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domingo, 27 de janeiro de 2013

Holocausto nuclear mais perto

por Sheila Sacks

Quem vai salvar o mundo?
“Evitar o Irã nuclear é o primeiro desafio” (Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel)

“O programa de bomba nuclear do Irã está completo” (Reza Kahlili, ex-espião da CIA no Irã)

Nos primeiros dias de 2008, duas semanas após o encontro sobre mudanças climáticas realizado em Bali, na Indonésia - que reuniu mais de 190 nações sob a batuta da Organização das Nações Unidas (ONU) -, o jornal britânico “The Guardian” nominou 50 pessoas que no seu entender seriam capazes de frear a destruição do planeta. Cada uma delas recebeu o título meritório de “green heroes”, os heróis verdes da Terra.

Al Gore (vice-presidente no governo de Bill Clinton), Ângela Merkel (chanceler alemã), o ator norte-americano Leonardo DiCaprio e a brasileira Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente, foram alguns dos guerreiros agraciados pelo empenho no combate ao aquecimento global e suas conseqüências catastróficas - degelo nas calotas polares, enchentes, deslizamentos, maremotos, ciclones, furacões, secas extremas etc que ameaçam o nosso habitat.

Porém, em termos de aniquilamento da raça humana o fato concreto, urgente e inconteste permanece sendo a ameaça nuclear que, fatidicamente, não reina sozinha nessa segunda década do século 21. A proliferação das armas químicas e biológicas é hoje uma realidade inquestionável e em razão desse ambiente inseguro para a humanidade o ponteiro do Relógio do Juízo Final (Doomsday Clock), instituído como um alerta simbólico pelo BAS (Bulletin of Atomic Scientists), foi adiantado em 2012 em mais um minuto.

Experiências nucleares assustam

Estamos, pois, a cinco minutos da meia-noite, horário que marca a destruição nuclear ou o fim da vida como a conhecemos. Criado em 1949 por físicos do “Projeto Manhattan” que desenvolveram a bomba atômica para os EUA (muitos deles ganhadores de prêmio Nobel), o relógio do fim do mundo já posicionou o ponteiro a 2 minutos da meia-noite, em 1953, ano em que os soviéticos realizaram a sua primeira experiência com a bomba de hidrogênio. Meses antes, os Estados Unidos já haviam testado nas Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico, o seu dispositivo termonuclear.

Mas, coube mesmo a então União Soviética detonar a maior e mais potente bomba nuclear jamais criada pelo homem: a bomba “Ivan”, ou “Tsar Bomb”, de 50 megatons, experimentada em 1961 no arquipélago Novaya Zemlya, no oceano Ártico, com potência 1.400 vezes mais letal do que as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945, que mataram mais de 100 mil civis. Essa superbomba capaz de provocar queimaduras de 3º grau em um raio de 100 quilômetros, danificou janelas e vidraças em cidades da Noruega e Finlândia, situadas a 900 quilômetros do epicentro ou marco zero do lançamento.

Tecnologia aperfeiçoa novas bombas

Décadas depois, em 2007, uma nova bomba com tecnologia avançada foi testada pelos russos, em resposta à bomba norte-americana a vácuo conhecida como MOAB (Massive Ordinace Air Plast Bomb) desenvolvida em 2003. Com poder destrutivo equivalente ao similar nuclear, a nova bomba não causaria danos radioativos. Ao exibir imagens do artefato militar, o “Canal 1” da televisão russa destacou que após a explosão o solo lembrava uma superfície lunar, mas sem a poluição química ou radiativa. “Tudo que é vivo literalmente se evapora”, afirmou.

Quatro vezes mais potente que a bomba norte-americana, a arma russa foi batizada de FOAB ou o “Pai de todas as bombas”, em contraposição à MOAB, também conhecida como a “Mãe de todas as bombas”. Seu lançamento veio acompanhado de um comunicado do Ministério da Defesa da Rússia informando que a fabricação daquela bomba estava fora de qualquer acordo militar internacional assinado pelo país e que a sua finalidade era garantir a segurança do Estado e combater o terrorismo. As bombas a vácuo são especialmente eficazes para destruir bunkers, refúgios subterrâneos, cavernas nas montanhas e edifícios, sendo utilizadas por norte-americanos (no Iraque) e russos (Afeganistão e Chechênia).

Na dança dos números, calcula-se que os EUA e Rússia possuem mais de 26 mil armas nucleares prontas para serem lançadas, apesar de em 2010 o Pentágono ter anunciado que havia reduzido em mais de 80% o seu arsenal atômico desde os tempos da Guerra Fria, em função de acordos de desarmamento e de negociações do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Atualmente com 5.113 ogivas prontas para serem usadas, os EUA admitem que ainda há milhares de ogivas que foram “aposentadas” mas ainda não foram desmontadas. Dono do maior arsenal militar do planeta, os EUA prometem reduzir em 5 bilhões de dólares o seu orçamento militar de 2013, que mobiliza cerca de 525 bilhões de dólares.

Quanto à Rússia, a estimativa é que Moscou possui 4.237 ogivas estratégicas para ataques a longa distância. Mas, o número total do arsenal russo estaria entre 15 mil a 17 mil ogivas.

Comércio de armas aumenta

Em paralelo, estudo elaborado em 2012 pelo Instituto de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri) detectou que o comércio de armas convencionais não estacionou nem diminuiu. Entre 2007 e 2011 houve um aumento de 24% na comercialização dessas peças, principalmente por conta da militarização de países asiáticos como a Índia (a maior importadora de armas), Coreia do Sul, Paquistão, China e Singapura. Os maiores vendedores de armas continuavam sendo os EUA e a Rússia, mobilizando mais de 50% do mercado: o primeiro com 30% das vendas a 75 países e os russos com uma fatia de 23%.

O instituto sueco afirmou ainda que as duas potências prosseguiam no trabalho de modernização de seu sistema de armas nucleares e que o gasto total no setor militar em 2011 havia atingido 1,74 trilhão de dólares. Oito países (EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão e Israel) concentravam 4.400 armas nucleares operacionais, com 2 mil aptas para serem usadas em combate a qualquer momento (“Estudo aponta modernização do arsenal nuclear no mundo” – Deutsche Welle, em 6 de junho de 2012).

