/ Sheila Sacks /
Em artigo publicado no jornal The Washington Times (5/5/2026), o jornalista Clifford May, presidente da Fundação para a Defesa das Democracias (The Foundation for Defense of Democracies -FDD), alerta sobre a dificuldade de negociar uma paz duradoura com o Irã devido a sua doutrina religiosa e um histórico de conflitos que “minam as perspectivas” de um acordo real.
Sob o título “Iran rulers’ ideology
make lasting peace deal unlikel” (‘A ideologia dos governantes do Irã torna
improvável um acordo de paz duradouro’, em tradução livre), o texto enuncia uma
série de atos terroristas a partir da instalação do regime autoritário dos
aiatolás, em 1979. Seu autor é um veterano profissional que trabalhou como
repórter, correspondente estrangeiro e colunista político em várias mídias, e
foi editor da revista Newsweek e do jornal The New York Times.
Com sede na capital americana, a FDD é uma organização independente fundada após os ataques de 11 de setembro de 2001 que reúne especialistas e acadêmicos em segurança nacional e política externa. A instituição produz pesquisas e relatórios nas áreas de governo, inteligência, forças armadas, economia e tecnologia.
Reféns por 441 dias
No artigo em questão, entre centenas de atos terroristas o jornalista destaca a tomada da embaixada dos EUA em Teerã, e o sequestro de diplomatas americanos mantidos como reféns por 444 dias (de novembro de 1979 a janeiro de 1981), ocorrida menos de um ano da instalação da república islâmica, após a deposição do Xá Reza Pahlavi e a eliminação da monarquia iraniana.
Também lembra que, quatro anos depois, atentados em Beirute organizados pelo Irã mataram 241 militares americanos que atuavam nas forças de paz; e em 1996, outro ataque apoiado pelo Irã, desta vez na Arábia Saudita, contra as Torres Khobar (um complexo de moradia para militares) resultou na morte de 19 soldados das tropas americanas.
Estima-se que os recentes ataques americanos e israelenses a instalações militares e nucleares iranianas podem ter atrasado em dois ou três anos, caso não recebam ajuda externa, as ambições de poder do governo dos aiatolás. Mas, segundo Clifford May, o atraso não justificaria uma possível “complacência” porque existe a informação de que milhares de mísseis e drones já foram construídos e escondidos em fortalezas subterrâneas. Inclusive mais armas nucleares estão sendo abrigadas no profundo complexo de túneis instalado sob a Montanha Pickaxe, na região central do país, “que nem mesmo os projéteis da artilharia maciça dos americanos lançados de bombardeiros B-2 conseguiram destruí-lo”.
Outro fator atuante no conflito envolveria o aspecto religioso. “Os governantes do Irã se veem como jihadistas lutando uma guerra santa contra os inimigos de Alá. Eles podem cogitar cessar-fogos temporários, períodos de calma que lhes permitam rearmar-se para a próxima batalha, mas um acordo de paz sério está fora de questão”, assegura May, de 75 anos.
Ele explica que a maioria dos 93 milhões de iranianos professa o islamismo xiita duodecimano que acredita que o 12º Imã, Muhammad al-Mahdi, foi "ocultado" por Alá há mais de mil anos, e que retornará como o Mahdi, essencialmente o messias. “Para os seguidores do Aiatolá Khomeini os muçulmanos devem apressar esse retorno por meio de conflitos, caos, derramamento de sangue e martírio”, finaliza.
Professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém na área de Estudos Islâmicos, Moshe Sharon diz que as nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem países árabes. Especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), história e religião islâmica e estudioso do xiísmo (predominante no Irã e no Iraque), foi consultor para assuntos árabes do governo do Primeiro-Ministro Menachem Begin (1977-1983) e tem vários livros publicados sobre o tema.
Por mais de quatro décadas, Sharon é incisivo ao questionar a posição de líderes ocidentais que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (que significa submissão)”.
Em agosto de 2005, alguns meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza após a Cúpula de Sharm el-Sheikh que selou um breve acordo de paz entre palestinos e israelenses, um dos líderes mais proeminentes do Hamas, Mahmoud al-Zahar, então ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera declarou que o grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém, a Judéia e a Samaria. “Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos. Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).
Em outra oportunidade, Al-Zahar – autor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 - chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”
Para Sharon está patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida judaico-cristã do Ocidente. “Quando Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”
Ainda sobre acordos temporários, um ditado árabe define bem a situação: palavras não pagam impostos, lembra Sharon. Ele reforça que nessas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou a tática em Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e marchou com dez mil soldados sobre a cidade.
Diante das características das negociações que devem ser entendidas de que “tratados não são permanentes”, Sharon conta que sempre aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez o inimigo falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma concordância que, mais adiante, não se concretizou.


