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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

5779, o ano que vivemos

 Sheila Sacks /

Piora aquele que não se torna melhor” (Rabi Aharon de Karlin, o pregador, 1736-1772)

Curto, incompleto, insatisfatório? O ano que se foi e este que lhe sucede vão continuar velozes e vorazes, atropelando o tempo, o bom senso e os projetos sonhados?

Prisioneiro de um campo de trabalhos forçados na Sibéria, por mais de uma década, o Rebe Mendel Futerfas ( 1906-1995), que ajudou milhares de judeus a escaparem da Cortina de Ferro após a Segunda Grande Guerra, tinha uma frase emblemática, talvez resultante de sua experiência de sobrevivente do gulag soviético.

Para ele, “se você perder seu dinheiro, não perdeu nada. Dinheiro vai e dinheiro vem. Se você perdeu a saúde, perdeu metade. Você não é a pessoa que era antes. Mas, se você perder seu entusiasmo, então perdeu tudo”.

Histórias reveladoras

Nos idos de 1990, duas amigas nova-iorquinas, Yitta Halberstam e Judith Leventhal, resolveram recolher histórias de pessoas que vivenciaram fatos que geralmente são classificados como coincidências, sorte ou puro acaso. Encontros inesperados em momentos de necessidade, viagens que se revelam transformadoras, situações aparentemente insignificantes que impedem que ocorram danos ou males, grandes frustrações que abrem espaço para realizações mais felizes, momentos há muito aguardados que se concretizam em determinadas datas.

Por quase duas décadas elas publicaram uma série de oito livros com centenas dessas histórias reais, com o registro dos nomes verdadeiros dos seus personagens ou se utilizando de pseudônimos. Para as autoras, a narração de cada caso reforçava a tese de que não existiam coincidências e sim “pequenos milagres”. O que enxergaríamos como coincidências extraordinárias na verdade seriam mensagens espirituais, sinais mágicos, testemunhos misteriosos a nos alertar que não estamos sós. Uma espécie de resposta para uma pergunta ou uma oração. Um sublime retorno que receberíamos do universo.

As histórias relatadas igualmente mostravam a força do princípio espiritual de que o pensamento cria a realidade e vibrar uma determinada energia atrai uma energia semelhante. A propósito, o físico Albert Einstein disse certa vez que o homem só pode assumir duas posições sobre a existência de milagres: ou acredita que nada na vida é um milagre ou acredita que tudo na vida é um milagre.

D’us fala conosco

Assim, o Criador, os grandes mestres, os anjos e os seres espirituais que habitam a eternidade estariam ao nosso lado em cada pensamento e gesto articulados pelo binômio corpo e alma que forma a identidade individual de cada ser humano em sua existência terrena.

Apesar da concessão do livre arbítrio e a nossa liberdade de escolha, nada ocorreria acidentalmente, escrevem as autoras. Ao contrário, haveria uma forte dose de predestinação na trajetória do homem. “Quando oramos, estamos falando com D’us Quando as “coincidências” ocorrem, é D’us que está falando conosco.”

Em 1964, o cultuado Rebe M.Schneerson (1902-1994), do movimento Chabad Lubavitch, respondendo a uma carta, assinalou que não existe contradição entre o livre arbítrio humano e a Sabedoria Divina, e esta não afeta a liberdade do homem. E ilustrava a afirmação com o exemplo de uma pessoa clarividente, que tem o dom de prever acontecimentos, ou de um psicólogo que pode prever as reações de um paciente. Segundo o Rebe, esse conhecimento antecipado não vai afetar os eventos e as ações que irão acontecer.

“Porém, D’us é ilimitado em tempo e conhecimento”, escreve o Rebe, “e Sua Sabedoria se estende a todos os tempos e locais, mas nunca afeta a liberdade das ações humanas”.

Escrito nas estrelas

Em suas inúmeras palestras ao longo do tempo, as autoras continuadamente assinalavam para a plateia que as histórias relatadas em seus livros traziam à tona a força do princípio espiritual de que o pensamento cria a realidade e vibrar uma determinada energia atrai uma energia semelhante. Constatação essa que vai de encontro ao dito hassídico que atesta: “Pense o bem e o bem acontecerá!”

