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terça-feira, 12 de maio de 2026

Na guerra das civilizações, um Ocidente acuado e complacente

/ Sheila Sacks /

Em artigo publicado no jornal The Washington Times (5/5/2026), o jornalista Clifford May, presidente da Fundação para a Defesa das Democracias (The Foundation for Defense of Democracies -FDD), alerta sobre a dificuldade de negociar uma paz duradoura com o Irã devido a sua doutrina religiosa e um histórico de conflitos que “minam as perspectivas” de um acordo real.

Sob o título “Iran rulers’ ideology make lasting peace deal unlikel” (‘A ideologia dos governantes do Irã torna improvável um acordo de paz duradouro’, em tradução livre), o texto enuncia uma série de atos terroristas a partir da instalação do regime autoritário dos aiatolás, em 1979. Seu autor é um veterano profissional, de 75 anos, que trabalhou como repórter, correspondente estrangeiro e colunista político em várias mídias, e foi editor da revista Newsweek e do jornal The New York Times.  

Com sede na capital americana, a FDD é uma organização independente fundada após os ataques de 11 de setembro de 2001 que reúne especialistas e acadêmicos em segurança nacional e política externa. A instituição produz pesquisas e relatórios nas áreas de governo, inteligência, forças armadas, economia e tecnologia.   

 Reféns por 441 dias

No artigo em questão, entre centenas de atos terroristas o jornalista destaca a tomada da embaixada dos EUA em Teerã, e o sequestro de diplomatas americanos mantidos como reféns por 444 dias (de novembro de 1979 a janeiro de 1981), ocorrida menos de um ano da instalação da república islâmica, após a deposição do Xá Reza Pahlavi e a eliminação da monarquia iraniana.

Também lembra que, quatro anos depois, atentados em Beirute organizados pelo Irã mataram 241 militares americanos que atuavam nas forças de paz; e em 1996, outro ataque apoiado pelo Irã, desta vez na Arábia Saudita, contra as Torres Khobar (um complexo de moradia para militares) resultou na morte de 19 soldados das tropas americanas.

 Prosseguindo, May escreve que durante a Guerra do Iraque, de 2003 a 2011, “o regime islâmico fabricou foguetes, projéteis perfurantes e artefatos explosivos improvisados ​​para uso pelas milícias xiitas que atuavam no Iraque. Pelo menos 603 militares americanos foram mortos pelo uso dessas munições, segundo o Pentágono”.  E acentua que após o atentado terrorista do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, a Resistência Islâmica do Iraque (The Islamic Resistance in Iraq - IRI), uma coalizão de milícias xiítas financiada pelo Irã, atacou as forças americanas no Oriente Médio mais de 180 vezes.

 “Ao longo dos anos, houve apenas uma resposta significativa à política declarada de Morte à América dos autoproclamados revolucionários islâmicos do Irã e de seus grupos terroristas aliados: em 2020, o presidente Trump ordenou um ataque com drone que eliminou Qassem Soleimani, o mentor terrorista do regime (comandante da Força Quds do Irã, responsável por atos terroristas no exterior)”, afirma.

 Arma nuclear em seis meses

 De acordo com o físico e especialista em questões nucleares, David Albright (75 anos), os iranianos tinham condições de construir uma arma nuclear em menos de seis meses, antes da campanha aérea americana, em junho de 2025, contra as instalações das usinas de Fordow, Natanz e Esfahan. Presidindo o Instituto para a Ciência e Segurança Internacional (Institute for Science and International Security), fundado em 1993, Albright é autor de nove livros e publica regularmente artigos na mídia mundial sobre programas secretos de armas nucleares desenvolvidos por países como o Irã e a Coreia do Norte.

Estima-se que os recentes ataques americanos e israelenses a instalações militares e nucleares iranianas podem ter atrasado em dois ou três anos, caso não recebam ajuda externa, as ambições de poder do governo dos aiatolás. Mas, segundo Clifford May, o atraso não justificaria uma possível “complacência” porque existe a informação de que milhares de mísseis e drones já foram construídos e escondidos em fortalezas subterrâneas. Inclusive mais armas nucleares estão sendo abrigadas no profundo complexo de túneis instalado sob a Montanha Pickaxe, na região central do país, “que nem mesmo os projéteis da artilharia maciça dos americanos lançados de bombardeiros B-2 conseguiram destruí-lo”.

