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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Antissemitismo no Brasil mais que triplicou em 2023, atestam organizações judaicas

Nas redes sociais, o aumento de postagens antissemitas foi de 419% em relação a 2022

Agressões verbais e físicas cresceram 86%, muitas tendo como alvo professores e estudantes judeus  

Sheila Sacks


Relatório  elaborado pela pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB), com apoio da Federação Israelita de São Paulo (FISESP), alerta que  em 2023 houve um total de 1.410 registros de antissemitismo, um aumento de 255% em relação a 2022, quando foram assinaladas 397 ocorrências. O estado de São Paulo, onde se concentra a maior parte da comunidade judaica, foi o campeão das ocorrências, com 512 registros; Rio de Janeiro (95), Rio Grande do Sul (67), Minas Gerais (37), Paraná (32), Distrito Federal (23) e Santa Catarina, com 22 casos. Classificados como Não Definidos (ND) foram 532 ocorrências.

O estudo de 54 páginas apresentado em 11 de junho  destaca que entre outubro e  dezembro de 2023, após o ataque terrorista do Hamas e a consequente reação de Israel, as manifestações antissemitas cresceram quase 800%  nas redes sociais e eventos públicos. Foram 1.119 denúncias, enquanto em igual período de 2022 o número não passou de 125. Somente em outubro de 2023 foram detectados 467 registros ante os 44 ocorridos em outubro de 2022, um aumento de 961%. 

De acordo com o documento intitulado “Antissemitismo no Brasil 2023 – O Aumento Exponencial da Intolerância aos Judeus “,  a FISEP, através de seu Departamento de Segurança Comunitária (DSC), recebeu no ano de 2023 um total de 2.113 denúncias de antissemitismo, das quais resultaram 1.410  registros. Em 2022 foram 490 denúncias.  Nas redes sociais, o Instagram concentrou 43% das manifestações e comentários antissemitas  ( 450 postagens) e o “X”, antigo Twitter, 32% (330). Houve um crescimento de ocorrências online de 419% em relação a 2022, saltando de 202 para 1.048.

O relatório também verificou que quando havia reação de Israel a agressões do Hamas e declarações “dúbias ou contra Israel “ de autoridades brasileiras, aumentava o antissemitismo nas redes sociais.

Em relação às agressões offline,  o aumento em 2023 foi de 86%, passando de 195 (2022) para 362. Merece destaque os casos em instituições de ensino. Em 2022, a maioria das ocorrências fazia apologia ao nazismo com pichação de suásticas e outros símbolos em muros de escolas. Já em 2023, houve um aumento de agressões verbais e físicas a professores e alunos judeus.  O documento  também cita ocorrências registradas  nos primeiros meses de 2024, como a agressão a uma comerciante judia, na Bahia, em fevereiro; bullying de cunho nazismo a um aluno judeu da escola paulista Beacon School (março); e a expulsão de um universitário do Centro Acadêmico da PUC-SP sob a justificativa de ser judeu sionista (maio).  “Como resultado, os judeus brasileiros se viram obrigados a alterarem seu comportamento por medo. Algo inadmissível em uma sociedade democrática”, afirma a pesquisa.

O texto – que em sua página inicial faz uma homenagem aos quatro brasileiros judeus vítimas do ataque do Hamas (Karla, Bruna, Ranani e Michel) - defende o fortalecimento nos currículos escolares da educação sobre o Holocausto e principalmente a adoção de políticas públicas eficazes por parte das instituições governamentais no combate ao discurso de ódio e à desinformação nas redes sociais, ao racismo e ao antissemitismo.

Lembra ainda a definição de antissemitismo proposta pela Aliança Internacional pela Memória do Holocausto (IHRA) e desde 2016 adotada por diversos países, inclusive o Brasil (2021), e alguns estados brasileiros, como o Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, Minas Gerais ( em 8/7/2024), Rondônia e Roraima: O antissemitismo é uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são orientadas contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas. A IHRA é formada por 35 países membros e 9 observadores, contando com o Brasil e o Uruguai no segundo grupo.

A comunidade judaica brasileira, segundo o Censo 2010, tem 107.329 pessoas e representam 0,06% da população. É a segunda maior comunidade da América Latina, depois da Argentina. 

Conselho  Nacional de Direitos Humanos prepara relatório

Em maio deste ano, o presidente da Comissão de Direito Internacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção RJ, e conselheiro da Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Carlos Nicodeno, já tinha apontado a falta de uma política nacional para combater o neonazismo. Em declaração à Agência Brasil, plataforma de notícias do governo, ele afirmou: “O  Brasil não tem políticas específicas de enfrentamento ao neonazismo, crime que tem registrado aumento de denúncias especialmente em anos eleitorais."

Na visita de um grupo de integrantes do Conselho à sede da OAB, no Rio, em 26 de junho, Nicodeno se manifestou sobre a necessidade “de um plano educacional preventivo para desconstruir ideias equivocadas que futuramente resultem em práticas preconceituosas".

Vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, o Conselho é formado por 22 conselheiros, 11 dos quais são designados por diferentes órgãos e instituições do Poder Público e outros 11 são representantes da sociedade civil, eleitos em encontro nacional convocado por edital público.

Em abril, uma equipe do Conselho já tinha ido a Santa Catarina para realizar um trabalho de apuração e encontros com autoridades locais, como parte de um estudo que tem sido desenvolvido, há alguns meses, sobre o crescimento de células neonazistas no país.  Até o final do ano o grupo espera produzir um relatório para adoção de políticas públicas de enfrentamento contra atos neonazistas no país, a ser entregue à Organização das Nações Unidas (ONU).

“Está colocado um desafio de pensar uma política nacional de enfrentamento a essa propagação dos atos neonazistas, que passa por um aprimoramento do sistema de Justiça, de segurança pública, além de estabelecer ações no campo da educação e direitos humanos”, ressalta Nicodemos.

A promotora de Justiça, Roberta Rosa Ribeiro, em reunião na sede do Ministério Público do Rio de Janeiro (26/6) também reforçou  a premência de uma ação efetiva contra  atos violentos e discursos de ódio às minorias no país. “Resta evidente a urgência no necessário enfrentamento do crescimento dos atos neonazistas no Brasil e, em especial, no Estado do Rio de Janeiro, tendo em vista a complexidade do tema e os impactos negativos à sociedade e aos integrantes de grupos vulnerabilizados, os quais são destinatários dos atos de violência praticados pelos integrantes destas organizações criminosas, o que coloca em risco a nossa Democracia.”

Em matéria de leis, o Brasil reúne uma jurisdição que coíbe qualquer prática de racismo, preconceito ou discriminação por religião ou credo. Em 5 de janeiro de 1989 foi publicada no Diário Oficial da União a Lei 7.716 (que teve a redação atualizada pela Lei 9.459, de 13/5/1997) que no seu artigo 20 rege: Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional (pena: reclusão de um a três anos e multa). Logo a seguir, no inciso 1º, determina especificamente que fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo, resulta em uma pena de reclusão de dois a cinco anos e multa.

Dados oficiais só vão até 2022

Segundo dados da ONG SaferNet, que tem como foco a promoção e defesa dos Direitos Humanos na internet, no primeiro semestre de 2022 houve um aumento de 120% em relação ao mesmo período de 2021, no tocante a denúncias de neonazismo. Em 2021, sua Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, que trabalha com o apoio do Ministério Público Federal, recebeu e processou 14.476 denúncias anônimas de neonazismo na internet. O número é 60,7% maior que as 9.004 denúncias registradas em 2020.

A  antropóloga e pesquisadora Adriana Dias, falecida em 2023 e considerada uma das principais estudiosas sobre o neonazismo no Brasil, alertava que no início de 2022 existiam mais de 530 núcleos extremistas no país, resultado de um crescimento de 270% destas células entre 2019 e 2021.  O estado de Santa Catarina é um dos que mais geram preocupações. Somente em Blumenau foram mapeadas 63 dessas células.

