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sábado, 12 de março de 2016

Um repórter no gueto de Varsóvia

/ Sheila Sacks /

“Não há melhores testemunhas da História do que o jornalista” (José Rodrigues dos Santos, jornalista e escritor português, autor de Crônicas de Guerra: da Crimeia a Dachau)


Quando o jornalista e escritor italiano Curzio Malaparte deu a partida para pôr no papel as suas crônicas pessoais sobre a guerra no velho continente, a Alemanha nazista lançava-se com um apetite voraz à ofensiva sanguinária sobre o território soviético, o mais cobiçado e suculento filé do front oriental. Naquele terrível verão europeu, em junho de 1941, Kurt Erich Suckert – nome de batismo de Malaparte – era correspondente na Ucrânia do jornal italiano Corriere della Sera, e ostentava o salvo-conduto da temida cruz gamada que o autorizava a transitar entre as barbaridades levadas a efeito pelas tropas germânicas em sua perversa escalada de conquista e extermínio.

Envergando a farda de oficial italiano, Malaparte cobriu os combates das forças do Eixo (formadas pela Alemanha, Japão e Itália) nas frentes da Rússia, Polônia e Finlândia, misturando-se a soldados, prisioneiros e guerrilheiros em cidades e aldeias arrasadas pelos canhões e bombardeios. Transitou pelas ruas do gueto de Varsóvia, apinhadas de gente faminta e amedrontada e presenciou o massacre na cidade de Iasi (Jassy), na Romênia, onde em dois dias foram mortos mais de 8 mil judeus.

As anotações secretas sobre o pesadelo nazista que o autor ocultou, por várias vezes e em diferentes locais - no forro de seu casaco, na fenda de um rochedo perto de sua casa na Ilha de Capri, com amigos diplomatas, e até em um chiqueiro de uma aldeia ucraniana - transformaram-se na obra intitulada Kaputt (quebrado, em alemão), o seu livro mais festejado, publicado em 1944 e traduzido em mais de dez idiomas. Nas suas 500 páginas ficou retratado, de forma admirável e espantosa, o poder de alcance da maldade, da impiedade e da infâmia, a abominável trindade que contaminou a Europa como um vírus devastador, metamorfoseando a condição humana em um festival de horrores e de degradação que nenhuma fantasia futurista imaginaria criar.

Longe de ser tragado pelo ralo do tempo, o livro tem inspirado intelectuais e artistas pelo impacto de suas imagens e diálogos impensáveis. Em 2008, um episódio de Kaputt que narra a busca do autor pelo médico judeu Josef Gruber serviu de tema para o filme Gruber’s Journey, do cineasta romeno Radu Gabrea. Em 2013, o pintor e escultor italiano Maurizio Cattelan montou uma instalação que deu o nome de Kaputt, a partir de sua visão do capítulo “Os cavalos de gelo”. A mostra foi apresentada na Fondation Beyeler, na Suiça. Mais recente, em 2014, o ilustrador e quadrinista gaúcho, Eloar Guazzelli Filho, mestre em Comunicação pela USP, adaptou a obra para a arte sequencial da HQ (história em quadrinhos), conservando o seu título original.

Cidade proibida

Italiano da Toscana, Malaparte (1898-1957) lutou na 1ª Grande Guerra (chegou ao posto de capitão e recebeu condecorações de bravura) e na década de 1920 filiou-se ao Partido Nacional Fascista, de Benetido Mussolini. Foi diplomata e fundou o jornal La Conquista dello Stato. Em 1931, com a publicação de seu livro Tecnica del colpo di Stato, que ataca Adolf Hitler e o próprio Mussolini, é expulso do partido e condenado ao exílio na ilha de Lipari, de 1933 a 1938. Com a eclosão da 2ª Grande Guerra, ele se engaja no conflito como correspondente do Corriere della Sera e devido as suas reportagens é afastado da frente ucraniana pela Gestapo (polícia secreta nazista), sofrendo sucessivas prisões na Itália. Mas, a amizade que mantém com diplomatas, a aristocracia europeia e principalmente com o Conde Ciano, genro de Mussolini, o favorece em várias situações.

Malaparte esteve no gueto de Varsóvia em janeiro de 1942, depois de conhecer os guetos de Cracóvia, Lublin e Czenstochowa. Na época, o gueto abrigava em torno de 380 mil pessoas amontoadas em um espaço de pouco mais de 3 quilômetros quadrados, equivalentes a 2,4% da área da cidade (seis meses depois iniciou-se a deportação da maior parte da população – mais de 300 mil -  para o campo de extermínio de Treblinka).

Ele conta que a “cidade proibida” (assim chamada pelos nazistas) era circundada por um muro alto de tijolos vermelhos, “construído pelos alemães para fechar o gueto como uma gaiola”. Na porta, vigiada por uma escolta de soldados armados da SS (Schutzstaffel - organização paramilitar nazista), estava afixado um edital instituindo a pena de morte para qualquer judeu que tentasse fugir. Apesar da vontade do jornalista de percorrer o gueto sozinho, o governador alemão de Varsóvia, Ludwing Fisher (executado em uma prisão da Polônia, em 1947) deu ordem expressa para que um militar o seguisse “como uma sombra”. “Também daquela vez”, escreve Malaparte, “eu tivera de resignar-me à companhia do Guarda Negro, um jovem alto, de rosto descarnado, de olhar claro e frio”.

Miséria e medo

O silêncio com que se depara nas ruas do gueto o surpreende. Ele se fixa nos olhos das pessoas onde vê fome, desespero, medo e “a sombra azul da morte.” Quanto às crianças, confessa: “Os olhos das crianças eram terríveis, eu não podia encará-los.” Observando o dia a dia do gueto ele reporta: “Nos cruzamentos das ruas viam-se pares de policiais judeus, com a estrela de David estampada em letra vermelha na braçadeira amarela, imóveis e impassíveis no meio do incessante tráfego de trenós arrastados por grupos de rapazes, de carrinhos de crianças, de carrocinhas de mão, atulhadas de móveis, de montes de andrajos, de ferro-velho e toda a sorte de miseráveis objetos.”

O tempo gélido fazia com que grupos de pessoas se reunissem nas esquinas, batendo os pés na neve, abraçadas, “aos dez, aos vinte, aos trinta, para darem uns aos outros um pouco de calor”. O frio era tanto que “esquálidos e pequenos cafés da rua Nalevski, da rua Przyrynek, da rua Zskroczymska, abundavam de velhos barbados, comprimidos uns contra os outros, em pé, em silêncio, talvez para se aquecerem ou se animarem mutuamente, a exemplo dos animais”.