 Guerra santa

Outro fator atuante no conflito envolveria o aspecto religioso. “Os governantes do Irã se veem como jihadistas lutando uma guerra santa contra os inimigos de Alá. Eles podem cogitar cessar-fogos temporários, períodos de calma que lhes permitam rearmar-se para a próxima batalha, mas um acordo de paz sério está fora de questão”, assegura May.

Ele explica que a maioria dos 93 milhões de iranianos professa o islamismo xiita duodecimano que acredita que o 12º Imã, Muhammad al-Mahdi, foi "ocultado" por Alá há mais de mil anos, e que retornará como o Mahdi, essencialmente o messias. “Para os seguidores do Aiatolá Khomeini os muçulmanos devem apressar esse retorno por meio de conflitos, caos, derramamento de sangue e martírio”, finaliza.

 Linguagens distintas

Professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém na área de Estudos Islâmicos, Moshe Sharon (88 anos) diz que as nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem países árabes. Especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), história e religião islâmica e estudioso do xiísmo (predominante no Irã e no Iraque), foi consultor para assuntos árabes do governo do Primeiro-Ministro Menachem Begin (1977-1983) e tem vários livros publicados sobre o tema.

Por mais de quatro décadas, Sharon é incisivo ao questionar a posição de líderes ocidentais que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (que significa submissão)”.

 Acordos temporários

Em agosto de 2005, alguns meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza após a Cúpula de Sharm el-Sheikh que selou um breve acordo de paz entre palestinos e israelenses,  um dos líderes mais proeminentes  do Hamas, Mahmoud al-Zahar (79 anos), então ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera declarou que o grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém, a Judéia e a Samaria. “Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos. Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).

 Pouco tempo depois, em entrevista à rede cristã norte-americana CBN News (The Christian Broadcasting Network), Al-Zahar declarou textualmente: “Nós estamos em meio a uma terceira Guerra Mundial. Eu digo isso o tempo todo. E mais: por que o Hamas deveria abrir mão de suas armas? Para satisfazer Israel? Para satisfazer algum ser humano na terra? A resposta é não”.

 Na concepção de Sharon, o que Al-Zahar quis dizer, quando falou em terceira Guerra Mundial, “se traduz da seguinte forma: nós, muçulmanos, queremos restabelecer o Califado, da Índia e China à Espanha. Isso porque os árabes ainda consideram a Espanha como território islâmico (a Península Ibérica ficou sob o domínio dos árabes por 700 anos - do séc. VIII ao XV).”

 “Cristãos-sionistas”

Em outra oportunidade, Al-Zahar – autor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 -  chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”

Para Sharon está patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida judaico-cristã do Ocidente. “Quando Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”

 O professor adverte que o Ocidente está em perigo e deve enfrentar a situação de maneira séria. “Para muitos pode parecer uma piada esta história de dominar o mundo, mas para os muçulmanos são palavras de Deus. 

 “Palavras não pagam impostos”

Ainda sobre acordos temporários, um ditado árabe define bem a situação: palavras não pagam impostos, lembra Sharon. Ele reforça que nessas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou a tática em Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e marchou com dez mil soldados sobre a cidade.

Tal fato histórico foi mencionado por Yasser Arafat, quando semanas depois do Acordo de Oslo (1994) ele se justificou em uma mesquita na África do Sul. O professor Sharon gravou o discurso em que Arafat pedia desculpas pela sua assinatura no documento, dizendo: “Vocês acham que eu poderia assinar algo com os judeus contrário ao que dizem as regras do Islã? Não foi assim. Eu fiz exatamente o que o profeta Maomé fez.” Ou seja, Arafat estava simplesmente falando: lembrem-se da história de Hudaybiya.

Logo, diante dos antecedentes conhecidos em relação às características das negociações que se repetem através dos séculos, as mesmas devem ser entendidas sob o prisma de que “tratados não são permanentes”. Sharon conta que sempre aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez o inimigo falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma concordância que, mais adiante, não se concretizou.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

A guerra das civilizações e suas linguagens distintas

 / Sheila Sacks /


Especialista diz que nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem países árabes.

Em novembro de 2005, alguns meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza, após a Cúpula de Sharm el-Sheikh que selou um breve acordo de paz  entre palestinos e israelenses, um dos líderes mais proeminentes do Hamas, Mahmoud al-Zahar, então ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera declarou que o grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém, a Judéia e a Samaria (Cisjordânia). Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos. Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).