De acordo ainda com o Observatório Judaico, citado no relatório preliminar do CNDH entregue em abril ao Conselho da ONU, cujos dados também param em 2022,  foram coletados no período 348 registros, sendo que 169 (44%) correspondem a violações antissemitas e neonazistas identificadas na imprensa (e reproduzidas na web) e redes sociais.  De 2019 ao primeiro semestre de 2022, houve um total de 55 registros de antissemitismo e 114 de neonazismo. O documento observa que os episódios neonazistas praticamente dobraram a cada ano: do total de 114 eventos, 12 ocorreram em 2019, 21 em 2020, 49 em 2021 e 32 até junho de 2022.

Considerando por tipo de ação, as manifestações representam 42%, as agressões verbais (25% ), propaganda (15%), violência física e vandalismo (10%) e deslegitimação do estado de Israel, 8%.

O relatório preliminar – que classifica o cenário atual de “alarmante” (Agência Brasil, em 9/4/2024), também revela dados obtidos pelo Núcleo Investigativo da CNN sobre o número de inquéritos abertos pela Polícia Federal para investigar casos de apologia ao nazismo. Em uma década houve aumento de 900%, passando de 11 casos em 2011 para 110 em 2020. O crescimento maior se deu entre 2018 e 2020, quando os registros saltaram de 20 para mais de 100 por ano.

No entanto, esses números não refletem o verdadeiro “cenário atual” de antissemitismo e neonazismo no país, porque não incluem dados de 2023 e o marco divisório que se constitui no hediondo massacre do Hamas, em 7 de outubro – que matou aproximadamente 1.300 israelenses e sequestrou 250, entre crianças, mulheres e idosos, conforme o relatório da CONIB -, e na inevitável reação das Forças de Defesa de Israel na Faixa de Gaza no sentido de eliminar a estrutura de guerra da organização terrorista.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Holocausto: Estado do Rio adere à definição de Antissemitismo da Aliança Internacional - IHRA

Solenidade aconteceu três dias antes das cerimônias memoriais do Iom HaShoá (Dia da Memória do Holocausto), em Israel (27 de Nissan, 5/6 de maio), quando uma sirene de dois minutos parou o país, na parte da manhã, para lembrar os 6 milhões de mortos vítimas do regime nazista, entre 1933 e 1945.

Sheila Sacks

Depois de São Paulo, foi a vez do estado do Rio de Janeiro aderir à Definição Funcional de Antissemitismo da Aliança Internacional para Lembrança do Holocausto (IHRA). A cerimônia ocorreu na sexta-feira, 3 de maio, no Palácio Guanabara, onde o governador Claudio Castro assinou o documento acompanhado de lideranças judaicas.

A definição, adotada por 40 países e decidida na plenária de Bucareste, em 26 de maio de 2016, afirma que “o antissemitismo é uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa como ódio aos judeus. As manifestações retóricas e físicas do antissemitismo são dirigidas a indivíduos judeus ou não judeus e/ou às suas propriedades, a instituições comunitárias judaicas e instalações religiosas".

Importante destacar que a cidade do Rio, capital do estado, já tinha aderido ao protocolo desde o ano passado, em 3 de novembro de 2023, menos de um mês após o massacre de 7 de outubro, tornando-se a primeira cidade brasileira a adotar a definição da IHRA.

Na ocasião, o prefeito Eduardo Paes abriu o Palácio da Cidade para as lideranças judaicas e fez questão de assegurar que a prefeitura está atenta às manifestações de preconceito. "Quero que todos vocês aqui, na cidade do Rio de Janeiro, se sintam muito tranquilos. Não vamos deixar que ninguém sofra algum tipo de preconceito por causa de sua origem, fé ou religião. Tenham a prefeitura do Rio como parceira de vocês", afirmou.

Anteriormente, em 9 de outubro, dois dias depois do brutal ataque, a sede do legislativo carioca foi iluminada de azul e branco, cores da bandeira de Israel, em um ato de apoio e solidariedade às vítimas do massacre. A iniciativa da Comissão dos Direitos Humanos da Casa teve o apoio da presidência da Câmara.

Não esquecer

A IHRA é formada por 35 países membros, entre eles Argentina, Canadá, Estados Unidos,  Portugal, Espanha, Suécia, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, entre outros, e 8 países observadores: Brasil, Uruguai, Chipre, Turquia, Moldávia, Bósnia e Herzegovina, Mônaco e Nova Zelândia.

O Brasil aderiu à IHRA em 9 de novembro de 2021, como país observador, cumprindo os trâmites exigidos. E no seu comunicado à imprensa, publicado no site oficial do governo, o Itamaraty afirmou que “a diplomacia brasileira buscará trabalhar dentro da IHRA para promover a educação e a pesquisa sobre o Holocausto, bem como para melhorar as políticas nacionais de combate ao antissemitismo”.  

Também lembrou que o Brasil é o “lar da segunda maior comunidade judaica da América Latina e a décima maior do mundo, e se orgulha de ter acolhido famílias que fugiram dos horrores do Holocausto”.

A data da adesão, 9 de novembro, marca o pogrom nazista de 1938, conhecido como a “Noite dos Cristais”, o violento ataque nazista que se deu em toda a Alemanha e nas regiões ocupadas da Áustria e da antiga Tchecoslováquia. Centenas de sinagogas, lojas e residências judaicas foram vandalizadas, saqueadas, incendiadas e destruídas. Pelo menos 91 judeus foram brutalmente assassinados.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Jornalista que vive em kibutz na fronteira diz que coexistência exige “posição de força” de Israel

  /  Sheila Sacks /

Bat Ayin Artists

Descendente de judeus do Iraque, Zvi Yehezkeli nasceu em Jerusalém, fala árabe fluentemente, tem três títulos acadêmicos pela Universidade Hebraica, é especialista em geopolítica do Oriente Médio, trabalhou na agência de segurança Shin Bet, foi chefe do departamento de assuntos árabes do Canal 10, da TV israelense, é autor da série de documentários "Allah Islam" (2012) sobre a influência da Irmandade Muçulmana  na Europa, e passou dois anos (2016 e 2017) percorrendo a Europa e os Estados Unidos sob falsa  identidade para investigar o papel da Irmandade nos dois continentes, o que resultou em uma nova série - Under a False Identity (Falsa Identidade, em tradução livre) – exibida no mesmo canal, em 2018. Desde 2022 chefia a seção árabe de notícias e é analista político do canal 13 News.

Com essas credenciais pontuadas por uma inegável coragem, Yehezkeli tem afirmado que a coexistência pacífica com os árabes só é possível a partir de um estado que demonstre força e que tenha poder de fogo. Residente na comunidade Bat Ayin, a oeste de Gush Etzion, ao sul de Jerusalém, na fronteira com a Cisjordânia, o jornalista de 54 anos conta que convive com os árabes “ombro a ombro”, mas é preciso se sentir forte. “Assim eles não vão se meter com você”, diz.

O Jerusalem Post repercutiu em sua plataforma digital (25/4/2024) as declarações de Yehezkeli que é cético em relação à extinção do ódio profundo que continua a alimentar a violência contra os israelenses e os judeus em geral. “Quando os árabes reconstruírem Gaza e ensinarem novamente que somos descendentes de macacos e porcos e que deveríamos ser erradicados, haverá outro 7 de Outubro”, antevê.

“Estamos em uma guerra contra o mal”, reforça. "O Hamas disse que veio para purificar o mundo dos judeus imundos. Esta é a banalidade do mal, como foi o nazismo.”

Prenúncio de um Ocidente islamizado

No início de 2018, alguns meses antes da série Falsa Identidade ir ao ar,  Yehezkeli foi entrevistado pelo jornal Israel Hayom sobre o trabalho que o levou a percorrer mesquitas, escolas, livrarias e centros muçulmanos. “Todo mundo me dizia que a bomba é o ISIS ( sigla em inglês do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, ou Daesh), isso porque quem poderia ser mais perigoso do que aqueles lunáticos.  Mas tento explicar que existe um novo tipo de bomba – uma bomba silenciosa chamada Irmandade Muçulmana.”

