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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Memorial do Holocausto no Rio terá árvores da Mata Atlântica e bosque de Oliveiras

 Sheila Sacks /

Monumento está localizado no Mirante do morro do Pasmado, em frente à enseada de Botafogo e do Pão de Açúcar /



Inaugurado em uma manhã chuvosa de domingo, 13 de dezembro de 2020, terceiro dia das Festas das Luzes (Chanuchá) do ano judaico de 5781, o Memorial às Vítimas do Holocausto no Rio de Janeiro, no Parque Yitzhak Rabin, é o mais novo símbolo de tolerância e integração na cidade mais famosa e emblemática do país.  

Instalado em um ponto nobre da Zona Sul do Rio, com vista para a enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar,  pontos turísticos dos mais visitados da América do Sul, o memorial ganhou uma produção paisagística que mescla árvores nativas da Mata Atlântica e espécies características da região do Oriente Médio. Espera-se que em pouco mais de dois anos o projeto ambiental se destaque na paisagem.

O monumento com 20 metros de altura, em forma de obelisco, representa os 10 mandamentos tendo na base a inscrição “Não Matarás”. Também será construída uma edificação de 1,6 mil metros quadrados que funcionará como uma galeria circular de memória do Holocausto e espaço para exposições temporárias, exibição de filmes, palestras e atividades educacionais.



O museu ficará no subsolo com uma exposição permanente sobre a vida judaica antes, durante e depois do Holocausto: como as pessoas viviam, a ascensão do  nazismo, as perseguições e mortes, as formas de resistência e as dificuldades posteriores para aqueles que perderam tudo.

Com investimentos privados em torno de R$ 15 milhões, o memorial do Rio, pela localização privilegiada, será um dos mais visitados do mundo. Um projeto que conta com o apoio da prefeitura da cidade e a perseverança das lideranças judaicas locais.  A previsão é que o complexo seja aberto em setembro com acesso gratuito para alunos e professores da rede pública.

Meio ambiente integra o projeto

Serão plantadas 7 mil novas mudas em torno de toda a área do memorial. Ano passado foi concluída a retirada de todo o lixo e da vegetação  que crescia desordenada pelas encostas.



De acordo  com matéria publicada no site oficial da Prefeitura do Rio (24.09.2020), “ a requalificação do parque prevê a criação de dois novos bosques; a construção de uma trilha rústica de 400 metros circundando o Memorial do Holocausto; o plantio de 600 mudas de espécies da Mata Atlântica, no bosque do setor sul ao longo da trilha; criação de três corredores visuais com visão panorâmica da enseada de Botafogo e do Pão de Açúcar nas faces norte e leste; e o plantio de 6 mil mudas na face norte e leste.”



O texto prossegue, detalhando as espécies a serem plantadas e sua localização: “Os dois novos bosques – o de Israel e das Oliveiras – vão receber 120 mudas de espécies representativas do Oriente Médio, como oliveiras, cedro-do-líbano, tamareiras e figueiras. Além disso, o projeto do novo parque prevê também ornamentação florística em alguns pontos. Como no entorno do Memorial, haverá uma moldura florística com o plantio de lantanas, espécies muito resistentes a longas exposições ao sol. E em torno do obelisco do Memorial, 20 mudas de ipê branco para compor a ornamentação.“



Também são destacados o plantio de mudas nativas da flora carioca e espécies frutíferas: “Os corredores visuais não terão plantio de espécies arbóreas, como no antigo Mirante do Pasmado, justamente para não fechar a paisagem dos usuários da trilha. Em seu lugar, serão plantadas espécies de porte baixo como bromélias, bouganvilles e alamandas, espécies nativas cariocas. Nas margens da trilha serão plantadas espécies frutíferas nativas com o objetivo de proporcionar aos visitantes uma experiência gustativa e visual. Na face sul do parque serão plantadas 200 mudas de orquídeas e bromélias cariocas além de helicônias e mudas de espécies frutíferas.”


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Agência israelense reinicia cursos no Paraguai

 Sheila Sacks  /

País é um dos grandes exportadores de carne kosher para Israel /


A Agência Israelense de Cooperação Internacional (Mashav) reiniciou em dezembro último (2020) suas atividades no Paraguai, com apoio da Embaixada de Israel do Uruguai e do Centro de Tecnologia Agropecuária do Paraguai (Cetapar). Desde setembro de 2018, permanece fechada a embaixada de Israel em Assunção por conta da decisão do governo paraguaio de voltar atrás da decisão de transferir a sua representação diplomática de Tel Aviv para Jerusalém.

O fato aconteceu depois das eleições presidenciais quando o atual presidente Mario Abdo Benitez assumiu o poder em 15 de agosto de 2018. Em pouco mais de um mês, ele anunciou o retorno da embaixada para Tel Aviv e, em reação, o primeiro ministro Benjamin Netanyahu comunicou o imediato fechamento da embaixada de Israel no Paraguai e o cancelamento de suas atividades. O Paraguai foi um dos primeiros países a transferir sua embaixada para Jerusalém, no início de 2018, na gestão do presidente Horácio Cartes.



Um dos grandes exportadores de carne kosher para Israel, o Paraguai, em 2020, não interrompeu o seu vínculo comercial com Israel. Apesar da pandemia e depois de cumprir o período de quarentena, vários rabinos estiveram no país para o trabalho de controle e certificação do abate de animais de acordo com a lei judaica. Além da carne, o Paraguai exporta outros produtos com certificação kosher, como sucos cítricos concentrados, soja, amido grãos, oleaginosas, arroz e erva-mate, entre outros.

A embaixada do Paraguai em Tel Aviv continua aberta, tendo à frente Max Haber, que desde 2013 exerce essa função. Estima-se que vivem em torno de 300 paraguaios em Israel.

Curso com apoio tecnológico

Mais de 40 profissionais paraguaios participaram desse primeiro curso online, pós 2018, patrocinado por Israel e dirigido para atividades agrícolas. Nesse caso específico, para a produção intensiva de tomate, manejo de fertilização e comercialização do produto. Cinco especialistas israelenses ministraram o curso apresentando as inovações no setor. A Cetapar já anunciou que planeja instalar em breve um centro de excelência em tecnologias de irrigação com o apoio do governo de Israel.