Um pensamento que faz lembrar novamente as palavras do Lubavitcher Rebe sobre a trajetória do homem na terra. Dizia ele que nossa missão na vida é basicamente trazer mais luz, ainda que considerasse a luta contra o mal uma atividade muito nobre quando necessária.

Ainda de acordo com Yitta e Judith muitas pessoas se manifestavam, através de cartas ou nos encontros coletivos, dizendo que mudanças significativas começaram a surgir em suas vidas, após a leitura dos livros. Isso porque elas se tornavam mais atentas às “coincidências” e à maneira de examinar o passado, a partir de então, com um olhar diferente, reconhecendo os pequenos milagres que antes não haviam identificado. E, em função dessa mudança de olhar, suas vidas se tornavam mais espirituais e iluminadas.

Em 2008, por ocasião dos 70 anos do pogrom contra os judeus ocorrido na Alemanha nazista, conhecido como a Noite dos Cristais (Kristallnacht), as autoras publicaram uma edição com 50 histórias reais sobre o holocausto e pós-holocausto, também relatando eventos inexplicáveis em que vidas humanas foram poupadas e famílias reunidas novamente. Histórias inspiradoras que mostram situações aparentemente casuais cujas ocorrências em determinados momentos deram suporte ao espírito e à fé das pessoas.
 
Enfim, um trabalho literário que despertou sentimentos de conforto, esperança e confiança nos milhões de leitores que as autoras acumularam no correr dos anos. Neste caso, cai bem o dito do rabi Elimelech de Lizensk (1717-1786), um dos fundadores do Chadissismo: “Sempre que duas pessoas se encontram, algo de bom resulta para uma terceira.”

domingo, 12 de agosto de 2018

Disputa de terra no Brasil causa assassinatos


Sheila Sacks /

Nos dois últimos anos aumentou a média de assassinatos e chacinas de trabalhadores rurais e diminuiu os recursos governamentais para programas de ajuda às famílias do campo. Uma dobradinha perversa que representa um retrocesso na política agrária do país.


Reprovado por 82% da população brasileira, segundo  pesquisa do Datafolha divulgada em 10 de junho, o governo Temer não só atinge o maior índice de impopularidade das últimas três décadas para um presidente,  como também entra nas páginas da história apresentando um número recorde de assassinatos em conflitos no campo, ocorridos nos dois anos de sua gestão.

De acordo com o relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT)  “Conflitos do Campo Brasil”, divulgado em 4 de junho, desde 2003 ( quando foram registrados 73 assassinatos) não ocorriam tantas mortes por disputas de terra no país. Em 2017 foram 71 assassinatos, dez a mais em relação a 2016, quando foram registrados 61 crimes no campo. Desses assassinatos, 31 mortes ocorreram em cinco chacinas.

Também em comparação a 2016 aumentaram as tentativas de assassinatos em 63% (de 74 investidas para 120) e as ameaças de morte em 13% (de 200 para 226). A diminuição de 6,8% no número de conflitos no campo, em 2017, com 1.431 ocorrências, fez com que o índice de um assassinato por 25 conflitos, registrado em 2016, quando se sucederam 1.536 conflitos, alcançasse um assassinato por 20 conflitos.
 
Mapa de assassinatos da Global Witness
(cor mais escura assinala maior número de mortes) 
Aumenta a brutalidade 

O professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Cláudio Maia, ao analisar os dados de 2017 notificados pela CPT identificou que em dois dos massacres - o de Colniza (MT), com nove  mortos, e o de Pau D’Arco (PA), com dez mortos -  a quantidade de pessoas assassinadas só foi menor do que na emblemática chacina de Eldorado dos Carajás, ocorrida em 17 de abril de 1996, com 19 mortes. Quanto ao número de massacres, desde 1998 não se registrava, em um único ano, mais do que dois massacres.

