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quarta-feira, 22 de abril de 2026

A guerra das civilizações e suas linguagens distintas

 / Sheila Sacks /


Especialista diz que nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem países árabes.

Em novembro de 2005, alguns meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza, após a Cúpula de Sharm el-Sheikh que selou um acordo de paz entre palestinos e israelenses, um dos líderes mais radicais do Hamas, Mahmoud al-Zahar, então ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera declarou que o grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém, a Judéia e a Samaria (Cisjordânia). Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos. Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).

Um ano depois, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, al-Zahar se recusou a reconhecer a solução de dois estados aprovada pela Resolução 181, da ONU, em 29 de novembro de 1947. “Nós jamais reconheceremos Israel. Os sionistas ocuparam nossa terra como os nazistas ocuparam a França durante a Segunda Guerra Mundial. Israel é um elemento estrangeiro no Oriente Médio. Por que os judeus não estabeleceram seu estado na Europa?” ('We Will Never Recognize Israel', em 23.10.2006).

Em nova apresentação, desta vez na rede cristã norte-americana CBN News (The Christian Broadcasting Network), Al-Zahar declarou textualmente: “Nós estamos em meio a uma terceira Guerra Mundial. Eu digo isso o tempo todo. E mais: Por que o Hamas deveria abrir mão de suas armas? Para satisfazer Israel? Para satisfazer algum ser humano na terra? A resposta é não”.

O especialista em história e religião islâmica da Universidade Hebraica de Jerusalém, professor emérito Moshe Sharon (88 anos), faz algumas observações sobre as mensagens implícitas presentes nas palavras de Al-Zahar, hoje com 79 anos.

Profundo conhecedor da língua e do pensamento árabes, Sharon, nascido em Israel, vem alertando, há décadas, sobre a necessidade das nações prestarem mais atenção à linguagem usada pelo Hamas (que significa fervor) e por grupos como o Hezbollah e Al-Qaeda. “O que Al-Zahar quis dizer quando falou em terceira Guerra Mundial”, explica Sharon, “se traduz da seguinte forma: nós, muçulmanos, queremos restabelecer o Califado, da Índia e China à Espanha. Isso porque os árabes ainda consideram a Espanha como território islâmico (a Península Ibérica ficou sob o domínio dos árabes por 700 anos, do séc. VIII ao XV).”

“Cristãos-sionistas”


Em outra oportunidade, Al-Zaharautor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 -  chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”

Para Sharon está patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida judaico-cristã do Ocidente. “Quando Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”

O professor adverte que o Ocidente está em perigo e deve enfrentar a situação de maneira séria. “Para muitos pode parecer uma piada esta história de dominar o mundo, mas para os muçulmanos são palavras de Deus. Desde os primórdios, a intenção do Islã sempre foi subjugar os povos e colocá-los sob as suas leis e regras. E hoje, esse plano está a caminho e nós precisamos ter consciência do fato”. E enumera alguns pontos que orientam a sua tese:

1- Está escrito literalmente no Corão (Repetição) que “Alá enviou Maomé com a religião verdadeira para governar sobre todas as religiões”.

2- Maomé afirmou que os judeus e os cristãos falsificaram os livros da Bíblia e que todos os profetas são muçulmanos, inclusive Abraão, Isaac, Jacob, David e Moisés.

3- O Sistema Islâmico diz que é preciso lutar contra aqueles que não querem viver sob o domínio do Islã. A guerra contra os infiéis, sejam judeus ou cristãos, chama-se Jihad (esforço, empenho).

4- O Corão divide o planeta em duas Casas: uma se chama Dar al-Islam (Casa do Islã), onde o Islamismo governa, e a outra Dar al-Harb ( Casa da Guerra), como é conhecido o restante do mundo. Esta Casa da Guerra será conquistada no final dos tempos e subjugada pelo Islã.

5 - Para a civilização islâmica, se uma terra, no passado, foi dominada pelo Islã, ela sempre será propriedade do Islã. Daí os árabes só se referirem a Israel como território.

6- O propósito do Islã é de se constituir em uma força militar divina para impor a cultura islâmica. Cada muçulmano que entrega a sua vida na luta pela disseminação do Islã se constitui em um mártir (shaheed), não importando a maneira como essa morte possa vir a ocorrer. Ou seja, este é um conflito bélico eterno, uma guerra sem fim, entre duas civilizações: a da Bíblia versus a do Corão.

Idioma do Islã

Professor do Departamento de Estudos Islâmicos da Universidade Hebraica de Jerusalém, desde 1971, Sharon já publicou vários livros sobre a história, religião e a cultura orientais, inclusive sobre a fé Bahá'í. É especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), profundo conhecedor da Shi’a (seita xiita predominante no Irã e no Iraque) e foi consultor para Assuntos Árabes do Governo de Israel, no período do primeiro-ministro Menachem Begin (1977-1983). Ele é incisivo ao questionar a posição de políticos ocidentais que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (significa submissão), aquele dos oradores das mesquitas que vociferam horríveis sermões contra os judeus e os cristãos. Daí que o uso de nossa terminologia e vocabulário para abordar temas como democracia ou fundamentalismo equivale a falar sobre futebol usando termos de beisebol. Para falar com o Islã, você precisa usar o idioma do Islã”, acentua o historiador.

Sharon lembra também que nestas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou desta tática em Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e marchou com dez mil soldados sobre a cidade. Tal fato histórico, aliás, foi mencionado por Yasser Arafat, quando semanas depois do Acordo de Oslo (1994) ele se justificou em uma mesquita na África do Sul. O professor Sharon gravou o discurso em que Arafat pedia desculpas pela sua assinatura no documento, dizendo: “Vocês acham que eu poderia assinar algo com os judeus contrário ao que dizem as regras do Islã? Não foi assim. Eu fiz exatamente o que o profeta Maomé fez”. Para Sharon, Arafat estava simplesmente falando: “Lembrem-se da história de Hudaybiya”.