De acordo com o jornal La Nación, a cooperação entre os governos paraguaio e israelense tem mais de 60 anos e abrange dezenas de cursos de especialização profissional, com bolsas de estudos e treinamentos realizados em centros avançados de Israel. São cursos de agricultura, educação, desenvolvimento social, comunicação, inovação, empreendedorismo, segurança cidadã, entre outros. Também estendido para a competitiva área de criação de negócios com modelos inovadores, as chamadas Startups. 

A Mashav é a Agência Israelense de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento no Ministério das Relações Exteriores, responsável pelo desenho, coordenação e implementação dos programas mundiais de desenvolvimento e cooperação do Estado de Israel nos países em desenvolvimento.

Mais negócios em 2021

O diretor da Divisão América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Modi Ephraim, em palestra virtual indicou que as relações bilaterais entre os dois países vão se intensificar em 2021, principalmente no setor econômico. Está nos planos, entre outras iniciativas, a instalação de um escritório comercial em Assunção para ativar as atividades nessa área.

Ex-embaixador de Israel no Peru (2011 a 2014), Ephraim elogiou a decisão do governo paraguaio de incluir o grupo xiita libanês, Hezbollah, apoiado pelo Irã, na lista de organizações consideradas terroristas. Isso se deu em agosto de 2019 e a iniciativa foi comemorada por Netanyahu nas redes sociais.

Comunidade pequena

Com sete milhões de habitantes, o Paraguai apresentou em 2020 um declínio econômico de cerca de 1%, tornando-se assim o país com menor impacto econômico devido ao efeito da pandemia de Covid-19 na região.




A comunidade judaica no país conta apenas com mil pessoas, a maioria residindo na capital. Possui três sinagogas (uma do Chabad, que oferece atividades complementares para crianças, jovens e adultos), uma escola judaica em tempo integral (‘Escola Estado de Israel’), um museu judaico ( com uma seção dedicada à Shoah) e associações culturais, de direitos humanos e recreativas como B'nai B'rith, Wizo, movimento Hanoar Hatzioni, a Asociasion Shalom y Amigos de Israel e a Unión Hebraica do Paraguay, esta última a principal sede social, esportiva e religiosa da comunidade. O local também abriga a Escola Estado de Israel e uma sinagoga que está entre os dez melhores projetos de arquitetura do mundo segundo a conceituada revista inglesa online Dezeen, de arquitetura e design.




Inaugurada em 2019, o projeto leva a assinatura dos arquitetos paraguaios Horacio Cherniavsky e Viviana Pozzoli. De estilo moderno e despojado, com capacidade de receber 80 pessoas, a sinagoga usa o concreto como revestimento externo e madeira para cobrir teto e paredes. Desde a inauguração, vários eventos religiosos e culturais têm sido realizados em suas dependências.

Encontro com Mengele

E foi no Paraguai, há cinco anos, na data em que se comemora o Dia Internacional do Holocausto (27/1), que a filha de uma sobrevivente de Auschwitz, na Polônia, a paraguaia Flora Tauber, revelou que o criminoso nazista Josef Mengele, em abril de 1965, entrou na joalheria de seus pais, em Assunção, para realizar uma compra.



O depoimento foi dado na solenidade realizada pelo Congresso Paraguaio para lembrar as vítimas do genocídio e celebrar o 70º aniversário da libertação do campo de concentração nazista de Auschwitz (2015). Flora relatou que o médico nazista, conhecido como o “Anjo da Morte” por suas experiências cruéis com prisioneiros, se assustou ao ver os números tatuados no braço de sua mãe, e saiu rapidamente da loja. Ela ainda tentou pegá-lo, mas ele fugiu.

A mãe de Flora, Sonia Tauber passou quatro anos no campo de Auschwitz e pode se refugiar no Paraguai, junto com a irmã, em 1945, logo após o término da guerra. Para isso contou com os esforços do embaixador paraguaio em Paris, que as ajudaram.

O relato foi incluído no livro “Mengele en Paraguay” (2018), do jornalista Andrés Colmán Gutiérrez, uma  investigação histórica sobre os passos do criminoso no país, desde 1951.  Mesmo após a fuga para o Brasil, em 1961, Mengele fazia visitas regulares ao Paraguai.

Morte controversa

Mengele esteve no Paraguai, Argentina e no Brasil, onde supostamente morreu afogado em uma praia da Baixada Santista (SP), em 1979. Documentos do Mossad mostram que o nazista, à época da captura da Eichmann (1960), estava em Buenos Aires, mas que se sentindo ameaçado desapareceu de sua residência. No Brasil, viveu sob o nome falso de Friderieke Gerhard.


Em 1985, seus restos mortais foram exumados e a identidade do criminoso confirmada por peritos nacionais e internacionais, o que foi contestado por outro sobrevivente de Auschwitz, o naturalizado brasileiro Ben Abraham, falecido em 2015. Sua investigação resultou no livro “Mengele: A Verdade Veio à Tona” (1994), também traduzido para o inglês, em que ele afirma que Mengele somente morreu em 1992, nos Estados Unidos, treze anos depois da notícia do afogamento. De acordo com Abraham, o corpo do nazista foi cremado e as cinzas espalhadas para evitar qualquer tipo de reconhecimento.


27 de janeiro de 2021 - Jamais esquecer !

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Museu Judaico de Lisboa: de Alfama para a freguesia de Belém

Sheila Sacks /


Depois de quatro anos de batalhas jurídicas, o projeto do Museu Judaico de Lisboa muda de endereço como advogava a Associação do Patrimônio e População de Alfama, que representa o bairro histórico da capital portuguesa. Em 2016, a comunidade judaica de Lisboa, com o aval da Câmara Municipal, anunciou a obra a ser erguida no Largo de São Miguel, perto de onde se localizava a antiga Judiaria de Alfama,  datada do século 14. Três casarões no largo seriam remodelados para comporem a sede do museu que ganhou inclusive um projeto arquitetônico amplamente divulgado pela mídia local.

Entretanto, nos últimos dias de dezembro (22/12/2020) foi batido o martelo e a Câmara Municipal revogou o protocolo celebrado entre a prefeitura, a organização “Comunidade Israelita de Lisboa”  e a Associação de Turismo da Lisboa (ATL) para criação e funcionamento do museu. Foi instituída a Associação Hagadá ( do hebraico leagid , que significa contar, narrar),  sem fins lucrativos,  para a qual o município de Lisboa concederá  o uso de um terreno na freguesia de Belém  -  entre a Avenida da Índia e a Rua das Hortas - para a construção e funcionamento do novo museu. Dessa vez, o projeto ficará a cargo do arquiteto Daniel Libeskind, que projetou os museus judaicos de Berlim, São Francisco e Copenhague.