Um ano depois, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, al-Zahar se recusou a reconhecer a solução de dois estados aprovada pela Resolução 181, da ONU, em 29 de novembro de 1947. “Nós jamais reconheceremos Israel. Os sionistas ocuparam nossa terra como os nazistas ocuparam a França durante a Segunda Guerra Mundial. Israel é um elemento estrangeiro no Oriente Médio. Por que os judeus não estabeleceram seu estado na Europa?” ('We Will Never Recognize Israel', em 23.10.2006).

Em nova apresentação, desta vez na rede cristã norte-americana CBN News (The Christian Broadcasting Network), Al-Zahar declarou textualmente: “Nós estamos em meio a uma terceira Guerra Mundial. Eu digo isso o tempo todo. E mais: Por que o Hamas deveria abrir mão de suas armas? Para satisfazer Israel? Para satisfazer algum ser humano na terra? A resposta é não”.

O especialista em história e religião islâmica da Universidade Hebraica de Jerusalém, professor emérito Moshe Sharon (88 anos), faz algumas observações sobre as mensagens implícitas presentes nas palavras de Al-Zahar, hoje com 79 anos.

Profundo conhecedor da língua e do pensamento árabes, Sharon, nascido em Israel, vem alertando, há décadas, sobre a necessidade das nações prestarem mais atenção à linguagem usada pelo Hamas (que significa fervor) e por grupos como o Hezbollah e Al-Qaeda. “O que Al-Zahar quis dizer quando falou em terceira Guerra Mundial”, explica Sharon, “se traduz da seguinte forma: nós, muçulmanos, queremos restabelecer o Califado, da Índia e China à Espanha. Isso porque os árabes ainda consideram a Espanha como território islâmico (a Península Ibérica ficou sob o domínio dos árabes por 700 anos, do séc. VIII ao XV).”

“Cristãos-sionistas”


Em outra oportunidade, Al-Zaharautor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 -  chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”

Para Sharon está patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida judaico-cristã do Ocidente. “Quando Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”

O professor adverte que o Ocidente está em perigo e deve enfrentar a situação de maneira séria. “Para muitos pode parecer uma piada esta história de dominar o mundo, mas para os muçulmanos são palavras de Deus. Desde os primórdios, a intenção do Islã sempre foi subjugar os povos e colocá-los sob as suas leis e regras. E hoje, esse plano está a caminho e nós precisamos ter consciência do fato”. E enumera alguns pontos que orientam a sua tese:

1- Está escrito literalmente no Corão (Repetição) que “Alá enviou Maomé com a religião verdadeira para governar sobre todas as religiões”.

2- Maomé afirmou que os judeus e os cristãos falsificaram os livros da Bíblia e que todos os profetas são muçulmanos, inclusive Abraão, Isaac, Jacob, David e Moisés.

3- O Sistema Islâmico diz que é preciso lutar contra aqueles que não querem viver sob o domínio do Islã. A guerra contra os infiéis, sejam judeus ou cristãos, chama-se Jihad (esforço, empenho).

4- O Corão divide o planeta em duas Casas: uma se chama Dar al-Islam (Casa do Islã), onde o Islamismo governa, e a outra Dar al-Harb ( Casa da Guerra), como é conhecido o restante do mundo. Esta Casa da Guerra será conquistada no final dos tempos e subjugada pelo Islã.

5 - Para a civilização islâmica, se uma terra, no passado, foi dominada pelo Islã, ela sempre será propriedade do Islã. Daí os árabes só se referirem a Israel como território.

6- O propósito do Islã é de se constituir em uma força militar divina para impor a cultura islâmica. Cada muçulmano que entrega a sua vida na luta pela disseminação do Islã se constitui em um mártir (shaheed), não importando a maneira como essa morte possa vir a ocorrer. Ou seja, este é um conflito bélico eterno, uma guerra sem fim, entre duas civilizações: a da Bíblia versus a do Corão.

Idioma do Islã

Professor do Departamento de Estudos Islâmicos da Universidade Hebraica de Jerusalém, desde 1971, Sharon já publicou vários livros sobre a história, religião e a cultura orientais, inclusive sobre a fé Bahá'í. É especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), profundo conhecedor da Shi’a (seita xiita predominante no Irã e no Iraque) e foi consultor para Assuntos Árabes do Governo de Israel, no período do primeiro-ministro Menachem Begin (1977-1983). Ele é incisivo ao questionar a posição de políticos ocidentais que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (significa submissão), aquele dos oradores das mesquitas que proferem horríveis sermões contra os judeus e os cristãos. Daí que o uso de nossa terminologia e vocabulário para abordar temas como democracia ou fundamentalismo equivale a falar sobre futebol usando termos de beisebol. Para falar com o Islã, você precisa usar o idioma do Islã”, acentua o historiador.