No tocante às ambições nucleares do Irã e da Coreia do Norte (fatores que em 2007 movimentaram o Relógio do Juízo Final para mais perto da meia-noite e que em 2012 voltaram a ser motivo de preocupação), cientistas do BAS emitiram comunicado alertando para a situação de risco da humanidade. Isso devido ao contínuo desenvolvimento das armas nucleares e as atuais dificuldades de concluir acordos no sentido de cessar a sua produção. Segundo o Conselho de Segurança do BAS existem hoje 19.500 armas nucleares ativas, o suficiente para destruir a Terra várias vezes.

Rússia investe em armas nucleares

Esses constantes avisos, porém, não impedem que nações reservem mais recursos para as áreas militares. O presidente da comissão de Defesa do Parlamento russo, Vladimir Komoedov, anunciou que entre 2013 e 2015 serão investidos 101,15 bilhões de rublos (cerca de 3,2 bilhões de dólares) para reforçar o arsenal nuclear do país, o triplo do que foi gasto em 2012. E para 2015 a previsão dos gastos militares chegará aos 3 trilhões de rublos (cerca de 96 bilhões de dólares), grande parte destinada à Força de Mísseis Estratégicos (FME). Exemplo dessa diretriz é a entrada em atividade nos primeiros dias de 2013 do mais moderno submarino nuclear russo já construído, com capacidade para transportar 16 mísseis balísticos intercontinentais de alcance de mais de 8 mil quilômetros.

Autoridades da Rússia explicam que a construção de mísseis nucleares é necessária “para manter o equilíbrio estratégico no confronto geopolítico com os Estados Unidos.” Segundo o porta-voz do ministério da Defesa, coronel Vadim Koval, “o desenvolvimento do programa americano antimíssil global e a implantação do conceito de Ataque Global Imediato estimulam as Forças Armadas russas a buscar uma resposta assimétrica.” (“Rússia irá reforçar o seu escudo nuclear” – Gazeta Russa, em 14 de novembro de 2012).

Um argumento contestado pela historiadora Marina Kalashnikova, dissidente russa que acusa o governo de ter ficado de fora de quase todas as convenções internacionais que restringem a expansão de seu poderio militar. “A ideia da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte que reúne 28 países) de intimidação pela posse de armamento nuclear não significa absolutamente nada para os generais russos", escreve Kalashnikova. "Ao contrário dos seus homólogos ocidentais, eles não têm medo das grandes perdas militares e civis. Isso já era verdade na época de Stalin. Perdas não afetam a popularidade dos governantes do Kremlin..." E alerta: “O equilíbrio estratégico não funciona e nunca funcionou. Os militares russos de hoje não são mais fracos do que os da URSS e em algumas áreas ultrapassam os militares soviéticos” (Em 2002 foi criado o Conselho OTAN – Rússia para inserir o país na aliança militar).

Kremlin ajuda programa de mísseis chineses

A historiadora também denuncia o Kremlin por ativar uma rede de extremistas do Terceiro Mundo; formar alianças com forças e regimes ditatoriais para expandir sua influência; e de estar por trás do ataque de 11/9, ao citar a frase de um funcionário da OTAN sobre o papel da al-Qaeda e Bin Laden na ação terrorista: “Isso (o ataque de 11/9) está além de suas capacidades intelectuais”. A dissidente que teve sua casa em Moscou arrombada, documentos roubados e permaneceu detida numa clínica psiquiátrica por 35 dias, mudou-se para Berlim com o marido Viktor, um ex- oficial da KGB (agência de inteligência soviética), em setembro de 2010, e três meses depois ambos foram internados em um hospital com suspeita de envenenamento. Exames confirmaram que os dois tinham uma concentração de mercúrio no sangue 25 vezes acima do normal (“Um alerta de Marina Kalashnikova”, por Jeffrey Nyquist, em 2 de março de 2010).

Estudioso de geopolítica e escritor político, o norte-americano Jeffrey Nyquist já havia afirmado, no final da década de 1990, que “altas lideranças da al-Qaeda são, na verdade, agentes russos”. Formado em sociologia política pela Universidade da Califórnia, Nyquist foi colunista do site de notícias WorldNetDaily (WND), um dos mais acessados em todo mundo e publicou a obra “As Origens da Quarta Guerra Mundial”. Ele defende uma posição mais agressiva dos EUA em relação à Rússia e enumera os motivos: a potência do Leste vem sucessivamente aumentando o seu arsenal nuclear; dá apoio e contribuição tecnológica aos sistemas de mísseis chineses; e está aliada à China no patrocínio de países de regimes repressivos (Coreia do Norte, Irã, Síria, Cuba e Venezuela, entre outros).

Considerado ultradireitista em suas opiniões, Nyquist critica a discreta repercussão na imprensa de denúncias de dissidentes, muitos deles eliminados pouco tempo depois de se manifestarem. E cita a frase de um agente aposentado da KGB: “Ninguém é mais fácil de comprar do que um jornalista ocidental.”

Apoio nuclear ao Irã

Simultaneamente à evolução e expansão de tecnologia nuclear para uso próprio, a Rússia vem mantendo convênios de cooperação nesta área com o Irã desde 1995. Em 2010, a primeira usina nuclear iraniana iniciou as suas operações com combustível fornecido pela Rússia. Localizada no sul do país, a usina nuclear de Bushehr foi concluída pelos russos e nesse início de 2013 ligada à rede de energia nacional, operando em plena capacidade.

Apesar de o governo do Irã negar que faça uso da energia nuclear para construção de bombas, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) anunciou, em novembro de 2012, que a capacidade iraniana de produzir urânio a 20% - usado para fins militares, já que o percentual de pureza necessário para o uso energético é de 3,5% - iria aumentar de 15 kg a 25 kg mensais, após a instalação de mais mil centrífugas na usina subterrânea de Fordow. Meses antes, relatório divulgado pelo “Institute for Science and International Security” (ISIS), de Washington, dava conta de que o Irã estava mais perto de obter a quantidade de urânio indispensável para montar uma arma nuclear.

De acordo com o estudo, a usina de enriquecimento de urânio de Natanz, com 10 mil centrífugas, levaria de dois a quatro meses para acumular 25 Kg de urânio enriquecido a 90% necessários para fabricar uma bomba nuclear. Para o presidente do ISIS e um dos autores do relatório, David Albright, de posse do material Teerã disporia de um artefato nuclear no prazo de oito a dez meses.