Museu judaico-português

Falando pela Associação Hagadá, a ativista, jornalista e escritora Esther Mucznik explicou que o museu judaico não será um “museu de judeus”, mas  um museu português que contará uma história específica, a história e a cultura dos judeus portugueses e a sua contribuição à nação da qual fazem parte.

Coordenadora da Comissão de Instalação do Museu Judaico, desde o seu lançamento, ela defendeu a instalação do prédio em Alfama pelo significado histórico do lugar. Com o novo endereço, o museu ganhará uma dimensão mais ampla, devido ao maior tamanho do terreno, cerca de 4.400 metros quadrados, e sua localização, perto da zona ribeirinha do Rio Tejo e da histórica e turística Torre de Belém.

Para Mucznik, a vida dos judeus em Portugal é uma história judaica e portuguesa, o que significa que ela não pode ser abordada de forma separada da história de Portugal. “Por muito forte que tenha sido o papel da identidade religiosa judaica na matriz do povo judeu, e foi-o sem dúvida alguma, a cultura ibérica foi igualmente decisiva no que hoje chamamos de Sefarad”, destaca.

Na foto acima, a muralha do antigo gueto judeu de Alfama.

Museu do Holocausto no Porto

Em contrapartida, a comunidade judaica do Porto inaugura, nesse início de 2021, o seu Museu do Holocausto, o primeiro da Península Ibérica. O museu retrata a vida judaica antes, durante e após o Holocausto, e apresenta reprodução dos dormitórios de Auschwitz, sala de nomes, memorial , cinema, sala de conferências, centro de estudos e corredores com a narrativa completa da tragédia, através de fotos e vídeos.



Desde 2013, arquivos sobre refugiados que passaram pela cidade do Porto foram compartilhados com o Museu do Holocausto de Washington e agora retornam para serem inseridos no acervo do novo museu. São documentos oficiais, testemunhos, cartas e centenas de fichas individuais. Também dois exemplares de “Sefer Torá” (Rolos da Torá) doados por refugiados à Sinagoga do Porto foram transferidos para o novo museu.

O museólogo Hugo Vaz, que vai administrar o local, acredita no forte apelo educacional do projeto e espera que o novo espaço cultural atraia a visita anual de 10 mil estudantes portugueses, o mesmo número de alunos que visitavam a sinagoga, antes da pandemia.

Abaixo, o link do texto “A Batalha do Museu Judaico de Lisboa”, de 2019.

http://sheilasacks.blogspot.com/2019/07/a-batalha-do-museu-judaico-de-lisboa.html

domingo, 10 de janeiro de 2021

O caso Pollard: desfecho em Israel

Sheila Sacks / 

Cidadão israelense desde 1995, o ex-espião americano de origem judaica, Jonathan Pollard, enfim chegou a Israel, no penúltimo dia de 2020. Recebido no aeroporto pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu com a saudação “Bem-vindo à casa”, Pollard, acompanhado da mulher, beijou o solo ao sair do avião. 

Preso em 1985, e condenado inicialmente à prisão perpétua, ele passou 30 anos na cadeia e mais cinco anos em liberdade condicional. Apesar dos esforços do governo israelense, o governo americano nunca permitiu que Pollard se mudasse para Israel. Ex-presidentes como Clinton e Obama, e o então vice Joe Biden, foram contrários à extradição. Coube a administração Trump, em seus últimos dias, liberar o ex-espião, de 66 anos, que anunciou que vai morar em Jerusalém.

Espionagem e castigo: o caso Pollard Sheila Sacks

Sheila Sacks (publicado em 06.03.2014)

“Eis o que é o justo: o proporcional; e o injusto é o que viola a proporção.” (Aristóteles em “Ética a Nicômaco”, século 4 antes da Era Comum)


Em 2013, diante das revelações do ex-técnico da CIA, Edward Snowden -  de que a NSA (sigla em inglês da Agência de Segurança Nacional dos EUA), em cooperação com os serviços de inteligência britânicos, espionou e-mails de políticos israelenses e do então premiê Ehud Olmert e do ministro de Defesa Ehurd Barak, principalmente em 2008 e 2009 -  a mídia israelense voltou a lembrar de um outro caso de espionagem, de características semelhantes (espionar aliados), em que seu autor foi duramente castigado pelo governo americano.

Tratava-se do caso de Jonathan Pollard,  um ex-funcionário da marinha americana que vazou documentos sigilosos para Israel sobre as atividades de espionagem dos Estados Unidos no mundo árabe. Preso em 1985 e condenado à prisão perpétua em 1987, Pollard cumpre a pena em regime fechado em uma penitenciária federal no estado da Carolina do Norte.

Pedidos a Obama

Diante da notícia da espionagem americana, o ministro da Inteligência de Israel, Yuval Steinitz, se apressou a lembrar que desde a prisão de Pollard os dois países evitam se espionarem mutuamente. Em entrevista ao Canal 2 da televisão israelense, ele admitiu que, além dos estados árabes, também há “países amigos” que os espionam. “Nós não espionamos o presidente dos Estados Unidos. Firmamos compromissos a esse respeito e estamos cumprindo.”

Por sua vez, o primeiro ministro israelense Benjamim Netanyahu, dias depois de a espionagem americana vir à tona, recebeu em seu gabinete a mulher de Pollard e reiterou os esforços realizados por Israel para obter a libertação de seu marido. Na mesma semana, o parlamento israelense (Knesset) aprovou o envio de um pedido oficial ao presidente Barak Obama para soltar Pollard, que desde 1995 tem dupla cidadania. No documento, os parlamentares invocam razões humanitárias para o indulto e as precárias condições de saúde apresentadas pelo prisioneiro. À época com 59 anos, Pollard tinha sido operado de urgência por complicações na vesícula e rins.

Nos Estados Unidos, uma carta a favor da libertação de Pollard também foi enviada a Obama pelo ex-embaixador americano nas Nações Unidas na administração Clinton, o democrata Bill Richardson. Governador do estado do Novo México até 2011 e aliado do presidente, Richardson já foi indicado várias vezes ao Nobel da Paz por seus esforços em prol da libertação de soldados americanos reféns ou prisioneiros na Coréia do Norte, Iraque, Cuba e Sudão.

