob o aspecto objetivo, do tribunal que proferiu a condenação da recorrente.”

 A posição da Justiça italiana agrega mais munição às sucessivas críticas da alta cúpula americana às resoluções de determinados membros do Supremo, com destaque para o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio e seu subsecretário Chistopher Landau. Eles veem nas iniciativas do STF grande dose de abuso de poder, cerceamento de liberdade de expressão e violação de direitos humanos.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Uma jornada no tempo

/ Sheila Sacks / 

De 2026 aos anos de chumbo da década de 1960.

Estudava Jornalismo na PUC do Rio de Janeiro e acompanhei a ascensão de Fidel Castro em Cuba, em 1959; o assassinato do presidente John Kennedy, no Texas (1963); a marcha pelos direitos civis  nos EUA  com  Martin Luther King  (1963); a guerra no Vietnã (1955 a 1975); a banda inglesa The Beatles, criada em 1960;  a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961; e o golpe militar de 1964, entre tantos acontecimentos. 

Foi uma época dos grandes festivais de música brasileira transmitidos pelas emissoras de TV, ainda em telas preto e branco; do movimento hippie nascido nos Estados Unidos; e das revoltas estudantis na França.

Uma década que mudou a visão do mundo e que tive o privilégio de viver na juventude quando mente e coração pulsam mais forte em um cosmo de ideias e planos que somente a paixão é capaz de ensejar. 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Série americana que exporta um Brasil mafioso é sucesso mundial

 / Sheila Sacks / 

(atenção: contém spoiler)

Top 1 no ranking global de seriados da Netflix, Homem em Chamas (Man on Fire), lançado em 30 de abril, apresenta um Brasil violento e cheio de truques, com chefões do crime organizado, facções armadas, atentado terrorista e até a presença de autoridades públicas valendo-se de métodos mafiosos em ano eleitoral.

Diante do inequívoco sucesso registrado principalmente pela mídia internacional especializada em entretenimento, por aqui a grande imprensa preferiu não se pronunciar e compreensivelmente honrou seus compromissos com a publicidade oficial erguendo um visível muro de silêncio em torno da série. A exceção foi a plataforma de notícias UOL que repercutiu o fato e entrevistou alguns atores que participaram da filmagem. Outras notas e postagens ficaram por conta das redes sociais.

 Bandidos e política

Ao longo de sete episódios é contada a história do ex- agente das Forças Especiais da CIA, Christian Creasy ( interpretado por Yahya Abdul-Mateen II), que chega a cidade do Rio para atuar na firma de um amigo envolvido em um serviço sigiloso para o presidente da República e seu ministro de Segurança.Pouco dias depois, um ato terrorista mata o amigo e sua família, salvando-se a filha adolescente que fica sob a sua guarda.

A partir daí, a procura dos assassinos faz o ex-agente enfrentar o submundo do crime, as armadilhas, chantagens e ameaças dos barões da contravenção que têm suas residências luxuosas nos bairros abastados da zona Sul da cidade. Ele não escapa nem de uma tentativa malandra de assalto logo no primeiro episódio e também de uma audaciosa investida de sequestro contra a jovem sobrevivente.    

Por sua vez, na cidadela da Rocinha, a maior favela do país, bandos armados a serviço do tráfico transitam pelas ruelas eliminando os desafetos, impondo regras, sitiando moradores e restringindo a entrada de estranhos. Toda a violência regada a cerveja, pó e funk, comemorada nas lajes a céu aberto, sob a visão privilegiada das praias e do mar aberto.

Como de praxe em filmes de ação, a velocidade dos acontecimentos pega o espectador de roldão que acompanha arrebatado a trajetória de vingança do ex-agente, agora em companhia de um coleguinha especialista made USA e de seus novos amigos fora da lei (mas, todos gente boa).

Com a ajuda do grupo ele invade uma prisão de segurança máxima e interroga o chefão de um poderoso grupo do crime organizado. Então, descobre uma trama em andamento encabeçada pelo principal mandatário do país e seu ministro cúmplice. Por trás, agindo na clandestinidade, um mau caráter da CIA.

Mais invasões se sucedem, desta vez em um grande hospital onde o ex-agente enfrenta a perseguição do tal ministro da Segurança que, de arma em punho, faz de tudo para matá-lo. No fim, a verdade vem à tona, o presidente mafioso cai e o Brasil é salvo. A série apresenta  o  retrato de uma republiqueta dos trópicos movida à bala que não coincide com a oratória pátria de nossos políticos.  No mais, uma produção estruturada em ritmo acelerado, bons atores, efeitos especiais de última geração e a conhecida paisagem do Rio, sempre uma coadjuvantes que soma pontos.

Em junho, entre as 10 mais

Com locações adicionais no México, Homem em Chamas já na primeira semana de exibição atingiu mais de 23 milhões de visualizações tornando-se a série mais vista do streaming em 58 países. Sua trajetória de sucesso continua e depois de um mês desde a sua estreia permanece no ranking dos dez seriados mais acessados do planeta.

