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sexta-feira, 31 de julho de 2026

A relevância e o lado obscuro da notícia

/ Sheila Sacks /

Qual seria o limite ético a ser incorporado no jornalismo quando este impõe uma suposta relevância a um fato como notícia que a princípio não estaria no foco de milhares de leitores?

O grau de relevância é uma das armas potentes da imprensa capaz de dar um empoderamento a fatos, muitos deles específicos, que se alçam a notícias de teor de grande interesse informativo, recebendo cobertura especial e espaços generosos do jornal.

A estratégia tem por meta criar no público alvo uma percepção negativa (ou positiva) de uma situação, pondo de lado critérios jornalísticos e se valendo de outros parâmetros de interesse do jornal.  

É o caso da reportagem publicada pelo O Globo sobre o trabalho home office dos servidores federais, com chamada de primeira página (‘Número de servidores federais em home office cresce e já supera 100 mil’, em 14/7/2026). E logo abaixo, o gancho da leitura: ”Dados do Ministério da Gestão mostram que 24% dos 445 mil servidores elegíveis atuam no home office integral ou no híbrido.Fatia cresceu desde 2024.”

O que se observa é que um fato meramente administrativo, incluso na implementação de uma estratégia de gestão pública, é elevado a um nível de manchete sem o estofo cabível. A notícia não engloba qualquer tipo de denúncia ou irregularidade como, por exemplo, funcionários fantasmas, e nem avaliação negativa em relação à eficiência e a política de resultados do teletrabalho. Discute-se a cultura organizacional e engajamento.

Funcionalismo em foco

Outras reportagens sobre o trabalho remoto com insinuações negativas a partir dos títulos já haviam sido publicadas pelo jornal em anos anteriores: “Home office federal: governo tem 16% dos servidores em trabalho remoto, que terá novas regras”, em 18/10/2024, e “Reforma Administrativa: como vai ficar o home office dos servidores? Entenda”, em 10/9/2025.

Dessa vez, no dia seguinte à reportagem, a editoria abriu seu espaço nobre para se posicionar abertamente contra o home office no setor público, despojando-se de uma suposta neutralidade informativa gerida  até então de forma nebulosa. Ao expor a face real de sua proposição, sem os véus dissimulatórios de uma causa moralizadora, perfilou-se de forma contundente a favor do trabalho presencial.

No editorial (‘Aumento de home office no setor público é retrocesso’, em 15/7/2026) a argumentação contra o teletrabalho tem como modelo o setor privado onde é afirmado que “ a tendência é oposta”. As “boas razões” recomendadas pelo jornal para a volta dos servidores federais às repartições teriam como escopo facilitar o trabalho das chefias, visto que “no regime remoto, chefes de departamento percebem dificuldades de comunicação e gestão de equipes”, além de “reuniões menos produtivas” e “falta de motivação”, entre outras possíveis dificuldades listadas pelo jornal. 

Produtividade e avaliação

No entanto, no texto do dia anterior, é explicado que os servidores federais que trabalham em home office têm gestão por metas e resultados, com a produtividade e eficiência avaliadas mensalmente. Informando, ainda, que do total de 107,8 mil servidores em teletrabalho,“a maioria, 73,6 mil (68,4%), está no modelo híbrido.” 

A matéria inclui a nota do Ministério de Gestão e Inovação (MGI) que destaca a auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) em cinco órgãos federais, com o registro positivo do tribunal ao teletrabalho, atestando “o aprimoramento nos mecanismos de controle e acompanhamento de metas, fortalecendo a gestão por desempenho”.

Redução de gastos

Levantamento do mesmo TCU (2025) realizado em 23 órgãos federais sobre eventuais reduções de despesas na modalidade de home office reporta informações de várias unidades da Federação como a da Advocacia Geral da União (AGU). Esta obteve uma economia com locações de imóveis, no período de 2019 a 2023, da ordem de R$ 30 milhões. Em contrapartida, os custos operacionais cresceram R$ 9,2 milhões desde 2021, com o retorno gradual dos servidores.

Dados do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) enviados ao TCU também registram uma economia de R$ 22 milhões nas unidades do Ministério Público (segundo semestre de 2020), com uma delas informando que houve redução de 44% no consumo de água, 31% no de energia e 74% no de papel.

Em relação à Defensoria Pública União (DPU), números do Sistema Integrado de Gerenciamento de Pessoal indicam que o gasto com auxílio transporte baixou 41% em 2020 (retornando a 50% em 2023), e que o adicional de insalubridade que havia caído para 53% subiu para 90% em outubro de 2023.

O documento do TCU (Acórdão 526/2025) publicado no site do tribunal, em 17/3/2025, apresenta ainda, na seção de “aspectos financeiros”, as despesas listadas pelos órgãos da Administração Federal que mais pesam nos custos operacionais: serviços públicos (água, energia elétrica, telefonia); infraestrutura (conservação de imóveis próprios, locação de imóveis); viagens e deslocamentos (diárias, passagens, manutenção e combustível de veículos próprios, locação de veículos); materiais de consumo e de escritório (café, copos descartáveis, impressão, papel, produtos de limpeza); e benefícios e vantagens (auxílio transporte, adicional de insalubridade).