A propósito, Yehezkeli lembra que um importante funcionário da defesa de Israel o alertou sobre o grupo terrorista. "É como fosse uma pequena espinha encravada no rosto, sendo o verdadeiro câncer a Irmandade Muçulmana."  A organização nascida no mundo árabe está proibida de atuar em países mais moderados como o Egito e a Arábia Saudita. 

Pelo que viu e ouviu em suas viagens, o jornalista acredita que em 10 ou 20 anos alguns países europeus estarão sob o domínio da Irmandade. E cita a França, Bélgica e Dinamarca. “Eles (Irmandade) sorrateiramente irão pegar as rédeas das mãos de pessoas importantes. Se não for feito de forma pacífica, usarão a força. Eles têm uma estratégia clara e o fim do jogo é a conquista. A Irmandade ditará o tom", vaticina.

Em relação particularmente aos franceses, Yehezkeli é muito crítico. “Ninguém verifica os currículos das escolas muçulmanas  em solo francês. Se estão a ensinar o Islã tolerante ou o Islã que considera todos os outros como infiéis e cuja missão é espalhar o califado, seu domínio e controle. Esse é um processo gradual e é mais perigoso do que um ataque surpresa”, reflete. Hoje vivem 10 milhões de muçulmanos na França.

O jornalista revela que permaneceu duas semanas em bairros periféricos, a meia hora do centro de Paris, e enquanto esteve por lá, não falou uma palavra de francês, apenas árabe. “Nos cafés, mulheres e homens ficam afastados. É exatamente como estar num país muçulmano."

Munido de passaportes falsos, Yehezkeli se passou por jornalista palestino, empresário jordaniano, repórter sírio, refugiado e xeique. Ele chegou a entrevistar membros do ISIS no telhado de uma casa visando despistá-los, caso fosse descoberto. Na Turquia de Erdoğan (no poder desde 2014), Yehezkeli e a equipe foram detidos pela polícia em uma rua de Istambul. Ele usava passaporte israelense e mostrou as autorizações do governo turco para a realização da reportagem. Porém, no carro em que viajavam estavam escondidos passaportes falsos e grande parte do material de filmagem de suas andanças pela Europa. "O medo foi enorme", confessa, "e a visão de passar o resto de minha vida em uma prisão turca era assustador." Mas, depois de duas horas de interrogatório e muita tensão, a equipe foi liberada com um aviso de que todos seriam vigiados. 

Tempestade anunciada

Em relação aos Estados Unidos, já em 2013, um documentário intitulado Jihad in America:The Grand Deception traçava as raízes do Islamismo e sua influência no território americano. O filme, que conquistou vários prêmios, foi produzido pela organização The Investigative Project on Terrorism (IPT), fundada em 1995 por Steven Emerson, uma das principais autoridades em redes, financiamento e operações terroristas islâmicas nos EUA.

Segundo Noah Beck, autor de Os Últimos Israelenses (um romance apocalíptico de 2012 sobre as armas nucleares iranianas e outras questões geopolíticas no Oriente Médio), o documentário demonstra com detalhes assustadores o quanto a Irmandade Muçulmana se infiltrou na sociedade americana – desde os meios de comunicação aos campi universitários, e nas esferas governamentais estadual e federal.

No artigo que escreveu em 2015, analisando o filme para a plataforma de notícias Breitbart News, Beck já citava casos de discursos de ódio no meio acadêmico e parecia antever os acontecimentos que estão a se desenrolar nas universidades americanas, agora em 2024. “Se as universidades são cada vez mais dominadas por uma agenda islâmica e é nas universidades onde se treina o futuro da nossa democracia, que tipo de futuro nos espera?”, indagava.

No Falsa Identidade, no capítulo sobre os Estados Unidos, Yehezkeli entrevista o autor do livro 2064 – América Islâmica, escrito em 2014 por Wayne Rawlins, que mudou o nome para Abu Bakar , e este é afirmativo no objetivo de seu trabalho. “Nossa missão é inculcar valores islâmicos no coração de cada americano.” E comemora: “Este ano (2018), mais de 90 muçulmanos norte-americanos (na sua maioria democratas)  concorrem a cargos públicos.”

Seu parceiro, Yusuf al-Muslet, explica na entrevista que para levar adiante a Jihad no Ocidente  (guerra santa, segundo os muçulmanos),  a “Da'wah” é a arma número 1. Moldado na década de 1970 no Egito, o sistema Da'wah centra-se primeiro nos desfavorecidos e representa o Islã missionário e focado na caridade como uma solução generosa para os necessitados de qualquer credo. É a parte “suave” da Jihad para atrair as pessoas. Porém, adverte  Yehezkeli , o Ocidente deve compreender que a Jihad suave é até muito mais perigosa  do que a guerra da Jihad aberta. “ Não é possível combater o terrorismo com sucesso, a menos que também compreendamos a sua base ideológica fundamental. Na Sharia ( código de leis muçulmanas) não tem lugar para a liberdade de expressão. Os seus valores e os do sonho do Califado não o permitem.”

A Irmandade Muçulmana  transformou o Islão numa agenda política, e esta mistura de religião e política tornou-se conhecida como Islamismo. Desde a sua fundação, em 1928, a organização estabeleceu presença em mais de 70 países, e inúmeras instituições em todo o mundo adotaram a sua estratégia e objetivos.

Nas décadas de 1970 e 1980 foram construídos, pelos países árabes produtores de petróleo, mais de 1.500 mesquitas, 2 mil escolas, 200 faculdades e 210 centros islâmicos em países muçulmanos e da Europa.

Por trás das organizações sociais

O mais recente trabalho investigativo de Yehezkeli  para a TV foi a série Double Agent , exibida no canal 13, no final de 2022. “Foram 3 mil horas de filmagens e dezenas de entrevistas”, explica ao Jerusalem Post (22/11/2022). A história é sobre uma sueca pró-palestina que chega a Israel como turista para estudar arquitetura. Ela conhece um colono da comunidade de Eli, na fronteira com a Cisjordânia, que lhe explica o ângulo israelense do conflito. Aos poucos a mulher se introduz numa organização de direitos humanos na Cisjordânia e torna-se agente de um serviço de inteligência israelense.

Um ano depois, a agente participa de reuniões com membros do Hamas que contam como usam e operam as organizações sociais e de direitos humanos para angariar fundos, inclusive o BDS, e a estreita  ligação  do grupo terrorista com a Irmandade Muçulmana na Europa.

“Tudo foi muito complicado, usamos câmaras escondidas e precisávamos garantir que nossa agente estivesse segura”, afirma. A série foi produzida com a colaboração da organização Ad Khan, fundada em 2015 por um grupo de oficiais das Forças de Defesa de Israel (FDI) e veteranos da inteligência do exército. A agência conta com agentes infiltrados e já realizou centenas de missões de espionagem com o objetivo de dificultar e obstruir atividades e operações anti-israelenses  cujo financiamento vem de países estrangeiros e de outros organismos antissemitas. A organização é independente e conta com departamentos de pesquisa, jurídico, político e de mídia.

Lógica do Ocidente não é a lógica do Hamas

Cinco dias após o massacre de 7 de outubro, Yehezkeli foi a TV e disse  que não ficou surpreso com a violência, mas com o sucesso obtido pelo Hmas. “Eles romperam todos os muros, as cercas, as câmeras, os programas secretos, o maior projeto de segurança em Israel. Que eles eram cruéis, nós sabíamos, mas não achávamos que eles conseguiriam fazer tudo isso em menos de uma hora."