A produção é a mais nova versão do livro do autor inglês A. J. Quinnell, publicado em 1980, e que teve duas adaptações anteriores levadas aos cinemas. Em 1987, com Scott Gleen protagonizando Christian Creasy e ambientado na Itália, e em 2004, estrelado por Denzel Washington e filmado no México.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cientista britânico afirma que leis da física podem tornar vida extraterrestre similar à da Terra

/ Sheila Sacks /

Para o astrobiólogo britânico Charles Cockell (59), professor  da Escola de Física e Astronomia da Universidade de Edimburgo e codiretor do Centro de Astrobiologia do Reino Unido (UK Centre for Astrobiology), se existir vida extraterrestre ela poderá parecer “estranhamente similar à da terra” porque a física restringe a forma.

 Em seu livro “As Equações da Vida” (The Equations of Life: How Physics Shapes Evolution) Cockell propõe uma biologia universal. Ele afirma que as leis da física canalizam a vida para formas restritas e delimitam o escopo da evolução. Assim, a maior parte dos seres vivos, de acordo com a sua teoria, é talhada por regras que podem ser “chocantemente” estreitas. 

 “As leis da física são as mesmas em todos os lugares”, diz Cockell, que completou doutorado em Biofísica Molecular na Universidade de Oxford. “A gravidade, por exemplo, é onipresente, não exclusiva do nosso Sistema Solar. Portanto, as mesmas restrições estão em todo lugar. Moléculas orgânicas, na Terra ou em outro ambiente, ainda se desintegram em altas temperaturas e se desativam nas baixas.”

 Ele explica que certos ingredientes são indispensáveis para a vida em quase todo lugar. O carbono é o elemento ideal para montar a vida florescente e a água é o melhor solvente para transportá-lo. “Ao estudar a vida na Terra obtemos ideias sobre onde procurar vida no espaço para responder àquela antiga questão: a vida na Terra é o único exemplo de vida, ou existe vida em outros planetas? São essas questões-chave da astrobiologia que vão determinar quais condições tornam um ambiente habitável”, reforça.

 Elementos básicos

 Segundo o cientista, também autor de “Astrobiology: Understanding Life in the Universe”, livro que investiga a habitabilidade de outros planetas, “os critérios básicos incluem a presença de água líquida, pois ela fornece o meio para as reações químicas essenciais à vida. Igualmente importante é a disponibilidade de certos elementos — carbono, nitrogênio, fósforo e oxigênio — juntamente com uma fonte de energia, seja a luz solar para a fotossíntese ou compostos químicos capazes de sustentar os processos biológicos”. Ele ressalta que as condições não devem ser extremas porque temperaturas de centenas de graus são incompatíveis com a vida como a conhecemos.

 “Ainda assim”, enfatiza Cockell, “é importante lembrarque esses requisitos se baseiam na vida como a entendemos hoje, e devemos sempre manter a mente aberta para a possibilidade de descobrirmos vida com requisitos completamente diferentes”.

 “Nosso próprio planeta é um exemplo, continua. “No oceano, criaturas com corpos finos e adaptáveis predominam no sentido de se moverem rápido pela água. Na terra, a maioria dos animais tem membros ou apêndices para se movimentar, e no céu os pássaros são governados pelas leis de aerodinâmica.”

 Cockell avalia que os alienígenas talvez não tenham braços e pernas, mas sim tentáculos para agarrar objetos. E que provavelmente possam ter olhos, ouvidos e uma boca, mas não da maneira que conhecemos. Dessa forma, adaptações alienígenas semelhantes à vida terrestre – de humanoides a beija-flores – podem ter surgido em bilhões de mundos.

 Novas descobertas

 Entre as descobertas mais surpreendentes das duas últimas décadas apontadas por Cockell está o vasto número de lugares no universo que parecem ter água líquida, um dos requisitos básicos para a vida. “Quarenta anos atrás, as pessoas estavam interessadas apenas em procurar vida em Marte. Agora descobrimos oceanos sob as crostas geladas de luas que orbitam Saturno e Júpiter, bem distantes no Sistema Solar.”

 Outra observação de Cockell se refere ao fato de que os astrônomos também estão muito interessados ​​em procurar o gás oxigênio em planetas distantes, “gás que na Terra é produzido em altas concentrações por plantas e organismos unicelulares na fotossíntese". Ele destaca que nesse campo também existem abordagens “incomuns” denominadas “métodos agnósticos”, aqueles que não exigem conhecimento de como a própria vida é construída.

