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terça-feira, 8 de março de 2011

Xerifes urbanos contra os senhores do crime

por Sheila Sacks
Publicado no Portal da Federação Nacional dos Policiais Federais - FENAPEF

De tempos em tempos chegam à superfície ecos de supostas lambanças ocorridas nos subterrâneos da área da segurança pública em sua permanente batalha contra o crime organizado. Transitando por uma complexa rede de conexões que se interligam em voltagens diversas, se isso é possível, agentes públicos responsáveis por manter a ordem e a lei muitas vezes são levados a percorrer um intrincado e ambíguo sistema de alta tensão povoado de peças à margem da esfera oficial, mas nem por isso menos capazes de provocar curto-circuitos e panes avassaladoras à estrutura e hierarquia organizacionais estabelecidas.


As inevitáveis notícias que dali surgem, em um primeiro momento, e que a mídia transfere ao público, tendem a ganhar novas conotações e desdobramentos com o passar dos dias, muito deles contraditórios em relação aos primeiros publicados, em razão da entrada de outros dados vindos de fontes diferentes. Entretanto, o imediatismo e a dinâmica que regem o jornalismo diário muitas vezes interferem e precipitam decisões no âmbito administrativo do Estado, preocupado em dar por encerrado o episódio. Mas aí o estrago está feito e, com verdades reveladas ou não, sobram chamuscados a instituição e os personagens envolvidos.


Muito antes do fenômeno Tropa de Elite, filme brasileiro de 2007 construído a partir do livro Elite da Tropa (escrito por ex-policiais e um ex-secretário de Segurança), que enfoca as contradições morais e éticas que permeiam as ações de um batalhão de operações especiais no Rio de Janeiro, um seriado de TV de temática semelhante alcançava picos de audiência e arrebatava os mais importantes prêmios da televisão norte-americana. Isso, nos idos de 2002, quando o canal a cabo FX, da Fox Entertainment Group, lançou sua primeira série original, The Shield (O distintivo, em tradução livre), um trabalho audacioso assinado pelo jovem roteirista Shawn Ryan (no Brasil, o seriado foi apresentado no canal pago AXN).


Pressão da mídia e interesses políticos


À época com 36 anos, Ryan se inspirou em uma divisão do Departamento de Polícia da cidade de Los Angeles para mostrar, de forma intensa e incisiva, o dia-a-dia de cão de uma delegacia policial e de um eficiente e seleto grupo de profissionais que se utiliza de métodos violentos e pouco convencionais no combate ao crime e ao tráfico de drogas. Por sete anos e ao longo de 88 episódios, os telespectadores puderam acompanhar o périplo tenso e angustiante de policiais em mortificantes conflitos com os princípios morais e os valores éticos representados por suas insígnias e a realidade cruel e impiedosa que embrutece seus atos, congela seus sentimentos e conspurca de fel suas vidas nos âmbitos profissionais e familiares.


O fictício distrito de Farmington constituiu-se no perfeito microcosmo de centenas de centros urbanos existentes no planeta onde traficantes, viciados, aliciadores, informantes, denunciantes, desempregados, prostitutas e degenerados convivem em bolsões de pobreza ao lado de crianças e jovens provenientes de famílias desestruturadas pelo consumo de drogas e pelo subemprego que avilta e corrompe. Em outro patamar, atuando sobre esses conglomerados humanos, profissionais pagos pelo Estado para gerenciar a aplicação das leis e assegurar a ordem social se veem às voltas com situações em que o bom senso e o padrão regular de ações se revelam insuficientes ou inócuos. Fustigados por interferências de fatores díspares, que vão desde a pressão da mídia até ao assédio de interesses políticos e econômicos, os chamados homens da lei travam uma dura e dúbia batalha interior e que, no cômputo final, se revela, na maioria das vezes, desesperada e solitária.


A influência das redes ilícitas


No livro Ilícito (2005), o analista político Moisés Naim, 59, editor-chefe por mais de 10 anos da conceituada revista Foreign Policy, identifica as transformações tecnológicas e a abertura de mercados ocorridas nos anos 90 como fatos marcantes que propiciaram o advento de um tipo de crime mais evasivo e poderoso, que entrelaça "intimamente" redes ilícitas a atividades lícitas do setor privado, da área pública e do sistema político. "Eventos políticos como a queda do muro de Berlim, a derrocada da União Soviética, a multiplicação de nações que se democratizaram, a política liberal e o livre mercado, tudo isso associado à introdução de novas tecnologias, favoreceram não só a expansão do crime global como, graças à sua capacidade de acumular lucros colossais, torná-lo também uma poderosa força política."


Nascido em Caracas, Naím foi ministro da Indústria e de Comércio da Venezuela, diretor do Banco Central e diretor-executivo do Banco Mundial na década de 1990, antes de fixar residência nos Estados Unidos. Doutor em Ciências Econômicas pelo Massachusetts Institute of Technology, ele é autor de 10 livros sobre economia e política internacional e atualmente mantém uma coluna semanal no jornal espanhol El País, reproduzida em diversas mídias da América Latina, inclusive no site Observatório da Imprensa. Best-seller traduzido para 18 idiomas, o livro, que apresenta um longo subtítulo – "O ataque da pirataria, da lavagem de dinheiro e do tráfico à economia global" – serviu de base para o documentário Illicit: The Dark Trade, produzido pelo canal National Geographic e premiado com o Emmy Award de 2009.


Entre outras constatações, Naím observa que os criminosos globais mudaram o mundo, ainda que os governos custassem a perceber o teor dessas transformações. Ele alerta para o fenômeno: "À medida que as redes ilícitas se expandem em direção a empresas privadas lícitas, partidos políticos, parlamentares, governos locais, grupos de comunicação, tribunais, exército e setores beneficentes, elas assumem uma influência poderosa – e, em certos países, sem igual – nas questões de Estado."


Uma máquina gigantesca


Tudo começou no início dos anos 1990, quando o comércio ilícito global criou os mesmos mecanismos que as organizações terroristas internacionais – como a Al-Qaida e a Jihad Islâmica – já utilizavam. As hierarquias fixas foram substituídas por redes descentralizadas; líderes autoritários, por agentes e células múltiplas relacionados e dispersos; linhas rígidas de controle, por transações em constante transformação, de acordo com as oportunidades. Segundo Naím, em países em desenvolvimento e naqueles que fizeram a transição do comunismo, as redes criminosas frequentemente constituem o capital investido mais poderoso que confronta o governo. E, em alguns países, os traficantes e seus sócios controlam os partidos políticos, dominam importantes meios de comunicação, são os maiores filantropos por trás das organizações não-governamentais (ONGs) e tornam-se "o grande empresariado" nacional.


Há ainda a internet. Para o crime organizado, um presente do céu. Naím ressalta que essa tecnologia é de um valor "imenso" para os traficantes e o comércio ilegal. "Aqueles que se envolvem em transações ilícitas, comunicam-se uns com os outros fazendo uso da privacidade e do anonimato de contas de e-mail, alteradas com frequência e acessadas de cibercafés e outros lugares impenetráveis. A internet permite que os traficantes se comuniquem reservada e eficientemente a fim de operar quantas transações sejam possíveis, tanto no espaço virtual quanto no real, e cria novas formas de movimentar e ocultar bens."


Maior mercado mundial de cocaína, correspondendo a quase 40% do total de consumidores da droga, os Estados Unidos há duas décadas vêm combatendo esse tipo de ilícito dentro e fora de suas fronteiras. Naím cita Washington como o centro da guerra contra as drogas, com milhares de funcionários federais contratados exclusivamente para combater o tráfico e impor a lei. São agentes da DEA (Drug Enforcement Administration, agência antidrogas dos Estados Unidos), funcionários da secretaria antidrogas da Casa Branca, especialistas em drogas do ICE (Immigration and Customs Enforcement – Departamento de Imigração e Alfândega), policiais federais, serviço secreto, FBI e a Guarda Costeira, para citar alguns. Uma máquina gigantesca que consome 20 bilhões de dólares anuais apenas em nível federal, na luta contra o uso e o comércio das drogas. No entanto, ressalta o analista, a poucos minutos desses escritórios estão os 60 pontos de venda de drogas que Washington abriga a céu aberto e que atendem os moradores de classe média, além de revendedores e intermediários que levam o produto para bairros ainda mais abastados.


O lucro ilícito gerando atividades legais


Em abril de 2009, poucos meses após a sua eleição, Barack Obama visitou o México para conversar com o presidente Felipe Calderón sobre a intensificação no combate ao comércio das drogas e à venda ilegal de armas vindas dos EUA que abastecem os cartéis mexicanos. Dois anos depois, amargando mais de 34 mil mortes na guerra contra o narcotráfico, sendo 15 mil somente em 2010, Calderón criticou as agências do governo norte-americano, como CIA e DEA, por sua suposta incapacidade de colaborar na guerra contra o narcotráfico. "A realidade é que eles não se coordenam. São rivais", disse Calderón (agência Reuters, em 03/03/2011).