Seguindo em seu passeio lúgubre, Malaparte topa em uma esquina com duas mulheres jovens se engalfinhando por uma batata. “Elas brigavam entre si, arrancando os cabelos e dilacerando o rosto uma à outra, em silêncio e em meio a uma pequena multidão taciturna.” O jornalista conta que “uma delas pega a batata crua do chão e vai embora, enquanto a outra enxuga com as costas da mão o sangue que lhe manchava o rosto”. Malaparte percebe a roupa em farrapos da jovem e nota o seu olhar “de fome, de pudor, de vergonha”. E se espanta: “De repente, sorriu-me. E eu corei”, confessa.

O jornalista relata que a sua presença ao lado de um guarda da Gestapo desperta a curiosidade e o medo na multidão de “rostos barbudos, afogueados pelo frio, pela febre e pela fome”. Nas ruas do gueto ele se viu forçado a saltar, de espaço em espaço, por cima de cadáveres, já que “os mortos jaziam abandonados na neve, entre candelabros hebraicos apagados, à espera das carroças dos coveiros”. Os mortos “estavam com a barba suja de neve e lama. Alguns tinham os olhos abertos, estavam hirtos e duros, semelhavam os judeus mortos de Chagall". A mortandade era grande, afirma Malaparte, e “os mortos permaneciam dias a fio estendidos nas entradas das casas, nos corredores, nos patamares das escadas ou sobre as camas nos quartos apinhados de gente pálida e silenciosa”.

Malaparte relata que os mortos eram recolhidos nas ruas e nas casas por grupos de jovens estudantes deportados da Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Holanda e Romênia. “Eram jovens intelectuais educados nas melhores universidades da Europa. Falavam francês, romeno e alemão. Entretanto, agora se apresentavam andrajosos, famintos, devorados pelos insetos e ainda doloridos das pancadas recebidas, dos insultos, dos sofrimentos padecidos nos campos de concentração e na terrível odisseia que os trouxera de Viena, Berlim, Munique, Paris, Praga e Bucareste até o gueto de Varsóvia.”

Enterrando os mortos

Impressionado com os jovens coveiros, Malaparte escreve: “Eu me detinha a observá-los no seu piedoso trabalho. Tinham no rosto uma luz belíssima, nos olhos, uma juvenil vontade de se ajudarem mutuamente, de socorrer a imensa miséria do seu povo. Eles levantavam os mortos com delicadeza e os colocavam nas carroças puxadas por outros jovens andrajosos e macilentos.”

Dias antes, nos guetos de Cracóvia e Czenstochowa, ele tivera uma estranha experiência com outros jovens judeus que, ao vê-lo uniformizado e ao lado de um guarda nazista, foram ao seu encontro demonstrando um misterioso ar de felicidade. “Parecia que a angústia da espera tinha chegado ao fim e que acolhiam aquele instante, até então temido, como uma libertação.”

O jornalista conta que ao explicar que não era agente da Gestapo e nem sequer alemão, notou que a desilusão e a angústia tomaram conta de seus rostos. “Um deles”, lembra, “já tinha tirado o xale imundo e colocado nos ombros de uma senhora”, um gesto de adeus que se repetia entre os judeus quando a polícia ia buscá-los. “Ele estava lendo, em um canto da sala, quando eu apareci à porta da casa”, relata o autor. “Levantou-se de chofre, abotoou os sapatos, endireitou os trapos sujos que lhe serviam de meias, procurou o colarinho da camisa esfarrapada debaixo da gola do paletó. Tossia, cobrindo a boca com a mísera mão.”

Sem Utilidade

Desfazer-se das roupas e distribuí-las a parentes e amigos quando a Gestapo batia à porta era quase uma rotina entre os moradores dos guetos. Malaparte recorda que viu dois judeus completamente nus, um deles um rapazote de 16 anos, caminhando sobre a neve em uma manhã glacial de inverno. Ladeados por milicianos armados da SS, eles enfrentavam um frio cortante de 35 graus abaixo de zero. Sobre essa cena incrível, narrada pelo escritor ao governador da Cracóvia, Otto Wächter (morto de causa ignorada em 1949, em Roma, de onde tentava fugir para a América do Sul), este justificou “amavelmente” a situação, explicando que os judeus se despiam porque, para eles, as roupas já não tinham utilidade.

Em outra oportunidade, convidado para um jantar de gala em homenagem ao general-governador da Polônia, Hans Frank (condenado pelo Tribunal de Nuremberg e enforcado em 16 de outubro de 1946), o jornalista se viu envolvido em um animado bate-papo sobre o gueto de Varsóvia. Era um banquete dedicado à figura mitológica de Diana caçadora, e a cúpula nazista compareceu em peso. O local era o palácio Bruhl, antiga sede do Ministério das Relações Exteriores da Polônia transformado no QG do governo alemão de Varsóvia.  No cardápio iguarias como faisões, lebres e um gamo das florestas de Radziwilow, trazido por dois criados de libré azul. “Em seu dorso estava cravada uma rubra bandeirinha hitleriana com a negra cruz gamada.”

Para a sua surpresa, Malaparte foi o primeiro a ser servido pela “virtude” de ter nascido italiano. Presente à mesa, o governador de Varsóvia, Ludwig Fischer, escorria com a colher um molho dourado sobre as fatias de carne e detalhava como eram sepultados os judeus no gueto: ”Uma camada de cadáveres e uma camada de cal”, explicava, como se dissesse “uma fatia de carne e uma camada de molho”.

 Modelo de eficiência

Saboreando um charuto após o jantar, o autor lembra que um dos convidados ofereceu-lhe, em um cálice de cristal, “a tradicional bebida dos caçadores alemães, o turkischblutou, ‘sangue de turco’, uma mistura do rubro vinho de Borgonha - um Volnay denso e tépido - com o pálido champanhe de Mumm”. Ao seu lado, o “general-gouverneur Frank” elogiava a organização imposta ao gueto de Varsóvia, considerando-a um “verdadeiro modelo para toda a Polônia”.


Por sua vez o governador de Varsóvia, Fischer, discursava sobre a eficiência de seu trabalho, assinalando, “com ar de modéstia” que o espaço exíguo do gueto havia atrapalhado o planejamento. “Não é minha culpa se (os judeus) ficam muito apertados”, justificava. “Um pouco mais de espaço e eu teria talvez podido tornar as coisas bem melhor.” Observação refutada por outro participante da festa, Emil Gassner, político alemão e um dos fundadores do partido nazista (NSDAO, na sigla em alemão), que ironiza a situação: “Os judeus gostam de viver assim, diz rindo.”