 “Por exemplo, muitas moléculas em nossos corpos, como as proteínas, são compostas de longas cadeias. Isso porque longas cadeias podem conter muita informação. Então, podemos especular que qualquer biologia complexa no universo seria composta de moléculas de cadeia longa”, relata. “Logo, uma maneira de procurar por vida seria buscar moléculas longas que não dependessem de nenhum conhecimento de como essa biologia foi construída. Atualmente, há pessoas trabalhando na construção de tais instrumentos”, informa.

 Ao longo da carreira, o físico britânico fez descobertas importantes relacionadas a micróbios que podem ser usados para extrair recursos do espaço e que toleram altos níveis de dessecação. Também realizou pesquisas sobre a relação entre impactos de asteroides e cometas e a criação de novos habitats para a vida.

 Com consultas ao Universe Space Tech e Forbes


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Os muitos mundos de um universo imponderável

/ Sheila Sacks /

A menos de quinze dias da estreia do novo filme de Steven Spielberg, Disclosure Day  (Dia da Revelação), que no Brasil terá o título de Dia D, uma entrevista com o físico quântico e mestre em engenharia elétrica Harold Puthoff (89anos) ganhou repercussão mundial.

 O cientista que trabalhou com a NSA (Agência de Segurança Nacional) e a CIA (Agência de Inteligência dos EUA) garante que o governo norte-americano tem informações e conhece, ao menos, quatro espécies diferentes de extraterrestres. A declaração se deu no podcast britânico The Diary of a CEO, em 14 de maio, o mais popular do Reino Unido, com mais de 12 milhões de assinantes.

 Puthoff é também um dos participantes do documentário americano The Age of Disclosure ( A Era da Revelação), produzido por Dan Farah e lançado nos cinemas e na plataforma Amazon Prime em novembro do ano passado. Segundo o site Deadline Hollywood, em menos de 48 horas o documentário quebrou todos os recordes tornando-se o mais visto no streaming, superando títulos como Jurassic World Rebirth e Mission: Impossible – The Final Reckoning .

 A película traz entrevistas de 34 funcionários e ex-funcionários do alto escalão do governo dos EUA, de diversos setores, civil, militar e da inteligência, com depoimentos que reforçam a tese de que a vida alienígena está presente na terra e tem sido alvo de acobertamento institucional por 80 anos. O filme também expõe uma guerra secreta entre as grandes nações para realizar engenharia reversa de tecnologia de origem não humana. De acordo com Farah, o documentário foi realizado ao longo dos últimos três anos, sob forte sigilo.

 Já a ficção Dia D (que em Portugal, também um país de maioria católica, o título do filme manteve a palavra ‘revelação’ , fiel à essência da história) tem estreia brasileira prevista para 11 de junho. O roteiro é assinado por David Koepp  (Jurassic Park, Homens de Preto, Homem Aranha etc) a partir de uma história do próprio Spielberg inspirado em um cenário em que os alienígenas já fizeram contato com os humanos, e agora, décadas após, a relação mantida em segredo finalmente será revelada.

 Lembrando ainda que no Festival de Cannes, em 2024, foi exibido pela primeira vez  o documentário  God Versus Aliens (Deus contra os Alienígenas) do cineasta Mark Christopher Lee, premiado roteirista de uma dezena de filmes sobre o tema, que procura desvendar as investigações secretas do Vaticano acerca de OVNIs. Segundo Lee, o Vaticano tem um histórico de reflexão sobre questões cósmicas e que astrônomos e teólogos ligados à Santa Sé já declararam, ao longo dos anos, que a existência de vida extraterrestre não entra em contradição com a fé cristã.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Na guerra das civilizações, um Ocidente acuado e complacente

/ Sheila Sacks /

Em artigo publicado no jornal The Washington Times (5/5/2026), o jornalista Clifford May, presidente da Fundação para a Defesa das Democracias (The Foundation for Defense of Democracies -FDD), alerta sobre a dificuldade de negociar uma paz duradoura com o Irã devido a sua doutrina religiosa e um histórico de conflitos que “minam as perspectivas” de um acordo real.

Sob o título “Iran rulers’ ideology make lasting peace deal unlikel” (‘A ideologia dos governantes do Irã torna improvável um acordo de paz duradouro’, em tradução livre), o texto enuncia uma série de atos terroristas a partir da instalação do regime autoritário dos aiatolás, em 1979. Seu autor é um veterano profissional, de 75 anos, que trabalhou como repórter, correspondente estrangeiro e colunista político em várias mídias, e foi editor da revista Newsweek e do jornal The New York Times.  

Com sede na capital americana, a FDD é uma organização independente fundada após os ataques de 11 de setembro de 2001 que reúne especialistas e acadêmicos em segurança nacional e política externa. A instituição produz pesquisas e relatórios nas áreas de governo, inteligência, forças armadas, economia e tecnologia.   