Uma hipótese não descartada por Moscou pelo que se apreende das palavras do ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergéi Lavror, durante encontro da CICA (Conferência sobre Interação e as Medidas de Confiança na Ásia), em setembro de 2012. A CICA tem 24 países-membros - entre eles Rússia, China, Índia, Paquistão, Irã, Israel, Egito, territórios palestinos, Turquia, Iraque, e Jordânia – e não-membros como Coreia do Norte, Líbano e Síria, e foi instituída em 1999 como um fórum entre governos de países da Ásia para o fomento da paz, segurança e estabilidade na região.

Na ocasião, o diplomata destacou o programa nuclear iraniano como uma das questões mais urgentes a serem debatidas e negociadas pela comunidade internacional: “O Exército e a Marinha do Irã já possuem mísseis táticos capazes de atingir instalações navais e terrestres dos EUA na região”, disse. Unidades e equipamentos de infraestrutura, portos, usinas de dessalinização de água também podem ser atacados pelo Irã, acrescentou. O chefe da diplomacia russa citou a possível ajuda que o Irã pode receber de aliados como o Hezbollah libanês, a milícia xiita Exército de Mahdi (Iraque) e de organizações fundamentalistas islâmicas do Afeganistão (Talibãs), Iêmen e Barein.

Um recado em tom de ultimato que se desdobra nesse início de 2013. Em artigo veiculado no site de notícias WND, em 7 de janeiro (“Iran's nuclear bomb program complete”), um ex-agente da CIA (Central Intelligence Agency) que atuou infiltrado na Guarda Revolucionária do Irã, de pseudônimo Reza Kahlili, afirma que o programa iraniano de construção de uma bomba nuclear está completo. Segundo Kahlili, sua fonte tem acesso ao programa nuclear iraniano e confirmou que o Irã finalizou com sucesso uma bomba nuclear com a ajuda da Rússia e da Coreia do Norte, em uma das instalações desconhecidas pelos inspetores da AIEA, na cidade de Khondab. O local fica no interior de uma montanha, com centrífugas e laboratórios, e é imune a ataques aéreos. Há 60 especialistas trabalhando sob a supervisão de quatro cientistas russos e três norte-coreanos. Armas biológicas também estão sendo desenvolvidas pelos iranianos.

Reza Kahlili nasceu em Teerã, foi agente da CIA nas décadas de 1980 e 1990, escreveu o livro de memórias “A Time to Betray” (Tempo de Trair), publicado em 2010, e vive escondido em algum lugar da Califórnia.

Armas nucleares nas mãos de terroristas

Em 2012, meses antes das Olimpíadas de Londres, o jornal britânico “The Daily Telegraph” publicou uma reportagem acusando o Irã de estar ampliando sua parceria com a rede terrorista al-Qaeda, oferecendo financiamento e treinamento a seus membros. A informação partiu de especialistas em segurança e risco político que temiam algum tipo de ataque durante o evento.

Um ano antes, os EUA já tinham denunciado formalmente o Irã de se aliar à al-Qaeda, permitindo que a rede utilizasse o solo iraniano para levar armas, dinheiro e combatentes às suas bases no Afeganistão e no Paquistão. A notícia publicada pelo “The Wall Street Journal” informava que o Departamento do Tesouro americano havia detectado uma operação de angariação de fundos para as atividades da al-Qaeda, envolvendo centenas de milhares de dólares. Os recursos provenientes de doações de países do Golfo Pérsico, principalmente do Kuwait e Catar, eram operados por agentes da al-Qaeda baseados no Irã (“U.S. Sees Iranian, al Qaeda Alliance”, em 29 de julho de 2011).

Mas, a suspeita de que a al-Qaeda possa ter armas nucleares não é recente. Em 1999, o cientista político Yossef Bodansky, ex-diretor do Centro contra terrorismo do congresso dos EUA e autor de vários livros sobre o tema, afirmou que sim. Seu colega Paul L. Williams, ex-consultor do FBI sobre crime organizado e terrorismo, autor do livro “Al Qaeda Connection” também acha possível. Ambos os especialistas sugerem que a rede terrorista adquiriu armas nucleares de fabricação soviética dos chechenos. “Em 1995”, conta Williams, “os chechenos plantaram uma bomba radiológica no Izmailovsky Park, perto de Moscou. A bomba foi feita de césio-137 e, se tivesse sido detonada, poderia ter matado milhares de russos. Este incidente representa o primeiro caso de uma bomba nuclear a ser implantada como uma arma de terror”, afirma. William ainda relata que depois da guerra as armas foram vendidas a al-Qaeda e agentes britânicos infiltrados em campos de treinamento da organização no Afeganistão, em 2000, viram armas nucleares sendo fabricadas.

Bombas compradas no varejo

O que vai ao encontro das afirmações do então braço direito de Osama Bin Laden e atual chefe da organização, Ayman al-Zawahiri, semanas depois do atentado de 11/9. Em entrevista ao jornalista paquistanês Hamid Mir, ele teria dito: ”Senhor Mir, se você tem 30 milhões de dólares, vá o senhor ao mercado negro da Ásia Central, ponha-se em contato com um cientista soviético descontente e lhe asseguro que ele lhe dará dezenas de valises de bombas inteligentes.” A revelação foi feita pelo jornalista em um programa da TV australiana, em 2004. Segundo Mir, que foi o único repórter a entrevistar os terroristas após o ataque aos EUA, Zawahiri ainda explicou: “Eles entraram em contato conosco. Nós enviamos nosso pessoal para Moscou, Tashkent (capital do Uzbequistão) e outros países asiáticos. Nosso pessoal negociou e comprou algumas bombas pequenas.”

Cinco anos depois, Mir voltou ao tema e falou para o site de notícias WND sobre o seu encontro, dias antes, com um engenheiro egípcio que tinha perdido um olho depois de participar de um teste nuclear da Al-Qaeda, na província de Kunar, no Paquistão (“ ‘American Hisoshima’ linked with Iran Attack”, em 28.04.2006). O jornalista contou que ficou perturbado e deprimido com o encontro porque o engenheiro teria dito que o pesadelo nuclear estava chegando à América. “O American Hiroshima, nome que os líderes da al-Qaeda escolheram para o plano de ataque aos EUA, irá acontecer em breve, tão logo que os norte-americanos lancem um ataque às instalações nucleares do Irã”, falou Mir.