Para Airton Pereira, autor do livro “Do Posseiro ao Sem-terra”, e José Batista Afonso, advogado da CPT, em Marabá, que acompanham os conflitos no campo, o que assusta é identificar o “grau de brutalidade e crueldade” que acompanharam os massacres. “Cadáveres degolados, carbonizados, ensanguentados, desfigurados. Exemplos que deverão ficar marcados para sempre na alma de homens, de mulheres, de jovens e crianças. Uma pedagogia do terror”, relatam.

A CPT esclarece que registra como massacre quando em um conflito, no mesmo dia, são assassinadas três ou mais pessoas. Por isso, após uma divulgação inicial, em 16 de abril, sobre os números de assassinatos em conflitos no campo, a Pastoral decidiu incluir como massacre o caso de Canutama (AM) – em que três pessoas desapareceram quando faziam um levantamento para a regularização de lotes - , aumentando para cinco o número de ocorrências em 2017. 

A Pastoral destaca que os assassinatos de trabalhadores rurais sem-terra, de indígenas, quilombolas, posseiros, pescadores, assentados, entre outros, tiveram um crescimento brusco a partir de 2015, quando ocorreram 50 mortes. São três anos consecutivos de um processo cumulativo de assassinatos que envergonham o país.  Até então,  entre 2004 e 2014, os índices anuais não ultrapassavam o limite de 39 mortes. Na década em questão, houve até uma redução do número de vítimas fatais resultante dos conflitos no campo, com o registro de 28 mortes, em 2007 e 2008, e 25 mortes em 2009.

O gráfico “Assassinatos 2003-2017”  está incluído no relatório da Pastoral que, desde 1985, acompanha, registra, denuncia e divulga publicamente as mortes e os massacres envolvendo os conflitos no campo.

Expansão das áreas de conflito

O professor e geógrafo Carlos Walter Porto Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense (UFF), assinala que nos últimos anos houve uma expansão das áreas onde os conflitos ocorrem. Em 2008, os confrontos envolviam 6,5 milhões de hectares. Em 2016, a área aumentou para 23,6 milhões de hectares, e em 2017, atingiu 37 milhões de hectares.

Autor de vários livros sobre o tema, sendo o mais recente “Amazônia: encruzilhada civilizatória. Tensões territoriais em curso” (2017), Porto Gonçalves observa que o aumento na violência no campo se intensificou a partir de 2015, com a “ruptura política” provocada pelo processo de  impeachment de Dilma Rousseff. Foram 132 assassinatos em 2016 e 2017.

Essa “ruptura” pode ser constatada nas ações políticas que se sucedem a partir de 2016. Segundo o CPT os recursos para a obtenção de terras foram reduzidos em mais de 60%, comparados aos valores de 2015. Igualmente os valores para a ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural) foram cortados pela metade, e o programa de Aquisição de Alimentos (PAA) que recebeu R$ 439 milhões, em 2016, baixou para R$ 150 milhões, no ano passado. Para 2018, a Pastoral afirma que o governo Temer já reduziu em 35% os recursos para a agricultura familiar e suprimiu mais de 56% dos valores destinados ao programa de segurança alimentar e nutricional para as famílias do campo.

Modelo agrícola concentrado

Em contrapartida, as indústrias de agrotóxicos movimentaram cerca de R$ 30 bilhões, somente em 2017, e pelas contas da “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida” o país deixou de arrecadar, pelo menos, R$ 1,3 bilhão, visto que muitos desses produtos estão isentos do pagamento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e, em muitos estados, são beneficiados com uma redução de até 60% da base de cálculo do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

Líder mundial do ranking de consumo de agrotóxicos, o Brasil despende, no mínimo, US$ 1,28 em tratamento médico com intoxicações a cada 1 dólar gasto com agrotóxico. Lembrando que a exposição dos trabalhadores rurais aos agrotóxicos, ao longo do tempo, causa diversos tipos de câncer e outras doenças que vão aparecer, também, nos consumidores de alimentos contaminados.  

A advogada Naiara Bittencourt, do movimento “Terra de Direitos”, enfatiza que políticas agrícolas que induzem ao consumo de agrotóxicos configuram “um modelo agrícola concentrado, dependente e envenenado”.