Avisos, segundo o jornalista, não faltaram. “Mesmo os avisos mais explícitos foram ignorados,” reitera. “Posso mostrar filmes onde eles dizem que vão invadir nossas comunidades, nossas terras, massacrar nossos filhos, se lhes dermos dinheiro e trabalho. E atesta: “A primeira regra do Hamas é a Jihad, e eles a praticam de muitas maneiras. O pensamento ocidental não funciona no Oriente Médio - nem no Iraque, nem no Afeganistão, e não com o Hamas. Pensamos que as muitas concessões fariam o Hamas ficar em silêncio. Nós os subestimamos.”

 Yehezkeli começou na rádio do Exército e ainda jovem trabalhou no canal 1 da TV de Israel. No seu trabalho de jornalismo investigativo entrevistou Yasser Arafat e Mahmoud Abbas, entre outros líderes árabes. Ele recebeu educação laica, mas já adulto se voltou para o judaísmo ortodoxo que pratica fielmente. A guinada se deu depois de uma viagem à Índia quando teve contato com movimento religioso Chabad. Casou com uma jovem ortodoxa e o casal tem 7 filhos.  Apesar de ser uma estrela da TV, com suas análises políticas e produção de documentários,  a família não tem TV em casa.

domingo, 17 de março de 2024

Ignorância e indulgência ajudam o terrorismo no Oriente Médio

 Sheila Sacks

 




Comparações mal-intencionadas e irresponsáveis entre Gaza e o Holocausto emitidas por alguns chefes de estado do quadrante latino das Américas, parecem ser desconsideradas, não causam escândalos e nem abalam reputações.

Foi o que se apreende da matéria assinada pela articulista de O Globo, Janaína Figueiredo, sob o título “Sem mea-culpa no Planalto” (23/2/2024).

E justifica: “O custo para Lula, em termos de relações externas, não foi elevado. Ele abraçou uma causa e não pretende soltá-la.” E prossegue: “Lula e seus assessores não falam em autocrítica, mea-culpa nem nada parecido. Não se faz a avaliação de que a fala sobre Lula comparando o que Israel faz na Faixa de Gaza com o que Hitler fez com os judeus causou danos à imagem do Brasil.”

Uma avaliação, no mínimo, espantosa, porque parte do princípio de que o disparate na fala do presidente brasileiro não vale muita coisa. Ou, como já reportava o historiador Gaspar Barléu, lá pelos idos do século 17, em sua análise sobre a dominação holandesa em Recife: “ultra aequinotialem non peccavi” (não existe pecado abaixo do Equador).

Logo, reforçando a tese “dos sem pecados”, que mistura ignorância, irrelevância, esculhambação, irresponsabilidade verbal, desrespeito, populismo e alguma dose de cinismo, alguns dirigentes da região latina, como os presidentes  da Colômbia, Bolívia, Venezuela e Cuba, de imediato fizeram coro à fala de Lula em sua afirmativa de um genocídio em Gaza, comparável ao Holocausto.  Políticos companheiros que empurram a história real para escanteio, atropelam os fatos, fecham os olhos para as organizações terroristas, dão de ombros frente a um país minúsculo, única democracia no Oriente Médio, acuado por vizinhos hostis armados e nutridos por uma ideologia de destruição.

O Hamas, de pronto, agradeceu o apoio do presidente brasileiro, e um de seus integrantes, em gravação de vídeo, classificou de "postura corajosa" a comparação ofensiva entre Gaza e o Holocausto.

O continente europeu e os EUA, por sua vez, ainda enxergam a América Latina (Sul e Central) de maneira benevolente, como um conjunto de países pobres, desiguais e folclóricos, às voltas com graves problemas sociais. Dessa forma, preferem não se imiscuir em querelas públicas com seus governantes, pouco relevantes na geopolítica mundial, a não ser que ideologias não toleráveis possam ameaçar a tranquilidade do gigante do Norte, como foi a revolução cubana na década de 1960.

 Milícias e traficantes   

Ainda que não exista paralelo no Brasil de uma organização terrorista do molde do Hamas – com profundo envolvimento e apoio da população local - o país tem várias milícias paramilitares que dominam comunidades e praticam extorsão, e grupos armados de narcotraficantes,  como o PCC e o Comando Vermelho, que com suas ações violentas e ilegais mobilizam policiais civis e militares dos estados, e até a Força Nacional de Segurança Pública, em confrontos que acabam vitimando crianças e civis em geral.

Esses casos ocorrem principalmente nas incursões em comunidades de favelas e periferias ( com sua geografia de ruelas estreitas, subidas íngremes e esconderijos nas matas) onde ocorrem tiroteios entre policiais  e bandidos, com vítimas inocentes sendo atingidas por “balas perdidas”, uma alegoria inventada pela imprensa brasileira que serve como escudo de proteção aos policiais no âmbito judiciário.

No episódio da fuga de dois traficantes do Comando Vermelho do presídio de segurança máxima de Mossoró, no Rio Grande Norte (14/2),  a polícia federal prendeu, dez dias depois, o dono do sítio que abrigou os bandidos, mediante mandato judicial acusatório de “colaboração”,  por ele ter recebido a quantia de 5 mil reais para esconder a dupla, ainda que o homem alegasse que foi ameaçado. 

Transpondo o fato para Israel e substituindo os traficantes do Comando Vermelho por terroristas do Hamas, de que forma seria possível levar à prisão uma população de 2 milhões de habitantes se utilizando de um mandato judicial de “colaboração”, como o que foi expedido pela Justiça Federal brasileira? 

De acordo com relatório da ONG Palestinian Media Watch (PMW), divulgado após 7/10, a Autoridade Palestina (AP) iria pagar, de imediato, um total de 2,8 milhões de dólares para as famílias dos terroristas do Hamas mortos nos confrontos com Israel. O chamado “fundo dos mártires” recompensa a família de cada terrorista com uma pensão vitalícia, de menor ou maior valor, dependendo do número de judeus assassinados.

O “pagamento para assassinar” (Pay for Slay) foi instituído em 2014 pela AP para promover atos terroristas contra Israel e  segundo o instituto de pesquisa de segurança, “Jerusalem Center for Public Affairs, os salários mensais e benefícios que recompensam as famílias dos terroristas mortos, presos ou libertados, somam 300 milhões de dólares, anualmente. Diante do fato, qualquer análise sobre a sociedade de Gaza desemboca na realidade chocante de uma população estruturada e alimentada pelo terrorismo, a matança e a guerra contra Israel.

Alertas à população

Na guerra contra o Hamas e em se tratando de cidades cortadas por redes de túneis subterrâneos construídos pelos terroristas, a solução mais fácil seria explodir com tudo, o que as forças de Defesa de Israel não o fazem para evitar mortes de civis.  Um combate incomparavelmente difícil se levado em conta outros conflitos ora em curso em nosso planeta.

 Governantes conscientes sabem das dificuldades de manter uma guerra nessas condições. Alertas à população de Gaza são enviados de várias formas antes dos ataques e a insistência do Hamas em persistir na guerra, mesmo diante do sofrimento dos civis, é de uma arrogância e perversidade que mereceriam o repúdio público mundial.

O único perpetrador da guerra em Gaza é o grupo terrorista Hamas, a partir do inominável massacre de 7 de outubro; do desumano sequestro dos reféns, muitos já mortos; da lavagem cerebral dos palestinos, desde da mais tenra idade regada no ódio e no extermínio de judeus; das provocativas exigências para a entrega dos reféns; e, do incitamento  para que  outros grupos terroristas, como a Jihad Islâmica, também de Gaza, o Hezbollah, no Líbano, o Estado Islâmico (ISIS ou Daesh), do Iraque e Síria, e os Houthis, do  Iemen, ataquem alvos judaicos e aliados do Ocidente.

A suposta luta por um estado palestino esconde o real objetivo do Hamas: destruir o estado de Israel. E para isso contam com o apoio ostensivo da população. Em Gaza não existe diversidade de opiniões, como em Israel, nem partidos do centro, da direita, da esquerda ou ortodoxo. Todos apoiam e seguem o Hamas e sua cartilha de ódio.

