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domingo, 20 de agosto de 2023

Chabad Copacabana anuncia campanha para construção de nova sede

  - Prédio sustentável será um marco na arquitetura brasileira - 

Sheila Sacks / 


Bairro ícone do país e um dos mais visitados por turistas internacionais, Copacabana vai ganhar um centro judaico inovador, com sustentabilidade e tecnologia. O Maayan Jewish Center terá a cara do Rio, estado que congrega a segunda comunidade judaica do Brasil, com 20 mil membros. O prédio será erguido onde atualmente funciona a casa do Chabad e se constituirá na primeira construção de madeira de mais de dois andares da cidade e o primeiro prédio cultural em madeira engenheirada (madeira que passa por processos de engenharia e são pré-fabricadas) do país.


Situado ao lado de um parque florestal, perto do metrô e da praia, a pouca distância do hotel mais emblemático do Brasil, o Copacabana Palace, o novo espaço vai atender o bairro onde se concentra o maior número de judeus.

Além de uma sinagoga com 300 lugares, o prédio terá capacidade para acolher com mais conforto e segurança toda a comunidade que participa das atividades religiosas e culturais que o Chabad oferece, como miniamim diários, Shabat, Chaguim, Beit Midrash, Colel diário (manhã e à tarde), aulas, palestras e seminários.


Inaugurado em janeiro de 2008, o Maayan - Lubavitch Copacabana funciona em uma casa de dois pavimentos e é dirigido pelo rabino Ilan Stiefelmann e sua esposa Deby. Sete mil judeus participam anualmente de suas atividades. O novo prédio, com três pavimentos e cobertura, vai beneficiar a comunidade em matéria de espaço, já que dezenas de eventos, por falta de instalações adequadas, tiveram que ser realizados em locais diversos, como por exemplo, em hotéis da cidade.


Segundo o Chabad, anualmente cerca de 50 mil turistas judeus visitam a cidade e ter um espaço que reúna sinagoga, salão multiuso para eventos, terraço, cafeteria, restaurante,  cozinha industrial, Mikve (feminino e masculino), salas de estudo, biblioteca, quadra poliesportiva, Kosher Gym (fitness) e áreas de lazer, inclusive infantil, vai ser um diferencial no sentido de proporcionar aos visitantes um ambiente único e pleno de convivência  judaica.


A campanha de doação será promovida entre 9 e 13 de setembro e o sucesso depende da participação de cada um. Guarde esta data!

 

Mais sinagogas

 

Benjamin Netanyahu na sinagoga de Copacabana, em 2018


Copacabana tem mais três casas de rezas que funcionam diariamente: 

- A  tradicional sinagoga Kehilat Yakov, mais conhecida como a Sinagoga de Copacabana, fundada em 1956 e que tem à frente o rabino Shai Tauber, filho do rabino Eliezer Stauber, que por mais de 35 anos dirigiu o templo. 


O prédio fica ao lado da pracinha do Bairro Peixoto, um oásis dentro de Copacabana com suas casas das décadas de 1940/1950 tombadas pelo patrimônio municipal.  

- A sinagoga Beth-El (Confarad), conhecida como a sinagoga do CIB, porque foi construída no terreno do Clube Israelita Brasileiro. 


Ainda nas instalações do CIB funcionam um mercadinho e um restaurante Casher.

-  E a sinagoga ortodoxa do Colégio TTH Barilan, a Kehilat Moriah. A escola tem cozinha industrial e restaurante Casher. Também funciona no colégio (que vai do maternal ao Segundo Grau),  o movimento Bnei Akiva. 

As três sinagogas estão localizadas no "coração de Copacabana", entre os postos quatro e cinco, na região mais movimentada e turística.  


Informação posterior: a arrecadação se encerrou às 19h do dia 13/9, com o valor de R$ 5.031.242, bem acima da meta inicial de R$ 3 milhões.

sábado, 12 de agosto de 2023

Paraguai muda governo e promete embaixada em Jerusalém - país também já formou frente parlamentar pró-Israel

  / Sheila Sacks / 

Às vésperas de assumir a presidência do Paraguai, em 15 de agosto,  o economista Santiago Peña, do Partido Colorado , anunciou seu compromisso de transferir a embaixada do Paraguai para Jerusalém.

Um dos principais jornais do Paraguai, o La Nacion, estampou a manchete na primeira página, em sua edição de 8 de agosto. Peña, um conservador de 44 anos, recebeu 42% dos votos do eleitorado e foi eleito em 30 de abril ( no Paraguai não tem segundo turno).  Em seu currículo, alguns destaques: foi membro do Conselho do Banco Central,  Ministro da Fazenda e ex-funcionário do Fundo Monetário Internacional.  

Embora o Paraguai tenha uma das economias que mais crescem na América Latina – com previsão de +4,5% para o PIB em 2023, segundo o Fundo Monetário Internacional –, a pobreza atinge 24,7% da população, que sofre com enormes desigualdades. O novo presidente planeja criar 500 mil empregos e diz que  “visualiza um triângulo geopolítico para o Paraguai que vai de Washington a Jerusalém e termina em Taipé (capital de Taiwan)”. Segundo Peña, esse é o modelo que quer projetar, “ de uma nação livre e soberana”.

As declarações foram feitas no Congresso Nacional, em 7 de agosto, durante a adesão de 36 parlamentares paraguaios à Fundação Aliados de Israel, criada em 2004 e com sede em Washington,  que conta com a participação de 56 países. Na ocasião , Peña afirmou que o Paraguai vai reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, ”lugar onde o povo judeu se identifica. E que a Embaixada voltará ao lugar onde sempre deveria estar”. Lembrou que os dois países tem laços históricos importantes e que pretende fortalecê-los nos próximos anos em benefício de ambas as nações. 

Os  parlamentares em questão formarão um grupo pró-Israel no Senado e de acordo com Leopoldo Martínez, diretor da América Latina da Fundação Aliados de Israel, essa coligação vai aprofundar ainda mais as relações entre Paraguai e Israel.

Em setembro de 2018, o então presidente empossado Mario Abdo Benítez anunciou o retorno da embaixada para Tel Aviv, mudando a decisão do governo anterior, de Horacio Cartes, que em maio daquele ano, no final de sua administração,  havia instalada a representação diplomática em Jerusalém, seguindo os EUA e a Guatemala.  A reação do governo israelense foi fechar a embaixada em Assunção e designar o embaixador do Uruguai para cuidar dos assuntos relativos ao Paraguai.

Beit Chabad e Museu Judaico

A comunidade judaica do Paraguai tem em torno de mil membros e a maioria vive na capital. Segundo o Congresso Judaico Mundial (WJC, na sigla em inglês) a comunidade é de perfil tradicional e sionista, formada por várias instituições como a União Hebraica, sede das atividades sociais, esportivas, culturais e religiosas;  o Colégio Estado de Israel (instituição que oferece educação judaica formal ), a Aliança Israelita (Chevrá Kadisha) que administra o cemitério e a organização religiosa Beit Chabad.  