Dados do Portal da Transparência mostram que a administração federal conta atualmente com 987,5 mil servidores ativos, além de 1,05 milhão de aposentados e pensionistas vinculados aos órgãos da União (‘Número de servidores públicos federais poderá ultrapassar 1 milhão após aprovação de projeto no Senado, no Correio da Manhã, em 11/3/2026).

Pandemia e home office

Advogando pela Reforma Administrativa (PEC 38/2025, em processo de discussão no Congresso) que deverá restringir o percentual de servidores em home office, a editoria do jornal põe de lado as reiteradas críticas à gestão de Donald Trump para elegê-lo, nesse particular, como exemplo de governança. ”Ao voltar à Casa Branca, o republicano Donald Trump decretou o fim do trabalho remoto.”

Relator do grupo de trabalho que elaborou a proposta da referida PEC, o deputado federal Pedro Paulo é do Rio de Janeiro e amigo pessoal do prefeito Eduardo Paes. Ocupou a Casa Civil e foi secretario de Fazenda e Planejamento na prefeitura do Rio, entidade municipal fortemente empenhada em revitalizar a região central da cidade, desestruturada pela pandemia de Covid 19 e até hoje sofrendo um esvaziamento monumental.

A municipalidade vem tentando reverter a situação com programas de incentivos e investimentos em parceria com o setor imobiliário, inclusive dando o aval para adaptação de prédios comerciais em residenciais. No entanto, ainda é flagrante o abandono e degradação de uma série de imóveis na área, persistindo as dificuldades para a retomada dos negócios e comércio na área.

Passados mais de cinco anos, a região continua com centenas de edifícios comerciais esvaziados, milhares de salas de escritórios fechadas, número incontável de lojas e restaurantes com negócios encerrados. Igualmente repartições públicas federais com parte de seus servidores trabalhando em regime de home office, valendo lembrar, com razoável redução de gastos para o erário público.

Repercutindo “a sensação de decadência do bairro”, reportagem de O Globo constata e lamenta a imagem de abandono do centro, que ocorre “do ponto de vista urbanístico, cultural, social e econômico (‘Nos últimos 4 anos, mais da metade das agências bancárias e postos de atendimento no Centro do Rio fecharam as portas, deixando imóveis vazios’, em 13/5/2025).

Nesse contexto de ansiedade pela volta do rush diário de pessoas no centro, O Globo saudou a “reocupação gradual” do edifício sede da Petrobrás, após a reforma do imóvel (‘Petrobras inicia reocupação de sede histórica no Centro do Rio após primeira grande revitalização em 50 anos’, em 12/6/2026), e reforçou esse posicionamento em reportagem recente (24/7/2026) alertando que o centro do Rio ainda “vive um dilema”: de um lado prédios são reformados e do outro, o abandono patrimonial, “com imóveis de grande porte, muitos deles históricos, sem uso, degradados ou à espera de uma solução definitiva” (‘ Palacete invadido, antigo IML, hospital fechado e sede histórica dos Correios retratam desafios da revitalização do Centro do Rio’).

Capital federal até 1960 quando foi substituída por Brasília, a cidade do Rio abriga centenas de repartições federais e de acordo com o Anuário Estatístico do IBGE (2024) são 85.792 funcionários federais civis ativos no Rio de Janeiro, o segundo maior contingente depois de Brasília com 93.938 mil.

No início do ano (14/1/2026) a sede da prefeitura foi palco do lançamento do livro “Rio, Capital do Brasil: Ensaios sobre a Capitalidade”, uma coletânea de textos de acadêmicos que analisam o papel do Rio de Janeiro como capital do país, desde o período colonial.  Na ocasião, o prefeito Eduardo Paes ressaltou o que, segundo ele, “todo carioca sente na pele: o Rio nunca foi uma cidade comum.”  

- Foram quase 200 anos de capital do Brasil, e isso não é apenas um dado histórico. Isso moldou a cidade, a política, a cultura e a própria ideia de Brasil, reforçou.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Porto de Santos: Narcotráfico muda rota para driblar fiscalização

 / Sheila Sacks /

Com mais de 27 toneladas de cocaína apreendidas em 2019, o maior complexo portuário da América Latina, situado no litoral paulista, viu a quantidade da droga confiscada se reduzir radicalmente  nos anos seguintes, baixando para 7,4 toneladas em 2025. No entanto, carregamentos de cocaína continuavam a ser apreendidos nos portos europeus apesar da vigilância e rastreamento dos contêineres nos terminais de carga de Santos.

Reportagem da Insight Crime – uma instituição de jornalismo investigativo, sediada em Washington, com foco nas organizações criminosas da América Latina – revelou que agentes federais, reforçando o monitoramento e analisando novas informações, descobriram que integrantes da organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) tinham se infiltrado nas comunidades que se encontram às margens do cais e através delas carregavam toneladas de cocaína para os enormes navios cargueiros na entrada do canal.