Trabalhando como âncora do canal de notícias Geo News, na capital paquistanesa, Hamid Mir escapou de um atentado terrorista em novembro do ano passado, quando uma bomba foi deixada em seu carro, embaixo do assento.

Chefe da al-Qaeda recebeu treinamento na Rússia

Reforçando a ideia de ligação da al-Qaeda com o regime russo, um ex-tenente-coronel da FSB (a agência de informações que substituiu a KGB), Alexander Litvinkenko, declarou publicamente que o médico egípcio Ayman al-Zawahiri, chefe da al–Qaeda e o primeiro da lista do FBI (Federal Bureau of Investigation) de terroristas procurados, foi treinado pela FSB na Rússia. Autor do livro “Explodindo a Rússia:Terror Doméstico” que acusa agentes russos por atos de terrorismo em Moscou e de culparem indevidamente os chechenos, Litvinkenko desertou e pediu asilo político na Inglaterra, em 2000.

Seis anos depois, aos 41 anos, ele morreu misteriosamente, provavelmente envenenado, depois de tomar chá com três compatriotas em um hotel de Londres. O governo russo negou qualquer envolvimento, mas segundo Jeffrey Nyquist “privadamente, autoridades britânicas admitiram ter sido o Kremlin que enviou os assassinos que envenenaram Litvinenko com material radiativo polônio-210, em novembro de 2006”. O ex-militar falava abertamente que Vladimir Putin, presidente da Rússia e ex-agente dos serviços secretos (KGB) era o terrorista mestre por trás da al-Qaeda.

Apesar do paradeiro de al-Zawahiri não ser conhecido, supõe-se que ele esteja abrigado em terras das fronteiras do Afeganistão e Paquistão. O exército paquistanês, temeroso de que ações terroristas possam ser executadas em seu território, anunciou uma mudança de foco em relação à segurança nacional. A partir de 2013, grupos extremistas, principalmente a al-Qaeda – e não mais a Índia, o principal inimigo externo – estão estabelecidos como a mais grave ameaça ao país a ser combatida.

No Iraque, o braço da al-Qaeda que se intitula “O Estado Islâmico do Iraque (ISI)” tem atuado sistematicamente. Em 2012, o grupo desfechou 31 ataques terroristas matando mais de 400 pessoas durante o mês sagrado dos muçulmanos, o Ramadã. Na guerra civil da Síria, a inquietação é com a possibilidade da rede terrorista se apossar das armas químicas. Em pronunciamento à rede norte-americana de TV CNN, o rei Abdullah da Jordânia externou a sua preocupação de que armas químicas estocadas pelo governo sírio possam acabar nas mãos da al-Qaeda.

Brigadas da al-Qaeda na Síria

No fim do ano passado, o representante do principal grupo opositor do governo sírio no exílio, Burhan Ghalioun, que então presidia o Conselho Nacional Sírio (CNS), esteve em a Trípoli para pedir ajuda para os rebeldes que lutavam na Síria. O Pravda informou que Ghalioun encontrou-se com dois antigos líderes da al-Qaeda, Abdelhakeem Belhaj e Mahdi Al Harati, que atualmente ocupam importantes cargos no novo governo pós-Kadafi. Na reunião, o representante do principal grupo da oposição síria no exterior, com sede na Turquia, pediu armamentos e voluntários. Segundo o jornal russo, “armas foram enviadas dos estoques do então exército de Muamar Kadafi e brigadas revolucionárias de milicianos salafitas foram transferidas.” Os salafitas são muçulmanos que defendem a “sharia” (leis islâmicas) como fonte de legislação dos Estados e a al-Qaeda mantém brigadas destes jihadistas em suas formações.

De acordo com a emissora “Voz da Rússia” existe um receio de que em Damasco, em substituição ao regime de Assad, possam alcançar o poder grupos extremistas. “O fato da al-Qaeda estar presente na Síria foi confirmado também pelo premiê de Israel Benjamin Netanyahu, em reunião do governo israelense”, informou a rádio, em 19 de janeiro. A al-Qaeda é a responsável pelo ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e ao prédio do Pentágono, nos arredores de Washington, ocorridos em 11 de setembro de 2001 (11/9). Foram sequestrados quatro aviões com tripulantes e passageiros para os ataques, sendo que um deles caiu em um campo na Pensilvânia. No total foram 2.996 mortos e mais de 6 mil feridos.

Al-Qaeda avança para a África

Mas, os radicais islâmicos da al-Qaeda não estão circunscritos ao Oriente Médio. Um dos ramos desta rede transnacional é a al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQIM), com seu quartel-general na Argélia, que vem atuando nas terras desérticas do norte e oeste da África, principalmente na República do Mali, com o apoio do Irã. O objetivo é derrubar o governo daquele país e instalar um regime fundamentalista aos moldes do iraniano.

Desde o início de 2012 os extremistas islâmicos controlam as cidades do norte de Mali e diante da possibilidade da ex-colônia francesa ser tomada pelos insurgentes, o presidente da França Francois Hollande tomou a decisão de enviar tropas àquele país. O dirigente francês acredita que se nada for feito para impedir o avanço dos extremistas, a região vai se tornar uma base de lançamento para ataques terroristas contra o Ocidente, com a al-Qaeda se expandindo para o Iêmen, Somália e Mauritânia.

E o recente ataque, sequestro e morte de reféns em uma usina de extração de gás na Argélia (a 100 quilômetros da fronteira líbia) comprovam a disposição da rede terrorista e de seus afiliados de avançarem pela África. Há dois anos, o governo espanhol se dispôs a pagar 5 milhões de dólares aos salafitas da al-Qaeda no Magreb Islâmico pela libertação de três funcionários catalães da organização não governamental “Barcelona Acción Solidaria”. Eles foram sequestrados na Mauritânia, sendo posteriormente transferidos para o norte de Mali.

O Magreb (poente, em árabe) islâmico é identificado geralmente com a parte ocidental da África do Norte (conhecida como África branca) e inclui o Marrocos, Saara Ocidental (ex-colônia espanhola invadida pelo Marrocos), Argélia, Tunísia, Líbia, Mauritânia e as ilhas espanholas Ceuta e Mellila, no Mediterrâneo, perto da costa de Marrocos.

