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sexta-feira, 31 de julho de 2026

A relevância e o lado obscuro da notícia

/ Sheila Sacks /

Qual seria o limite ético a ser incorporado no jornalismo quando este impõe uma suposta relevância a um fato como notícia que a princípio não estaria no foco de milhares de leitores?

O grau de relevância é uma das armas potentes da imprensa capaz de dar um empoderamento a fatos, muitos deles específicos, que se alçam a notícias de teor de grande interesse informativo, recebendo cobertura especial e espaços generosos do jornal.

A estratégia tem por meta criar no público alvo uma percepção negativa (ou positiva) de uma situação, pondo de lado critérios jornalísticos e se valendo de outros parâmetros de interesse do jornal.  

É o caso da reportagem publicada pelo O Globo sobre o trabalho home office dos servidores federais, com chamada de primeira página (‘Número de servidores federais em home office cresce e já supera 100 mil’, em 14/7/2026). E logo abaixo, o gancho da leitura: ”Dados do Ministério da Gestão mostram que 24% dos 445 mil servidores elegíveis atuam no home office integral ou no híbrido.Fatia cresceu desde 2024.”

O que se observa é que um fato meramente administrativo, incluso na implementação de uma estratégia de gestão pública, é elevado a um nível de manchete sem o estofo cabível. A notícia não engloba qualquer tipo de denúncia ou irregularidade como, por exemplo, funcionários fantasmas, e nem avaliação negativa em relação à eficiência e a política de resultados do teletrabalho. Discute-se a cultura organizacional e engajamento.

Funcionalismo em foco

Outras reportagens sobre o trabalho remoto com insinuações negativas a partir dos títulos já haviam sido publicadas pelo jornal em anos anteriores: “Home office federal: governo tem 16% dos servidores em trabalho remoto, que terá novas regras”, em 18/10/2024, e “Reforma Administrativa: como vai ficar o home office dos servidores? Entenda”, em 10/9/2025.

Dessa vez, no dia seguinte à reportagem, a editoria abriu seu espaço nobre para se posicionar abertamente contra o home office no setor público, despojando-se de uma suposta neutralidade informativa gerida  até então de forma nebulosa. Ao expor a face real de sua proposição, sem os véus dissimulatórios de uma causa moralizadora, perfilou-se de forma contundente a favor do trabalho presencial.

No editorial (‘Aumento de home office no setor público é retrocesso’, em 15/7/2026) a argumentação contra o teletrabalho tem como modelo o setor privado onde é afirmado que “ a tendência é oposta”. As “boas razões” recomendadas pelo jornal para a volta dos servidores federais às repartições teriam como escopo facilitar o trabalho das chefias, visto que “no regime remoto, chefes de departamento percebem dificuldades de comunicação e gestão de equipes”, além de “reuniões menos produtivas” e “falta de motivação”, entre outras possíveis dificuldades listadas pelo jornal. 

Produtividade e avaliação

No entanto, no texto do dia anterior, é explicado que os servidores federais que trabalham em home office têm gestão por metas e resultados, com a produtividade e eficiência avaliadas mensalmente. Informando, ainda, que do total de 107,8 mil servidores em teletrabalho,“a maioria, 73,6 mil (68,4%), está no modelo híbrido.” 

A matéria inclui a nota do Ministério de Gestão e Inovação (MGI) que destaca a auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) em cinco órgãos federais, com o registro positivo do tribunal ao teletrabalho, atestando “o aprimoramento nos mecanismos de controle e acompanhamento de metas, fortalecendo a gestão por desempenho”.

Redução de gastos

Levantamento do mesmo TCU (2025) realizado em 23 órgãos federais sobre eventuais reduções de despesas na modalidade de home office reporta informações de várias unidades da Federação como a da Advocacia Geral da União (AGU). Esta obteve uma economia com locações de imóveis, no período de 2019 a 2023, da ordem de R$ 30 milhões. Em contrapartida, os custos operacionais cresceram R$ 9,2 milhões desde 2021, com o retorno gradual dos servidores.

Dados do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) enviados ao TCU também registram uma economia de R$ 22 milhões nas unidades do Ministério Público (segundo semestre de 2020), com uma delas informando que houve redução de 44% no consumo de água, 31% no de energia e 74% no de papel.

Em relação à Defensoria Pública União (DPU), números do Sistema Integrado de Gerenciamento de Pessoal indicam que o gasto com auxílio transporte baixou 41% em 2020 (retornando a 50% em 2023), e que o adicional de insalubridade que havia caído para 53% subiu para 90% em outubro de 2023.

O documento do TCU (Acórdão 526/2025) publicado no site do tribunal, em 17/3/2025, apresenta ainda, na seção de “aspectos financeiros”, as despesas listadas pelos órgãos da Administração Federal que mais pesam nos custos operacionais: serviços públicos (água, energia elétrica, telefonia); infraestrutura (conservação de imóveis próprios, locação de imóveis); viagens e deslocamentos (diárias, passagens, manutenção e combustível de veículos próprios, locação de veículos); materiais de consumo e de escritório (café, copos descartáveis, impressão, papel, produtos de limpeza); e benefícios e vantagens (auxílio transporte, adicional de insalubridade).