Constataram também uma mudança na rota tradicional e a utilização do continente africano como destino final temporário de onde posteriormente despachavam os carregamentos rumo à Europa para as quadrilhas internacionais realizarem a distribuição da droga ('Is Brazil’s Biggest Port Winning the Fight Against Drug Traffickers?', em 2/3/2026).

A diversificação das rotas pôde ser constatada essa semana (6/7/2026) com a apreensão pela Polícia Federal de 437 quilos de cocaína no Porto de Santos. A droga estava escondida em uma carga de sucata de ferro com destino aos Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio e foi interceptada pela Receita Federal durante inspeção aduaneira.   

 Peça-chave

Quatro anos antes, em 2022, o mesmo Insight Crime apontava o porto de Santos  como “ponto crucial para o comércio global de cocaína”. Na ocasião, o jornalista investigativo Chris Dalby, fundador da plataforma World of Crime e autor de livros sobre os cartéis do México e da Venezuela, revelou a apreensão de perto de duas toneladas de cocaína em um único dia em carregamentos que sairiam de Santos em direção à Europa.

A informação teve como base o portal de notícias em espanhol defensa.com, especializado em temas das áreas militar, de defesa e segurança. Foram descobertos 265 quilos da droga escondidos em uma carga de café que seguiria para o porto de Le Havre (França); mais 730 quilos da droga em um container carregado de suco de laranja com destino à Valência (Espanha); e mais 504 quilos de cocaína em uma carga de açúcar que seguiria para Gana (‘How Brazil’s Port of Santos Became Cocaine’s World Trade Center’, em 13/1/2022).

O autor explica na reportagem que a ascensão do porto de Santos como “importante ponto de saída internacional de cocaína” teve como fator primordial a expansão da facção criminosa PCC que “ampliou seus tentáculos de tráfico de drogas por toda a região, concentrando-se principalmente no Paraguai e na Bolívia”.

Dessa forma, a droga produzida na Bolívia é transportada através do Paraguai e do território brasileiro até Santos, sob o controle de integrantes do PCC que domina todo o fluxo de cocaína nos países vizinhos.

Segundo Dalby,  a principal parceira do PCC na Europa é a 'Ndrangheta, a máfia italiana da região sul da Calábria. Citando dados da Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), o jornalista escreve que essa organização criminosa permitiu que a cocaína que saísse de Santo entrasse na Europa pelos portos de Roterdã e Antuérpia, sendo posteriormente distribuída às máfias russa, dos Bálcãs e marroquinas.

“A 'Ndrangheta também ajudou a estabelecer acordos de tráfico de drogas entre o PCC e grupos criminosos na África Ocidental, que ficavam com parte da cocaína em troca de auxílio no transporte de grandes quantidades para a Europa”.

Outros intermediários internacionais lembrados por Dalby também incluiriam as máfias sérvias, de acordo com relatório da Europol (European Union Agency for Law Enforcement Cooperation), de 2019, e o cartel irlandês comandado pelo “ narcotraficante mais notório do país, Daniel Kinahan,”, dono de  terras e negócios no Brasil (The Irish Sun, em 8/10/2020).

 Condenação

Recentemente foi noticiado que um ex- funcionário do porto de Santos foi condenado pela justiça brasileira a onze anos de prisão por burlar a fiscalização e permitir o envio de 416 quilos de cocaína para a Suíça escondidos em sacas de café (‘Chefe de terminal facilitou envio de 416 kg de cocaína para a Suíça’, no Metrópoles, em 30/6/2026).

O episódio aconteceu em 2022 e a denúncia partiu das autoridades suíças que identificaram a carga como provinda do porto de Santos e encaminharam a informação à Polícia Federal (PF). Apesar da justificativa do réu que alegou ter sido ameaçado por dois indivíduos desconhecidos de posse de fotos de sua esposa e filho, e que foi coagido a facilitar a remessa da droga no contêiner, ele foi o único condenado.

Na sentença, de acordo com o Metrópoles, foi ressaltado que o crime foi cometido com o auxílio de outras pessoas, mas os suspeitos não foram identificados pela investigação. ”Esses indivíduos teriam sido os responsáveis por recrutar Diogo (o réu), fornecer o celular para comunicação e realizar a contaminação física do contêiner com a droga no galpão.”

Em 2025, o Porto de Santos registrou a maior movimentação de cargas de sua história: 186,4 milhões de toneladas, um crescimento de 3,6% em relação a 2024, quando havia alcançado 179,8 milhões. Foram 137,4 milhões de toneladas exportadas e 49 milhões importadas em 5,9 milhões de contêineres padrão. Esse volume representa 30% de toda corrente comercial do país (‘Porto de Santos bate novo recorde em 2025 e amplia participação no comércio exterior’, no G1, em 18/1/2026).

terça-feira, 23 de junho de 2026

Justiça no país é mal avaliada e traz insegurança à cidadania

/ Sheila Sacks /


A contestação da Suprema Corte italiana à condenação de uma ex-deputada pelo STF e a consequente negativa para a sua extradição (22/5) porque não foram respeitados os direitos fundamentais de defesa da acusada, levanta um questionamento moral.  Será a prática do Direito, em determinadas angulagens, um exercício de manipulação da Lei?