Também atuam no país, instituições de benemerência como a WIZO e Bnai Brith, e o movimento juvenil sionista Noar Hatzioní. Tem três sinagogas e em 2013 foi inaugurado o Museu Judaico que promove visitas guiadas e palestras, com exposição permanente de objetos religiosos e área dedicada à recordação do Holocausto.

Apoio a Israel e atentado terrorista

Com 6,7 milhões de habitantes, o Paraguai tem um histórico de apoio a Israel. Em 29 de novembro de 1947,  quando da votação na ONU sobre a partilha da Palestina, o Paraguai se tornou o 33º país a votar “sim” para a criação de um estado judeu independente. Em 1949, estabeleceu relações diplomáticas com Israel e ao longo do tempo tem frequentemente se abstendo ou votando contra resoluções da Assembleia Geral da ONU e de outros fóruns internacionais que atacam ou criticam Israel por suas ações de defesa no conflito israelense-palestino.

Em 2019, o Paraguai designou o  Hezbollah como uma organização terrorista internacional , abrindo caminho para que o país agisse contra o grupo criminoso em seu território. Duas décadas antes dos ataques em Buenos Aires contra a embaixada israelense (1992) e ao Centro Comunitário Judaico Amia (1994), o Paraguai já tinha sido palco de um atentado terrorista  que resultou na morte de uma funcionária da embaixada de Israel. Foi em 4 de maio de 1970 ( o primeiro ataque terrorista a uma embaixada israelense), quando dois terroristas árabes invadiram o local, em Assunção, com o intuito  de assassinar o embaixador Benjamin Weiser Varon ( falecido em 2010).

No ataque morreu baleada Edna Peer, 36 anos, mãe de três filhos e esposa do primeiro secretário Moshe Peer,  e ficou gravemente ferida Diana Zawluk, ambas israelenses que trabalhavam na delegação.  Os atacantes, de 20 e 21 anos, eram de origem palestina, originários da Faixa de Gaza e membros do grupo Al-Fatah do então líder Yasser Arafat. Durante as investigações foi constatado que os terroristas tiveram a ajuda de árabes que viviam no Paraguai. Eles foram presos e condenados a 13 anos de detenção, mas depois de nove anos foram libertados.

Cinquenta anos depois, em entrevista ao jornal paraguaio ABC Color, Diana Zawluk relembrou o ataque e contou que os homens atiraram na segunda vez que vieram à embaixada, após serem informados que o embaixador não estava no local. Ela levou cinco tiros e conseguiu sobreviver por milagre.

Brasileiros no Paraguai

Reportagem recente da BBC News Brasil mostra que cada vez mais brasileiros estão se mudando para o país vizinho. Em relação aos universitários de Medicina, a quase totalidade é de brasileiros que optam por estudar naquele país pelos custos mais baixos.  Investidores brasileiros são forte presença nos setores do agronegócios, têxtil e de autopeças pelas facilidades para a exportação e o sistema de impostos. Empreendedores destacam a energia barata.

Segundo dados recentes do Itamaraty, o Paraguai é o primeiro destino dos imigrantes brasileiros na América Latina, com cerca de 246 mil pessoas, quase a metade vivendo na Ciudad del Este (98 mil), a segunda maior do país. Já a Câmara de Comércio Paraguai Brasil projeta outros números e estima que são cerca de 400 mil, principalmente na região da fronteira. O Paraguai é o terceiro país, depois de EUA e Portugal, com a maior comunidade brasileira (Por que tantos brasileiros estão se mudando para o Paraguai – 18/4/2023).

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Um Mashiach nos Andes

 Um povoado ao pé da Cordilheira entra na rota Chabad

/  Sheila Scks  / 

A 70 quilômetros de Machu Pichu, principal destino turístico do Peru, a pequena vila de Pisac se situa no chamado Vale Sagrado dos Incas. Com 10 mil habitantes  tem três atrações conhecidas: as ruínas do seu sítio arqueológico, o mercado aos domingos e os chás de ervas “medicinais” como huachuma (San Pedro) e Ayahuasca, usadas em cerimônias e retiros espirituais orientados por curandeiros e xamãs locais.

Recentemente foi observado o crescimento de turistas israelenses para a região, principalmente de jovens que depois do serviço militar obrigatório e antes do ingresso em universidades, praticam esse tipo de turismo mochileiro. Também dezenas de israelenses já se instalaram na pequena cidade e abriram negócios. De olho no fato, em abril foi aberta a terceira comunidade Chabad no país, justamente em Pisac, depois da capital Lima (9,2 milhões de habitantes) e da cidade de Cusco (428 mil), bastante procurada pelos viajantes pela chamada medicina dos Incas.

Em reportagem assinada por Jacob Kessler, correspondente da Jewish Telegraphic Agency (JTA), uma plataforma de notícias judaicas com sede em Nova York, somos informados que em média o Chabad de Pisac recebe de 50 a 100 jovens israelenses para o jantar de shabat.

Localizada na principal praça do povoado, onde artesãos vendem seus produtos e uma igreja há muitos anos faz parte da paisagem, um prédio de dois andares ladeando a praça agora se destaca com uma bandeira estendida a partir da sacada com o desenho de uma coroa azul no fundo amarelo, e a inscrição  “Mashiach” (Messias, em hebraico)em letras hebraicas.

Residentes

Kesller entrevistou dois israelenses, de 30 e 36 anos, ambos vivendo em Pisac, proprietários de pequenos restaurantes. Nitzan Levy  veio de Jerusalém em busca de uma comunidade alternativa porque o cotidiano é menos estressante,justifica, lembrando que os traumas de guerra fazem parte da sociedade israelense. Aminadav Shvat, descendente de uma família de rabinos, escolheu Pisac pela espiritualidade do lugar e suas plantas medicinais com efeitos psicodélicos. Abriu o restaurante para servir de ponto de encontro de visitantes judeus. 

Para o rabino Ariel Kadosh, do Chabad de Pisac, a procura pela espiritualidade através de ervas com efeito de LSD não é positiva e nem é esse o caminho.  Segundo o Lubavitcher Rebe, o “caminho judaico” é atingir as alturas espirituais por meio de grande esforço, reitera.

Mas, nem tudo é tão zen em Pisac e manifestações individuais de antissemitismo e contra Israel acontecem.  Adesivos da bandeira palestina são encontrados em toda a cidade e um desses adesivos já foi colado no tripé de madeira que anuncia em hebraico as refeições do restaurante de Aminadav.