“Palavras não pagam impostos”


O provérbio árabe - palavras não pagam impostos - define bem as características das negociações utilizadas pelos muçulmanos e que devem ser entendidas da seguinte forma: “tratados não são permanentes”. Sharon conta que aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez o inimigo falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma concordância que, mais adiante, não se concretizou.

Em 2007, conversei pelo telefone com Sharon e ele contou que jamais foi convidado para realizar palestras no Brasil ou em outro país da América Latina. De 1999 a 2020 presidiu o Centro de Estudos Bahá’í, na Universidade de Jerusalém, única cátedra no mundo dedicada a essa crença oriental e pacifista originária da Pérsia (atual Irã) que congrega 300 mil fiéis naquele país.

Com oito milhões de seguidores, segundo estimativa do Centro Mundial Bahá'í, localizado no Monte Carmel, em Haifa, a fé está presente em mais de 200 países, inclusive no Brasil, com mais de 60 mil adeptos (no Irã são perseguidos e presos pelo regime dos aiatolás sob acusação de serem pró-Israel). 

Em 2017, a Câmara de Deputados promoveu em Brasília uma sessão solene em homenagem ao bicentenário de nascimento do fundador da fé Bahá’í, o profeta iraniano Baha’u’lláh nascido em 1817.  Na ocasião foi ressaltada a importância da crença e das ações dessa comunidade espiritualista tanto no Brasil como no mundo, visto ser considerado “o segundo grupo mais espalhado pelo mundo depois do Cristianismo”. 

Batalha de civilizações

Repetindo o que vem dizendo em seminários acadêmicos na Europa, Sharon destaca que Israel está na linha de frente na batalha de civilizações, mas também precisa da ajuda das nações do Ocidente, porque no momento em que o radicalismo muçulmano se apropriar do controle de armas de destruição em massa – químicas, biológicas e atômicas – estas serão implacavelmente usadas.

Apesar de os avisos de Moshe Sharon projetarem um futuro inquietante para o nosso planeta, a grande mídia teima em se ater a fatos correntes sem se aprofundar no cerne da questão. Talvez pela sua condição de judeu-israelense, muitos jornalistas e intelectuais, instintivamente, façam um pré-julgamento de seus estudos. Entretanto, alguns pesquisadores de religiões monoteístas e observadores da cultura islâmica já citam o especialista israelense como importante fonte de referência. É o caso do teólogo Samuele Bacchiocchi (1938-2008) doutor em História Cristã, com 15 livros publicados. Formado pela Pontifical Gregorian University, de Roma, e mestre de Teologia da Andrews University, em Michigan, Samuele introduziu os conceitos de Moshe Sharon em suas conferências e também no artigo “Reflexões sobre Terrorismo e Intolerância”. É dele a seguinte frase: “Lamentavelmente, os repórteres que cobrem o conflito entre Israel e os palestinos/árabes não oferecem quaisquer lampejos de quais são as forças ideológicas em ação por trás destas guerras”.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Amazônia: extração ilegal de ouro impulsionou desmatamento em 2025, revela relatório internacional

Sheila Sacks /

O Brasil amazônico apresentou a maior taxa de perda florestal do planeta na última década atingindo 2,8 milhões de hectares (28 mil km²), somente no ano de 2024. A informação foi divulgada no balanço anual GameChangers 2025, da organização Insight Crime, de jornalismo investigativo, em dezembro do ano passado, tendo como fonte a plataforma Global Forest Watch , de monitoramento das florestas mundiais. No total, o desmatamento nas regiões da bacia amazônica em 2024 chegou a mais de 4,7 milhões de hectares (47 mil km²) área maior que países como a Suíça e a Dinamarca.

Com foco na América Latina e Caribe, o relatório assinado por Maria Fernanda Ramírez e Beatriz Vicent Fernández, especialistas em  estudos e análises sobre economias ilegais nas fronteiras, aponta a extração ilegal de ouro entre os crimes ambientais que mais cresceram nos países amazônicos em 2025.

As pesquisadoras assinalam que a mineração não autorizada disparou no Brasil, Peru e Venezuela, e também ao longo do rio Puruê, na fronteira entre a Colômbia e o Brasil, incentivada pelos altos preços do metal no mercado internacional. Entre 2015 e o final de 2025 “o preço da onça de ouro (31,1 gramas) subiu de US$ 1.060 para US$ 4.030, representando um aumento de 280%” (‘El imparable auge de los delitos ambientales en la Amazonía’, em 30/12/2025).

Garimpo ilegal e grupos criminosos

Atualmente existem mais de quatro mil locais de mineração ilegal por toda a Amazônia afetando principalmente áreas protegidas e territórios indígenas que também sofrem com a grilagem de terras, cultivo de cocaína, extração de madeira e desmatamento para a agricultura. Os dados são da ONG Amazon Conservation que trabalha com ambientalistas do Brasil, Bolívia e Peru.

Entre 2018 e 2024, o garimpo ilegal causou a perda de mais de 2 milhões de hectares de floresta ao longo da bacia amazônica,  área equivalente ao estado do Sergipe, lembrando que o uso do mercúrio para separar o ouro dos sedimentos é fator de contaminação do solo e da água das comunidades. Altamente tóxico, o mercúrio é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das dez principais substâncias químicas que representam grande preocupação para a saúde pública.

De acordo com Ramírez e Fernández, grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) têm se estabelecido nas regiões de fronteiras abrangendo Brasil, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador e Venezuela para lucrarem com crimes ambientais.  “É comum que as redes criminosas usem carregamentos de madeira para transportar cocaína, compartilhem rotas de tráfico e usem o lucro do narcotráfico para abrir garimpos ilegais, construir estradas clandestinas e negociar terras”, afirmam. “Além disso, o CV cruzou a fronteira e se estabeleceu no Peru, promovendo o cultivo de folha de coca e a produção de pasta de coca nos departamentos de Loreto e Ucayali, onde a área cultivada aumentou drasticamente nos últimos cinco anos.”