Desde que Israel se tornou um estado soberano, em 1948, a ordem dos povos árabes é excluí-lo do mapa do Oriente Médio. Uma sucessão de atentados terroristas e de guerras sangrentas compõe a história dramática da sociedade israelense. A solução de dois estados nunca existiu na pauta dos países árabes, e só persiste como agenda pública de líderes ocidentais que dão cambalhotas nas tentativas frustradas de arranjos que possam agradar , de alguma forma, o mundo islâmico. 

No ataque de 7 de outubro foram assassinados ativistas que ajudavam os palestinos de Gaza, quando doentes ou carentes, a ter um atendimento de saúde mais especializado em Israel. Durante décadas, a agência da ONU para os chamados refugiados palestino (UNRWA, na sigla em inglês) foi a galinha dos ovos de ouro do Oriente Médio, entupida de dinheiro doado pelos países do primeiro mundo, que sempre fizeram vista grossa em relação à correta destinação dos recursos da chamada  “ajuda humanitária”. 

Por muitos anos Israel alertou nos fóruns internacionais sobre os recursos da UNRWA sendo desviados para o Hamas e sua estrutura de terror. Mas, os chamados comissários e responsáveis pela agência pouco atuaram para estancar o fluxo de dinheiro corrompido.

Parceria com Hamas

O desdobrar de 7/10 tornou público a espúria ligação da UNRWA com o Hamas. O porta-voz do governo israelense, Eylon Levy, em uma declaração em vídeo, no final de janeiro, afirmou que a UNRWA é uma fachada para o Hamas. "A agência foi comprometida de três maneiras: contratando terroristas em massa, permitindo que suas instalações fossem usadas para atividades militares do Hamas e se apoiando no Hamas para a distribuição da ajuda na Faixa de Gaza", disse ele.

Levy também afirmou que "cerca de 10% dos funcionários são membros do Hamas ou da Jihad Islâmica, e cerca de 50% são parentes de primeiro grau desses membros". No início deste mês (março/2024), o governo de Israel reiterou  que 450 funcionários da UNRWA são agentes militares inscritos em grupos terroristas de Gaza.

Somente os Estados Unidos doam anualmente entre 300 a 400 milhões de dólares para a UNRWA, de acordo com o porta-voz do Departamento de Estado, Matt Miller. No início de março, a União Europeia anunciou que até o final de 2024 vai enviar 82 milhões de euros (perto de 440 milhões de reais) de ajuda humanitária para a UNRWA.

Terrorismo e drogas

Em 2017, o coronel da reserva israelense Dany Tirza, consultor de segurança e um dos planejadores da barreira de defesa de 700 quilômetros que separa Israel da Cisjordância (construída entre 2000 e 2006 para conter os ataques terroristas), já alertava sobre as ligações do Hamas com o cartel de drogas de Sinaloa, no México, com a finalidade de introduzir drogas sintéticas (metanfetaminas) no Oriente Médio e assim obter mais lucro para as suas operações terroristas.

Nessa aliança do mal, membros dos Hamas ensinavam os criminosos do cartel a construírem túneis subterrâneos para atravessarem a fronteira dos EUA com as drogas. À época, o então secretário de estado do governo Trump, o republicano Rex Tillerson, também afirmou a congressistas  que existiam ligações entre o Cartel de Sinaloa e os terroristas do Estado Islâmico.

Em outubro do ano passado, diante do brutal ataque do Hamas, as plataformas de notícias do México ( sdpnotícias, Vanguardia MX, MVS noticias, Cambio 22 e RadioFormula) voltaram ao tema, repercutindo as declarações de  Dany Tirza ao jornalista investigativo Óscar Balmen, especializado em pautas de crime organizado. O militar israelense  revelou que detidos palestinos confirmaram o acordo existente entre os terroristas e o Cartel de Sinaloa, desde 2000,  que consistia em ensinar os traficantes a construir túneis subterrâneos  para o transporte de drogas de Tijuana, na fronteira, a San Diego, nos EUA, em troca de vultosas quantias de dinheiro.

Tirza ainda acrescentou que para maximizar os lucros, o Hamas entrou no tráfico de drogas sintéticas no Oriente Médio, principalmente no Líbano e no Egito. Para a Federação de Agências Americanas IC (United States Intelligence Community), o Cartel de Sinaloa é a maior e maios poderosa organização de tráfico de drogas do mundo, criada por Joaquin “El Chapo” Gusman, em prisão perpétua nos EUA, desde 2019.  Um sindicato de crime global, mais influente  do que o Cartel de Medellín, do colombiano Pablo Escobar, quando a rede de tráfico estava no auge (1972 a 1993).

O britânico Jeremy McDermott, um dos fundados da mídia InSight Crime, jornalismo investigativo com foco no crime organizado na América Latina e Caribe,  disse a BBC News (2/3/24) que  houve uma fragmentação na região em relação ao tráfico, a partir da pandemia, quando os Estados ficaram paralisados. “Não existem mais cartéis que controlam todos os elos da cadeia de atividades criminosas.”

  A reportagem ressalta que organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), do Brasil, ou o Trent de Aragua, da Venezuela, conseguiram expandir sua presença fora das fronteiras graças a esse tipo de “subcontratação criminosa”. Ex-oficial do exército inglês e com muitos anos de trabalho como correspondente na Colômbia e em outros países do continente,  McDermott observa que a diversificação da carteira criminosa (tráfico de seres humanos e de armas, prostituição, expansão das drogas sintéticas, falsificação de medicamentos, assassinatos de aluguel e a mineração ilegal) ocorre num contexto de fragilidade dos sistemas judiciais e de segurança na região. "A corrupção sempre foi um problema, mas hoje a democracia está mais sitiada do que nunca pelo crime organizado. Vemos a penetração sistemática desses grupos no Estado", conclui.

Atualmente, Israel mantém relações diplomáticas com todos os países das Américas do Sul e Central e do Caribe, exceto Cuba, Bolívia e Venezuela.

 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

2023 ano 2 - Até o final dos tempos

Guerra de Israel contra os terroristas do Hamas reacende o estopim do antissemitismo globalizado        

/ Sheila Sacks /

Para uma humanidade teleguiada por slogans e imagens, grande parte deles agora manipulados ou induzidos pelo processo de Inteligência Artificial (IA), pouco importa que centenas de milhões de dólares da chamada Ajuda Humanitária estejam enterrados em quilômetros de túneis sangrentos de Gaza, com suas galerias repletas de armas e munição, ao invés de comida e remédios. Ou que o massacre de 7 de outubro tenha ceifado a vida de 1.200 jovens, idosos e crianças com requintes de crueldade, vandalismo, estupros e sequestros que brutalizaram 240 vítimas, feitas reféns em um banho de sangue que envergonha e desonra a raça humana.

Isso em um mundo marcado pelos estigmas da fome, com 780 milhões de famintos, segundo a ONU, da violência, corrupção e direitos básicos desrespeitados, incluindo nesse bolo macabro países como Sudão,  Afeganistão, Etiópia, Paquistão, Somália, Síria e Iêmen, entre outros, que cinicamente questionam as ações de defesa de Israel.

Chamada pelas Forças de Defesa de Israel (IFD) de metrô de Gaza, a complexa rede de túneis teria uma extensão de 500 quilômetros, segundo o próprio Hamas, o que somaria quase a metade do sistema do metrô de Nova Iorque. Essa seria uma segunda rede subterrânea construída para transportar e armazenar foguetes, mísseis, armas e munição, além de abrigar centros de comando e de comunicações do grupo terrorista (a primeira, para contrabando, que ligava Gaza ao Sinai, com 1.200 túneis, conforme as autoridades egípcias, foi inundada de água e esgoto em 2013).