Sharon lembra também que nestas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou desta tática em Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e marchou com dez mil soldados sobre a cidade. Tal fato histórico, aliás, foi mencionado por Yasser Arafat, quando semanas depois do Acordo de Oslo (1994) ele se justificou em uma mesquita na África do Sul. O professor Sharon gravou o discurso em que Arafat pedia desculpas pela sua assinatura no documento, dizendo: “Vocês acham que eu poderia assinar algo com os judeus contrário ao que dizem as regras do Islã? Não foi assim. Eu fiz exatamente o que o profeta Maomé fez”. Para Sharon, Arafat estava simplesmente falando: “Lembrem-se da história de Hudaybiya”.

“Palavras não pagam impostos”


O provérbio árabe - palavras não pagam impostos - define bem as características das negociações utilizadas pelos muçulmanos e que devem ser entendidas da seguinte forma: “tratados não são permanentes”. Sharon conta que aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez o inimigo falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma concordância que, mais adiante, não se concretizou.

Em 2007, conversei pelo telefone com Sharon e ele contou que jamais foi convidado para realizar palestras no Brasil ou em outro país da América Latina. De 1999 a 2020 presidiu o Centro de Estudos Bahá’í, na Universidade de Jerusalém, única cátedra no mundo dedicada a essa crença oriental e pacifista originária da Pérsia (atual Irã) que congrega 300 mil fiéis naquele país.

Com oito milhões de seguidores, segundo estimativa do Centro Mundial Bahá'í, localizado no Monte Carmel, em Haifa, a fé está presente em mais de 200 países, inclusive no Brasil, com mais de 60 mil adeptos (no Irã são perseguidos e presos pelo regime dos aiatolás sob acusação de serem pró-Israel). 

Em 2017, a Câmara de Deputados promoveu em Brasília uma sessão solene em homenagem ao bicentenário de nascimento do fundador da fé Bahá’í, o profeta iraniano Baha’u’lláh nascido em 1817.  Na ocasião foi ressaltada a importância da crença e das ações dessa comunidade espiritualista tanto no Brasil como no mundo, visto ser considerado “o segundo grupo mais espalhado pelo mundo depois do Cristianismo”. 

Batalha de civilizações

Repetindo o que vem dizendo em seminários acadêmicos na Europa, Sharon destaca que Israel está na linha de frente na batalha de civilizações, mas também precisa da ajuda das nações do Ocidente, porque no momento em que o radicalismo muçulmano se apropriar do controle de armas de destruição em massa – químicas, biológicas e atômicas – estas serão implacavelmente usadas.

Apesar de os avisos de Moshe Sharon projetarem um futuro inquietante para o nosso planeta, a grande mídia teima em se ater a fatos correntes sem se aprofundar no cerne da questão. Talvez pela sua condição de judeu-israelense, muitos jornalistas e intelectuais, instintivamente, façam um pré-julgamento de seus estudos. Entretanto, alguns pesquisadores de religiões monoteístas e observadores da cultura islâmica já citam o especialista israelense como importante fonte de referência. É o caso do teólogo Samuele Bacchiocchi (1938-2008) doutor em História Cristã, com 15 livros publicados. Formado pela Pontifical Gregorian University, de Roma, e mestre de Teologia da Andrews University, em Michigan, Samuele introduziu os conceitos de Moshe Sharon em suas conferências e também no artigo "
Reflections On Terrorism and Religious Intolerance", disponível na Internet. 

Bacchiocchi lembra que o Norte da África, predominante cristão nos primeiros séculos da era comum, a partir da conquista muçulmana no século VII teve o cristianismo  sistematicamente  suprimido no continente. “Hoje, a presença de cristãos é praticamente inexistente em países muçulmanos como a Líbia, Tunísia, Argélia e Marrocos, cujas antigas e florescentes comunidades cristãs tiveram líderes religiosos influentes para a Igreja como Tertuliano (séc. II), Cipriano (séc. III) e Agostinho (sécs. IV e V).”

No texto, o teólogo também critica o papel da mídia ao ignorar “amplamente” as raízes ideológicas e os objetivos dos terroristas muçulmanos.  Segundo Bacchiocchi,  os terroristas não interpretam o Alcorão de forma errada, como muitos supõem. “Pelo contrário, eles leem corretamente o que o Alcorão ensina sobre o extermínio de indivíduos e nações anti-islâmicas”. 

