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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Israel e a escolha de Sofia

Por Sheila Sacks


 “Como os terremotos, os terroristas atacam aleatoriamente: quem sobrevive e quem morre depende de contingências que não podem ser merecidas ou evitadas” (“O Mal no Pensamento Moderno”, de Susan Neiman)

O Estado de Israel carrega dívidas memoriais em relação ao povo judeu traduzidas em dois mil anos de desterros trágicos advindos das sucessivas perseguições religiosas ocorridas ao longo do tempo nos quatro cantos do mundo – da Europa, Ásia, África ao continente das Américas - e que culminaram com o horror do Holocausto no início da década de 1940.

Instituída como nação pela ONU, em 1948, desde então a cada embate que o estado israelense é levado a travar com organizações ou governos extremistas instalados em suas fronteiras (que lhe negam o direito de existir e se armam com palavras e equipamentos de guerra para eliminá-lo), observa-se o recrudescimento do antissemitismo que infelizmente ainda sobrevive latente em países dos mais distintos, segundo pesquisas periódicas divulgadas pelos centros judaicos.

Abrigando 190 mil sobreviventes do Holocausto, a maioria com mais de 80 anos, Israel é o primeiro e último refúgio dos judeus de diversas nacionalidades que de alguma forma se sentem ameaçados pela face milenar do preconceito em sua própria terra natal. O estigma da rejeição e a humilhação de se ver atado a um falso e abominável estereótipo muitas vezes impõem a esses judeus o caminho de um exílio não planejado. Um fato a lamentar que infelizmente ainda persiste nesse século 21.

A cada guerra o estado de Israel vive o seu dilema de Sofia, lembrando a obra do escritor americano William Styron, falecido em 2006.  Na história, Sofia é uma jovem mãe, sobrevivente do Holocausto, forçada por um soldado nazista à época da guerra a escolher um de seus dois filhos para ser morto. A outra opção seria a morte de ambas as crianças. Uma escolha perversa que a condena a viver em um doloroso martírio até o fim de seus dias.

Israel como nação tem o dever de proteger a sua população de ataques externos e atentados terroristas, respondendo com firmeza às investidas bélicas. Balancear a “proporção” de sua resposta militar, conforme advogam muitos países e a própria ONU, seria com toda a certeza a opção adotada, se isso fosse possível. Quando o adversário se utiliza de táticas de guerrilha onde as vidas humanas não contam, estocando armamentos letais em creches, escolas, hospitais e centros sociais, em meio às mulheres, crianças e pessoas idosas, a imposição de procedimentos que não ponham em risco a população civil soa como uma locução extemporânea abstraída da realidade. Uma frase de efeito moral direcionada apenas a um lado do conflito com a finalidade de criminalizar as ações de defesa de um exército que combate o terrorismo em suas fronteiras.

Conviver em paz com seus vizinhos é a maior aspiração do estado de Israel, compartilhada com os judeus de todo o mundo. A sociedade israelense lamenta que grande parte de seu orçamento esteja direcionada para a guerra ao invés de ser canalizada para a  educação, ciência, tecnologia e ações sociais. Israel não quer assistir seus jovens serem abatidos em guerras sucessivas e nem criar dificuldades e constrangimentos aos judeus de várias nacionalidades que estão adaptados socialmente aos seus países de origem.

Desafiar a ONU ou o conjunto de nações democráticas não são procedimentos que se inserem na agenda diplomática de Israel. Ao contrário, ser alvo de caretas e puxões de orelha públicos maltrata e ofende profundamente um país em guerra contra o terror, exibindo um aspecto da história que ignora o real cerne da questão: o ódio agudo e a total beligerância alimentados continuamente por grupos extremistas em sua ideologia de intolerância e exclusão contra a nação judaica. É desalentador constatar que os milhões de dólares doados por ONGs internacionais e governos de países árabes ao Hamas são usados a serviço de uma guerra pérfida. 

Israel é um estado acuado e militarizado por força de uma posição geopolítica adversa, já expressa à época de sua fundação pela atitude belicosa de seus vizinhos árabes que logo nos primeiros dias de sua independência se lançaram à batalha para inviabilizar a independência da nova nação que surgia. Grupos como o Hamas, em Gaza, Hezbollah, no Líbano, e Al-Qaeda, na Síria, rondam sinistramente Israel e seus líderes vociferam discursos de aniquilação. A requentada e insana ideia de varrer Israel do mapa, disseminada no boca a boca diário, nas escolas, mesquitas, imprensa, rádio e tevês, permanece como a principal propulsora dos sonhos e ilusões desses extremistas que infelizmente controlam e orientam suas comunidades.


Ainda que se multipliquem as perdas humanas de ambos os lados, as guerras e tréguas que se alternam nessa funesta gangorra têm sido usadas por esses grupos como estratégia de marketing para encurralar o estado de Israel e empurrá-lo para um beco sem saída no cenário internacional. Nesses termos, Israel seria o Golias forte e insensível lutando contra um David fraco e impotente. Uma imagem primária acerca dos conflitos na região que excluem a premeditação dessas guerras (um exemplo é a sofisticada rede de túneis subterrâneos, construída pelo Hamas, abarrotada de explosivos penetrando no território israelense) e, principalmente, a imensa cota de responsabilidade dos agressores para com as suas próprias populações, as mais atingidas e as que mais sofrem com a insensatez dessas lideranças.

Por fim, a insistente tentativa de estabelecer um vínculo comparativo entre as ações israelenses e a crueldade do regime político-ideológico nazista que, entre outras aberrações, conduziu milhões de crianças às câmaras de gás, só pode ser entendida como uma distorção indigna dos fatos históricos, "pois os campos de extermínio não apenas fabricavam cadáveres, mas se destinavam à destruição prévia das almas", explica a pesquisadora Susan Neiman, na sua obra "O Mal no Pensamento Moderno" (2002). Dessa forma, todos os processos de humilhação, horror, e de erradicação da identidade e da vontade humanas aos quais as vítimas eram submetidas tinham como objetivo prioritário a anulação do próprio conceito de humanidade no íntimo das pessoas.