Outro incidente relatado na reportagem chegou a repercutir nas redes sociais, com opiniões de conotação anti-israelense. De acordo com Chabad um casal bêbado entrou no prédio de madrugada e começou a fazer comentários antissemitas e o estudante que lá estava procurou se defender.   Mas, nas redes sociais a versão do episódio era que o estudante atacou uma mulher e a ameaçou com uma lâmina, gerando controvérsia entre os internautas.

Em 2019, o guia israelense Tuvia Book esteve por uma temporada no Chabad de Cusco e comentou em seu blog – associado à plataforma de notícias Times of Israel -  sobre a inexistência de segurança no local. “Qualquer pessoa pode entrar na casa durante o dia, no shabat ou feriado “, escreveu. Ele lembrou o atentado terrorista ocorrido em Mumbai, na Índia, em novembro de 2008, quando sete pessoas foram mortas na Nariman Chabad House, incluindo o rabino Gabriel Holzberg e sua esposa grávida Rifka. “A infeliz realidade do mundo em que vivemos, onde os judeus são perseguidos simplesmente por causa de sua religião, é um fato”, observou.

O Peru recebe mais de um milhão de turistas por ano e as regiões de Cusco e Machu Picchu têm um movimento de 4 mil visitantes diários.

Comunidade reduzida

Lar do grupo de guerrilha Sendero Luminoso do Partido Comunista Peruano (PCP-SL) que teve atuação terrorista intensa na década de 1980, com sequestros e assassinatos ( e ainda tem fações atuando no país), o Peru chegou a abrigar uma comunidade judaica de seis mil membros, mas devido à insegurança política e econômica atualmente são 2.500 judeus, a maioria residindo na capital. O país também foi palco de golpes militares, como os que conduziram ao poder os generais Alvarado (1968-1975) e  Bermudez (1975-1980), que instituíram ditaduras e a censura no país. De 1990 a 2002, o Peru foi governado por Alberto Fujimori que implantou um governo autoritário, dissolvendo o Congresso. Ele cumpre pena de 25 anos de reclusão em prisão da capital.


Curioso é que o país foi governado, de 2016 a 2018, por um presidente filho de refugiado judeu, Pedro Pablo Kuczynski, que renunciou após dois processos de impeachment. O Ministério Público agora está pedindo 30 anos de prisão por suspeita de corrupção.  Também teve uma primeira dama de ascendência judaica, Eliane Karp, casada com o ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006), extraditado dos Estados Unidos e preso. Ela se transferiu para Israel usando passaporte israelense. E vale citar Efrain Goldenberg Schreiber, que foi ministro das finanças e primeiro-ministro no governo de Fujimori.


Desde dezembro de 2022, o Peru está sendo governado pela vice-presidente Dina Boluarte, depois que o presidente eleito Pedro Castillo, professor e sindicalista eleito em meados de 2021, sofreu impeachment e foi preso, após anunciar a dissolução do Congresso. Desde então já houve seguidas manifestações violentas de protesto com feridos e mortes nos embates com a polícia.

Em meio à crise interna, em fevereiro um veterano jornalista judeu peruano, Gustavo Gorriti, teve sua casa cercada por membros do movimento da extrema direita La Resistencia que aos gritos e empunhando cartazes o ameaçaram com slogans antissemitas. O jornalista é fundador e editor-chefe do site investigativo IDL-Reporteros e denunciou a violência policial que resultou em mortes na cidade de Ayacucho.

Em um artigo relatando o ocorrido, Kessler cita o depoimento do advogado  Jeffrey Radzinsky, também consultor político, sobre o antissemitismo no país. Ele afirma que tanto a extrema direita quanto a esquerda compartilham o mesmo preconceito antissemita e dá como exemplo o líder da esquerda e fundador do partido Peru Libre, Vladimir Cerrón, que em 2019, antes das eleições gerais,  anunciou em seu twitter “uma cruzada contra as potências judaico-peruanas": “Se a esquerda articular bem sua unidade”, disse ele, “enfrentará com sucesso as potências judaico-peruanas nas próximas eleições gerais”.

A organização CPJ (Committee to Protect Journalists), com sede em Nova York, protestou formalmente junto ao governo contra o cerco à casa de Gorriti, assim como a Associação Judaica do Peru emitiu um comunicado público rechaçando as ameaças e o “racismo antissemita” contra o jornalista que favorece o clima de polarização que vive o país.

Atividades religiosas e culturais


O Beit Chabad de Lima foi fundado em 1987 e por mais de 30 anos teve como diretor o rabino Schneur Zalman Blumenfeld, do Rio de Janeiro, que faleceu precocemente em outubro de 2021. Ele criou uma publicação semanal, organizou estudos de Torá, promoveu refeições coletivas no shabat e nas festas judaicas, e instalou padaria, restaurante e loja kasher na cidade. Também incentivou a colocação de mezuzás nas casas e ergueu menorás em espaços públicos para celebrar Chanucá. Mas seu trabalho espiritual foi mais além e se estendeu na ajuda aos necessitados e as pessoas em apuros. Uma vez ele visitou um israelense preso, com uma condenação de dez anos, e o convenceu a colocar tefilin diariamente. Alguns dias depois, o homem apareceu no Chabad contando que ao colocar o tefilin pela primeira vez, no dia seguinte foi solto. E que ia continuar com esse ritual regularmente em Israel.

A comunidade judaica na capital tem ainda três sinagogas, uma delas liderada pelo rabino carioca Simantob Rafael Nigri; o clube Hebraica, o movimento juvenil HaNoar HaTzion, a organização de direitos humanos B'nai B'rith, um cemitério na área de Baquijano, datado de 1875, e uma única escola chamada León Pinelo, criada em 1946, que reúne a maioria dos jovens descendentes de judeus do país.

Na cidade de Cuzco, onde residem dezenas de israelenses que abriram pequenos negócios na cidade, o Chabad foi fundado em 2006 para dar apoio a grande quantidade de turistas de Israel que visitam os Andes anualmente. Liderado pelo rabino Ofer Cripor, o seder de Pessach, em abril, reuniu 1.500 pessoas, a maioria jovens, segundo informação da organização. A casa Chabad está localizada em uma antiga mansão colonial na Calle Granada, perto do centro da cidade. Atende, em média, 300 visitantes no seder de Shabat em seu pátio central.


Em dezembro do ano passado, quando manifestações contra a deposição do presidente Castillo começaram a tomar as ruas, dezenas de turistas israelenses que estavam em Machu Picchu e lugarejos adjacentes tiveram que ser resgatados e escoltados pela polícia até Cusco. Estradas foram bloqueadas, o sistema ferroviário parou e aeroportos foram fechados.  

