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quinta-feira, 5 de outubro de 2017
TV ainda domina mídia no Brasil, mas notícias digitais avançam
terça-feira, 22 de agosto de 2017
Perseguição à Fé Bahá'í no Irã

Publicado no "Correio do Brasil"
Em maio deste ano foi lançada uma campanha global para a libertação imediata de sete líderes da Fé Bahá’í, presos há noves anos no Irã, acusados de serem inimigos do Islã. O chamamento intitulado “Outro Ano, Não” pretende pressionar o governo de Teerã a libertar os cinco homens e duas mulheres condenados inicialmente a vinte anos de prisão. Com a redução da sentença, em 2015, para dez anos, por conta da aplicação de um novo código penal iraniano, o apelo é para que o grupo seja solto ainda este ano.
A comunidade internacional Bahá’í congrega mais de 5 milhões de adeptos em mais de 160 países, notadamente na Índia e no Irã. No Brasil, são mais de 65 mil pessoas de diferentes classes sociais, culturais e econômicas residentes em 1.300 municípios, do norte ao sul do país. Suas ações são direcionadas para os campos do diálogo inter-religioso e da promoção da igualdade racial, trabalhando em parceria com ONGs e instituições governamentais pela defesa dos direitos humanos, do desenvolvimento sustentável e da boa governança.
Lamentavelmente, a jornalista que tem
uma posição bastante crítica em relação ao estado de Israel e que esteve
recentemente no Irã para a revista de viagens “Volta ao Mundo”, não cita os
bahá’is na interessante reportagem de exaltação à beleza natural, arquitetônica
e histórica do país, apesar de detalhar um roteiro que inclui a localização dos
vários grupos étnicos e religiosos que habitam a região ( ‘Uma viagem ao Irã que nunca viu’, em 19 de junho de 2017).
Em 2011, em visita ao Brasil para
participar do encontro “Fronteiras do Pensamento”, em Porto Alegre, a ex-juíza
iraniana denunciou mais uma vez a situação de violação dos direitos humanos no
país. “No Irã, quem se opõe ao governo é preso. Muitos dos meus amigos estão na
prisão e há relatos de assassinatos de prisioneiros políticos.” Ebadi é autora
de vários livros, entre eles “Iran Awakening” (O despertar do Irã), publicado
em 2006, e “Until we are free” (Até que sejamos livres), de 2016.Nota: Em 19 de setembro, Mahvash Sabet foi libertada pelo governo iraniano, após viver nove anos encarcerada.
domingo, 6 de agosto de 2017
A face judaica-templária da Maçonaria

por Sheila Sacks
Publicado em "Maçonaria.Net"
Na obra “Antigas Letras”, o Grão-Mestre Leon Zeldis, 33º da Maçonaria de Israel ( The Grand Lodge of the State of Israel), chama a atenção para o fato de que os textos religiosos hebraicos onde aparecem os nomes divinos de D’us não são destruídos quando envelhecem, mas enterrados ou guardados em um lugar especial da sinagoga conhecido como guenizá. Diz a tradição judaica que qualquer fragmento de um texto sagrado que contiver o nome do Criador deve ser enterrado de acordo com determinados rituais. Entretanto, com o passar dos séculos e em função das perseguições sofridas pelos judeus, muitos documentos hebraicos foram apenas escondidos, daí o nome de guenizá (esconderijo), que corresponde em hebraico ao termo lignoze significa guardar, manter secreto.
Provavelmente, quando os primeiros templários chegaram à Terra Santa comandados por Hugues de Payen, em 1118, quase duas décadas após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados (1099), o objetivo real de sua presença não ficaria apenas circunscrito a dar proteção aos peregrinos que se deslocassem a Jerusalém. O grupo de nove nobres franceses oriundos da região de Provença que se estabeleceu na ala leste do palácio do rei Balduíno II, patriarca de Jerusalém, sob o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, passou quase dez anos promovendo escavações na área da Mesquista de Al-Aqsa, erguida sobre o local onde existiram dois grandes templos judaicos: o primeiro Templo, construído em 960 antes da Era Comum pelo rei Salomão e destruído por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.E.C., e o segundo Templo, reconstruído cinquenta anos depois no mesmo local e que resistiu até 70 da E.C. quando foi arrasado pelas legiões romanas.
No livro “A Chave de Hiram”, os autores maçons Christopher Knight e Robert Lomas destacam que os clérigos que acompanhavam os cavaleiros templários eram “todos capazes de ler e escrever em muitas línguas e eram famosos por suas habilidades em criar e decifrar códigos”. E transcrevem um comentário do historiador francês Gaetan Delaforge sobre os reais motivos dos templários: “A verdadeira tarefa dos nove cavaleiros era realizar uma pesquisa na área para recuperar certas relíquias e manuscritos que continham a essência das tradições secretas do Judaísmo e do Antigo Egito, algumas das quais provavelmente datavam do tempo de Moisés” (The Templar Tradition in the Age of Aquarius).
Uma Ordem acima de reis e rainhas
Legitimada pelo papa Honório II, em 31 de janeiro de 1128, a Ordem do Templo ganhou estatuto, regras e um comandante: o Grão-Mestre Hugh de Payens. Havia mais de 600 artigos no estatuto dos templários, segundo o historiador inglês Piers Paul Read, autor de “Os Templários”, sendo que a regra 325 relacionava-se com o uso de luvas de couro, que era consentido apenas aos capelães e aos pedreiros construtores de santuários e fortalezas. Mas, “em nenhum lugar havia qualquer menção a peregrinos ou a sua proteção, aparentemente ignorando a única razão para a criação dessa Ordem” (A Chave de Hiram). O papa seguinte, Inocêncio II, através da bula “Omne datum optimum” (1139), estabelece privilégios que tornam a instituição independente de toda interferência de autoridades políticas e religiosas. Segundo a encíclica, os templários só deviam obediência ao Papa.
Durante os próximos 200 anos a Ordem do Templo cresce e se expande em poder e riqueza, recebendo doações em dinheiro e propriedades na Europa. De acordo com os investigadores históricos ingleses, Michael Baigent e Richard Leigh, que pesquisaram a herança templária no surgimento da maçonaria, “em meados do século 12, a Ordem do Templo já tinha começado a se estabelecer como a mais poderosa e rica instituição isolada em toda a Cristandade, com exceção do Papado, com frotas de navios, territórios extensos e ligações secretas com líderes sarracenos” (O Templo e a Loja). Esses mesmos autores e mais Henry Lincoln ainda afirmam que coube aos templários criar e estabelecer a moderna instituição bancária. “Através de empréstimos de vastas somas a monarcas necessitados, tornaram-se os banqueiros de todos os tronos da Europa” (O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).
Com a perda de Jerusalém para os muçulmanos em 1291, a Ordem do Templo se transfere para Chipre. A ilha tinha sido conquistada pelo rei Jayme I (Coração de Leão), da Inglaterra, em 1191, e vendida, anos depois, para os templários. Em 1312, a Ordem é oficialmente extinta por um decreto papal emitido por Clemente V, sem que um veredicto conclusivo de culpa tenha sido pronunciado. Através da bula "Vox in excelso" o Papa extingue a Ordem do Templo “proibindo estritamente qualquer um de conjeturar em entrar para a referida Ordem no futuro, ou de receber ou usar seu hábito, ou de agir como um templário” (Os Templários). Em bula subsequente, a "Ad Providam", todos os bens e propriedade dos templários são transferidos para a Ordem dos Hospitalários, uma instituição similar a dos templários, que também funcionava na Terra Santa.