 (veiculado no blog "Coisas Judaicas")
http://www.coisasjudaicas.com/2014/07/israel-e-escolha-de-sofia.html

domingo, 22 de junho de 2014

Depois de Eichmann: nem tudo foi contado

 / por Sheila Sacks /

A captura do criminoso de guerra nazista, em 1960, ainda atrai jornalistas e pesquisadores que vasculham documentos secretos sobre o episódio

Museu do Holocausto-Jerusalém
  Mais de meio século após o premier David Ben Gurion (1886-1973) anunciar ao mundo, em 23 de maio de 1960, que o oficial nazista Adolf Eichmann (1906-1962) - o responsável pela logística da chamada “Solução Final” que exterminou seis milhões de judeus na 2ª Grande Guerra - tinha sido localizado e já se encontrava em Israel para ser julgado, um personagem já falecido que ajudou a identificar o criminoso em Buenos Aires foi homenageado pela chancelaria israelense.

A cerimônia discreta, realizada em uma dependência da Daia (Delegação das Associações Israelitas Argentinas), ocorreu em 13 de agosto de 2012, e o então embaixador de Israel na Argentina, Daniel Gazit, já se despedindo do cargo, fez um agradecimento público à memória do imigrante alemão Lothar Hermann (1901-1974), que nos idos de 1950 se empenhou em alertar às autoridades alemãs e israelenses sobre a presença de Eichmann em solo portenho.

A homenagem a Hermann não seria cabível há alguns anos porque seu papel no processo da descoberta do criminoso de guerra não recebeu os holofotes da mídia. Em 1961, com Eichmann sendo julgado em Israel, ele chegou a ser confundido com o médico nazista Josef Mengele (1911-1979) - apelidado de “Anjo da Morte” por seus experimentos com seres humanos -, que se escondeu primeiro na Argentina e depois no Brasil. Hermann ficou detido por duas semanas na prisão de Coronel Suárez, cidade onde vivia, a 500 quilômetros da capital, até o mal-entendido ser desfeito.

Em 2009, com a publicação do livro “Hunting Eichmann“ (“Caçando Eichman: como um grupo de sobreviventes e uma agência de espionagem jovem capturou o nazista mais procurado do mundo”, no título da edição brasileira), do jornalista americano Neal Bascom, o papel de Hermann na descoberta do fugitivo recebeu o devido espaço. De acordo com Bascom, Hermann foi ajudado pela filha Silvia no processo de identificação de Eichmann. Ambos viajaram dez horas de trem, de Coronel Suárez a Buenos Aires, onde a jovem de deslocou sozinha até a casa do nazista, no bairro de Olivos. Um ano após o encontro, preocupado com a segurança da filha, Hermann a envia aos Estados Unidos. Desde então, ela nunca mais retornou à Argentina e manteve o seu endereço em segredo.

Foco no Mossad

Assim como Hermann, houve outras pessoas que de alguma forma contribuíram para a operacionalidade da captura de Eichmann e que se mantiveram apagadas ao olhar nem sempre dimensional da mídia. Durante décadas, a curiosidade e o foco dos meios de comunicação estiveram voltados essencialmente para os agentes do Mossad (instituto, em hebraico), o serviço secreto israelense que respondeu diretamente pela retirada clandestina do nazista da Argentina. Para isso concorreu largamente o êxito de uma ação ousada e arriscada levada a efeito por membros de uma agência de inteligência sem o lastro e a importância de suas congêneres europeias e americana.

Consultora da exposição “Operação Final: a história da captura de Eichmann”, que ocupou por seis meses, em 2012, o Museu do Povo Judeu (Beit Hatfutsot - Casa da Diáspora), em Tel Aviv, a historiadora Neomi Izhar explica que o Mossad à época do sequestro de Eichmann era uma organização pequena, estabelecida em 1949, carente de recursos e de experiência. “Capturar criminosos nazistas não estava no topo da agenda do estado de Israel em seus primeiros dias porque o país estava ocupado em se recuperar da guerra da Independência, estabelecer-se economicamente e absorver a grande leva de imigração, principalmente de sobreviventes do Holocausto”, assinala.

A mostra idealizada sob os auspícios do Mossad reuniu mais de 100 documentos, registros, fotografias, vídeos e peças de equipamentos usados durante o processo de identificação e captura de Eichmann, até então sigilosos e jamais expostos em público. E também trouxe à luz 67 nomes, a maioria desconhecidos, de agentes e voluntários que se envolveram em uma empreitada inédita cujo maior resultado foi revelar às sociedades organizadas a tragédia do Holocausto ou Shoah (catástrofe, aniquilação, em hebraico). “Em Nuremberg, na Alemanha, os criminosos nazistas foram julgados por crimes de guerra (1945-1946)”, lembra a historiadora. “Já o julgamento de Eichmann, em Israel (1961-1962), expôs ao mundo todos os horrores da máquina nazista.”

História incompleta

Por sua vez, o curador da exposição e representante do Mossad, A. Avner, admitiu que a listagem pode estar incompleta e que surgindo novos nomes estes serão acrescidos. “Toda a história da captura de Eichmann ainda precisa ser contada”, pondera. “A cada dia descobrimos novos detalhes da operação.” Um exemplo é o caso do general Yitzhak Elron que ao visitar a exposição revelou a Avner que participou da captura de Eichmann. Adido das Forças de Defesa de Israel na Argentina à época, Elron e sua esposa Sara faziam serviço de vigilância perto da casa de Eichmann, fingindo ser um casal de namorados.