No pedido de clemência, o político mencionava as autoridades que acompanharam pessoalmente o caso e que já haviam se manifestado publicamente a favor da libertação de Pollard como o ex-secretário de Estado do governo Reagan (1981-1989), o republicano George Shultz; o ex-conselheiro de Segurança Nacional Robert McFarlane que atuou de 1983 a 1985; e William Webster, o chefe do FBI no momento da prisão de Pollard e que também dirigiu a CIA, de 1987 a 1991 (governos Reagan e Bush).

Na carta, Richardson apontava a atuação do então  secretário de Defesa Caspar Weinberger (falecido em 2006) como decisiva para Pollard ser sentenciado à prisão perpétua, apesar do acordo judicial em que o governo se comprometeu a não buscar essa alternativa.

Punição “três vezes” maior

Outra figura importante à época, Lawrence J. Korb, que exerceu o cargo de  vice-secretário de Defesa (1981-1985) e é autor de duas dezenas de livros sobre temas militares e de segurança, observou que Pollard  está preso “três vezes mais tempo do que qualquer um que já tenha fornecido informações  sigilosas a um país amigo ou neutro”. Em visita a Israel, Korb assinalou que a punição a Pollard é desproporcional: “Ele infringiu a lei e precisava pagar o preço, mas a falta de proporção na sua punição vai contra os valores em que eu acredito como americano.”


Ainda em 2013, o veterano comentarista político de rádio e TV, Cal Thomas,  em artigo veiculado em várias mídias, defendeu a comutação da pena de Pollard face “ao escândalo da espionagem americana revelada pelo WikiLeaks”. E citou o memorando confidencial enviado pela então secretária de Estado do governo Bush, Condoleezza Rice (2005-2009), instruindo a embaixada dos EUA em Tel Aviv a espionar Israel. O documento foi publicado pelo jornal britânico “The Guardian”, em 2010.

Tomas também listou algumas personalidades públicas que apoiavam Pollard, entre elas o ex-procurador-geral  da Justiça, o republicano  Michael Mukasey que atuou no governo Bush de 2007 a 2009, e o ex-deputado Robert Wexler, democrata pelo estado da Flórida, de 1997 a 2010. Este último, em carta enviada ao presidente Obama enfatizou que Pollard “é o único cidadão americano  condenado a  mais de 14 anos por esse tipo de delito”.

Reprovado pela CIA

Nascido no Texas, Pollard é oriundo de uma família judaica e seu pai, Dr.Morris, falecido em 2011, foi um microbiologista conceituado, professor emérito de ciências biológicas da Universidade Notre Dame (Indiana), uma das mais prestigiadas universidades católicas dos Estados Unidos. Formado em ciência política pela Universidade de Stanford, na Califórnia, Pollard tentou um emprego na CIA, em 1977, mas foi reprovado no teste de polígrafo, instrumento que registra inúmeros fenômenos fisiológicos como pressão arterial e movimentos respiratórios, usado geralmente como detector de mentiras. Dois anos depois, ele foi contratado pela Marinha para trabalhar na área de inteligência, analisando dados e elaborando relatórios.


Em meados de 1984, já no serviço de análise e investigação naval, mas especificamente no ATAC (Anti-Terrorist Alert Center), Pollard observa que dados importantes para a segurança de Israel não estavam sendo repassados conforme acordo de cooperação estratégica e militar assinado em 1981 pelo secretário de Defesa Gasper Weinberger e o ministro israelense Ariel Sharon. Pelo tratado ou Memorando de Entendimento (MOU – Memorandum of Undestanding), ratificado em 1983, os dois países se propunham a estabelecer um quadro de consulta e cooperação para melhorar a segurança nacional de ambas as nações e para lidar com as ameaças no Oriente Médio, incluindo exercícios militares conjuntos, atividades de preparação de defesa e acesso às instalações de manutenção.

Encontro com israelenses

Por intermédio de um amigo, Pollard entra em contato com um militar israelense em Nova York, o coronel da força aérea Aviem Sella, responsável pelo ataque à usina nuclear iraquiana de Osirak, em 1981. Pollard está convencido de que Israel não estava tendo acesso a informações importantes para se defender de prováveis atos terroristas porque os EUA não desejavam arruinar suas relações com os países árabes produtores de petróleo.

Ele repete esse argumento a Sella que o apresenta ao coronel Yosef Yagur, ex-consultor técnico do Consulado de Israel naquela cidade e agente do Lekem (Bureau of Scientific Relations, em inglês), um setor de inteligência científica e técnica israelense, ligado ao ministério da Defesa, que funcionou até 1986. É o que conta o jornalista e escritor Gordon Thomas no best-seller “Gideon's Spies: The Secret History of the Mossad” (1998), que na versão em espanhol se chamou “Mossad: la historia secreta”. Traduzido em mais de uma dezena de idiomas, a obra é baseada em pesquisas e entrevistas realizadas em Israel com ex-agentes, jornalistas e pesquisadores.

G.Thomas revela que em novembro de 1984 Pollard foi a Paris com sua primeira esposa Anne para ser apresentado pessoalmente ao chefe do Lekem, o lendário Rafael ‘Rafi’ Eitan que em 1960 comandou a captura do carrasco nazista Adolf Eichmann na Argentina.

Por um quarto de século atuando como diretor adjunto de operações do Mossad e assessor pessoal do falecido Ariel Sharon quando este foi ministro da Defesa (1981-1983), Rafi sabia que o chefe do Mossad à época, Nanhum Admoni, reclamava que os EUA não estavam se comportando como “um amigo nas horas boas e más”. Isso porque obtivera informações de que altas autoridades do governo americano mantinham encontros com líderes árabes ligado a Yasser Arafat para discutir a melhor maneira de pressionar Israel para que flexibilizasse sua posição frente às exigências palestinas.

Recusado pelo Mossad

Nos próximos meses e até ser preso, em 21 de novembro de 1985, em frente à embaixada israelense em Washington, onde tentara se refugiar, G. Thomas afirma que Pollard enviou às suas fontes dados valiosos para a segurança de Israel, como detalhes sobre a localização e entrega de mísseis e armas russas para a Síria, e mapas e fotografias de satélites dos arsenais de armas militares e químicas dos sírios, iraquianos e iranianos. Mas, diante da prisão do analista pelo FBI, Sella e Yagur embarcam em um avião da El Al rumo a Israel.