Impunidade e retrocesso

Desde 1985, a Pastoral divulga anualmente, em abril (em memória ao massacre de Eldorado dos Carajás), o relatório sobre a violência na área rural brasileira. Este ano, devido aos seguidos ataques hackers à sede da Pastoral, em Goiânia, fato denunciado pela organização, o relatório final só foi apresentado no início de junho. Nos 32 anos de aferição desses dados, a Pastoral catalogou 1.904 assassinatos, sendo que desse total 220 mortes foram resultantes de 46 massacres.

O documento também ressalta o ambiente de impunidade que ajuda a fomentar a violência no campo. Em mais de três décadas, apenas 8% dos assassinatos foram julgados, com a condenação de 31 mandantes de assassinatos e 94 executores.

Ainda assim, segundo o secretário nacional da CTP, Antônio Canuto, vai ser difícil encontrar os 31 mandantes em alguma cadeia. “Todos eles estão soltos”, afirma. “É a evolução da impunidade”, reforça.

No início de 2018, ao divulgar uma prévia do balanço sobre a questão agrária em 2017, a Pastoral já havia alertado para o “sombrio ciclo de retrocessos políticos” que o país estava sofrendo. Apesar de dados parciais que apontavam para 65 assassinatos (depois contabilizados para 71), a instituição chamou a atenção para o clima de terror que vingou em 2017, com assassinatos praticados com requintes de crueldade e a escalada da prática da chacina como método de aniquilação.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Os beduínos do Neguev e a marcha do ódio em Londres



não bastassem os conflitos com grupos terroristas e os embates com movimentos antissemitas como o BDS, Israel também precisa enfrentar distúrbios promovidos pelos beduínos no Neguev, no sul do país.
portando fuzis M-16, de fabricação americana, atirando para o alto de seus carros, na estrada que atravessa o deserto de Neguev, em comemoração a um casamento. A polícia israelense deteve os participantes para interrogatório por porte de armas ilegais e baderna.
forças israelenses realizaram uma operação policial na cidade beduína de Bir Hadag e apreenderam rifles e dois jipes roubados do Exército. Também prenderam dois beduínos acusados de vender armas roubadas de bases militares para um traficante de armas palestino na Cisjordânia.
Radicalização
Existem 210 mil beduínos árabes-israelenses vivendo no Neguev. Sua principal cidade é Rahat, com 70 mil habitantes. Entre 1968 e 1989, Israel construiu sete cidades voltadas para os beduínos, porém mais da metade deles vivem em dezenas de aldeias, sem infraestrutura, consideradas ilegais pelo governo israelense.
Embora representem pouco mais de 2% da população de Israel, os beduínos ocupam 10% das terras do país, lembrando que o deserto do Neguev corresponde a 60% do território israelense. Historicamente sem ideologias e geralmente hospitaleiros, nos últimos anos a ala jovem dos beduínos tem se radicalizado com a infiltração do Movimento Islâmico e com a cooptação de ONGs e de ativistas no incitamento por disputa de terras.
Para o pesquisador da cultura árabe da Universidade Bar-Ilan, Mordechai Kedar, a mentalidade beduína é totalmente diferente do modo de pensar do homem moderno e geralmente eles rejeitam qualquer tipo de imposição do Estado. Um exemplo é o que vem ocorrendo na aldeia Umm al-Hiran, considerada pela Suprema Corte de Israel instalada em área ilegal. Há mais de um ano o governo tem feito negociações para a relocação de seus habitantes que insistem em não acatar a decisão judicial.
 A marcha do ódio
No segundo domingo de junho, as ruas centrais de Londres foram tomadas por centenas de muçulmanos que em passeata empunharam as bandeiras do Hezbollah, a milícia terrorista xiita do Líbano financiada pelo Irã,  na manifestação anual do que eles chamam de “Quds Day” – Dia de Jerusalém ( Quds é o nome árabe de Jerusalém).

 A data, celebrada todos os anos na última sexta-feira do Ramadã, foi inventada pelo aiatolá Khomeini do Irã, em 1979, para incitar o ódio a Israel. Além dos países árabes, capitais europeias como Londres e Berlim, e cidades como Toronto, no Canadá, e Nova York, entre outras, abrigam essas marchas desde 2012. Manifestantes enrolados em bandeiras do Hezbollah pedem a “libertação” de Jerusalém, uma terceira intifada (revolta armada) e a destruição do estado de Israel.