Lothar Hermann
Um fato que merece ressalva é que 70% dos envolvidos com a captura de Eichmann eram sobreviventes da Shoah, originários da Europa. Um dos personagens que tiveram papel relevante na denúncia de que o criminoso nazista vivia na Argentina sob o falso nome de “Ricardo Klement” foi um juiz alemão, Fritz Bauer (1903-1968), que por ser judeu fugiu da Alemanha quando Hitler assumiu o poder. Finda a guerra, ele retornou ao país e na década de 1960, investido na função de promotor-geral do estado de Hesse (1956), instala em Frankfurt o chamado “Julgamento de Auschwitz” que levou 22 ex-guardas daquele campo da morte para o banco dos réus.

Em 1957, atuando para que criminosos nazistas fossem localizados e levados a julgamentos, Bauer recebe a informação da presença de Eichmann em Buenos Aires através de Lothar Hermann, um alemão cego de um olho que vive na Argentina. Apesar de afirmar que era meio judeu, fugitivo do campo de concentração de Dachau e que ansiava por castigar Eichmann, sua própria filha Silvia, de mãe católica, desconhecia esse fato. A jovem, de 14 anos, frequentava a comunidade alemã de Buenos Aires, no bairro de Olivos, e conheceu um dos filhos de Eichmann, Klaus, de 18 anos, em 1954. O rapaz, o mais velho de três irmãos, ostentava tranquilamente o sobrenome do pai e ainda se gabava dos feitos do nazista.

A persistência de Bauer em avisar diretamente às autoridades israelenses sobre o paradeiro de Eichmann foi essencial à realização da missão. Ele manteve contato com o diretor adjunto do Mossad, Shlomo Cohen Abarbanel (1921-1984), e a partir de 1959 acionou o procurador-geral de Israel, Haim Cohen (1911-2002), irmão de Shlomo (ambos nascidos na Alemanha), posteriormente alçado à presidência da Suprema Corte. Em 1961, Haim escusou-se de presidir o julgamento de Echmann, alegando ser contra a pena de morte. Eichman foi condenado por genocídio e crimes contra a humanidade, sendo enforcado na prisão de Ramla, perto de Tel Aviv, em 1º de junho de 1962. Foi a única vez que o governo de Israel aplicou a pena de morte.

Buscando nazistas

Outra figura importante nesse intricado enredo foi Tuviah Friedman (1922-2011), polonês que perdeu toda a família, à exceção de uma irmã, no campo de extermínio de Treblinka. Após a guerra, ele trabalhou em Viena com Simon Wiesenthal (1908-2005) e ajudou a capturar mais de 250 criminosos nazistas. Em 1952, ele instala em Haifa o instituto de documentação e investigação de crimes de guerra e prossegue em Israel o trabalho que realizava com Wiesenthal.

Na busca por Eichmann – que o levou até a cidade de Linz, na Áustria, onde o pai do ex-oficial tinha uma loja de artigos elétricos -, Friedman oferece, em 1958, uma recompensa de 10 mil dólares por pistas do paradeiro de Eichmann. Pouco tempo depois recebe uma carta de Lothar Hermann, da Argentina, o mesmo que já havia entrado em contato com Fritz Bauer, garantindo ter informações exatas e detalhadas sobre Eichmann. Friedman alerta as autoridades israelenses e repassa os dados obtidos através de sua correspondência com Hermann.

Dois anos depois, com Eichmann preso em Israel e sem ter os 10 mil dólares para pagar pelas informações que se comprovaram verdadeiras, Friedman apela ao governo israelense que somente faz o repasse da quantia a Hermann em 1971, na administração da primeira-ministra Golda Meir (1898-1978). Em seu livro de memórias, “The Hunter” (O Caçador), publicado em 1961, Friedman conta que pesquisou milhares de documentos e entrevistou centenas de sobreviventes atrás do paradeiro de Eichmann. Mas a imagem do nazista só se materializou quando uma foto foi confiscada da casa de uma antiga namorada de Eichmann.

Identidades sob sigilo

À frente da operação de captura de Eichmann, o diretor do Mossad, Isser Harel (1912-2003), que chefiou a agência de 1953 a 1963, também sentiu a necessidade de narrar a sua experiência na coordenação da prisão de um dos nazistas mais procurados da história. Em 1975, lança o livro “The House on Garibaldi Street” (“A Casa da rua Garibaldi”), em alusão à rua onde Eichmann morava com a família, na ocasião de seu sequestro, na cidade de San Fernando, a 30 quilômetros de Buenos Aires. Apesar de ter escrito o livro em 1965, somente dez anos depois recebe o aval do governo israelense para publicá-lo (em 1979, a TV americana exibiu o filme “A captura do carrasco”, com os atores Topol e Martin Balsam, baseado no livro de Harel).

Traduzido em mais de 20 idiomas, a primeira edição do livro omitiu os verdadeiros nomes dos agentes que participaram da missão. Por uma questão de segurança, Harel recorreu a pseudônimos. Em 1997, em nova edição, o autor revela os nomes dos agentes israelenses e dos voluntários latino-americanos da operação, citando ainda o juiz alemão Fritz Bauer e sua fonte, Lothar Hermann, ambos à época, já falecidos.  Logo na primeira página, Harel fixa a data de 1957 como o marco inicial de sua jornada, quando é informado pelo diretor-geral do ministério de Relações Exteriores, Walter Eithan, que Adolf Eichmann, desaparecido desde 1945, está na Argentina e que seu endereço é conhecido.

Também em 1997, mais detalhes sobre a preparação e execução do sequestro de Eichmann são revelados no livro “Operation Eichmann: Pursuit and Capture” (Operação Eichmann: perseguição e Captura), escrito por Zvi Aharoni (1921-2012),  agente do Shin Bet ( o serviço de segurança de Israel), em parceria com o jornalista alemão Wilhelm Dietl.  Especialista em interrogatórios, Aharoni nasceu em Frankfurt e seu nome original era Hermann Arendt. Enviado à Argentina, em março de 1960, para localizar e identificar Eichmann, coube a ele - integrante de um grupo de seis agentes comandado por Rafi Eitan, falecido em 2019 - dirigir o carro que conduziu Eichmann ao local em que ficaria detido por nove dias antes de ser transportado clandestinamente a Israel em um avião da companhia aérea israelense El Al.