A Bolívia, o Peru e a Colômbia também figuram entre os dez países com o maior desmatamento no mundo, segundo o gráfico apresentado pelo Insight Crime, onde o Brasil encabeça a lista.  Em novembro passado, dias antes da COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Belém, o ministério do Meio Ambiente convocou a imprensa e anunciou uma redução na taxa de desmatamento na Amazônia brasileira em relação ao mesmo período de 2024. (‘Em 2025, desmatamento tem redução de 11,08% na Amazônia e 11,49% no Cerrado, em 30/10/2025).

Porém, as autoras do relatório criticam a declaração final da Conferência que “não inseriu um roteiro preciso para reduzir o desmatamento e combater os fatores causadores — incluindo o crime organizado”.  Segundo a Global Witness, uma organização investigativa internacional, 1.018 defensores da terra e do meio ambiente foram assassinados em países da Amazônia, entre 2012 e 2024, com o Brasil e a Colômbia respondendo por 90% dos casos.  

Operações policiais

Apesar de o governo brasileiro ter intensificado ações policiais contra os garimpos ilegais, principalmente em territórios indígenas, e contar com o suporte jurídico da resolução 129 emitida pelo Ministério de Minas e Energia (23/2/2023) de combate à lavagem de dinheiro, a mineração ilegal é o crime mais disseminado e prejudicial nas regiões das fronteiras da Amazônia. 

Reportagem do Greenpeace Internacional (8/4/2025), com base em análises de dados de satélites de 2023 e 2024, observa que o endurecimento das operações policiais no Brasil resultou em uma diminuição da mineração ilegal nas terras Yanomami (7%), Munduruku (57%) e Kayapó (31%). Em contrapartida, na reserva indígena de Sararé, na região de Mato Grosso fronteiriça à Bolívia, a mineração ilegal cresceu 93%, revelando um deslocamento da extração ilícita do metal. Nos quatro territórios, o total de floresta destruída no período atingiu 4.219 hectares, “uma área superior ao Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e equivalente a quase 6 mil campos de futebol”.

Os ambientalistas do Greenpeace reforçam que o comércio mundial de ouro ilegal oriundo do Brasil é um fator de ameaça global aos povos indígenas, à floresta amazônica, ao clima e à biodiversidade. No relatório “Ouro Tóxico” (abril/2025), a organização assinala discrepâncias em relação aos dados relacionados ao comércio internacional do metal. Em 2022, a Suíça importou 67% a mais de ouro do que o Brasil declarou ter exportado. Em 2023, a diferença foi de 62%, totalizando quase 19 toneladas de ouro de origem duvidosa nesses dois anos.

O documento de 35 páginas destaca que a floresta amazônica se estende por nove países (Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), abriga mais de 45.000 espécies de flora e fauna, 40 milhões de pessoas, cerca de três milhões de indígenas de 410 povos, bem como quilombolas e outros grupos tradicionais. Assinala que a Amazônia é um ecossistema único e essencial para a estabilização do clima global, funcionando como um vasto sumidouro de carbono, absorvendo gases de efeito estufa e regulando os padrões climáticos globais.

Segundo a consultoria Mining Technology, com sede em Nova York, o Brasil produz cerca de 70 toneladas do metal por ano sendo o décimo maior produtor mundial. Contudo, estima-se que um terço desse total é de procedência ilícita. Em fevereiro, com o objetivo de suprir omissões legislativas em relação à exploração de minérios, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu prazo de dois anos para que o Congresso aprove uma lei que regularize a participação dos indígenas na mineração legal no país.

A liminar atendeu originalmente a uma ação protocolada pela comunidade indígena dos Cinta-Larga que foi autorizada pelo ministro, em caráter provisório e cumprindo determinadas normas, a realizar atividades de mineração em suas terras, no sudoeste da Amazônia (entre Rondônia e Mato Grosso), área que apresenta um longo histórico de conflitos e massacres decorrentes de invasões de garimpeiros.

Nota: Com a eclosão da guerra USA/Israel x Irã, a cotação do ouro subiu para US$ 5.266 a onça, informa The Guardian, em sua edição digital (3/3/2026).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Minissérie vai reviver criminoso nazista que se escondeu no Brasil por quase duas décadas

/ Sheila Sacks / 

Em 2026, o best-seller “Os meninos do Brasil”, de Ira Levin (1976), vai virar minissérie na plataforma de streaming Netflix,  que reúne 301,6 milhões de assinantes globais, sendo 25 milhões no Brasil. Anúncio divulgado na mídia em novembro passado (18/11/2025) informa que as gravações serão feitas na Espanha, Reino Unido e Bulgária.

Do mesmo autor de “O bebê de Rosemary”, levado ao cinema em 1968, “The boys from Brazil”, no título original, também teve uma versão cinematográfica em 1978. O livro revive a figura do médico nazista Josef Mengele, criminoso de guerra acusado de realizar experimentos cruéis em prisioneiros no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia ocupada. De acordo com a trama, trinta anos depois ele lidera uma organização com a finalidade de restabelecer o Terceiro Reich através de clones de Hitler. 

A obra de ficção parte do pressuposto, que se mostrou real, de que Josef Mengele, conhecido como O Anjo da Morte, vivia na América do Sul. De fato, Mengele fugiu para a Argentina após a guerra, residiu no Paraguai e se estabeleceu no Brasil por quase duas décadas sem ser importunado. Morreu em São Paulo, aos 67 anos, três anos após a publicação do livro (reportagem documental da Pública, agência de jornalismo investigativo, de 11/2/2025, aborda a estadia de Mengele no Brasil, sob o título ‘Anjo da morte: Como médico nazista Josef Mengele viveu com regalia por 18 anos no Brasil’).