 Em outro caso recente, este ocorrido no Rio de Janeiro, uma juíza concedeu perdão judicial a uma mãe que, por omissão, colaborou para o assassinato do filho de 4 anos (2021). A razão da benesse seria o suposto sofrimento infligido à ré na prisão, vítima de constantes ameaças, e seu linchamento virtual nas redes sociais.

 Às situações descritas se juntam milhares de outras desconhecidas do grande público que aumentam à insegurança jurídica dos cidadãos, acrescidas de uma morosidade inimaginável em que processos se estendem por décadas, notadamente os da área trabalhista, cujo término só se dá muitos anos depois do falecimento do autor.

 Desconfiança e vulnerabilidade


 Pesquisa publicada no mês passado (5/5) pelo instituto Real Time Big Date, sediado em Brasília, revela que mais da metade dos brasileiros (55%) não confiam no STF. Por sua vez, a organização internacional World Justice Project (WJP), com sede em Washington e escritórios em Singapura e Cidade do México, em seu relatório anual 2025 sobre o Índice de Estado de Direito Global (Rule of Law Index ), divulgado em outubro do ano passado, situou o Brasil na 78ª posição entre 143 países pesquisados.

 A avaliação da organização, que trabalha para promover o Estado de Direito no mundo, incluiu 8 quesitos, entre eles a situação dos “direitos fundamentais”, “justiça civil e criminal”, “governo aberto”, “ausência de corrupção” e “ limitações de poderes do governo”. O Brasil recebeu nota geral de 0,50 numa escala de 0 a 1 (a média global se situou em 0,55) ficando abaixo de países com histórico de ditaduras como os Emirados Árabes (37ª), Ruanda (39ª), Qatar (41ª), Kuwait (53ª), Indonésia (69ª) e República Dominicana (76ª).

 Nas análises por itens, o relatório aplicou as notas mais baixas à justiça civil (0,27) pela morosidade no andamento dos processos no país; à atuação da justiça criminal (0,33) em relação à salvaguarda dos direitos do acusado; à percepção de corrupção (0,45) e o não respeito aos direitos fundamentais (0,50).

 Com o pior desempenho, a Venezuela encerrou a lista na 143ª posição, precedida pelo Afeganistão, Camboja, Haiti e Nicarágua. Na América do Sul, países como Uruguai (23ª), Chile (35ª) e Argentina (65ª) apresentaram melhores pontuações do que o Brasil.

 Mais esperteza que sapiência

 A sucessiva e interminável criação de normas, regras, quesitos, itens, adendos etc., estruturada em um nascedouro de leis primárias, ordinárias e de outras titulagens, se consolidou através dos tempos em um campo fértil para o desempenho da advocacia que, em qualquer área, da civil à criminal, recolhe meticulosamente nas entrelinhas diferentes mensagens, intenções, artimanhas, subterfúgios e artifícios linguísticos para a defesa de suas teses.

 Consultar na literatura forense decisões anteriores, associando interpretações, pressupostos e premissas em inter-relacionamentos de intenções e ideias direcionadas à captura do alvo, tem se mostrado um procedimento alicerçado mais na “esperteza” do que no saber jurídico.

 Sem direitos de defesa

 Em se tratando do STF, ao questionar o papel do magistrado integrante da Primeira Turma que condenou a brasileira, a Justiça italiana argumenta que não houve imparcialidade no julgamento porque o mesmo atuou como vítima (sentindo-se prejudicado pelo ataque hacker aos dados do sistema do CNJ - – Conselho Nacional de Justiça), testemunha e juiz executor da sentença.

 No documento é citado trecho do tratado assinado em 1980 com o Brasil em que está explicitado que à pessoa acusada será assegurado “o respeito aos direitos mínimos de defesa”, o que na visão da Justiça daquele país não ocorreu. “Emergiram diversos elementos capazes de suscitar dúvidas sobre a imparcialidade, sob o aspecto objetivo, do tribunal que proferiu a condenação da recorrente.”

 A posição da Justiça italiana agrega mais munição às sucessivas críticas da alta cúpula americana às resoluções de determinados membros do Supremo, com destaque para o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio e seu subsecretário Chistopher Landau. Eles veem nas iniciativas do STF grande dose de abuso de poder, cerceamento de liberdade de expressão e violação de direitos humanos.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Uma jornada no tempo

/ Sheila Sacks / 

De 2026 aos anos de chumbo da década de 1960.

Estudava Jornalismo na PUC do Rio de Janeiro e acompanhei a ascensão de Fidel Castro em Cuba, em 1959; o assassinato do presidente John Kennedy, no Texas (1963); a marcha pelos direitos civis  nos EUA  com  Martin Luther King  (1963); a guerra no Vietnã (1955 a 1975); a banda inglesa The Beatles, criada em 1960;  a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961; e o golpe militar de 1964, entre tantos acontecimentos. 