Vivendo na Inglaterra desde 1988, Aharoni contou ao correspondente Avner Avrahami, do jornal israelense “Haaretz” (2010), que Harel, no duplo comando do Mossad e do Shin Bet, estava decidido a encerrar o caso Eichmann por achar que os resultados não tinham sido conclusivos em relação às suspeitas de que “Ricardo Klement” seria o criminoso nazista. Mas, sob a pressão do procurador-geral Haim Cohen, que convocou uma reunião de urgência em Jerusalém, em dezembro de 1959, e o interesse manifestado pelo primeiro-ministro Ben Gurion, o assunto voltou a ser prioridade e Aharoni foi despachado para a Argentina. Vinte dias depois, ele retornava a Israel com a fotografia de Eichmann no quintal de sua nova casa, em San Fernando: um local isolado e ermo, bem diferente do bairro de Olivos, em Buenos Aires, onde o fugitivo residiu com a família por seis anos.

De frente para o carrasco

Faixa preta de judô e especialista em explosivos, o polonês Peter Z. Malkin  perdeu grande parte de sua família no campo de extermínio de Auschwitz. Em maio de 1960, aos 33 anos, ele foi enviado pelo Mossad à Argentina para integrar a equipe incumbida de capturar Eichmann. Por muitos dias ele observou os hábitos e a rotina diária de Eichmann. Na noite do sequestro, Malkin aguardou o regresso do nazista da fábrica da Mercedez Benz onde trabalhava e o interceptou pessoalmente no trajeto a sua residência. No livro “Eichmann in My Hands” (Eichmann em minhas mãos), escrito em 1990, com a colaboração do jornalista americano Harry Stein, o agente revela que comprou um par de luvas para a abordagem: “Eu não ia usar as minhas mãos para tapar a boca de quem deu a ordem para assassinar a minha irmã, seus filhos e tanta gente”, justificou.

Ao longo dos noves dias em que Eichmann foi interrogado e permaneceu escondido sob a vigilância dos agentes do Mossad, aguardando o momento em que seria transferido para Israel, Malkin teve a oportunidade de ficar frente a frente com o carrasco e lhe dizer que o objetivo da missão era levá-lo a Jerusalém para ser julgado por suas ações. “Eu disse a Eichmann que não tínhamos nada contra a sua família e que poderíamos tê-lo matado com um tiro pela janela.” Malkin também presenciou situações curiosas. Segundo ele, Eichmann não demonstrava arrependimento e somente pedia desculpas, constrangido, cada vez que necessitava utilizar o banheiro. Também havia no grupo uma agente, Yehudit Nesiahu, de origem holandesa, que representava o papel de esposa para não despertar desconfiança nos vizinhos. Por ser muito religiosa, a comida era “kasher” (quando os alimentos são preparados de acordo com os preceitos judaicos). Malkin lembra que dizia para ela: “Por que você faz questão de que a comida seja kasher. A comida é para Eichmann.”

O livro, traduzido em 10 idiomas, foi dedicado a irmã Fruma, e virou filme, em 1996 - “The Man Who Captured Eichmann” (O homem que capturou Eichmann) -, com o ator Robert Duvall no papel de Adolf Eichmann. Durante muito tempo, Malkin manteve em segredo sua associação com o Mossad e a sua função de captor de Eichmann. Mas, em 1967, ele quebrou o silêncio no leito de morte de sua mãe. “Eu sussurrei para ela: mamãe, Fruma foi vingada.” Malkin faleceu em Nova York em 2005, aos 77 anos.

Julgamento em Jerusalém

Preso em Israel, Eichmann foi interrogado por vários meses em sua cela pelo oficial da polícia Avner Less (1916-1987). Em 1983, Less publicou trechos dos interrogatórios no livro “Eichmann Interrogated” (Eichmann Interrogado), levado às telas de cinema em 2007 (“Eichmann”). Para a historiadora Déborah Lipstadt, que já presidiu o Museu do Holocausto de Washington, o filme inglês protagonizado pelo ator alemão Thomas Kretschmann minimiza o papel de Eichmann na Shoah, ao editar e dramatizar extratos parciais dos interrogatórios. Atualmente, os interrogatórios podem ser consultados, na íntegra, nos arquivos israelenses.

A historiadora americana, autora do livro “The Eichmann Trial” (O Julgamento de Eichmann), de 2011, acompanha a vertente exploratória do jornalista Neal Bascom a respeito dos papéis decisivos desempenhados por Lothar Hermann, sua filha Sílvia, e do juiz Fritz Bauer na captura de Eichmann. Lipstadt escreve que contrariando a ideia geral de que o criminoso de guerra foi descoberto por caçadores profissionais de nazistas, a prisão de Eichmann ocorreu principalmente por conta da teimosia de um cego imigrante meio-judeu, da filha adolescente que não sabia de sua herança judaica, e do juiz alemão de Frankfurt que escondia o fato de ser judeu.

Professora de estudos sobre Holocausto na Universidade de Atlanta, Lipstadt acredita que a polícia secreta argentina tinha conhecimento de que um contingente de agentes israelenses havia chegado ao país e que poderia estar envolvido em alguma atividade secreta. Ela pondera que alguns dias depois do anúncio público de Ben Gurion sobre a captura de Eichmann, a revista “Time” publicou reportagem com riqueza de detalhes descrevendo toda a operação. “Os agentes policiais argentinos que acompanhavam de longe o sequestro e sabiam o lugar onde Eichmann estava escondido foram a fonte de informação da revista”, afirma. Para Lipstadt o governo da Argentina ficou até “feliz” com a ação dos israelenses de tirar Eichmann do país “com as próprias mãos”.