Em suma, os líderes das nações ocidentais, já há algum tempo, têm diante de si a hercúlea missão de salvaguardar os valores essenciais das democracias ainda que bombardeados continuadamente por grande parcela da mídia crítia, atada a clandestinos interesses econômico-comerciais e político-partidários e que desconsidera os reais objetivos dos países financiadores de terroristas.

Países ditatoriais, que mantêm a imprensa amordaçada, as populações acuadas, onde os protestos são punidos com pena de morte e as crianças doutrinadas, desde cedo nas escolas, na cartilha do ódio e do preconceito.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Amazônia: extração ilegal de ouro impulsionou desmatamento em 2025, revela relatório internacional

Sheila Sacks /

O Brasil amazônico apresentou a maior taxa de perda florestal do planeta na última década atingindo 2,8 milhões de hectares (28 mil km²), somente no ano de 2024. A informação foi divulgada no balanço anual GameChangers 2025, da organização Insight Crime, de jornalismo investigativo, em dezembro do ano passado, tendo como fonte a plataforma Global Forest Watch , de monitoramento das florestas mundiais. No total, o desmatamento nas regiões da bacia amazônica em 2024 chegou a mais de 4,7 milhões de hectares (47 mil km²) área maior que países como a Suíça e a Dinamarca.

Com foco na América Latina e Caribe, o relatório assinado por Maria Fernanda Ramírez e Beatriz Vicent Fernández, especialistas em  estudos e análises sobre economias ilegais nas fronteiras, aponta a extração ilegal de ouro entre os crimes ambientais que mais cresceram nos países amazônicos em 2025.

As pesquisadoras assinalam que a mineração não autorizada disparou no Brasil, Peru e Venezuela, e também ao longo do rio Puruê, na fronteira entre a Colômbia e o Brasil, incentivada pelos altos preços do metal no mercado internacional. Entre 2015 e o final de 2025 “o preço da onça de ouro (31,1 gramas) subiu de US$ 1.060 para US$ 4.030, representando um aumento de 280%” (‘El imparable auge de los delitos ambientales en la Amazonía’, em 30/12/2025).

Garimpo ilegal e grupos criminosos

Atualmente existem mais de quatro mil locais de mineração ilegal por toda a Amazônia afetando principalmente áreas protegidas e territórios indígenas que também sofrem com a grilagem de terras, cultivo de cocaína, extração de madeira e desmatamento para a agricultura. Os dados são da ONG Amazon Conservation que trabalha com ambientalistas do Brasil, Bolívia e Peru.

Entre 2018 e 2024, o garimpo ilegal causou a perda de mais de 2 milhões de hectares de floresta ao longo da bacia amazônica,  área equivalente ao estado do Sergipe, lembrando que o uso do mercúrio para separar o ouro dos sedimentos é fator de contaminação do solo e da água das comunidades. Altamente tóxico, o mercúrio é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das dez principais substâncias químicas que representam grande preocupação para a saúde pública.

De acordo com Ramírez e Fernández, grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) têm se estabelecido nas regiões de fronteiras abrangendo Brasil, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador e Venezuela para lucrarem com crimes ambientais.  “É comum que as redes criminosas usem carregamentos de madeira para transportar cocaína, compartilhem rotas de tráfico e usem o lucro do narcotráfico para abrir garimpos ilegais, construir estradas clandestinas e negociar terras”, afirmam. “Além disso, o CV cruzou a fronteira e se estabeleceu no Peru, promovendo o cultivo de folha de coca e a produção de pasta de coca nos departamentos de Loreto e Ucayali, onde a área cultivada aumentou drasticamente nos últimos cinco anos.”

A Bolívia, o Peru e a Colômbia também figuram entre os dez países com o maior desmatamento no mundo, segundo o gráfico apresentado pelo Insight Crime, onde o Brasil encabeça a lista.  Em novembro passado, dias antes da COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Belém, o ministério do Meio Ambiente convocou a imprensa e anunciou uma redução na taxa de desmatamento na Amazônia brasileira em relação ao mesmo período de 2024. (‘Em 2025, desmatamento tem redução de 11,08% na Amazônia e 11,49% no Cerrado, em 30/10/2025).

Porém, as autoras do relatório criticam a declaração final da Conferência que “não inseriu um roteiro preciso para reduzir o desmatamento e combater os fatores causadores — incluindo o crime organizado”.  Segundo a Global Witness, uma organização investigativa internacional, 1.018 defensores da terra e do meio ambiente foram assassinados em países da Amazônia, entre 2012 e 2024, com o Brasil e a Colômbia respondendo por 90% dos casos.  

