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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Covid-19 projeta um futuro de incertezas

  / Sheila Sacks /



Reportagem da agência britânica Reuters publicada em 7/2/2022 alerta para a situação mundial em relação à Covid-19. Sob o título Afrouxar restrições em regiões de Covid-Zero pode causar 2 milhões de mortes por ano ( em tradução livre do inglês), o correspondente em Xangai,  David Stanway, revela estudo produzido por cientistas chineses que aconselham o país a manter as restrições em relação à mobilidade das pessoas no sentido de conter o número de mortes pelos vírus.

Segundo os pesquisadores, especialistas em saúde pública, é necessário continuar com controles rígidos nos deslocamentos e aglomerações para impedir a propagação da variante Ômicron, mais infecciosa, concomitante ao empenho de desenvolver vacinas melhores para a prevenção de infecções.

Vacinas mais eficazes

A pesquisa reforça o entendimento de que a abolição de medidas isolacionistas poderia gerar milhões de mortes. A tese se baseia em estudos, gráficos e dados colhidos no Chile e na Grã-Bretanha quanto à eficácia inicial das vacinas usadas nos dois países: a CoronaVac, no Chile, e a Pfizer e Oxford/AstraZeneca, na Grã-Bretanha.

No início de fevereiro, em meio a recordes diários de mais de 30 mil casos diários, o Chile iniciou a quarta dose da vacina contra a Covid-19 para pessoas com mais de 55 anos. Cerca de 73% da população já está vacinada com as três doses. Em meados de 2020, o país conviveu por cinco meses com um plano rígido de isolamento social que fez despencar os casos do vírus, mas a partir da flexibilização viu o número de casos explodir.

O estudo dos cientistas chineses foi publicado no Boletim semanal do Centro de Controle e Prevenção de doenças da China (CCDC), uma estatal que cuida da gestão da saúde pública no país. Segundo a conclusão dos pesquisadores, a eficácia inicial das vacinas contra mortes provocadas pela Covid-19 foi de 86%; de 68% contra a doença sintomática e de apenas 30% em relação à infecção.

Assim, ainda que a taxa global de vacinação possa alcançar 95%, regiões como a China, que seguem o programa Covid-Zero, teriam mais de 234 milhões de infecções em um ano, incluindo 64 milhões de casos sintomáticos e 2 milhões de mortes. Isso se a mobilidade das populações fosse restaurada a níveis de 2019, antes da pandemia.

O estudo aponta que para reduzir a incidência da Covid-19 aos níveis de gripe, a eficácia das vacinas contra a infecção precisa ser aumentada de 30%  para 40%. Contra a doença sintomática a percentagem da eficácia subiria para o patamar de 90%. Os chineses afirmam que a chave para o controle da Covid-19 está no desenvolvimento de vacinas mais eficazes na prevenção das infecções.

O epidemiologista-chefe do CCDC, Wu Zunyou, advoga medidas abrangentes para controlar o coronavírus. “Antes pensávamos que a Covid-19 podia ser basicamente contida por meio de vacinas, mas agora parece que não há um método simples de controle”, avalia. A China é a única grande economia do planeta que prossegue na estratégia da Covid-Zero, monitorando com rigor os casos da doença, isolando cidades e populações. Na Nova Zelândia, apesar de alguns protestos, o governo também segue impondo medidas restritivas, e a Austrália Ocidental permanece fechada para a maioria dos não residentes.

Tragédia da Ômicron

Um dia depois da reportagem da Reuters, a Organização  Mundial de Saúde  (OMS) lamentou publicamente o meio milhão de mortes provocada pela variante Ômicron, desde que foi detectada,  no final de novembro de 2021, há quase três meses. Cento e trinta milhões de pessoas já foram infectadas e segundo a epidemiologista da OMS, Maria Van Kerkhove,  o número pode ser bem maior. “Ainda estamos no meio dessa pandemia e muitos países não alcançaram o pico da Ômicron”, disse.

Em sua atualização semanal, a OMS informou que  a Europa deteve 58% dos novos casos confirmados,  na primeira semana de fevereiro, e 35% das mortes registradas. O continente americano representou 23% dos novos casos e 44% das mortes.

“Em tempos de uma vacina eficaz, meio milhão de pessoas morrendo é mais do que trágico”, desabafou  Abdi Mahamud, gerente de incidentes da OMS. “Enquanto todos diziam que a Ômicron é mais leve, não percebiam que meio milhão de pessoas morria desde que a variante foi descoberta.”

Novas variantes



Para piorar a situação, a descoberta da variante Ômicron em cervos de cauda branca, no condado de Staten Island, em Nova York, desperta mais uma preocupação nos cientistas. A hipótese de que os animais (30 milhões nos Estados Unidos) possam ser hospedeiros dessa cepa de vírus aumenta a probabilidade de o vírus evoluir para novas variantes.

O microbiologista veterinário Suresh Kuchipudi, da Universidade Estadual da Pensilvânia, explica que quando há circulação do vírus em animais sempre aumenta a possibilidade de o vírus sofrer uma mutação completa e escapar da atual proteção vacinal. “Então teríamos de mudar a vacina novamente”, afirma.

Análises de amostras de sangue e nasais em 131 cervos revelaram que quase 15% tinham anticorpos contra o vírus. A descoberta sugere que os animais tiveram infecções anteriores por coronavírus e eram vulneráveis a repetidas reinfecções com novas variantes.

Convivendo com a pandemia

Em recente entrevista publicada no site da organização holandesa Cordaid, de ajuda humanitária global,  o vice-presidente da Coalizão para Inovações e Prevenção de Epidemias (CEPI, na sigla em inglês), Frederik Kristensen, faz um alerta: “É 100% certo que as pandemias farão parte do nosso futuro. As incertezas são: quando, com que frequência e com que gravidade.”

Ele avalia que devido ao aumento da densidade populacional, às mudanças ambientais e a nossa crescente capacidade de viajar pelo mundo, as pandemias voltarão a acontecer, e, portanto, é preciso desenvolver novas vacinas. A prioridade deve ser desenvolver uma vacina Covid-19 à prova de variantes e preparar vacinas contra duas dezenas de doenças com potencial epidêmico. 

Apesar de mais de dois anos de combate à Covid-19, Kristensen é cético em relação ao enfrentamento de possíveis novas epidemias: “O mundo está extremamente despreparado para enfrentar qualquer tipo de doença com potencial epidêmico”, declara.