Entretanto, a historiadora observa que o avião da El Al levando Eichmann não parou em Recife para abastecer, conforme o plano oficial de voo. Isso porque o chefe do Mossad, Isser Harel temia que as autoridades argentinas pudessem avisar à polícia brasileira e o avião ficasse detido. A parada técnica ocorreu em Dacar, no Senegal, e dali o avião seguiu direto para o aeroporto de Lod, atual aeroporto internacional Ben Gurion, em Tel Aviv.

Vale lembrar que em 25 de maio de 1960 a Argentina comemorava os 150 anos de sua independência e que delegações oficiais de vários países, inclusive a de Israel, chefiada pelo chanceler Abba Eban, foram convidadas para as festividades, o que justificaria o deslocamento de agentes. No caso da equipe do Mossad, os agentes chegaram a Buenos Aires em voos diferentes e sob nomes falsos na última semana de março, dois meses antes das comemorações e 45 dias antes da captura. À meia-noite do dia 20 de maio, o mesmo avião da El Al que trouxe a delegação israelense, no primeiro vôo da companhia à América do Sul, decolou com Eichmann a bordo, instalado na primeira classe, rumo a Israel.

Novos documentos

Em 2011, documentos confidenciais sobre o caso Eichmann foram autorizados para consulta após a Corte Federal de Leipzig permitir o exame de 3.400 páginas mantidas até então sob sigilo pelo serviço secreto da Alemanha (BND, sigla em alemão). O tribunal decidiu por atender à solicitação da jornalista alemã Gabriele (Gaby) Webber, correspondente em Buenos Aires, avaliando que a liberação de documentos dos anos 1950 e 1960 não traria danos à imagem e a política externa da Alemanha (100 páginas, porém, ainda permaneciam secretas, em 2014, por decisão lavrada em 2013 por uma Corte federal alemã). Nos EUA, em 2005, o serviço secreto americano (CIA) já havia tornado acessível ao público os documentos sobre Eichmann e outros criminosos nazistas.

Pesquisando nos arquivos alemães, Webber publica em 2013 o livro “Los Expedientes Eichmann” (Os documentos Eichmann) e garante, de forma surpreendente, que o carrasco nazista era um agente que fornecia informações para a Alemanha e Israel, semelhante a outros ex-oficiais do regime de Hitler que no pós-guerra transmitiram segredos militares e logísticos aos serviços secretos ocidentais.

Em entrevista à “Télam” (antiga agência nacional de notícias do governo da Argentina), em 15.01.2014, e ao jornal “Clarin” (30.04.2014), Weber sustenta que nunca houve uma caçada aos nazistas na Argentina e que os espiões da Alemanha e da Argentina sabiam, desde 1952, onde viviam e o que faziam Eichmann e seus amigos. Uma informação que a partir de 1958, segundo a jornalista, passou a ser compartilhada pelo Mossad, CIA e o KGB, o serviço secreto da antiga União Soviética. Ela chama a atenção para o fato de que apesar de os nazistas entrarem no país com nomes falsos, seus filhos mantiveram seus nomes verdadeiros, estudando e trabalhando normalmente.

Weber também questiona o silêncio de Eichmann durante o julgamento em Jerusalém quanto à presença de Hans Globke e de outros funcionários com passado nazista no alto escalão do governo do democrata-cristão Konrad Adenauer (1876-1967), destacando que a Alemanha mantinha importantes acordos políticos, tecnológicos e diplomáticos com Israel. Globke foi secretário de Estado de Adenauer (mandato de 1949 a 1963) e redator das leis raciais de Nuremberg, em 1935, que deram consistência legal à perseguição e expropriação de bens dos judeus na Alemanha e nos países invadidos pelas tropas de Hitler.

A jornalista raciocina que Eichmann ficou calado sobre assuntos correlatos que mesmo não estando em julgamento poderiam se tornar complicadores para as relações entre os dois países, se o réu se dispusesse a falar. Ela cita a cooperação nuclear entre Israel e a Alemanha para a construção de uma central atômica no deserto de Neguev; o acordo vigente desde 1952 para o pagamento reparatório de 3 bilhões de marcos (equivalentes a 1,5 bilhão de euros) aos sobreviventes da Shoah (o regime nazista confiscou propriedades e bens de milhões de vítimas no maior roubo de um estado totalitário contra os seus cidadãos); e o papel dos nazistas na chamada guerra fria - período que vai de 1949 a 1991 – envolvendo espionagem e disputas estratégicas entre os EUA e a União Soviética.

Ressalte-se ainda que dez dias antes da chegada dos agentes do Mossad à Argentina, um encontro no Hotel Waldorf Astoria, em Nova York, em 14 de março de 1960, reuniu Ben Gurion e Adenauer aparentemente para acertos de um empréstimo da Alemanha para o desenvolvimento de um reator nuclear na cidade de Dimona, no Neguev. O tema da reunião, todavia, permanece incerto devido à falta de um expediente administrativo registrado naquela data.  

“O arquiteto do extermínio”

Reforçando a importância da ação realizada pelo Mossad, o antigo diretor do Centro Simon Wiesenthal (CSW),  de Buenos Aires, e atual diretor para a América Latina da organização humanitária JDC (American Jewish Joint Distribution Committee),Sergio Widder, assegura que Eichmann foi a pessoa encarregada de levar adiante o projeto de extermínio massificado e sistemático do povo judeu e em razão disso foi procurado, capturado e levado a julgamento em Jerusalém. “O programa de aniquilamento foi protocolado na conferência de Wannsee (bairro nos arredores de Berlim), em janeiro de 1942. Uma reunião onde a hierarquia nazista pôs por escrito, em atas, a decisão de exterminar os judeus na Europa. Coube a Eichmann, presente ao encontro, implementar o genocídio. Ele foi o arquiteto da solução final”, atesta Widder.