Incitação à violência
 
É um festival de slogans antissemitas, gritos, xingamentos, gestos grosseiros, incitamento à violência e apoio a grupos terroristas, afirmam as federações judaicas do Reino Unido. Nos discursos são cometidos flagrantes delitos de incitação ao ódio racial e religioso.

Este ano a passeata na capital britânica foi alvo de protesto de manifestantes pró-Israel que levaram bandeiras de Israel para os arredores da marcha. “O Quds Day  tem origem no antissemitismo e, ao longo dos anos, o desfile em Londres tem se tornado cada vez mais agressivo, proclamando o seu apoio a organizações terroristas como o Hezbollah e o Hamas”, disseram.

Uma petição com mais de 8 mil assinaturas pedindo a proibição de bandeiras do Hezbollah foi ignorada pela prefeitura londrina, que permitiu a livre exibição do símbolo da organização terrorista na manifestação. “É inaceitável que bandeiras do Hezbollah sejam expostas no Reino Unido neste tipo de derramamento anual de ódio”, reagiu publicamente o “Community Security Trust” (CTS), uma instituição  que cuida da segurança e proteção da comunidade judaica local.
Em Berlim, a passeata ocorreu no sábado e uma bandeira do Hezbollah foi confiscada pela polícia.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O discurso inútil sobre Theresienstadt


Sheila Sacks /

 “Eis que há muito tempo fala-se sobre a terra e os três quartos do que se diz passam despercebidos” (Maurice Merleau-Ponty, filósofo)

Em 2013, um ciclo de conferências reuniu pensadores brasileiros e franceses em torno de uma proposta de análise dos vários aspectos e particularidades que envolvem o silêncio – assumido, deliberado e, em certa medida, transgressor -, frente à tagarelice exacerbada do mundo contemporâneo. Isso porque a modernidade vem impondo uma aceleração forçada ao tempo e com isso uma consequente prosa contumaz, superficial, eivada de obviedades e enganos.

Essa hiperatividade da linguagem “prosaica”, que no entendimento do francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) “limita-se a tocar, por signos convencionais, significações já instaladas na cultura” (A Prosa do Mundo/1963) tem sido estimulada até por conta do fenômeno da “tirania da visibilidade” (sou visto, logo existo), uma marca das sociedades globalizadas assentadas nas redes virtuais, no consumo dirigido, na descartabilidade e no efêmero. Hoje, praticar o silêncio tornou-se “out”.

Memórias-padrão

Mesmo assim, ainda que os ambientes de clonagens linguísticas e pensamentos triviais se multipliquem, o silêncio continua sendo um mecanismo de resistência ao alcance de qualquer pessoa e um item fundamental à maturação e à reflexão, duas coordenadas que balizam o tempo da razão, da criação e da arte.

No filme Oblivion (esquecimento), de 2013, o diretor e autor da graphic novel (história ilustrada) que inspirou a película, Joseph Kosinski,  realiza um exercício futurista e apresenta um mundo pós-guerra nuclear onde clones com memórias idênticas são induzidos a acreditar em supostas verdades que se comprovam posteriormente falsas.

Uma drástica antevisão do porvir que tem a sua correspondência no mundo atual, com os seres humanos cada vez mais tendendo às memórias coletivas uniformes, oriundas das massivas mensagens dos chamados “dispositivos midiáticos”, compreendendo o termo dispositivo como qualquer mecanismo que seja capaz de governar a vida, conforme enunciado pelo filósofo italiano Giorgio Agamben no livreto de 35 páginas "Che cos'è un dispositivo?" (O que é um dispositivo?), de 2006. 

De mártires e heróis

Nessa maré de mesmice, a garimpagem, de quem por dever de ofício segue o rastro da notícia, se dá no pormenor, nas entrelinhas e até no não dito. As conexões se formam na aparente linguagem coloquial, distraída e inconsequente – as tais palavras ditas ao léu - que muitas vezes perversamente encobre uma verdade, difunde uma mentira ou confunde com manobras diversionistas.