Documentos secretos

Com a desclassificação de 1.850 documentos sobre nazistas que buscaram refúgio na Argentina, disponibilizados online pelo AGN - Archivo General de la Nación,  o público em geral já pode acessar detalhes da trajetória de Mengele e de outros criminosos nazistas que se esconderam no Cone Sul no pós-guerra.

Reportagem do El País assinala que Josef Mengele chegou ao porto de Buenos Aires em junho de 1949, a bordo do navio North King, quatro anos após o término da guerra. Tinha 38 anos e entrou na Argentina com um passaporte emitido pela Cruz Vermelha (‘O rastro dos nazistas Mengele e Eichmann na Argentina’, em 30/4/2025).

Dez anos depois, já com o nome na lista de nazistas mais procurados, ele foge para o Paraguai e, com a captura de Adolf Eichmann (1960) pelo Mossad, o serviço de inteligência israelense, esconde-se no Brasil.

Matéria da Fox News Digital (30/11/2025) revela que “Mengele entrou clandestinamente no Brasil em algum momento de 1960 pela Tríplice Fronteira. Ele foi auxiliado por fazendeiros germano-brasileiros, simpatizantes nazista, que lhe forneceram diversos esconderijos rurais por vários anos” (‘Como o criminoso de guerra nazista Josef Mengele escapou da captura na América Latina, revelado em arquivos desclassificados’, na tradução livre do inglês).

Retirado do mar sem vida na tarde de 27 de fevereiro de 1979, Mengele ficou estendido na areia da praia de Bertioga, no litoral paulista, até a chegada do policial que constatou que o corpo não apresentava sinais de afogamento, como vômito ou água saindo pela boca. O cabo da PM, Dias Romão, então conclui ”que se tratava de um caso de morte súbita ocorrida na água: talvez um ataque cardíaco ou um derrame.”

No documento do morto constava o nome de Wolfgang Gerhard, austríaco, viúvo de 54 anos, técnico mecânico, residente no bairro Novo Brooklin, na cidade de São Paulo. Um casal de amigos, ambos austríacos, Wolfram e Liselotte Bossert, que sabiam que o morto era Mengele e esconderam o fato, dividiam a casa de veraneio perto da praia e disseram que viram Gerhard entrar na água e depois cambalear.

Enterrado no dia seguinte no Cemitério do Rosário, na cidade de Embu, depois de o corpo ser liberado pelo Instituto Médico Legal, a causa da morte não foi conclusiva. Em 1985, após a exumação do corpo e a análise dos restos mortais, é confirmada a verdadeira identidade do carrasco nazista, um dos assassinos mais procurados do planeta.

Atrocidades

Médico em Auschwitz, de 1943 a 1945, o capitão Josef Mengele, da SS (abreviação de Schutzstaffel, organização paramilitar ligada ao partido nazista), fugiu do campo de extermínio dez dias antes da entrada das tropas soviéticas no local.

Nos dois anos em que esteve no comando do “hospital” do barracão 10, centenas de experimentos atrozes em judeus e ciganos foram realizados, segundo anotações e relatos de sobreviventes. As denominadas “pesquisas científicas” incluíam a exposição prolongada a raios-X, cirurgias, administração de medicamentos desnecessários, amputações de membros e inoculações intencionais de bactérias infecciosas.

Reportagem da plataforma de notícias Infobae, com sede em Buenos Aires, assinada por Daniel Cecchini, jornalista investigativo e um dos autores do livro Cárceles, sobre as prisões na Argentina, reporta as atividades de Mengele em Auschwitz. Uma das práticas usadas era transformar gêmeos em siameses, costurando as crianças pelas costas, o que resultava em mortes posteriores por infecção. Seus corpos então eram dissecados para “estudos comparativos” (‘El día que Mengele llegó a Auschwitz y los siniestros experimentos científicos que lo llevaron a ser el ángel de la muerte’, em 23/5/2023).

Tentativas de alterar a cor da íris dos olhos dos prisioneiros por meio de injeções de substâncias químicas também eram feitas juntamente com a extração dos globos oculares de pessoas com cores diferentes de íris que eram assassinadas para a realização dessa prática. Alguns globos eram enviados a Berlim para “análise” e outros eram exibidos em frascos em seu escritório.

Cobaias humanas

Matéria semelhante, ainda no Infobae (7/2/2025), esta do jornalista Alberto Amato, que foi editor da revista Clarín, apresenta o assustador depoimento do médico judeu Vexler Jancu, ex-prisioneiro de Auschwitz. “Ao entrar no consultório de Mengele, vi uma mesa de madeira. Sobre ela havia amostras de olhos. As cores variavam do amarelo pálido ao azul claro, verde e violeta. Os olhos estavam perfurados como borboletas. Pensei que tinha morrido e já estava no inferno."

Amato conta que o general Juan Perón, então presidente da Argentina, conheceu Mengele quando este realizava manipulação genética em animais para produzir gêmeos, “uma obsessão do nazista em Auschwitz” quando se servia de seres humanos como cobaias. Conforme descrição de uma testemunha, o judeu húngaro Miklós Nyiszli, “em uma única noite, Mengele matou pessoalmente 14 gêmeos com uma injeção de clorofórmio diretamente no coração”. Após os assassinatos, ele realizava estudos comparativos nos corpos, muitos deles infectados propositadamente com bactérias do tifo e escarlatina (‘El nazi que se refugió en Argentina, fabricó juguetes y fundó un laboratorio: el final de Mengele, el monstruo que nunca tuvo paz’).