Dados do Portal da Transparência mostram que a administração federal conta atualmente com 987,5 mil servidores ativos, além de 1,05 milhão de aposentados e pensionistas vinculados aos órgãos da União (‘Número de servidores públicos federais poderá ultrapassar 1 milhão após aprovação de projeto no Senado, no Correio da Manhã, em 11/3/2026).

Pandemia e home office

Advogando pela Reforma Administrativa (PEC 38/2025, em processo de discussão no Congresso) que deverá restringir o percentual de servidores em home office, a editoria do jornal põe de lado as reiteradas críticas à gestão de Donald Trump para elegê-lo, nesse particular, como exemplo de governança. ”Ao voltar à Casa Branca, o republicano Donald Trump decretou o fim do trabalho remoto.”

Relator do grupo de trabalho que elaborou a proposta da referida PEC, o deputado federal Pedro Paulo é do Rio de Janeiro e amigo pessoal do prefeito Eduardo Paes. Ocupou a Casa Civil e foi secretario de Fazenda e Planejamento na prefeitura do Rio, entidade municipal fortemente empenhada em revitalizar a região central da cidade, desestruturada pela pandemia de Covid 19 e até hoje sofrendo um esvaziamento monumental.

A municipalidade vem tentando reverter a situação com programas de incentivos e investimentos em parceria com o setor imobiliário, inclusive dando o aval para adaptação de prédios comerciais em residenciais. No entanto, ainda é flagrante o abandono e degradação de uma série de imóveis na área, persistindo as dificuldades para a retomada dos negócios e comércio na área.

Passados mais de cinco anos, a região continua com centenas de edifícios comerciais esvaziados, milhares de salas de escritórios fechadas, número incontável de lojas e restaurantes com negócios encerrados. Igualmente repartições públicas federais com parte de seus servidores trabalhando em regime de home office, valendo lembrar, com razoável redução de gastos para o erário público.

Repercutindo “a sensação de decadência do bairro”, reportagem de O Globo constata e lamenta a imagem de abandono do centro, que ocorre “do ponto de vista urbanístico, cultural, social e econômico (‘Nos últimos 4 anos, mais da metade das agências bancárias e postos de atendimento no Centro do Rio fecharam as portas, deixando imóveis vazios’, em 13/5/2025).

Nesse contexto de ansiedade pela volta do rush diário de pessoas no centro, O Globo saudou a “reocupação gradual” do edifício sede da Petrobrás, após a reforma do imóvel (‘Petrobras inicia reocupação de sede histórica no Centro do Rio após primeira grande revitalização em 50 anos’, em 12/6/2026), e reforçou esse posicionamento em reportagem recente (24/7/2026) alertando que o centro do Rio ainda “vive um dilema”: de um lado prédios são reformados e do outro, o abandono patrimonial, “com imóveis de grande porte, muitos deles históricos, sem uso, degradados ou à espera de uma solução definitiva” (‘ Palacete invadido, antigo IML, hospital fechado e sede histórica dos Correios retratam desafios da revitalização do Centro do Rio’).

Capital da República até 1960 quando foi substituída por Brasília, a cidade do Rio concentra mais de uma centena de repartições públicas federais e de acordo com o Anuário Estatístico do IBGE (2024) são 85.792 funcionários federais civis ativos no Rio de Janeiro, o segundo maior contingente depois de Brasília com 93.938 mil.

No início do ano (14/1/2026) a sede da prefeitura foi palco do lançamento do livro “Rio, Capital do Brasil: Ensaios sobre a Capitalidade”, uma coletânea de textos de acadêmicos que analisam o papel do Rio de Janeiro como capital do país, desde o período colonial.  Na ocasião, o prefeito Eduardo Paes ressaltou o que, segundo ele, “todo carioca sente na pele: o Rio nunca foi uma cidade comum.”  

- Foram quase 200 anos de capital do Brasil, e isso não é apenas um dado histórico. Isso moldou a cidade, a política, a cultura e a própria ideia de Brasil, reforçou.

Há cinco anos, através do decreto nº 48815 (30/4/2021),Paes determinou o retorno dos funcionários municipais ao regime presencial (salvo algumas exceções), “possibilitando aumentar de forma segura a oferta de serviços e o atendimento mais eficiente à população do município do Rio de Janeiro”.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Porto de Santos: Narcotráfico muda rota para driblar fiscalização

 / Sheila Sacks /

Com mais de 27 toneladas de cocaína apreendidas em 2019, o maior complexo portuário da América Latina, situado no litoral paulista, viu a quantidade da droga confiscada se reduzir radicalmente  nos anos seguintes, baixando para 7,4 toneladas em 2025. No entanto, carregamentos de cocaína continuavam a ser apreendidos nos portos europeus apesar da vigilância e rastreamento dos contêineres nos terminais de carga de Santos.