Na França, por ordem do rei Filipe IV, o Belo, os templários são perseguidos, presos e torturados. A Inquisição também se alastra por toda a Europa. As acusações concentram-se em supostas heresias e rituais praticados pelos membros da Ordem. O seu Grão-Mestre, Jacques de Molay, é condenado a morrer na fogueira, na Ile de la Cité, em 1314.
Estado templário preocupava a Igreja
Setecentos anos depois desses acontecimentos, dúvidas ainda persistem sobre a verdadeira natureza da Ordem e de seus cavaleiros. Seriam eles guardiões de um conhecimento secreto adquirido na Terra Santa em contato com outras culturas ou mesmo oriundo de documentos sobre as origens do Cristianismo descobertos nas escavações? Para Baigent e Leigh, o impacto de antigas formas de pensamento cristão, não Paulinas, podem ter influenciado as atividades da Ordem no seu projeto para a criação de um Estado Templário e na sua política de reconciliar o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. “Os templários não negociavam apenas dinheiro, mas pensamentos também. Através de seu contato com as culturas muçulmana e judaica começaram a atuar como introdutores de novas ideias, novas dimensões do conhecimento, novas ciências” (O Santo Graal...).
A pesquisadora da Biblioteca do Vaticano, Bárbara Frale, em artigo publicado no “L’Osservatore Romano” (21.08.2008), jornal oficial da Santa Sé, afirma que os documentos originais do processo contra os templários, encontrados no Arquivo Secreto do Vaticano, demonstram que foram infundadas as acusações de que os cavaleiros praticavam em segredo ritos pagãos e haviam abandonado a fé cristã. De acordo com a autora, os templários não eram hereges e o que se descobriu nas atas conservadas no Vaticano é que “a disciplina primitiva do Templo e o seu espírito autêntico se haviam corrompido com o passar do tempo, deixando a porta aberta para a difusão de maus costumes” (Revelações do Arquivo Secreto do Vaticano: templários não foram hereges,no portal 'Zenit').
Aí caberia a indagação: quais seriam os “maus costumes”, segundo a avaliação da pesquisadora, adquiridos pelos templários? No mesmo artigo, Frale reconhece que “ainda há verdadeiramente muito que investigar” e adianta que o estudo da espiritualidade desta antiga ordem religiosa dará à cultura contemporânea novos motivos de discussão.
Escócia: refúgio dos templários e berço dos maçons
Da extinção oficial da Ordem até a fundação da primeira grande Loja Maçônica em Londres (1717), os autores do “Santo Graal e a Linhagem Sagrada” registram que os templários ingleses e franceses encontraram refúgio na Escócia (país que ignorou a bula papal), e muitos deles também se integraram a outras Ordens e sociedades secretas na Alemanha, Espanha e Portugal. Conta-se que em 1689, na batalha de Killiecrankie, na Escócia, um dos aliados do rei Jayme II da Inglaterra, John Claverhouse, Visconde de Dundee, estava usando uma antiga vestimenta da Ordem do Templo, de antes de 1307, quando foi morto na luta. A referência ao fato foi publicada no jornal da primeira Loja de Pesquisas Maçônicas do Reino Unido (Quatuor Coronati), em 1920: “Lorde Dundee perdeu sua vida como líder do Partido Escocês Stuart. Segundo o testemunho do abade Calmet, ele teria sido Grão-Mestre da Ordem do Templo na Escócia” (O Santo Graal...).
Mas, muito tempo antes, nos meados do século 16, um manuscrito já comprovava a existência dos chamados franco-maçons e a sua subordinação à monarquia dos Stuart, principalmente ao soberano escocês Jaime I (1566-1625), que também foi rei da Inglaterra e da Irlanda. O historiador maçônico, Robert F. Gould, em “The History of Freemasonry”, transcreve o que era exigido dos franco-maçons à época: “... que sejais homens leais ao rei, sem nenhuma traição ou falsidade e que não tolerais qualquer traição ou falsidade, tratando de combatê-las ou notificá-las ao rei”. Segundo definição de um ilustre estudioso maçom José Maria Ragon (1781-1866), o termo franco-maçom somente se aplicaria àqueles que efetivamente cooperassem na obra de instrução e regeneração da humanidade. Os demais membros de obreiros construtores e integrantes da corporação de pedreiros seriam denominados simplesmente maçons.
Observa-se que a Grande Loja da Inglaterra, criada para centralizar a franco-maçonaria inglesa e que se constituiu no marco oficial da imagem pública da Maçonaria, foi instituída em 24 de junho de 1717, data emblemática para os templários e que lembra o nascimento de João, o Batista. A devoção a essa figura histórica é um dos elos que ligam os franco-maçons aos templários. Segundo o “Dicionário de Maçonaria”, de Joaquim Gervásio de Figueiredo 33.º, João Batista é o patrono da Maçonaria e todas as lojas maçônicas simbólicas são intituladas Lojas de São João.
A tradição judaica dos essênios
Preso e decapitado em 32 da Era Comum por ordem de Herodes Antipas, governador da Galiléia, Yochanan ben Ezequiel (nome hebraico de João Batista) provavelmente era membro da seita dos essênios, uma comunidade judaica que existiu durante os dois últimos séculos da era do Segundo Templo (150 antes da E.C. a 70 da E.C.). Historiadores judeus do século 1, Flavio Josefo e Philo de Alexandria, registraram a presença desse grupo ascético, que praticava um judaísmo ultra-ortodoxo, com jejuns frequentes e banhos rituais diários, e que habitava o deserto da Judéia, entre Jericó e Ein Guedi.
A partir de 1947, e até 1956, com a descoberta dos pergaminhos nas cavernas de Qumran (os manuscritos do Mar Morto), a tese de que os essênios eram seus autores ganhou força entre estudiosos e peritos de várias nacionalidades. Segundo Leon Zeldis 33º, os iniciados da comunidade de Qumran, cujas idades variavam entre 25 e 50 anos, aprendiam a “amar a justiça e ter aversão à maldade”. Consideravam-se herdeiros dos reis sacerdotes, simbolizados por Salomão (do hebraico Shlomo, que deriva da palavra Shalom-paz) e Melquizedek (do hebraico Malki-Tzadik, rei justo), rei de Salem (a atual Jerusalém), à época de Abraão. Alguns de seus membros, como João, o Batista, faziam votos de nazareos - do hebraico “nazir” que corresponde a “separado” ou “consagrado”. Os autores do livro “A Chave de Hiram” acreditam que “a voz que clama no deserto” poderia ser a de João Batista “que viveu uma vida dura no deserto, de retidão qumraniana, comendo apenas os alimentos permitidos, usando um cinturão de couro e uma túnica de pelo de camelo”.