Operações policiais

Apesar de o governo brasileiro ter intensificado ações policiais contra os garimpos ilegais, principalmente em territórios indígenas, e contar com o suporte jurídico da resolução 129 emitida pelo Ministério de Minas e Energia (23/2/2023) de combate à lavagem de dinheiro, a mineração ilegal é o crime mais disseminado e prejudicial nas regiões das fronteiras da Amazônia. 

Reportagem do Greenpeace Internacional (8/4/2025), com base em análises de dados de satélites de 2023 e 2024, observa que o endurecimento das operações policiais no Brasil resultou em uma diminuição da mineração ilegal nas terras Yanomami (7%), Munduruku (57%) e Kayapó (31%). Em contrapartida, na reserva indígena de Sararé, na região de Mato Grosso fronteiriça à Bolívia, a mineração ilegal cresceu 93%, revelando um deslocamento da extração ilícita do metal. Nos quatro territórios, o total de floresta destruída no período atingiu 4.219 hectares, “uma área superior ao Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e equivalente a quase 6 mil campos de futebol”.

Os ambientalistas do Greenpeace reforçam que o comércio mundial de ouro ilegal oriundo do Brasil é um fator de ameaça global aos povos indígenas, à floresta amazônica, ao clima e à biodiversidade. No relatório “Ouro Tóxico” (abril/2025), a organização assinala discrepâncias em relação aos dados relacionados ao comércio internacional do metal. Em 2022, a Suíça importou 67% a mais de ouro do que o Brasil declarou ter exportado. Em 2023, a diferença foi de 62%, totalizando quase 19 toneladas de ouro de origem duvidosa nesses dois anos.

O documento de 35 páginas destaca que a floresta amazônica se estende por nove países (Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), abriga mais de 45.000 espécies de flora e fauna, 40 milhões de pessoas, cerca de três milhões de indígenas de 410 povos, bem como quilombolas e outros grupos tradicionais. Assinala que a Amazônia é um ecossistema único e essencial para a estabilização do clima global, funcionando como um vasto sumidouro de carbono, absorvendo gases de efeito estufa e regulando os padrões climáticos globais.

Segundo a consultoria Mining Technology, com sede em Nova York, o Brasil produz cerca de 70 toneladas do metal por ano sendo o décimo maior produtor mundial. Contudo, estima-se que um terço desse total é de procedência ilícita. Em fevereiro, com o objetivo de suprir omissões legislativas em relação à exploração de minérios, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu prazo de dois anos para que o Congresso aprove uma lei que regularize a participação dos indígenas na mineração legal no país.

A liminar atendeu originalmente a uma ação protocolada pela comunidade indígena dos Cinta-Larga que foi autorizada pelo ministro, em caráter provisório e cumprindo determinadas normas, a realizar atividades de mineração em suas terras, no sudoeste da Amazônia (entre Rondônia e Mato Grosso), área que apresenta um longo histórico de conflitos e massacres decorrentes de invasões de garimpeiros.

Nota: Com a eclosão da guerra USA/Israel x Irã, a cotação do ouro subiu para US$ 5.266 a onça, informa The Guardian, em sua edição digital (3/3/2026).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Minissérie vai reviver criminoso nazista que se escondeu no Brasil por quase duas décadas

/ Sheila Sacks / 

Em 2026, o best-seller “Os meninos do Brasil”, de Ira Levin (1976), vai virar minissérie na plataforma de streaming Netflix,  que reúne 301,6 milhões de assinantes globais, sendo 25 milhões no Brasil. Anúncio divulgado na mídia em novembro passado (18/11/2025) informa que as gravações serão feitas na Espanha, Reino Unido e Bulgária.

Do mesmo autor de “O bebê de Rosemary”, levado ao cinema em 1968, “The boys from Brazil”, no título original, também teve uma versão cinematográfica em 1978. O livro revive a figura do médico nazista Josef Mengele, criminoso de guerra acusado de realizar experimentos cruéis em prisioneiros no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia ocupada. De acordo com a trama, trinta anos depois ele lidera uma organização com a finalidade de restabelecer o Terceiro Reich através de clones de Hitler. 

