Sheila Sacks
Deflagrada
em 15 de julho pela Polícia Civil e o Ministério Público do estado do Rio de
Janeiro (MPRJ), a Operação Hawala de combate à lavagem de dinheiro ligada ao
tráfico de drogas se estendeu a outros estados da federação e à cidade de Foz
de Iguaçu, no Paraná.
Reportagem
publicada no diário argentino La Nacion
(‘ Una investigación de lavado en la Triple Frontera une al PCC con el
financiamiento de Hezbollah y Al Qaeda’, em 18/7/2026) destaca que a
investigação iniciada na favela de São Carlos, perto do centro histórico do
Rio, estabeleceu um provável elo com a lavagem de fundos para grupos
terroristas, como a Al-Qaeda e o Hezbollah, em Foz do Iguaçu, na Tríplice
Fronteira. Das 22 pessoas denunciadas, dez foram detidas.
De acordo com o jornalista
investigativo Gérman de lós Santos, que assina a reportagem, ao detectar uma
relação comercial entre uma empresa ligada aos investigados e um indivíduo
sancionado pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), do Departamento do Tesouro
dos EUA, por financiamento a grupos terroristas, o trabalho policial resultou
em uma descoberta paralela “com repercussões internacionais”.
Ele explica que o rastreamento da
lavagem de dinheiro ensejou o nome da operação (Hawala) que se refere ao sistema
informal de transferência de valores, “com origens antigas no Oriente Médio e
sul da Ásia”, executada através de uma rede de intermediários que movimenta
créditos e dívidas entre si, sem passar por bancos. “É o mecanismo que, segundo
pesquisas internacionais, historicamente conectou o comércio na Tríplice
Fronteira com as redes de financiamento no Líbano.”
Empresas
de fachada
Cumprindo um total de 37 buscas e
apreensão nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, o
objetivo inicial da polícia era desmantelar uma estrutura de dezenas de
empresas de fachada registradas em vários estados que, segundo a denúncia,
“lavou cerca de US$ 19 milhões (mais de 100 milhões de reais) em dinheiro do
narcotráfico entre 2021 e 2024, a serviço de três facções criminosas
brasileiras: o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e o
Terceiro Comando Puro (TCP)”.
Documentos obtidos pelo La Nacion junto à Polícia Civil estadual
confirmaram a prisão do foragido da justiça americana durante a operação. As
buscas também constataram referências ao Hezbollah, a organização xiita
libanesa cuja rede de arrecadação de fundos na Tríplice Fronteira está sob
investigação há três décadas. O jornalista destaca, porém, que a palavra
"terrorismo" não consta da declaração oficial dos procuradores da
unidade antimáfia do MPRJ, e que “a hipótese de ligação com a Al-Qaeda e o
Hezbollah é, por ora, uma linha de investigação policial que começa a ser
aprofundada”.
Correspondente na cidade de Rosário,
German de lós Santos é autor premiado de três livros sobre as máfias do
narcotráfico e, em 2015, ganhou o Prêmio Adepa ( Asociación de Entidades
Periodísticas Argentinas) pela melhor reportagem investigativa sobre
narcotráfico publicada pelo La Nacion.
É professor da cátedra “Periodismo de Investigación” na Universidade Católica
Argentina (UCA).
Centros
de arrecadação
Descrevendo sobre a operação em Foz de
Iguaçu, a reportagem ressalta o envolvimento de empresários de origem libanesa
supostamente ligados ao Hezbollah. Também em São Paulo, observa o jornalista,
sobrenomes árabes estão entre os denunciados.
Desde os ataques à embaixada israelense
e ao centro comunitário judaico AMIA, em Buenos Aires (1992 e 1994), as cidades
da Tríplice Fronteira são consideradas centros logísticos de arrecadação para
organizações terroristas. Em 2018, escreve German, o líder da clã Barakat foi
preso a pedido da Justiça Federal argentina e, em 2021, o Departamento do
Tesouro dos Estados Unidos sancionou uma rede da Al-Qaeda no Brasil ( três
homens e duas empresas), a primeira designação desse tipo no país.
Para o autor, um desses indivíduos, ou
outros adicionados posteriormente à lista, pode ser o homem cuja transação com
as empresas da família Zayoun desencadeou esta nova fase da investigação.
“Armas fluem da Argentina e do Paraguai para as facções; a cocaína viaja pelo
Canal Paraná-Paraguai e atravessa para os portos do Atlântico; o dinheiro é
lavado através do sistema Hawala entre Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Líbano,
sem nunca passar por um banco. Todos os três fluxos utilizam a mesma geografia
e, como sugere o processo aberto no Rio de Janeiro, às vezes os mesmos
operadores.”
Facções
terroristas
A plataforma Insight Crime que monitora
as organizações de narcotráfico na América Latina também destacou a operação no
Rio, lembrando que os Estados Unidos designaram o PCC, em junho de 2026, como
organização terrorista (FTO - Foreign Terrorist Organization).
Reportando o histórico do grupo
criminoso, a matéria (‘Primeiro Comando da Capital –PCC, em 20/7/2026) ressalta
que a organização foi formada após o massacre ocorrido no presídio paulista do
Carandiru, em outubro de 1992, onde mais de 100 presos foram mortos pelas
forças de segurança, após uma rebelião. “Eles começaram a expressar solidariedade
a outra facção carcerária, o Comando Vermelho (CV – também designado
organização terrorista pelos EUA), adotando o lema ‘paz, justiça e liberdade’ e
defendendo a revolução e a destruição do sistema capitalista.”
A Insight Crime assinala ainda que o
PCC realizou o maior assalto a banco da história de São Paulo, em 1999,
roubando cerca de 32 milhões de dólares, e que em 2001 “coordenou a maior
rebelião prisional do mundo, com o fechamento simultâneo de 29 unidades
prisionais em todo o estado.”
Ligações
perigosas
Para o cientista político Emanuele
Ottolenghi, consultor sênior da plataforma digital 240 Analytics, que reúne
especialistas em rastreamentos de fluxos financeiros de risco, o Brasil abriga,
há quase 30 anos e de forma permanente, o principal representante regional do
Hezbollah.
Em artigo publicado no site de notícias
Infobae, (‘Dentro de la red de Hezbollah
en Brasil’, em 3/8/2026), o autor cita a
operação Hawala e observa que o país ocupa uma posição central na estratégia da
organização para a América Latina, representando “um desafio significativo para
a segurança regional” devido às relações que criou, ao longo dos anos, com os
principais grupos criminosos da região.”
Autor do livro “Inside Iran's Islamic Revolutionary Guards Corps”, Ottolenghi considera que Brasil deveria adotar medidas semelhantes já postas em prática na Argentina que, em 2019, designou o Hezbollah como organização terrorista e no mesmo ano criou o Registro Público de Pessoas e Entidades Vinculadas a Atos de Terrorismo e seu Financiamento (RePET), com base no banco de dados dos EUA. “Instrumentos desse tipo poderiam ampliar a capacidade do Estado de desarticular um componente fundamental de convergência entre terrorismo e o crime no Brasil e reduzir a capacidade das facções criminosas de lavar recursos de origem ilícita.”, reforça o especialista.