Judeus incas

O Peru também é o lar dos chamados judeus incas, os  Bnei Moshe. A organização Shavei Israel que busca os “judeus perdidos” e procura conectá-los ao judaísmo, relata que em 1958, na cidade de Cajamarca, no norte do Peru, os irmãos católicos Alvaro e Sigundo Villanueva Correa fundaram um grupo de seguidores da Torá, expandindo para a cidade de Trujillo, com cerca de 500 seguidores. Eles descobriram uma Bíblia nos pertences do pai e a leitura lhes trouxe uma nova visão e entendimento. Na época, eles sofreram perseguição e ameaças da igreja local, mas não recuaram.

Villanueva é o primeiro à direita

Depois de praticarem o judaísmo por décadas em estrita observância aos mandamentos da Torá, os judeus incas foram abalizados e convertidos pelo rabinato ortodoxo de Israel e fizeram aliá, a partir de 2004, sob os auspícios do Shavei. Mas, uma década antes, em 1990, após cumprir todas as etapas da conversão, Villanueva e o primeiro grupo de Bnei Moshe imigraram para Israel. Em 2008, ao falecer com 81 anos, ele foi enterrado no cemitério do Monte das Oliveiras, em Jerusalém, com o nome judaico de Zorobabel Zadkia. Um de seus filhos é rabino em Israel.  

Em visita ao Peru, em 1988, o rabino americano Chabad Myron Zuber  ficou impressionado com a devoção dos judeus incas. “Essas pessoas são extremamente  abnegadas e estão dispostas a oferecer todos os seus bens para praticarem o judaísmo adequadamente.” Ele contou que um dos membros da comunidade foi para o vizinho Equador trabalhar nas minas com o objetivo de obter recursos para comprar tefilin e um terno para o Bar Mitzvá do filho.

A partir do relato do rabino Zuber (‘Convertendo os índios incas do Peru’), a jornalista argentina Graciela Mochkofsky lançou no ano passado o livro “El profeta de los Andes: La improbable búsqueda de la Tierra Prometida” sobre a trajetória espiritual de Villanueva, sua luta e perseverança na fé que escolheu. Ela se aprofundou nas pesquisas e fez várias viagens ao Peru e Israel para entrevistar membros do Bnei Moshe. Falou com parentes de Villanueva e conheceu seus netos,  que hoje são colonos israelenses perfeitamente integrados ao país e que já não falam o espanhol natal de seus pais e avós.


segunda-feira, 22 de maio de 2023

O Mistério do Livro de Rezas – Da série Histórias que Mamãe contava

  /   Sheila Sacks   /



Chana acordou sobressaltada. Pela terceira vez sonhava com túmulos sendo destruídos, gritos, janelas quebradas, labaredas enchendo as ruas de fumaça. A experiência a aconselhava a ficar em silêncio. Única mulher de uma série de três filhos homens, Chana chegou ao mundo chorando muito e sem grande festa.  Seu pai era sapateiro na pequena cidade de Yedinitz, na Bessarábia, e desde cedo teve que ajudar a mãe a criar os irmãos. A mãe, Fruma, sofria dos nervos, tinha pesadelos constantes e dores de cabeça que a faziam urrar pelo quarto. Nesses dias de horror, o pai de Chana chamava a parteira/rezadeira que com suas palavras mágicas e mãos abençoadas acalmava a mulher, dissipando o espanto e o medo no olhar das crianças.

Itzhak, assim se chamava o sapateiro, já havia exposto o problema de Fruma para o responsável religioso que conduzia as preces na pequena edificação que abrigava os judeus nos ofícios do shabat.  Muitas vezes, a doença impedia a mulher de participar do micvê, o  sagrado banho ritual, e de preparar a ceia de erev  shabat, o jantar especial das sextas-feiras para a família. Num desses encontros, vendo a tristeza e o desconsolo do homem, o chefe da congregação tirou da estante um livro de orações de capa marrom, dura e envernizada, com frisos dourados nos cantos e o desenho de dois leões alados no centro.  Fez uma benção e entregou ao sapateiro com a recomendação de que a mulher rezasse as três preces de Shemá Israel (Escuta Israel) após o anoitecer.

Como por milagre, Fruma parou com os pesadelos e as dores de cabeça diminuíram. Quando faleceu de tuberculose no gelado inverno de 1898, Chana teve que assumir a direção da casa aos dezenove anos. O caçula de sete anos, Mendel, era um menino franzino, de saúde delicada que a deixava apreensiva. Os outros dois irmãos, de quatorze e quinze anos, se preparavam para ir estudar na yeshiva, o seminário ortodoxo na cidade de Kichinev, por ação e bondade do chefe da congregação que acompanhou todo o drama da família do sapateiro.

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Naquela manhã, Chana abriu a gaveta da mesinha de cabeceira da cama dos pais, e retirou com cuidado o livro de rezas, o sidur, que sua mãe lia respeitosamente nos primeiros minutos do anoitecer. A primavera tinha chegado e já pintava de vermelho as trepadeiras da cerca que separava a casa da rua. Há três meses Fruma tinha falecido e Chana estava angustiada pelo seu sonho repetitivo. A primeira vez que o fenômeno se manifestou tinha oito anos e correu para a mãe esbaforida. Fruma segurou a filha pelo braço e a advertiu. – Ignore essa bobagem, Chana.  Sonhos não significam nada.

 No entanto, ainda que rezasse o Shemá Israel todas as noites, Fruma continuava a ter sonhos incompreensivos que ela gostaria de entender. Uma vez criou coragem e falou com Itzhak. O marido, já sem paciência para esse assunto, exclamou aborrecido.  – Por D’us mulher! Não existem sonhos bons ou sonhos maus. Já te disse mil vezes o que o ancião não se cansa de repetir: os sonhos de profecias e revelações se findaram com os profetas, há mais de dois mil anos.  

Fruma baixou os olhos, deu as costas e nunca mais falou sobre os seus sonhos. Todos os dias quando abria o sidur nas preces de Shemá Israel ( Shemá Yisrael, Adonai Elohênu, Adonai Echad - Ouve, Israel, Adonai é nosso D’us, Adonai é Um), algumas  letras hebraicas como por encanto se desprendiam do livro e ficavam suspensas no ar, com um intenso brilho azulado. As letras, sempre as mesmas, a fascinavam, mas também a intrigavam. Resolveu transcrever as letras mágicas no velho caderno de receitas da mãe que em breve seria de Chana, uma tradição que vinha de sua bisavó. O caderninho continha receitas especiais para o Pessach, a Páscoa Judaica, escritas em iídiche, o dialeto derivado do alemão usado pelos judeus ocidentais.  Mas, na noite seguinte, para a sua surpresa, a visão das letras fulgurantes se dissipou. Integradas no texto, assim permaneceram até o último suspiro de Fruma, sem nenhum sinal de que algum dia foram tridimensionais e resplandecentes.    