Rede de apoio

Na Itália, antes de embarcarem para a Argentina, Mengele e Eichmann tiveram a ajuda do bispo austríaco Alois Hudal, que era próximo do Cardeal Giovanni Montini, secretário do Papa Pio XII e, posteriormente, do Papa Paulo VI. “Mengele obteve um cartão de identidade da Itália, número 114, em nome de Helmut Gregor. Eichmann tinha o seu, em nome de Riccardo Klement, número 131”, relata Amato.

Uma rede clandestina de oficiais da SS liderada por Hans-Ulrich Rudel, que serviu na força aérea nazista Luftwaffe, organizava as rotas de fuga, geralmente tendo a cidade de Gênova como ponto de embarque. Rudel trabalhava no setor aéreo argentino, desde 1948, e era amigo de Perón.

Com o apoio financeiro da família, estabelecida na cidade de Günsburg, na Baviera, e proprietária da fábrica Mengele Agrartechnik, de máquinas agrícolas, Mengele tornou-se empresário na Argentina. “Fabricava brinquedos, fundou um laboratório e era sócio da empresa Fadrofarm, um laboratório de medicamentos”. Mas, com a captura de Eichman, “dormia com uma pistola Walther carregada debaixo do travesseiro.”

Em 1977, dois anos antes de sua morte, o filho de Mengele, Rolf, valendo-se de um passaporte falso, visitou o pai em uma viagem clandestina ao Brasil. “Ele não admitiu ter feito nada de errado”, afirmou Rolf. “E não demonstrou culpa ou remorso. Disse que estava cumprindo ordens.”

Outras prioridades

Em entrevista ao correspondente Marcelo Ninio, da Folha de São Paulo (2010), Rafi Eitan, que comandou a operação de captura de Eichmann, contou que a inteligência israelense sabia do paradeiro do criminoso nazista. "Fui ao Brasil com outro agente em 1962 e confirmamos que Mengele vivia sob a identidade falsa nos arredores de São Paulo”. Eitan, na época com 84 anos, justificou que o governo desistiu da operação porque estava com outras prioridades como proteger as fronteiras do país. Também não desejava criar um possível incidente diplomático com o Brasil semelhante ao que ocorreu na Argentina (‘Mossad descobriu Mengele no Brasil, mas não o deteve’, em 31/10/2010).

Lembrando que em 1965 o nazista Herberts Cukurs, foragido no Brasil, foi atraído para o Uruguai e executado naquele país por agentes do Mossad, em 23 de fevereiro. Responsável por milhares de mortes de judeus na Letônia e conhecido como o “Açougueiro de Riga”, ele era empresário bem sucedido no Rio de Janeiro, onde vivia desde 1946. Um dos agentes, Yaakov Meidad, do grupo que capturou Eichmann, se passou por empresário austríaco em visita ao Rio e fez uma oferta de negócios a ser acertada no país vizinho. O corpo de Cukurs foi encontrado pela polícia uruguaia onze dias depois, em um baú de madeira, com um bilhete: "Aqueles que não esquecerão" (‘Os carrascos nazistas que fugiram para o Brasil’, Deutsche Welle, em 3/2/2025). 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Instituição judaica reúne em evento governadores de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Rio Grande do Sul

/ Sheila Sacks /

No jantar que abriu a 56ª Convenção da Confederação Israelita do Brasil (Conib), sábado à noite (8/11) ,no Clube Hebraica, em São Paulo, as estrelas foram os governadores Tarcísio de Freitas (São Paulo), Claudio Castro (Rio de Janeiro),  Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul). Juntos, esses estados somam perto de 40% da população do país, cerca de 82 milhões de pessoas de um total de 213,4 milhões, segundo o IBGE (28/8/25).

A saída do Brasil da Aliança Internacional em Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês) foi criticada pelo governador de São Paulo, o estado brasileiro mais populoso (46 milhões), que considerou “sem sentido” a atitude do governo.

Em seu discurso, Tarcísio de Freitas, potencial candidato à Presidência da República nas eleições de 2026, expressou seu agradecimento à comunidade judaica. "O Estado de São Paulo é muito grato à comunidade judaica e, obviamente, a gente tem que externar isso em todos os momentos, principalmente no momento em que a gente, às vezes, se aborrece ou fica indignado com algumas atitudes.” E exemplificou: “Não faz sentido, por exemplo, o Brasil abandonar a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Mas esse tempo sombrio vai acabar e o Brasil vai voltar para a Aliança”.

Destacou ainda o papel estratégico que o estado de Israel exerce na geopolítica internacional  “contra o avanço da intolerância, contra o avanço de regimes totalitários, contra o avanço do terrorismo.”

O prefeito da cidade de São Paulo, Ricardo Nunes, também marcou presença. Em 2023, ele assinou o documento de adesão à definição de antissemitismo da IHRA, tornando a cidade de São Paulo autorizada a usar essa definição  como recurso educacional para abordar e prevenir atividades relacionadas a preconceitos e discriminação motivados por antissemitismo, e evoluir na direção de uma legislação contundente no sentido de punir situações dessa natureza.

Dias depois do jantar da Conib, ele vetou o show do rapper Kanye West programado para o Autódromo de Interlagos. “Em equipamento público da prefeitura, ninguém que faça apologia ao nazismo vai tocar ou cantar nem uma palavra”, afirmou Nunes.

Violência urbana

O governador do Rio em seu discurso condenou a violência urbana e comparou as ações do crime organizado com atos terroristas pelo clima de violência e insegurança que produzem nas sociedades. “Não é paz aceitar que nos violentem todos os dias, mas é paz, sim, lutar por um mundo mais seguro, mais fraterno que todos, absolutamente todos, têm o direito de ir e vir salvaguardado“, disse.

Sobre a polêmica em relação à recente operação policial na cidade do Rio para deter o avanço de facções criminosas, ocorrida em 28 outubro nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, e a resistência do governo federal em designar as organizações criminosas como terroristas, o governador Claudio Castro foi incisivo:Não aceitaremos mais instituições narcoterroristas, e é isso que eles são: instituições narcoterroristas. Não aceitaremos mais que o Judiciário, com todo o respeito que eu tenho a ele, e o governo central apoiem terroristas” (site O Antagonista, em 9/11).