Especialistas israelenses calculam que foram utilizadas mais de 6 mil toneladas de concreto e 1.800 de aço para erguer o labirinto subterrâneo de túneis,  e que munido de eletricidade e portas blindadas  cada túnel poderia custar em torno de 3 milhões de dólares.

Túneis atravessam Gaza

Em dezembro último, as IFD divulgaram que localizaram 800 túneis e 500 bocas de entrada e saída de diversos tamanhos construídos embaixo de escolas, hospitais, mesquitas e edifícios residenciais. Entrevistada pela CNN ('The Gaza metro: The mysterious subterranean tunnel network used by Hamas'), a pesquisadora Daphné Richemond-Barak, do Instituto Internacional de Contraterrorismo da faculdade de Herzliya, ressaltou a dificuldade de destruir túneis construídos em zonas urbanas, do ponto de vista estratégico e operacional, face à proteção que se pretende garantir em relação à população civil.

Diferente dos túneis construídos pela Al Qaeda nas montanhas do Afeganistão ou pelos vietcongues nas selvas do Sudeste Asiático, os túneis subterrâneos do Hamas estão propositadamente sob uma área densamente povoada para causar os maiores danos possíveis à população. Para a especialista israelense, não existe uma solução infalível para lidar com a ameaça de um túnel. Bombardear as passagens subterrâneas é normalmente a forma mais eficiente de eliminá-las, mas tais ataques podem impactar os civis.

Reportagem do jornal El País, publicada uma semana depois do ataque de 7/10, apontava o solo arenoso de Gaza como o pior inimigo de Israel. O labirinto de túneis, segundo o professor e historiador Harel Chorev , da Universidade de Tel Aviv, era um dos segredos mais bem guardados do Hamas. “Em 2014 sabíamos que havia túneis atravessando Israel, mas agora sabemos que existem dezenas de redes que se deslocam de dentro da própria Faixa”, assinala Raphael Cohen, pesquisador da RAM Corporation, organização americana de estudos políticos.

O general reformado Yehuda Kfir, engenheiro e especialista em guerra subterrânea, acredita que foram usadas furadeiras manuais rotativas desenvolvidas pelos terroristas para escavação, e avalia que a guerra subterrânea é muito mais difícil porque não se pode analisar o que está acontecendo no subsolo. Ele observou que na Segunda Grande Guerra houve um soldado japonês que somente saiu de um túnel, onde se mantinha escondido, anos depois do fim do conflito.

A profundidade dos túneis (um deles descoberto recentemente, com 50 metros) também revela que a escavação do Hamas perfurou abaixo do lençol freático de 30 metros, o que não é simples. O especialista ressalta que é uma tecnologia acima da média e, portanto, nessa etapa da guerra é preciso inserir ferramentas inteligentes sensores, microfones e robôs, qualquer coisa que possa penetrar nos túneis e trazer informações sobre onde eles estão localizados (The Times of Israel, 19/12).

Arquitetura de terror

Há dez anos, antes de o Egito destruir os túneis que desembocavam em seu território, uma acadêmica palestina que vive nos Estados Unidos teve a oportunidade de conhecer alguns túneis quando procurou se conectar com familiares. Sem os documentos necessários para entrar legalmente em Gaza, ela e a mãe foram introduzidas em uma abertura no chão na cidade costeira egípcia de Al-Arish, a 53 quilômetros da Faixa de Gaza, e de lá, em uma longa caminhada, e também se utilizando de motocicletas, passaram por túneis reforçados e iluminados, até o ponto de encontro com os primos.

Usando o pseudônimo Bint al-Sirhid, ela relata sua experiência em um livro, editado em 2021 pela Universidade Americana do Cairo, que reuniu estudos acadêmicos urbanos sobre Oriente Médio intitulado  “Open Gaza - Architectures of Hope” (Gaza aberta – Arquiteturas da Esperança, em tradução livre). Afrontoso é incluir as redes de túneis de contrabando, armas e terror do Hamas como uma arquitetura urbana de esperança, mas foi o que fizeram os americanos Michael Sorkin (arquiteto já falecido) e Deen Sharp, urbanista especializado em arquitetura islâmica, responsáveis pela compilação do material.

 Na reportagem da NPR (National Public Radio, em 11/12/2023), a acadêmica palestina ainda vai mais longe e diz duvidar que alguém possa ter informações precisas sobre o atual sistema de túneis de combate de Gaza, mesmo usando a IA, porque, segundo ela, são “literalmente subterrâneos e profundamente secretos” e que não há tecnologia para detectá-los.

Túneis do Hezbollah

Mas, antes mesmo da construção da rede de túneis em Gaza, o sul do Líbano já era dotado de uma vasta rede subterrânea, “profunda e multifacetada”. A afirmação é de um ex-oficial das Forças de Defesa de Israel, Tal Beeri, que durante décadas serviu em unidades de inteligência. Diretor do Departamento de Pesquisa da organização “Alma Center”, especializada em geopolítica do Oriente Médio e sediada na zona fronteiriça com o Líbano e Síria, Beeri  é autor do estudo “Hezbollah's Land of Tunnels - The North Korean-Iranian Connection”, publicado em julho de 2021 e acessível pela internet.

Em sua avaliação, a rede de túneis do grupo terrorista xiíta Hezbollah tem centenas de quilômetros e é bem mais sofisticada do que a do Hamas. Com base em um mapa do sul do Líbano, descoberto há anos, marcado por círculos indicando “36 regiões geográficas, cidades e vilas”, conjuntamente com imagens, vídeos e informações coletados em uma série de fontes, Beeri percebeu que cada centro de comando possuía uma infraestrutura de túneis interligados.

Em recente entrevista ao The Times of Israel, o ex-militar explica que existem vários tipos de túneis no Líbano. Os túneis de ataques são grandes e extensos e comportam até caminhões de médio porte. Os túneis táticos, destruídos em 2019 na Operação Escudo do Norte (Operation Northern Shield), destinam-se a circulação de pessoas e estão perto das aldeias para ataques de terroristas a partir do subsolo. Também podem existir túneis próximos, perto da fronteira, para os terroristas emergirem e atacar. E ainda um tipo adicional de túnel com explosivos, escavados com o único intuito de serem denotados quando as forças israelenses operarem dentro do Líbano.

Lembrando o papel da Coreia do Norte na construção dos túneis no Líbano, nas décadas de 1980 e 1990, Beeri destaca que a partir de 2014, de posse do conhecimento e da tecnologia adquiridos em mais de 25 anos de parceria, o Hezbollah já foi capaz de expandir sozinho a rede de túneis, de onde mísseis são disparados contra Israel. “A infraestrutura dos túneis permite que um caminhão transite até o local onde será feito o disparo. O caminhão sai do túnel, dispara e desce novamente. Quando se sobrevoa o local, tudo o que se vê é a montanha. Fica muito difícil encontrar o local de lançamento.”

No estudo sobre os túneis no Líbano, Beeri aponta igualmente a influência do Irã , a partir de 2006, depois da guerra de Israel contra o Hezbollah, por meio da companhia “Iranian Authority for the Reconstruction of Lebanon”. A empresa, comandada por um militar da Força Quds, Hassan Shateri (morto na Síria em 2013), oficialmente trabalhava na reconstrução dos prédios no sul do Líbano, mas efetivamente dava apoio armado ao Hezbollah. Em 2014, a empresa passou a se chamar Bekaa Building and Contracting Company, uma espécie de nome fantasia, segundo Beeri (‘Expert: Hezbollah has built a vast tunnel network far more sophisticated than Hamas’s’, em 2/1/2024).

Perigo à vista?

Apesar da chamada Seam Line, barreira com muros e cercas de segurança que separa as cidades israelenses da Cisjordânia, moradores da comunidade de Bat Hefer, e outras (situadas entre esta barreira e a Linha Verde, zona fronteiriça com o Líbano, Síria, Jordânia e Egito), mostram-se apreensivos com a hipótese de que o Hezbollah possa estar construindo túneis que atravessem o território israelense e se queixam de ruídos e movimentações no subsolo.  Testes e varreduras já foram realizados há pouco tempo, mas por enquanto não houve nenhuma descoberta que indicasse escavações, dizem as autoridades locais. 