Em 4 de março de 1987, Pollard é condenado à prisão perpétua e sua mulher recebe uma sentença de cinco anos. Sella é indiciado à revelia por um júri federal em Washington que também identifica como conspiradores Rafi Eitan, Yosef Yagur e Irit Erb, ex-secretário da embaixada israelense. Em Israel, o governo institui uma comissão de inquérito, afasta Rafi e Sella de seus cargos e encerra os serviços do bureau.

Em tempo: dois anos antes de Pollard manter contato com Rafi, o ex-analista já tinha se oferecido para atuar para o Mossad que o recusou por considerá-lo “instável”. Segundo G.Thomas, um agente do Mossad em Nova York classificou Pollard de “um homem solitário, com uma visão deformada de Israel”.

Momento difícil

Em Israel, os simpatizantes de Pollard têm acusado Rafi de não ter se empenhado pela libertação de seu informante, o que é contestado pelo israelense: “Estou dedicando meus últimos anos para libertar Pollard. Escrevi uma carta ao presidente Obama pedindo desculpas e o encorajando a soltar Pollard”, revela.

Em 2012, na entrevista ao jornal israelense “Yediot Aharonot”, Rafi contou que entregou provas incriminatórias para os americanos atendendo pedido de Shimon Peres, primeiro-ministro na época. ”Havia um entendimento que após 10 anos a pena de prisão perpétua seria comutada. Entretanto, os EUA negaram o acordo. O governo de Israel tomou a decisão e eu cooperei com os americanos depondo contra o meu informante. Não foi um momento fácil”, admitiu.


Pondo mais lenha na fogueira, Ester Pollard (com quem o prisioneiro se casou em 1993) foi a público dizer que em uma reunião com Rafi e outras pessoas, o ex-espião chegou a comentar que a única coisa que lamentava nesse episódio é não ter “concluído o trabalho” antes de deixar os EUA. Segundo Ester, quando foi perguntado a Rafi o significado de suas palavras, ele respondeu: “Se eu estivesse na embaixada israelense no dia em que Pollard buscou asilo, eu teria colocado uma bala na sua cabeça e não haveria nenhum caso Pollard”, teria dito.

Interessante assinalar que o ex-espião, depois do affair Pollard, voltou-se para a política e elegeu-se deputado, sendo posteriormente nomeado ministro da Previdência de Israel (“pensioners affairs”). Ele visitou Cuba e esteve presente na inauguração de uma “Menorá” (candelabro de sete braços) em uma praça de Havana, ao lado de Fidel Castro (2006). “Persona non grata” ao FBI, Rafi, hoje com 87 anos, esteve várias vezes na ilha de Fidel, como sócio de uma empresa de agronegócios israelense e onde também adquiriu terras, ganhando medalha do governo cubano pelos investimentos realizados na área de agricultura.

Violação do acordo

Casado pela segunda vez com uma professora de Toronto, Pollard tem na mulher Ester uma ponta de lança na luta por sua libertação. Em 1995 ele obteve a cidadania israelense e em dezembro de 1997 autoridades de Israel o visitaram pela primeira vez em sua cela na Carolina do Norte.

Convertido ao judaísmo ortodoxo, Pollard tem recebido o apoio de lideranças religiosas e organizações judaicas que a partir da década de 1990 têm solicitado às autoridades americanas uma reavaliação do caso. Os grupos alegam que Pollard se considerou culpado em junho de 1986 e fez um acordo judicial com o Ministério Público, ignorado pelo juiz federal que o condenou a uma pena máxima por pressão do então secretário de Defesa Caspar Weinberger. Destacam ainda que Pollard sempre negou ter fornecido aos israelenses informações capazes de comprometer os interesses nacionais dos EUA ou que fossem prejudiciais ao país, e que apesar de sua cooperação com a Justiça americana recebeu uma sentença mais dura do que a imposta àqueles que espionam para países inimigos.

Mas o real motivo do agravamento de sua sentença, segundo documentos da CIA liberados em 2012 pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington, estaria no conteúdo de uma entrevista dada por Pollard ao jornalista Wolf Blitzer, âncora da rede de TV CNN e um dos profissionais mais conhecidos da imprensa americana. A matéria publicada no “Jerusalem Post” teve grande repercussão na mídia americana. Do interior de sua cela, Pollard falou sobre os motivos que o levaram a espionar para Israel e o teor das informações transmitidas que abarcavam fotografias da sede da OLP na Tunísia à capacidade bélica de países árabes como a Líbia de Kadhafi.

A entrevista divulgada três meses antes do veredicto provocou irritação nos promotores do caso que consideraram a reportagem, realizada sem a aprovação prévia do Departamento de Justiça, uma violação aos termos do acordo judicial assinado pelo acusado. No julgamento, a promotoria denunciou Pollard por divulgar dados sigilosos na mídia comprometendo fontes e métodos da comunidade de inteligência. O que foi contestado pelos advogados de defesa ao afirmaram que o governo tinha conhecimento da solicitação do jornalista e autorizou a entrevista.

Espionagem mútua

Semanas depois da condenação de Pollard, um novo artigo de Blitzer é publicado no “Jerusalem Post”, também envolvendo Pollard. O pivô é o senador Dave Durenberger, republicano do estado de Minnesota (1978-1995) que presidiu o Comitê de Inteligência da Casa (SSCI – Senate Select Committee on Intelligence). Na reportagem, Durenberger afirma que antes de Pollard espionar para Israel, a CIA recrutou, em 1982, um oficial do exército israelense para espionar contra Israel. Shimon Peres, à época ministro das Relações Exteriores e Yizhak Rabin (1922-1995), ministro da Defesa, negaram as acusações e a CIA também se recusou a comentar a matéria.

A respeito dessas espionagens mútuas, o comentarista político Daniel Pipes, no artigo “Espião versus Espião, América versus Israel”, veiculado no “National Review Online” (7.8.2012), enumera uma série de exemplos de espionagem praticada por ambos os lados e menciona o caso de um ex-oficial da inteligência militar israelense que espionou para a CIA. Trata-se de Yosef Amit que durante muitos anos enviou informações aos americanos sobre o movimento de tropas e a política em relação ao Líbano e aos palestinos até a sua detenção em 1986.