A obra de ficção parte do pressuposto, que se mostrou real, de que Josef Mengele, conhecido como O Anjo da Morte, vivia na América do Sul. De fato, Mengele fugiu para a Argentina após a guerra, residiu no Paraguai e se estabeleceu no Brasil por quase duas décadas sem ser importunado. Morreu em São Paulo, aos 67 anos, três anos após a publicação do livro (reportagem documental da Pública, agência de jornalismo investigativo, de 11/2/2025, aborda a estadia de Mengele no Brasil, sob o título ‘Anjo da morte: Como médico nazista Josef Mengele viveu com regalia por 18 anos no Brasil’).

Documentos secretos

Com a desclassificação de 1.850 documentos sobre nazistas que buscaram refúgio na Argentina, disponibilizados online pelo AGN - Archivo General de la Nación,  o público em geral já pode acessar detalhes da trajetória de Mengele e de outros criminosos nazistas que se esconderam no Cone Sul no pós-guerra.

Reportagem do El País assinala que Josef Mengele chegou ao porto de Buenos Aires em junho de 1949, a bordo do navio North King, quatro anos após o término da guerra. Tinha 38 anos e entrou na Argentina com um passaporte emitido pela Cruz Vermelha (‘O rastro dos nazistas Mengele e Eichmann na Argentina’, em 30/4/2025).

Dez anos depois, já com o nome na lista de nazistas mais procurados, ele foge para o Paraguai e, com a captura de Adolf Eichmann (1960) pelo Mossad, o serviço de inteligência israelense, esconde-se no Brasil.

Matéria da Fox News Digital (30/11/2025) revela que “Mengele entrou clandestinamente no Brasil em algum momento de 1960 pela Tríplice Fronteira. Ele foi auxiliado por fazendeiros germano-brasileiros, simpatizantes nazista, que lhe forneceram diversos esconderijos rurais por vários anos” (‘Como o criminoso de guerra nazista Josef Mengele escapou da captura na América Latina, revelado em arquivos desclassificados’, na tradução livre do inglês).

Retirado do mar sem vida na tarde de 27 de fevereiro de 1979, Mengele ficou estendido na areia da praia de Bertioga, no litoral paulista, até a chegada do policial que constatou que o corpo não apresentava sinais de afogamento, como vômito ou água saindo pela boca. O cabo da PM, Dias Romão, então conclui ”que se tratava de um caso de morte súbita ocorrida na água: talvez um ataque cardíaco ou um derrame.”

No documento do morto constava o nome de Wolfgang Gerhard, austríaco, viúvo de 54 anos, técnico mecânico, residente no bairro Novo Brooklin, na cidade de São Paulo. Um casal de amigos, ambos austríacos, Wolfram e Liselotte Bossert, que sabiam que o morto era Mengele e esconderam o fato, dividiam a casa de veraneio perto da praia e disseram que viram Gerhard entrar na água e depois cambalear.

Enterrado no dia seguinte no Cemitério do Rosário, na cidade de Embu, depois de o corpo ser liberado pelo Instituto Médico Legal, a causa da morte não foi conclusiva. Em 1985, após a exumação do corpo e a análise dos restos mortais, é confirmada a verdadeira identidade do carrasco nazista, um dos assassinos mais procurados do planeta.

Atrocidades

Médico em Auschwitz, de 1943 a 1945, o capitão Josef Mengele, da SS (abreviação de Schutzstaffel, organização paramilitar ligada ao partido nazista), fugiu do campo de extermínio dez dias antes da entrada das tropas soviéticas no local.

Nos dois anos em que esteve no comando do “hospital” do barracão 10, centenas de experimentos atrozes em judeus e ciganos foram realizados, segundo anotações e relatos de sobreviventes. As denominadas “pesquisas científicas” incluíam a exposição prolongada a raios-X, cirurgias, administração de medicamentos desnecessários, amputações de membros e inoculações intencionais de bactérias infecciosas.

Reportagem da plataforma de notícias Infobae, com sede em Buenos Aires, assinada por Daniel Cecchini, jornalista investigativo e um dos autores do livro Cárceles, sobre as prisões na Argentina, reporta as atividades de Mengele em Auschwitz. Uma das práticas usadas era transformar gêmeos em siameses, costurando as crianças pelas costas, o que resultava em mortes posteriores por infecção. Seus corpos então eram dissecados para “estudos comparativos” (‘El día que Mengele llegó a Auschwitz y los siniestros experimentos científicos que lo llevaron a ser el ángel de la muerte’, em 23/5/2023).

Tentativas de alterar a cor da íris dos olhos dos prisioneiros por meio de injeções de substâncias químicas também eram feitas juntamente com a extração dos globos oculares de pessoas com cores diferentes de íris que eram assassinadas para a realização dessa prática. Alguns globos eram enviados a Berlim para “análise” e outros eram exibidos em frascos em seu escritório.