Por horas a conversa prossegue, segundo Malaparte, no “calor aconchegante” de uma sala contígua ao salão de banquetes, até que a certa altura o homenageado se volta para o jornalista e exclama: “Se déssemos crédito aos jornais ingleses e americanos, diríamos que os alemães não fazem outra coisa se não matar judeus, de manhã à noite.” Logo em seguida, “erguendo o cálice da Boêmia cheio de turkischblut”, o senhor da Polônia diz com firmeza: ”Você esta na Polônia há mais de um mês e não pode dizer que viu um só alemão tocar a ponta do cabelo de um judeu. “Os progroms são uma lenda”, afirma Frank. “Beba, sem medo, mein liber (meu caro) Malaparte. Este não é sangue de judeus. Prosit (Saúde)!”

Pogrom em Jassy

Os diálogos surrealistas daquela elite cruel e cínica eram anotados mentalmente por Malaparte em sua trajetória de repórter de uma civilização decadente e amoral. Enquanto os homens de Hitler discorriam sobre judeus e guetos na saleta atapetada cheirando a conhaque e tabaco, e suas mulheres – as fraus– “tricotavam ao pé do fogo de lenha de carvalho que crepitava na lareira”, a realidade nas gélidas ruas do gueto de Varsóvia não comportava eufemismos. Lá, escreve o autor, “bandos de cães ossudos farejavam o ar atrás dos fúnebres comboios, e tropéis de meninos maltrapilhos, trazendo no semblante os sinais da fome, da insônia e do medo, recolhiam na neve os trapos, os pedaços de papel, as latas vazias, as cascas de batatas e todos aqueles preciosos rebotalhos que a miséria, a fome e a morte sempre deixam atrás de si”.

Com o copo de vinho na mão, Malaparte sente-se desafiado a contar o que viu na cidade de Jassy, capital do antigo principado da Moldávia, em fins de junho de 1941, nos primeiros dias da guerra da Alemanha nazista contra a Rússia soviética. A Romênia era aliada da Alemanha e o jornalista estando na cidade para acompanhar a guerra no front, foi procurado por alguns judeus que denunciaram a preparação de uma ação violenta, um pogrom (palavra russa que significa causar estragos, destruir) por parte das autoridades do governo romeno contra a comunidade judaica.

Dias depois, a chacina realmente acontece e após uma noite de muita confusão, sirenes, “matraquear de metralhadoras e gritos”, Malaparte recorda o que viu: “Fui à janela, olhei para a Strada Lapusneanu. A rua estava coberta de formas humanas abandonadas em gestos desordenados. Mortos empilhados uns sobre os outros juncavam as calçadas. Algumas centenas de cadáveres amontoavam-se no meio do cemitério. Caminhões alemães e romenos passavam carregados de cadáveres.”

Saindo à rua, Malaparte presencia um espetáculo de horror. “Turmas de soldados e de policiais, grupos de mulheres do povo, bando de ciganos, em alegre burburinho, iam despojando os cadáveres, erguendo-os, virando-os ora de bruços, ora para um lado, ora para outro, para tirar-lhe os paletós, as calças, as cuecas, firmando-lhes os pés na barriga para arrancar-lhes os sapatos. Era um vaivém jovial, um mercado e ao mesmo tempo uma festa. Os mortos nus jaziam abandonados em posições atrozes.” (O massacre de Iasi, que durou vários dias, matou mais de 13 mil judeus. O marechal Ion Antonescu e seu vice Mihai Antonescu acusados de ordenar a matança foram fuzilados em 1 de julho de 1946. O comandante da guarnição de Iasi, coronel Constantin Lupu, foi condenado à prisão perpétua.)

Um rato no muro

O relato do jornalista sobre o massacre na Romênia não parece impressionar o grupo de comandantes nazistas. Sacudindo a cabeça em desaprovação, o governador de Varsóvia intervém: “Não, não é assim que se faz”, diz Fischer. “A Alemanha é um país de civilização superior e repugnam-lhe certos métodos bárbaros”, enfatiza Frank. “Matar judeus não é do estilo alemão. É uma tarefa estúpida, um desperdício inútil de tempo e de energias. Nós os deportamos para a Polônia e os encerramos nos guetos. Lá dentro têm liberdade para fazer o que querem. Nos guetos das cidades polacas, os judeus vivem como numa livre república.”

Todos brindam e riem. Erguendo a taça de champanhe em sinal de concordância, Hans Frank se aproxima de Malaparte e demonstrando uma inusitada cordialidade, discursa: “Não somos um povo de assassinos, mein líber. Quando voltar para a Itália, espero que conte o que viu na Polônia. Seu dever de homem honesto e imparcial é dizer a verdade.”

Semanas depois, em um almoço em homenagem ao pugilista Max Schmeling (boxeador alemão, campeão mundial de pesos pesados em 1930 e paraquedista da força aérea alemã na 2ª Grande Guerra), Malaparte se encontra novamente com o homem-forte da Polônia. Hans Frank sugere um passeio pelo gueto. Após o almoço, Malaparte e os outros convidados seguem em carreata até a entrada da “cidade proibida” e descem dos carros em frente à entrada do alto muro de tijolos vermelhos.

Frank explica à plateia que apesar da punição de pena de morte para os judeus que tentam sair do gueto, muitos deles cavam buracos à noite na base do muro e escapam para comprar comida e roupas na cidade. “O tráfego do mercado negro no gueto se faz em grande parte através desses buracos”, diz em tom professoral. “Durante o dia eles tapam os buracos com um pouco de terra e folhas. Arriscam a vida com verdadeiro espírito desportivo”, ironiza.

De repente, um soldado se ajoelha, aponta o fuzil para o buraco no muro, faz pontaria e atira. “Um rato”, ele brada. Malaparte percebe que há um alvoroço nervoso entre as convidadas. “As damas riam e soltavam gritinhos, arregaçando a saia até o joelho”, diante da possibilidade da aparição do bichano. Mas, para surpresa geral, do buraco emerge a cabeça de uma criança, com os cabelos pretos despenteados e as mãozinhas pousadas na neve. Era um menino, e de acordo com o jornalista, o general Hans Frank repreende o soldado por ter errado o alvo, pega o fuzil e ele mesmo faz o disparo. “Todo jogo tem suas regras”, adverte o nazista para Malaparte.