Cerca de 30 mil agentes são disponibilizados pelo governo dos EUA para patrulhar os 3.169 quilômetros que separam os dois países. Mas tal aparato não inibe os fora da lei. A respeito, o sociólogo e político suíço Jean Ziegler reproduz, em seu livro Les Seigneurs du Crime (1999), o comentário de um procurador de Justiça de Berlim: "Os senhores do crime organizado são hoje em dia os únicos autênticos cosmopolitas. São cidadãos do mundo. Isso porque as fronteiras detêm a ação de juízes, mas não a dos criminosos."


Ziegler, de 77 anos, ganhou notoriedade com a obra A Suíça, o Ouro e os Mortos – Como os Banqueiros Suíços Ajudaram a financiar a Máquina de Guerra Nazista, publicado em 1997.


As Nações Unidas calculam que existem mais de 200 milhões de consumidores de drogas no mundo, o que gera um negócio de mais de 270 bilhões de euros por ano. Em entrevista ao jornal El País, o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe Gonzáles analisa o tema: "Se você liga a droga aos negócios associados com o tráfico de armas e de pessoas, aumenta esse volume de negócio. E não falamos do que se pode fazer com esse dinheiro: uma pizzaria, um hotel..., legais. A lavagem de dinheiro negro entra no aparato de circulação do sistema e proporciona emprego e gera atividades econômicas que não são ilegais."


Costa brasileira favorece tráfico


Moisés Naím denomina de "buracos negros geopolíticos" os lugares onde as redes de tráfico "vivem" e prosperam, lembrando que na astrofísica essas regiões do universo estão fora das tradicionais leis da física newtoniana. Ou seja, nesses locais não se aplicariam as formas tradicionais de pensamento sobre política mundial e relações internacionais. Um exemplo seria a cidade de Málaga, na Costa do Sol da Espanha, conhecida região turística. De 2000 a 2005 houve um aumento de 1.600% na construção de casas particulares, apesar da localidade ter uma das mais altas taxas de desemprego e um dos mais baixos índices de renda da Espanha. O motivo se encaixaria na explicação dada por um chefe de polícia espanhol ao jornal inglês Financial Times: "Os criminosos são os empresários de hoje... Eles querem boas escalas para suas viagens, um sistema bancário eficiente, um clima ameno e anonimato. Conseguem tudo isso em Málaga."


A reportagem de Leslie Crawford ("Hot money pays for boom on Spain´s Costa del Crime") revela os resultados de uma ação policial, realizada em 2005, que envolveu agentes de sete países e que constatou a presença de 550 grupos criminosos operando na Espanha. No caso de Málaga, o crime organizado lavava o dinheiro ilegal através da indústria da construção civil, que teve uma expansão extraordinária. "É talvez a mais importante força motriz por trás da indústria da construção", afirmou Per Stangeland, responsável pela cadeira de Criminologia da Universidade de Málaga. Em relação ao Brasil, documento elaborado pelo Departamento de Estado norte-americano e divulgado pela mídia em 3 de março de 2011 aponta o país como o maior consumidor de drogas da América do Sul (900 mil de usuários de cocaína) e com o consumo em crescimento. O Paraguai continua sendo o maior fornecedor de maconha para o Brasil, cujo cultivo local da droga está concentrado na região Nordeste.


O relatório anual "Estratégia para o Controle Internacional de Narcóticos" indica que o Brasil está aberto ao trânsito de pequenos aviões da Colômbia (maior produtor mundial de cocaína) e Peru (maior produtor mundial de coca, matéria-prima da cocaína), com destino à Venezuela e Suriname (principais áreas de saída da América do Sul com carregamentos de drogas ilícitas para Europa) e começa a se mostrar como uma fonte importante no fornecimento de compostos químicos para a produção de cocaína. "O Brasil não só é o maior consumidor de drogas da América do Sul, mas também tem a costa mais extensa do continente e isto o transforma em uma rota de passagem inevitável para o contrabando de narcóticos rumo à Europa, África e em menor quantidade aos Estados Unidos", conclui o estudo. A costa brasileira tem 7.367 quilômetros de extensão.


Um submundo capaz de controlar nações inteiras


O Brasil também apresenta números significativos na venda ilegal de armas. Pesquisa divulgada pela Subcomissão de Armas do Congresso Nacional, em novembro de 2010, revela que quase a metade das armas que circulam no país é ilegal – 7,6 milhões de um total de 16 milhões de armas. Em seu livro sobre os cartéis do crime organizado, Jean Ziegler procura demonstrar que a progressiva institucionalização desse exército de criminosos representa o estágio supremo e a própria essência do modo de produção capitalista. Ele explica: as redes criminosas realizam a "maximização" do lucro, acumulam sua mais-valia a uma velocidade vertiginosa, criam oligopólios, a noção de contrato social lhes é estranha, agem no imediato e numa liberdade quase total e seus capitais atravessam as fronteiras cibernéticas do planeta sem qualquer obstáculo. Qual capitalista, pergunta Ziegler, em seu foro íntimo, não sonharia com tamanha liberdade, uma tal rapidez de acumulação, semelhante ausência de transparência e lucros dessa ordem?


Doutor em Direito e Ciências Econômicas, escritor, professor de Sociologia nas Universidades de Genebra e Sorbonne, em Paris, e membro do parlamento suíço por quase 20 anos, Jean Ziegler dedica a parte final do livro aos policiais e magistrados que em diversos países estão engajados no combate às redes criminosas. Segundo ele, nessa "guerra da liberdade", dentre todos os policiais que lutam contra o crime organizado, a figura do undercover agent (agente infiltrado), agindo sob identidade falsa e participando das atividades criminosas, é a mais ambígua e a mais difícil.


Entrevistando fontes policiais da Europa, Ásia e Estados Unidos, peritos, juízes, procuradores e diretores de serviços secretos, Ziegler chegou à conclusão de que esse tipo específico de policial é "um herói de nossa época". "Ele não é nem um delator nem um informante da polícia, explica. É um agente encoberto. Age sob identidade falsa e mantém as autoridades informadas sobre uma infração que está sendo cometida ou um projeto, enquanto se encontra ele mesmo infiltrado entre os delinquentes visados. Constitui-se uma arma decisiva na guerra contra os senhores sanguinários."


Enfim, na batalha crucial contra o tráfico global e as perversas variantes do comércio ilícito, ainda são os policiais que permanecem na linha de frente, sujeitos a sofrerem incalculáveis reveses e pesadas baixas, físicas e morais, em ações potencialmente arriscadas e limitadas pela hierarquia e a burocracia de Estado. "Frequentemente os agentes policiais fazem parte da engrenagem da máquina, mas não são o seu motor", atesta o venezuelano Moisés Naím, para quem o crime organizado é o outro lado da moeda da globalização. Um submundo com poder político e econômico capaz de controlar nações inteiras.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Nosso amigo Kadafi


por Sheila Sacks

Entre tantas figurações bizarras registradas pela mídia associadas ao desastre climático que devastou grande área da região serrana do Rio de Janeiro (com destaque para as performances dos ilustres tagarelas de plantão, sempre dispostos a palpitar sobre qualquer assunto), uma delas focalizou a aprazível conversa telefônica entre a presidente Dilma Rousseff e o ditador líbio Muammar Kadafi, ocorrida uma semana depois do horrendo cataclismo da madrugada de 12 de janeiro de 2011, que vitimou mais de 850 pessoas.


Por dez minutos Kadafi papeou com Dilma sobre assuntos variados, inclusive sobre a tragédia que foi o motivo que ensejou o oportuno contato entre os dois. Depois de prestar solidariedade às vítimas dos deslizamentos e oferecer ajuda ao governo brasileiro, Kadafi parabenizou Dilma pela vitória nas urnas. A presidente agradeceu o envio de uma delegação da Líbia à posse e disse que “se necessário, recorreria à Líbia” (O Globo online de 20.01.2011). Vale lembrar que o governo brasileiro, dois dias depois da tragédia, recusou a ajuda oferecida pelo Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, sediado em Genebra, que se colocou à disposição para auxiliar no resgate e atendimento à população.


Segundo a agência Estado, a instituição estava pronta para entrar em ação na região serrana. A porta-voz da ONU, Elisabeth Byrs, confirmou que o pedido de ajuda “não foi transmitido” pelo governo brasileiro, uma maneira diplomática para dizer que a oferta de participação da ONU não foi aceita pelo governo brasileiro (Brasil recusa ajuda da ONU no resgate e auxílio a vítimas da chuva, em 15.01.2011).