Um bom exemplo desses discursos inúteis, de palavras vãs e frases roubadas de contextos extemporâneos é o que marca o personagem do documentário “O Último dos Injustos” (Le Dernier des Injustes), do cineasta francês Claude Lanzmann, falecido  em 2018.

O filme, bastante festejado pelos críticos quando de sua pré-estreia no festival de Cannes, em maio de 2013,  foi indicado ao César 2014, o maior prêmio do cinema francês.

Figura central do filme de Lanzmann, o ex-rabino de Viena Benjamim Murmelstein (1905-1989), à época das filmagens, em 1975, com 70 anos, conversa animadamente com o cineasta, então com 50 anos, em uma rua de Roma, nas cenas finais do documentário.

Presidindo o conselho judaico do campo de concentração de Theresienstadt (Terezin, em tcheco, cidade a 62 quilômetros de Praga), na Tchecoslováquia, de fins de 1944 a meados de 1945, o entrevistado tinha entre as suas funções a de se reportar periodicamente ao planejador daquele suposto “gueto modelo” – uma farsa inominável -, o tenente-coronel das forças nazistas e responsável pela logística de extermínio de milhões de judeus, Adolf Eichmann (1906-1962). Lanzmann guardou por mais de quarenta anos a entrevista, omitindo-a do longo documentário “Shoah”, exibido em 1985, alegando que na ocasião o contexto era outro.

No bate-papo em questão, em determinado momento Mumelstein cita uma frase do prêmio Nobel de Literatura, Isaac Bashevis Singer (1902-1991): “Fomos todos mártires, mas nem todos os mártires foram santos”, diz ele em flagrante intuito de legitimar para a posteridade o seu polêmico comportamento durante a Shoah,  replicando a citação que, da forma como é apresentada, suscitaria dúvidas também quanto à conduta daqueles que, como ele, sobreviveram aos campos da morte.

O campo de Theresienstadt funcionou de 1941 a 1945, e aproximadamente 140 mil judeus europeus passaram por esse “gueto murado”, sendo que 33 mil morreram no local devido as péssimas condições existentes e 88 mil foram deportados e mortos em Auschwitz e Treblinka. Quinze mil crianças também viviam no gueto e menos de cem foram encontradas quando da libertação do campo. No todo, pouco mais de 17 mil prisioneiros escaparam com vida. Segundo o historiador e filósofo Gershom Scholem (1897-1982) os sobreviventes de Theresienstdt consideravam Mumelstein um traidor que merecia ser enforcado.

A escolha de cada um

Em contraponto a esse enganoso colóquio romano entre o elogiado cineasta e o “ex-representante” do campo de concentração nazista, 
registre-se uma outra conversa, décadas depois, desta vez reunindo dois policiais, individualistas e sem apego às regras, no interior de uma carro em movimento no estado americano da Virgínia. A cena inserida no capítulo final da primeira temporada da série de TV “True Detective” (uma criação do roteirista Nic Pizzolatto), foi acompanhada por mais de 3,5 milhões de espectadores americanos em uma noite invernal de 2014.

Rememorando o passado e os fatos que impactaram negativamente as suas vidas pessoais e profissionais ao longo de mais de duas décadas de parceria na polícia, o detetive Rust Cohle, personagem de Matthew McConaughey, é conclusivo na sua afirmação ao colega Marty (Woody Harrelson) acerca das responsabilidades e das consequências das ações de ambos. Ele diz de forma peremptória ao companheiro: “Todos têm uma escolha, Marty. Todos têm uma escolha.”

Enfim, o personagem central do “Último dos Injustos” teve sim uma escolha e a exerceu. Mas, diferente do detetive Cohle - que não procurou se justificar ou se poupar-, Mumelstein usou da arrogância para fundamentar a sua defesa. Maculou a frase de Singer no ilusório afã de se pôr a salvo do julgamento da história. 

Melhor faria se optasse pelo pudor do silêncio já que “as palavras sabem de nós aquilo que ignoramos delas”, como bem assinalou o poeta René Char (1907-1988), figura chave da moderna literatura francesa e herói da resistência armada contra os nazistas.


