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quinta-feira, 5 de março de 2026

Amazônia: extração ilegal de ouro impulsionou desmatamento em 2025, revela relatório internacional

Sheila Sacks /

O Brasil amazônico apresentou a maior taxa de perda florestal do planeta na última década atingindo 2,8 milhões de hectares (28 mil km²), somente no ano de 2024. A informação foi divulgada no balanço anual GameChangers 2025, da organização Insight Crime, de jornalismo investigativo, em dezembro do ano passado, tendo como fonte a plataforma Global Forest Watch , de monitoramento das florestas mundiais. No total, o desmatamento nas regiões da bacia amazônica em 2024 chegou a mais de 4,7 milhões de hectares (47 mil km²), área maior que países como a Suíça e a Dinamarca.

Com foco na América Latina e Caribe, o relatório assinado por Maria Fernanda Ramírez e Beatriz Vicent Fernández, especialistas em  estudos e análises sobre economias ilegais nas fronteiras, aponta a extração ilegal de ouro entre os crimes ambientais que mais cresceram nos países amazônicos em 2025.

As pesquisadoras assinalam que a mineração não autorizada disparou no Brasil, Peru e Venezuela, e também ao longo do rio Puruê, na fronteira entre a Colômbia e o Brasil, incentivada pelos altos preços do metal no mercado internacional. Entre 2015 e o final de 2025 “o preço da onça de ouro (31,1 gramas) subiu de US$ 1.060 para US$ 4.030, representando um aumento de 280%” (‘El imparable auge de los delitos ambientales en la Amazonía’, em 30/12/2025).

Garimpo ilegal e grupos criminosos

Atualmente existem mais de quatro mil locais de mineração ilegal por toda a Amazônia afetando principalmente áreas protegidas e territórios indígenas que também sofrem com a grilagem de terras, cultivo de cocaína, extração de madeira e desmatamento para a agricultura. Os dados são da ONG Amazon Conservation que trabalha com ambientalistas do Brasil, Bolívia e Peru.

Entre 2018 e 2024, o garimpo ilegal causou a perda de mais de 2 milhões de hectares de floresta ao longo da bacia amazônica,  área equivalente ao estado do Sergipe, lembrando que o uso do mercúrio para separar o ouro dos sedimentos é fator de contaminação do solo e da água das comunidades. Altamente tóxico, o mercúrio é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das dez principais substâncias químicas que representam grande preocupação para a saúde pública.

De acordo com Ramírez e Fernández, grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) têm se estabelecido nas regiões de fronteiras abrangendo Brasil, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador e Venezuela para lucrarem com crimes ambientais.  “É comum que as redes criminosas usem carregamentos de madeira para transportar cocaína, compartilhem rotas de tráfico e usem o lucro do narcotráfico para abrir garimpos ilegais, construir estradas clandestinas e negociar terras”, afirmam. “Além disso, o CV cruzou a fronteira e se estabeleceu no Peru, promovendo o cultivo de folha de coca e a produção de pasta de coca nos departamentos de Loreto e Ucayali, onde a área cultivada aumentou drasticamente nos últimos cinco anos.”

A Bolívia, o Peru e a Colômbia também figuram entre os dez países com o maior desmatamento no mundo, segundo o gráfico apresentado pelo Insight Crime, onde o Brasil encabeça a lista.  Em novembro passado, dias antes da COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Belém, o ministério do Meio Ambiente convocou a imprensa e anunciou uma redução na taxa de desmatamento na Amazônia brasileira em relação ao mesmo período de 2024. (‘Em 2025, desmatamento tem redução de 11,08% na Amazônia e 11,49% no Cerrado, em 30/10/2025).

Porém, as autoras do relatório criticam a declaração final da Conferência que “não inseriu um roteiro preciso para reduzir o desmatamento e combater os fatores causadores — incluindo o crime organizado”.  Segundo a Global Witness, uma organização investigativa internacional, 1.018 defensores da terra e do meio ambiente foram assassinados em países da Amazônia, entre 2012 e 2024, com o Brasil e a Colômbia respondendo por 90% dos casos.  

Operações policiais

Apesar de o governo brasileiro ter intensificado ações policiais contra os garimpos ilegais, principalmente em territórios indígenas, e contar com o suporte jurídico da resolução 129 emitida pelo Ministério de Minas e Energia (23/2/2023) de combate à lavagem de dinheiro, a mineração ilegal é o crime mais disseminado e prejudicial nas regiões das fronteiras da Amazônia. 

Reportagem do Greenpeace Internacional (8/4/2025), com base em análises de dados de satélites de 2023 e 2024, observa que o endurecimento das operações policiais no Brasil resultou em uma diminuição da mineração ilegal nas terras Yanomami (7%), Munduruku (57%) e Kayapó (31%). Em contrapartida, na reserva indígena de Sararé, na região de Mato Grosso fronteiriça à Bolívia, a mineração ilegal cresceu 93%, revelando um deslocamento da extração ilícita do metal. Nos quatro territórios, o total de floresta destruída no período atingiu 4.219 hectares, “uma área superior ao Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e equivalente a quase 6 mil campos de futebol”.

Os ambientalistas do Greenpeace reforçam que o comércio mundial de ouro ilegal oriundo do Brasil é um fator de ameaça global aos povos indígenas, à floresta amazônica, ao clima e à biodiversidade. No relatório “Ouro Tóxico” (abril/2025), a organização assinala discrepâncias em relação aos dados relacionados ao comércio internacional do metal. Em 2022, a Suíça importou 67% a mais de ouro do que o Brasil declarou ter exportado. Em 2023, a diferença foi de 62%, totalizando quase 19 toneladas de ouro de origem duvidosa nesses dois anos.

O documento de 35 páginas destaca que a floresta amazônica se estende por nove países (Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), abriga mais de 45.000 espécies de flora e fauna, 40 milhões de pessoas, cerca de três milhões de indígenas de 410 povos, bem como quilombolas e outros grupos tradicionais. Assinala que a Amazônia é um ecossistema único e essencial para a estabilização do clima global, funcionando como um vasto sumidouro de carbono, absorvendo gases de efeito estufa e regulando os padrões climáticos globais.

Segundo a consultoria Mining Technology, com sede em Nova York, o Brasil produz cerca de 70 toneladas do metal por ano sendo o décimo maior produtor mundial. Contudo, estima-se que um terço desse total é de procedência ilícita. Em fevereiro, com o objetivo de suprir omissões legislativas em relação à exploração de minérios, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu prazo de dois anos para que o Congresso aprove uma lei que regularize a participação dos indígenas na mineração legal no país.

A liminar atendeu originalmente a uma ação protocolada pela comunidade indígena dos Cinta-Larga que foi autorizada pelo ministro, em caráter provisório e cumprindo determinadas normas, a realizar atividades de mineração em suas terras, no sudoeste da Amazônia (entre Rondônia e Mato Grosso), área que apresenta um longo histórico de conflitos e massacres decorrentes de invasões de garimpeiros.

Nota: Com a eclosão da guerra USA/Israel x Irã, a cotação do ouro subiu para US$ 5.266 a onça, informa The Guardian, em sua edição digital (3/3/2026).