Destaca também as palavras do embaixador de Israel em Washington, Itamar Rabinovich, que atuou entre 1993 a 1996. Segundo o diplomata, o governo americano na época decifrou o código israelense utilizado nas comunicações internas. “Com certeza os americanos grampeavam as linhas telefônicas normais da embaixada. Às vezes eu ia a Israel entregar as informações oralmente.”

Yitzhak Rabin chegou a comentar que Israel descobriu cinco espiões americanos atuando no país entre o final de 1970 e o início de 1980 e que para evitar conflitos com seu aliado optou por expulsá-los ao invés de iniciar um processo que os levariam à prisão.  De acordo com Pipes, “a espionagem é recíproca. Faz parte da rotina, é sabida e implicitamente aceita por ambos”. E conclui: “Visto que esses aliados têm muito em comum, de valores morais a inimigos ideológicos e frequentemente trabalham em conjunto, também não é lá tão preocupante essa espionagem mútua.”

Campanhas a favor de Pollard

Em 1998, o Congresso Mundial Judaico (WJC - World Jewish Congress), que representa as comunidades e organizações judaicas em mais de 100 países, fez um apelo para que os judeus americanos quebrassem o silêncio que há mais de uma década envolvia o caso Pollard. “A acusação de dupla lealdade provavelmente jamais irá desaparecer”, admitiu em memorando a organização, assinalando que o episódio sempre será uma arma política atraente para atacar Israel. No documento, o WJC invoca uma reavaliação do caso e adverte para o perigo de recrutar judeus da diáspora para operações de inteligência e de segurança. “Hoje Israel deve usar de cautela e o caso Pollard pode ser visto como um divisor de águas nas relações de Israel com os Estados Unidos e os judeus americanos (“The Pollard Case: A Reassessment” – janeiro de 1998).


Quatro anos depois, em 2002, Benjamim Netanyahu que ocupava o cargo de ministro de Negócios Estrangeiros visitou Pollard no presídio da Carolina do Norte. Desde 1998, Israel já havia reconhecido o ex-analista como um de seus informantes. Na ocasião, Netanyahu garantiu ao preso que o governo de Israel estava empenhado em sua libertação, respondendo ao questionamento de Pollard sobre o pouco interesse de Ariel Sharon, então primeiro-ministro, em abordar o assunto nos encontros com o presidente americano George W. Bush.

Mas, o fato é que o governo de Israel sempre se empenhou pela libertação de Pollard. Na gestão anterior de Bill Clinton (1993-2001) havia uma grande expectativa de que o presidente americano finalmente indultasse Pollard no apagar das luzes de seu segundo mandato, o que não aconteceu.

Conta-se que durante os preparativos para o acordo entre Israel e a Autoridade Palestina de Yasser Arafat em Wye Plantation, no estado americano de Maryland (1998), o presidente Clinton prometeu a Netanyahu, então primeiro-ministro, que soltaria Pollard. O acordo entre as partes intermediado pelos EUA previa a gradual retirada militar israelense da Cisjordânia e a libertação de 750 presos palestinos. Segundo o próprio Netanyahu, Clinton deu para trás no último minuto, alegando que o diretor da CIA, George Tenet, havia advertido de que a liberação de Pollard desmoralizaria a área de inteligência americana.

Tempo “suficiente”

Dez anos depois do encontro de Netanyahu com Pollard, o ex-diretor da CIA, James Woolsey, se posicionou publicamente a favor da liberdade de Pollard, considerando ”suficiente” o tempo de prisão do condenado. Chefiando a agência de inteligência de 1993 a 1995, Woolsey escreveu uma carta para o “The Wall Street Jounal”, em 2012, explicando sua posição à época que comandava a CIA, quando foi contra um pedido de clemência que favorecesse o ex-analista. “Isso porque ele ainda não tinha completado 10 anos de detenção”, justificou. E fundamentou a sua mudança de posição: “O que eu diria que mudou? A passagem do tempo. Há mais de um quarto de século que ele está preso.”

Woolsey lembrou que apenas dois espiões dos 50 condenados por espionagem a favor da China e da Rússia estão cumprindo prisão perpétua nos EUA: Aldrich Ames e Robert Hanssen, ex-agentes da CIA e do FBI, respectivamente. O primeiro preso em 1994 e o segundo em 2001 (depois de vazar documentos por mais de 20 anos para a União Soviética) causaram danos devastadores aos órgãos de inteligência americanos e particularmente à rede de agentes que atuava para os EUA nos países do Leste Europeu.

Outros espiões, como Randy Jeffries e Sharon Scranage detidos em 1985 (“o ano dos espiões”, dada a quantidade de espiões presos pelo governo americano), foram condenados a três e dois anos, cada um. O primeiro tinha trabalhado no FBI e foi acusado de fornecer documentos secretos à União Soviética. Sharon era funcionária da CIA e espionou para o governo de Gana. Também Robert Kim, um funcionário do setor de Inteligência da Marinha, foi acusado em 1996 de espionar para a Coreia do Sul, país aliado dos EUA, vazando documentos sobre a política americana em relação à Coreia do Norte. Sua pena foi de nove anos, das quais ele cumpriu sete.

E tem o caso do espião Steven Lalas, preso em 1993 por espionar para a Grécia. Funcionário do Departamento de Estado americano, ele passou informações sobre as avaliações dos EUA em relação à antiga República da Iugoslávia; sobre a política americana para os Balcãs e a estratégia turca no Mar Egeu e Chipre. Também repassou nomes e cargos do pessoal da CIA que trabalhava no exterior. Foi condenado a 14 anos de prisão, findos os quais emigrou para a Grécia.

Vozes discordantes

No livro “Territory of lies” (Território das mentiras, em tradução literal, publicado em 1989), Wolf Blitzer escreve que os EUA não compartilham com Israel (ou vice-versa) informações que podem comprometer o que os profissionais de inteligência chamam de “fontes e métodos”. Por exemplo, fontes da CIA são mantidas em segredo porque a organização de coleta de informações ficaria prejudicada se descobertas. Fontes americanas em estados árabes amigáveis como Egito, Arábia Saudita e Jordânia também não são reveladas para Israel.