Na obra “Os Manuscritos do Mar Morto”, o professor e doutor em teologia Geza Vermes destaca que os membros da seita se consideravam “o verdadeiro Israel”, fiéis representantes das autênticas tradições religiosas. Os sacerdotes, chamados de “filhos de Zadok” (o sacerdote da Casa de David), se constituíam na autoridade máxima da comunidade. A hierarquia era rigorosa. Cada membro era inscrito na “ordem de seu grau”. O mais alto cargo recaía na pessoa do Guardião, conhecido também como “Mestre” (maskil, em hebraico). Eram também instruídos a reconhecer “um filho da Luz” de um “filho das Trevas”. Na lista de infrações e de suas penas correspondentes, o pecado mais grave que demandaria em imediata expulsão da congregação seria qualquer tipo de transgressão, por ato ou omissão, às diretrizes da Lei de Moisés.
Em um dos manuscritos – o Preceito do Messianismo – é especificado que somente a partir dos 30 anos os homens eram tidos como maduros, podendo participar das assembleias, de casos em tribunais e tomar assento nos altos escalões da seita. O neófito vindo de fora que se arrependia de seu “caminho de corrupção”, iniciava-se “no juramento da Aliança” no dia em que conversava com o Guardião, mas nenhum estatuto da seita deveria ser divulgado a ele. Na avaliação do professor Geza Vermes, o retrato que assoma da leitura dos manuscritos em relação às ideias e aos ideais religiosos dos essênios é uma observância fanática à Lei de Moisés. No campo político, os essênios eram frontalmente contra a dinastia de Herodes e o domínio dos romanos sobre a Terra Santa.
Os livros secretos de Moisés
Dizimada pelos romanos em 66-70 da E.C., a comunidade de Qumram pode ter enterrado sua história, seus segredos e sua tradição secreta ligada a Moisés em algum lugar do templo de Jerusalém, seguindo a prática judaica de não destruir documentos sagrados (a cidade de Jerusalém fica a 40 minutos de carro de Qumram). Na obra “A Chave do Hiram”, os autores aventam a hipótese desses manuscritos terem sido descobertos pelos templários, no século 12, em função das sigilosas escavações realizadas no local por mais de uma década. No livro “A Odisseia dos Essênios”, o historiador britânico Hugh Schonfield faz referência aos livros secretos que Moises teria dado a Josué para que ele os mantivesse ocultos “até os dias de arrependimento”.
No livro do escritor francê Michel Lamy - "Os Templários. Esses senhores de Mantos Brancos"(1997) - é lembrado o interesse do abade Estevão Harding, amigo e mentor de Bernardo de Clairvaux (incentivador da criação da Ordem dos Templários e autor de suas regras), por textos hebraicos. O abade procurava a ajuda de rabinos nas suas traduções do hebraico dos livros do Velho Testamento. Para Lamy, esse intenso interesse por textos hebraicos demonstram a crença na existência de um tesouro oculto enterrado sob o monte do Templo e algum tipo de relação com o lugar que mais tarde se tornou a moradia dos templários. O historiador Piers Paul Read também destaca que uma das primeiras traduções encomendadas pelos templários na Terra Santa foi a do “Livro dos Juízes”, do Velho Testamento. “Havia uma íntima e inquestionável identificação dos cristãos da Palestina com os israelitas de antigamente” (Os Templários).
Erguido pelo rei Salomão para abrigar a “Arca da Aliança” – relicário das palavras divinas a Moisés no deserto - , o grande Templo de Jerusalém concentrava nesse local toda a sua santidade. Construído sobre o Monte Moriá, o aposento onde ficava a arca sagrada era o lugar mais recôndito do Templo, chamado de “o Sagrados dos Sagrados” (Kodesh há-Kodashim), recinto cuja santidade era tal que somente o grande sacerdote (Cohen Gadol, em hebraico) tinha permissão de lá entrar, uma única vez durante o ano, no Dia do Perdão - Yom Kipur (Revista Morashá).
A adoção pelos templários e maçons dessa simbologia estruturada nos mistérios e segredos que se iniciam com Abraão, tem seu ápice em Moisés, se perpetua com a construção do Primeiro Templo por Salomão e sofre transmutações generalizadas a partir dos primórdios da Era Comum (após a destruição da comunidade de Qumram), ainda permanece envolta em véus em sua nascente e tem se mostrado um desafio para a Igreja Católica. De igual forma, a imensa quantidade de publicações, teorias e suposições a respeito do tema ainda não produziu uma resposta diferente daquela que anima e justifica o trabalho da maioria dos pesquisadores: a da “busca pela verdade” .
Os guardiões da Aliança
Em “As Intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto”, o leitor acompanha a trajetória dos manuscritos, desde das primeiras descobertas no deserto da Judeia, em 1947, durante o mandato britânico na Palestina, até o início da década de 1990, quando o conteúdo de muitos documentos ainda não tinha sido divulgado. A batalha para o livre acesso e publicação de mais de 800 manuscritos por parte de inúmeros pesquisadores de renome mundial é relatada por Michael Baigent e Richard Leigh que culpam a chamada “equipe internacional” comandada pelo padre Roland de Vaux, da École Biblique de Jerusalém, de manter por longo tempo o monopólio sobre os manuscritos. A polêmica se estendeu até a imprensa através das páginas do influente jornal americano "New York Times" que em editorial publicado em 9 de julho de 1989 criticou a morosidade das pesquisas, observando que “passados 40 anos, um círculo de estudiosos indolentes continua esticando o trabalho, enquanto o mundo espera e as preciosas peças vão se desmanchando em pó”.
Hoje sabemos que os membros da comunidade de Qumram costumavam referir-se a si próprios como “os guardiões da Aliança”. Tal conceito se baseia essencialmente na grande importância da “Aliança”, que impunha um voto formal de obediência, total e eterna, à Lei de Moisés. Daí a expressão “Ossei ha-Torá”, encontrada em um dos pergaminhos, que pode ser traduzida por “Agentes da Lei”, expressão talvez que fosse a origem da palavra essênio (As intrigas em torno dos Manuscritos...). Mas, para o pesquisador Robert Eisenman, autor de vários livros sobre os Manuscritos, termos como essênios, zadoques, zanoreanos, zelotes, sicários, ebionitas (os pobres) apontam para um mesmo grupo ou movimento ortodoxo de rigoroso cumprimento da lei mosaica.
Em seu estudo “Paulo como herodiano”, apresentado na Sociedade de Literatura Bíblica (Society of Biblical Literature), em 1983, Eisenman credita a Paulo (Saulo de Tarso) o papel de agente secreto dos romanos, após ser ameaçado de morte pelos “zelosos da Lei”. A partir dos manuscritos e de referências encontradas no Novo Testamento, o pesquisador afirma que a entrada de Paulo em cena mudou o rumo da história. “O que começou como um movimento localizado dentro da estrutura do judaísmo existente, e cuja influência se restringia aos limites da Terra Santa, se transformou em algo de uma escala e magnitude que ninguém na época poderia ter previsto. O movimento que estava nas mãos da comunidade de Qumran foi efetivamente convertido em algo que não tinha mais lugar para seus criadores” (As Intrigas em torno dos Manuscritos...).