Foi uma época dos grandes festivais de música brasileira transmitidos pelas emissoras de TV, ainda em telas preto e branco; do movimento hippie nascido nos Estados Unidos; e das revoltas estudantis na França.

Uma década que mudou a visão do mundo e que tive o privilégio de viver na juventude quando mente e coração pulsam mais forte em um cosmo de ideias e planos que somente a paixão é capaz de ensejar. 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Série americana que exporta um Brasil mafioso é sucesso mundial

 / Sheila Sacks / 

(atenção: contém spoiler)

Top 1 no ranking global de seriados da Netflix, Homem em Chamas (Man on Fire), lançado em 30 de abril, apresenta um Brasil violento e cheio de truques, com chefões do crime organizado, facções armadas, atentado terrorista e até a presença de autoridades públicas valendo-se de métodos mafiosos em ano eleitoral.

Diante do inequívoco sucesso registrado principalmente pela mídia internacional especializada em entretenimento, por aqui a grande imprensa preferiu não se pronunciar e compreensivelmente honrou seus compromissos com a publicidade oficial erguendo um visível muro de silêncio em torno da série. A exceção foi a plataforma de notícias UOL que repercutiu o fato e entrevistou alguns atores que participaram da filmagem. Outras notas e postagens ficaram por conta das redes sociais.

 Bandidos e política

Ao longo de sete episódios é contada a história do ex- agente das Forças Especiais da CIA, Christian Creasy ( interpretado por Yahya Abdul-Mateen II), que chega a cidade do Rio para atuar na firma de um amigo envolvido em um serviço sigiloso para o presidente da República e seu ministro de Segurança.Pouco dias depois, um ato terrorista mata o amigo e sua família, salvando-se a filha adolescente que fica sob a sua guarda.

A partir daí, a procura dos assassinos faz o ex-agente enfrentar o submundo do crime, as armadilhas, chantagens e ameaças dos barões da contravenção que têm suas residências luxuosas nos bairros abastados da zona Sul da cidade. Ele não escapa nem de uma tentativa malandra de assalto logo no primeiro episódio e também de uma audaciosa investida de sequestro contra a jovem sobrevivente.    

Por sua vez, na cidadela da Rocinha, a maior favela do país, bandos armados a serviço do tráfico transitam pelas ruelas eliminando os desafetos, impondo regras, sitiando moradores e restringindo a entrada de estranhos. Toda a violência regada a cerveja, pó e funk, comemorada nas lajes a céu aberto, sob a visão privilegiada das praias e do mar aberto.

Como de praxe em filmes de ação, a velocidade dos acontecimentos pega o espectador de roldão que acompanha arrebatado a trajetória de vingança do ex-agente, agora em companhia de um coleguinha especialista made USA e de seus novos amigos fora da lei (mas, todos gente boa).

Com a ajuda do grupo ele invade uma prisão de segurança máxima e interroga o chefão de um poderoso grupo do crime organizado. Então, descobre uma trama em andamento encabeçada pelo principal mandatário do país e seu ministro cúmplice. Por trás, agindo na clandestinidade, um mau caráter da CIA.

Mais invasões se sucedem, desta vez em um grande hospital onde o ex-agente enfrenta a perseguição do tal ministro da Segurança que, de arma em punho, faz de tudo para matá-lo. No fim, a verdade vem à tona, o presidente mafioso cai e o Brasil é salvo. A série apresenta  o  retrato de uma republiqueta dos trópicos movida à bala que não coincide com a oratória pátria de nossos políticos.  No mais, uma produção estruturada em ritmo acelerado, bons atores, efeitos especiais de última geração e a conhecida paisagem do Rio, sempre uma coadjuvantes que soma pontos.

Em junho, entre as 10 mais

Com locações adicionais no México, Homem em Chamas já na primeira semana de exibição atingiu mais de 23 milhões de visualizações tornando-se a série mais vista do streaming em 58 países. Sua trajetória de sucesso continua e depois de um mês desde a sua estreia permanece no ranking dos dez seriados mais acessados do planeta.

A produção é a mais nova versão do livro do autor inglês A. J. Quinnell, publicado em 1980, e que teve duas adaptações anteriores levadas aos cinemas. Em 1987, com Scott Gleen protagonizando Christian Creasy e ambientado na Itália, e em 2004, estrelado por Denzel Washington e filmado no México.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cientista britânico afirma que leis da física podem tornar vida extraterrestre similar à da Terra

/ Sheila Sacks /

Para o astrobiólogo britânico Charles Cockell (59), professor  da Escola de Física e Astronomia da Universidade de Edimburgo e codiretor do Centro de Astrobiologia do Reino Unido (UK Centre for Astrobiology), se existir vida extraterrestre ela poderá parecer “estranhamente similar à da terra” porque a física restringe a forma.

 Em seu livro “As Equações da Vida” (The Equations of Life: How Physics Shapes Evolution) Cockell propõe uma biologia universal. Ele afirma que as leis da física canalizam a vida para formas restritas e delimitam o escopo da evolução. Assim, a maior parte dos seres vivos, de acordo com a sua teoria, é talhada por regras que podem ser “chocantemente” estreitas. 