Aqui no Brasil, 1.295 mortes em um único dia marcaram sinistramente a data de 9 de fevereiro de 2022. Foi o maior número de óbitos causado pela Covid-19, desde 29 de julho do ano passado, quando foram registradas 1.354 mortes. 

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Surtos e recuos (atualização em 7/3)

No início de março, a Organização Mundial de Saúde informou que na última semana de fevereiro foram relatados 10 milhões de novos casos e mais de 60 mil mortes provocadas pelo coronovírus. Apesar de uma redução de 8% na média de casos no continente das Américas, houve um aumento de 22% na região do Pacífico Ocidental (Austrália, entre outros, que reabriu as fronteiras) e de 4% na região do Mediterrâneo Oriental que engloba a Grécia e o Egito.  Na cidade de Hong Kong, depois de dois anos de controle rígido da pandemia (somente 12 mil casos registrados), a região vive um surto avassalador de Covid-19, com 200 mil casos nos últimos dois meses.

Com a flexibilização das medidas restritivas em vários países, inclusive no Brasil, o estudo de novas vacinas e medicamentos, e a suplementação das doses de reforços, é preciso acompanhar o comportamento viral da variante Ômicron ou das novas variantes que possam surgir. O virologista Jesse Bloom, especialista em evolução de vírus do Centro de Pesquisas Fred Hutch, em Seattle (Washington), falou à revista Nature, há poucos dias, sobre os dois cenários prováveis no futuro acerca da doença.

No primeiro, a Ômicron continuaria a evoluir, criando algum tipo de variante como Ômicron-plus, pior que as sub-linhagens BA.1 ( que responde para a maioria dos casos) e BA.2, dominante em países como Índia, Filipinas e Dinamarca. A segunda possibilidade seria o aparecimento de uma nova variante, como aconteceu com a Delta, Alpha e a Ômicron.

O fato é que a medida que entramos no terceiro ano da pandemia, oscilando entre surtos e recuos, muitos especialistas preferem a cautela e uma abordagem menos incisiva diante do explícito cansaço emocional das sociedades em relação à doença e a notória aspiração coletiva de um retorno gradual ao velho normal de antes da hecatombe de 2019.

 


 

 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Holocausto, antissemitismo e inveja

 / Sheila Sacks / 



Há poucos dias, em 22 de janeiro, manchete do jornal Jerusalem Post anunciava que 2021 foi o ano mais antissemita da última década – “2021 was the most antisemitic year in the last decade”. Uma notícia dada às vésperas do Dia Internacional do Holocausto, celebrado anualmente em 27 de janeiro, e que reforça, ainda mais, o compromisso de todo o cidadão de bem de enfrentar e combater essa terrível chaga que ainda conspurca nossas sociedades.

Com base no relatório anual publicado pela Organização Sionista Mundial (World Zionist Organization) e a Agência Judaica(Jewish Agency), o jornal israelense destaca que os principais incidentes foram pichações, vandalismo, profanações e principalmente propaganda antissemita.

Em maio, de acordo com o jornal, foi o mês onde ocorreram muitas situações de tensão, com eventos de aglomerações e incitamento contra os judeus do tipo Nakba Day, Jerusalém Day e Al-Quds Day. Também houve um acirramento na escalada de violência provocado pela disputa judicial envolvendo palestinos em Sheikh Jarrah, além dos inúmeros tumultos judaico-árabes nas cidades mistas de Israel.

A Operação Guardiões dos Muros (Operation Guardian of the Walls) que combateu terroristas do Hamas e a Jihad palestina, em Gaza, igualmente causou reações antissemitas ao redor do mundo. Iniciada em 10 de maio, destruiu 100 quilômetros de túneis subterrâneos lotados de munição.  De Gaza, os terroristas lançaram mais de 4 mil foguetes contra cidades israelenses e civis, sendo que 90% deles foram interceptados pela sistema de defesa aérea do país.

Foi observado que a cada manifestação de grupos contrários a Israel e eventos de confronto entre israelenses e palestinos, houve um aumento expressivo de incidentes antissemitas em vários locais do planeta.

Pandemia e Holocausto

Em relação à pandemia de Covid 19, que se estendeu por todo ano de 2021, um fenômeno preocupante foi observado no relatório: manifestações em várias cidades da Europa comparando a vacinação obrigatória às políticas da Alemanha nazista durante o Holocausto. Nesses protestos muitas pessoas ostentaram estrelas amarelas para destacar a suposta comparação.

De acordo com o relatório, o uso desses símbolos cria um enfoque inquietante já sentido em várias ocasiões. A chamada “banalização do Holocausto”, ou a banalização do mal, cujo objetivo principal é apequenar as dimensões trágicas e a singularidade daquele que foi o maior e o mais horrendo massacre humano do século. Portador de uma importância histórica sem precedentes na cultura moderna.

A Europa continua sendo o continente onde ocorre grande parte dos eventos antissemitas, seguido pelos Estados Unidos, com 30% dos incidentes. Houve aumento significativo de antissemitismo no Canadá e na Austrália. Em Nova York duplicou os casos, totalizando 503 incidentes em 2021, assim como em Los Angeles, que viu subir em 59% a incidência desse tipo de preconceito.

Alemanha, com 1.850 incidentes, Reino Unido (1.308), França (583, um aumento de 75% em relação a 2020) e Áustria foram os países com mais casos de antissemitismo, inclusive envolvendo agressões físicas. 

O poder maligno da inveja



Coincidentemente, no início de janeiro, o site do rabino Sir Jonathan Sacks (1948-2020) republicou uma prédica intitulada “A estrutura de uma boa sociedade” - The Structure of the Good Society.

No texto, o rabino, nascido em Londres e agraciado com o título de Lord pela rainha Elizabeth II, analisa os comandos dos “Dez Mandamentos” outorgados a Moisés no Monte Sinai. Ele explica que a Torá os chama de  asseret ha-devarim , isto é, “dez enunciados”. Daí a tradução grega, Decálogo, que significa “dez palavras”.

Em sua explanação, os comandos estariam estruturados em três grupos de três, com um décimo separado dos demais. No terceiro grupo de três comandos – contra o adultério, o roubo e o falso testemunho – são estabelecidas as instituições básicas que sustentam a sociedade. Mas, o tópico que merece maior reflexão é sua abordagem sobre a proibição autônoma que envolve a inveja: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, e seu servo, e sua serva, e seu boi, e seu asno, e tudo que seja teu próximo.”