Perguntada sobre o problema, a pesquisadora Richemond-Barak acha que não se pode descartar essa possibilidade, visto que foram encontradas infraestruturas subterrâneas no subsolo da cidade de Jenin ( terceira maior cidade da Cisjordânia), no ano passado. - Se estão cavando dentro de Jenin, por que não tentariam cavar abaixo da Zona Verde agora? Por que não encontraríamos túneis em Bat Hefer? (comunidade de 5 mil moradores situada perto da cidade árabe de Tulkarm, na Cisjordânia, que tem 60 mil habitantes).

A pesquisadora ressalta que o tipo de solo para escavação na Cisjordânia é mais difícil do que o de Gaza, assim como acontece no sul do Líbano. Mas, já se sabe que o Hezbollah tem escavando túneis até na pedra. – É preciso ter consciência da ameaça e que a possibilidade de escavações existe, alerta Richemond-Barak.

Antissemitismo em alta

Articulistas do The Jerusalem Post(JPost) têm analisado a força e o poder de influência do Hamas no imaginário das pessoas, bombardeadas por imagens estratégicas que apresentam os palestinos como mártires inocentes de uma guerra injusta. Custa crer que a construção de quilômetros de túneis abarrotados de armas, munição, foguetes, caminhões etc. escavados embaixo de edifícios residenciais, escolas, hospitais e mesquitas, por anos seguidos, não era do conhecimento da população. Uma obra de tal porte passou em branco para 2 milhões de pessoas ! Ninguém desconfiava?  

Alegações similares às das populações da Alemanha e da Polônia, na Segunda Guerra, em relação à construção e funcionamento dos campos de extermínio. Documentos e depoimentos posteriores provaram que todos sabiam sim, mas não se importavam. E muitos aprovavam. Então como separar o Hamas dos chamados "civis" de Gaza? 

Esse conto da carochinha engendrado pelo Hamas e os parceiros que o sustentam, muitos nos  bastidores ou ostensivamente como o Irã, é um golpe da mais sórdida propaganda para engabelar governos, parlamentos, organizações humanitárias, universidades e a mídia ocidental. Tem dado frutos  porque o ser humano, ainda que investido de funções públicas, tende a ser leviano e/ou tendencioso, raramente exercendo a prática da imparcialidade. Dar de ombros, lavar as mãos e  passar adiante a pseudoinformação engrossando a campanha de difamação, mentiras e distorções do grupo terrorista e de seus patrocinadores contra Israel, não vai tirar o sono dessas pessoas.

Richard Kemp, ex-coronel do exército britânico, é enfático ao afirmar que o grupo terrorista Hamas “é hoje a entidade antissemita de maior sucesso no mundo”. No artigo publicado no JPost, em 22/12, o militar que comandou as forças britânicas no Afeganistão e Iraque, conta que a base desse sucesso tem como padrinho a União Soviética, que nas décadas de 1950 e 1960 se alinhou com os árabes e fomentou uma guerra de libertação nacional contra Israel. 

Assim, de acordo com Kemp, foi desenvolvida uma campanha contra Israel de deslegitimação, dando origem a acusações de roubo de terras, ocupação e colonização ilegais, apartheid e outras distorções que se tornaram “fatos indiscutíveis”.

- Isso significa que tudo o que for feito a Israel e aos judeus é justificado como resistência legítima, e qualquer ação levada a efeito por Israel para defender o seu povo é injustificada, ilegal e inaceitável.

A propaganda antissemita sistemática do Hamas está intimamente ligada aos ataques terroristas a Israel, maximizando as reações de defesa de Israel visando provocar acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, isolando Israel da comunidade internacional e dos próprios judeus da Diáspora.

Algumas semanas depois do ataque de 7/10, um exemplar de "Mein Kamp" , traduzido para o árabe, foi encontrado junto com um terrorista morto em Gaza pelo exército israelense. O presidente Isaac Herzog fez a revelação em entrevista à BBC, afirmando que o massacre perpetrado pelo Hamas foi sustentado pela mesma visão antijudaica que promoveu o genocídio de 6 milhões de judeus pelos nazistas.

O professor Prof. David Patterson, presidente dos Estudos do Holocausto na Universidade de Dallas, lembra que a partir de 1935, a Irmandade Muçulmana (fundada em 1928 pelo egípcio Hassan al-Banna, e da qual o Hamas é o braço palestino), enviava delegações aos comícios nazistas em Nuremberg.

O historiador americano Jeffery Herf , autor de um estudo sobre propaganda nazista no mundo árabe, fez registros de programas de rádio de cunho antissemita produzidos pelo regime alemão e transmitidos em árabe para o Oriente Médio, entre 1939 e 1945. A iniciativa recebeu o aval do líder palestino Haj Amin Al Husseini, conhecido como o Mufti de Jerusalem, que apoiava o regime de Hitler e ajudou a exportar a ideologia nazista para o mundo árabe.

Segunda Frente

Diante da escalada de incidentes antissemitas depois do ataque de 7/10 ( um aumento de 500% em todo o mundo), o ministro israelense de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo, Amichai Chikli, considerou a situação atual a pior desde a década de 1930. Em um encontro online organizado pelo JPost, sob o título The Second Front, Chikli reforçou que a postura dos judeus deve ser de repúdio ao ódio. - Se não pudermos condenar as atrocidades cometidas em 7 de outubro, se não pudermos condenar o Hamas, então um diálogo significativo torna-se impossível, afirmou.

Outra participante do debate, Tal-Or Cohen Montemayor, fundadora e diretora da organização CyberWell, que monitora manifestações antissemitas na internet, revelou que houve um aumento de 86% de conteúdo antissemita online, com destaque para rede social Facebook, que registrou uma subida de 193%, inclusive com apelos à violência contra os judeus.

Para Montemayor, as plataformas de redes sociais se mostraram despreparadas para o sequestro dessas ferramentas digitais pelo Hamas, permitindo exposições de vídeos chocantes e transmissões ao vivo de cenas do massacre, e não providenciando a remoção imediata dessas imagens veiculadas pelos terroristas. A utilização ideológica dessas imagens provocou um segundo front de guerra, esse na área psicológica contra Israel, que animou outras facções terroristas, milícias árabes e grupos internacionais sabidamente que pregam a aniquilação da nação judaica, a abusarem de conteúdos antissemitas.

O presidente do Yad Vashem (Museu do Holocausto de Israel), Dani Dayan, também se manifestou no debate e alertou para o fato que considera mais preocupante em relação ao antissemitismo atual: a crescente academização de um velado antissionismo que atinge principalmente as universidades americanas e da Europa. -  Nas instituições acadêmicas de maior prestígio nos EUA e na Europa, estão a construir pedra a pedra, peça a peça, artigo a artigo, livro a livro, uma pseudojustificativa intelectual para eliminar o Estado de Israel como o conhecemos.

Queixa em Haia

Um dos efeitos desta campanha perniciosa contra o estado de Israel, cujas forças de defesa nesse início de 2024 ainda combatem os terroristas em Gaza, e parte do reféns permanece sob o jugo facínora do Hamas, foi a  performance  midiática e burlesca da África do Sul, que apresentou queixa à Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, em 29 de dezembro, se utilizando do termo “genocida” para deslegitimar as ações de defesa do exército israelense.

Em 11 de janeiro deste ano, face à primeira audiência no Tribunal de Haia, nota da chancelaria israelense classificou a atitude da África do Sul como “uma das maiores demonstrações de hipocrisia da história, agravada por alegações falsas e infundadas”. O governo de Israel acusou Pretória de bancar o “advogado do diabo” para o Hamas e agir como um braço legal da organização terrorista.