Um ano depois, na primavera de 1943, o gueto é destruído após uma rebelião que dura quatro semanas (o Levante do gueto de Varsóvia, de 19 de abril a 16 de maio). Os 56 mil judeus remanescentes são enviados para os campos de morte de Treblinka e Majdanek e os poucos combatentes que conseguem escapar se unem aos grupos guerrilheiros que lutam contra os nazistas nas florestas ao redor de Varsóvia.

Nesse mesmo ano, em setembro, na casa de Punta Masullo, na ilha de Capri, Malaparte dá o ponto final em seu manuscrito. “E saiba-se que prefiro esta Europa kaputt - quebrada, acabada, que se fez em pedaços, que foi à breca - à Europa de ontem e à de há vinte, de há trinta anos. Prefiro que tudo esteja por refazer a ter de aceitar tudo como herança imutável”, escreve o jornalista. “Que os tempos novos sejam, por conseguinte, tempos de liberdade e respeito, para todos, inclusive para os escritores, pois a literatura necessita de respeito tanto quanto de liberdade.”

Um nome nas estrelas

De mãe italiana e pai alemão, Malaparte adotou o pseudônimo literário em 1925. Segundo ele, uma brincadeira com o nome do conquistador Napoleão Bonaparte. Aos 16 anos alistou-se no Quinto Regimento Alpino e combateu na 1ª Guerra Mundial, ganhando várias condecorações de bravura. Fundou e dirigiu diversas publicações, o que resultou em sua aproximação com políticos e membros do governo. Atuou como coordenador de imprensa na Conferência de Versalhes, em Paris (1919), e serviu como adido diplomático na Polônia (1920). Foi correspondente de guerra na Etiópia, Grécia e Iugoslávia. Escreveu em torno de 30 livros, muitos deles relatando as suas vivências nas duas Grandes Guerras. O filme A Pele, sobre uma Nápoles após a saída dos nazistas da Itália, foi para as telas de cinema em 1981.

Elogiado pelo ex-presidente francês Nicolas Sarkozy (em 2009, durante as eleições, perguntado pelas suas preferências literárias, o então candidato revelou aos jornalistas que era apaixonado pela obra Kapput), Curzio Malaparte subiu a alturas poucas vezes alcançadas por seus pares, ao batizar, com o seu nome, uma estrela no espaço sideral. Isso se deu em outubro de 1980, vinte e três anos após a sua morte. O astrônomo tcheco Z.Vávrová, do Observatório de Klet, descobriu o planeta número 03479, um corpo celestial do tamanho de um asteroide gigante e o denominou de Malaparte, uma homenagem ao seu autor favorito.

Testemunha ocular da chacina de Jassy, Malaparte também se transformou em personagem e inspirou o escritor norte-americano radicado na França, Samuel Astrachan, a escrever a obra Malaparte in Jassy, publicada em 1989, onde o autor rememora os passos do jornalista, antes e durante o pogrom. Ainda sobre a tragédia de Jassy, o diretor do Instituto do Congresso Judaico Mundial de Jerusalém, professor Laurence Weinbaum, transcreveu trechos de Kaputt em seu trabalho A Banalidade da História e da Memória: A Sociedade Romena e o Holocausto (2006). Especialista em assuntos do Leste Europeu, Weinbaum cita o testemunho de Malaparte ao cobrar do governo da Romênia o reconhecimento oficial de sua participação, ainda que tardio, na matança de milhares de judeus durante a ocupação nazista.

Figura controvertida por suas posições ideológicas – depois da guerra pendeu para o comunismo e anos depois se declarou católico – Malaparte e sua obra foram objetos de análise do historiador  Enzo Rosario Laforgia, no ensaio Malaparte, escrittore di guerra, publicado em 2011.

Malaparte teve seu nome incluído na lista de autores não recomendados pela Igreja Católica, assim como foram Galileu Galilei e Baruch Spinoza. Implantado pelo Papa Paulo IV, em 1559, o Index Librorum Probitorum (Índice dos Livros Proibidos) tinha a finalidade de proibir a leitura de determinados textos (inclusive o Talmud e o Corão), sob pena de excomunhão.  Nas suas várias versões, o Index acabou se tornando uma espécie de guia dos livros que deveriam ser lidos, uma espécie de fonte de orientação para quem tentava entender o mundo através dos livros. Em 1966, o Index foi abolido pelo Papa Paulo VI.




terça-feira, 1 de março de 2016

A trilionária indústria da longevidade



Em 30 anos, a turma de mais de 65 anos vai ter mais gente do que a da faixa das criançasmenores de 5 anos. Será um acontecimento histórico que vai gerar a maior transformação social, política e econômica da humanidade, avaliam analistas econômicos.Hoje, nos Estados Unidos a chamada indústria da longevidade já movimenta 7,1 trilhões de dólares (29 trilhões de reais), mais que muitos países. Se fosse uma nação, seria a terceira mais rica do planeta. Em 2020, a previsão é que a faixa dos idosos terá nos bolsos 60 trilhões de reais para gastar e que em 2050 o mundo seja habitado por2 bilhões de pessoas da chamada terceira idade, de um total de 10 bilhões.

As projeções estão no artigo “Os desafios mais rentáveis da humanidade” do jornalista espanhol, Miguel Ângel García Vega, colunista do jornal “El País”. Ele destaca que “o envelhecimento dapopulação do planeta é o prelúdio de todas as grandes transformações que viveremos”. As consequências pouco agradáveis que irão advir dessa inversão demográfica englobam basicamente as maiores chances de as pessoas adoecerem. Em contrapartida, as indústrias farmacêuticas irão prosperar ainda mais. Atualmente os remédios para o tratamento do câncer representam 10% do mercado dos fármacos, com a doença atingindo 25% das pessoas dessa faixa etária. A cada ano, cerca de 8,2 milhões de pessoas morrem desse mal.

A demência, com destaque para o mal de Alzheimer, é mais uma doença associada ao envelhecimento, responsável por 7,7 milhões de casos diagnosticados anualmente. Em 2050, a previsão que esse número triplique ea sua cura está sendo considerada uma das prioridades da indústria farmacêutica.
Outra doença que irá demandar atenção e recursos da área da Saúde Governamental é a obesidade que triplicou desde 1980 e já apresenta características de epidemia global.  Existem 671 milhões de obesos no planeta e perto de 2,1 bilhões de pessoas com sobrepeso. Com esses números, além da expansão da indústria de remédios, empresas dos setores de alimentação e dietas, roupas esportivas e até companhias aéreas têm se beneficiado dessa situação, com poltronas especiais para obesos a preços mais caros.