Para os autores ingleses de “A Chave de Hiram”, Saulo de Tarso não conhecia profundamente os ritos nazoreanos da comunidade de Qumram e a sua simbologia da “ressurreição em vida”, cerimônia adotada pela Maçonaria em seu ritual de 3º Grau. Em um dos manuscritos encontrados, denominado “Preceitos da Comunidade”, é explicado que ao entrar na comunidade o sectário era elevado a uma “altura eterna” e unido ao “Conselho Eterno” e à “Congregação dos Filhos do Céu” (Geza Vermes, em “Os Manuscritos do Mar Morto”).
Outro importante estudioso dos manuscritos, o historiador John Allegro, em seu livro “The Treasure of the Copper Scroll” que traz a tradução completa do Manuscrito de Cobre, explica que “Qumram” é uma palavra árabe moderna e que no século 1 da E.C. o local era conhecido como Qimrôn, raiz da palavra hebraica que significa abóbada, arco, portal. O pesquisador também observou a utilização de códigos no Manuscrito de Cobre quando são citados os 64 esconderijos com metais preciosos e manuscritos pertencentes à Comunidade. Detalhe igualmente notado pelo padre J.T.Milik, que fazia parte da equipe internacional que analisou os manuscritos em Jerusalém. O religioso constatou a presença de técnicas de codificação críptica em alguns documentos secretos que continham informações sobre eventos futuros.
Texto atualizado (escrito originalmente em 2011)
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Em uma manhã de 2029
Em pé, exalando a lavanda, Dona Edite aproxima
o rosto do espelho. “Até que estou arrumadinha”, avalia satisfeita com o que
vê. Levando em conta as estripulias do tempo, o resultado não era de todo ruim.
Afinal, aquele olhar azul celeste de galantes elogios permanecia irretocável.
Ou quase. Sorri complacente com a idade, as rugas e os cabelos estriados de
branco. Por alguns segundos aprecia os novos óculos de armação coral e num
galanteio maroto pisca o olho esquerdo, alegre com o dia que a espera.
Vai à cozinha e encontra Letícia, descalça e de
short desfiado, limpando a prateleira mais alta do armário. − Vou ao banco − avisa. A jovem, de pouco mais de 18
anos, move a cabeça sem retirar os minúsculos fones encaixados nos ouvidos.
Empoleirada na escada, repara que a patroa está de vestido florido, rosto
empoado, batom vermelho e bolsa branca a tiracolo. “Dia de pagamento, dia
feliz...” cantarola, com o som dos acordes sertanejos que zunem em seus
ouvidos. A velha senhora se apruma, encolhe a barriga, acena com a mão e sai
porta afora.
Alcançando a rua, ela anda por mais de dez
minutos até chegar ao seu destino. Transeuntes rumo ao trabalho misturam-se a
banhistas de sandálias, idosos de andar trôpego, donas de casa com sacolas de
supermercado, um punhado de gente diversa apinhada nas esquinas. Da praia sopra
um vento brejeiro que desarranja os cabelos de quem anda pela avenida principal
Já no interior do banco, dona Edite se alinha na
fila dos idosos e observa o atendente, um de seus preferidos. ‘Melhor assim’,
pensa. O jovem gorducho, como de hábito, trata-a com uma cordialidade que a
deixa encabulada. Ao final, despede-se com um inebriante “até a próxima, minha
linda de olhos azuis“, carinho verbal que tem o dom de afoguear seu rosto, revolver
os sentidos, confundir a mente. Tal qual uma adolescente, deixa-se levar pelo
encantamento, esbarrando na porta giratória sob o olhar impessoal do segurança.
2
De volta ao apartamento dona Edite liga para
o taxista. Em sua bolsa as notas dobradas já tinham sido contadas. −Vamos para o outro lado da cidade, seu
Antônio − informa
satisfeita, ajeitando-se no interior do táxi.
O veículo contorna a orla da Lagoa Rodrigo de Freitas e em uma das curvas a
velha senhora se surpreende com a visão de meia dúzia de garças perfiladas sobre
um estrado à beira do espelho d’água. Entre nuvens, o sol acanhado parece
navegar para outras paragens. O táxi atravessa as extensas galerias do túnel
Rebouças que desemboca no outro lado da cidade, onde nuvens mais escuras já sombreiam
o céu. “Dia de pagar promessa”, associa a velha senhora apalpando o inseparável
guarda-chuva no fundo da bolsa.
Pela segunda vez dona Edite repete o longo
trajeto de Copacabana ao bairro de Bonsucesso, na Zona Norte, para cumprir a
promessa assumida pelo pronto restabelecimento de uma prima muito querida. Iria
doar três salários mínimos para uma creche mantida por uma dessas organizações
sociais de ajuda ao próximo. O valor poderia parecer exorbitante para uma
professorinha pública aposentada, mas dona Edite tinha a vantagem de ser viúva
de um procurador da República.
Entorpecida pela viagem e pelos
pensamentos, ela fecha os olhos. “O tempo corre como o táxi de seu Antônio”,
matuta de forma vaga, perdida entre as fronteiras do consciente e do sono.
Sorri ao lembrar a garotada da creche. “No Natal vou comprar uns
brinquedinhos”, decide, enquanto o carro se embrenha pelo cenário desconhecido
do subúrbio.
Um tempo depois o táxi diminui a velocidade e
estaciona em uma esquina que parece desabitada. A rua silenciosa avança por
dezenas de metros até uma pequena praça, ao fundo, de terra batida. Casas
de aparência diversas, com fachadas mal cuidadas ou parcialmente reformadas se
seguem, uma após outra, sem guardar similaridade. Das calçadas irregulares irrompem
raízes de amendoeiras centenárias cujos galhos e ramagens avançam sobre os
paralelepípedos das ruas por onde os raros veículos transitam. Dona Edite olha
a paisagem melancólica que traz à tona remendos de uma infância aflita e
reprimida.
− A senhora trouxe o endereço, dona Edite? − pergunta o motorista olhando ao redor. − Estou na dúvida sobre a rua. Abrindo a
bolsa, dona Edite procura o papel onde anotou o endereço. Tinha esquecido em
cima da cômoda. − Não se
preocupe, seu Antônio, é aqui mesmo –
afirma. No céu, as nuvens se acumulam. − Não vou demorar. Tome um cafezinho por
minha conta e volte daqui a meia-hora. À
frente, o muro alto esconde a creche.
3
Encimado por pontudos cacos de vidros, o muro de
cimento é um desafio a possíveis intrusos. Dona Edite toca a campainha já
antevendo o abraço afetuoso da risonha auxiliar. Enquanto espera, alça a vista
para o horizonte recortado pela admirável estrada suspensa do teleférico que se
estende sobre o conjunto de favelas do Alemão, uma cidadela fortificada e
inexpugnável. Atravessando as várzeas e os pontos altos dos morros apinhados de
casas aboletadas umas sobre as outras, dezenas de pequenas gôndolas
envidraçadas deslizam pelos cabos de aço suspensos por gigantescos pilares em
um vai e vem contínuo entre as estações construídas sobre os platôs. Mais uma
vez dona Edite se surpreende com a visão daquela obra de engenharia realizada há
duas décadas.