Para o rabino Sacks, o maior desafio de qualquer sociedade é conter o fenômeno universal e inevitável da inveja, o desejo de ter o que pertence a outra pessoa. E ele lembra: “ Foi a inveja que levou Caim a assassinar Abel, fez Abraão e Isaac temerem por suas vidas porque eram casados com belas mulheres, levou os irmãos de José a odiá-lo e vendê-lo como escravo. É a inveja que leva ao adultério, ao roubo e ao falso testemunho.”

E prossegue: “Cada um de nós tem sua própria tarefa e suas próprias bênçãos, e cada um de nós é amado e estimado por Deus. Viva por essas verdades e haverá ordem. Abandone-os e haverá caos. Nada é mais inútil e destrutivo do que deixar a felicidade de outra pessoa diminuir a sua, que é o que a inveja faz. O antídoto para a inveja é, como bem disse Ben Zoma,  - regozijar-se com o que temos (Mishná Avot 4:1 ) - e não se preocupar com o que ainda não temos. As sociedades de consumo são construídas sobre a criação e intensificação da inveja, razão pela qual levam as pessoas a ter mais e desfrutar menos.”

Ao finalizar o texto, o rabino Sacks oferece aos leitores uma orientação espiritual descomplicada e ao alcance de todos. Diz ele: Trinta e três séculos depois de terem sido dados pela primeira vez, os Dez Mandamentos continuam sendo o guia mais simples e curto para a criação e manutenção de uma boa sociedade. Muitas alternativas foram tentadas, e a maioria terminou em lágrimas. O sábio aforismo permanece verdadeiro: quando tudo mais falhar, leia as instruções, conclui.

Nada mais adequado para a celebração deste 27 de janeiro de 2022, data que marca a libertação do campo da morte Auschwitz-Birkenau, há exatos 77 anos. Que as Dez Instruções iluminem as sociedades, os governos e todos aqueles que têm a responsabilidade pública de zelar pelos valores morais e manter as instituições livres e justas no respeito e defesa da liberdade de cada um.

Holocausto, Nunca Mais !


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

De engenharia, trabalho e gente

/  Sheila Sacks / 



Poucos lembram, talvez porque a grande mídia não deu atenção ou repercussão ao fato. Pesquisando no Google, apenas algumas páginas específicas reportam o evento. No entanto, há mais de uma década, em dezembro de 2008, o Brasil sediou o maior encontro da engenharia mundial, a WEC 2008 (World Engineers Convention), que pela primeira vez tinha como base o continente americano. Isso por conta principalmente das obras do PAC -  o Programa de Aceleração do Crescimento, instituído em 2007 - que realizou, em um período de cinco anos, mais de 40 mil obras nas áreas da construção civil e infraestrutura em todo o território nacional. Foi o terceiro congresso da entidade, promovido anteriormente na Alemanha e na China. 

À época, a convenção reuniu, em Brasília, mais de 5 mil profissionais da construção civil de 39 países, empresários e autoridades públicas ligados ao setor. Sob o tema “Engenharia: Inovações com Responsabilidade Social”, os debates foram norteados pelas discussões sobre meio ambiente, mudanças climáticas e engenharia sustentável, com ramificações envolvendo a responsabilidade social, a ética, a inclusão e a inovação sem degradação ambiental.

Na Declaração de Brasília, emitida ao final do encontro, os participantes enfatizaram o papel da engenharia como motor da inovação tecnológica e sua vital importância no desenvolvimento humano, social e econômico sustentável. Uma engenharia voltada para o cidadão, no sentido de tornar as cidades mais justas e interativas e menos excludentes. Uma missão a quem cabe, de forma prioritária, à engenharia pública em seus projetos e execução de moradias populares, infraestrutura, urbanização e saneamento, construção e conservação de unidades públicas de ensino, saúde, segurança, cultura e lazer, entre outros exemplos de serviços voltados para o bem estar das sociedades.

 Mundo sustentável

Ocorrendo a cada quatro anos, a última edição da WEC, na Austrália, em 2019, manteve seu foco na sustentabilidade e na responsabilidade social (cidades sustentáveis), incorporando ao tema -  “Projetando um mundo sustentável: os próximos 100 anos” - as preocupações com as mudanças climáticas e os desafios na gestão de tecnologia de energias renováveis, objetivos alinhados com a agenda global da ONU para o desenvolvimento sustentável da década 2020-2030 (17 Goals to Transform Our World).

Segundo esse organismo mundial, até 2030 cerca de 60% da população do planeta (5 bilhões) estará vivendo nas cidades. Nesse quadro que se visualiza, uma das 17 metas a serem atingidas diz respeito ao desenvolvimento de cidades sustentáveis, inclusivas e seguras, com uma infraestrutura adequada em relação a itens fundamentais como coleta de lixo e redes de água, esgoto, energia, transporte etc. Hoje, as cidades ocupam apenas 3% das terras de nosso globo terrestre, porém são responsáveis por 60 a 80% do consumo de energia e 75% das emissões de carbono. São 3,5 bilhões de citadinos, sendo que mais de 820 milhões morando em favelas e locais insalubres. 

Em 2023, a 7ª edição da WEC será na cidade de Praga, na República Tcheca, com o tema "Engenharia para a Vida", uma abordagem sobre os desafios da tecnologia para o desenvolvimento sustentável da civilização.

 Gerenciando obras e expectativas




 Responsável pelo emprego direto de 2,4 milhões de brasileiros, em 2021, a Construção Civil, entendida em sua forma tradicional, costumeiramente atrai abordagens tecnológicas associadas às inovações e ao aperfeiçoamento de itens técnicos tendo em vista a própria natureza científica e matemática do serviço e a formação específica e especializada de seus profissionais. No campo do trabalho aplicado, a prioridade está centrada na escolha dos materiais, equipamentos e maquinário a serem utilizados nas edificações e que devem, virtuosamente, se conjugarem com a qualidade e a funcionalidade desejáveis, adequando-se ainda a uma planilha de custos e prazos previamente calculada. A meta final é a entrega da obra de acordo com o planejamento e a expectativa iniciais, fatores que se preservados até o concluir dos serviços vão garantir o sucesso da empreitada em termos técnicos e contratuais.