A terceira idade e a urbanização

O envelhecimento também irá acelerar a urbanização das grandes cidades porque as pessoas vão querer morar mais próximas. Segundo o futurólogo americano Alex Steffen, citado no artigo, 9% da população da terra se concentrará em 41 megacidades até 2030. “Hoje há menos da metade dos edifícios que existirão em 2050“, afirma. O efeito imediato será o aumento do valor das moradias, o que já ocorre em cidades como Londres, cujo preço das residências subiu 35% desde 2008.

Outro fato a considerar é que com a longevidade e a maior expectativa de vida crescerão o número de aposentados pressionando o aumento da dívida pública nas economias avançadas que terão de cortar nos benefícios e na saúde para controlar o déficit. Uma oportunidade de negócios para as empresas privadas de saúde e de aposentadorias, considerando que em 2030, a previsão é que 2 bilhões de seres humanos, metade deles na Índia, farão parte de uma nova classe média com renda per capita entre 10 e 100 dólares.

Esse aumento de renda também irá empurrar o mundo para a produção de mais alimentos, ainda que as terras potencialmente cultiváveis estejam dimensionadas em apenas 1,4 bilhão de hectares( cada vez mais concentradas  nas mãos de grandes empresas, principalmente na África e na América Latina) e a atividade da agricultura consuma 70% da água utilizada  em todo o mundo.

Mas, mesmo em um mundo habitado por um maior percentual de gente idosa, a tecnologia irá seguindo em sua caminhada de desenvolvimento (plataformas digitais, impressora 3D, robótica, inteligência artificial etc),afetando de maneira mais intensa todos os negócios e as relações humanas. O combate aos crimes digitais e os investimentos em cibersegurança, atualmente estimados entre 375 e 575 bilhões de dólares anuais, serão intensificados. Em relação a empregos “manuais”, analistas do Bank of America Merrill Lynch estimam que, em 2025, 45% das etapas de fabricação industrial serão realizadas por robôs. Um cenário que se avizinha desafiador, levando em conta que hoje esse número corresponde a 10%.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O recado do papa Francisco

por Sheila Sacks


“Ao visitar esta sinagoga, prossigo nas pegadas dos meus predecessores. O papa João Paulo II esteve aqui há trinta anos, em 13 de abril de 1986; papa Bento XVI esteve entre vocês há seis anos, agora estou aqui.” (Papa Francisco, em discurso no templo de Roma, em 17 de janeiro de 2016)


Publicado no "Observatório da Imprensa" 

Na visita que o papa Francisco fez à sinagoga de Roma, nesse início de 2016, as agências internacionais e a mídia europeia elegeram, por unanimidade, destacar nas chamadas e no lead o trecho do discurso do sumo pontífice em que ele condena a violência religiosa. “A violência do homem contra o homem está em absoluta contradição com qualquer religião, digna desse nome e, em particular, com as três grandes religiões monoteístas.”

As chamadas são semelhantes: “Papa visita sinagoga em Roma e condena violência em nome da religião” (Reuters); “Papa condena a violência ‘em contradição’ com as três religiões monoteístas” (France-Presse); “Papa visita sinagoga de Roma e clama contra violência em nome de Deus” (EFE). Na Itália o jornal Corriere della Sera estampou em sua capa digital: “Il Papa in sinagoga: La violenza è incompatibile com La fede”. Os diários Il Tempo e Il Messaggero acompanharam: “Papa in sinagoga: La violenza contraddice ogni religione”.

Pode parecer uma obviedade a ênfase dada pela mídia ao fato de o papa não estar a favor da violência, pois essa seria a atitude pública a esperar de todo grande líder espiritual. Mas, o destaque ao tema - pinçado em meio a uma oratória de sensíveis referências sentimentais e teológicas, onde se enaltece de forma comovente a fraternidade que deve existir entre cristãos e judeus – tornado-o o leitmotiv da notícia reflete, de forma inegável, o clima de insegurança traumática que persiste na Europa após os atentados de Paris, ocorridos em 7 de janeiro e 13 de novembro de 2015, que causaram 154 mortes e mais de 350 feridos.

O que torna relevante o recado do papa ao presidente do Irã, Hassan Rouhani, no encontro de ambos no Vaticano, dez dias após a visita de Francisco à sinagoga. Na ocasião, o papa reafirmou seu alinhamento contra o terror político-religioso e pediu que o governo islâmico daquele país trabalhe pela paz no Oriente Médio e contra a disseminação do terrorismo, de acordo com o comunicado oficial da Santa Sé (“Papa Fracesco apre a Rouhani: Theran fondamentale per La pace”, no Corriere della Sera, em 26.01.2016).

Mas, à parte o momento atual de temor e alerta que levou a segurança italiana a mobilizar 800 policiais para blindar as imediações do templo, o papa Francisco, conhecendo a história da sinagoga de Roma, teve as suas razões para condenar, no interior de suas dependências, a prática da violência em todos os seus matizes.

Sinagoga centenária

Em 2004, por ocasião dos festejos do centenário do grande templo de Roma, o papa João Paulo II (1920-2005) enviou uma carinhosa mensagem à comunidade judaica romana, a mais antiga da Europa Ocidental, lembrando a presença milenar dos judeus naquela cidade, que remonta ao século 1 antes da Era Comum. Endereçada ao rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, o papa destacou “o profundo laço que une a Igreja com a Sinagoga”, lembrando que ambas as religiões “compartilham, em grande parte, das Escrituras Sagradas, da liturgia e de antiquíssimas expressões artísticas.”

No documento, publicado pelo site católico Zenit, João Paulo II se dirige aos judeus de Roma como seus “irmãos prediletos” na fé de Abraão, o patriarca, fazendo referência às figuras bíblicas de Isaac, Jacob, Sara, Rebeca, Raquel e Lia. “Veja como é bom e agradável irmãos conviverem juntos – “Hinê ma tov uma naím shévet achim gam iáchad” (Salmo 133), assinala o pontífice em hebraico. Mais adiante, ele acrescenta que “o majestoso Templo Maior, na harmonia de suas linhas arquitetônicas, eleva-se há 100 anos sobre as margens do rio Tiber como testemunho de fé e de louvor ao Onipotente”.