O enfrentamento com os criminosos da facção Comando Vermelho recebeu a aprovação de 67% dos brasileiros conforme a pesquisa Quaest divulgada em 12/11. A mesma percentagem também “não considerou que a polícia empregou força exagerada na operação”.

A fala de Castro teve repercussão nacional e o jornal Folha de São Paulo postou no Facebook: “Governador do Rio foi tietado e aplaudido de pé em jantar da Conib, em SP. Ele disse que combate às facções seguirá queira ou não o Judiciário.” Em 2024, o governador do Rio igualmente assinou a declaração de adesão à definição funcional de antissemitismo da IRHA.

Visita a Israel

Por sua vez, o governador de Goiás elogiou a operação policial no Rio de Janeiro, ressaltando que nenhum civil foi atingido. O Diário de Goiás, em sua edição digital (9/11), destacou as declarações de Caiado sobre o governo do PT, que levaram a assessora do presidente Lula, Clara Ant, presente no evento, a se retirar do salão em meio ao discurso. Disse Caiado: “O governo atual, do PT, do Lula, é um governo que prega o radicalismo, prega o ódio de classe, prega uns contra os outros, ricos contra pobres. Isso é inadmissível, isso é inaceitável.” Ele ainda acrescentou que o governo federal “é complacente, conivente com o narcotráfico”.

Em março do ano passado, os governadores Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado estiveram em Israel e se encontraram com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em Jerusalém, quando externaram solidariedade aos israelenses em sua luta em Gaza contra os terroristas do Hamas.

Em entrevista ao portal IG (9/11), Caiado demonstrou sua admiração pelo estado de Israel. Ele ressaltou as qualidades de um país pequeno, territorialmente, mas que faz do conhecimento a sua grandeza. “Um país que tem 22 mil km², um pequeno espaço de terra. É um país que vive da pesquisa, da ciência e da qualidade da educação, trazendo cada vez mais alternativas para as pessoas viverem com mais dignidade e qualidade. É um país que eu admiro por ter sua base construída na solidariedade ao ser humano”, elogiou.

Fé e empreendedorismo

O portal de notícias do governo do Rio Grande do Sul deu relevância à presença do governador Eduardo Leite no evento da Conib e citou trechos de seu discurso. “A história do povo judeu é uma história de perseverança, de fé e empreendedorismo. Se hoje é uma noite de celebração, é também uma noite de chamado e compromisso. No Rio Grande do Sul, assinamos a carta de definição do antissemitismo da aliança internacional da memória do Holocausto, deixando muito claro nosso compromisso”, afirmou Leite.

O governador também enalteceu a força do povo judeu na superação de dificuldades e desafios. “Os povos que se tornaram fortes foram exigidos a isso para poder resistir e sobreviver, como aconteceu com o povo judeu. É uma trajetória que serve de inspiração para o Rio Grande do Sul, que hoje vive um período de reconstrução que exige força e resiliência depois da maior catástrofe climática da história do Estado.”

Em 2024, o Rio Grande do Sul foi assolado por enchentes devastadoras que impactaram 478 das 497 cidades do estado, causando alagamentos, inundações e deslizamentos de terra, afetando 2,4 milhões de pessoas.

Eduardo Leite, que tem 40 anos e é o primeiro governador reeleito da história do Rio Grande do Sul, falou ainda sobre o papel do representante político que “precisa saber conviver com as diferenças e contra a cultura do ódio”, liderando a sociedade para a direção correta. “Que possamos fazer desta noite uma escolha pela capacidade de convivência sem destruição, além de um momento de homenagem e gratidão ao povo judeu por tudo o que entregaram e entregam ao Brasil.”

De acordo com o Congresso Mundial Judaico (WJC, na sigla em inglês), vivem no país 92 mil judeus, sendo a segunda maior comunidade judaica da América Latina, atrás da Argentina (171 mil) e à frente do México (40 mil).

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Jornalistas em exílio forçado é “ferida aberta” na América Latina

/ Sheila Sacks /

Com apoio da Unesco, o relatório Vozes Deslocadas (Voces Desplazadas) - que faz um retrato da situação de risco que envolve profissionais de jornalismo na América Latina -  revela que 913 jornalistas, no período de 2018 a 2024, tiveram que sair de seus países de origem para resguardar sua segurança e a de seus familiares.  De acordo com os autores do estudo, “o número representa uma ferida aberta nas democracias latino-americanas” (LatAm Journalism Review, em 9/9/2025).

Para o coordenador da pesquisa, Óscar Mario Jiménez, da Universidade de Costa Rica, a saída forçada de jornalistas cria “um vácuo de notícias” que acaba afetando a própria democracia. A perseguição política, as ameaças do crime organizado e a corrupção de agentes paraestatais estão entre as principais causas dos deslocamentos desses profissionais. 

Venezuela lidera

Dos 15 países com jornalistas obrigados a cruzar as fronteiras, a Venezuela, com 477 profissionais, a Nicarágua (268)  e Cuba (98) representam 92% dos deslocamentos na região. Em seguida vem a Guatemala (19), Equador (13), Haiti e El Salvador (10, cada um). Por outro lado, sete países não tiveram registro de saída forçada de jornalistas no período: Brasil, Costa Rica, Belize, Panamá, República Dominicana, Porto Rico e Uruguai.

O relatório também destaca que de janeiro de 2018 a março de 2025 foram mortos 169 jornalistas na América Latina e Caribe, segundo o Observatório de Jornalistas Assassinados da UNESCO. Com 81 mortes, o México encabeça a lista de países com mais assassinatos, seguido pela Colômbia (22), Haiti (16), Brasil e Honduras (12, cada um) e Guatemala (11), entre outros com números menores.