Diferentemente ao que ocorre nos projetos endereçados à área privada, focados preferencialmente na responsabilidade técnica do gestor, as obras no setor público incorporam a variante do compromisso socioeconômico da cidadania, um valor já percebido e cobrado pelas comunidades envolvidas. Se em tempos passados o responsável por uma obra de edificação pública tinha como única preocupação cumprir minimamente os requisitos técnicos e burocráticos que acompanham esse tipo de trabalho, alijando-se de qualquer ação participativa que pudesse ser interpretada como um comprometimento sociopolítico, hoje essa visão de gestor público está superada face à percepção de que atender bem o propósito coletivo é atribuição básica de uma empresa que gerencia obras com recursos governamentais.

Novos padrões

Essa mudança de ótica nas instituições públicas tem ocorrido sob a égide dos núcleos governamentais que atuam nas diversas esferas do poder público - federal, estadual e municipal – promovendo as boas práticas de gestão e  introduzindo modelos contemporâneos de administração que insiram conceitos, normas, condutas e valores  voltados à promoção social das populações.  É um novo paradigma de gestão organizacional, pautado no ícone da contínua aprendizagem e aprimoramento, que estimula a incorporação de padrões de cooperação, participação, confiança e de solidariedade.

Especialistas em gestão como Noel Tichy, 75 anos,  professor de comportamento organizacional da Universidade de Michigan (EUA) e autor de mais de 30 livros sobre o tema, considera de profunda importância motivar os funcionários com uma visão empolgante do trabalho que realizam. Exemplo desse modelo é relatado por Brian Dumaine, antigo editor da revista norte-americana “Fortune”, no artigo “Por que nós trabalhamos?”. Jornalista premiado e autor de artigos sobre liderança e investimentos, ele se vale de uma parábola para reafirmar a importância da noção de “missão” no cotidiano das tarefas. Citando três tipos de operários que executam o mesmo tipo de serviço – talhar uma pedra com um martelo e um cinzel – Dumaine conta que o primeiro se sente frustrado e irritado porque considera aviltante o trabalho que faz. O segundo, ao explicar que talha a pedra para um prédio, não parece nem zangado nem satisfeito. Já o terceiro cantarola feliz e, enquanto esculpe a pedra, responde com orgulho que está construindo uma catedral.

 Visão compartilhada

Dessa forma, a tradicional noção de capacitação técnica não seria o valor preponderante a atuar na condução do trabalho em uma empresa. O engenheiro aeroespacial Peter Senge, Ph.D. em administração organizacional pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA) e autor do best-seller “A Quinta Disciplina”, aponta o engajamento do profissional “em relação aos princípios, às diretrizes e ao futuro que a empresa pretende criar e alcançar”, como um fator decisivo na evolução sustentável e competitiva da organização. A essa disciplina apreendida pelo grupo funcional ele chama de “visão compartilhada”, que seria acrescida do raciocínio sistêmico (a quinta disciplina), indispensável na consecução dos objetivos traçados.

Em uma entrevista à revista norte-americana “HSM Management”, no final da década de 1990, Senge questiona alguns mitos corporativos como a excelência de programas de treinamento e a importância da tecnologia de informação. Para ele é preciso pensar no tipo de aprendizado que a tecnologia proporciona, já que uma pessoa pode até receber mais informações graças à tecnologia, mas se não possuir as capacidades necessárias para aproveitá-las, de nada adiantará, visto que a informação não cria aprendizado. ”Esse é um enorme mal-entendido que afeta muitas pessoas. A informação só pode nos ajudar a aprender alguma coisa que já entendemos.” Quanto aos programas de treinamento, Senge considera que poucos profissionais aprendem as coisas que são realmente importantes nesses programas. “O aprendizado ocorre no dia a dia, ao longo do tempo, e sempre acontece quando as pessoas estão às voltas com questões essenciais ou se vêm diante de desafios.“

 Responsabilidade social




Desde os anos 1970, o tema da responsabilidade social das empresas, em relação às comunidades onde estão inseridas, tem sido foco de debates e de uma extensa literatura. Nota-se que a filosofia desse conceito é abrangente, englobando problemas sociais, econômicos e ambientais como pobreza, desemprego, segurança no trabalho, poluição e desmatamento, além de aspectos legais e jurídicos referentes a desapropriações e remoção de moradores, para citar alguns. Porém, o entendimento mais comum do termo é aquele que traduz a responsabilidade empresarial como um comportamento socialmente responsável, do ponto de vista ético, praticado pelas organizações em suas atividades-fim.

Conhecidos teóricos da administração, como o filósofo e economista de origem austríaca Peter Drucker (1909-2005) e o americano Robert M. Grant, consultor e autor do livro “Análise da Estratégia Contemporânea”, traduzido em mais de 12 idiomas, destacam a necessidade de uma gestão de empresas voltada para a evolução da sociedade moderna, já que as empresas são importantes e influentes agentes sociais, e seus gestores são percebidos como lideranças pelas comunidades onde atuam.

Na obra “O Líder do Futuro” os autores Hesselbein, Goldsmith e Beckard enfocam o lado humanístico na condução empresarial. Para eles, o propósito de uma administração organizacional deve ser o de tornar eficazes os pontos fortes das pessoas e irrelevantes as suas fraquezas. O livro datado de 1996 advoga que as posturas serão mais úteis do que as habilidades e que as futuras lideranças vão flexibilizar as hierarquias, construindo um sistema de trabalho mais fluido: “O maior capital das empresas serão as pessoas que as compõem. Conseguir o comprometimento delas e colher o fruto de suas mentes criadoras deverá ser o grande desafio do século 21”.

 Carisma e oportunidades

Esse novo conceito de liderança se afasta do primitivo modelo de liderança carismática, onde não havia espaço para a argumentação ou contestação. Um tipo de comando criticado pelo próprio Drucker, o cultuado guru “inventor da gestão”, que aos 95 anos, em sua última entrevista à imprensa norte-americana (reproduzida pela revista “Exame” em fevereiro de 2006, sob o título “Liderança é Conversa Fiada”) questiona a fixação dos gestores executivos pela formação de líderes: “É um erro afirmar que as escolas de negócios formam líderes. Sua tarefa consiste em formar medíocres competentes para que realizem um trabalho competente Permita-me dizer com toda a sinceridade: não acredito em líderes. Toda essa conversa sobre líderes é uma bobagem muito perigosa. É tudo conversa fiada. Entristece-me constatar que, encerrado o século 20, com líderes como Hitler, Stálin e Mao, as pessoas ainda estejam em busca de quem as comande, apesar de todo esse mau exemplo. Acho que tivemos carisma demais nos últimos 100 anos."