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Naquela noite, com o livro de rezas nas mãos, Chana começa a recitar em silêncio o Shemá Israel, como Fruma fazia.  Está emocionada e suas mãos estão trêmulas. Ao findar os versos uma espécie de clarão azulado ofuscou seus olhos e logo percebe que algumas letras hebraicas parecem ondular sobre o livro aberto, em uma fluorescência luminosa. Em poucos segundos Chana é tomada por um sentimento de imensa paz, um bem estar que jamais experimentou em toda a sua vida. Pela primeira vez, ela se vê como um ser humano especial e único, amada pelo Criador.

Por meses Chana vivenciou uma alegria interior que se renovava todas as noites ao ver a ascensão das letras mágicas durante o Shemá Israel. Uma tarde, ao procurar uma receita de Pessach, Chana se deparou com as letras hebraicas na borda da página do livro de receitas de Fruma e reconheceu a caligrafia da mãe.   Imediatamente entendeu que Fruma também experimentou o milagre das letras e guardou para si. Chana, então, resolve registrar as suas letras luminosas no caderninho para jamais esquecê-las.

Na noite seguinte, inesperadamente, as letras não ascenderam iluminando o sidur. Mas Chana já tinha se tornado outra mulher, mais confiante e feliz. Haviam se passado cinco anos desde a morte de Fruma, e dez meses que o pai foi enterrado após um mal estar súbito que o fulminou enquanto trabalhava na confecção de uma botina para o policial da cidade.  Chana encontrou o pai caído no chão da oficina, um filete de sangue escorrendo pelo nariz. O ano era 1903 e seus irmãos, agora auxiliares da sinagoga de Kichinev, viriam em Pessach para buscar o caçula que iria estudar na yeshivá.

Mas, semanas antes, uma notícia terrível abalou Chana quando foi comprar na taberna o vinho para ceia da Páscoa. Tinha chovido de madrugada e apesar do sol da manhã se avizinhar generoso, a lama da estrada tornava mais difícil o trabalho da mula em mover a carroça. Na aldeia, ela logo percebeu a agitação das pessoas. Então soube do pogrom (massacre) em Kichinev que matou dezenas de judeus, destruindo casas e lojas e não poupando mulheres e crianças. Em uma rodinha de mulheres, Chana ouviu estupefata que centenas de mães e filhas foram profanadas, vítimas da selvageria dos agressores.

Retornou a casa com um pressentimento mau que persistiu por dias. Preparou a mesa de Pessach com o coração apertado reservando as duas cadeiras das extremidades para seus irmãos, estudiosos da Torá, a bíblia hebraica que compreende os cinco livros de Moshê. Chana estava noiva há dois meses de Avraham, um viúvo vinte anos mais velho e sem filhos, por meio de um shider, o arranjo matrimonial feito pela casamenteira, esposa do ancião mias respeitado da aldeia. Os dois, acompanhados do caçula Mendel, agora um rapazote calado e introspectivo, aguardaram toda a noite pela presença dos visitantes. Ao amanhecer, Chana teve a certeza que os irmãos estavam entre as vítimas do pogrom.

Avraham se ofereceu para ir a singoga de Kishinev levar Mendel que sonhava em sair da aldeia e estudar na yeshivá. Ele retornou uma semana depois com a notícia que Chana mais temia. Os irmãos foram mortos nos distúrbios ao tentarem salvar mulheres e crianças das turbas violentas.  Desolada, Chana chorou vários dias e na sua consciência foi se formando uma convicção.  Tinha que deixar a Bessarábia e ir para outras terras, a América talvez.

Avraham tinha um irmão, escriba dos rolos da Torá, que vivia na cidade sagrada de Hebron, na Judeia, sob o mandato britânico.  O movimento hassídico (ortodoxo) estava convocando os judeus para povoarem Hebron, primeiro lar do patriarca Abraão.  Chana e Avraham apressaram o casamento em uma cerimônia de poucos convidados, venderam os pertences e partiram para a terra de seus antepassados. Ao entrarem no trem para Odessa, de onde embarcariam no cargueiro até a Palestina, Chana não verteu uma lágrima. Partia da terra natal com o coração endurecido pelo luto forçado. Das poucas coisas que Chana levou, lá estavam o mágico livro de rezas e o caderninho de receitas de Fruma. Acondicionados na bela echarpe de seda, presente da casamenteira, que na plataforma de embarque, emocionada e chorosa, desejou aos viajantes uma vida longa e venturosa. 

4



 Rachel com vinte e três anos já tinha quatro filhos. Casou muito jovem, aos 17 anos, como a maioria das mulheres da comunidade hassídica de Hebron. Morava no apartamento de cima da casa de Chana e Avraham em uma construção de pedra como tantas na cidade. Seu marido Moshé era professor da yeshivá local e sua rotina de mãe e dona de casa vinha sendo perturbada por sonhos repetitivos já algum tempo.  A guerra na Europa havia terminado há dez anos, mas todas as manhãs ela acordava transpirando e arfando com a sensação de que aviões jogavam bombas enquanto corria por um longo corredor. 

Em uma manhã, caminhando em direção ao mercado, Rachel contou para a mãe os sonhos que a atormentavam. Chana sentiu um sobressalto. Rachel era a única filha, muito amada, centro de seu mundo. Quando os netos foram chegando, um a um, todos lindos e com saúde, Chana bendisse o dia que partiu de Yedinitz para a terra dos profetas. A convivência com os vizinhos muçulmanos era pacífica e a comunidade judaica era unida e fervorosa.

A revelação de que a filha também tinha sonhos estranhos que se repetiam ao longo das noites a deixou preocupada. As crianças pequenas demandavam muita atenção e Raquel não devia ficar dispersiva ou atormentada por sonhos. Sem relutar, deu o livro de rezas para Rachel com a recomendação de recitar o Shemá Israel depois do anoitecer, sempre que possível. Rachel assim o fez e para seu assombro, algumas letras hebraicas começaram a luzir como estrelas diante de seus olhos. Falou com Chana sobre a visão. A mãe sorriu e escreveu as letras ditadas pela filha no livrinho de receitas.

Com o findar do verão do ano secular de 1929, e com a proximidade da festa do Rosh Hashaná, o ano novo judaico, Chana observou no mercado um comportamento estranho por parte de alguns vendedores e comerciantes muçulmanos. Uma vizinha a alertou sobre o clima de desconfiança que existia em Jerusalém. Boatos corriam de que os judeus planejavam destruir a mesquita do Monte do Templo. Então, uma manhã, quando Moshé se preparava para ir a yeshivá, as ruas do bairro judeu começaram a ser invadidas por turbas de arruaceiros armados de facas e barras de ferro. Rachel chamou os pais, reuniu os filhos, trancou portas e janelas e foram todos para o porão, nos fundos do prédio. Moshé já havia saído em direção à Yeshivá, sem ouvir os apelos de Rachel.