 “As leis da física são as mesmas em todos os lugares”, diz Cockell, que completou doutorado em Biofísica Molecular na Universidade de Oxford. “A gravidade, por exemplo, é onipresente, não exclusiva do nosso Sistema Solar. Portanto, as mesmas restrições estão em todo lugar. Moléculas orgânicas, na Terra ou em outro ambiente, ainda se desintegram em altas temperaturas e se desativam nas baixas.”

 Ele explica que certos ingredientes são indispensáveis para a vida em quase todo lugar. O carbono é o elemento ideal para montar a vida florescente e a água é o melhor solvente para transportá-lo. “Ao estudar a vida na Terra obtemos ideias sobre onde procurar vida no espaço para responder àquela antiga questão: a vida na Terra é o único exemplo de vida, ou existe vida em outros planetas? São essas questões-chave da astrobiologia que vão determinar quais condições tornam um ambiente habitável”, reforça.

 Elementos básicos

 Segundo o cientista, também autor de “Astrobiology: Understanding Life in the Universe”, livro que investiga a habitabilidade de outros planetas, “os critérios básicos incluem a presença de água líquida, pois ela fornece o meio para as reações químicas essenciais à vida. Igualmente importante é a disponibilidade de certos elementos — carbono, nitrogênio, fósforo e oxigênio — juntamente com uma fonte de energia, seja a luz solar para a fotossíntese ou compostos químicos capazes de sustentar os processos biológicos”. Ele ressalta que as condições não devem ser extremas porque temperaturas de centenas de graus são incompatíveis com a vida como a conhecemos.

 “Ainda assim”, enfatiza Cockell, “é importante lembrarque esses requisitos se baseiam na vida como a entendemos hoje, e devemos sempre manter a mente aberta para a possibilidade de descobrirmos vida com requisitos completamente diferentes”.

 “Nosso próprio planeta é um exemplo, continua. “No oceano, criaturas com corpos finos e adaptáveis predominam no sentido de se moverem rápido pela água. Na terra, a maioria dos animais tem membros ou apêndices para se movimentar, e no céu os pássaros são governados pelas leis de aerodinâmica.”

 Cockell avalia que os alienígenas talvez não tenham braços e pernas, mas sim tentáculos para agarrar objetos. E que provavelmente possam ter olhos, ouvidos e uma boca, mas não da maneira que conhecemos. Dessa forma, adaptações alienígenas semelhantes à vida terrestre – de humanoides a beija-flores – podem ter surgido em bilhões de mundos.

 Novas descobertas

 Entre as descobertas mais surpreendentes das duas últimas décadas apontadas por Cockell está o vasto número de lugares no universo que parecem ter água líquida, um dos requisitos básicos para a vida. “Quarenta anos atrás, as pessoas estavam interessadas apenas em procurar vida em Marte. Agora descobrimos oceanos sob as crostas geladas de luas que orbitam Saturno e Júpiter, bem distantes no Sistema Solar.”

 Outra observação de Cockell se refere ao fato de que os astrônomos também estão muito interessados ​​em procurar o gás oxigênio em planetas distantes, “gás que na Terra é produzido em altas concentrações por plantas e organismos unicelulares na fotossíntese". Ele destaca que nesse campo também existem abordagens “incomuns” denominadas “métodos agnósticos”, aqueles que não exigem conhecimento de como a própria vida é construída.

 “Por exemplo, muitas moléculas em nossos corpos, como as proteínas, são compostas de longas cadeias. Isso porque longas cadeias podem conter muita informação. Então, podemos especular que qualquer biologia complexa no universo seria composta de moléculas de cadeia longa”, relata. “Logo, uma maneira de procurar por vida seria buscar moléculas longas que não dependessem de nenhum conhecimento de como essa biologia foi construída. Atualmente, há pessoas trabalhando na construção de tais instrumentos”, informa.

 Ao longo da carreira, o físico britânico fez descobertas importantes relacionadas a micróbios que podem ser usados para extrair recursos do espaço e que toleram altos níveis de dessecação. Também realizou pesquisas sobre a relação entre impactos de asteroides e cometas e a criação de novos habitats para a vida.

 Com consultas ao Universe Space Tech e Forbes


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Os muitos mundos de um universo imponderável

/ Sheila Sacks /

A menos de quinze dias da estreia do novo filme de Steven Spielberg, Disclosure Day  (Dia da Revelação), que no Brasil terá o título de Dia D, uma entrevista com o físico quântico e mestre em engenharia elétrica Harold Puthoff (89anos) ganhou repercussão mundial.

 O cientista que trabalhou com a NSA (Agência de Segurança Nacional) e a CIA (Agência de Inteligência dos EUA) garante que o governo norte-americano tem informações e conhece, ao menos, quatro espécies diferentes de extraterrestres. A declaração se deu no podcast britânico The Diary of a CEO, em 14 de maio, o mais popular do Reino Unido, com mais de 12 milhões de assinantes.