Sergio Widder, do Centro Simon Wiesenthal
Em um debate na TV argentina (28.10.2012) com a participação da autora de “Los Expedientes Eichmann”, Widder destacou o trabalho do Mossad, a despeito das consequências que naturalmente poderiam ocorrer no âmbito diplomático (como de fato aconteceu, com o governo argentino protestando em foros internacionais). “Supor que somente a identificação e localização de Eichmann conduziriam automaticamente a um julgamento não seria crível naquele momento” avalia. “A captura e o feito de levá-lo a julgamento em Jerusalém constituíram um marco na história dos direitos humanos. Os processos que vieram a seguir, vinculados a violações contra pessoas e grupos tiveram como ponto de referência esse julgamento.”

Widder também elogiou a linha de ação adotada pelos agentes do Mossad. “Assim como o capturaram e o transportaram para Israel, poderiam tê-lo assassinado. Não advogo essa opção, mas isso seria possível. De todos os modos, decidiu-se por fazer um julgamento público. Aí está um valor que se sobrepõe a qualquer vingança”, observou. Opinião compartilhada pela jornalista alemã: “Foi a primeira vez que o Holocausto foi trazido à discussão pública em Israel”, disse Webber. “E para as vítimas foi importante que um membro do estado nazista houvesse sido preso e julgado. Para a Europa foi igualmente importante porque nos anos 1950 e 1960 ninguém queria lembrar Hitler, situação que mudou com a captura de Eichmann.”

Iniciado em 11 de abril de 1961, o julgamento de Eichmann consumiu oito meses durante os quais foram apresentados os depoimentos de mais de cem testemunhas de acusação, duas mil provas e 3.500 páginas de registros da polícia israelense. Pela primeira vez a Shoah foi mostrada ao mundo em toda a sua brutalidade e horror. “Às vezes, um dos principais objetivos de um processo é, realmente, ensinar um país sobre o seu passado e promover a introspecção pública”, escreve Mark Freeman, um advogado canadense e consultor internacional em questões de direitos humanos, autor da obra “Truth Commissions and Procedural Fairness” (Comissões da Verdade e justiça processual), publicada em 2006. Também a especialista em direitos humanos e professora de Direito da Faculdade de Tel Aviv, a israelense Leora Bilsky, considera o julgamento em Jerusalém um legado para  Israel e a humanidade. “O conhecimento abstrato sobre a Shoah se tornou real através das vozes autênticas dos sobreviventes. A história se transformou em memória coletiva.”

Execução reacende antissemitismo

Silvia Hermann
Em 15 de dezembro de 1961, Eichmann foi considerado culpado e condenado à morte. Executado por enforcamento, em 31 de maio de 1962, seu corpo foi cremado e as cinzas espalhadas no mar, além das águas territoriais do estado de Israel. Na Argentina, a morte de Eichmann foi seguida por mais de trinta ataques a alvos judaicos como sinagogas e escolas. Um acampamento de estudantes foi invadido por vândalos que surraram os jovens. Muros de propriedades judaicas foram pichados com suásticas e as ameaças se tornaram rotineiras. Grupos neonazistas empunhavam cartazes com os dizeres: “Queremos Eichmann de volta”.

Um dos mais brutais atentados ocorreu contra uma jovem de origem judaica de 19 anos, Graciela Narcisa Sirota, estudante da Faculdade de Ciências da Universidade de Buenos Aires. Ela foi raptada, em 21 de junho de 1962, em um ponto de ônibus por três homens e torturada em um local desconhecido. A jovem teve o seio direito deformado pelos criminosos que o marcaram com uma suástica. Os bandidos também queimaram várias partes de seu corpo com pontas acesas de cigarros, deixando-a jogada na rua, desacordada, longe do centro da cidade.

Pouco tempo depois desse terrível episódio, outro caso envolvendo uma jovem de família judaica assustou os judeus argentinos. A jovem Mirta Penjerek, de 16 anos, desaparecida havia mais de um mês, foi encontrada sem vida no início de julho em um terreno baldio nos arredores de Buenos Aires, o corpo em progressivo estado de deterioração. Ela foi vista pela última vez ao sair da aula de inglês, algumas quadras de sua residência. A polícia, acionada pela família, seguiu várias pistas, mas não foi conclusiva quanto aos possíveis criminosos, permanecendo o crime impune.

Em 2000 - mais de três décadas após esses deploráveis acontecimentos,  acrescidos, infortunadamente, por dois sangrentos atentados terroristas em Buenos Aires que destruíram a embaixada de Israel (1992) e o prédio do centro judaico Amia (1994), causando mais de uma centena de mortos e 550 feridos -, o presidente da Argentina, Fernando de La Rúa, em visita aos EUA, foi até o Museu do Holocausto em Washington e depositou uma coroa de flores em homenagem às vítimas. Na capital americana, antes de seu encontro com o presidente Bill Clinton, La Rúa pediu desculpas públicas pelo abrigo que seu país deu aos nazistas. "Hoje, diante de todo o mundo, quero expressar meu mais sincero pesar e dizer que lamento que isso tenha acontecido", falou o líder argentino, 76 anos, que comandou o país de 1999 a 2001.

Contudo, ainda que cause indignação e se lastime a onda de antissemitismo que assolou a comunidade judaica da Argentina nos anos seguintes (o que ocasionou uma grande imigração para Israel), a captura e o julgamento de Eichmann provaram-se, na prática, ações de um inegável valor histórico, social e transformador. Criou-se um novo parâmetro a respeito de crimes institucionais coletivos praticados por estados e governos totalitários. A presença de testemunhos (as vítimas) como provas acusatórias moldou uma nova consciência global para os chamados “crimes contra a humanidade”, tornando-os imprescritíveis de acordo com a resolução 2391 adotada pela Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em 26 de novembro de 1968. Norma internacional defendida pelo procurador-geral da República do Brasil, Rodrigo Janot (“Consultor Jurídico”, em 19.10.2013).