Autor de dezenas de livros sobre práticas de administração de empresas, Drucker sempre acreditou que os bons resultados obtidos em uma gestão não advêm das soluções de problemas e sim de se saber explorar as novas oportunidades que se apresentam. Também alertava para a interpretação confusa dos gestores sobre os termos “eficácia – fazer a coisa certa – e eficiência – fazer certo as coisas”. Segundo o teórico “é difícil achar algo tão inútil quanto fazer com grande eficiência algo que simplesmente não deveria ser feito”. Mas mesmo assim, assinalava Druker, as ferramentas utilizadas - sobretudo conceitos contábeis e dados - estavam todas voltadas à eficiência. “O que precisamos é de um jeito de identificar áreas de eficácia (de possíveis resultados relevantes) e de um método para nos concentrarmos nelas”, recomendava.

 Aprender e desaprender

Em 1930, na obra “O Mal-Estar na Civilização”, o fundador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), já especificava as três grandes forças causadoras da infelicidade no ser humano: o próprio corpo “condenado à decadência e à dissolução”; o mundo exterior “repressivo” e “ameaçador”; e os relacionamentos com os outros, essa última correspondendo a frustração mais difícil de se lidar e adequadamente rotulada de “a fonte social do sofrimento”.  Reconhecendo-se a importância das relações pessoais no contexto das organizações, torna-se um desafio para qualquer gestor desenvolver um clima de harmonia, integração e satisfação em sua comunidade funcional, face à diversidade dos “modelos mentais” inerentes a cada indivíduo.

No livro “A Força dos Modelos Mentais” (2005) os consultores norte-americanos Yoram Wind e Colin Crook explicam que esses processos cerebrais e emocionais - frutos de influências familiares, escolares, culturais e religiosas que se somam às experiências e vivências na fase adulta - moldam todos os aspectos da vida de uma pessoa e muitas vezes, no âmbito profissional, eles não acompanham ou não correspondem à realidade do momento, dificultando e limitando a evolução de uma carreira que poderia ser promissora. Caberia, pois, aos profissionais se reestruturarem, desfazendo-se de antigos referenciais e adaptando-se aos novos conceitos de competência e padrões de comportamento sinalizados pela empresa. “Daí a importância de aprender, desaprender e reaprender para construir nossos conhecimentos sob novos paradigmas”, desafiam Wind e Crook.

 Satisfação e identidade

 Mas, para Freud a insatisfação humana é um fato imutável porque “nascemos com um programa inviável que é atender aos nossos instintos, mas o mundo não o permite”. Ou seja, o homem, faça o que fizer, estará condenado a conviver com a frustração na vida privada e profissional. Logo, gerenciar atividades e serviços da mais alta complexidade e tecnologia empresarial como grandes obras de engenharia também é administrar expectativas pessoais que não devem ser desconsideradas ou minimizadas pelos gestores.

Em uma pesquisa na cidade de Pittsburgh, na Pensilvânia (EUA), na década de 1950, quando a localidade ainda era um grande pólo siderúrgico e o maior produtor de aço do mundo, o professor e psicólogo Frederick Herzberg, falecido em 2000, realizou entrevistas com 200 engenheiros e contadores de onze indústrias da região para descobrir os fatores que geravam satisfação e insatisfação no ambiente de trabalho. Percebeu que elementos relacionados com o conteúdo do trabalho (motivação), tais como o desenvolvimento do potencial intelectual, a possibilidade de crescimento profissional e a autorrealização, eram fortes indutores para a criação de um clima de satisfação entre os funcionários. Por outro lado constatou que o contexto físico e as condições de trabalho e de remuneração, mesmo apresentando ótimos padrões, não aumentavam o grau de satisfação entre os empregados, apesar de funcionarem como barreiras de contenção contra a insatisfação.

Esse estudo, compilado no livro “A Motivação para o Trabalho” (1959), serviu de base para outras centenas de observações e análises sobre modelos e teorias de administração produzidas ao longo do tempo que têm ajudado a redefinir o conceito de trabalho empresarial nas organizações públicas e privadas. Hoje, as empresas já incorporam às suas atividades econômicas e tecnológicas valores como o capital intelectual, o talento e a inovação, ferramentas insuperáveis na produção de ações que objetivem resultados promissores nos ambientes internos e externos em que atuam.

 Identidade e ação



Com essa opção pela gestão social, que se traduz por um gerenciamento mais participativo e solidário, focado no diálogo, no desenvolvimento das pessoas e no interesse público das comunidades, as empresas vão se aproximando, pouco a pouco e de forma extraordinária, da filosofia política de Hannah Arendt (1906-1975) – uma das mais cultuadas pensadoras do século 20 –, algo impensável há alguns anos. Isso porque para Arendt, autora de “A Condição Humana” (1958), a suposição de que a identidade de uma pessoa transcenda, em grandeza e importância, tudo o que ela possa fazer ou produzir, seria um elemento indispensável da dignidade humana. Juntamente com a assombrosa capacidade de agir do ser humano, da qual, segundo a filósofa, “se pode esperar o inesperado e o infinitamente improvável, independentemente da produção de coisas, porque cada homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo singularmente novo”.

 



domingo, 5 de setembro de 2021

“Querido mundo...escolho amar você”

/  Sheila Sacks  /


Em 2015, às vésperas de Rosh Hashaná e Yom Kipur ( o ano novo judaico e o Dia do Perdão) , o rabino Harold Kushner , então com 80 anos, publicou o livro Nine Essential Things I’ve Learned About Life (Nove Coisas Essenciais que Aprendi sobre a Vida, em tradução livre do inglês). Dentre as “ coisas” que o líder religioso destaca,temos  “D’us não é um homem que vive no céu”; “perdoar é um favor que você faz a si mesmo”; “para se sentir melhor consigo mesmo, encontre alguém para ajudar “; “Religião é o que você faz, não o que você acredita”.

Autor do best-seller “Quando Coisas Ruins acontecem às pessoas Boas”, lançado em 1981,  com mais de 4 milhões de exemplares vendidos, Kushner publicou mais de uma dúzia de livros que trazem conforto e alento a milhões de leitores que enfrentam momentos difíceis em suas vidas.

Sua carta ao mundo -  “Querido mundo...escolho amar você”  - incluída ao final das nove coisas que aprendi sobre a vida, foi republicada pela revista canadense  Zommer  e nela o líder religioso nascido no Brooklyn explica que amar o mundo torna mais fácil ter esperança no amanhã.