Irã envia recursos ao Hezbollah

O Irã também vem ajudando com recursos e armamentos, desde a década de 1980, a milícia xiita libanesa Hezbollah, detentora de um longo histórico de atos terroristas. Especialistas acreditam que Teerã envia anualmente 200 milhões de dólares para o grupo extremista que está ligado ao regime sírio de Bashar al-Assad. Em entrevista à rede britânica de rádio e televisão BBC, em 2009, a professora Amal Saad-Ghorayeb, estudiosa do Hezbollah, assim definiu o grupo: “O Hezbollah é libanês, seus membros são árabes xiitas, mas sua ideologia e modelo seguem o Irã.”

Na mesma linha de pensamento, o professor Fares Ishtay, do departamento de Ciência Política da Universidade do Líbano afirmou que o Hezbollah é uma frente iraniana na região, mas que já criou estrutura própria. Fontes do Pentágono calculam que o grupo xiita libanês tem atualmente 50 mil mísseis e foguetes, graças ao reforço militar da Síria à organização. Na guerra civil na Síria, o governo de Assad tem tido o apoio de mais de 5 mil militantes do Hezbollah e teme-se que o grande arsenal de armas químicas do país possa também ser transferido de alguma forma para esse grupo terrorista.

O Hezbollah surgiu a partir da revolução iraniana (1979), com o objetivo de criar um governo no Líbano regido por leis islâmicas similar ao regime de Teerã. Apoiado pelas forças iranianas, o grupo foi responsável por ataques terroristas nas décadas de 1980 e 1990 às embaixadas norte-americanas no Irã, no Líbano e no Kwait, com mais de 100 mortos. Também sequestrou aviões comerciais, jornalistas e professores universitários; utilizou-se de caminhões-bomba para destruir quartéis em Beirute, resultando em centenas de mortos; praticou atentados em Paris, explodiu a embaixada de Israel em Buenos Aires, em 1992 (29 mortos e 249 feridos) e a sede da associação judaica argentina (AMIA), em 1994, matando 85 pessoas e ferindo 300.

Entre os indiciados pelos ataques apontados pela justiça da Argentina está o atual ministro da Defesa do Irã, Ahmad Vahidi, que na época era o comandante da Força Quds, uma divisão especial da Guarda Revolucionária do Irã cuja missão é organizar, treinar, equipar e financiar organizações militares islâmicas clandestinas em todo o mundo para a prática de ações terroristas.

Reação é vista como intervenção

O Ocidente vai respondendo a esses atentados violentos de forma reativa, com os governos arregimentando suas forças policiais e militares a cada ataque perpetrado. Os EUA, um dos alvos prioritários do terror, têm procurado se antecipar e abortar esses atos em seu território fazendo uso de avançados serviços de informação e de rígidas medidas de segurança. A mobilização e o envio de tropas norte-americanas e de seus aliados europeus a países da Ásia e África corroídos por conflitos internos de raiz religiosa geralmente cobram um preço demasiado alto em termos de perda de vidas, gastos públicos e críticas de intervencionismo.

Lênin, líder da revolução russa de 1917, chamava os atentados terroristas de “propaganda armada”. De certa forma, o terrorismo vende suas ideias ou ideologias utilizando os argumentos mais vis e imorais ao seu alcance. Seu objetivo é introduzir o medo, a incerteza, a sensação de fragilidade e impotência no coração dos homens, atiçando e fomentando a violência e o ódio como fórmula escabrosa de política. “Ataques terroristas imitam os golpes arbitrários da natureza”, compara Susan Neiman, filósofa norte-americana, ao analisar o 11/9. “Como os terremotos, os terroristas atacam aleatoriamente: quem sobrevive e quem morre dependem de contingências que não podem ser merecidas ou evitadas.”

Por outro lado, a inércia e a dubiedade respaldadas por uma aparente política estratégica tendem a se transmutarem em omissão criminosa e não podem ser justificadas. Neiman explica que uma das principais consequências do terror é a destruição das próprias distinções morais. As vítimas transformadas em cúmplices, embaraçadas por sentimentos de possíveis culpas e injustiças praticadas anteriormente que determinariam os atos de seus algozes. Legitimando, no final das contas, ideologias fundamentalistas que instigam aos assassinatos e às guerras. Um impasse moral que a política das nações tem se mostrado incapaz de enfrentar nesse jogo de retranca das civilizações. O que nos leva a crer, nesse início de 2013, que estamos sós, lamentavelmente sós. A humanidade refém de mentiras, trapaças e ameaças, à mercê do apocalipse nuclear.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O Navegante das Almas

por Sheila Sacks

 











Quem é o anjo que me ampara,

em que tempo e galáxia mantém-se como pilar,

coluna do mundo.


Sobre os seus ombros recaem os pecados

incontáveis,

das gerações insensatas

... Tempestades de fogo!


Sobre a sua face escorrem tormentas,

indagações,

a agonia dos seres fugazes

... Tempestades de sal!


Deixe-me romper os mares

e cingir-me aos seus pesares,

estar ao seu lado em meio aos trovões

e trovoadas.


Ah! Meu justo, meu anjo audaz,

dê-me um dízimo, que seja,

do fardo a mim reservado.











Tu guardas calado o som da tempestade,

vela sentinela a cabeceira do vulcão.

Mas são seus o desespero e a dor

dos que se debatem nas águas escuras

das causas perdidas,

insensatas.


Seus também o braço e o regaço

dos que se lançam oceano afora,

à conquista dos mistérios e tesouros

do imponderável.


Velas ao vento,

veleiros ao sabor da tempestade,

o navegante das almas navega

o lado oculto dos mares.
















Ah! Meu anjo, meu justo,

faça-me tocar o véu da madrugada,

irromper de patins, algodão doce nas mãos,

a avenida estrelada de sua pousada.


Vou cobrir a minha cabeça

e repetir em cadência

a mais antiga das preces.

No templo ensolarado

o que tem mais valor senão meus salmos,

cânticos e rezas,

ditos imemoriais.


Vou me chegar qual criança acanhada

cheia de dedos e medos,

os quais ao primeiro afago,

se desfazem.