Postada na calçada, pressiona mais uma vez
o artefato eletrônico instalado na frente do muro. A demora em abrirem o portão
sugere algum defeito no aparelho, imagina. O táxi há muito tinha sumido em uma
curva em direção à avenida. Finalmente o portão é aberto e um sujeito de boca
murcha, cabelos ralos e com as roupas sujas de massa e tinta assoma à soleira.
− A creche está em obra, madame − , apressa-se em explicar. E emenda: − Só volta a funcionar na semana que vem. Dona
Edite sente que a bexiga fraca dá sinais preocupantes. De supetão ela cruza o
portão sem dar tempo ao homem de impedi-la. − Preciso usar o toalete. É rapidinho e sei o caminho − vai dizendo enquanto aperta o passo.
Mas logo sente uma pressão violenta na nuca e se dá
conta de que o homem a arrasta para o interior da casa. É largada em
frente a uma enorme cratera escancarada no centro da sala. Homens de torsos nus
empilham sacos de entulho trazidos do fundo do buraco que se alonga em um túnel
por debaixo da casa. Outros cavam a terra dura e escura. Atônita, dona Edite
percebe alguns homens fardados. Um deles se aproxima, o rosto oculto por uma touca
de malha. Das fendas do gorro, dois olhos cinzentos e frios a avaliam. − Deje la bolsa acá − ordena. O portunhol range na voz
cavernosa do gigante. Ele usa coturnos emborrachados e colete à prova de balas.
Aponta o banheiro. –Adelante,
vá.
4
No estreito e comprido banheiro dona Edite se vê
sem os documentos, dinheiro, celular, relógio e sua inseparável sombrinha. A
bolsa revirada e confiscada. Tenta entender o que acontece. O susto a leva
imaginar que a polícia realiza uma operação sigilosa, talvez algo relacionado
com o aparato do disque-denúncia. Já alguns anos o instrumento para capturar
criminosos se transformou em algo temido pela população. Detenções aconteciam
no meio da noite, sem acusação formal.
Cerra os olhos e revê o enorme mapa das favelas
do Alemão, ampliado e riscado ocupando uma das paredes da sala. Apesar do
sobressalto notou grandes círculos pintados de vermelho ao redor dos pilares do
teleférico. Ensaboando nervosamente as mãos, o coração dispara. Detectaram
problemas de estrutura nos pilares, reflete, ou pior, se preparam para explodir
o teleférico, delira. A data grifada no mapa, 11 de setembro, a remete para o
atentado histórico contra as torres gêmeas de Nova York, no início do século.
Ameaças de atentados reforçavam a segurança nos Estados Unidos, lembrou a
reportagem na TV exibida há alguns dias. Confusa e dominada pelo terror, dona
Edite sente que os pensamentos se embaralham em sua cabeça.
Tomada pela ansiedade anda por minutos pelo
apertado espaço entre o chuveiro e a pia. Exausta, calcula que está encerrada
naquele cubículo há mais de uma hora. ”Seu Antônio deve estar longe”, admite.
“Afinal, quem em sã consciência faria a besteira que eu fiz? Que se urinasse
nas calcinhas, ora pitombas!”, culpa-se mortificada.
Em parte, dona Edite não está longe da
realidade. O taxista havia retornado cinco minutos após o horário combinado. Ao
não avistar a velha senhora na calçada, fica apreensivo. Toca a campainha
várias vezes. Estranha o silêncio na casa e a ausência da passageira. Insisti,
bate no portão, grita o nome de dona Edite. Irritado volta ao carro e liga para
o celular de sua cliente. A resposta vem em forma de gravação: “Fora de área,
ligue mais tarde”. Pelo retrovisor vê ao
longe, perto da pracinha, um homem encostado em uma moto. Desiste de esperar.
Guarda o celular, aciona o motor e se põe a caminho. Alguns metros mais
adiante, em sentido contrário, uma patrulha motorizada da polícia faz a ronda
em baixa velocidade. Seu Antônio fala com os seus dois ocupantes, aponta a casa
e parte em direção à avenida principal na esperança tardia de encontrar a passageira
sumida.
5
Confinada no banheiro e
completamente sem ação, dona Edite se deixa ficar abandonada sobre o tampo do
vaso sanitário. Sons confusos e amortecidos pelas paredes vão ganhando
contornos esquisitos em sua cabeça. Pessoas discutem, as vozes alteradas pela
agitação e a raiva. Escuta xingamentos, gritos, urros de dor e o que parece ser
uma movimentação de luta. Súbito, a porta é aberta com um estrondo de ferragens
partidas e um homem é empurrado violentamente banheiro adentro. Ele bate com a
cabeça no piso de ladrilhos.
− Não faça isso, por Deus, colombiano −, implora o homem com a voz engasgada. Em
resposta, rajadas de metralhadora desfolham o seu peito que se rompe como um
vulcão em erupção. Uma larva gosmenta tinge o morto de vermelho. − Ninguna palabra, mujer −, ordena o justiceiro mirando a mulher
petrificada. A touca suja de sangue é jogada ao chão e com a mão faz um sinal
inesperado para segui-lo. Dona Edite percebe que as pernas estão imobilizadas
pelo terror. O gigante de botas se afasta e a velha senhora ganha fôlego
e se joga sobressaltada em direção à porta tropeçando sobre os pedaços do
morto que estranhamente se contorcem em convulsões.
Desordenada, ela se depara com a
carnificina, o vestido florido empapado de sangue. Atravessa alucinada a sala
onde corpos se espalham pelo chão. Gritos e batidas vindos do buraco tampado
por pedras a confundem. Uma nuvem de calor e fumaça se eleva do chão e ela se
desespera. O homem corre para o fundo do quintal e com precisão e agilidade
afasta os móveis empilhados que escondem uma portinhola que se abre para o
terreno baldio de uma rua próxima. Fora da casa, dona Edite por um instante tem
a impressão de que a cabeça vai explodir. De repente ela ouve o ronco
estridente de uma motocicleta que vem em sua direção. Travada pelo medo, as
pernas não a obedecem. O colombiano acelera em seus calcanhares. –
Detrás − bufa o
desconhecido em fuga, respingando saliva e indicando a garupa da motocicleta. A
velha senhora é arrancada do solo por um braço pesado como um trator. Ela se
agarra à cintura do homenzarrão que a joga como um saco de roupa suja sobre o
assento maltratado. A máquina saracoteia e ganha velocidade.
−Fogo! − berra alguém no fundo da rua. Dona Edite escuta, atrás
de si, duas violentas explosões e o estrondo de uma casa vindo abaixo. Um
furacão de poeira move-se velozmente sobre a rua. O colombiano faz uma manobra
arriscada e, por alguns segundos, se detém a olhar os escombros da creche
abraçada pelas chamas e rolos de fumaça.
6
Já na avenida principal, ziguezagueando entre
os carros, o bandido se lança para o complexo do Alemão, em um itinerário de
incerteza e medo. Logo, dona Edite percebe que estão sendo seguidos. O
colombiano acena para o comparsa na moto a pouca distância e este faz um sinal
indicando que está tudo bem.