 Reféns por 441 dias

No artigo em questão, entre centenas de atos terroristas o jornalista destaca a tomada da embaixada dos EUA em Teerã, e o sequestro de diplomatas americanos mantidos como reféns por 444 dias (de novembro de 1979 a janeiro de 1981), ocorrida menos de um ano da instalação da república islâmica, após a deposição do Xá Reza Pahlavi e a eliminação da monarquia iraniana.

Também lembra que, quatro anos depois, atentados em Beirute organizados pelo Irã mataram 241 militares americanos que atuavam nas forças de paz; e em 1996, outro ataque apoiado pelo Irã, desta vez na Arábia Saudita, contra as Torres Khobar (um complexo de moradia para militares) resultou na morte de 19 soldados das tropas americanas.

 Prosseguindo, May escreve que durante a Guerra do Iraque, de 2003 a 2011, “o regime islâmico fabricou foguetes, projéteis perfurantes e artefatos explosivos improvisados ​​para uso pelas milícias xiitas que atuavam no Iraque. Pelo menos 603 militares americanos foram mortos pelo uso dessas munições, segundo o Pentágono”.  E acentua que após o atentado terrorista do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, a Resistência Islâmica do Iraque (The Islamic Resistance in Iraq - IRI), uma coalizão de milícias xiítas financiada pelo Irã, atacou as forças americanas no Oriente Médio mais de 180 vezes.

 “Ao longo dos anos, houve apenas uma resposta significativa à política declarada de Morte à América dos autoproclamados revolucionários islâmicos do Irã e de seus grupos terroristas aliados: em 2020, o presidente Trump ordenou um ataque com drone que eliminou Qassem Soleimani, o mentor terrorista do regime (comandante da Força Quds do Irã, responsável por atos terroristas no exterior)”, afirma.

 Arma nuclear em seis meses

 De acordo com o físico e especialista em questões nucleares, David Albright (75 anos), os iranianos tinham condições de construir uma arma nuclear em menos de seis meses, antes da campanha aérea americana, em junho de 2025, contra as instalações das usinas de Fordow, Natanz e Esfahan. Presidindo o Instituto para a Ciência e Segurança Internacional (Institute for Science and International Security), fundado em 1993, Albright é autor de nove livros e publica regularmente artigos na mídia mundial sobre programas secretos de armas nucleares desenvolvidos por países como o Irã e a Coreia do Norte.

Estima-se que os recentes ataques americanos e israelenses a instalações militares e nucleares iranianas podem ter atrasado em dois ou três anos, caso não recebam ajuda externa, as ambições de poder do governo dos aiatolás. Mas, segundo Clifford May, o atraso não justificaria uma possível “complacência” porque existe a informação de que milhares de mísseis e drones já foram construídos e escondidos em fortalezas subterrâneas. Inclusive mais armas nucleares estão sendo abrigadas no profundo complexo de túneis instalado sob a Montanha Pickaxe, na região central do país, “que nem mesmo os projéteis da artilharia maciça dos americanos lançados de bombardeiros B-2 conseguiram destruí-lo”.

 Guerra santa

Outro fator atuante no conflito envolveria o aspecto religioso. “Os governantes do Irã se veem como jihadistas lutando uma guerra santa contra os inimigos de Alá. Eles podem cogitar cessar-fogos temporários, períodos de calma que lhes permitam rearmar-se para a próxima batalha, mas um acordo de paz sério está fora de questão”, assegura May.

Ele explica que a maioria dos 93 milhões de iranianos professa o islamismo xiita duodecimano que acredita que o 12º Imã, Muhammad al-Mahdi, foi "ocultado" por Alá há mais de mil anos, e que retornará como o Mahdi, essencialmente o messias. “Para os seguidores do Aiatolá Khomeini os muçulmanos devem apressar esse retorno por meio de conflitos, caos, derramamento de sangue e martírio”, finaliza.

 Linguagens distintas

Professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém na área de Estudos Islâmicos, Moshe Sharon (88 anos) diz que as nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem países árabes. Especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), história e religião islâmica e estudioso do xiísmo (predominante no Irã e no Iraque), foi consultor para assuntos árabes do governo do Primeiro-Ministro Menachem Begin (1977-1983) e tem vários livros publicados sobre o tema.

Por mais de quatro décadas, Sharon é incisivo ao questionar a posição de líderes ocidentais que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (que significa submissão)”.

 Acordos temporários

Em agosto de 2005, alguns meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza após a Cúpula de Sharm el-Sheikh que selou um breve acordo de paz entre palestinos e israelenses,  um dos líderes mais proeminentes  do Hamas, Mahmoud al-Zahar (79 anos), então ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera declarou que o grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém, a Judéia e a Samaria. “Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos. Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).

 Pouco tempo depois, em entrevista à rede cristã norte-americana CBN News (The Christian Broadcasting Network), Al-Zahar declarou textualmente: “Nós estamos em meio a uma terceira Guerra Mundial. Eu digo isso o tempo todo. E mais: por que o Hamas deveria abrir mão de suas armas? Para satisfazer Israel? Para satisfazer algum ser humano na terra? A resposta é não”.