Foi também a partir da visibilidade do julgamento de Eichmann em Jerusalém que aos poucos foram sendo criadas as “Comissões da Verdade” para investigar violações dos direitos humanos em uma série de países, principalmente na América Latina e na África, onde seus cidadãos foram vítimas de perseguições e torturas de agentes policiais e militares. E por fim, o histórico julgamento em Jerusalém rasgou o véu de silêncio que cobria a maior tragédia moderna sucedida em solo europeu e deu ânimo e amparo legal para que o incansável Simon Wiesenthal, de seu pequeno escritório em Viena, prosseguisse na busca aos carrascos nazistas, tarefa a qual se dedicou inteiramente até a idade de 94 anos.

Atualizado em 2025

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Ecos de um passado presente - A Argentina de Uki Goñi

Por Sheila Sacks

Mantido em segredo por 67 anos, somente em 2005 o governo argentino revogou o documento que negava a entrada de judeus perseguidos pelo regime nazista

(Publicado no Observatório da Imprensa sob o título 'O jornalismo que reescreve a história')

https://www.observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/_ed798_o_jornalismo_que_reescreve_a_historia/

Exército argentino (1940)
“Como um argentino crescendo nos Estados Unidos e na Irlanda, eu era hostilizado pelos colegas de escola. – É onde todos os nazistas estão, diziam referindo-se à Argentina”. Quem conta essa passagem de sua adolescência, em recente entrevista ao “Boston Review”, é o jornalista e pesquisador Uki Goñi, 61 anos, correspondente do jornal britânico "The Guardian" e autor do best-seller “A Verdadeira Odessa – o contrabando de nazistas para a Argentina de Perón”.

Lançado em 2002 (The Real Odessa, em inglês), o livro demandou seis anos de pesquisas e levou o autor a cidades como Bruxelas, Berna, Berlim, Londres, Maryland (EUA), além da própria Buenos Aires. Vasculhando arquivos oficiais como os da Cruz Vermelha Internacional, consultando documentos confidenciais, inclusive informes da CIA (central de inteligência americana), e buscando testemunhos que comprovassem a existência de uma organização de resgate de nazistas, Goñi se deparou com o que ele definiu de a “verdadeira” Odessa, em alusão ao romance “O Dossiê Odessa”, do escritor inglês Frederick Forsyth, publicado há mais de 30 anos.

Guardando semelhanças com a ficção (Forsyth foi correspondente da agência Reuters e a suposta Odessa seria a sigla de ‘Organisation der ehemaligen SS- Angehörigen’ – Organização de Antigos Membros da SS), o jornalista argentino descobriu uma estrutura bem planejada que não somente abrigava homens da SS (Schutzstaffel – a tropa nazista de Hitler), mas criminosos de guerra da língua francesa e fascistas croatas. Uma rede operativa que contou com o beneplácito da ditadura peronista (1946-1955) e se relacionava com setores do Vaticano, agências de inteligência dos Aliados e grupos secretos argentinos.

Isolamento e dificuldades


Se o início das pesquisas - que redundou em 22 mil páginas de documentos e 260 entrevistas (uma delas com Wilfred van Oven, secretário particular de Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler) devidamente digitalizadas pelo Museu do Holocausto de Washington (USHMM) e disponíveis para consulta pública desde 2012 – se deu em função de uma reportagem, em 1996, para “The Sunday Times” de Londres (sobre a história de um passaporte encontrado na Patagônia que teria sido usado por Martim Bormann, o segundo homem mais importante do III Reich, depois de Hitler, em sua fuga para a América do Sul), em 2014, passada mais de uma década da primeira edição do livro, o silêncio de seus compatriotas incomoda o jornalista que vive em Buenos Aires desde 1975.

“O livro me fez ficar sem amigos na Argentina. Absolutamente sem amigos. Para se ter uma ideia, sou constantemente procurado por acadêmicos e estudiosos dos Estados Unidos e da Europa. Falei em universidades americanas, na Alemanha, em Manchester (Inglaterra) e Salzburgo (Áustria). Mas aqui...nada. Eu nunca fui convidado para falar a estudantes de história em qualquer lugar do país e nenhuma universidade ou pesquisador da Argentina se aproximaram de mim.  E isso é meio chocante”, desabafa Goñi na reportagem (“Political Hatred in Argentina” – Ódio político na Argentina, em tradução livre/17.02.2014).

O jornalista acredita que a obra produziu uma espécie de isolamento público apesar das pessoas estarem conscientes da importância de seu trabalho. Goñi ressalta ainda que os acessos aos arquivos na Argentina “foram difíceis” (as pastas com dados sobre imigração, por exemplo, foram queimadas em 1996), diferente das condições existentes nos outros países consultados.

Segredo de estado

Manifestação nazista em Buenos Aires
(1938)
Com edições em inglês, espanhol, alemão, italiano, esloveno e português, o livro serviu de base aos documentários “Rise of the Fourth Reich” (Ascensão do IV Reich), do “History Channel” (2009), e “Elusive Justice: The Search for Nazi War Criminals” (Justiça enganosa: A busca por criminosos de guerra nazistas, em tradução livre), de 2011, provocando reações na Itália, Holanda e na própria Argentina, a partir de registros envolvendo a arquidiocese de Gênova, a companhia aérea KLM e a Casa Rosada, entre outras instituições e órgãos governamentais, na preparação e operacionalidade das rotas de fuga dos nazistas para a Argentina.

Suspeita-se que centenas de colaboradores nazistas de várias nacionalidades fugiram da Europa para a Argentina entre 1945 a 1955 (entre 6 a 8 mil ‘refugiados’, de acordo com alguns historiadores), dentre eles 180 criminosos de guerra (30 alemães, 50 croatas e 100 franceses), segundo um informe da Ceana (Comisión para el Esclarecimiento de las Actividades del Nazismo en Argentina), que funcionou de 1997 a 1999 sob os auspícios do governo argentino. Goñi, porém, contesta a cifra e afirma que suas investigações identificaram 300 criminosos de guerra (incluindo austríacos, belgas, romenos, húngaros, noruegueses), muitos deles já condenados que se abrigaram no país.