Junto ao meu justo será como voltar à infância,

à casa dos pais:

aninhado, acarinhado,

bem-aventurado,

estarei enfim são e salvo

... Aleluia!

dos dragões das tempestades.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A civilização oculta - O mistério do Círculo dos Gigantes

Pesquisadores buscam vestígios de um legado espiritual secreto
Por Sheila Sacks

Várias décadas após o suiço Erich von Däniken surpreender milhões de pessoas com a teoria de que as divindades reverenciadas pela humanidade seriam seres extraterrestres - de uma civilização adiantada que visitou o planeta terra em tempos pré-históricos ('Eram os deuses astronautas', publicado em 1968) -, uma outra tese não menos polêmica sobre o tema tem sido defendida por dois pesquisadores ingleses. De acordo com Philip Gardiner, escritor, roterista e diretor de documentários, e seu parceiro Gary Osborn, os deuses não seriam alienígenas, mas humanos e de origem terrena, oriundos de uma civilização misteriosa e avançada que sobreviveu aos dilúvios e outros cataclismos.

Na obra “O Priorado Secreto” (2006), os autores, que já publicaram uma dezena de livros sobre sociedades ocultas e profecias, escrevem: “Talvez seja difícil de acreditar, mas evidências consistentes sugerem que conhecimentos técnicos avançados circulavam entre nós muito antes das datas convencionais atribuídas à pré-história humana e que uma cultura desconhecida havia codificado indícios reconstituíveis desses conhecimentos.”

Uma das evidências físicas citadas pelos ingleses se refere ao Círculo de pedras de Refaim (círculo dos gigantes) - Gilgal Refa'im, em hebraico, e Rujm el-Hiri ( monte de pedras do gato selvagem), em árabe -  que os autores consideram um dos maiores mistérios de Israel. Situado na região das colinas de Golã, a 16 quilômetros a leste do mar da Galileia, o complexo se constitui em uma gigantesca estrutura de cinco anéis concêntricos de milhares de pedras basálticas, pesando mais de 45 mil toneladas, construída sobre uma planície, cujas reais dimensões só podem ser vistas do alto. 
O monumento  de pedra, que arqueólogos calculam possa ter sido erguido há mais de 5 mil anos, passou despercebido por séculos e só foi detectado através de uma pesquisa aérea. As imagens foram liberadas por Israel após a “guerra dos seis dias”, em 1967. 

