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terça-feira, 12 de maio de 2026

Na guerra das civilizações, um Ocidente acuado e complacente

/ Sheila Sacks /

Em artigo publicado no jornal The Washington Times (5/5/2026), o jornalista Clifford May,  presidente da Fundação para a Defesa das Democracias (The Foundation for Defense of Democracies -FDD), alerta sobre a dificuldade de negociar uma paz duradoura com o Irã devido a sua doutrina religiosa e um histórico de conflitos que “minam as perspectivas” de um acordo real.

Sob o título “Iran rulers’ ideology make lasting peace deal unlikel” (‘A ideologia dos governantes do Irã torna improvável um acordo de paz duradouro’, em tradução livre), o texto enuncia uma série de atos terroristas a partir da instalação do regime autoritário dos aiatolás, em 1979. Seu autor é um veterano profissional que trabalhou como repórter, correspondente estrangeiro e colunista político em várias mídias, e foi editor da revista Newsweek e do jornal The New York Times.  

Com sede na capital americana, a FDD é uma organização independente fundada após os ataques de 11 de setembro de 2001 que reúne especialistas e acadêmicos em segurança nacional e política externa. A instituição produz pesquisas e relatórios nas áreas de governo, inteligência, forças armadas, economia e tecnologia.   

 Reféns por 441 dias

No artigo em questão, entre centenas de atos terroristas o jornalista destaca a tomada da embaixada dos EUA em Teerã, e o sequestro de diplomatas americanos mantidos como reféns por 444 dias (de novembro de 1979 a janeiro de 1981), ocorrida menos de um ano da instalação da república islâmica, após a deposição do Xá Reza Pahlavi e a eliminação da monarquia iraniana.

Também lembra que, quatro anos depois, atentados em Beirute organizados pelo Irã mataram 241 militares americanos que atuavam nas forças de paz; e em 1996, outro ataque apoiado pelo Irã, desta vez na Arábia Saudita, contra as Torres Khobar (um complexo de moradia para militares) resultou na morte de 19 soldados das tropas americanas.

 Prosseguindo, May escreve que durante a Guerra do Iraque, de 2003 a 2011, “o regime islâmico fabricou foguetes, projéteis perfurantes e artefatos explosivos improvisados ​​para uso pelas milícias xiitas que atuavam no Iraque. Pelo menos 603 militares americanos foram mortos pelo uso dessas munições, segundo o Pentágono”.  E acentua que após o atentado terrorista do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, a Resistência Islâmica do Iraque (The Islamic Resistance in Iraq - IRI), uma coalizão de milícias xiítas financiada pelo Irã, atacou as forças americanas no Oriente Médio mais de 180 vezes.

 “Ao longo dos anos, houve apenas uma resposta significativa à política declarada de Morte à América dos autoproclamados revolucionários islâmicos do Irã e de seus grupos terroristas aliados: em 2020, o presidente Trump ordenou um ataque com drone que eliminou Qassem Soleimani, o mentor terrorista do regime (comandante da Força Quds do Irã, responsável por atos terroristas no exterior)”, afirma.

 Arma nuclear em seis meses

 De acordo com o físico e especialista em questões nucleares, David Albright, os iranianos tinham condições de construir uma arma nuclear em menos de seis meses, antes da campanha aérea americana, em junho de 2025, contra as instalações das usinas de Fordow, Natanz e Esfahan. Presidindo o Instituto para a Ciência e Segurança Internacional (Institute for Science and International Security), fundado em 1993, Albright é autor de nove livros e publica regularmente artigos na mídia mundial sobre programas secretos de armas nucleares desenvolvidos por países como o Irã e a Coreia do Norte.

Estima-se que os recentes ataques americanos e israelenses a instalações militares e nucleares iranianas podem ter atrasado em dois ou três anos, caso não recebam ajuda externa, as ambições de poder do governo dos aiatolás. Mas, segundo Clifford May, o atraso não justificaria uma possível “complacência” porque existe a informação de que milhares de mísseis e drones já foram construídos e escondidos em fortalezas subterrâneas. Inclusive mais armas nucleares estão sendo abrigadas no profundo complexo de túneis instalado sob a Montanha Pickaxe, na região central do país, “que nem mesmo os projéteis da artilharia maciça dos americanos lançados de bombardeiros B-2 conseguiram destruí-lo”.

 Guerra santa

Outro fator atuante no conflito envolveria o aspecto religioso. “Os governantes do Irã se veem como jihadistas lutando uma guerra santa contra os inimigos de Alá. Eles podem cogitar cessar-fogos temporários, períodos de calma que lhes permitam rearmar-se para a próxima batalha, mas um acordo de paz sério está fora de questão”, assegura May, de 75 anos.

Ele explica que a maioria dos 93 milhões de iranianos professa o islamismo xiita duodecimano que acredita que o 12º Imã, Muhammad al-Mahdi, foi "ocultado" por Alá há mais de mil anos, e que retornará como o Mahdi, essencialmente o messias. “Para os seguidores do Aiatolá Khomeini os muçulmanos devem apressar esse retorno por meio de conflitos, caos, derramamento de sangue e martírio”, finaliza.