 Na concepção de Sharon, o que Al-Zahar quis dizer, quando falou em terceira Guerra Mundial, “se traduz da seguinte forma: nós, muçulmanos, queremos restabelecer o Califado, da Índia e China à Espanha. Isso porque os árabes ainda consideram a Espanha como território islâmico (a Península Ibérica ficou sob o domínio dos árabes por 700 anos - do séc. VIII ao XV).”

 “Cristãos-sionistas”

Em outra oportunidade, Al-Zahar – autor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 -  chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”

Para Sharon está patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida judaico-cristã do Ocidente. “Quando Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”

 O professor adverte que o Ocidente está em perigo e deve enfrentar a situação de maneira séria. “Para muitos pode parecer uma piada esta história de dominar o mundo, mas para os muçulmanos são palavras de Deus. 

 “Palavras não pagam impostos”

Ainda sobre acordos temporários, um ditado árabe define bem a situação: palavras não pagam impostos, lembra Sharon. Ele reforça que nessas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou a tática em Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e marchou com dez mil soldados sobre a cidade.

Tal fato histórico foi mencionado por Yasser Arafat, quando semanas depois do Acordo de Oslo (1994) ele se justificou em uma mesquita na África do Sul. O professor Sharon gravou o discurso em que Arafat pedia desculpas pela sua assinatura no documento, dizendo: “Vocês acham que eu poderia assinar algo com os judeus contrário ao que dizem as regras do Islã? Não foi assim. Eu fiz exatamente o que o profeta Maomé fez.” Ou seja, Arafat estava simplesmente falando: lembrem-se da história de Hudaybiya.

Logo, diante dos antecedentes conhecidos em relação às características das negociações que se repetem através dos séculos, as mesmas devem ser entendidas sob o prisma de que “tratados não são permanentes”. Sharon conta que sempre aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez o inimigo falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma concordância que, mais adiante, não se concretizou.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

A guerra das civilizações e suas linguagens distintas

 / Sheila Sacks /


Especialista diz que nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem países árabes.

Em novembro de 2005, alguns meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza, após a Cúpula de Sharm el-Sheikh que selou um breve acordo de paz  entre palestinos e israelenses, um dos líderes mais proeminentes do Hamas, Mahmoud al-Zahar, então ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera declarou que o grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém, a Judéia e a Samaria (Cisjordânia). Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos. Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).

Um ano depois, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, al-Zahar se recusou a reconhecer a solução de dois estados aprovada pela Resolução 181, da ONU, em 29 de novembro de 1947. “Nós jamais reconheceremos Israel. Os sionistas ocuparam nossa terra como os nazistas ocuparam a França durante a Segunda Guerra Mundial. Israel é um elemento estrangeiro no Oriente Médio. Por que os judeus não estabeleceram seu estado na Europa?” ('We Will Never Recognize Israel', em 23.10.2006).

Em nova apresentação, desta vez na rede cristã norte-americana CBN News (The Christian Broadcasting Network), Al-Zahar declarou textualmente: “Nós estamos em meio a uma terceira Guerra Mundial. Eu digo isso o tempo todo. E mais: Por que o Hamas deveria abrir mão de suas armas? Para satisfazer Israel? Para satisfazer algum ser humano na terra? A resposta é não”.

O especialista em história e religião islâmica da Universidade Hebraica de Jerusalém, professor emérito Moshe Sharon (88 anos), faz algumas observações sobre as mensagens implícitas presentes nas palavras de Al-Zahar, hoje com 79 anos.

Profundo conhecedor da língua e do pensamento árabes, Sharon, nascido em Israel, vem alertando, há décadas, sobre a necessidade das nações prestarem mais atenção à linguagem usada pelo Hamas (que significa fervor) e por grupos como o Hezbollah e Al-Qaeda. “O que Al-Zahar quis dizer quando falou em terceira Guerra Mundial”, explica Sharon, “se traduz da seguinte forma: nós, muçulmanos, queremos restabelecer o Califado, da Índia e China à Espanha. Isso porque os árabes ainda consideram a Espanha como território islâmico (a Península Ibérica ficou sob o domínio dos árabes por 700 anos, do séc. VIII ao XV).”

“Cristãos-sionistas”


Em outra oportunidade, Al-Zaharautor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 -  chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”

Para Sharon está patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida judaico-cristã do Ocidente. “Quando Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”

O professor adverte que o Ocidente está em perigo e deve enfrentar a situação de maneira séria. “Para muitos pode parecer uma piada esta história de dominar o mundo, mas para os muçulmanos são palavras de Deus. Desde os primórdios, a intenção do Islã sempre foi subjugar os povos e colocá-los sob as suas leis e regras. E hoje, esse plano está a caminho e nós precisamos ter consciência do fato”. E enumera alguns pontos que orientam a sua tese:

1- Está escrito literalmente no Corão (Repetição) que “Alá enviou Maomé com a religião verdadeira para governar sobre todas as religiões”.