Construída entre 1901 e 1904, a grande Sinagoga de Roma está instalada no antigo gueto judaico, na Via Catalana, ao lado do pitoresco bairro de Trastevere, e foi concebida pelos arquitetos Vicenzo Costa e Osvaldo Armanni. Faz parte do seleto grupo das 25 mais belas sinagogas do mundo, segundo a revista americana “Complex”, especializada em design e estilo.

Atentado terrorista

A relação entre João Paulo II e a sinagoga de Roma pontuou de forma singular e dramática a história do século 20. Em 1986, o sumo pontífice tomou a iniciativa de atravessar os portões do templo tornando-se o primeiro papa em quase dois mil anos a visitar uma sinagoga e chamar os judeus de “nossos amados irmãos mais velhos”.  Pondo de lado o protocolo, João Paulo II deu um abraço emocionado no rabino-chefe Elio Toaff (falecido em 2015, aos 100 anos), falando aos presentes, por várias vezes, em hebraico.  

A emblemática visita do papa funcionou como uma espécie de contraponto à tragédia que se abateu sobre a comunidade judaica de Roma, quatro anos antes, a mais chocante desde a “shoah” (a palavra hebraica para o holocausto, significando calamidade), quando 1.259 judeus romanos foram deportados em trens pelas forças nazistas (em 16 de outubro de 1943) para as câmaras de morte de Auschwitz. A essa ferida jamais cicatrizada veio se juntar mais uma, desta vez representada pelo horrendo atentado terrorista que atingiu a sinagoga, em 9 de outubro de 1982, matando um menino de dois anos, Stefano Gay Taché, e deixando mais de três dezenas de feridos, muitos deles em estado grave.

Na ocasião, a imprensa relatou o banho de sangue que marcou aquela manhã de sábado, quando se realizavam as rezas matinais e se comemorava o término de “sucot” (a festa das cabanas que lembra as tendas usadas pelos hebreus nos 40 anos que vagaram pelo deserto de Sinai, depois do êxodo do Egito). Na manchete do jornal La Stampa, os números da tragédia: “Um morto e 34 feridos no feroz atentado antissemita”. O Diário ABC, da Espanha, publicou na primeira página: “O templo estava repleto de crianças e adolescentes para uma benção especial naquele sábado. Pouco antes do meio-dia, dois homens se acercaram de uma das entradas da sinagoga e renderam o segurança. Eles entraram na sinagoga portando cinco granadas, conseguindo explodir duas. As pessoas começavam a sair naquele momento. Os terroristas sacaram de suas mochilas metralhadoras e iniciaram o tiroteio. Outros dois terroristas se uniram aos primeiros para completar a carnificina. Terminada a operação, abandonaram o lugar em dois automóveis”.

Sem punições

Em 2012, ao se completarem 30 anos da tragédia, o antigo líder da comunidade judaica de Roma, Riccardo Pacifici, manifestou o seu desapontamento ao então presidente Giorgio Napolitano, visto que o atentado, transcorrido tanto tempo, não tinha sido esclarecido e nem os culpados punidos. “Por que naquele dia, e somente naquele dia, não havia presença policial em frente à sinagoga?”, perguntou Pacifici em sua missiva ao presidente. 

Semanas antes do atentado, o rabino Toaff tinha protocolado uma solicitação ao Ministério do Interior para que reforçasse a segurança em torno da sinagoga durante os feriados judaicos de “rosh hashaná” (ano novo), “yom kipur” (dia do perdão) e “sucot”, que acontecem em sequência, nos meses de setembro e outubro. Mas, o pedido não foi considerado, apesar do clima de antissemitismo reinante no país, estimulado principalmente pela imprensa e políticos que criticavam o governo de Israel pelo conflito com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), no sul do Líbano.

A presença e o acolhimento em Roma do líder da OLP, Yasser Arafat (1929-2004), também animou os simpatizantes da causa palestina a se sentirem mais à vontade para atacar alvos judaicos, o que já havia ocorrido em junho daquele ano, com sindicalistas arremessando um caixão na frente da sinagoga.  Recebido como chefe de estado pelo então presidente Sandro Pertini (1896-1990), na residência oficial de Quirinal, Arafat teve igualmente um encontro no Vaticano com o papa João Paulo II em 15 de setembro, três dias antes das comemorações do ano novo judaico.

Ambiente hostil

No livro “Attentato alla sinagoga”, lançado em 2013, os autores Arturo Marzano, pesquisador do Departamento de História e Civilização do Instituto Universitário Europeu de Florença, e Guri Schwarz, professor assistente do Departamento de História da Universidade da Califórnia (UCLA), buscam os antecedentes políticos, sociais e históricos que estariam na raiz do ataque terrorista ao templo de Roma, concluindo que o conflito israelense-palestino foi o pivô da tragédia. Para os autores, a Guerra dos Seis Dias, em 1967, que resultou na fuga de milhares de palestinos para a Jordânia, Líbano, Síria e outros países fronteiriços, repercutiu negativamente de forma evolutiva contra Israel ao longo de duas décadas, atingindo as comunidades judaicas da diáspora.

Marzano e Schwarz também destacam o papel da imprensa italiana de esquerda que, em 1982, censurava sistematicamente as ações das forças de defesa de Israel instaladas no Líbano para impedirem os ataques contínuos dos grupos da OLP contra o território israelense. O episódio nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, em setembro daquele ano, quando cristãos maronitas libaneses mataram centenas de palestinos em represália ao assassinato do presidente eleito do país, Bashir Gemayel, morto em um atentado com carro-bomba que vitimou 26 pessoas, radicalizou ainda mais os discursos contra Israel que ocupava militarmente a área.

“Ecos dessas tensões contaminaram a sociedade civil”, avaliam os pesquisadores. “O maestro Daniel Oren (nascido em Israel e diretor do Teatro Municipal Guiseppe Verdi, em Salerno) foi insultado enquanto regia um concerto no Teatro San Carlo, em Nápoles; em Turim, um jovem foi surrado porque usava um colar com a estrela de David; e em 1º de outubro de 1982 uma bomba explodiu no escritório de um centro judaico de Milão”. Em paralelo, um grupo de intelectuais judeus, tendo à frente o escritor e sobrevivente de Auschwitz, Primo Levi (1919-1987) – laureado em 1979 com o mais prestigioso prêmio literário da Itália (Premio Strega) pelo livro “A Chave Estrela” - assina um manifesto a favor da retirada de Israel do Líbano, gerando um profundo mal estar entre a comunidade judaica composta de 35 mil membros, a metade residente em Roma.