Depois de dois dias de sofrimento e muito medo, Rachel viu que alguns vizinhos saíram das casas. Pensou logo em Moshé e ficou aguardando sua chegada. Mas, a cada minuto de espera, Rachel ficava mais aflita.  Decidiu ir até a yeshivá.  Nos arredores da escola, o ambiente era de destruição e sangue. Alunos e professores tinham sido assassinados, a escola destruída e havia dezenas de feridos por toda a cidade. Grupos de judeus reunidos na calçada reclamavam da guarda britânica que não conteve o massacre.  Entre os mortos estava Moshê, o marido de Rachel, que lutou para salvar seus alunos.

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Morando em Jerusalém, Rachel jamais esqueceu os terríveis momentos que viveu em Hebron. Chana e Avraham lamentavam dia após dia a morte do genro considerado por ambos um filho muito querido. Os dois ficaram hipertensos e com problemas de coração. Em 1940, Chana e Avraham já tinham falecido e Rachel cogitava reiniciar a vida na América. Conflitos diários estouravam em Jerusalém  entre milícias judaicas, forças britânicas e árabes. Na Europa, a ascensão do regime nazista e a perseguição aos judeus reacenderam o pavor e o sofrimento que ela vivenciou em Hebron.  

Casualmente Rachel descobriu seu talento para a pintura. Por conta própria começou a pintar paisagens de Jerusalém em telas a óleo.  Algumas foram expostas em uma galeria em Tel Aviv e vistas por um colecionador americano que se propôs a apresentar seus trabalhos no exterior. Ele era marchand e tinha galerias em Nova York. O convite para a exposição incluía uma estadia patrocinada. Rachel não pensou duas vezes e aceitou de imediato. Seus filhos a apoiaram, com exceção do mais velho, Reuven.  Ele se preparava para entrar na Haganá, a força judaica paramilitar da Palestina que estava formando um grupo para ajudar os judeus de Varsóvia sitiados pelos nazistas. Rachel ainda tentou dissuadir o filho dessa loucura. Mas, em vão. Ela então embarcou para Nova York com o coração partido, mas a visão da estátua da liberdade lhe deu um ânimo inesperado. Meses depois casou com o marchand, foi morar em frente ao Central Park e se deu conta de que tinha tirado a sorte grande. O solteirão sessentão era um marchand conhecido e respeitado pelos artistas e suas galerias o tornaram um homem rico e generoso em suas doações às sinagogas.

Diante da reviravolta em sua vida, formou-se na cabeça de Rachel a certeza de que o antigo livro de rezas seria o talismã mágico capaz de transformar o pó em ouro. Encomendou uma caixa de madeira de lei, com tampa e fechadura dourada, inteiramente recoberta de veludo sobre a qual foi bordada com fios de seda e prata uma reprodução do sonho de Yaacov. Uma longa escada até o Céu, onde anjos subiam e desciam. Com a promessa do Altíssimo pintada em letras hebraicas: "Irei protegê-lo pelo seu caminho.” Nessa caixa especial e única, Rachel guardou o sidur como uma joia rara e, embaixo do livro sagrado, o caderninho de receitas de Fruma e Chana.

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 A conexão para Madri iria atrasar. A informação foi dada a Natan quando ele se aproximou do balcão para fazer o check-in. Naquele julho de 2012, o aeroporto de Burgas, na Bulgária, estava movimentado com as férias de verão. Após dois anos, Natan retornava ao Rio com o mestrado em Direito Internacional. Tinha concluído seus estudos na universidade local, através de uma bolsa que o favoreceu por ser neto de um judeu partisan búlgaro que lutou contra os nazistas na Segunda Guerra.

Lembrou de comprar um chaveirinho para Cléa, a empregada de mais de 20 anos de casa. De repente um estrondo vindo da parte externa do aeroporto estremeceu o salão de espera. As pessoas começaram a correr e rolos de fumaça escureceram a manhã. Natan foi para fora do aeroporto e viu o ônibus de turismo no estacionamento atingido pela explosão. Soube que o ônibus estava repleto de israelenses que vinham passar as férias nos balneários do país.

Com o aeroporto cercado de policiais, Natan só pode embarcar no dia seguinte. Havia dezenas de feridos e mortos. Se apressou em avisar seus pais e contou do cenário de horror e desespero.  Ester e Jaime suspiraram aliviados. Ester logo ligou para Sara, sua mãe, para avisar que o neto chegaria um dia depois do previsto. O noticiário na TV já mostrava o atentado em tempo real e Sara se emocionou ao entender do perigo que Natan escapou. O rapaz era filho único de Ester e temporão. Depois de vários tratamentos, a filha deu a luz perto dos quarenta anos.

Sara foi até o quarto, elevou ao coração o sidur que deu fim a sua depressão e agradeceu a D’us. Desde a sofrida morte da filha caçula, na década de 1950, Sara lutava contra a doença malvada e sorrateira que destruía sua vontade de viver. A garotinha nasceu com um problema de sangue e aos seis anos, apesar do tratamento intensivo, faleceu de leucemia. Desde então, a depressão tomou conta da vida de Sara de forma avassaladora. Deixou de ajudar o marido na joalheria, não conseguia se dedicar às duas filhas mais velhas, Ana e Ester, que se ressentiam de ter uma mãe ausente, às voltas com seus fantasmas. Rebelde e independente, aos quinze anos Ana foi estudar no Canadá e por lá ficou.

Sara até tentou uma internação terapêutica com base na natureza em uma fazenda no interior do Rio, mas a tristeza não a abandonava. Quando sua mãe Rachel faleceu em Nova York, Sara embarcou com a filha Ester para o enterro e as rezas que se seguiriam. Um dos irmãos de Sara, durante o período de Shivá, os sete dias iniciais de luto, veio até ela e lhe ofertou a caixa de veludo bordada com o livro de rezas e o caderninho de receitas. Rachel queria que Sara, sua única filha, ficasse com a relíquia, que antes foi de sua mãe Chana e da avó Fruma.

7

Quando decidiu casar com um jovem refugiado da guerra que conheceu na sinagoga sefardita do Central Park, perto de casa, Sara se distanciou da mãe e só a viu pessoalmente mais duas vezes. Em uma viagem de turismo a Nova York e no casamento de Ester, quando Raquel fez sua primeira e única viagem ao Rio.  A família foi contra de imediato ao namoro. Boris era um rapaz alegre, otimista, sem papas na língua e cheio de ideias mirabolantes. Integrou uma milícia na Bulgária que lutou contra os nazistas e era destemido em suas ambições. Mas, a decisão de partir para um lugar como a selva amazônica não teve o aval da família de Sara. Ela brigou com a mãe e os irmãos e foi embora com Boris com a roupa do corpo.