Sabe-se que tanto Josef Mengele, conhecido como o “anjo da morte” por transformar prisioneiros em cobaias humanas nos campos de concentração, como Adolf Eichmann, o responsável pela “solução final” que implicaria na eliminação dos judeus da Europa, ambos entraram na Argentina com passaportes expedidos pela Cruz Vermelha Internacional, o primeiro em 1949, e o segundo em 1950.

Por outro lado, uma circular instituída pela chancelaria argentina, em 12 de julho de 1938, e enviada a todos os seus consulados e embaixadas proibindo a entrada de judeus no país, funcionou como um decreto de morte para 200 mil judeus que ficaram a mercê de Hitler depois da anexação da Áustria pela Alemanha. Também 100 judeus de cidadania argentina foram impedidos de retornar à Argentina. O documento que levava o carimbo de “estritamente confidencial” foi descoberto nos arquivos da embaixada argentina em Estocolmo, em 1998, pela historiadora Beatriz Gurevich, que fez parte da Ceana.

Porém, em virtude de desentendimentos com a comissão, a pesquisadora demitiu-se e o documento considerado “segredo de estado” só veio a público quatro anos depois com o livro de Goñi, a quem Gurevich enviou uma cópia. Mas, o infame memorando só foi revogado em 8 de junho de 2005 - após 67 anos de vigência secreta - em cerimônia na Casa Rosada presidida por Néstor Kirchner, atendendo petição encabeçada pelo jornalista.

Netos da Guerra

Atentado à embaixada de Israel
(17.03.1992)
Recentemente, Goñi passou algum tempo na Alemanha recolhendo material para documentários e conversou bastante com estudantes cujos avós vivenciaram a era nazista, encontrando semelhanças com o que tem observado na Argentina. “Eu ouvia muitas crianças dizendo: Por que devemos nos preocupar? São meus avós, por que você está falando sobre isso? Por que deveríamos estar pagando esse dinheiro aos judeus por algo que aconteceu 60 anos atrás? E o que isso tem a ver comigo?”

Mas, de acordo com o jornalista, se ele encontrou uma geração de netos que não quer saber o que os avós disseram e fizeram (‘Isso não tem nada a ver comigo; por que estão sempre atacando a Alemanha?’), há também aqueles que realmente se mostram interessados em conhecer o passado e puderam conversar com seus avós. “Existe uma ligação especial entre um neto e um avô o que permite uma maior franqueza”, avalia Goñi que protagonizou um drama familiar ao revelar a existência de um documento secreto conhecido como a Diretiva 11.

Neto do embaixador Santos Goñi - que no início da década de 1940 servia no consulado da Bolívia -, o pesquisador revela no livro que durante os anos em que seu avô ficou em La Paz, de 1939 a 1944, o diplomata teve de lidar com um grande número de pedidos de judeus da Europa que queriam entrar na Argentina pela Bolívia, em razão das dificuldades para a obtenção de vistos na Alemanha. Contudo, em razão desse documento que vedava a entrada de judeus no país, o embaixador negou os vistos a todos os fugitivos em obediência às ordens da chancelaria argentina. Estes, desesperados, tentavam atravessar a fronteira da Argentina clandestinamente, a pé, e muitos foram roubados, assassinados ou abandonados pelos guias que contratavam para a travessia.

Atentado ao centro judaico AMIA
(18.07.1994)
Uma das situações que impressionou o avô foi o caso de uma bela jovem que após oferecer as suas jóias e implorar pelo visto, tirou a roupa e ficou nua frente a ele. Esta e outras histórias aflitivas contadas por seu avô – que morreu em 1955 - sobre os judeus que se lançavam à aventura temerária de atravessar a fronteira, a partir da Bolívia, foram confirmadas pelo escritor ao encontrar documentos a respeito no subsolo do Ministério do Interior em Buenos Aires. Goñi reconhece que houve um fator muito pessoal no seu pedido de revogação da Diretiva 11 porque seu avô foi um dos muitos diplomatas de carreira que aplicaram a ordem, “imbuído de um senso de obediência à moda antiga”.

“Fechar os olhos”

Na conclusão de seu livro, Goñi afirma que decidiu escrever “A Verdadeira Odessa” por estar “exasperado” pela falta de justiça contra os crimes cometidos pela ditadura (1976-1983), quando “20 mil pessoas desapareceram nos campos de morte da Argentina” (no período, ele trabalhou no ‘Buenos Aires Herald’, de língua inglesa), e também “pelos fatais atentados a bomba contra a embaixada de Israel (1992) e o centro judaico AMIA, em Buenos Aires, em 1994 – o ataque mais mortal contra um alvo judeu desde o Holocausto, matando 86 pessoas”. Em 1998, o autor já tinha se iniciado no tema ao publicar “Perón y los alemanes” que não provocou o debate que ele esperava. “Vi-me obrigado a cavoucar o passado para traçar um gráfico do longo aprendizado dos argentinos no ato de fechar os olhos diante do mal.”

Goñi , no centro, consulta arquivos
(Áustria - 2012) 
Com uma sinceridade que chega a ser constrangedora, Goñi não poupa nem a si mesmo. Logo após a publicação do livro, em entrevista à correspondente Noga Tarnopolsky para “The International Raoul Wallenberg Foundation” – organização não governamental que promove os valores humanos de coragem e solidariedade que marcaram os salvadores do Holocausto – ele confessou: “É difícil dizer e difícil de as pessoas aceitarem, mas devo dizer que eu mesmo sou antissemita por causa da educação que tive e também porque isso faz parte da sociedade onde tenho vivido.” Para o jornalista, se antes ele negava que existia qualquer tipo de antissemitismo na Argentina porque assim acreditava, depois da extensa pesquisa realizada sua opinião é que a sociedade argentina precisa lidar com o problema do antissemitismo, que é disseminado, se quiser se tornar um corpo social democrático e transparente.

Atualmente vivem 187 mil judeus na Argentina. Uma redução expressiva, considerando-se que em 1950 o número registrado era de 310 mil, conforme dados da Agência Judaica (The Jewish Agency).