Alguns metros acima da entrada da favela,
em um estreito descampado, a velha senhora avista o incêndio lá embaixo e
a confusão que se formou. Pessoas deixando as suas casas, outras
acorrendo ao local, curiosos já amontoados em frente à creche destruída.
Uma viatura dos bombeiros atravessa a rua na contramão com a sirene ligada. Ao
lado dos escombros um carro da polícia está em chamas.
Equilibrando-se na garupa, dona Edite
sente uma fisgada no peito quando o bandido se desvia de uma carroça de bananas
e a moto ameaça derrapar. A boca está seca, a cabeça lateja e os braços e
pernas parecem entorpecidos. Olha para o alto e percebe que os bondinhos do
teleférico estão parados. Passageiros contrariados saltam nas estações.
− Tá pegando fogo lá na creche da rua das
margaridas − grita o
garoto para a mulher na janela que solta uma gargalhada estridente. Os
dois motoqueiros aceleram e se enveredam pelas ruelas estreitas e
íngremes, desviando-se de restos de comida, latas de cerveja, garrafas
e pneus. Cachorros soltos, porcos e gatos famintos perambulam por entre
roupas estendidas em varais improvisados em meio a criançada que corre pelas
vielas sem ter o que fazer. A poucos metros do topo da favela, uma saraivada de
tiros interrompe a corrida. As motos rodopiam, estatelam-se no barro e seus
ocupantes rolam pelo matagal.
Dona Edite tem a queda amortecida pela
copa de uma árvore e cai sobre os restos de um colchão imundo misturado ao lixo
acumulado. Tenta se levantar a procura de um lugar para se esconder. Um corpo
cai ao seu lado, vísceras à mostra. O sangue espirra em seu
rosto e ela fecha os olhos espavorida. A cabeça dói e um fiapo de líquido quente
escorre pela face e pescoço. Um homem ensanguentado grita de dor e fúria. Nas
lajes, a céu aberto, um pelotão de bandidos varre o espaço com as
metralhadoras.
Desesperada, ela se arrasta até um beco próximo.
Espreme-se em um vão entre alguns casebres e deixa o corpo exaurido cair
ao chão. Os pés inchados dentro dos tênis sujos de lama a enojam. O
chão barrento exala forte fedor de urina. Seus lábios balbuciam a
oração dos aflitos até o cansaço, o medo e a desesperança silenciá-los.
Adormece e quando novamente abre os olhos as luzes mortiças de algumas
lâmpadas pintam a escuridão. Levanta-se com dificuldade, sob o olhar
curioso de um menino que parece observá-la há algum tempo. – Como eu chego à estação do teleférico?, − pergunta dona Edite. O vestido
florido virou um trapo amarfanhado e ela tem consciência de sua figura
patética. O garoto de pouco mais de seis anos chupa os dedos e leva
alguns segundos até apontar a localização da estação, um pouco abaixo de onde
estavam.
No interior da gôndola a velha senhora é a
única passageira. São quase 10 horas da noite e o bondinho completa seu último
trajeto até a avenida. A gigantesca favela parece envolta em um falso silêncio
de espreita, a ressonar como um paquiderme em vigília. A viagem se estende por
intermináveis quinze minutos até a linha férrea. Desorientada, ela avista um
táxi e solta um berro esganiçado. Joga-se no assento do carro e antes mesmo de
dizer para aonde vai, põe-se a soluçar. O taxista nota as condições deploráveis
da mulher e aguarda alguns segundos. Pergunta o que aconteceu. Dona Edite
respira fundo e finalmente consegue articular as palavras. − Me leva para a casa, pelo amor de Deus !
Em seguida, ainda aterrorizada pelos acontecimentos se afunda no estofado e
leva a mão trêmula ao coração.−
Copacabana, por favor!
7
Em seu apartamento, dona Edite fecha as malas. A
temporada em Fortaleza provavelmente será longa. A afilhada, residindo em uma
base militar, longe dos parentes e às voltas com dois filhos pequenos, tinha
ficado exultante com a novidade. Abatida, a velha senhora lembra mais uma vez a
manhã seguinte à explosão da creche. Os jornais falavam de incêndio acidental
na reforma do imóvel e apontavam a presença de botijões de gás, solventes e
garrafas de álcool como agravantes. Seis corpos carbonizados tinham sido
encontrados, sendo quatro deles dos operários da obra e de dois policiais em
ronda pelo local que foram colhidos pelas explosões.
Porém, não foram os enganos da notícia que a
surpreenderam, nem tampouco o mau-humor e as perguntas de seu Antônio ao
telefone. No dia seguinte, um pouco antes das onze da manhã, o interfone do
prédio tocou e um motoboy apareceu com os documentos roubados. Ansiosa e
perplexa, ela recebeu de volta a bolsa e os pertences intatos. O homem
estava abraçado a um arranjo de rosas vermelhas, envolto em papel
celofane e arrematado por um laço dourado. − A pessoa que achou seus documentos também envia
as rosas − diz marcando as palavras.
A velha senhora se sobressalta ao lembrar
o meio sorriso ameaçador do homem com o rosto encoberto pelo capacete. Corajosa,
dona Edite sempre enfrentou as adversidades evitando se julgar vítima. O mundo
não respeita os fracos, era o que dizia a si mesmo diante dos baques da vida.
Dias depois, sentada em uma delegacia, dona Edite se apresenta como testemunha
do incêndio da creche. O atendente anota seus dados e pede para retornar na
semana seguinte.
Ansiosa, dona Edite passa os dias
ensaiando o que vai falar. Na opressiva sala do delegado, um policial oferece
um cafezinho. Dona Edita recusa assustada ao reconhecer a figura do colombiano.
Logo em seguida, um sorridente delegado entra na sala e a cumprimenta
afetuosamente.− Dona
Edite Rosa do Prado Fonseca Guedes, boa tarde! Espero que esteja bem acomodada.
O homem alto, vestindo um terno escuro elegante, senta na confortável cadeira
de couro. − Mas,
afinal, o que a senhora tem para me contar, dona Edite? − indaga em tom didático. - Sou todo
ouvidos! Seu olhar cruza com o do colombiano que permanece de pé, ao lado do
armário. − Quero igualmente
saudá-la como a ilustre viúva do eminente procurador dr. Paulo José de Almeida
Guedes, aliás, morto covardemente exercendo suas funções de caçador de bandidos
de colarinho branco. Na época eu era estudante de Direito − explica o delegado de uma forma
aparentemente respeitosa. Dona Edite balbucia um “obrigada” antes de irromper
em um choro abafado. −
Desculpe senhor delegado. Peço, por favor, para me liberar de qualquer
depoimento − implora,
procurando a melhor maneira de se esquivar da armadilha que pressentia estarem
armando contra ela. −Pois
é, dona Edite, a creche estava em obras há mais de três meses − argumenta o delegado. − O que exatamente a senhora fazia no
local?
Dona Edite pede um pouco de água para
tomar o remédio de pressão. O colombiano de imediato a atende com solicitude. − Não tenho passado bem, senhor delegado. E
minha cabeça às vezes falha −
justifica. − Quero
retirar qualquer testemunho e voltar para casa. Estou com 77 anos − suplica.