Reunião em Lima deve juntar Dilma e Kadafi


Mas, voltando ao bate-papo amigo de Dilma e Kadafi, o colóquio telefônico também serviu para a brasileira cobrar do líbio a sua honorável presença na 3ª Cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa), que até então seria realizada de 13 a 16 de fevereiro de 2011, em Lima, no Peru (posteriormente adiada para o mês de abril, por conta da onda de protestos no Cairo). O encontro pretende reunir os 12 líderes sul-americanos, incluindo a nova presidente do Brasil, e os 22 chefes de Estado da liga árabe que integram o conclave.


Segundo o Portal Terra, a presidente finalizou a ligação afirmando que “terá prazer em encontrar Kadafi na Cúpula”. A troca de gentilezas se justificaria porque Kadafi é tratado pelo Palácio do Planalto como “líder da revolução líbia” (O Estado de São Paulo, de 21.01.2011). Imagem reforçada pela agência de notícias “Jana”, da Líbia, que dias antes já tinha informado que Dilma “manifestou-se disponível para trabalhar com Kadafi para o êxito de um outro evento: o da próxima “Cimeira África-América Latina”, prevista para ser realizada no segundo trimestre de 2011, no país líbio.


A agência também divulgou que logo depois da posse, em reunião com a delegação da Líbia, a presidente brasileira salientou o papel pioneiro de Kadafi a favor das questões de liberdade, justiça e de promoção da mulher. Dilma falou das relações históricas entre o Brasil e a Líbia e de sua vontade em incrementar ainda mais esse relacionamento entre os dois países. A Líbia possui as maiores reservas comprovadas de petróleo da África. Em Brasília, a delegação líbia também manteve contato com Hugo Chávez, da Venezuela, Fernando Logo (Paraguai), Sebástian Piñera (Chile) e Allan Garcia, do Peru (Dilma Rousseff trabalha com Kadafi - Jornal de Angola de 07.01.2011).


Kadafi subvencionava a OLP com 40 milhões de dólares anuais


Apontado pela jornalista norte-americana Claire Sterling (1919-1995) como “o papai rico do terrorismo”, Muammar Kadafi proveu de fundos, armas e treinamento o terrorismo palestino responsável pelo massacre nos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, que matou 11 atletas israelenses.


Em seu livro “A rede do terror” (The Terror Network - 1981), publicado em 22 países, a autora revela que Kadafi, de 69 anos, nascido numa tenda de nômade no deserto e educado no Alcorão, subvencionava as atividades terroristas da Organização Para a Libertação da Palestina (OLP) com uma verba anual de 40 milhões de dólares retirada de um fundo especial de 580 milhões de dólares para obras terroristas em todo o mundo. “A lista ia dos sandinistas da Nicarágua, Monteneros da Argentina e Tupamaros do Uruguai aos Provos do IRA, bascos espanhois, bretões e franceses e separatistas corsos, sardos e sicilianos, turcos, iraquianos, japoneses e rebeldes muçulmanos da Tailândia, Indonésia, Malásia e Filipinas”, escreve Sterling.


O ditador libio também gastou somas milionárias para derrubar governantes árabes “conservadores”. Manteve de pé uma oferta de um milhão de dólares a qualquer pessoa disposta e capaz de matar o presidente egípcio Anwar Sadat, (assassinado no Cairo em 1981) e gastou uma quantia seis vezes superior para tentar derrubar o primeiro presidente da Tunísia, Habib Bourguiba (1903-2000), destituído do cargo em 1987. Ambos os dirigentes procuraram se aproximar do Ocidente e de Israel.


Vivendo na Itália desde o fim da 2ª Grande Guerra, Sterling foi correspondente de importantes jornais e revistas, incluindo “The New York Times” e “Washington Post”. Compilando fatos e desvendando ligações, ela foi capaz de traçar um surpreendente mapa do terror que emergiu na Europa, entre 1970 e 1980, na forma de uma vasta rede internacional, com campos de treinamento, arsenais poderosos, pontos de apoio para fugas, enfim, como um exército moderno, bem equipado e pronto para atacar em qualquer lugar do planeta.


Campos de treinamento na Líbia exportavam o terror


A Líbia de Kadafi era o centro logístico do terrorismo internacional, afirmava Sterling. O país se pôs a serviço da criminalidade do terror e em seus campos de treinamento havia mais de 20 mil estrangeiros recrutados no Egito, Sudão, Tunísia, Mali, Nigéria, Etiópia, Mauritânia, Camarões, Chade, Senegal, Costa do Marfim, entre outros da África. “Os campos de guerrilheiros de Kadafi também fervilhavam de europeus e os instrutores eram tanto soviéticos como cubanos.”


Para Sterling, os países ocidentais dependentes do petróleo líbio gostavam de pensar que o coronel só desejava a libertação da Palestina. “Ele insistia em afirmar que todos os judeus que se haviam instalado na Palestina desde 1948 deveriam voltar aos locais de origem. Certa vez, ao enviar uma equipe de palestinos para metralhar o aeroporto de Istambul, suas ordens foram: - Matem o máximo possível de judeus.” A jornalista e pesquisadora assinala que, em 1978, dois anos após fechar um contrato de 12 bilhões de dólares para a compra de armamentos russos, Kadafi disse ao New York Times que o marxismo estava mais próximo dos muçulmanos que o cristianismo e o judaísmo: “São os cristãos e os judeus que cometem genocídios e são o ateus que clamam pela paz e pela causa da liberdade.”


Nessa época, o “queridinho” do ditador líbio era um ex-capitão do exército sírio, guerrilheiro profissional, marxista, um dos fundadores da Frente Popular para a Libertação da Palestina-FPLP. Tratava-se de Ahmed Jibril (atualmente com 72 anos e secretário-geral da FPLP), que gozando da plena confiança de Kadafi e de seu principesco patrocínio, tinha prestígio suficiente, conforme observava Sterling, de convocar a imprensa e anunciar numa entrevista coletiva que recebera dos soviéticos “pesados mísseis de longo alcance”, capazes de penetrarem “bem fundo em território israelense”.


Vivendo hoje em Damasco, Ahmed Jibril continua ativo e em dezembro de 2010 se encontrou com o iraniano Ali Baqeri, secretário-adjunto do Supremo Conselho de Segurança iraniano, que em visita à Síria exortou o chefe da FPLP a fortalecer a “resistência” no Oriente Médio. Jibril, por sua vez, fez um agradecimento público ao Irã pelo apoio à causa palestina, segundo a Press TV, rede iraniana de notícias.


Armas nucleares para os palestinos, diz Kadafi


Em abril de 1986, depois de um punhado de anos aterrorizando a Europa com atentados a bomba e sequestros de aviões, Kadafi enfim recebe o troco dos Estados Unidos. Trípoli é bombardeada e a Organização das Nações Unidas (ONU) impõe sanções econômicas ao país. Passada uma década de “suposto” ostracismo, o ditador sanguinário aceita pagar as indenizações às famílias das vítimas no atentado ao boeing da Pan Am - que explodiu quando sobrevoava a cidade escocesa de Lockerbie, matando 270 pessoas de 21 nacionalidades (dezembro de 1988) – e anuncia que desistiu do terrorismo e de seu programa de armas nucleares.


Em 2003, o Ocidente acolhe um Kadafi “arrependido” e carimba o nada consta em sua ficha criminal. Entretanto, o coronel líbio que afirma praticar um “socialismo islâmico” jamais desistiu de falar o que pensa em suas viagens pelas capitais europeias. Em 2010, em Roma, Kadafi propôs o islamismo como religião de toda a Europa. A declaração feita em um país majoritariamente católico foi considerada provocativa e ofensiva ao Papa. “As palavras de Kadafi mostram seu perigoso projeto de islamização para a Europa”, afirmou o parlamentar europeu Mario Borghezio ao jornal “Il Messaggero” (30.8.2010).


Um ano antes, em Londres, o coronel líbio tinha afirmado aos jornalistas britânicos que os palestinos deveriam ter o direito de possuir armas nucleares, assim como o Egito, a Síria e a Arábia Saudita. As declarações foram feitas durante uma entrevista em que Kadafi foi cobrado pela participação da Líbia no atentado de Lockerbie e sobre as alegadas atividades terroristas do país, centradas em suas embaixadas em todo o mundo (Palestina tem direito a bomba!, matéria veiculada no site “área militar”, de Portugal ). Em agosto de 2009, com o apoio da Inglaterra, Kadafi consegue que a Escócia liberte o líbio condenado à prisão perpétua pela explosão do boeing da Pan Am. O autor do atentado segue para Trípoli onde é recebido com honras de herói.


Ditador líbio propõe um terrorismo justificável


Um mês depois da libertação do terrorista, o ditador que governa a Líbia há mais de 40 anos, faz sua primeira visita à América Latina para participar da Cúpula de líderes da África e países do continente. No encontro com Hugo Chávez, na Venezuela, assina uma declaração sugerindo a realização de uma conferência global para redefinir o conceito de terrorismo. Os dois disseram rejeitar “as tentativas de vincular a luta legítima do povo pela liberdade e autodeterminação” ao terrorismo (Hugo Chávez e Kadafi propõem nova definição para o terrorismo no mundo - Correio do Brasil, em 29.9.2009).