2- Maomé afirmou que os judeus e os cristãos falsificaram os livros da Bíblia e que todos os profetas são muçulmanos, inclusive Abraão, Isaac, Jacob, David e Moisés.

3- O Sistema Islâmico diz que é preciso lutar contra aqueles que não querem viver sob o domínio do Islã. A guerra contra os infiéis, sejam judeus ou cristãos, chama-se Jihad (esforço, empenho).

4- O Corão divide o planeta em duas Casas: uma se chama Dar al-Islam (Casa do Islã), onde o Islamismo governa, e a outra Dar al-Harb ( Casa da Guerra), como é conhecido o restante do mundo. Esta Casa da Guerra será conquistada no final dos tempos e subjugada pelo Islã.

5 - Para a civilização islâmica, se uma terra, no passado, foi dominada pelo Islã, ela sempre será propriedade do Islã. Daí os árabes só se referirem a Israel como território.

6- O propósito do Islã é de se constituir em uma força militar divina para impor a cultura islâmica. Cada muçulmano que entrega a sua vida na luta pela disseminação do Islã se constitui em um mártir (shaheed), não importando a maneira como essa morte possa vir a ocorrer. Ou seja, este é um conflito bélico eterno, uma guerra sem fim, entre duas civilizações: a da Bíblia versus a do Corão.

Idioma do Islã

Professor do Departamento de Estudos Islâmicos da Universidade Hebraica de Jerusalém, desde 1971, Sharon já publicou vários livros sobre a história, religião e a cultura orientais, inclusive sobre a fé Bahá'í. É especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), profundo conhecedor da Shi’a (seita xiita predominante no Irã e no Iraque) e foi consultor para Assuntos Árabes do Governo de Israel, no período do primeiro-ministro Menachem Begin (1977-1983). Ele é incisivo ao questionar a posição de políticos ocidentais que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (significa submissão), aquele dos oradores das mesquitas que proferem horríveis sermões contra os judeus e os cristãos. Daí que o uso de nossa terminologia e vocabulário para abordar temas como democracia ou fundamentalismo equivale a falar sobre futebol usando termos de beisebol. Para falar com o Islã, você precisa usar o idioma do Islã”, acentua o historiador.

Sharon lembra também que nestas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou desta tática em Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e marchou com dez mil soldados sobre a cidade. Tal fato histórico, aliás, foi mencionado por Yasser Arafat, quando semanas depois do Acordo de Oslo (1994) ele se justificou em uma mesquita na África do Sul. O professor Sharon gravou o discurso em que Arafat pedia desculpas pela sua assinatura no documento, dizendo: “Vocês acham que eu poderia assinar algo com os judeus contrário ao que dizem as regras do Islã? Não foi assim. Eu fiz exatamente o que o profeta Maomé fez”. Para Sharon, Arafat estava simplesmente falando: “Lembrem-se da história de Hudaybiya”.

“Palavras não pagam impostos”


O provérbio árabe - palavras não pagam impostos - define bem as características das negociações utilizadas pelos muçulmanos e que devem ser entendidas da seguinte forma: “tratados não são permanentes”. Sharon conta que aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez o inimigo falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma concordância que, mais adiante, não se concretizou.

Em 2007, conversei pelo telefone com Sharon e ele contou que jamais foi convidado para realizar palestras no Brasil ou em outro país da América Latina. De 1999 a 2020 presidiu o Centro de Estudos Bahá’í, na Universidade de Jerusalém, única cátedra no mundo dedicada a essa crença oriental e pacifista originária da Pérsia (atual Irã) que congrega 300 mil fiéis naquele país.

Com oito milhões de seguidores, segundo estimativa do Centro Mundial Bahá'í, localizado no Monte Carmel, em Haifa, a fé está presente em mais de 200 países, inclusive no Brasil, com mais de 60 mil adeptos (no Irã são perseguidos e presos pelo regime dos aiatolás sob acusação de serem pró-Israel). 

Em 2017, a Câmara de Deputados promoveu em Brasília uma sessão solene em homenagem ao bicentenário de nascimento do fundador da fé Bahá’í, o profeta iraniano Baha’u’lláh nascido em 1817.  Na ocasião foi ressaltada a importância da crença e das ações dessa comunidade espiritualista tanto no Brasil como no mundo, visto ser considerado “o segundo grupo mais espalhado pelo mundo depois do Cristianismo”. 

Batalha de civilizações

Repetindo o que vem dizendo em seminários acadêmicos na Europa, Sharon destaca que Israel está na linha de frente na batalha de civilizações, mas também precisa da ajuda das nações do Ocidente, porque no momento em que o radicalismo muçulmano se apropriar do controle de armas de destruição em massa – químicas, biológicas e atômicas – estas serão implacavelmente usadas.