 Puthoff é também um dos participantes do documentário americano The Age of Disclosure ( A Era da Revelação), produzido por Dan Farah e lançado nos cinemas e na plataforma Amazon Prime em novembro do ano passado. Segundo o site Deadline Hollywood, em menos de 48 horas o documentário quebrou todos os recordes tornando-se o mais visto no streaming, superando títulos como Jurassic World Rebirth e Mission: Impossible – The Final Reckoning .

 A película traz entrevistas de 34 funcionários e ex-funcionários do alto escalão do governo dos EUA, de diversos setores, civil, militar e da inteligência, com depoimentos que reforçam a tese de que a vida alienígena está presente na terra e tem sido alvo de acobertamento institucional por 80 anos. O filme também expõe uma guerra secreta entre as grandes nações para realizar engenharia reversa de tecnologia de origem não humana. De acordo com Farah, o documentário foi realizado ao longo dos últimos três anos, sob forte sigilo.

 Já a ficção Dia D (que em Portugal, também um país de maioria católica, o título do filme manteve a palavra ‘revelação’ , fiel à essência da história) tem estreia brasileira prevista para 11 de junho. O roteiro é assinado por David Koepp  (Jurassic Park, Homens de Preto, Homem Aranha etc) a partir de uma história do próprio Spielberg inspirado em um cenário em que os alienígenas já fizeram contato com os humanos, e agora, décadas após, a relação mantida em segredo finalmente será revelada.

 Lembrando ainda que no Festival de Cannes, em 2024, foi exibido pela primeira vez  o documentário  God Versus Aliens (Deus contra os Alienígenas) do cineasta Mark Christopher Lee, premiado roteirista de uma dezena de filmes sobre o tema, que procura desvendar as investigações secretas do Vaticano acerca de OVNIs. Segundo Lee, o Vaticano tem um histórico de reflexão sobre questões cósmicas e que astrônomos e teólogos ligados à Santa Sé já declararam, ao longo dos anos, que a existência de vida extraterrestre não entra em contradição com a fé cristã.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Na guerra das civilizações, um Ocidente acuado e complacente

/ Sheila Sacks /

Em artigo publicado no jornal The Washington Times (5/5/2026), o jornalista Clifford May, presidente da Fundação para a Defesa das Democracias (The Foundation for Defense of Democracies -FDD), alerta sobre a dificuldade de negociar uma paz duradoura com o Irã devido a sua doutrina religiosa e um histórico de conflitos que “minam as perspectivas” de um acordo real.

Sob o título “Iran rulers’ ideology make lasting peace deal unlikel” (‘A ideologia dos governantes do Irã torna improvável um acordo de paz duradouro’, em tradução livre), o texto enuncia uma série de atos terroristas a partir da instalação do regime autoritário dos aiatolás, em 1979. Seu autor é um veterano profissional, de 75 anos, que trabalhou como repórter, correspondente estrangeiro e colunista político em várias mídias, e foi editor da revista Newsweek e do jornal The New York Times.  

Com sede na capital americana, a FDD é uma organização independente fundada após os ataques de 11 de setembro de 2001 que reúne especialistas e acadêmicos em segurança nacional e política externa. A instituição produz pesquisas e relatórios nas áreas de governo, inteligência, forças armadas, economia e tecnologia.   

 Reféns por 441 dias

No artigo em questão, entre centenas de atos terroristas o jornalista destaca a tomada da embaixada dos EUA em Teerã, e o sequestro de diplomatas americanos mantidos como reféns por 444 dias (de novembro de 1979 a janeiro de 1981), ocorrida menos de um ano da instalação da república islâmica, após a deposição do Xá Reza Pahlavi e a eliminação da monarquia iraniana.

Também lembra que, quatro anos depois, atentados em Beirute organizados pelo Irã mataram 241 militares americanos que atuavam nas forças de paz; e em 1996, outro ataque apoiado pelo Irã, desta vez na Arábia Saudita, contra as Torres Khobar (um complexo de moradia para militares) resultou na morte de 19 soldados das tropas americanas.

 Prosseguindo, May escreve que durante a Guerra do Iraque, de 2003 a 2011, “o regime islâmico fabricou foguetes, projéteis perfurantes e artefatos explosivos improvisados ​​para uso pelas milícias xiitas que atuavam no Iraque. Pelo menos 603 militares americanos foram mortos pelo uso dessas munições, segundo o Pentágono”.  E acentua que após o atentado terrorista do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, a Resistência Islâmica do Iraque (The Islamic Resistance in Iraq - IRI), uma coalizão de milícias xiítas financiada pelo Irã, atacou as forças americanas no Oriente Médio mais de 180 vezes.

 “Ao longo dos anos, houve apenas uma resposta significativa à política declarada de Morte à América dos autoproclamados revolucionários islâmicos do Irã e de seus grupos terroristas aliados: em 2020, o presidente Trump ordenou um ataque com drone que eliminou Qassem Soleimani, o mentor terrorista do regime (comandante da Força Quds do Irã, responsável por atos terroristas no exterior)”, afirma.