Um comportamento público leviano beirando ao deboche, considerando que países como os Estados Unidos e Israel estão na linha de fogo dos atentados das organizações terroristas palestinas, justamente os grupos radicais armados que ambos os políticos pretendem redimir. Uma atitude, porém, que faz sentido, levando-se em conta que em 2008, mesmo dando por “definitivamente arquivado” o conflito entre a Líbia e os Estados Unidos, Kadafi não se furtou em declarar que seu país descartava qualquer amizade com os norte-americanos. “Tudo o que queremos é que nos deixem em paz”, avisava em tom teatral o chefão líbio que foi eleito, em 2009, a personalidade africana do ano por mais de 200 ONGs da África.


Resultado que decerto não contaria com o beneplácito do prêmio Nobel da Paz, Andrei Sakharov (1921-1989). O físico russo que recebeu o Nobel em 1975 pela sua luta em defesa dos direitos humanos na antiga União Soviética, considerava o terrorismo, em todas as suas manifestações, a mais degradada forma de linguagem. Dizia ele: “Não importa o quanto sejam elevados os objetivos pregados pelos terroristas, suas atividades são sempre criminosas, sempre destrutivas, lançando a humanidade de volta a uma era de ilegalidade e caos, contradizendo os objetivos de paz e progresso. Espero que os povos de todo o mundo compreendam a natureza mortífera do terrorismo, quaisquer que sejam seus objetivos e lhes neguem qualquer espécie de apoio, mesmo o mais passivo, circundando-os com um muro de condenação.” (Washington Post, em 1980).


O terror por trás da Guerra Santa


Os tumultos nos países muçulmanos que já provocaram a queda do governante da Tunísia, Zine al-Abidine Ben Ali, em 14 de janeiro, e mudanças nos rumos da política egípcia dominada pelo regime de Hosni Mubarak, levaram o aiatolá Ahmad Khatami, do Irã, a comparar os conflitos do mundo árabe à revolução iraniana que em 1970 derrubou a monarquia no Irã e passou o poder para os aiatolás. ”Um Oriente Médio Islâmico está tomando forma, emergindo com base no Islã e na democracia religiosa”, comemorou em seu sermão semanal (O Globo de 29.01.2011).


Motivada pela ebulição dos acontecimentos, a facção iraquiana da Al-Qaeda (Islamic State of Iraq – ISI) também se pronunciou, convocando os manifestantes egípcios anti-Mubarak a promoverem uma guerra santa, estabelecendo no país um Estado baseado em leis islâmicas. A mensagem divulgada na Internet afirma que a missão da guerra santa é defender os fracos e oprimidos no Egito e na região da faixa de Gaza. “Cada muçulmano que foi afetado pela opressão do tirano do Egito e de seus patrões de Washington e Tel Aviv deve reagir”, diz o texto (Agência Lusa, de 09.02.2011).


Por sua vez, o nosso amigo Kadafi, mantendo-se fiel ao que sempre advogou, desde o tempo em que era conhecido como “o papai rico do terrorismo”, culpou Israel pelos protestos violentos no Egito. Atribuindo tudo a uma conspiração de Israel – “O que acontece hoje no Egito é obra dos serviços secretos de Israel” - Kadafi afirmou ao jornal Libya al-Youm que “é errado ficar culpando Mubarak, pois ele é um homem pobre, não tem dinheiro nem para comprar roupas novas e a quem ajudou muitas vezes”. Fontes internacionais estimam em 40 a 60 bilhões de dólares a fortuna pessoal de Mubarak e seus familiares.


E as conseqüências desse clima de animosidade e de incitamento ao ódio já começam a aflorar: na noite de 31 de janeiro, a sinagoga de El Hamma, perto da cidade de Gabes, no sul da Tunísia, foi incendiada por desconhecidos. O representante da comunidade judaica de Djerba, Trabelsi Pérez, disse por telefone que os rolos da Torá foram queimados. Ele ainda contou que na semana anterior, vários carros tinham sido destruídos no bairro judeu de Houmt-Souk, a capital da ilha de Djerba, e que a pequena comunidade judaica, de 1.600 membros, estava com muito medo. (Diário de Notícias de Portugal, em 01.02.2011).

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A prática da democracia inocente

por Sheila Sacks

"Uma das vantagens deste mundo é que podemos odiar e ser odiados sem sequer nos conhecermos." (Alessandro Manzoni, poeta italiano do século 19)
publicado no "Observatório da Imprensa

Os vários comentários feitos pelo ex-presidente Lula no decorrer de seus dois mandatos sobre a ação da imprensa proporcionaram uma farta e prodigiosa munição aos articulistas e editorialistas de jornais influentes, mestres consagrados na exímia arte da esgrima linguística. A palavra escrita tem um poder de fogo que os profissionais do vernáculo, cientes dessa prerrogativa, buscam aperfeiçoar em diários e suados exercícios de arquitetura mental. Protegidos por estandes de vidro e armados com um teclado de laptop, eles têm a seu favor uma arena majestosa e ensolarada para a prática do tiro ao alvo. Afinal, a democracia é um campo aberto que favorece a exposição pública de pensamentos e opiniões e, por conseguinte, as réplicas e tréplicas de variados matizes.

Nas vésperas do pleito presidencial de 2010, uma reportagem de Lucas Abreu Maia publicada no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida pelo Observatório da Imprensa, em 21/9, revelava o grau de irritação de instituições representativas como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e a Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão), diante das declarações do então presidente Lula sobre o papel da imprensa. Sob o título "Entidades reagem a ataques de Lula", a matéria colocava na mesa a bazófia dita em tom magoado por um presidente empenhado em uma campanha de tudo ou nada, e emocionalmente arisco em suas colocações, resultado talvez do confronto diário com uma mídia beligerante em seu poder magnificente.

A gramática do óbvio


Desde a época de líder sindical, nos idos da década de 1970, Lula deu mostras de se sentir mais em casa e desbragadamente à vontade exorcizando os demônios em praça pública e em mangas de camisa. A tal da compostura que um cargo presidencial costuma exigir de seus ocupantes jamais inibiu o ex-presidente de soltar a voz em concorridos comícios eleitorais e soletrar o óbvio que habita no inconsciente coletivo. "Lula presidente surpreenderá a nação, pois adotará outra gramática do poder", escreveu o amigo e coordenador inicial do Programa Fome Zero, o frade dominicano, escritor e militante dos movimentos de Direitos Humanos Frei Betto, logo após a confirmação da vitória de Lula nas eleições de 2002.

Oito anos depois, em uma inauguração em Brasília com representantes da comunidade científica, Lula creditou o sucesso de seu governo à coragem de ter feito "o óbvio". Anteriormente, em um evento no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o ex-presidente já havia sublinhado que "o óbvio é a única coisa que um governante tem que fazer". Uma deixa providencial para os caçadores de bordões sempre atentos e ávidos em desossar uma presa linguística de fácil digestão. Imediatamente, o Estadão pôs em campo o eficiente Rolf Kuntz para ministrar lições de "óbvio", convenientemente traduzido como sinônimo de bom senso, qualidade esta que, segundo o jornalista, faltou a Lula em muitas de suas realizações políticas. "Se o óbvio é o sensato, Lula fez o oposto do óbvio em parte de sua gestão" ("Lula e a política do óbvio", 29/12/2010).

Sem papas na língua

Ressuscitando os palanques e os comícios a céu aberto de sua militância sindicalista, Lula introduziu um novo estilo de impor sua presença na mídia, menos como primeiro mandatário e muito mais como porta-voz dos brasileiros.

Essa disposição de encarnar o protótipo do cidadão comum na correlação de alguns de seus pontos mais sensíveis, como o trabalho, a família e a paixão pelo futebol, alçou o ex-presidente a um inquestionável e extraordinário patamar de liderança e popularidade pessoais, criando-se um fenômeno surpreendente e, de certa forma, perturbador, aferido imediatamente pela sensível ótica da mídia e de outros setores elitistas do país, dadas as inevitáveis implicações que um possível culto à personalidade tende a introduzir em uma sociedade democrática.

Desabafos do tipo "Vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem um partido político" ou "Nós somos a opinião pública e nós mesmos nos formamos", expelidos de maneira atabalhoada em exacerbados comícios eleitorais durante a campanha da candidata do PT, Dilma Rousseff, foram prontamente revidados de forma coesa e emparelhada, no melhor estilo de artilharia pesada, visando à neutralização das declarações do então presidente.