Gardiner e Osborn defendem que edificações colossais como as pirâmides do Egito, o complexo monolítico Stonehenge, no sul da Inglaterra, as esculturas gigantes de pedra na Ilha de Páscoa (província do Chile), entre outras, foram erguidas sob a inspiração dessa civilização, originalmente formada por gigantes (a Bíblia também menciona povos gigantes – os nefilim, refaim e enacim - no Gênesis, Números e Josué) que, à parte as suas obras arquitetônicas instigantes deixaram um legado de conhecimento espiritual codificado em mitos, símbolos, lendas e fábulas. Histórias e “contos de fadas” passados oralmente de geração em geração, em grande parte por pessoas simples que não tinham consciência dos segredos contidos nas narrativas.
Conhecimento avançado
Para os pesquisadores, tanto a humanidade atual como as primeiras civilizações tradicionais que conhecemos jamais possuíram uma compreensão plena e acabada desse antigo sistema de conhecimento. As informações foram passadas através do tempo de forma fragmentada, sendo mal interpretadas e mal conceituadas. Gardiner e Osborn afirmam que essa misteriosa “ordem sacerdotal” teria civilizado a humanidade, talvez após uma catástrofe global. “Com o tempo, devido ao seu conhecimento científico, sabedoria espiritual e suposta capacidade extrassensorial, os povos menos desenvolvidos que conviviam pacificamente com esses seres mais avançados começaram a considerá-los deuses”. A base dessa argumentação vem da constatação da presença do mesmo sistema fundamental de crenças nas várias religiões existentes em todos os quadrantes do mundo, embora cada uma delas use denominações próprias, práticas e rituais diferentes.
A fonte desse sistema de crenças estaria nos antigos cultos solares e na experiência da “iluminação”. Segundo os autores, o padrão cíclico da natureza, a experiência renovadora do sol e os seus movimentos estão intrinsecamente vinculados ao efeito iluminador do “despertar” interior, do “renascer” e da experiência da “iluminação”. Eles citam a figura bíblica de Sansão, cujo nome deriva do hebraico shemesh (sol) que é idêntico a shamash, o deus sol dos sumérios. Quando Sansão tem seus cabelos cortados por uma mulher e perde a sua força descomunal, observa-se a simbologia do sol presente na narrativa porque sua cabeleira representa o poder irradiador dos raios de sol.
Outro exemplo mencionado diz respeito ao maior profeta e libertador do povo de Israel, Moshé Rabenu ou Moisés, autor dos cinco primeiros livros (Pentateuco) da Bíblia hebraica (Torá) que contêm os fundamentos legais, morais e éticos do judaísmo. Gardiner e Osborn escrevem que em Êxodo 34, a citação é de que Moisés desceu do Monte Sinai com seu rosto “emitindo raios luminosos”. Os autores ressaltam que o profeta cresceu no palácio do faraó como um príncipe egípcio e provavelmente foi iniciado na tradição, simbologia e astrologia egípcias do culto ao sol, às estrelas e aos padrões cíclicos da natureza. Entretanto, em Devarim (Palavras), também chamado de Deuteronômio, o quinto livro de Moisés, é feita uma advertência para que os hebreus não se envolvam com esses cultos: “Levantando teus olhos ao céu e vendo o sol, a lua, as estrelas e todo o exército do céu, não te deixes seduzir para adorá-los e servi-los! (4:19).
Adiantando-se no tempo, os autores chegam até os essênios. Seita judaica que existiu nos últimos séculos antes da Era Comum, seus integrantes viviam em Qumrã, no deserto da Judeia, perto do Mar Morto. De acordo com os documentos escondidos em cavernas e descobertos a partir de 1947 (Manuscritos do Mar Morto), essa comunidade se autodenominava “Filhos da Luz” e o “governador” era chamado de “coroa”, uma alusão à sua condição de “ser iluminado”. Os pesquisadores acentuam que a superação da morte também tinha no sol a sua inspiração. “Os movimentos do sol produziram lendas sobre o lugar para onde o deus sol vai e por que volta e serviram para encobrir ideias sobre como nós mesmos poderíamos, supostamente, reencarnar ou receber uma nova vida.”
 O despertar do “eu interior”
O fenômeno universal do culto ao Sol, segundo os autores, estaria intrinsecamente vinculado - em todas as crenças - ao efeito iluminador do “despertar” interior ou à experiência da “iluminação”. Para o homem primitivo, o sol físico vivificador também representava o “sol interior” que se alcança no instante da “iluminação”. Essa experiência espiritual e mística obtida através da meditação e de jejuns em que o indivíduo transporta a sua consciência humana limitada a alturas transcendentais - onde a mente é revitalizada e inundada com novas informações e conhecimentos - é na verdade o despertar para a verdadeira natureza da realidade. A pessoa adquire uma percepção mais intensa de si mesma e do cosmos, e este seria o verdadeiro significado por trás do culto ao sol.
Para a dupla de ingleses, esse sistema de crenças que abrange as antigas ideias da árvore do mundo (a árvore da Vida, na Cabalá), a reencarnação, o renascimento, o culto do céu - com tudo o que o envolve como o sol, a lua, as estrelas e os astros - , com nomes que de alguma forma significam “brilhar” ou “ser brilhante”, também migrou para a Europa, talvez levado pelas tribos do norte de Israel deportadas pelos assírios, no início do primeiro milênio antes da Era Comum (as chamadas tribos perdidas). Pela tradição, os sacerdotes da Europa celta (formada por diversas etnias que povoaram o oeste do continente a partir do segundo milênio antes da Era Comum) eram chamados druidas (significando “o saber do carvalho”). Eles praticavam a adivinhação, a astrologia e o culto à árvore. Em suas narrativas é creditado a Hu Gadarn Hyscion (filho de Isaac), um hebreu egípcio, a fundação do terceiro templo no círculo de pedras gigantes de Stonehenge.
Mais evidências
No livro “As digitais dos deuses” (Fingerprints of the Gods, publicado em 1995), o jornalista e pesquisador nascido na Escócia, Graham Hancock, igualmente defende a tese da existência de uma civilização adiantada, anterior a pré-história convencional da humanidade. Ele se utiliza de um documento datado de 1513 - o mapa-múndi Piri Reis – desenhado pelo almirante do mesmo nome, em Constantinopla. O mapa mostra a costa ocidental da África, a costa oriental da América do Sul e a costa norte da Antártida, esta última região desconhecida até 1818, 300 anos depois de Piri Reis ter desenhado o mapa.
Outro mistério diz respeito à indicação de ausência de gelo em parte do território antártico conhecido como a Terra da Rainha Maud (área da Antártida oriental reclamada pela Noruega), uma prova geológica que confirma que o mapa se baseou em um documento original de pelo menos 4 mil anos antes da Era Comum quando a costa estava livre de gelo. “Em outras palavras, o verdadeiro enigma desse mapa de 1513 não está tanto no fato de ter incluído um continente que só foi descoberto em 1818, mas em mostrar parte da linha costeira desse mesmo continente em condições de ausência de gelo que terminaram há 6 mil anos e que desde então não se repetiram”, enfatiza Hancock. Ele conta que o almirante deixou uma série de notas escritas no mapa, admitindo que seu papel foi de compilar e copiar desenhos de cartógrafos que retroagiam a épocas anteriores à pré-história.
Ainda acerca do mapa de Piri Reis, o escritor e professor universitário norte-americano graduado em Harvard, Charles Hapgood (1904-1982), especializado em antropologia e história da ciência, argumentava que alguns mapas básicos antigos usados pelo almirante seriam fundamentados em fontes de uma época ainda mais recuada da antiguidade. Empenhado na formulação da teoria do deslocamento da crosta terrestre, considerada por Albert Einstein “fascinante”, Hapgood afirmava que a terra foi extensamente mapeada por uma civilização até então desconhecida e ainda não descoberta, dotada de alto grau de progresso tecnológico, que existiu há mais de 4 mil anos antes da Era Comum.
Catástrofes extinguiram civilizações