Cobaias humanas

Matéria semelhante, ainda no Infobae (7/2/2025), esta do jornalista Alberto Amato, que foi editor da revista Clarín, apresenta o assustador depoimento do médico judeu Vexler Jancu, ex-prisioneiro de Auschwitz. “Ao entrar no consultório de Mengele, vi uma mesa de madeira. Sobre ela havia amostras de olhos. As cores variavam do amarelo pálido ao azul claro, verde e violeta. Os olhos estavam perfurados como borboletas. Pensei que tinha morrido e já estava no inferno."

Amato conta que o general Juan Perón, então presidente da Argentina, conheceu Mengele quando este realizava manipulação genética em animais para produzir gêmeos, “uma obsessão do nazista em Auschwitz” quando se servia de seres humanos como cobaias. Conforme descrição de uma testemunha, o judeu húngaro Miklós Nyiszli, “em uma única noite, Mengele matou pessoalmente 14 gêmeos com uma injeção de clorofórmio diretamente no coração”. Após os assassinatos, ele realizava estudos comparativos nos corpos, muitos deles infectados propositadamente com bactérias do tifo e escarlatina (‘El nazi que se refugió en Argentina, fabricó juguetes y fundó un laboratorio: el final de Mengele, el monstruo que nunca tuvo paz’).

Rede de apoio

Na Itália, antes de embarcarem para a Argentina, Mengele e Eichmann tiveram a ajuda do bispo austríaco Alois Hudal, que era próximo do Cardeal Giovanni Montini, secretário do Papa Pio XII e, posteriormente, do Papa Paulo VI. “Mengele obteve um cartão de identidade da Itália, número 114, em nome de Helmut Gregor. Eichmann tinha o seu, em nome de Riccardo Klement, número 131”, relata Amato.

Uma rede clandestina de oficiais da SS liderada por Hans-Ulrich Rudel, que serviu na força aérea nazista Luftwaffe, organizava as rotas de fuga, geralmente tendo a cidade de Gênova como ponto de embarque. Rudel trabalhava no setor aéreo argentino, desde 1948, e era amigo de Perón.

Com o apoio financeiro da família, estabelecida na cidade de Günsburg, na Baviera, e proprietária da fábrica Mengele Agrartechnik, de máquinas agrícolas, Mengele tornou-se empresário na Argentina. “Fabricava brinquedos, fundou um laboratório e era sócio da empresa Fadrofarm, um laboratório de medicamentos”. Mas, com a captura de Eichman, “dormia com uma pistola Walther carregada debaixo do travesseiro.”

Em 1977, dois anos antes de sua morte, o filho de Mengele, Rolf, valendo-se de um passaporte falso, visitou o pai em uma viagem clandestina ao Brasil. “Ele não admitiu ter feito nada de errado”, afirmou Rolf. “E não demonstrou culpa ou remorso. Disse que estava cumprindo ordens.”

Outras prioridades

Em entrevista ao correspondente Marcelo Ninio, da Folha de São Paulo (2010), Rafi Eitan, que comandou a operação de captura de Eichmann, contou que a inteligência israelense sabia do paradeiro do criminoso nazista. "Fui ao Brasil com outro agente em 1962 e confirmamos que Mengele vivia sob a identidade falsa nos arredores de São Paulo”. Eitan, na época com 84 anos, justificou que o governo desistiu da operação porque estava com outras prioridades como proteger as fronteiras do país. Também não desejava criar um possível incidente diplomático com o Brasil semelhante ao que ocorreu na Argentina (‘Mossad descobriu Mengele no Brasil, mas não o deteve’, em 31/10/2010).

Lembrando que em 1965 o nazista Herberts Cukurs, foragido no Brasil, foi atraído para o Uruguai e executado naquele país por agentes do Mossad, em 23 de fevereiro. Responsável por milhares de mortes de judeus na Letônia e conhecido como o “Açougueiro de Riga”, ele era empresário bem sucedido no Rio de Janeiro, onde vivia desde 1946. Um dos agentes, Yaakov Meidad, do grupo que capturou Eichmann, se passou por empresário austríaco em visita ao Rio e fez uma oferta de negócios a ser acertada no país vizinho. O corpo de Cukurs foi encontrado pela polícia uruguaia onze dias depois, em um baú de madeira, com um bilhete: "Aqueles que não esquecerão" (‘Os carrascos nazistas que fugiram para o Brasil’, Deutsche Welle, em 3/2/2025).