O tesouro da fé



Então, face à sofrida inquietude humana em um mundo impositivo nas suas prioridades, talvez mereça acrescentar à expressiva lista de Kushner, nesse limiar de 5782 do calendário judaico (setembro de 2021 da Era Comum), mais um pequeno-grande item,  a fé como um tesouro inegociável. Isso porque cabe a fé nos manter de pé frente às circunstâncias ininteligíveis  que nos desafiam e assombram.

Preservar e cuidar desse tesouro ofertado por aqueles que vieram antes de nós e honrar a história e a tradição que o acompanham, já torna a vida mais bela, sábia e generosa.  Vá, por si mesmo,“Lech (vá)  Lechá (para dentro de você)”, disse D’us para Avraham (Abrãao), na idade de 75 anos (Bereshit), Gênesis 12:1-17:27.  E assim foi , de geração a geração, até os dias de hoje.

A carta de Kushner                                                                                                    

Querido mundo


Já passamos por muita coisa juntos nas últimas oito décadas, você e eu - casamentos, nascimentos, mortes, realizações e decepção, guerra e paz, tempos bons e tempos difíceis ... Houve dias em que você se tornou maior.  Houve dias em que você parecia tão dolorosamente belo que mal pude acreditar que você era meu, e dias em que você partiu meu coração e me levou às lágrimas.

Mas com tudo isso, escolho amar você. Eu te amo, quer você mereça ou não (e como se mede isso?). Amo você em parte porque você é o único mundo que tenho. Eu te amo porque gosto de quem sou melhor quando faço. Mas principalmente, eu te amo porque te amar torna mais fácil para mim ser grato por hoje e ter esperança no amanhã. O amor faz isso.

Fielmente seu,
Harold Kushner

Relembrando: Pessoas boas versus coisas ruins



Existem livros que transcendem o tempo. Talvez porque falem de temas universais presentes em nosso cotidiano. Foi o que fez o rabino norte-americano Harold Kushner ao escrever, na década de 1980, a obra “Quando Coisas Ruins acontecem às pessoas Boas”.

Traumatizado com a morte do filho de 14 anos que sofria de uma doença genética incurável, Kushner repassou para o papel toda a sua experiência de dor e sofrimento, e também a sua inabalável fé no Criador. Como rabino de uma pequena congregação, em Massachusetts (EUA), ele pôde observar que as pessoas atingidas por uma tragédia geralmente mostravam-se revoltadas e terrivelmente abaladas em sua crença religiosa.

Citando a figura bíblica de Jô, homem íntegro que vê os filhos morrerem, os negócios falirem e a doença atacar o seu corpo, Kushner dá o seguinte recado: mesmo nas adversidades, não ceda à tentação de abandonar a fé em Deus. Entretanto, essa tragédia pessoal faz o rabino repensar tudo o que ensinava sobre Deus e os caminhos de Deus.

A visão do tapete



No livro acompanhamos os inúmeros casos verídicos de adultos bons, decentes e fiéis em suas crenças, e de crianças alegres e inocentes, os quais, em um momento de suas vidas, são atingidos por um infortúnio ou mesmo pela tragédia.

Kushner observa que muitas dessas pessoas e as que estão ao seu redor têm a ideia de que possíveis tropeços e desmandos possam ser as causas de suas desgraças. Isso é, que Deus dá a cada um o que cada um merece. Uma culpa que geralmente se mistura à revolta e a inevitável questão: “Que razões poderia ter Deus para fazer o que fez, já que não sou pior do que o meu vizinho?”.

O rabino lembra que no livro “O Oitavo Dia” (1967), o escritor norte-americano Thornton Wilder (1897-1975) dá uma visão interessante dos desígnios de Deus. A história descreve um homem bom cuja vida é arruinada pela má sorte e hostilidade. Ele e sua família sofrem, embora sejam inocentes. E não existe final feliz. O que Wilder apresenta, destaca Kushner, se assemelha à imagem de um lindo tapete. Olhando do lado direito, é um trabalho de arte, muito bem tecido, reunindo fios de diferentes tamanhos e cores para formar um desenho inspirado. Mas, virando o tapete pelo avesso, percebe-se uma confusão de fios, uns curtos outros compridos, alguns cortados, outros amarrados.

Logo, seria dessa forma que veríamos o mundo, do nosso ponto de vista, ou seja, olhando o tapete de baixo, enxergando o seu avesso. E dessa maneira, os padrões de recompensa e punição poderiam parecer arbitrários e sem lógica porque não temos a capacidade de compreensão e o entendimento divino. Kushner assinala em seu livro que nem sempre há uma razão para os males que nos afligem: “Será que somos capazes de aceitar a ideia que há fatos que surgem sem qualquer razão, de que no universo existem circunstâncias fortuitas?”.

Muita gente não se conforma com o conceito de casualidade e procura nexo e sentido em tudo que lhes ocorrem. Outras enxergam a mão de Deus atrás de tudo o que acontece. Mas suponhamos, escreve o rabino, que Deus não tenha terminado toda a sua obra no sexto dia, de acordo com a metáfora bíblica da Criação, e o processo de colocar ordem no caos ainda esteja em andamento.

Pela vida



Sobreviventes do Holocausto também são bons exemplos quando se aborda os desígnios de Deus. No livro “Por Aqueles que eu amo”, Martin Gray, que sobreviveu ao Gueto de Varsóvia e ao Holocausto, conta que depois da guerra se casou e constituiu uma família feliz. Entretanto, um incêndio em sua casa no sul da França matou a esposa e seus filhos. Ainda que arrasado com a tragédia, Gray preferiu não ir atrás de possíveis culpados e aplicar os seus recursos em um movimento para proteger as florestas de incêndios. A vida, explicou o sobrevivente, tem que ser vivida por alguma coisa, não contra alguma coisa.

Kushner também cita o trecho de um livro escrito por um sobrevivente de Auschwitz ( A Fé e a Dúvida dos Sobreviventes do Holocausto, de Brenner) sobre a vontade de Deus e a matança de milhares de inocentes nos campos de concentração nazista. Afirma o sobrevivente: “Nunca me ocorreu questionar o que Deus fez ou deixou de fazer, enquanto eu fui um habitante de Auschwitz... Eu não fiquei menos ou mais religioso com o que os nazistas nos faziam... Nunca me ocorreu associar a calamidade que estávamos experimentando a Deus, censurá-Lo, deixar de crer, porque Ele não vinha em nosso socorro. Devemos a Deus nossas vidas, pelos poucos ou muitos anos que vivemos, e temos a obrigação de cultuá-Lo e fazer o que Ele nos ordena. Para isso estamos na terra – a serviço de Deus, para cumprir a Sua vontade.”