Apesar de os avisos de Moshe Sharon projetarem um futuro inquietante para o nosso planeta, a grande mídia teima em se ater a fatos correntes sem se aprofundar no cerne da questão. Talvez pela sua condição de judeu-israelense, muitos jornalistas e intelectuais, instintivamente, façam um pré-julgamento de seus estudos. Entretanto, alguns pesquisadores de religiões monoteístas e observadores da cultura islâmica já citam o especialista israelense como importante fonte de referência. É o caso do teólogo Samuele Bacchiocchi (1938-2008) doutor em História Cristã, com 15 livros publicados. Formado pela Pontifical Gregorian University, de Roma, e mestre de Teologia da Andrews University, em Michigan, Samuele introduziu os conceitos de Moshe Sharon em suas conferências e também no artigo "
Reflections On Terrorism and Religious Intolerance", disponível na Internet. 

Bacchiocchi lembra que o Norte da África, predominante cristão nos primeiros séculos da era comum, a partir da conquista muçulmana no século VII teve o cristianismo  sistematicamente  suprimido no continente. “Hoje, a presença de cristãos é praticamente inexistente em países muçulmanos como a Líbia, Tunísia, Argélia e Marrocos, cujas antigas e florescentes comunidades cristãs tiveram líderes religiosos influentes para a Igreja como Tertuliano (séc. II), Cipriano (séc. III) e Agostinho (sécs. IV e V).”

No texto, o teólogo também critica o papel da mídia ao ignorar “amplamente” as raízes ideológicas e os objetivos dos terroristas muçulmanos.  Segundo Bacchiocchi,  os terroristas não interpretam o Alcorão de forma errada, como muitos supõem. “Pelo contrário, eles leem corretamente o que o Alcorão ensina sobre o extermínio de indivíduos e nações anti-islâmicas”. 

Em suma, os líderes das nações ocidentais, já há algum tempo, têm diante de si a hercúlea missão de salvaguardar os valores essenciais das democracias ainda que bombardeados continuadamente por grande parcela da mídia crítia, atada a clandestinos interesses econômico-comerciais e político-partidários e que desconsidera os reais objetivos dos países financiadores de terroristas.

Países ditatoriais, que mantêm a imprensa amordaçada, as populações acuadas, onde os protestos são punidos com pena de morte e as crianças doutrinadas, desde cedo nas escolas, na cartilha do ódio e do preconceito.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Amazônia: extração ilegal de ouro impulsionou desmatamento em 2025, revela relatório internacional

Sheila Sacks /

O Brasil amazônico apresentou a maior taxa de perda florestal do planeta na última década atingindo 2,8 milhões de hectares (28 mil km²), somente no ano de 2024. A informação foi divulgada no balanço anual GameChangers 2025, da organização Insight Crime, de jornalismo investigativo, em dezembro do ano passado, tendo como fonte a plataforma Global Forest Watch , de monitoramento das florestas mundiais. No total, o desmatamento nas regiões da bacia amazônica em 2024 chegou a mais de 4,7 milhões de hectares (47 mil km²) área maior que países como a Suíça e a Dinamarca.

Com foco na América Latina e Caribe, o relatório assinado por Maria Fernanda Ramírez e Beatriz Vicent Fernández, especialistas em  estudos e análises sobre economias ilegais nas fronteiras, aponta a extração ilegal de ouro entre os crimes ambientais que mais cresceram nos países amazônicos em 2025.

As pesquisadoras assinalam que a mineração não autorizada disparou no Brasil, Peru e Venezuela, e também ao longo do rio Puruê, na fronteira entre a Colômbia e o Brasil, incentivada pelos altos preços do metal no mercado internacional. Entre 2015 e o final de 2025 “o preço da onça de ouro (31,1 gramas) subiu de US$ 1.060 para US$ 4.030, representando um aumento de 280%” (‘El imparable auge de los delitos ambientales en la Amazonía’, em 30/12/2025).

Garimpo ilegal e grupos criminosos

Atualmente existem mais de quatro mil locais de mineração ilegal por toda a Amazônia afetando principalmente áreas protegidas e territórios indígenas que também sofrem com a grilagem de terras, cultivo de cocaína, extração de madeira e desmatamento para a agricultura. Os dados são da ONG Amazon Conservation que trabalha com ambientalistas do Brasil, Bolívia e Peru.

Entre 2018 e 2024, o garimpo ilegal causou a perda de mais de 2 milhões de hectares de floresta ao longo da bacia amazônica,  área equivalente ao estado do Sergipe, lembrando que o uso do mercúrio para separar o ouro dos sedimentos é fator de contaminação do solo e da água das comunidades. Altamente tóxico, o mercúrio é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das dez principais substâncias químicas que representam grande preocupação para a saúde pública.