Os dois homens a olham com uma espécie de piedade cínica. O delegado
rasga uns papéis em cima da mesa e fica de pé. − É a decisão mais inteligente, sem dúvida. Abraça
carinhosamente a velha senhora. E com um perverso galanteio aliciador, encerra
a conversa. − Com esses
olhinhos azuis a senhora ainda deve ser muito elogiada, acertei? Já fora da delegacia, dona Edite faz o sinal
da cruz e respira fundo. Suas pernas ainda tremem e o suor escorre do rosto.
8
Com a sinopse na mão, Rogério Reis, o veterano repórter das
crônicas policiais, ouve as alterações sugeridas pela produção milionária do
seriado “Missão Rio”, a ser exibido nas plataformas mundiais de TV. A começar
pelo título: ao invés do atual “Dia de Pagamento”, algo mais impactante como
“Terror no Alemão”. A cidade, nomeada como um dos destinos turísticos que mais
despertam curiosidade nos viajantes, estava com uma agenda de grandes eventos e
era preciso aproveitar o bom momento. A data emblemática de 11 de setembro e
sua relação com o histórico ataque às torres gêmeas em Nova York, também
envolveria uma mudança de foco. Trocavam-se as milícias e os comandos de drogas
por organizações transnacionais envolvidas com tráfico de armas, minérios,
sequestros, extorsões e roubo de fórmulas vacinais, químicas e nucleares.
Também seria agregada ao roteiro uma rocambolesca perseguição policial pelas
ruelas do Alemão, com helicópteros em voos rasantes sobre o teleférico.
Enquanto anota as modificações, Rogério Reis a princípio
pensa em reagir e defender o texto original. Mas esse impulso dura apenas
alguns instantes. Para todos os efeitos, o seriado seria uma coprodução
internacional, passível de alterações visando uma melhor comercialização no
mercado exterior. A globalização e a contemporaneidade iriam prevalecer sobre o
regional, tinham alertado os produtores, visto que a série já tinha sido
negociada para mais de 90 países em quatro continentes.
Os demais roteiristas da equipe, já
familiarizados com as sutilezas e artimanhas de textualizar histórias de olho
na audiência, tiveram suas sinopses pouco modificadas. Cada uma delas a enfocar
as muitas maravilhas da cidade - do Pão de Açúcar, Corcovado, Floresta da
Tijuca, Arcos da Lapa e Ponte Rio-Niterói, ao estádio do Maracanã e Complexo do
Alemão – com muitas cenas de ação, mistério, crime, perigo, violência e paixão.
Finda a reunião, por instantes Rogério se sente um tanto
deslocado com o ambiente de camaradagem e a própria visão do mundo daquela
rapaziada talentosa e criativa que acolhiam, de uma maneira admiravelmente
informal e despojada, um sujeito retrô, pinçado nos estertores do
século 20. Aos 65 anos, o jornalista chegava a sombria conclusão de que a
redação de um jornal não mais correspondia ao sonho que o motivou por tanto
tempo a se lançar em busca da verdade do fato. A geração de profissionais
destemidos, e de certa forma idealistas em seus propósitos, estava acabada e
enterrada. O mundo havia mudado, a
começar pelo clima do lado de fora da emissora gelada. Naquele bizarro fim de
inverno, os dias se mostravam perversamente abafados, estranhamente secos e
anormalmente inquietantes, varridos por ventos que uivavam ao entardecer.
9
À noite, da janela de seu quarto de
celibatário, Rogério Reis admira a paisagem que se descortina majestosa. Aquele
pequeno apartamento, no alto do histórico bairro de Santa Teresa, o tornava um
homem feliz e era um dos poucos bens adquiridos em quase 40 anos de profissão.
Estava animado como um adolescente com a perspectiva de trabalhar no texto e se
integrar à irmandade dos jovens ficcionistas, seus irmãos de alma e imaginação.
Com cuidado abre a caixinha de madeira que mantém escondida
no fundo de uma das gavetas do guarda-roupa e retira o dispositivo
metalizado. Insere no antiquado laptop e mais uma vez fica
estarrecido diante da quantidade de informações sobre o esquema e o
poderio dos senhores do crime envolvidos no fracassado atentado de 2029. Lá
estavam citados nominalmente chefões de grupos paramilitares, contraventores,
narcotraficantes, policiais, empresários, políticos e conhecidas autoridades. A
estratégia do ataque ao teleférico, detalhada nas várias etapas, diligentemente
elaborada como uma operação de guerra. Uma reposta à presença nas favelas da
recém- criada Força Urbana Nacional de Combate ao Crime.
Nos dois últimos anos o jornalista tinha mantido segredo
sobre o registro da operação terrorista que não se concretizou por um desses
imbróglios do destino. O pen drive com detalhes do ataque lhe foi entregue às
escondidas no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, semanas depois de
um mal explicado incêndio em uma creche em obras perto do complexo do Alemão.
Na ocasião, quatro dos mais importantes chefes das milícias e das facções
criminosas mais temidas da cidade, já há algum tempo unificadas sob um comando
central, foram assassinados em suas celas, dias antes da remoção para uma
prisão federal em Rondônia.
Como cenas de flashback, o jornalista rememora o
dia em que foi enviado pelo jornal para cobrir os assassinatos e a
sangrenta rebelião que se seguiu. Sorrateiramente, um dos guardas havia lhe
entregue o pen drive, logo após a entrevista coletiva do diretor do presídio.
Na ocasião, descobriu que os mortos faziam parte do esquema do atentado ao
teleférico e que um túnel subterrâneo tinha sido escavado a partir da creche
até os pontos onde seriam colocados os explosivos. Entretanto, a inesperada
presença de uma patrulha no local forçou a mudança de planos. A operação foi
interrompida, os operários eliminados e a construção incendiada.
Se esses fatos tivessem chegado ao seu conhecimento em
outros tempos, quando as editorias dos jornais eram menos dependentes dos
conglomerados econômicos e não tão acorrentadas a interesses e compromissos
inconfessáveis, Rogério Reis iria adiante, buscando mais informações. Assim
havia conquistado expressivos prêmios de reportagens. Contudo, o medo e a
sensação de impotência o sitiavam em um penoso cárcere interior. Sentia que o
mundo tinha se fragmentado em fortificados cartéis manobrados por imperadores
inatingíveis e insubmissos às leis vigentes. Todos conectados e interligados em
organizações, grupos e facções. Mandarins de um submundo tentacular em que transitavam
com naturalidade pelo legal e pelo ilícito, a salvos da pressão das mídias e
redes sociais, agora monitoradas e cerceadas por um severo código de regras e
multas imposto pelo Judiciário. Não havia mais os dois lados da moeda,
dizia para si mesmo, porque a percepção do mal se tornou obsoleta.
Fechando o armário,
o jornalista empurra o minúsculo drive atolado de segredos para debaixo das
camisas e meias. Seguiria com as suas aflições, que se por um lado o castigavam,
por outro o impediam de desistir de si próprio. Todavia, entregava os pontos
como profissional da notícia. No contexto social e político de 2029 revelar a
verdade seria como assinar a própria sentença de morte, no sentido mais
implacável do termo.