A respeito do livro de Blitzer, que conta a história de Pollard de forma favorável ao acusado, o jornalista investigativo Robert I. Friedman - também de origem judaica e precocemente falecido em 2002, aos 51 anos – criticou duramente o enfoque pró-Pollard apresentado na obra. Escrevendo para uma das revistas mais influentes dos EUA, “The New York Review of Books”, Friedman enfatizou que, de acordo com o Ministério Público Federal, Pollard “roubou” informações que nada tinham a ver com as legítimas necessidades de segurança de Israel: um livro de sistemas de comunicação altamente confidencial para interceptar os códigos de outros governos; documentos técnicos sobre projetos especiais da Agencia de Segurança Nacional (NSA) para proteção e salvaguarda das comunicações militares e da inteligência dos EUA; e informações sobre movimentos de navios americanos no Mediterrâneo.

Friedman, que teve a cabeça colocada a prêmio pela máfia russa, em razão de seu livro “Red Mafiya” (2002) que desvenda os bastidores das atividades criminosas dos mafiosos russos nos EUA, analisa que a informação repassada a Israel é um tipo de conhecimento que até mesmo aliados próximos não compartilham. “O custo para o contribuinte dos EUA dos danos causados por Pollard foi estimado por autoridades americanas entre 3 e 4 bilhões de dólares”, assinalou.

Dois outros respeitados jornalistas americanos de ascendência judaica igualmente se posicionaram contra a libertação de Pollard: o editor-chefe da revista de opinião “The New Republic”, Martin Peretz, de 72 anos, e o subeditor e editor responsável pela página de opinião internacional do “The Wall Street Journal“, Bret Stephens, 40 anos. Em artigo publicado em março de 2012, Peretz critica políticos israelenses e judeus americanos que incomodam o presidente Obama pedindo clemência para Pollard. “O presidente não deve ser pressionado para que liberte um espião somente para provar, mais uma vez, que ele é um aliado e um amigo compreensivo. Pollard não é um herói de Israel, seja o que for que seus admiradores possam dizer.”

Ganhador do prêmio Pulitzer de 2013 como o melhor comentarista político, Bret Stephens é mais incisivo em seus comentários no artigo “Não libertem Jonathan Pollard” (em tradução livre), publicado em 18.03.2013. “O que é desigual na sentença de Pollard não é que sua pena foi muito dura”, escreve. “É que as sentenças de espiões como Aldrich Ames, Robert Hanssen e Robert Kim foram muito brandas.”

Em sua opinião, os EUA precisam castigar exemplarmente os traidores dos segredos nacionais. “Isso vale especialmente para aqueles que espionam em nome de países aliados ou que imaginam que o fazem pelo interesse da humanidade como Bradley Manning” (o principal informante do site WikiLeaks de Julian Assange que foi condenado a 35 anos de prisão por vazamento de documentos e telegramas diplomáticos secretos). Stephens tem um programa semanal de política no canal Fox News e foi o jornalista mais jovem a assumir a chefia do “Jerusalem Post” (2002 a 2004), antes de completar 30 anos.

“Eu acuso”

Lembrando as palavras do romancista francês Emile Zola (que há 115 anos escreveu o histórico libelo “J’accuse” no jornal “L’Aurore” a favor do capitão Alfred Dreyfus, de ascendência judaica, vítima de um complô e condenado injustamente por traição), o jornalista italiano Giulio Meotti publicou em 2011 um artigo no “Jerusalem Post” acusando a esquerda israelense e os intelectuais judeus da diáspora de abandonarem Pollard. De família católica, Meotti é colunista do jornal italiano “Il Foglio” e autor do livro “A new Shoah” (‘Um novo Holocausto – a história não contada das vítimas israelenses do terrorismo’), escrito originalmente em italiano e traduzido para o inglês em 2010.

O jornalista destaca em seu artigo que as informações de Pollard ajudaram Israel a se preparar para os ataques de mísseis iraquianos durante a Guerra do Golfo (1990-1991), quando três foguetes Scud de Saddam Hussein atingiram Tel Aviv e não houve vítimas. Por intermédio de Pollard, o governo de Israel não somente conheceu as intenções belicosas do ditador iraquiano, assinala Meotti, como também ficou sabendo da grande quantidade de armas químicas e não-convencionais armazenadas pelo governo de Bashar al-Assad, da Síria. Segundo ele, Netanyahu é o único político de primeira grandeza do cenário político israelense a estar se empenhando verdadeiramente para libertar Pollard.

Meotti passou quatro anos em Israel realizando pesquisas e entrevistas com as famílias atingidas por ataques terroristas. “Dia após dia, são centenas de ataques agressivos e devastadores nos ônibus, cafés, kibbutzim, restaurantes e templos religiosos executados por radicais muçulmanos”, enfatiza o jornalista. Por isso sua discordância em relação à posição radical adotada por muitos judeus americanos que consideram Pollard “um fanático” (Robert Friedman - “The Washington Post”), “uma víbora” (Martin Peretz – “New Republic”) e “uma aberração” (rabino e ativista social Arthur Hertzberg, falecido em 2006).

Negativas à libertação

Em anos recentes, agências de notícias têm periodicamente divulgado informações sobre pedidos do governo israelense aos EUA para que soltem Pollard em troca de possíveis concessões como a libertação de prisioneiros palestinos ou a interrupção dos assentamentos judeus na Cisjordânia. Mas, as negativas do governo americano se sucedem. Em abril de 2012, a Casa Branca rejeitou oficialmente a possibilidade de libertar Pollard em resposta a um pedido formulado pelo presidente israelense Shimon Peres. “Nossa posição não mudou neste assunto”, afirmou o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional do gabinete de política externa de Obama, Tommy Vietor.

Para piorar a situação, um ex-conselheiro de segurança nacional do FBI, M.E. Bowman publicou um artigo no “New York Times”, em 14 de janeiro de 2014 (‘Não confie neste espião’) lançando a suspeita de que as informações transmitidas por Pollard podem ter sido negociadas pelo governo israelense com a União Soviética para liberar a saída dos judeus da Cortina de Ferro para Israel. A denúncia caberia ao ex-diretor da CIA, William J. Casey, que em 2001 a revelou ao veterano jornalista investigativo Seymour Hersh, ganhador do prêmio Pulitzer e autor de livros sobre geopolítica e assuntos militares.