 Linguagens distintas

Professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém na área de Estudos Islâmicos, Moshe Sharon diz que as nações erram ao aplicar o pensamento ocidental às ações políticas que envolvem países árabes. Especialista em epigrafia árabe (inscrições antigas), história e religião islâmica e estudioso do xiísmo (predominante no Irã e no Iraque), foi consultor para assuntos árabes do governo do Primeiro-Ministro Menachem Begin (1977-1983) e tem vários livros publicados sobre o tema.

Por mais de quatro décadas, Sharon é incisivo ao questionar a posição de líderes ocidentais que, sem conhecerem uma palavra do idioma árabe, se arvoram em vozes e intérpretes de uma cultura que não entendem. “Esses políticos criaram uma falácia denominada fundamentalismo islâmico. Algo como um Islã bom e um Islã mau. Isso não existe. Há apenas um Islã (que significa submissão)”.

 Acordos temporários

Em agosto de 2005, alguns meses depois da retirada de Israel da Faixa de Gaza após a Cúpula de Sharm el-Sheikh que selou um breve acordo de paz entre palestinos e israelenses,  um dos líderes mais proeminentes  do Hamas, Mahmoud al-Zahar, então ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina, em entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera declarou que o grupo armado não iria desistir da Grande Palestina, que inclui a cidade de Jerusalém, a Judéia e a Samaria. “Esta solução que está aí é temporária e pode durar de cinco a dez anos. Mas, ao final, a Palestina voltará a ser muçulmana e Israel desaparecerá da face da terra” (reproduzida pelo site Ynet news sob o título 'Israel will eventually disappear', em 7/11/2005).

 Pouco tempo depois, em entrevista à rede cristã norte-americana CBN News (The Christian Broadcasting Network), Al-Zahar declarou textualmente: “Nós estamos em meio a uma terceira Guerra Mundial. Eu digo isso o tempo todo. E mais: Por que o Hamas deveria abrir mão de suas armas? Para satisfazer Israel? Para satisfazer algum ser humano na terra? A resposta é não”.

 Na concepção de Sharon, o que Al-Zahar, de 79 anos, quis dizer quando falou em terceira Guerra Mundial, “se traduz da seguinte forma: nós, muçulmanos, queremos restabelecer o Califado, da Índia e China à Espanha. Isso porque os árabes ainda consideram a Espanha como território islâmico (a Península Ibérica ficou sob o domínio dos árabes por 700 anos - do séc. VIII ao XV).”

 “Cristãos-sionistas”

Em outra oportunidade, Al-Zahar – autor de “Ódio aos Judeus – Um Legado Histórico", publicado em 2020 -  chamou os norte-americanos de cristãos-sionistas que acreditam em ilusões como a de que o Salvador retornará a Jerusalém e que os judeus devem estar lá para esperá-Lo. “Os americanos incitam o mundo contra o Hamas e outros grupos muçulmanos”, acusou o líder palestino, “e portanto não há benefício em manter um diálogo com pessoas que convivem com o Satã.”

Para Sharon está patente que a briga com os chamados cristãos-sionistas dos Estados Unidos faz parte de uma guerra maior que o Islã trava contra o sistema de vida judaico-cristã do Ocidente. “Quando Al-Zahar diz que o poder de Israel e dos americanos não é eterno e que isso pode mudar, o que ele verdadeiramente expõe é que o objetivo do Hamas é o estabelecimento de um estado palestino muçulmano em Israel e também o domínio de toda a terra pelo Islã.”

 O professor adverte que o Ocidente está em perigo e deve enfrentar a situação de maneira séria. “Para muitos pode parecer uma piada esta história de dominar o mundo, mas para os muçulmanos são palavras de Deus. Desde os primórdios, a intenção do Islã sempre foi subjugar os povos e colocá-los sob as suas leis e regras. E hoje, esse plano está a caminho e nós precisamos ter consciência do fato”

 “Palavras não pagam impostos”

Ainda sobre acordos temporários, um ditado árabe define bem a situação: palavras não pagam impostos, lembra Sharon. Ele reforça que nessas guerras de civilizações são muito utilizados os artifícios do tipo cessar-fogo ou acordos de paz, como instruiu Maomé, que usou a tática em Hudaybiya, em 728. Neste local ele firmou um tratado de paz de dez anos com a tribo Quraish que vivia na cidade de Meca. Em dois anos quebrou a promessa e marchou com dez mil soldados sobre a cidade.

 Tal fato histórico foi mencionado por Yasser Arafat, quando semanas depois do Acordo de Oslo (1994) ele se justificou em uma mesquita na África do Sul. O professor Sharon gravou o discurso em que Arafat pedia desculpas pela sua assinatura no documento, dizendo: “Vocês acham que eu poderia assinar algo com os judeus contrário ao que dizem as regras do Islã? Não foi assim. Eu fiz exatamente o que o profeta Maomé fez.” Ou seja, Arafat estava simplesmente falando: lembrem-se da história de Hudaybiya.

Diante das características das negociações que devem ser entendidas de que “tratados não são permanentes”, Sharon conta que sempre aconselhou o ministro Begin a não ser o primeiro a falar sobre as propostas de Israel, em qualquer acordo ou tratado de paz com os árabes, porque eles seguem o exemplo do califa muçulmano Ali Ibn Abu Talib - primo e genro de Maomé e mártir dos xiitas - que, em uma contenda em Damasco, no século VII, fez o inimigo falar primeiro e assim conheceu os seus planos, dando a impressão de uma concordância que, mais adiante, não se concretizou.