Texto atualizado e escrito originalmente em 2014








quarta-feira, 27 de junho de 2018

O conselheiro do rei de Marrocos


 Sheila Sacks /

Em um convênio inédito, o Museu do Holocausto de Washington e a instituição pública “Arquivos de Marrocos”, de Rabat, vão compartilhar documentos sobre os judeus do norte da África no período da Segunda Guerra. O objetivo é expandir o acervo do museu americano e propiciar a pesquisadores ocidentais melhores condições para conduzir os seus estudos sobre o tema.

A assinatura do acordo, no início de maio, teve a presença do conselheiro do rei Mohammed VI, o judeu marroquino André Azoulay, de 77 anos, grande incentivador do convênio. Desde 1991, ainda no reinado de Hassan II, Azoulay atua como Conselheiro real para assuntos econômicos e financeiros nos diversos programas de reformas estruturais e de revitalização daquele país árabe.

Prédios judaicos restaurados 
                             
Um dos projetos reais, também bastante incomum em se tratando de um país árabe, visa preservar a herança judaica do Marrocos, onde viviam, antes da fundação do estado de Israel, mais de 250 mil judeus (atualmente são 3 mil).
Estão sendo investidos 20 milhões de dólares para restaurar sinagogas, escolas, cemitérios e até placas de rua com os nomes judaicos originais, nos bairros judeus (mellah) das cidades de Casablanca, Marrakech,  Essaouira (antiga Mogador) e Fez.

O Museu de Judaísmo Marroquino, criado pela comunidade judaica de Casablanca, em 1997, é um exemplo notável. Foi totalmente reformado com o apoio da Fundação do Patrimônio Cultural Judaico-Marroquino (FPJM, na sigla em francês). O espaço abriga objetos de culto e de valor cultural que lembram a história, a religião, as tradições e a vida cotidiana dos judeus na civilização marroquina.

Azoulay explica que em 1995 o Conselho das Comunidades Judaicas do Marrocos resolveu instituir uma fundação específica para preservar o legado judaico no país. A “Fédération du Patrimoine Culturel Juif Marocain” (FPJM) tem a missão de reabilitar e restauras sinagogas e demais construções judaicas, sendo reconhecida pelo governo marroquino como uma organização de utilidade pública.

Desde então, com a cooperação do governo, também foram reformados 167 cemitérios judaicos em todo o país, com a restauração de 12 mil sepulturas.

 Congraçamento das religiões

Azoulay, que também é conselheiro da “Aliança de Civilizações das Nações Unidas” (UNAOC), presidente da “Fundação Três Culturas”, em Sevilha, na Espanha, e comanda a “Anna Lidh Foundation”, com sede em Alexandria, no Egito, foi agraciado em março deste ano com o prêmio “Líder Judeu Sefardita” , ofertado pela “Fundação de Preservação da História Visual do Povo Judeu”  (PJVH, na sigla em inglês), em Nova York, que destacou seu trabalho em prol do congraçamento das religiões e da preservação da história e cultura judaicas no Marrocos.

Um dos resultados pode ser observado na alteração da constituição do país, que em 2011 inseriu um inciso em que afirma que o Marrocos “foi nutrido e enriquecido por influências hebraicas.” Ainda assim, por ser membro da Liga Árabe, o Marrocos desde 2001 não mantém laços diplomáticos oficiais com Israel, o que não impede que mais de 50 mil israelenses visitem o país, a cada ano.

Ano passado foi inaugurada uma rota Tel Aviv-Casablanca, com conexão na Ilha de Malta.


Em abril, na competição internacional de Judô que ocorreu em Marrocos, a judoca israelense Timna Nelson-Levy teve a emoção de subiu ao pódio e escutar o hino “hatikva”, tendo ao fundo a bandeira de Israel. Ela conquistou a medalha de ouro no “Agadir Grand Prix” e a execução do hino israelense neste país muçulmano foi um fato inédito que provocou orgulho em Israel, mas que gerou uma forte polêmica entre os marroquinos.