Fontes:

“Jonathan Pollard: The 'Spy' Still Out in the Cold” – Chicago Tribune, em 11.11.2013;

“Rafi Eitan says US told Israel that Pollard would only serve 10 years” - The Jerusalem Post, em 11.11.2013;

“Just a farmer in Cuba” – Haaretz, em 3.7.2006;

“CIA: Pollard's life sentence due to ‘Post’ interview” - Jerusalem Post, em 17.12.2012;

“The Secret Agent” - The New York Review of Books, em 26.10.1989;

“CIA: Pollard's life sentence due to ‘Post’ interview” - Jerusalem Post, em 17.12.2012;

“CIA Recruitment of Israeli as Spy Told by Durenberger”- Washington Post, em 21.03.1987;

“Spy versus Spy, América versus Israel” -  National Review Online, em  7.8.2012;

“J’accuse on Pollard” – Jerusalem Post, em 22.06.2011;

“Don’t Trust This Spy” – New York Times, em 14.01.2014

  


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O futuro que nos espera, será?

Sheila Sacks / 


Há mais de duas décadas, em 1997, um antigo editor do jornal britânico “The Times” publicou um livro intrigante cuja primeira página se inicia com a citação “o futuro é desordem”, extraída da peça ”Arcádia”, do dramaturgo de origem tcheca Tom Stoppard, 83 anos.

O autor, o jornalista e escritor Lord William Rees-Mogg, falecido em 2012, e que   ganhou o título de nobreza, em 1988, das mãos da dama de ferro Margaret Thatcher,  teve como parceiro um guru de investimentos com livros na área da economia, o  americano James Dale Davidson, de 74 anos

Intitulado “ O Indivíduo Soberano: a futura revolução econômica e como sobreviver e prosperar nela” ( em tradução livre do inglês), o texto previa que a tecnologia digital tornaria o mundo extremamente competitivo, mais desigual e instável. Os almejados estados de bem-estar ficariam impossíveis de financiar, com as sociedades mais fragmentadas, os impostos menos pagáveis e os governos mais fragilizados financeiramente. Assim, em um mundo mais difícil e cruel, apenas a pessoa mais talentosa, ágil, autossuficiente e tecnologicamente apta – o indivíduo soberano – alcançaria sucesso e independência econômica.

Por outro lado, os chamados “perdedores” da economia se voltariam para o nacionalismo e a nostalgia ácida, tentando impedir o movimento do capital e das pessoas através das fronteiras.

Visão apocalíptica

No livro, os autores citam o ano de 2010 como ponto inicial da ascensão desses novos tempos de tecnologia imperial e feroz , assumindo previsões pioneiras como a guerra eletrônica nos sistemas de comunicação, a criação de criptomoedas (moedas digitais), o domínio dos smartphones e a possibilidade de bots online (robôs) imitarem os humanos. Uma visão quase apocalíptica do futuro que recebeu críticas na Inglaterra porque o Ocidente, na época, entrava em um período de relativa prosperidade, igualdade social e otimismo político.

Nos Estados Unidos a obra foi melhor recebida , principalmente pelos acadêmicos da Universidade de Stanford , um dos principais campos de recrutamento da elite do seleto Vale do Silício , na Califórnia, maior centro de startups e empresas globais de tecnologia. Peter Thiel, o criador do PayPal, o primeiro sistema de pagamentos online, confessou em entrevista à revista Forbes, em 2014, que o “Indivíduo Soberano” foi seu livro de cabeceira e fator  fundamental para o sucesso de sua vida profissional.

Uma obra sobre a qual o jornalista e consultor estratégico Alastair Campbell,  principal assessor do primeiro-ministro britânico Tony Blair, classificou de “o livro mais importante do qual você nunca ouviu falar”. Ainda que seus autores não visualizassem o advento de uma pandemia e a implantação do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), acontecimentos históricos que marcaram 2020, acertaram na previsão do crescimento vertiginoso do fluxo e da consolidação das tecnologias digitais, abarcando e influindo em todos os aspectos da existência humana. 

Tecnologia e pandemia 

Analisando 2020 é fácil observar que frente a um coletivo global impactado e fragilizado economicamente por conta da Covid-19 (mais de 80 milhões de infectados e 1.8 milhão de mortos até janeiro de 2020), coube aos mandarins das indústrias farmacêuticas assumirem o protagonismo, como indivíduos soberanos, impulsionados pelo boom de pesquisas científicas na busca de tratamentos e vacinas contra o coronavírus.

 A pandemia, que resultou em produtos e serviços altamente monetizados criou novos bilionários como foi o caso do chinês Zhong Shanshan, 65 anos, dono de uma indústria de água engarrafada  que se tornou  o maior acionista da  gigante farmacêutica Beijung Wantai Biological, produtora de testes e vacina anticovid. Hoje ele é o homem mais rico da China e a oitava fortuna do mundo.

No campo político das nações, o Reino Unido se impôs como indivíduo soberano em relação ao coletivo europeu com a destemida iniciativa do Brexit -  - junção das palavras “Britain” (Bretanha) e “Exit” (saída) -, após 47 anos integrando a União Europeia. Desde então, bandeiras e símbolos britânicos foram retirados do Parlamento e do Conselho Europeu e, já a partir de 2021, mudam as relações comerciais, de trabalho e de trânsito no bloco, algo impensável há poucos anos. Uma dissidência que implica na quebra da aparente solidez da unidade europeia, construída a partir de 1993 e que tem, como símbolo maior, a queda do Muro de Berlim, ocorrida em 1989.

Enfim, o horizonte que se avista com a imposição do primado das tecnologias digitais traz um aprofundamento da crise social, alijando pessoas de empregos tradicionais, eliminando postos de trabalho, desordenando as finanças das nações, concentrando riquezas transnacionais e configurando um novo mundo de falsas utopias e ansiedades.  Por seu lado, o nacionalismo exacerbado provocará rupturas internas e externas, abalando o conceito político de solidariedade entre povos e nações.

Já no campo da ciência, cientistas alertam para a possibilidade de novas pandemias oriundas da vida selvagem transmitidas para os seres humanos. O presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), o pesquisador Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, afirma que mais de 99,9% da virosfera do planeta não é conhecida. Apenas cerca de 10 mil vírus estão catalogados e a estimativa é que devam existir vários milhões de vírus, passando talvez do bilhão. Um conhecimento pífio e preocupante sobre esses terríveis agentes de doenças.