Reportagem da Insight Crime – uma instituição de jornalismo investigativo, sediada em Washington, com foco nas organizações criminosas da América Latina – revelou que agentes federais, reforçando o monitoramento e analisando novas informações, descobriram que integrantes da organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) tinham se infiltrado nas comunidades que se encontram às margens do cais e através delas carregavam toneladas de cocaína para os enormes navios cargueiros na entrada do canal.

Constataram também uma mudança na rota tradicional e a utilização do continente africano como destino final temporário de onde posteriormente despachavam os carregamentos rumo à Europa para as quadrilhas internacionais realizarem a distribuição da droga ('Is Brazil’s Biggest Port Winning the Fight Against Drug Traffickers?', em 2/3/2026).

A diversificação das rotas pôde ser constatada essa semana (6/7/2026) com a apreensão pela Polícia Federal de 437 quilos de cocaína no Porto de Santos. A droga estava escondida em uma carga de sucata de ferro com destino aos Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio e foi interceptada pela Receita Federal durante inspeção aduaneira.   

 Peça-chave

Quatro anos antes, em 2022, o mesmo Insight Crime apontava o porto de Santos  como “ponto crucial para o comércio global de cocaína”. Na ocasião, o jornalista investigativo Chris Dalby, fundador da plataforma World of Crime e autor de livros sobre os cartéis do México e da Venezuela, revelou a apreensão de perto de duas toneladas de cocaína em um único dia em carregamentos que sairiam de Santos em direção à Europa.

A informação teve como base o portal de notícias em espanhol defensa.com, especializado em temas das áreas militar, de defesa e segurança. Foram descobertos 265 quilos da droga escondidos em uma carga de café que seguiria para o porto de Le Havre (França); mais 730 quilos da droga em um container carregado de suco de laranja com destino à Valência (Espanha); e mais 504 quilos de cocaína em uma carga de açúcar que seguiria para Gana (‘How Brazil’s Port of Santos Became Cocaine’s World Trade Center’, em 13/1/2022).

O autor explica na reportagem que a ascensão do porto de Santos como “importante ponto de saída internacional de cocaína” teve como fator primordial a expansão da facção criminosa PCC que “ampliou seus tentáculos de tráfico de drogas por toda a região, concentrando-se principalmente no Paraguai e na Bolívia”.

Dessa forma, a droga produzida na Bolívia é transportada através do Paraguai e do território brasileiro até Santos, sob o controle de integrantes do PCC que domina todo o fluxo de cocaína nos países vizinhos.

Segundo Dalby,  a principal parceira do PCC na Europa é a 'Ndrangheta, a máfia italiana da região sul da Calábria. Citando dados da Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), o jornalista escreve que essa organização criminosa permitiu que a cocaína que saísse de Santo entrasse na Europa pelos portos de Roterdã e Antuérpia, sendo posteriormente distribuída às máfias russa, dos Bálcãs e marroquinas.

“A 'Ndrangheta também ajudou a estabelecer acordos de tráfico de drogas entre o PCC e grupos criminosos na África Ocidental, que ficavam com parte da cocaína em troca de auxílio no transporte de grandes quantidades para a Europa”.

Outros intermediários internacionais lembrados por Dalby também incluiriam as máfias sérvias, de acordo com relatório da Europol (European Union Agency for Law Enforcement Cooperation), de 2019, e o cartel irlandês comandado pelo “ narcotraficante mais notório do país, Daniel Kinahan,”, dono de  terras e negócios no Brasil (The Irish Sun, em 8/10/2020).

 Condenação

Recentemente foi noticiado que um ex- funcionário do porto de Santos foi condenado pela justiça brasileira a onze anos de prisão por burlar a fiscalização e permitir o envio de 416 quilos de cocaína para a Suíça escondidos em sacas de café (‘Chefe de terminal facilitou envio de 416 kg de cocaína para a Suíça’, no Metrópoles, em 30/6/2026).

O episódio aconteceu em 2022 e a denúncia partiu das autoridades suíças que identificaram a carga como provinda do porto de Santos e encaminharam a informação à Polícia Federal (PF). Apesar da justificativa do réu que alegou ter sido ameaçado por dois indivíduos desconhecidos de posse de fotos de sua esposa e filho, e que foi coagido a facilitar a remessa da droga no contêiner, ele foi o único condenado.

Na sentença, de acordo com o Metrópoles, foi ressaltado que o crime foi cometido com o auxílio de outras pessoas, mas os suspeitos não foram identificados pela investigação. ”Esses indivíduos teriam sido os responsáveis por recrutar Diogo (o réu), fornecer o celular para comunicação e realizar a contaminação física do contêiner com a droga no galpão.”

Em 2025, o Porto de Santos registrou a maior movimentação de cargas de sua história: 186,4 milhões de toneladas, um crescimento de 3,6% em relação a 2024, quando havia alcançado 179,8 milhões. Foram 137,4 milhões de toneladas exportadas e 49 milhões importadas em 5,9 milhões de contêineres padrão. Esse volume representa 30% de toda corrente comercial do país (‘Porto de Santos bate novo recorde em 2025 e amplia participação no comércio exterior’, no G1, em 18/1/2026).