No mais, o rabino Harold Kushner, nascido em 1935, escreveu vários livros de sucesso (Quando Tudo não é o Bastante; Quando as Crianças perguntam sobre Deus) e foi considerado pela organização católica norte-americana “The Christophers” uma das 50 pessoas que na última metade do século 20 tornaram o mundo melhor.

Atualmente, com 86 anos, ele diz perceber que as pessoas olham para trás e julgam que deixaram de fazer muitas coisas. “A diferença entre uma pessoa que tem uma velhice feliz e uma pessoa que tem uma velhice infeliz não é o quão  bem-sucedidas elas foram, mas o quanto as coisas em que falharam continuam a perturbá-las.”  E dá um conselho: ”Se você não for capaz de silenciar aquela vozinha de decepção, você nunca será feliz."  

  

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Direitos Humanos: Israel vota contra a China no Conselho da ONU

  / Sheila Sacks  / 



Apesar do forte comércio bilateral entre os dois países, que em 2020 cresceu 20% e atingiu 17,5 bilhões de dólares, Israel seguiu os Estados Unidos em seu voto no Conselho de Direitos Humanos da ONU (UNHRC, na sigla em inglês), em junho último, que condenou a China por abusos contra muçulmanos que vivem na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste do país.

A região, anexada pela China em 1949,  abriga os uigures, de origem turcomana, maior grupo étnico local que professa o islamismo. De acordo com o Departamento de Estado dos EUA, acredita-se que até dois milhões de uigures e outras minorias muçulmanas foram colocados em uma ampla rede de centros de detenção em toda a região. Ex-prisioneiros relatam que foram sujeitos à doutrinação, tortura e até esterilização.

Recentemente, em 9 de julho, milhares de uigures exilados se reuniram em várias capitais para protestar contra a manutenção desses campos, as prisões arbitrárias, a repressão e perseguições violentas, a internação em massa e o desaparecimento de cidadãos civis.  Eles também lembraram o conflito ocorrido há doze anos, em Xinjiang, que resultou em centenas de mortos e feridos.

Em Londres, além de clamar por justiça e pela ajuda das nações ocidentais, a manifestação foi liderada por Rahima Mahmut, diretora do Congresso Mundial Uigur, e Sheldon Storne,  conselheiro da mesma organização que luta pelos direitos humanos e  pela liberdade religiosa em Xinjiang ( ou Turquestão Oriental para os uigures).

Storne é um médico judeu britânico de 65 anos que dirige a campanha STOPUYGHURGENOCIDE, em Londres. A mobilização também está ativa nos Estados Unidos e por ocasião da semana de Pessach ( a Páscoa judaica), em  30 de março, a organização Jewish World Watch (JWW) promoveu um Seder ( cerimônia religiosa) em prol do povo uigur. A JWW tem como foco denunciar e advogar contra o genocídio e atrocidades em massa nas áreas de conflito da China, Sudão, Congo, Síria e Birmânia.

Crime de genocídio



Relatório  independente divulgado em março pela ONG Newlines Institute for Strategy and Policy, sediada em Washington, também  faz graves acusações à China e afirma que “ o governo chinês tem a responsabilidade de estado por um genocídio em curso contra os uigures em violação à Convenção da ONU para a Prevenção e a Repressão do Crime do Genocídio “.  

De acordo com a plataforma digital da rede de notícias americana CNN (9/3/2021), o documento contou com a participação de uma equipe de 50 especialistas em direitos humanos que analisou milhares de depoimentos de testemunhas oculares de exilados uigures e documentos oficiais do governo chinês.

A assessora jurídica do Raoul Wallenberg Center for Human Rights, Yonah Diamond, que também contribuiu com o relatório, alerta para o real entendimento sobre o que é genocídio. Ela explica que não é preciso ter provas de assassinato em massa ou extermínio físico de um povo, sendo suficiente ter evidências claras e convincentes de que há uma intenção deliberada de destruir um grupo tal como ele é. A ONG, sediada em Montreal,  leva o nome do diplomata sueco que salvou do genocídio nazista cerca de 100 mil judeus na Hungria.

Instituída pela Assembleia Geral da ONU, em 9 de dezembro de 1948, a convenção destaca em seu artigo 2,  como crime de genocídio,  a intenção deliberada, por parte do Estado,  de eliminar grupos étnicos, religiosos, nacionais ou raciais. Por sua vez, a China nega as acusações de violação de direitos humanos e afirma “que os centros são necessários para prevenir o extremismo religioso e o terrorismo”. Intitulados por Pequim de “centros de treinamento vocacional”, esses campos são descritos pelo governo como locais de reeducação, visando a  desradicalização em massa e com ensino obrigatório de mandarim.

Desde 2014, mais de 1.400 centros foram instalados em Xinjiang, onde segundo relatos de ex-presos uigures os detidos são submetidos à tortura psicológica, lavagem cerebral e cultural, agressões sexuais, privação de comida por longos períodos e confinamento solitário.  Em documentos oficiais pesquisados, o relatório aponta que os uigures e outras minorias muçulmanas são chamados de “ervas daninhas” e “tumores”.

Essa política estatal se consolidou a partir de um ataque extremista praticado por separatistas uigures, em 2014. Naquela ocasião, o presidente chinês Xi Jinping visitou a região e, segundo documentos revelados pelo jornal New York Times, determinou às autoridades locais que combatessem o radicalismo “sem misericórdia”. A região faz fronteira com o Paquistão e o Afeganistão e autoridades chinesas alegam que os uigures têm ligações com a Al-Qaeda.  

A reportagem da CNN informa ainda que “no penúltimo dia na presidência dos Estados Unidos, em 19 de janeiro, o governo de Donald Trump declarou que o governo chinês estava cometendo genocídio em Xinjiang. Um mês depois, os parlamentos da Holanda e do Canadá aprovaram moções apontando o crime, apesar da oposição de seus líderes”.

Relatos brutais



Majoritariamente muçulmanos, os uigures chegam a 11 milhões em Xinjiang, região vizinha ao Cazaquistão, berço das etnias cazaques. A rede britânica de notícias BBC News ouviu o relato de mulheres uigures que foram presas e passaram meses detidas nos chamados campos de “reeducação”.