Ficaram pouco tempo em Manaus. Um primo vivia no Rio e decidiram partir mais uma vez. Montaram uma pequena loja de conserto de relógios na praça Onze, perto do centro, e com o tempo abriram uma joalheria. Dois anos depois, já tinham uma filial em Copacabana e o negócio deu certo. Porém, a morte da filha caçula mudou o cenário de felicidade da família.  Sara entrou em depressão e não conseguia superar a doença. Tinha altos e baixos e no cômputo geral andava de mãos dadas com o sofrimento.

Mas, o livro de rezas de Rachel que Sara ganhou tardiamente foi sua salvação. Uma manhã acordou com a cabeça pesada, prenúncio da chegada da maldita, assim Sara se referia à depressão. A caixa com o livro de rezas permanecia na gaveta  do armário de roupas desde que a trouxera ao Rio, intocável, ao lado do álbum de fotos de seu exótico casamento em Manaus. Num impulso pegou o sidur e cuidadosamente procurou as preces de Shemá Israel. De tanto serem manuseadas, as páginas davam mostras de que não resistiriam por muito tempo.   

A reza acalmou o coração de Sara.  Tornou-se a avó mais dedicada de todas para o neto Natan. Assim se considerava, com muito orgulho.  Todo o amor que parecia ter se esvaído com a morte da filha, renasceu glorioso para o menino que cresceu nas asas da avó e que o adotou como filho, se isso é possível, exclamava em tom de brincadeira.  Levava Natan diariamente para o colégio judaico Barilan, às aulas de natação no Clube Israelita de Copacabana, o CIB, ao movimento sionista Bnei Akiva, aos aniversários dos coleguinhas, à praia, ao shopping, ao cinema e teatrinho. Ester era médica pediatra e sua agenda de trabalho muitas vezes a impedia de participar das atividades do filho.  A reviravolta na saúde mental da mãe, uma guinada de 360 graus, tornou a vida de Ester mais leve, mudou a visão que tinha sobre a ciência e a fez acreditar fortemente na prece e no amor como fatores de cura.

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 Yankel Verner comemorou o seu bar-mitsvá, a cerimônia de maioridade religiosa de treze anos, na mesma data de nascimento da mãe de Fruma, nos primórdios do século XIX.  Sexto filho de um pobre carroceiro de Odessa, Yankel foi aceito pelo rabino para morar em sua casa e ajudar nos serviços da sinagoga. Ele tinha dificuldade de aprendizado e era gago. A prole do rabino, composta de nove filhos, adotou Yankel como um irmão. Ao completar dezessete anos, Yankel preferiu viver no quartinho dos fundos da sinagoga, que considerava a sua verdadeira casa, e porque assim ficava mais fácil para ajudar nos rituais de shabat, nas cerimônias festivas e no Yom Kipur, o Dia do Perdão.

Yankel tinha uma mania. De andar sempre com seu livro de rezas escondido embaixo da camisa. Presente do rabino, Yankel decorou algumas palavras do Shemá Israel e as repetia mentalmente, várias vezes ao dia. Quando esquecia, recorria ao sidur. Uma noite, no percurso entre a casa do rabino e a sinagoga, Yankel foi atacado e morto a pauladas por baderneiros. Foi encontrado na manhã seguinte, estirado na rua e desfigurado. O livro de rezas, intacto, sob seu corpo. Começavam os primeiros pogrons contra os judeus no império russo.

Anos depois, um dos ajudantes da sinagoga foi transferido para Kishinev e levou consigo o sidur de Yankel. Quando soube que o centro judaico da pequena aldeia de Yedinitz carecia de livros religiosos, lembrou do sidur de Yankel e o enviou junto com outros livros.

E assim, o sidur acabou nas mãos de Fruma, a atormentada mãe de Chana, pela generosidade do idoso líder judaico da pequena aldeia da Bessarábia. De forma extraordinária, um século depois, sua neta Rachel, vivendo na cosmopolita Nova York, estava prestes a desvendar o segredo das letras luminosas transcritas no velho caderninho de receitas de Pessach. Participante de alguns seminários sobre a cabalá, a visão mística da Torá, Rachel aguardou por dois meses a audiência com o recolhido mestre em uma sinagoga no Brooklyn. O cabalista generosamente aceitou recebê-la em uma audiência particular, após o serviço religioso da manhã. Rachel estava disposta a abrir seu coração e revelar as incríveis visões que Fruma, Chana e ela própria presenciaram.

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 Muito antes de Reuven ser considerado oficialmente desaparecido, Rachel já tinha feito viagens para a Polônia e Israel a procura de indícios do filho. Mostrava as fotos de Reuven na esperança de alguém o reconhecer, não importando onde e quando.  Soube por um sobrevivente que Reuven esteve no gueto de Varsóvia nos dias finais de sua destruição. Conversou com um integrante de uma milícia polonesa que disse se lembrar vagamente de um rapaz com a aparência de Reuven, mas não tinha ideia do seu destino. Enfim, Rachel nunca deu por encerrada a sofrida busca, ainda que um agressivo câncer de pulmão estremecesse, por vezes, o ânimo de sua jornada. Dopada pelos remédios, em suas alucinações via Reuven nas areias brancas de uma praia do Havaí, feliz ao lado de amigos, acenando sorridente.

Em suas andanças solitárias atrás do paradeiro do filho, Rachel descobriu a cabalá por meio de uma amiga pianista que teve que abandonar a carreira por conta de uma artrose precoce. Ambas viajaram para a cidade de Safed, em Israel, berço da cabalá, para um curso intensivo sob a orientação de um recomendado estudioso.  Ao final, ele falou do mestre da sinagoga do Brooklin, a quem devia a maior parte de seus conhecimentos. Não foi fácil Rachel marcar um encontro com o mestre. Esperou por semanas. Quando o dia chegou, de maneira decidida e resumida, deixou de lado a possibilidade de ser tachada de louca, assim como a vergonha de expor uma história que poderia ser julgada como mentirosa e falou abertamente sobre as visões da avó, da mãe e dela também ao recitarem a oração do Shemá Israel.

O mestre ouviu tudo calado, franzindo o cenho algumas vezes, sem encarar a mulher que soltava o verbo descrevendo alucinações e visões mirabolantes. Marcou para a semana seguinte um novo encontro e aceitou que Rachel deixasse com ele o sidur e o caderninho de receitas, evitando decepcioná-la de pronto.

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Ao sair do hospital, a cada internação mais debilitada, Rachel pediu ao filho mais velho, Benjamim, que providenciasse o envio do sidur e do caderninho de receitas para Sara, a filha fujona. Dias depois, Rachel faleceu. Conversando com Sara, Benjamim relatou o contato da mãe com o mestre que atribuiu às visões das letras a uma exacerbação da imaginação que a força da prece e o processo de purificação da alma podem provocar na mente humana. – Os tempos dos sonhos de predição ficaram lá atrás, com nossos profetas, explicou.  Seria uma arrogância crer em uma indução profana do sagrado alfabeto hebraico. Benjamim contou ainda da compaixão do mestre em relação à mãe, confortando-a em sua angústia, acalmando-a em sua aflição. - Ele abençoou o sidur e ressaltou que a prece é o que acessa e atrai esta grande e intensa luz Divina. Assim, depois de alguns encontros, mamãe ficou serena, mais fervorosa em sua crença e, principalmente, mais tolerante com tudo e com todos, afirmou.