Em editorial, O Globo deduziu das palavras de Lula um provável plano de cerceamento da liberdade da imprensa e "um entendimento autoritário da função dos meios de comunicação". Valendo-se de palavras afetadas e de sentenças pedantes de difícil compreensão, o jornal creditou os desabafos pessoais de Lula a uma espécie de complô da "vulgata ideológica dos intelectuais orgânicos do lulopetismo" e à "percepção lulista" de considerar a imprensa "um instrumento de manipulação da sociedade". No mesmo editorial ("Lula e a visão autoritária da imprensa", 21/9/2010), o ex-presidente foi apontado como déspota ("como se tomado pelo espírito do Rei Sol, um Luís 14 tropicalizado"), desequilibrado ("o presidente foi jogando às favas o equilíbrio"), insensato ("Lula radicaliza na insensatez") e burro ("tosca engenharia de raciocínio").

Já na reportagem do Estadão, o ex-presidente foi taxado de intolerante pelo presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, que viu na atitude de Lula um ato "contra a liberdade de imprensa" e "um desserviço à Constituição e ao Brasil". Declarações essas que receberam considerável reforço, alguns dias depois, na entrevista do mesmo Cavalcanti veiculada pela Folha de S.Paulo ("Presidente da OAB condena ataques à imprensa", 25/9/2010). Avaliando o "clima de acirramento" pré-eleitoral da campanha, o presidente da OAB tocou no ponto nevrálgico da questão, responsável por todo o arsenal bélico arremessado sobre Lula. Disse ele: "Homens e pessoas não devem ter a mesma força que as instituições." Pensamento compartilhado pela Abert, que conclamou "as entidades representativas da liberdade de imprensa a ficarem sempre atentas". Indo mais fundo na reação conjugada da imprensa, a Anaj detectou em Lula um lamentável e preocupante desconhecimento em relação ao papel da imprensa nas sociedades democráticas.

Um "culto despropositado"

Passados alguns meses dessa contenda de viés mercadológico, a imprensa retornou ao tema, dias após a posse de Dilma Rousseff, desta vez utilizando-se do aguerrido esgrimista linguístico Demétrio Magnoli. Tendo como pretexto a análise dos discursos proferidos pela nova presidente, o articulista se sentiu a cavaleiro para desacatar o dirigente que se despedia, a quem chamou de "chefe de facção", pouco merecedor da "louvação desmedida" de Dilma. Repetindo o argumento-padrão adotado pelas empresas de comunicação – "Democracia é o regime das instituições, não dos líderes" –, Magnoli afunilou o conceito desse regime político, reduzindo-o a um embate maniqueista e interesseiro entre dois polos antagônicos: instituições e empresas, que seriam o lado bom da história, versus líderes populares, o aspecto negativo e de risco. Uma metáfora ardilosa, já que a democracia não exclui a presença carismática de autoridades políticas legalmente constituídas.

Desmerecer autênticas qualidades positivas, tais como a simplicidade, simpatia e o discurso caloroso – para citar alguns atributos pessoais que parecem acompanhar o ex-presidente –, pela possibilidade de as mesmas favorecerem "o culto despropositado" a um dirigente ou político na vida pública, é um ponto de vista que chega a ser ofensivo ao eleitor brasileiro que avança no caminho de sua maturidade política. A democracia não é um sistema frágil que possa ruir por conta de um presidente sem papas na língua que falou o que devia e o que não devia em discursos desaforados no decorrer de uma campanha eleitoral. A afirmação de que "o culto a Lula é uma ferida na alma da democracia" ("Dilma, interrompida", 06/01/2011, no Globo e Estadão) soa como artificial e forçada, já que a admiração por um político não se configura, no significado exemplar do termo, em adoração, veneração ou "culto".

Poder econômico e imprensa

Mas qual seria de fato o papel da imprensa nas sociedades democráticas do século 21? Retornando ao editorial de O Globo, a resposta do jornal a essa questão brigaria com "a visão maniqueista lulopetista da imprensa" para a qual a mídia precisa estar subordinada ao Estado. "É inconcebível para esses (lulopetistas) que a imprensa profissional – que precisa ser rentável para se manter independente, e o mais distante possível de verbas administradas pelos poderosos do momento – cumpra uma função pública, e disto têm consciência profissionais e acionistas das empresas de comunicação", assinalava o editorial.

Para o jornalista e sociólogo espanhol Ignacio Ramonet, autor do livro "A Tirania da Comunicação" (1999), com o avanço da globalização as grandes empresas de mídia juntaram todas as formas de comunicação em um mesmo saco, da cultura de massa à publicidade e informação. Um exemplo perceptível é a mudança ocorrida nos suplementos literários dos jornais, hoje travestidos em desembaraçados balcões de venda das editoras e livrarias, tornando difícil o leitor distinguir o que é processo de persuasão, marketing ou utilidade cultural.

Constituindo-se em grandes grupos que englobam a imprensa, rádio e TV (com suas linguagens e mensagens, antes distintas, agora misturadas e mercantilizadas), essas megaempresas acabam exercendo pressão sobre os governos no sentido de que não sejam cerceadas ou limitadas em seus negócios. Ramonet afirma que a mídia no Ocidente sobrepujou o poder do Estado, representado pelo Executivo, Legislativo e Judiciário, ficando abaixo apenas do poder econômico. Lembra ainda que, há algumas décadas, os meios de comunicação representaram no contexto democrático um recurso dos cidadãos contra os abusos desses três poderes, daí serem mencionados como um quarto poder.

Diretor da edição espanhola do jornal "Le Monde Diplomatique", Ramonet, de 67 anos, observa também que, à medida que a globalização se acelerou, a imprensa perdeu a sua função de reagir e resistir, de se impor como um "contrapoder", de ser, enfim, "a voz dos sem-voz". De acordo com o sociólogo, hoje a mídia seria de fato o segundo poder pela sua ação e influência, funcionando como um aparato ideológico da globalização. "O mais difícil de perceber não é a informação distorcida, mas a informação oculta", alerta. "Na atual fase de globalização assiste-se a um confronto brutal entre o mercado e o Estado, entre o setor privado e os serviços públicos, dando a impressão de que grupos econômicos planetários ou conglomerados de comunicação de dimensão continental são mais importantes, pelo peso de seus negócios, do que os governos e Estados."

Discursando na cidade de Barcelona, em agosto de 2010, depois de receber o Prêmio Antonio Asensio de Jornalismo, Ignacio Ramonet surpreendeu a plateia ao afirmar que o jornalismo atravessa uma "grave crise de identidade". Ao sentenciar que a imprensa escrita vive um dos momentos mais difíceis, Ramonet desmentiu aqueles que proclamam que "a informação circula mais livre, mais abundante e mais transparente do que nunca". Ao contrário do que muitos pensam, disse, "a massa de informação oculta supera o imaginável em muitos temas".

Deslizamentos na região serrana

Nem bem 2011 se iniciou e já se pôs em marcha o processo de desestruturação daquilo que muitos entendem como o "mito" Lula. Na recente tragédia na região serrana do Rio de Janeiro – um dos dez maiores deslizamentos do mundo nos últimos 111 anos, pela avaliação da ONU – achou-se imediatamente um culpado na figura do governo federal (gestão Lula), que somente liberou 39% dos R$ 425 milhões previstos para 2010 para prevenção de desastres, sendo que a região serrana nada recebeu ("Verba para prevenção fica no papel", O Globo, 13/01/2011). No final da matéria fica-se sabendo que foram destinados R$ 377 milhões ao Rio de Janeiro pelo Programa de Resposta aos Desastres e Reconstrução, o segundo maior volume de recursos federais, ficando apenas atrás de Pernambuco (R$ 380 milhões).

Porém, o que faltou dizer em meio a tantos números é que um presidente da República não tem a função de monitorar as mais de 5 mil prefeituras brasileiras em seus variados projetos, inclusive de contenção de encostas, nos procedimentos técnicos adequados para se habilitarem a pleitear verbas federais necessárias à execução das obras. Por incapacidade e falta de conhecimento, muitas prefeituras perdem a oportunidade de manter profícuas e permanentes parcerias técnicas com o governo federal e somente após alguma tragédia climática, sob o regime de calamidade pública, se lançam ao encalço das verbas emergenciais para remediar o irremediável.

Em outra reportagem, também em tom acusatório, a administração Lula é culpabilizada pelo "inchaço" de funcionários públicos na esfera federal ("No governo Lula, mais 82 mil servidores" – O Globo, 16/01/2011). Segundo os números apresentados, "pelo menos 82.749 funcionários civis foram incorporados à máquina do governo federal nos últimos oito anos". Dito isso e lendo um pouco mais, topa-se com os seguintes dados: "Os funcionários civis do Executivo na ativa passaram de 485.741 em dezembro de 2002 para 568.490 em novembro de 2010 (...) Em números absolutos, a maioria das contratações foi feita na área de educação: 49.286. Isso decorre da criação de universidades públicas e escolas técnicas." Enfim, dos 82,7 mil novos servidores contratados quase 50 mil foram professores e pessoal auxiliar. Um percentual que faz sentido, em se tratando de um país que vem sendo estimulado por todos os setores da sociedade a investir maciçamente em educação e treinamento.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Mahmoud Abbas vira estrela na posse de Dilma


por Sheila Sacks

A presença do presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas na posse da presidente Dilma Rousseff, em Brasília, no primeiro dia de 2011, recebeu tratamento vip da mídia brasileira. Fotos de ambos em caloroso aperto de mãos ganharam as primeiras páginas dos principais jornais do país (O Globo, Estado de São Paulo, Estado de Minas), superando a atenção dada a outras personalidades presentes ao evento, a saber: a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, o príncipe de Astúrias, Felipe de Borbón, herdeiro da coroa espanhola, o primeiro-ministro da Coreia do Sul, Kim Hwang-Sik, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez e o primeiro-ministro da Bulgária, Boyco Borissov (Dilma é filha de búlgaro).