É a face mais trágica da violência e representa perdas irreparáveis de vidas humanas e golpes diretos à liberdade de expressão. O estudo menciona as ações do narcotráfico que têm um efeito inibidor que afasta o jornalista de realizar reportagens investigativas ou críticas, gerando um aumento da autocensura e “zonas silenciadas” impostas pelo medo de ameaças e coerção.

Com 86 páginas e escrito em espanhol,  o trabalho divulgado em julho deste ano foi desenvolvido em conjunto com o Programa de Liberdade de Expressão e Direito à Informação da Universidade da Costa Rica; a Organização de Liberdade de Imprensa Fundamedios; e a Cátedra Unesco em Comunicação e Participação Cidadã da Universidade Diego Portales, no Chile. A Unesco apoiou o projeto através de seu programa voltado para o direito à informação e segurança dos jornalistas.

Dificuldades no exílio

Entre os países que mais recebem jornalistas em fuga estão a Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Espanha, Estados Unidos e Canadá. A pesquisa evidencia, porém, que os profissionais deslocados enfrentam muitas dificuldades como a discriminação e xenofobia na busca de emprego formal, impedimentos legais, dependência de financiamento internacional, perseguição transnacional e rupturas familiares que afetam seu bem estar físico e mental e muitas vezes os impedem de desenvolver um projeto de vida estável.

Em consequência, muitos abandonam o jornalismo gerando com isso “zonas de silêncio e desertos informativos”, tornando mais vulnerável o direito da liberdade de expressão na região, tanto individual quanto coletivo.

 A pesquisa identificou que para os jornalistas no exílio a profissão supera a noção tradicional de “produzir notícias”, constituindo-se em “uma forma de ativismo democrático, um mecanismo de conservação da memória histórica, uma maneira de lidar com o deslocamento e uma prática que permite se sentir plenamente seguro e livre”.

O grupo de pesquisadores realizou entrevistas virtuais, entre outubro e dezembro de 2024, com representantes de 20 organizações nacionais e internacionais de diversos países latino-americanos que trabalham com jornalistas em situação de deslocamento. Também ouviu representantes de associações de imprensa, como a do Uruguai, e a Federação Nacional de Jornalistas (Brasil), além de enviar questionários à organização Repórteres Sem Fronteiras e a rede Voces del Sur, na qual  faz parte a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Em paralelo, foi implementada uma enquete digital respondida por 98 jornalistas no exílio registrados nas instituições constantes no estudo. Apurou-se que 32 abandonaram a profissão e 64 seguiram exercendo o jornalismo, às vezes de forma independente, mas sem uma remuneração adequada e muitos de forma precária. 

Em relação às mulheres jornalistas obrigadas a trabalhar em exílio, a pesquisa constatou que a intimidação é mais cruel, inclusive utilizando estratégicas específicas como a exposição das imagens dos filhos em redes sociais como forma de pressão para que não publiquem críticas sobre o país de origem. Em algumas situações, as crianças se encontram longe da mãe sob a guarda de parentes.

Um bem comum

O estudo também abre um capítulo sobre o conceito de jornalismo, citando fontes da Unesco  que o classificam de “um bem comum na medida em que é de interesse público para as democracias que as pessoas tenham acesso à informação verificada”. Menciona ainda um dos informes da ONU sobre o direito à liberdade de expressão (2012), quando o então relator especial Frank LaRue afirma que o jornalista é quem “observa, descreve, documenta e analisa os acontecimentos, assim como documenta e analisa declarações políticas ou qualquer proposta que pode afetar à sociedade, com o propósito de sistematizar as informações e reunir  fatos e análises para informar aos setores ou ao conjunto da sociedade”.

Relembra igualmente que um ano antes o Comitê de Direitos Humanos do Conselho Econômico e Social da ONU já tinha emitida a Observação Geral nº 34 sobre liberdade de opinião (artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) que assinala que na função jornalística “participam uma ampla variedade de pessoas, aí incluídos analistas e repórteres profissionais de dedicação exclusiva, autores de blogs e outros pessoas que publicam por sua própria conta na imprensa, internet e em outros meios de comunicação” (pág.22 do relatório).

Com base em várias resoluções e convenções aprovadas por organizações internacionais, o estudo subscreve os enfoques abordados e afirma que “o exercício  do jornalismo é uma prática indissociável ao direito à liberdade de expressão”.

Epicentro global do crime

Para a rede Voces Del Sur a expansão das estruturas do narcotráfico converteu a América Latina no “epicentro global do crime”. Em seu informe de 2023, a rede, que reúne 17 organizações da sociedade civil, assinala que as autoridades políticas são as que mais ferem a liberdade de expressão e da imprensa na região. “É possível observar um claro padrão de repressão estatal sistemática contra o jornalismo independente através de técnicas que incluem, entre outras, o uso político da pauta estatal, a propagação de discursos estigmatizantes, detenções arbitrárias, fabricação de processos judiciais, restrições de acesso à informação pública e a criação de leis que se contrapõem às normas internacionais e interamericanas de direitos humanos”.

No quadro demonstrativo sobre as causas responsáveis que forçam os jornalistas a procurar refúgio em outro país estão listados, pela ordem, as autoridades governamentais, o crime organizado, agentes paraestatais corruptos, poder judiciário, ministério público e as indústrias extrativas.

O relatório também ressalta que o sistema de mídia na América Latina é pouco competitivo e mantém vínculos não transparentes com setores dos poderes político e militar, assim como apresenta altos níveis de concentração de propriedade, publicidade e audiência. Na última década, a proliferação das redes sociais e as plataformas digitais, além de aumentar os desafios em termos de desinformação, também provocou uma redução de oferta no mercado de trabalho formal dos jornalistas, principalmente tratando-se de mídia impressa.