Animado com o novo trabalho, Rogério Reis entra pela
madrugada reescrevendo a sinopse. Só percebe que o quarto ganha novos contornos
com a réstia de luz que recorta o aposento. Vai até a geladeira e sorve alguns
goles de mate pelo gargalo da garrafa. Por instantes se vê perdido entre o
cansaço e a sonolência. Tinha adormecido
em frente à tela do laptop e precisava acordar para concluir o enredo. Mas o
espelho da sala reflete a imagem real de um homem insone, com os cabelos
desgrenhados e barba por fazer.
Sob a ducha gelada o jornalista bufa e solta
impropérios, os músculos retesados pela friagem. Veste as surradas calças de
brim, a camiseta branca de algodão, procura as sandálias de velcro embaixo da
cama e aos poucos recupera a sanidade. Com os cabelos ainda molhados e a
sinopse pronta na mochila, sai do apartamento e vai ao encontro dos produtores.
Fechados os ajustes das principais cenas, o argumento
é finalmente aprovado. Ainda com os nervos tensionados pelos debates, o
jornalista agora tem certeza que seu episódio no seriado “Missão Rio” não fará
feio perante os colegas. E mais uma vez lembra a conversa um tanto louca que
teve no bar perto da redação, tempos depois do atentado. O homem parecia meio
bêbado e jurava que levou uma passageira para a fatídica casa que explodiu. Ao
ver o crachá do jornalista, ele fica ainda mias falante e conta uma fantasiosa
história de ameaças, medo, fuga e de um estranho buquê de rosas. − Dona Edite era minha cliente há anos − insistia o homem que se dizia taxista aposentado. − Até hoje, nem a empregada sabe do seu paradeiro − baixa a voz em tom de segredo.
Em casa, ele se dá duas semanas para costurar o enredo e
desenvolver os diálogos. Mestre do jornalismo investigativo, Rogério Reis está
determinado a afastar as brumas da apatia e da indiferença que obscureceram
seus últimos anos como repórter e professor de jornalismo. Lamentava, nos
longos domingos solitários, sua crescente incapacidade de incutir entusiasmo
naqueles jovens universitários que sonhavam com uma profissão em que a busca da
verdade era a força motriz da atividade.
Desfazendo-se das roupas, completamente nu,
senta-se à frente do laptop. Por alguns segundos mantém a cabeça baixa, imóvel.
Impulsivamente retira os óculos. Precisa de uma grande dose de inspiração e
paixão para recriar a realidade de uma forma que não seja superficial e vã. Na
adaptação acordada com a produção, a inusitada heroína setentona terá de
enfrentar novos vilões. Pensa no homem do bar e na sua história de folhetim. Sorri
interiormente ao imaginar dona Nenê, sua amada mãe, travestida de dona Edite. A
homenagem tardia a única pessoa que o amou sem reservas e cobranças. Ele, o
caçula rebelde de dona Nenê, agora viva e presente na pele de dona Edite.
Impaciente, dá um murro na mesa, como quisesse se apartar
do sentimento de perda que sempre o acomete quando seus pensamentos se remetem
à mãe, aquela figura pequena e de pouca fala que o acompanhou por mais de
quatro décadas. Recoloca os óculos, respira fundo e se lança ao texto. Sente-se
estranhamento leve, talvez porque liberto das pesadas amarras morais que a
verdade impõe. Mas, nem por isso frívolo o bastante para não reconhecer que
apesar da verdade cobrar um preço demasiado caro, como cobrou no imponderável
ano de 2029, o tempo, a história e a experiência têm ensinado, de maneira
incontestável, que segredos não são eternos.
10
De costas para a câmara, o personagem de
Rogério Reis se lança ao trabalho. Lentamente a zoom se afasta do homem e
se desloca para a janela aberta, avançando em um sobrevoo fantástico pelas
paisagens turísticas do Rio. Os acordes atrevidos de uma
melodia funk invadem a tela enquanto as imagens lentamente submergem em uma
nuvem azulada.
Com demorados aplausos e assovios, a plateia de universitários manifesta sua admiração
pelo renomado escritor acomodado na cadeira de rodas. Aos 87 anos, José Tales sofre
com a doença crônica que fragiliza seus pulmões. A polêmica obra “Em uma manhã
de 2029” teve uma aceitação inédita, com várias edições e uma adaptação para o
cinema. Ainda assim, foi com uma certa dose de esforço que o escritor atendeu o
convite do reitor para conversar com os estudantes. A idade o havia
transformado em um recluso impaciente com as pessoas.
Com a grata sensação de alívio escuta as últimas perguntas
do encontro. − Você é o personagem Rogério Reis? − provoca a jovem de cabelos ondulados sentada no fundo do
anfiteatro. − E qual o motivo em ambientar a história em um tempo
futuro? − pergunta em seguida a colega ao lado. O escritor faz
uma pausa, antes de responder. − Fui por um bom tempo jornalista, trabalhando em
reportagens sobre boa alimentação e bem estar. Rogério Reis, por sua vez, é um
repórter investigativo da área policial − explica. − Um personagem dos muitos que criei. E confesso que sua
empatia com os leitores não me surpreende, apesar de sua figura de anti-herói.
Um burburinho agita a plateia. Um rapaz franzino, de óculos
de aros finos, solta a voz. − E como explica a razão dessa
empatia? Afinal, vivemos os tempos dos super-heróis! O autor faz um gesto com a
mão para o jovem aguardar. − Ainda respondendo à pergunta
anterior sobre o tempo futuro, não acredito que faria alguma diferença Rogério
Reis viver em 2018, quando escrevi a história, ou em 2029 − , afirma, levando o copo com água aos lábios. “Talvez porque
provavelmente gostaria de estar vivo nessa data”, avalia em pensamento. E sem
esconder o cansaço, o escritor observa o auditório lotado e a diversidade de
pessoas, rostos e olhares concentrados em sua figura. − Não quero parecer ingrato com um personagem que me deu
tanto prazer em criar – enfatiza, para o alento dos fãs
que vieram prestigiá-lo. E levando as mãos ao coração, reforça. − Assim como vocês, eu amo Rogério Reis, porque literatura é
isso: as pessoas se vão e os personagens ficam − finaliza.
Em casa, olhando o mar através da varanda envidraçada, José Teles está tranquilo. A ansiedade que o atormentou durante a maior parte da vida arrefeceu e aos poucos se extinguiu sem saudades. A diligente enfermeira que o acompanha desde o agravamento da doença traz os remédios. − Obrigado dona Edite. O que seria de mim sem a senhora? A mulher sorri e condescendente retruca. − Já disse ao senhor que meu nome não é esse. O escritor parece absorto em algum pensamento. − Vá lá, dessa vez passa − diz, procurando iniciar uma conversa. Mas, José Teles já está longe abraçado ao passado, dessa vez à singular visão da professora do bê-a-bá da infância. Dona Edite, com seus vestidos floridos, bolsa a tiracolo e a inseparável sombrinha para os dias de chuva e de sol.
Pintura do artista novaiorquino Marcus Jansen