De acordo com Ramírez e Fernández, grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) têm se estabelecido nas regiões de fronteiras abrangendo Brasil, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador e Venezuela para lucrarem com crimes ambientais.  “É comum que as redes criminosas usem carregamentos de madeira para transportar cocaína, compartilhem rotas de tráfico e usem o lucro do narcotráfico para abrir garimpos ilegais, construir estradas clandestinas e negociar terras”, afirmam. “Além disso, o CV cruzou a fronteira e se estabeleceu no Peru, promovendo o cultivo de folha de coca e a produção de pasta de coca nos departamentos de Loreto e Ucayali, onde a área cultivada aumentou drasticamente nos últimos cinco anos.”

A Bolívia, o Peru e a Colômbia também figuram entre os dez países com o maior desmatamento no mundo, segundo o gráfico apresentado pelo Insight Crime, onde o Brasil encabeça a lista.  Em novembro passado, dias antes da COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Belém, o ministério do Meio Ambiente convocou a imprensa e anunciou uma redução na taxa de desmatamento na Amazônia brasileira em relação ao mesmo período de 2024. (‘Em 2025, desmatamento tem redução de 11,08% na Amazônia e 11,49% no Cerrado, em 30/10/2025).

Porém, as autoras do relatório criticam a declaração final da Conferência que “não inseriu um roteiro preciso para reduzir o desmatamento e combater os fatores causadores — incluindo o crime organizado”.  Segundo a Global Witness, uma organização investigativa internacional, 1.018 defensores da terra e do meio ambiente foram assassinados em países da Amazônia, entre 2012 e 2024, com o Brasil e a Colômbia respondendo por 90% dos casos.  

Operações policiais

Apesar de o governo brasileiro ter intensificado ações policiais contra os garimpos ilegais, principalmente em territórios indígenas, e contar com o suporte jurídico da resolução 129 emitida pelo Ministério de Minas e Energia (23/2/2023) de combate à lavagem de dinheiro, a mineração ilegal é o crime mais disseminado e prejudicial nas regiões das fronteiras da Amazônia. 

Reportagem do Greenpeace Internacional (8/4/2025), com base em análises de dados de satélites de 2023 e 2024, observa que o endurecimento das operações policiais no Brasil resultou em uma diminuição da mineração ilegal nas terras Yanomami (7%), Munduruku (57%) e Kayapó (31%). Em contrapartida, na reserva indígena de Sararé, na região de Mato Grosso fronteiriça à Bolívia, a mineração ilegal cresceu 93%, revelando um deslocamento da extração ilícita do metal. Nos quatro territórios, o total de floresta destruída no período atingiu 4.219 hectares, “uma área superior ao Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e equivalente a quase 6 mil campos de futebol”.

Os ambientalistas do Greenpeace reforçam que o comércio mundial de ouro ilegal oriundo do Brasil é um fator de ameaça global aos povos indígenas, à floresta amazônica, ao clima e à biodiversidade. No relatório “Ouro Tóxico” (abril/2025), a organização assinala discrepâncias em relação aos dados relacionados ao comércio internacional do metal. Em 2022, a Suíça importou 67% a mais de ouro do que o Brasil declarou ter exportado. Em 2023, a diferença foi de 62%, totalizando quase 19 toneladas de ouro de origem duvidosa nesses dois anos.

O documento de 35 páginas destaca que a floresta amazônica se estende por nove países (Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), abriga mais de 45.000 espécies de flora e fauna, 40 milhões de pessoas, cerca de três milhões de indígenas de 410 povos, bem como quilombolas e outros grupos tradicionais. Assinala que a Amazônia é um ecossistema único e essencial para a estabilização do clima global, funcionando como um vasto sumidouro de carbono, absorvendo gases de efeito estufa e regulando os padrões climáticos globais.

Segundo a consultoria Mining Technology, com sede em Nova York, o Brasil produz cerca de 70 toneladas do metal por ano sendo o décimo maior produtor mundial. Contudo, estima-se que um terço desse total é de procedência ilícita. Em fevereiro, com o objetivo de suprir omissões legislativas em relação à exploração de minérios, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu prazo de dois anos para que o Congresso aprove uma lei que regularize a participação dos indígenas na mineração legal no país.

A liminar atendeu originalmente a uma ação protocolada pela comunidade indígena dos Cinta-Larga que foi autorizada pelo ministro, em caráter provisório e cumprindo determinadas normas, a realizar atividades de mineração em suas terras, no sudoeste da Amazônia (entre Rondônia e Mato Grosso), área que apresenta um longo histórico de conflitos e massacres decorrentes de invasões de garimpeiros.

Nota: Com a eclosão da guerra USA/Israel x Irã, a cotação do ouro subiu para US$ 5.266 a onça, informa The Guardian, em sua edição digital (3/3/2026).