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 Com o corpo encharcado de suor, o mestre da cabalá se ergueu da cama com a certeza de que era meia-noite. Olhou o relógio da cabeceira antes de ir ao banheiro se enxugar. No escritório de prateleiras abarrotadas de livros, ele se sentou na poltrona em frente à janela de onde via as folhagens inquietas pelo vento parecendo figuras fantasmagóricas sob as luzes mortiças das lanternas dos postes de ferro.

A partir da noite em que assistiu petrificado o espancamento e morte de Yankel Verner em uma ruela do gueto, o mestre passou a dormir mal, acordando à meia-noite inquieto e assustado. Ele viu como estivesse presente Yankel proteger com o corpo o sidur, o que irritou ainda mais seus algozes armados de paus e pedaços de corda. Noite após noite, ele despertava de súbito com a visão de Yankerl inerte no chão de pedra, com a cabeça numa poça de sangue.   

Não era a primeira vez que o mestre da cabalá tinha visões de épocas passadas. Na verdade, o mestre não sabia que o rapaz que morreu espancado era Yankel Verner. As letras que assomaram diante dele, em tom azulado e fulgurante, ao ler Shemá Israel no sidur de Rachel, correspondiam ao ano de 1821, segundo a numerologia judaica. Cada letra com seu correspondente numérico.

 Estava exausto após passar o dia analisando e conjeturando sobre os três grupos de letras, todas iniciadas com a letra Alef, a primeira do alfabeto hebraico. Após várias simulações, chegou a conclusão de que cada conjunto de letras apontava para um determinado ano. E lembrando a história da família da Rachel fez a ligação entre os fatos. Fruma anteviu o ano de 1903, quando morreram seus filhos no pogrom de Kishinev. Chana anteviu o ano de 1929, onde morreu seu genro, marido de Rachel, que por sua vez anteviu o ano da queda do Gueto de Varsóvia, em 1943, ano do desaparecimento de seu filho Reuven.

Desvendando o segredo do livro de orações, assim suponha, o mestre da cabalá achou por bem manter o segredo resguardado. De alguma forma, o sidur funcionou como um oráculo não decifrado, apontando através das letras sagradas do alfabeto Alef-Bet as datas fatídicas.  Em sua avaliação, a revelação do mistério não ensejaria felicidade ou qualquer bem. Ao contrário, criaria mais confusão e tristeza. Fez uma benção antes de devolver o sidur para Rachel e achou importante redigir uma incisiva recomendação para que o livro de orações fosse enterrado, como dita a milenar tradição judaica, quando chegasse a hora.

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Duas semanas antes da celebração de mais um ano judaico, Natan se ofereceu em levar o rabino até o longínquo e velho cemitério no outro lado da cidade para enterrar o livro de rezas. Tinha descoberto que o velho sidur estava com várias páginas deterioradas, rasgando-se ao serem tocadas. Chegara a hora de enterrar o velho livro. Sua amada vovó Sara tinha falecido de complicações depois de uma queda, e no seu enterro não pode evitar de chorar copiosamente.  A mãe Ester conservava a caixa com o sidur e o caderninho de receitas como uma relíquia antiga de decoração.

Natan vivia com os pais. Depois da ocorrência dramática do atentado no aeroporto de Burgas, ele desistiu da carreira de direito internacional e se lançou a estudar sobre segurança patrimonial. Com o apoio do pai Raul, médico como Ester e muito chegado ao filho, Natan fez cursos no exterior e montou uma empresa de segurança. Logo se associou a uma seguradora e se tornou consultor de segurança para prédios em situação de risco, como sinagogas e escolas judaicas.  Apesar de algumas namoradas, Natan tinha a impressão de que ficaria solteiro. Sentia-se feliz e protegido na casa dos pais. Eles supriam toda a sua necessidade de amor e companheirismo. Às sextas-feiras ao pôr do sol, lá iam os três até a antiga sinagoga de Copacabana, onde Ester e Raul se casaram, para as abençoadas rezas do cabalat shabat.   

Em uma visita a um museu judaico na Holanda, Natan teve a ideia de doar o centenário caderninho de receitas em iídiche. O diretor da instituição aceitou de bom grado. Ester já tinha aprovada a sugestão do filho. Natan era a luz de seus olhos e agradecia todos os dias de tê-lo ao seu lado. O passado de sofrimento de Sara, que remontava à avô Rachel, a bisavó, Chana e a trisavó, Fruma,  continuava a pesar nos ombros de Ester, assim como o forte sentimento de pertencimento em relação a sua saga familiar. A medicina a salvou da depressão e da ansiedade genéticas, e a leitura do Shemá Israel a amparava espiritualmente. Mas, jamais se utilizou do lendário sidur, recitando suas preces no livro de orações de brochura vermelha adquirido na Terra Santa, presente de seu amado Natan.

 Quanto ao velho sidur, enterrado como foram Fruma, Chana, Rachel e Sara, este permaneceu presente na vida do mestre da cabalá, centenário em seu conhecimento e sabedoria. A visão da morte de Yankel Verner, um justo oculto de sua geração, o tirava da cama à meia-noite com o coração parecendo saltar do peito. Noite após noite, o mestre chamava a si as 22 letras do sagrado alfabeto hebraico, recitando-as como uma prece. Aos poucos a calma ia se aninhando e ele dormitava sentado na poltrona. O mestre sabia que sua pena só iria se extinguir quando o livro fosse enterrado, o que foi feito três décadas depois de sua morte, quando a primavera no Hemisfério Sul se avizinhava e tímidas margaridas assomavam no vaso de plantas de Ester. No aparador, ao lado da janela, a antiga caixa de madeira revestida de veludo de Rachel agora guardava um novo livro de rezas, um sidur de capa vermelha de couro com o selo de Jerusalém. Todas as manhãs Ester levava o livro de orações ao coração, recitava em silêncio a primeira frase do Shemá Israel, respirava fundo e um sopro de ânimo e felicidade a conduzia para mais um dia de trabalho. Mas, nas vezes que a insônia batia forte e uma espécie ansiedade e aflição ensaiavam desestruturar o seu cotidiano, Ester ia para a varanda olhar a lua e meditar acerca do velho livro de rezas das mulheres de sua família, com seus mistérios, letras luminosas, milagres e revelações entrelaçando vidas e almas através de gerações.