Comentando a obra de Marzano e Schwarz para o diário Il Foglio, o escritor e jornalista Guilio Meotti classificou o trabalho como uma “viagem sobre a desumanização de Israel” empreendida por jornalistas e intelectuais no período que antecedeu o atentado. No artigo intitulado “Pogrom Italiano” (25.05.2013), Meotti, que é o autor de “A New Shoah” (Um Novo Holocausto), um livro que conta as histórias pessoais de israelenses vítimas do terrorismo na Terra Santa, cita as palavras do psicanalista Antonio Semi, membro da “Societá Psicoanalitica Italiana (SPI)”, colocadas em destaque na primeira página do jornal Il Gazzettino, de Veneza, no dia seguinte ao ataque à sinagoga: “Se eu fosse judeu nos dias de hoje, na nossa Europa civilizada, eu teria medo.”

Reações iniciais

Também o renomado arquiteto Bruno Zevi (1918-2000), autor do projeto do pavilhão da Itália na exposição de Montreal em 1967 (Expo 67) - a maior feira mundial do século 20 -, foi a Câmara Municipal de Roma para tornar pública a revolta e a indignação que tomaram de assalto a comunidade judaica. Corajosamente, ele desautorizou a mídia na sua tentativa de se solidarizar com os judeus, usando o subterfúgio de dissociar o judaísmo do antissionismo. “Não vamos aceitar uma distinção maniqueísta entre judeus e israelenses. Nós pertencemos ao povo de Israel que inclui as comunidades espalhadas em todas as partes do mundo, começando com a mais antiga, a de Roma, e aquelas que retornaram à terra de seus antepassados.”

Professor universitário e autor de vários livros sobre arquitetura, Zevi foi um político atuante, eleito deputado para o parlamento de Roma (1987-1992). Precedendo seu discurso, publicado na íntegra pelo diário conservador Il Tempo, a juventude judaica lançou um duro manifesto acusando frontalmente a imprensa (inclusive citando o Corriere della Sera, o jornal de maior circulação do país), o presidente da Itália, Sandro Pertini (1896-1990), e até João Paulo II, que abriu as portas do Vaticano para receber o líder de um movimento que agrupava terroristas (ao todo o papa se encontrou 12 vezes com Arafat).

O empresário Dario Coen era estudante na época e encabeçou o movimento. O folheto se iniciava ironicamente com a palavra “Grazie” (obrigado), em alusão à sistemática campanha dos principais jornais do país contra o estado de Israel, e a anuência de políticos e personalidades públicas a esse cenário de hostilidade. O manifesto destacava que Pertini e o ex-primeiro ministro Guilio Andreotti (1919-2013) receberam Arafat nas residenciais oficiais com honras de chefe de estado, uma afronta para os judeus italianos. E concluía, de forma peremptória: “Não precisamos de palavras de compaixão.”

Fuga e Impunidade

Mas, a indignação com o ataque que matou e feriu crianças e adolescentes sensibilizou toda a Itália e o então representante da OLP no país, Nemer Hammad (atualmente conselheiro político de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina - ANP) se apressou em negar qualquer ligação com a ação terrorista. Porém, as investigações policiais apontaram para a organização terrorista “Junho Negro” comandada pelo palestino Abu Nidal (1937-2002), acusado de matar ou ferir mais de 900 pessoas em 20 países. Os retratos falados dos terroristas permitiram assegurar que pelo menos um dos atiradores, o também palestino Abdel Osama al-Zomar, era conhecido pelas polícias dos países europeus como integrante do movimento Fatah-Conselho Revolucionário (Fatah-CR), fundado por Nidal, da ala mais radical da OLP. Também o depoimento da namorada italiana de al-Zomar reforçou esse envolvimento.

Preso no norte da Grécia, ainda em 1982, quando dirigia um carro repleto de explosivos em direção à Turquia, al-Zomar passou 40 meses na prisão cumprindo pena por esse delito e também por esconder uma arma em sua cela. Em 1988, o governo grego autorizou a deportação do terrorista para a Líbia do ditador Muamar Kadafi (1942-2011), apesar de o governo italiano ter pedido a extradição do terrorista, três anos antes. Condenado à prisão perpétua na Itália, a Grécia quebrou o acordo de entregá-lo à polícia italiana e expulsou al-Zomar para “um país de sua escolha”, segundo as notícias da época. O terrorista, então com 27 anos, desapareceu na Líbia e até hoje o seu paradeiro é desconhecido.

Em entrevista ao Corriere della Sera, em outubro de 2011, Gadiel Taché, o irmão do pequeno Stefano, morto no atentado à sinagoga, lamentava o pouco empenho demonstrado todos esses anos pelo governo italiano no sentido de exigir de Kadafi a extradição do terrorista e de outros membros do grupo. Ele, que ficou gravemente ferido no ataque, dizia esperar que com a morte do ditador líbio ocorrida naquele mês, as autoridades italianas intensificassem a petição junto ao novo governo de Trípoli e reconhecessem oficialmente o irmão como uma vítima do terrorismo e “parte da consciência histórica da Itália” (em 9 de maio de 2012, o presidente Giorgio Napolitano incluiu Stefano nessa categoria).

Revelações

Anos antes, em 2008, as declarações de um ex-presidente já tinham provocado perplexidade na comunidade judaica porque o político denunciou a existência de um compromisso extra-oficial entre o governo italiano e a OLP, nas décadas de 1970 e 1980, no sentido de preservar o país de ataques terroristas. Em troca, a Itália não interferiria em assuntos palestinos, fechando os olhos para as atividades da organização no país. Na entrevista, publicada pelo diário israelense Yedioth Ahronoth, em 03 de outubro de 2008, Francesco Cossiga (1928-2010), que presidiu a Itália de 1985 a 1992, falou ao correspondente Menachem Gantz sobre esse pacto conhecido como “Acordo Moro”, em alusão ao político Aldo Moro (líder do partido democrata cristão, cinco vezes primeiro-ministro e assassinado em 1978), figura central responsável pelo trato.

O “Acordo Moro” também foi reconhecido por Bassam Abu Sharif, um dos assessores de Arafat e porta-voz de imprensa da OLP, em reportagem do Corriere della Sera, em agosto de 2008. Apelidado de “o rosto do terror” pela revista americana Time, Sharif era membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e foi responsável por uma série de sequestros de aviões de passageiros em aeroportos europeus, nos anos 1970. Ele contou que as organizações palestinas operavam livremente em território italiano e por sua vez não atacavam alvos nacionais na Itália e fora do país, desde que não cooperassem com o estado de Israel.