Já no início da reportagem, um aviso incomum aos leitores: Alerta: você pode considerar perturbadores alguns dos detalhes desta reportagem.”  Isso porque são narradas histórias brutais de estupros, choques elétricos, ingestão  acentuada de remédios, tortura, confissões forçadas e esterilização massiva.  As ex-detentas,  que atualmente residem em outros países, também revelam que tiveram seus cabelos cortados e eram obrigadas a cantar canções patrióticas e assistir programas  doutrinários da TV estatal (‘Uigures em campos de reeducação na China relatam estupros sistemáticos’, em 5/2/2021).

Uma das presas, Tursunay Ziawudun, ficou nove meses detida e depois de libertada fugiu para os Estados Unidos. Ela conta que devidos aos abusos sexuais muitas mulheres se tornam alcoólatras e têm problemas mentais. "Dizem que as pessoas são libertadas, mas na minha opinião todos os que deixam os campos estão acabados”, afirma. Devido à sucessão de estupros, Ziawudun teve que retirar o útero.

Outros tipos de violência contra os uigures também têm sido denunciados por estudiosos e ativistas na mídia ocidental. O sociólogo italiano Massimo Introvigne, autor de um livro sobre as perseguições religiosas na China (‘Il libro nero della persecuzione religiosa in Cina’), de 2019, denuncia que cópias do Alcorão têm sido confiscadas e queimadas pela polícia em Xinjiang. Para fugir da ação dos agentes policiais, livros de rezas são enterrados  ou mesmo colocados nos rios pela vítimas, embrulhados em plástico, na tentativa de evitar que sejam profanados 

Fundador do Centro de Estudos sobre Novas Religiões (CESNUR, na sigla em inglês), Introvigne lembra que em dezembro do ano passado (2020) entrou em vigor um novo regulamento que limita com rigor a peregrinação anual dos muçulmanos à Meca, com o estabelecimento de cotas e a avaliação investigativa dos proponentes à peregrinação. O documento editado pela “Administração Estatal de Assuntos Religiosos “ impõe um controle mais rígido às viagens. Peregrinações “não oficiais”, sem o aval do governo chinês, são consideradas atitudes criminosas e severamente punidas.

Investimentos em Israel



A plataforma de notícias japonesa Nikkei Asia, especializada em assuntos sobre o continente asiático, chama a atenção para o fato de que os EUA e a China serem os maiores parceiros comerciais de Israel e que ambos são vitais para a prosperidade do país.

Em uma análise publicada no início de julho, a mídia destaca que “os EUA são insubstituíveis para Israel em termos de ajuda militar, compartilhamento de inteligência e inovação.  Por outros lado, “as empresas chinesas estão envolvidas em vários projetos importantes de infraestrutura em Israel, e a China apresenta um mercado em crescimento e uma fonte de investimento para empresas israelenses de tecnologia.”

No início deste ano, o Grupo Portuário Internacional de Xangai (Shanghai International Port Group) começou a administrar o novo porto de Haifa por um período de 25 anos. A concessão a uma empresa chinesa de um dos principais portos do país tem preocupado as autoridades americanas, principalmente porque é no porto de Haifa onde está localizada a base naval militar mais importante de Israel e onde também são feitos exercícios e simulações navais em parceria com os Estados Unidos. Pelo acordo entre Israel e China, serão investidos 2 bilhões de dólares em infraestrutura e modernização do porto.

 À parte os negócios, o Nikkei Asia enfoca igualmente a posição da China durante o conflito armado entre Israel e o Hamas, em maio, destacando que Pequim mostrou  “um invulgar apoio ao grupo islâmico que controla Gaza, condenando duramente as ações de Israel, redigindo declarações ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e criticando repetidamente o apoio dos EUA a Israel”.

Para o analista do Instituto de Estratégia e Segurança de Jerusalém, (JISS, na sigla em inglês)  Tuvia Gering, neste caso especial, “a China não só levou o Conselho de Segurança da ONU  a realizar três reuniões contra Israel, mas deu rédea solta à mídia afiliada, diplomatas e membros do Partido Comunista para atacar Israel com comentários antissemitas e antissionistas”.

Em entrevista ao Jewish News Syndicate (JNS), site israelense de notícias, Gering não poupou críticas ao país. “A China tem falhado constantemente em ter empatia por Israel,  em reconhecer suas preocupações com a segurança e com o fato de que  Israel é um país ameaçado por organizações terroristas cínicas e assassinas, armadas pelo Irã.”

No final do ano passado, o embaixador israelense nos Estados Unidos e na ONU, Gilad Erdan, já tinha enviado um aviso à China sobre esse posicionamento agressivo e  solicitado ao seu homólogo chinês para que parasse de apoiar resoluções contra Israel, caso contrário haveria retaliações.

Acordo China-Irã

Em outra manobra estratégica para ampliar a sua influência no Oriente Médio, a China anunciou, em março último, um acordo bilateral de 25 anos com o Irã  envolvendo cerca de 400 bilhões de dólares de investimentos, não só em energia, transporte e agricultura, mas também em inteligência, assuntos militares e treinamento.

Especialista em relações China-Oriente Médio e  pesquisador do centro de assuntos políticos  e estratégicos Begin-Sadat Center for Strategic Studies, ligado à Universidade Bar-Ilan,  Roie Yellinek avalia que a política externa chinesa é bem "versátil" em suas abordagens nas áreas política e comercial. “A China sabe como travar uma luta com os EUA e conduzir em paralelo um comércio no valor de centenas de bilhões de dólares. Sabe como combater os uigures muçulmanos em seu território e salvaguardar laços estreitos com os países muçulmanos”, afirma.

Yellinek aponta que embora a China se oponha ao programa de armas iraniano, não está ajudando a impedir o Irã de desenvolvê-lo. Por sua vez, o Irã usa o poderio e a cooperação chinesa para neutralizar a pressão dos Estados Unidos. De acordo com o estudioso israelense, “os chineses entendem que o governo Biden não é o governo Trump e que podem ser mais agressivos”.

Já para o ex-chefe da Divisão estratégica do IDF (Israel Defense Forces), general Assaf Orion, o acordo de cooperação militar-tecnológico e de inteligência entre a China e o Irã está em oposição aos objetivos de Israel. “Pequim é um importante parceiro econômico de Israel, mas está cooperando com uma potência regional que é a principal e mais grave ameaça externa ao estado e à população israelense”, alerta o militar.