Reação adversa

Apesar a singularidade do Marrocos em relação ao mundo árabe, também neste país existe considerável oposição a Israel, principalmente vinda de alguns setores políticos. O partido da Justiça e Desenvolvimento (PJD, na sigla em francês), muçulmano conservador, que governa o país desde 2011, protestou publicamente contra a exibição da bandeira de Israel e a execução do hino israelense que foi tocado pela primeira vez na história do reino de Marrocos.

Qualificou o ato de “inaceitável e provocador para com os sentimentos dos cidadãos marroquinos”, exortando a “expulsão” da comitiva israelense. Na nota, o PJD propôs a punição dos promotores do evento pela “profanação do solo marroquino” e concluiu afirmando que “Jerusalém foi e sempre será a capital da Palestina”.

A repercussão nas redes sociais foi intensa e os ânimos ficaram acirrados, com os usuários insistindo para que os organizadores da competição fossem processados.

Obstáculos e boicotes

Durante anos, atletas israelenses têm enfrentado obstáculos e boicotes em eventos esportivos realizados em países árabes com maioria muçulmana.

Em novembro de 2017, o próprio Marrocos inicialmente ameaçou não conceder os vistos para a equipe israelense de Judô participar do Campeonato Mundial de Judô, em Marrakech. Várias organizações ligadas ao partido que governa o país realizaram um ato de protesto contra a presença da delegação israelense. Mas, ao final, os atletas israelenses puderam usar as insígnias israelenses nos uniformes.


No mês anterior, em outra competição, judocas israelenses conquistaram cinco medalhas, no “Grand Slam” de Abu Dhabi, mas as autoridades dos Emirados Árabes não permitiram que a equipe de 12 atletas exibisse o distintivo de Israel (ISR) nos uniformes, nem portassem bandeiras ou que o hino fosse executado.

E para culminar, atletas de Marrocos e dos Emirados se recusaram a cumprimentar os israelenses que os derrotaram.

Festival une judeus e muçulmanos

Ainda que não faltem dificuldades no relacionamento de Israel com Marrocos, recentemente duas delegações daquele país visitaram Israel. Uma composta por empresários marroquinos,cineastas e escritores, e a outra formada de mulheres que participaram de palestras sobre a emancipação feminina.

Outro fato a destacar que contribui para uma melhor relação entre judeus e muçulmanos é o Festival de Música Andaluz que acontece todos os anos na cidade de Essaouira (antiga Mogador), na costa Atlântica de Marrocos.

 Por iniciativa de Azoulay, desde 2003 esta cidade portuária, de 70 mil habitantes, abriga o “Festival des Andalousies Atlantiques” que atrai milhares de admiradores e reúne músicos e cantores judeus e muçulmanos especializados nesse tipo de música medieval nascida na região da Andaluzia, na Península Ibérica, também conhecida como Al-Andalus (denominação árabe) e Sefarad (nome em hebraico).

Durante oito séculos, a partir de 711, quando os mouros dominaram esta parte da Espanha atual, floresceu uma cultura única, de raízes árabe-judaica-andaluz, até hoje lembrada e cultivada.

O evento de 2017 contou com as apresentações conjuntas do rabino e cantor de origem marroquina Haim Louk  e do tenor muçulmano Abderrahim Souiri, acompanhados da orquestra de músicos árabes “Tetouan Mohamed Larbi Temsamani”, regida pelo maestro Mohamed El-Amine Akrami.

O rabino Louk, que vive nos Estados Unidos, já gravou mais de 100 CDs e se apresenta regularmente em recitais de música clássica andaluz em Israel, Espanha, França, Bélgica, Canadá e Polônia. Ele canta textos da Torá em hebraico embalados pela melodia andaluz sefardita.

Em geral, o festival se desenvolve em 3 dias, com apresentação de concertos instrumentais, espetáculos de canto e dança, além de seminários e debates em torno da riqueza das diversidades culturais que compõe a cultura andaluz. Em 2017, foi feita uma homenagem especial ao rabino e poeta marroquino David Elkaïm (1865-1942).

Para Azoulay - pai de Audrey Azoulay, ex-ministra da Cultura da França e atual diretora geral da UNESCO - Essaouira é o que o Oriente Médio já foi e que ainda pode ser.