O “acordo”, porém, não abrangia os judeus italianos e nem os alvos judaicos na Itália. Francesco Cossiga, que faleceu dois anos após a entrevista, acreditava que a política de preservar a Itália de ataques terroristas ainda continuava valendo. “A Itália tem um acordo com o Hezbollah”, afirmou o ex-presidente ao jornal, “e a UNIFIL (sigla em inglês para as ‘Forças Interinas das Nações Unidas no Líbano’ que atuam na região desde 1978) fecha os olhos ao processo de rearmamento do grupo, desde que não sejam realizados ataques contra os seus contingentes”. O Hezbollah é uma organização islâmica xiita fundamentalista que age no Líbano, catalogada como terrorista pelos Estados Unidos e países europeus. Mantém estreita ligação com o Irã e a Síria e prega a eliminação do estado de Israel.

Ecumenismo e memória

Voltando ao papa João Paulo II, em 25 de janeiro de 1983, com a comunidade judaica ainda traumatizada pela tragédia na sinagoga, ocorrida três meses antes, João Paulo II promulga um novo Código Canônico que entre os seus itens mais importantes destaca o esforço que a Igreja deve consagrar ao ecumenismo. Documento especial enviado a Diocese de Roma orientava para que os sermões não contivessem “qualquer forma ou vestígio de antissemitismo”, recomendando também “uma redescoberta das nossas raízes judaicas”.

Anteriormente, João Paulo II já havia se reunido com delegados das conferências episcopais para normatizar as aulas de catolicismo, chamando a atenção para o comportamento a ser adotado. “Seria necessário conseguir que este ensino nos diferentes níveis de formação religiosa, na catequese dada às crianças e adolescentes, apresentasse os judeus e o judaísmo, não somente de maneira honesta e objetiva, sem nenhum preconceito e sem ofender ninguém, mas também, e mais ainda, com uma viva consciência da herança comum a judeus e cristãos” (Roma, 6 de março de 1982).

Quinze anos depois, com 78 anos, o papa faz uma espécie de mea-culpa, em nome da Igreja, publicando o documento intitulado “Nos Lembramos: Uma reflexão sobre a Shoah” (1998). Ele admite que a perseguição do nazismo contra os judeus pode ter sido facilitada por preconceitos antijudaicos presentes nas mentes e nos corações dos cristãos. João Paulo escreve: “No termo deste milênio, a Igreja católica deseja exprimir a sua profunda tristeza pela faltas dos seus filhos e das suas filhas em todas as épocas.” E prossegue: “A inumanidade com que os judeus foram perseguidos e massacrados neste século supera a capacidade de expressão das palavras. E tudo isto lhes foi feito só porque eram judeus.” Também reconhece o preconceito arraigado que se estende pelos séculos. “Em tempos de crise como carestias, guerras e pestes ou de tensões sociais, a minoria judaica foi muitas vezes tomada como bode expiatório, tornando-se assim vítima de violências, saques e até mesmo massacres.”

O documenta ressalta o “dever da memória” e conclama para um “futuro comum” entre judeus e cristãos. “Pedimos que a nossa tristeza pelas tragédias que o povo judaico sofreu no nosso século leve a novas relações com esse povo. Desejamos transformar a consciência dos pecados do passado em firme empenho por um novo futuro, no qual já não haja sentimento antijudaico entre os cristãos, nem sentimento anticristão entre os judeus, mas sim um respeito recíproco compartilhado, como convém àqueles que adoram o único Criador e Senhor e têm um comum pai na fé, Abraão.”

Vale lembrar que João Paulo II também foi vítima de um atentado terrorista na Praça de São Pedro, no Vaticano, em 13 de maio de 1981. O turco Mehmed Ali Agca atirou três vezes contra o sumo pontífice em meio à multidão que estava no local para saudar o primeiro papa polonês da história (teses conspiratórias surgiram ao longo do tempo envolvendo países do bloco soviético descontentes com a posição do papa favorável aos sindicalistas do movimento polonês “Solidariedade”, do líder Lech Walesa).

Sensação de medo


Desde 1984, e após 16 séculos, a Itália se tornou um estado de pluralismo religioso com o acordo entre a Santa Sé e a república italiana que aboliu o privilégio de o catolicismo ser uma “religião de Estado”. Com a instituição da liberdade religiosa, presente na Constituição, italianos e imigrantes de todos os credos ganharam mais segurança para praticarem a sua fé (atualmente a Itália abriga 1,5 milhão de muçulmanos). Entretanto, no caso específico da pequena comunidade judaica, qualquer visitante mais atento pode notar o temor e a insegurança que seus membros ainda sentem em relação à grande sinagoga de Roma.

Foi o que percebi, em 2014, ao me aproximar de uma família no antigo bairro judeu de Roma. A relutância em indicar a localização do templo e os olhares desconfiados dirigidos à sacola que eu portava, não deixavam dúvidas. No prédio, rodeado por duas guaritas com policiais, o ingresso somente é autorizado após uma minuciosa revista. Enfim, uma sensação de medo que sobrevive à tragédia de 1982, resistindo ao tempo em sua inquietude por uma justiça que, efetivamente, não se concretizou.

Gadiel Taché, que viveu o pesadelo de perder o irmão e sofrer mais de trinta cirurgias, lamenta que um véu de silêncio ambíguo ainda acoberte o episódio. Anualmente, a comunidade judaica relembra a data fatídica e clama por esclarecimentos e a prisão dos envolvidos. Ao escolher um sábado, o “shabat”, o dia da semana mais santificado para o judaísmo, os terroristas premeditaram uma ação visando atingir uma simbologia sagrada e um grande número de fieis. Porque como preceituava o rabino e teólogo Abraham Heschel (1907-1972), que perdeu a família no holocausto, os sábados são as catedrais do povo judaico.


E explicava a razão: “Durante os seis dias da semana, vivemos sob a tirania das coisas do espaço. O sábado nos coloca em sintonia com a santidade do tempo. Neste dia somos chamados a participar no que é eterno no tempo, a nos voltar dos resultados da criação para o mistério da criação, do mundo da criação para a criação do mundo.” Pensamento que o papa Francisco reverberou no púlpito do templo de Roma ao afirmar textualmente que “judeus e cristãos podem e devem oferecer à humanidade a mensagem da Bíblia sobre o cuidado da criação”.

Texto atualizado e ampliado do original "Em Roma, uma sinagoga entre catedrais".