A foto também serviu de chamariz para uma ampla entrevista de quase uma página que O Globo fez publicar, encimada por um título provocador – Israel não acredita na paz” pinçado de uma das respostas do dirigente palestino acerca dos assentamentos judaicos em Jerusalém Oriental. Diante da insinuação do repórter Roberto Maltchik de que o governo de Israel não dava mostras de querer “congelar os assentamentos”, Abbas foi incisivo: “Esse não é meu problema. É problema deles. Se eles não se importam com nada, se eles não escutam ninguém, isso significa que eles não querem a paz. Eles não acreditam na paz. Então, quem pode pôr pressão neles? Só os Estados Unidos. Paralelamente, a comunidade internacional. Então, o governo Israel vai ficar isolado.”

Governo brasileiro doou terreno para a embaixada palestina

Mahmoud Abbas ficou 4 dias no Brasil e antes da posse de Dilma ele inaugurou a pedra fundamental da futura embaixada palestina em Brasília, a ser construída em um terreno de 15 mil metros quadrados doado pelo governo brasileiro. No início de dezembro de 2010, ainda no governo Lula, o Brasil reconheceu o Estado palestino “com as fronteiras de 1967” (antes da Guerra dos Seis Dias), que incluem a Cisjordância, Jerusalém Oriental e a faixa de Gaza. A decisão foi seguida pelos vizinhos Argentina, Paraguai e Uruguai, e outros países da região, como a Bolívia, Equador e Peru, já se manifestaram a favor desse reconhecimento.

Em Brasília, Abbas aproveitou para agradecer de viva voz o gesto do presidente uruguaio e ex-guerrilheiro tupamaro, José Mujica, e iniciou as negociações com o chileno Sebástian Piñera para que o Chile se junte ao grupo. Na entrevista ao Globo, um dia depois dos festejos da posse e minutos antes de ser recebido em audiência por Dilma Roussef, ele revelou que iria demonstrar a sua gratidão ao governo brasileiro, “que foi o primeiro no continente a reconhecer o Estado palestino”. Abbas ainda adiantou que o ex-presidente Lula visitará Ramallah nos próximos meses.

Acompanhando o encontro de Abbas com Dilma, o novo ministro brasileiro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, contou aos jornalistas que o dirigente palestino convidou a presidente para uma visita à Cisjordânia. Segundo o ministro, o tom da reunião entre os dois líderes foi de “congraçamento”. Patriota, de 56 anos, que substitui o chanceler Celso Amorim (o ministro do Exterior que mais tempo ficou no cargo, cerca de 8 anos), foi embaixador em Washington e é casado com uma norte-americana naturalizada brasileira. De perfil discreto e disciplinado, caracteriza-se, segundo analistas, por ser um eficiente executor das diretrizes da diplomacia palaciana que deverão se manter inalteradas no quesito ideológico, em função da permanência do assessor internacional da Presidência do governo Lula, o gaúcho Marco Aurélio Garcia, 70 anos, ex-militante do partido comunista e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores(PT).

Críticas à diplomacia brasileira são reveladas pelo Wikileaks

Formado em Filosofia e Direito, Marco Aurélio é professor licenciado de História da Universidade de Campinas (SP) desde que se instalou no Planalto, em 2003, como uma espécie de guru da Presidência para assuntos internacionais. Em 2007, em entrevista à revista política-literária Piauí, o assessor de Lula atacou Israel, classificando as ações de defesa do país contra atos terroristas de “crimes de guerra”, porque atingiam civis. Jactando-se de seus conhecimentos históricos, ele continuou no mesmo tom: "Se querem reconstituir a história, estou disposto a reconstituir. É a minha profissão. Israel apoiou durante todo o tempo o regime do apartheid na África do Sul. Apoiou todo o tempo a ditadura de Somoza, na Nicarágua, e a de Salazar, em Portugal. Não venham agora querer bancar os bacanas para o meu lado."
Recentemente, Marco Aurélio foi citado como simpatizante das Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em documentos revelados pelo Wikileaks. A afirmação foi feita em 2009, pelo então embaixador colombiano em Brasília, Tony Jozame, em referência às reações contrárias do Brasil ao Acordo Militar de Cooperação de Defesa EUA-Colômbia. Em conversa com diplomatas americanos, Jozame disse ainda que “o Ministério de Relações Exteriores brasileiro é esquerdista, anti-ianque e ciumento da liderança de qualquer país da região”.

Enviado do Irã diz que aliança com o Brasil vai se ampliar

Outra figura que ficou na berlinda foi Mohammad Abbasi, assessor especial para assuntos da América Latina do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Apontado como um dos homens de confiança do líder iraniano, Abbasi esteve na posse de Dilma e veio com a missão de fortalecer e consolidar as boas relações entre o Brasil e o Irã. Falando ao jornal Folha de São Paulo, na véspera da posse, ele se mostrou otimista em relação à ampliação dos vínculos com o governo brasileiro, inclusive na área nuclear. Na entrevista realizada na Embaixada do Irã, em Brasília, o enviado de Ahmadinejad declarou que a sua presença na cerimônia da posse foi “uma maneira de enviar ao mundo a mensagem de que nossa aliança continua, e que haverá mais acordos entre nós”. Abbasi destacou o interesse do Irã em desenvolver uma cooperação bilateral com o Brasil no campo nuclear, já que ambos os países “conseguiram desenvolver cientificamente a capacidade do uso da energia nuclear de forma autônoma, para fins pacíficos”.

É importante assinalar que o comércio entre Brasil e Irã duplicou nos últimos sete anos, de US$ 500 milhões para US$ 1,23 bilhão. O Irã é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil no Oriente Médio, principalmente quando o assunto é o setor alimentício. Na visita que fez a Teerã, em maio de 2010, Lula anunciou uma linha de financiamento de 1 bilhão de euros, nos próximos cinco anos, para importadores iranianos de produtos brasileiros.

Países árabes são o terceiro maior parceiro comercial do Brasil

Em artigo publicado no jornal Valor Econômico (30.12.2010), o professor de economia Javier Santiso observa que em 2010 os países árabes foram o terceiro principal parceiro comercial do Brasil (depois da China e dos Estados Unidos), absorvendo mais de US$ 10 bilhões de exportações brasileiras,cerca de 11º do total exportado pelo Brasil. Ele lembra que a estimativa é de que existem cerca de 20 milhões de latino-americanos de origem árabe na América Latina, sendo sete milhões no Brasil (alguns calculam em 10 milhões). Países como Catar e Emirados Árabes Unidos, através de seus bilionários fundos de investimentos, estão adquirindo participações em bancos, ativos comerciais, hotéis, petróleo, gás, construção civil e particularmente no setor agroindustrial que esteja ligado à água, um bem escasso na península arábica. Santiso lembra que a América Latina concentra cerca de 30% do total das reservas mundiais de água, sendo 13% no Brasil. “Esse ouro azul esta se tornando tão precioso quanto o ouro negro.”

América do Sul e países árabes na nova geografia de poder

No balanço final sobre os seus oito anos à frente do Itamaraty, o chanceler Celso Amorim também destacou a intensificação dos laços comerciais com os países árabes. Convidado a falar na Comissão de Relações Exteriores do Senado, em dezembro último, ele anunciou para breve o fechamento de Acordo de Livre Comércio (ALC) do Mercosul com o Egito e adiantou que outros acordos serão feitos com a Síria e a Autoridade Palestina. Dentre as suas realizações ele citou a realização das “Três cúpulas América do Sul-Países Árabes (ASPA)” – um fórum de coordenação política e cooperação bi-regional implantado em 2005 por iniciativa do presidente Lula, reunindo 22 países árabes e 12 sul-americanos - , salientando que as relações do Brasil com o mundo árabe, no campo dos negócios, quadruplicaram nesse período.