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Sites governamentais desempenham papel importante na checagem de notícias online, aponta estudo

 / Sheila Sacks /

Relatório divulgado este ano pelo Reuters Institute, instituição britânica especializada no estudo do Jornalismo, mostra que mais da metade do público consultado (58%) afirma estar preocupada com o que é real e o que é falso quando se trata de notícias online.

Em sua 14ª edição, o Digital News Report 2025, disponível na Internet, coletou dados de quase 100 mil pessoas em 48 países de cinco continentes, em uma análise abrangente do contexto dos mercados digitais.  Quando perguntada, a  maioria dos entrevistados identificou duas fontes principais a recorrer quando existem dúvidas sobre a veracidade da informação: o canal de mídia jornalística em que confiam (38%) e os sites governamentais (35%). As redes sociais foram mencionadas por 14% dos entrevistados. 

Para a verificação de uma notícia específica, o maior percentual dos pesquisados (44%) respondeu que também recorre às fontes oficias representadas pelos sites governamentais. Em seguida, 35% disseram que acessam sites especializados e, logo abaixo, empatados em 26%, aparecem a Wikipedia e a mídia jornalística tradicional. 

O fato reforça a importância e a responsabilidade dos jornalistas que trabalham nas assessorias de comunicação social de órgãos públicos nas várias instâncias de governo. 

Influenciadores e políticos

O relatório de 170 páginas verificou que a preocupação com notícias falsas é maior entre o público dos Estados Unidos e da África (73%), e mais baixa na Europa Ocidental (46%). Quando se trata de fontes subjacentes de informações falsas ou enganosas, influenciadores e personalidades on-line são vistos como a maior ameaça em todo o mundo, juntamente com políticos nacionais (47%).

A preocupação com influenciadores é maior em países africanos como Nigéria (58%) e Quênia (59%), enquanto os políticos são considerados a maior ameaça nos Estados Unidos e Espanha (57%), e em grande parte da Europa Oriental, incluindo Sérvia (59%), Eslováquia (56%) e Hungria (54%).

A mostra revela ainda que pessoas mais jovens, na faixa de 18 a 34 anos, e entrevistados de 35 anos ou mais, tendem a confiar em iguais fontes de busca e checagem. A diferença estaria no fato de que as pessoas mais jovens são muito mais propensas a dizer que confiam em comentários de outros usuários, mídias sociais e chatbots de IA.

Tratando-se de redes sociais, 21% dos mais jovens as usariam contra 12% dos mais velhos. A diferença também ocorreria no que se refere aos chatbots de IA, nomeados por 13% da ala jovem e 7% pelas pessoas com mais de 35 anos.

Nível educacional

Dados da pesquisa também apontam que o nível educacional tem influência nas opções de ferramentas utilizadas na checagem das informações. Observou-se que os entrevistados com níveis mais baixos de educação formal (21%) estão muito menos propensos a dizer que recorreriam à mídia de notícias, fontes oficiais, mecanismos de busca ou verificador de fatos, ao contrário daqueles com níveis mais altos de escolaridade (33%).

Outro sinal relativamente positivo é que a confiança geral nas notícias (40%) permaneceu estável pelo terceiro ano consecutivo. A proporção de assinantes que pagam por notícias online se conservou em 18% em um conjunto de 20 países mais ricos – com a maioria ainda satisfeita com as ofertas gratuitas.

A análise da pesquisa foi divulgada pelo professor Rasmus Kleis Nielsen, professor de Jornalismo na Universidade de Copenhague e diretor do Reuters Institute entre 2018 e 2024 (‘How the public checks information it thinks might be wrong’, ou em tradução livre, 'Como o público verifica informações que podem estar erradas', em 17/6).

Menos TV como fonte de notícia

Sobre o Brasil, o relatório observa que após décadas do domínio da TV aberta, o mercado de mídia no país vem sendo desafiado pelas plataformas digitais e serviços de streaming. Em 2013, 75% dos brasileiros tinham a TV como fonte de notícias e em 2025 apenas 46%. A maioria dos brasileiros (78%) busca informações online e 17% pagam pelo serviço.

As notícias impressas também tiveram uma forte queda no período, de 50% para 10%, enquanto as mídias sociais evoluíram de 47% para 54%, sendo as principais fontes de notícias para 33% dos brasileiros. Tratando-se de dispositivos de acesso às notícias, a TV registrou uma queda consistente, de 81% para 52% , com o celular dominando em 82% ( em 2013 eram 23%).

Sobre o nível de confiança das notícias apresentadas nas diversas mídias houve uma queda de credibilidade no período de 2015 a 2025, de 62% para 42%, notadamente com as notícias on-line. O relatório assinala que 67% dos brasileiros se preocupam com as fake news.

No que diz respeito ao alcance de público, apesar da rede Globo estar à frente em termos de abrangência no noticiário de TV ( 41% ) e notícias online (32%), o grau de confiança é menor (55%) em relação a outras emissoras, como a SBT News (64%), rede Record (62%) e Band (59%). A rede Globo também apresenta a maior taxa dos que não confiam (29%).

No caso de notícias impressas, o jornal O Globo soma 54% de credibilidade, um pouco acima de O Estado de São Paulo (53%) e Folha de São Paulo (52%). Porém, o percentual dos que não confiam é maior tratando-se de O Globo (27%) em relação aos jornais paulistas, 23% e 26% respectivamente. 

O relatório destaca que o Brasil ocupa a 63ª posição entre 180 países no índice de liberdade de imprensa - World Press Freedom Index Score 2025 – da organização Repórteres Sem Fronteiras. Dos oito países do continente americano incluídos na pesquisa, o Brasil é superado apenas pelo Canadá (221ª) e Estados Unidos (57ª) , estando em melhor posição de que o Chile (69ª), Argentina (87ª), Colômbia (115ª), México (124ª) e Peru (130ª).