 Arma nuclear em seis meses

 De acordo com o físico e especialista em questões nucleares, David Albright (75 anos), os iranianos tinham condições de construir uma arma nuclear em menos de seis meses, antes da campanha aérea americana, em junho de 2025, contra as instalações das usinas de Fordow, Natanz e Esfahan. Presidindo o Instituto para a Ciência e Segurança Internacional (Institute for Science and International Security), fundado em 1993, Albright é autor de nove livros e publica regularmente artigos na mídia mundial sobre programas secretos de armas nucleares desenvolvidos por países como o Irã e a Coreia do Norte.

Estima-se que os recentes ataques americanos e israelenses a instalações militares e nucleares iranianas podem ter atrasado em dois ou três anos, caso não recebam ajuda externa, as ambições de poder do governo dos aiatolás. Mas, segundo Clifford May, o atraso não justificaria uma possível “complacência” porque existe a informação de que milhares de mísseis e drones já foram construídos e escondidos em fortalezas subterrâneas. Inclusive mais armas nucleares estão sendo abrigadas no profundo complexo de túneis instalado sob a Montanha Pickaxe, na região central do país, “que nem mesmo os projéteis da artilharia maciça dos americanos lançados de bombardeiros B-2 conseguiram destruí-lo”.

 Guerra santa

Outro fator atuante no conflito envolveria o aspecto religioso. “Os governantes do Irã se veem como jihadistas lutando uma guerra santa contra os inimigos de Alá. Eles podem cogitar cessar-fogos temporários, períodos de calma que lhes permitam rearmar-se para a próxima batalha, mas um acordo de paz sério está fora de questão”, assegura May.

Ele explica que a maioria dos 93 milhões de iranianos professa o islamismo xiita duodecimano que acredita que o 12º Imã, Muhammad al-Mahdi, foi "ocultado" por Alá há mais de mil anos, e que retornará como o Mahdi, essencialmente o messias. “Para os seguidores do Aiatolá Khomeini os muçulmanos devem apressar esse retorno por meio de conflitos, caos, derramamento de sangue e martírio”, finaliza.

 Linguagens distintas

Professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém na área de Estudos Islâmicos, Moshe Sharon (88 anos) diz que as nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem países árabes. Especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), história e religião islâmica e estudioso do xiísmo (predominante no Irã e no Iraque), foi consultor para assuntos árabes do governo do Primeiro-Ministro Menachem Begin (1977-1983) e tem vários livros publicados sobre o tema.

Por mais de quatro décadas, Sharon é incisivo ao questionar a posição de líderes ocidentais que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (que significa submissão)”.

 Acordos temporários

Em agosto de 2005, alguns meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza após a Cúpula de Sharm el-Sheikh que selou um breve acordo de paz entre palestinos e israelenses,  um dos líderes mais proeminentes  do Hamas, Mahmoud al-Zahar (79 anos), então ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera declarou que o grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém, a Judéia e a Samaria. “Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos. Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).

 Pouco tempo depois, em entrevista à rede cristã norte-americana CBN News (The Christian Broadcasting Network), Al-Zahar declarou textualmente: “Nós estamos em meio a uma terceira Guerra Mundial. Eu digo isso o tempo todo. E mais: por que o Hamas deveria abrir mão de suas armas? Para satisfazer Israel? Para satisfazer algum ser humano na terra? A resposta é não”.

 Na concepção de Sharon, o que Al-Zahar quis dizer, quando falou em terceira Guerra Mundial, “se traduz da seguinte forma: nós, muçulmanos, queremos restabelecer o Califado, da Índia e China à Espanha. Isso porque os árabes ainda consideram a Espanha como território islâmico (a Península Ibérica ficou sob o domínio dos árabes por 700 anos - do séc. VIII ao XV).”

 “Cristãos-sionistas”

Em outra oportunidade, Al-Zahar – autor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 -  chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”

Para Sharon está patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida judaico-cristã do Ocidente. “Quando Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”

 O professor adverte que o Ocidente está em perigo e deve enfrentar a situação de maneira séria. “Para muitos pode parecer uma piada esta história de dominar o mundo, mas para os muçulmanos são palavras de Deus. 

 “Palavras não pagam impostos”

Ainda sobre acordos temporários, um ditado árabe define bem a situação: palavras não pagam impostos, lembra Sharon. Ele reforça que nessas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou a tática em Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e marchou com dez mil soldados sobre a cidade.

Tal fato histórico foi mencionado por Yasser Arafat, quando semanas depois do Acordo de Oslo (1994) ele se justificou em uma mesquita na África do Sul. O professor Sharon gravou o discurso em que Arafat pedia desculpas pela sua assinatura no documento, dizendo: “Vocês acham que eu poderia assinar algo com os judeus contrário ao que dizem as regras do Islã? Não foi assim. Eu fiz exatamente o que o profeta Maomé fez.” Ou seja, Arafat estava simplesmente falando: lembrem-se da história de Hudaybiya.

Logo, diante dos antecedentes conhecidos em relação às características das negociações que se repetem através dos séculos, as mesmas devem ser entendidas sob o prisma de que “tratados não são permanentes”. Sharon conta que sempre aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez o inimigo falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma concordância que, mais adiante, não se concretizou.