Por sua vez, o novo ministro do Exterior, Antônio Patriota, no discurso de posse, defendeu “o acerto das opções dos últimos anos” em política externa, mas deu a entender que haverá “reconsiderações de certas ênfases”. Cuidadoso na escolha das palavras e meticuloso na adoção de mensagens cifradas endereçadas à Casa Branca e seus aliados, ele disse que o Brasil superou “o acúmulo de vulnerabilidades” econômicas e sociais que limitavam a sua ação internacional e hoje esta entre os novos pólos globais. Afirmando que “consensos de outras eras são cada vez mais questionados e os antigos formadores de opinião encontram dificuldade crescente para prevalecer suas ideias”, o Patriota de Dilma promete ser o clone melhor acabado do homem que de fato vem dando as cartas, há quase uma década, na política internacional brasileira. De seu pequeno e discreto gabinete em Brasília, Marco Aurélio, um ex-exilado político, definido como “idealista da esquerda” pela Wikipédia, continuará no seu afã de recriar um novo mapa geográfico de poder onde o Brasil teria reais condições de cutucar, nem que fosse com vara curta, o gigante do Ocidente.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Até onde a memória alcança


por Sheila Sacks

Judeus retornam à Alemanha. Quem se importa?


Por ocasião das festividades do ano novo judaico, em setembro último, os leitores de um dos mais influentes jornais brasileiros foram surpreendidos com uma informação aparentemente surreal, mas nem por isso fora da realidade. A matéria made in Germany da correspondente de O Globo, Graça Magalhães Ruether, intitulava o país de "o novo eldorado dos judeus" e mostrava o estupendo "florescer" da comunidade judaica na Alemanha que lotou as sinagogas de Berlim durante as cerimônias religiosas desse evento.

Palco de um dos mais cruéis e violentos genocídios em massa produzidos por um regime político, a Alemanha tem recebido de braços abertos os judeus originários principalmente da antiga União Soviética que para lá acorreram (cerca de 220 mil), a partir da queda do Muro de Berlim, em 1989.

Atualmente, a comunidade judaica acomodada na Alemanha tem se movimentando em busca de suas tradições nas 16 sinagogas existentes em Berlim e Munique. Para muitos, uma espécie de desforra sobre aqueles que há pouco mais de seis décadas quase lograram varrer do planeta seus compatriotas judeus. "O judaísmo voltou a florescer não só em Berlim, mas em toda a Alemanha", celebra a porta-voz da comunidade judaica em Berlim, Maja Zeder. Hoje, 85 cidades alemãs dispõem de sinagogas.

Jovens não querem "remoer o passado"

Em outra reportagem, dessa vez do jornalista alemão Thorsten Schmitz, Berlim é comparada a Tel Aviv pela quantidade de israelenses que tomam conta da cidade durante todo o ano. "Há cinco anos, só havia uma ligação direta entre Tel Aviv e Berlim; atualmente pode haver três voos por dia. A Lufthansa oferece quatro voos diários para a Alemanha."

Segundo o jornalista, que escreve para o jornal Südeutsche Zeitung, de Munique, a cidade é o destino preferido dos israelenses, antes mesmo de Barcelona e Praga. Quarenta e oito mil israelenses visitaram Berlim, em 2009, e dentre os turistas não europeus, os nascidos em Israel só perdem para os norte-americanos, ainda o principal contingente turístico em terra alemã.

Também cresceu a quantidade de israelenses que escolhe Berlim para residir ou para investir no seu mercado imobiliário. Entre 1999 e 2009, o número de israelenses que imigrou para a Alemanha aumentou em 50% e já existem bairros, como os de Kreuzberg e Friedrichshain, onde a presença de israelenses é considerável. O resultado é que duplicou a presença de estudantes israelenses nas universidades berlinenses.

Para os agentes de turismo de Berlim, os judeus mais jovens que visitam a cidade querem descobrir o novo rosto da capital alemã. Todos conhecem a história do Holocausto, já viram alguém com um número tatuado no antebraço e foram a Auschwitz, na Polônia, em excursão escolar, mas "não querem ficar remoendo o passado". É comum encontrar turistas israelenses no antigo campo de concentração de Sachsenhausen carregados de sacolas de compras das lojas Zara e Bikenstock. Esse campo, situado a 35 quilômetros de Berlim, foi um dos mais ativos do regime nazista e lá foram executados cerca de 50 mil prisioneiros por fuzilamento, câmaras de gás e experimentos médicos.

"Olhem para nós, nós não somos maus"

A diretora de programação do Museu Judaico de Berlim, Cilly Kugelmann, de 63 anos, avalia que o judaísmo da geração das testemunhas pertence à história. "A definição dos judeus pelo extermínio em massa está acabando", afirma. Formada em história da arte pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Kugelmann nasceu em Frankfurt e estudou cinco anos em Israel. Apesar de reconhecer que a sociedade alemã, nesses 62 anos pós-Holocausto, desenvolveu um relacionamento com o período nazista no qual o assassinato em massa tornou-se o único paradigma, ela acha que o judaísmo não se beneficiou com o fato. Ao contrário. Em sua opinião, os seguidos e continuados alertas de representantes judaicos contra o antissemitismo, o neonazismo e o antissionismo subtraíram, em parte, uma imagem positiva do judaísmo.

Em entrevista ao portal de notícias da Alemanha Deutsche Welle, o diretor-geral do Museu Judaico de Berlim, W. Michael Blumenthal, de 84 anos, reconheceu que com a morte das testemunhas a qualidade da memória do Holocausto também vai mudar, já que a transmissão dos fatos se fará em segunda mão. Nascido na Alemanha, Blumenthal deixou o país em 1939, estudou nos Estados Unidos e chegou a secretário do Tesouro norte-americano na gestão do presidente Jimmy Carter, de 1977 a 79. Segundo ele, o Holocausto vai continuar sendo uma parte importante da história alemã, um acontecimento histórico que implica em responsabilidade. Blumenthal chama a atenção para a diferença entre culpa e responsabilidade. "As novas gerações não são culpadas pelos atos de seus antepassados, mas têm responsabilidade nacional que acredito que vai continuar sendo assumida."

A nova geração de judeus da Alemanha almeja mudar esse modelo de relacionamento. "Eu quero me libertar dessa sensação de que, quando o assunto é minha religião, as pessoas sempre pensam: `Ah, você é judia.´ E imediatamente começam a prestar atenção no que falam como se estivessem pisando em ovos", dizia a estudante de Ciências Políticas, Katharina Goos, em 2005. A jovem propunha uma maior abertura no convívio diário. "Nós podemos nos abrir para as pessoas de outras religiões e dizer: olhem para nós, nós não somos maus."

O suicídio de um apátrida

Na mesma reportagem, o jovem Daniel Iranyl explicava os seus motivos para residir na Alemanha. "Aqui é um bom lugar para se viver, mesmo que alguns discordem. Eu me vejo como um judeu europeu e acho importante que as pessoas entendam que o judaísmo não esta limitado à tristeza. Somos pessoas felizes e eu amo Berlim."

Voltando no tempo, em 1938 centenas de casas, lojas e sinagogas foram apedrejadas e incendiadas em várias cidades da Alemanha. Começava efetivamente o processo de extermínio em massa da comunidade judaica alemã naquele 9 de novembro que passou para a história como a noite das vidraças quebradas ou a Noite dos Cristais. Na época, mais de meio milhão de judeus vivia na Alemanha.

Com o fim da Segunda Grande Guerra, sobraram 15 mil judeus e nos 62 anos posteriores esse número foi se multiplicando até atingir a marca oficial de 110 mil. Quantidade respeitável de membros que, somada à onda de turismo específico, estimulou a mídia internacional, no decorrer de 2010, a enfocar a Alemanha sob um bizarro ângulo de cartão postal do Holocausto, aplicando-se ainda em propalar o tal renascimento judaico em um país salpicado de monumentos, memoriais, mausoléus e museus de lembranças e de mea culpa. Uma realidade que pouco surpreenderia o filósofo e pensador judeu Walter Benjamim (1892-1940), figura cultuada pela intelectualidade brasileira. É dele a frase-slogan : "Não há um documento de cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie."
Em 1939, Benjamim foi destituído de sua cidadania alemã, enquanto vivia na França, e passou a ser um "estrangeiro de nacionalidade indeterminada de origem alemã". Nascido em Berlim, o autor de Teses sobre o conceito da História tentou em vão obter a cidadania francesa. Quando só restava a fuga para escapar à Gestapo, ele se viu impossibilitado de alcançar a liberdade pela falta de documentos legais. Deprimido, na noite de 25 de setembro de 1940, em um quarto de hotel na fronteira com a Espanha, cometeu suicídio ingerindo uma dose letal de morfina. Tinha 48 anos e embora somasse uma história pessoal enraizada na Alemanha e uma reconhecida bagagem literária, era um apátrida.

Uma missão quase impossível

Em 1989, o livro "Modernidade e Holocausto", de um sociólogo judeu de origem polonesa, ganhou o prestigioso prêmio Almafi, concedido pela Associação Italiana de Sociologia à melhor obra do ramo publicada na Europa. Seu autor, Zigmunt Bauman, atualmente com 85 anos, atribuía à modernidade e suas técnicas de planejamento, organização e produção, um papel decisivo na consecução do Holocausto. Observava Bauman que "o Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano". Radicado na Inglaterra desde da década de 1970, o sociólogo criticava o afrouxamento dos mecanismos de lembrança em relação ao genocídio. "A autocura da memória histórica que se processa na consciência da sociedade moderna é mais do que uma indiferença ofensiva às vítimas do Holocausto. É também um sinal de perigosa cegueira, potencialmente suicida."