Propondo a teoria de que o eixo de rotação da terra mudou pelo menos três vezes nos últimos 100 mil anos, por força de deslocamentos da crosta terrestre provocados pelo degelo das calotas polares, Hapgood acreditava que tais rupturas globais podem ter dado origem a cataclismos e provocado a extinção de civilizações desconhecidas e avançadas como a da Antártida, destruída por uma mudança catastrófica. Para validar a tese, o estudo das carcaças de mamutes congelados encontrados na Sibéria mostrou que esses animais extintos há 10 mil anos tinham em suas bocas um tipo de capim proveniente de climas quentes, apesar de tais animais terem sido descobertos em terras geladas.  
Recentemente, pesquisadores da Universidade de Glasgow, no Reino Unido revelaram que encontraram a presença de palmeiras no território da atual Antártida, através de perfurações no gelo que trouxeram à tona o pólen de palmeiras e de outras árvores de climas quentes como os baobás oriundos das estepes africanas. Segundo os estudiosos, há 53 milhões de anos o clima desse continente era semelhante ao sul do Brasil, com invernos em torno de 10ºC e verões com temperatura de 25º C. O professor Hapgood, desde 1953 sustentava que grandes regiões da Antártida permaneceram livres do gelo até 4 mil anos antes da Era Comum, lembrando que pelo consenso acadêmico as primeiras civilizações se desenvolveram no crescente fértil do Oriente Médio por volta de 3 mil anos antes da Era Comum.
A partir dessa perspectiva, o autor de “As digitais dos deuses” observa que alguns dos mitos mais impressionantes e duradouros que a humanidade herdou dos tempos antigos dizem respeito a uma pavorosa catástrofe global. " De onde vêm esses mitos? pergunta Hancock. Por que, embora procedam de culturas diferentes, seus temas são parecidos? Se são realmente memórias, por que não existem registros históricos das catástrofes históricas que parecem aludir? São indagações que se inserem nas narrativas do dilúvio bíblico e que também são encontradas na tradição de outros povos, como no livro sagrado dos maias (Popol Vuh). “Em todo o mundo são conhecidas mais de 500 lendas que falam do dilúvio e em uma pesquisa de 86 delas em continentes diferentes, um pesquisador especializado, Dr. Richard Andree, concluiu que 62 eram inteiramente independentes da versão hebraica”, assinala Hancock.
Pistas falsas
Já o historiador e arqueólogo francês Robert Charroux (1909-1978) vai mais longe nas suas considerações sobre essas civilizações desconhecidas, afirmando que antepassados superiores construíram naves siderais, viajaram no cosmos e conheceram a energia atômica. Em seu livro “A história desconhecida dos homens desde há cem mil anos” (1963), o autor defende que os poucos sobreviventes dessa humanidade superior “legaram aos seus descendentes uma grandiosa mensagem, advertindo-os porém das consequências das suas próprias descobertas”. Dessa forma, no decorrer dos séculos “centros de contraverdade têm ocultado este conhecimento, mantido embora por sociedades de iniciados”, afirma o francês.
Para Gardiner e Osborn existe uma espécie de “sacerdócio secreto” advindo dessa civilização desconhecida que desenvolveu um método de grande eficácia para chegar ao êxtase espiritual. Herdeiro e guardião do conhecimento da “iluminação interior” e das correntes místicas, esse priorado revela vestígios semelhantes nas grandes religiões e nas várias doutrinas esotéricas. “Platão foi um iniciado nesses mistérios. Ele diz que foi posto numa pirâmide durante três dias, morreu simbolicamente, renasceu e então conheceu os segredos dos mistérios”, escreve os autores de “O Priorado Secreto”.
O esplendor da Cabalá
É interessante observar que a obra central da corrente mística do judaísmo, a Cabalá (‘tradição’, em hebraico), se denomina Sefer HaZohar ou o “Livro do Esplendor”, uma referência à luz e à iluminação. Estudando o significado místico e simbólico de trechos bíblicos interpretados pelo Zohar, o filósofo e historiador Gershom Scholem (1897-1982) cita o versículo 12:1 do Gênesis como exemplo: “As palavras de D’us a Abraão, Lech Iecha (Vai-te) não se limitam ao seu significado literal, a ordem de D’us para que Abraão siga pelo mundo afora. Elas são lidas com literalidade mística significando “Vai-te a ti mesmo”, isto é “Encontra-te a ti próprio", explica.
Atribuído ao rabi Shimón Bar Yochai (Rashbi), que viveu no século 2 da Era Comum, o Zohar também é chamado de “Chochmat ha-Emet” (a sabedoria da verdade). Até ser verbalizado, esse conhecimento advindo da Torá era transmitido oralmente pelos primeiros cabalistas denominados “nistarim” (os ocultos). O rabino Chaim David Zukerwar (1956-2009), em seu livro “As 3 dimensões da Cabalá: Essência, Infinito e Alma”, escreve: “A fonte da Luz é a causa e origem de toda a criação. Por essa razão a denominação empregada pela Cabalá para designar a energia de vidas é Or – luz, em hebraico.” Paradoxalmente, os sábios também afirmam que a luz que foi feita no primeiro dia da Criação ( E D’us disse “Que haja luz, e houve luz”) foi “oculta aos justos no mundo vindouro”. A explicação dada pelo Zohar indica que as palavras hebraicas “Or” (luz) e “Raz” (segredo) são numericamente equivalentes, isto é, que estão relacionadas uma com a outra. Isso significaria que a luz original do início dos tempos só retornará em seu esplendor original com a evolução espiritual e o compromisso do homem com o bem, em um tempo porvir.
A benção do sol
Das muitas tradições judaicas, a benção do sol praticada ao longo das gerações apresenta uma característica única: o seu ritual somente se dá a cada 28 anos, quando o sol, de acordo com os sábios, retorna à posição exata onde estava no momento de sua criação. Diz o Bereshit: “E fez D’us os dois luzeiros grandes: o luzeiro maior para governar o dia; e o luzeiro menor para governar a noite... E foi noite e foi manhã, dia quarto.” Para celebrar esse mandamento (mitzvá), as pessoas se reúnem ao ar livre e é recitada uma benção especial – Bircat Hachamá (benção do sol) - precedida e seguida de salmos e preces. Sempre ocorrendo em uma manhã de quarta-feira – o dia da semana no qual D’us colocou em órbita o sol, a lua e todos os corpos celestes - o último encontro se deu em 8 de abril de 2009 (ano judaico de 5769), quando mais uma vez foi recitada a prece que lembra os milagres divinos: “Bendito és Tu, Senhor nosso D’us, que reencena as obras da Criação.” (Baruch Ata Adonai, Eloheinu Melech HaOlam Ossê Maassê Bereshit).
Mas, apesar das explicações rabínicas sobre a benção do Sol – que tem o intuito de louvar a Criação Divina -, pesquisadores como Gardiner e Osborn insistem em enxergar vestígios desse ritual ancorados a uma tradição desconhecida anterior a dos hebreus. O arqueólogo e historiador Zecharia Sitchin (1920-2010), estudioso dos idiomas antigos orientais, expõe em seu livro “O código cósmico” (2003), a familiaridade dos antigos hebreus com as constelações do zodíaco, iniciada com Terach, pai de Abrãao (Avraham) em Ur, na Suméria (atual Iraque). Ele faz uma correspondência entre os 12 signos zodiacais com os 12 filhos de Ismael (“Dele nascerão dozes chefes; E sua nação será grande” - Gênesis 17:20), os 12 filhos de Jacob (“E o número dos filhos de Jacob foram doze” – Gênesis 35), e as 12 tribos que povoaram a Terra Prometida, após o Êxodo, uma constância que, em sua opinião, “preserva a  exigência-santidade do Doze celeste”.
Sitchin, que viveu em Israel e nos Estados Unidos, revela que a expressão hebraica “mazal-tov”, pronunciada nas festividades e entendida pela maioria como “boa sorte”, significa literalmente “uma boa e favorável constelação zodiacal”. Segundo o arqueólogo o termo deriva do acadiano (a mãe das línguas semitas), em que manzalu significa “estação” – a estação zodiacal na qual o sol “estacionava” no dia do casamento ou nascimento. Ele também assegurava que a monumental e enigmática estrutura de círculos de pedra na planície das colinas de Golã, o Gilgal Refaim, foi um observatório astronômico construído por uma civilização desconhecida, 7 mil anos antes da Era Comum.

Por sua vez, o arqueólogo israelense Uri Berger afirma que já foi identificado que nos dias mais curtos e mais longos do ano ( solstícios de junho e dezembro) o nascer do sol se alinha com a abertura das rochas basálticas.