 “Não é Israel que está em julgamento, mas a integridade da comunidade internacional”, disse o ex-primeiro-ministro Yair Lapid, líder da oposição em Israel. -  Se um país que se protege de um ataque terrorista brutal e assassino pode acabar em um tribunal por genocídio, então a Convenção sobre Genocídio tornou-se uma recompensa para o terrorismo.

A Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio foi adotada pela ONU, em 9 de dezembro de 1948, e ratifica o compromisso da comunidade internacional no sentido de que “Nunca Mais” ocorra as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. Cabe ao Tribunal de Haia, órgão jurisdicional da ONU, emitir julgamentos e pareceres.

O jornalista e escritor Amotz Asa-El, colunista do JPost, escreve que os judeus estão acostumados à combinação de difamação e agressão. A novidade é a sua origem. “A tocha que foi acesa pelos cristãos europeus e mais tarde transmitida aos islâmicos da Ásia, é agora erguida pelos ‘santos’ africanos”.  E pergunta: Com os seus cidadãos metralhados, os seus bebês massacrados, as suas mulheres violadas e as suas casas incendiadas, o que faria você no lugar de Israel?

Pesquisa divulgada há poucos dias (10/1) pelo Centro Árabe de Investigação e Estudos Políticos do Catar apontou que 67% dos 8 mil entrevistados em 16 países árabes consideram o massacre de 7 de outubro “uma operação de resistência legítima” do Hamas por conta da ocupação israelense.  E 69% dizem apoiar o grupo terrorista em suas ações. Ou seja, a doutrina nazista de “morte aos judeus” é uma realidade atual no conjunto de países árabes, cuja população, em sua maioria, não vê impedimento moral no que tange a matar judeus e aniquilar o estado de Israel.

Apoio ideológico

No Brasil - onde vivem 11 milhões de árabes e seus descendentes, cerca de 6% da população do país, segundo levantamento divulgado pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira (2020) - , o Itamaraty se dobrou à  ideologia populista do partido do governo e emitiu nota de apoio à ação da África do Sul, recebendo o imediato repúdio da Confederação Israelita do Brasil – Conib, que condenou a decisão. “É frustrante ver o governo brasileiro apoiar uma ação cínica e perversa como essa, que visa impedir Israel de se defender de seus inimigos genocidas.”

A embaixada de Israel em Brasília, em comunicado expedido pouco antes da visita do representante palestino Ibrahim Alzeben ao Palácio do Planalto (condecorado em novembro passado com a Ordem do Rio Branco, no grau Grã-Cruz, a mais alta do país) e da decisão brasileira, afirmou: “Segundo a definição da ONU para o termo genocídio, definições que o Brasil aprecia e trabalha à luz, o principal é a intenção. Israel não tem intenção de matar palestinos não envolvidos e evita isso tanto quanto possível, apesar das dificuldades apresentadas pelo Hamas na sua forma de operar, usando cidadãos não envolvidos como escudos humanos.”

Por sua vez, a Conib lembra que “Israel está apenas se defendendo de um inimigo, ele sim, genocida, que manifesta abertamente seu desejo genocida de exterminar Israel e os judeus.” E reforça um fato que está à vista de todos, apesar da propagação de mentiras levada adiante de forma cínica e inescrupulosa pelos terroristas. Diz a nota da Conib: “O Hamas se esconde covarde e deliberadamente atrás dos civis de Gaza porque suas mortes são usadas como arma contra Israel na opinião pública mundial.”

Menos mal que as três maiores mídias nacionais opinaram negativamente sobre a  atitude do governo brasileiro, classificando o apoio à denúncia da África do Sul como uma “agressão injusta” (O Globo); afirmando que houve uma “acusação infundada de genocídio” (O Estado de São Paulo);  e que o “ Brasil erra ao deixar a equidistância na guerra” (Folha de São Paulo).

Guerra psicológica

Em resumo, dias duros continuarão a atormentar Israel e os judeus da Diáspora neste ano 2 de 2023. A arena global e midiática já foi montada em Haia e outros palcos serão preparados para os shows de falsidade e hipocrisia de governos, políticos, ONGs e intelectuais. Concorrendo por fora, mas tão importante quanto, estarão ativas as agressivas e despudoradas redes sociais.

Países com histórico de ditadura e violação de direitos humanos, corrupção, crime organizado, narcotráfico, tráfico humano, trabalho escravo, desigualdades sociais gritantes, justiça desqualificada, de populações famintas e sem trabalho, carentes de saneamento básico e água potável vão vociferar contra Israel e exigir justiça para os que abrigam e incentivam o terrorismo sem fronteiras.

Organizações alimentadas com recursos de lavagem de dinheiro de grupos econômicos de fachadas irão preparar manifestações para ameaçar e cobrar de Israel que se mantenha dentro das quatro linhas, ainda que a sua população civil esteja diariamente à mercê de ataques genocidas.

Políticos, intelectuais e profissionais da mídia em suas salas refrigeradas estarão repetindo o básico a favor dos direitos humanos, o que qualquer cidadão em sã consciência não desaprova. No entanto, os discursos, comentários e textos serão apenas cortinas de fumaça a esconder a real motivação tendenciosa e acusatória contra o estado judaico que ao longo dos embates se mostrará visível e perniciosa.

A esta elite, porém, não se deveria permitir abusar da esperteza e de jogar para a plateia, empurradas a moral e a ética para o fundo do baú. Fingir-se de ignorante ou bancar o inocente em relação ao termo “genocida”, é uma artimanha pérfida. Genocídio é o conceito específico para designar crimes que têm como intenção e objetivo a eliminação da existência física de grupos nacionais, étnicos, raciais, e religiosos. O Holocausto é o exemplo perfeito de “genocídio”, termo criado em 1944 pelo advogado judeu polonês Raphael Lemkin (1900-1959) para descrever as políticas nazistas de extermínio, combinando a palavra grega geno, que significa raça ou tribo, com a palavra latina cídio, que quer dizer matar.

Outro exemplo flagrante de genocídio foi o massacre de judeus em Lisboa, ocorrido em 1506. Em dois dias, uma multidão fanática assassinou impiedosamente 4 mil cristãos-novos (judeus convertidos à força) insuflados por monges dominicanos. Um pouco de história e clareza para os que teimam em usar o termo de forma irresponsável. A tragédia de horror está sendo revivida no filme “1506” a ser lançado em 19 de abril, quando se completam 518 anos do massacre histórico.

Também teve caráter de genocídio a perseguição e o assassinato sistemático de judeus na América do Sul pela Inquisição, nos séculos 16e 17.  A epopeia trágica “A Saga do Marrano”, do escritor argentino Marcos Aguinis, retrata de forma magistral o clima de medo e sofrimento vivido por essas famílias no Brasil, Argentina, Peru e Chile, após a sua expulsão da Espanha (1492) e Portugal (1496). O relato inquietante de pessoas que esperavam encontrar um “novo mundo” na América e se deparam com um ambiente inquisitorial, hostil, impregnado de fanatismo, hipocrisia e pela mais despótica corrupção. Uma viagem de esperança que tem seu desfecho em 1639, com o maior auto de fé da América Latina, quando 60 judeus e cristãos-novos são queimados vivos em Lima.

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À guisa de informação: cerca de 60 mil palestinos e seus descendentes vivem no Brasil, a maioria em São Paulo, de acordo com a Federação Árabe-Palestina do Brasil (Fepal). Também existem comunidades no Rio Grande do Sul e nas cidades fronteiriças à Argentina, Uruguai e Paraguai, como Santana do Livramento e Foz de Iguaçu, no Paraná.

A comunidade judaica brasileira, pelo último censo do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2010) teria 107 mil membros. Mas, no site do Congresso Mundial Judaico (WJC, na sigla em inglês), na página dedicada ao Brasil, a Conib apresenta o número atualizado de 92 mil, a maioria residente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Em Israel, atualmente vivem em torno de 15 mil brasileiros.