"Custa-me acreditar que meu pai tenha sido deportado daqui para o campo de Sachsenhausen", afirma o israelense Amit Sonnenfeld, de 56 anos, em sua primeira visita à Alemanha, em setembro de 2010. Sua mulher Eynat acrescenta: "Berlim é completamente multicolor, e não tem nada que ver com as imagens da Alemanha que me acompanham desde a infância." Ambos, segundo a reportagem do jornal de Munique, se movimentavam esbaforidos e felizes pelas ruas de Berlim, carregados de sacolas de compras e animados com o circuito gastronômico que a cidade oferece.

Para Bauman, redimir o passado implicaria em atualizar o seu significado no tempo presente. Entretanto, a memória da história oficial é sempre percebida de forma linear, enfileirando fatos,datas e as diversas formas de poder que atuaram no contexto. No caso do Holocausto, os testemunhos dos sobreviventes acrescentaram uma segunda dimensão à história. Mas, no estágio atual – onde os campos de horror foram transformados em bem cuidados museus a céu aberto e o genocídio se recria em projetos arquitetônicos monumentais –, a globalização já aspirou e centrifugou os inevitáveis espantos e discordâncias, transformando-os em resíduos ou pó. Com os seus (aparentemente) ilimitados recursos de pasteurização sobre as sociedades midiáticas e marquetizadas, a globalização viabilizou o encontro mágico entre a mais alta tecnologia e as táticas de convencimento, tornando a busca de um sentido singular e contemporâneo ao significado do Holocausto, uma missão quase impossível.

O prognóstico de Orwell

O pensamento globalizado é uma das características do século 21 e aqueles cujas ideias possam de alguma forma desregular uma azeitada ordem midiática, construída sobre sólidas estruturas de poder, certamente terão grandes dificuldades em concretizá-las com algum êxito.

No caso específico do Holocausto, o aspecto ideológico e a sua vigorosa instrumentalização que permitiu, com sucesso, a implantação de um sistema industrial de matança dentro de uma sociedade civil informada e evoluída, caminha para ganhar ares de ficção, cercado dos cintilantes penduricalhos que a imaginação e a criatividade associadas à arte e a tecnologia do marketing são capazes de produzir. Sobrando disso tudo, talvez, em um futuro não muito distante, um shopping virtual de imagens – símbolo de uma época perdida no tempo – a ser acessado por alguns curiosos.

Essa complexa relação entre o presente, a percepção do passado e o poder, em suas formas manifestas ou subterrâneas, já tinha sido admiravelmente prenunciada pelo jornalista britânico Eric Arthur Blair (1903-1950), ferido no pescoço na Guerra Civil espanhola enquanto lutava contra o ditador Francisco Franco e seus aliados Mussolini e Hitler. Ele sabiamente prognosticou: "Quem controla o passado, controla o futuro; e quem controla o presente controla o passado". Sob o pseudônimo de George Orwell, na novela 1984, o autor, que foi correspondente da BBC de Londres na 2ª Grande Guerra, delineou um axioma que em 1949, data da publicação do livro, poderia parecer delirante. Um livro que ainda fascina milhões de pessoas e que, de acordo com a pesquisa da revista Newsweek, publicada em 2009, foi apontado como segundo melhor livro de todos os tempos, perdendo apenas para o romance "Guerra e Paz", de Leon Tolstoi.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Carisma de Lula vence eleição


por Sheila Sacks

Pelo terceiro pleito consecutivo para a escolha de quem vai governar o Brasil, a comunidade judaica aposta contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e perde. Desde a primeira vitória do PT, em 2002, as federações israelitas e a mídia judaica online procuram dissociar a figura de Luiz Inácio Lula da Silva, líder máximo do PT, da cartilha básica de compromissos ideológicos do partido. Para isso se valem, periodicamente das declarações polidas da assessora pessoal do presidente, Clara Ant, ativista política e ex-integrante do movimento estudantil trotskista “Liberdade e Luta”, dos anos 1970.

Longe das esferas oficiais

Principal interlocutora do governo federal com a comunidade judaica, Clara Levin Ant, de 62 anos, tem a delicada função de prover de explicações plausíveis e baixar o nível da fervura todas as vezes que membros e representantes mais radicais do PT assumem posições ou adotam iniciativas mais contundentes - inclusive com a publicação de artigos na mídia - que possam, de alguma forma, repercutir negativamente sobre a comunidade de 120 mil brasileiros judeus, principalmente em relação à contenda entre Israel e seus vizinhos palestinos. Os esclarecimentos solicitados são feitos longe dos círculos oficiais e raramente ganham às páginas da grande imprensa, cabendo então aos informativos comunitários online veicularem de forma “equilibrada”, sem atiçar os ânimos, as inevitáveis justificativas. De preferência acrescidas de fotos exibindo os visitantes nos gabinetes palacianos. Uma visão que enche os olhos da comunidade judaica e reforça a impressão de que o governo esta sempre disposto a escutá-los, ainda que mantenha sua posição ideológica inalterável.

Nascida na Bolívia, filha de um imigrante judeu que se transferiu para São Paulo na década de 1950, Clara Ant formou-se arquiteta e depois optou pela política. Participou da fundação da CUT (Central Única dos Trabalhadores) – é de sua autoria o logotipo da organização -, elegendo-se deputada estadual pelo PT paulista em 1986. Acompanhando Lula desde 1998, quando o então ex-sindicalista concorreu pela terceira vez à presidência da República, Clara Ant tem sido bastante inteligente em sua blindagem à figura do presidente que apesar de não se desviar das diretrizes do partido, tanto na política interna como na externa, é visto pela comunidade judaica como um petista mais aberto e acessível. Ela poderá integrar o staff da presidente eleita Dilma Roussef para quem trabalhou ativamente na campanha, provavelmente exercendo idêntico papel de mediadora. Outras fontes apostam que a assessora poderá acompanhar o presidente Lula na criação de uma fundação voltada para ações sociais, como a de ajudar a combater a fome e a pobreza no mundo.

Vantagem de votos em Minas Gerais e Rio de Janeiro

Mas, mesmo contando com um espaço razoável nas agendas do Planalto, a comunidade judaica nesta eleição presidencial de 2010 - realizada em dois turnos, o primeiro em 3 de outubro e o segundo no dia 31 - votou no candidato da oposição representada pelo governador paulista José Serra. Maior colégio eleitoral do país, com 30 milhões de eleitores, São Paulo ficou nos meses que antecederam as eleições sob a batuta do vice-governador Alberto Goldman, judeu e ex-militante do Partido Comunista Brasileiro.

Confiante em uma vitória expressiva em seu estado, Serra e seus correligionários foram surpreendidos pelo desempenho eleitoral da candidata lulista. Sua vantagem nas urnas foi bem discreta com um placar de 54% contra 45% obtidos por Dilma. Já no segundo e terceiro maiores colégios eleitorais, Minas Gerais (15 milhões de eleitores) e Rio de Janeiro (11 milhões), Dilma alcançou 60% dos votos. Somando com as vitórias obtidas na maioria dos estados das regiões Norte e Nordeste, incluindo a Bahia (70% dos votos) e mais o Rio Grande do Sul (ambos os estados elegendo governadores petistas, Jacques Wagner – de mãe judia - e Tarso Genro – de avó judia), a indicada de Lula conquistou a posição única de se tornar a primeira mulher e ex-combatente (lutou contra a ditadura e permaneceu presa de 1970 a 1972) a se tornar presidente do Brasil.

Talvez por isso ou pela alegada simpatia do PT pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), grupo gerrilheiro marxista-leninista classificado de narco-terrorista pela própria Colômbia, Estados Unidos, Canadá e União Européia, a organização tenha publicado mensagem de felicitações à Dilma, com “aplausos e reconhecimento” a sua vitória. No comunicado, eles afirmam que estão seguros de que a nova presidente do Brasil terá papel determinante “para alcançar a paz regional na irmandade dos povos do continente”.

Pela defesa da liberdade de religião e expressão

Em seu primeiro discurso, após os resultados das urnas, Dilma Roussef tratou de apaziguar os ânimos, comprometendo-se a zelar pela total liberdade de religião e de expressão. “Prefiro o barulho de uma imprensa livre ao silêncio das ditaduras” enfatizou em seu pronunciamento à nação, em 1 de novembro.

Entretanto, durante os meses que antecederam a eleição, o presidente Lula várias vezes se queixou das insistentes abordagens negativas sobre o seu governo por parte dos gigantes da mídia brasileira. Os jornais “O Globo”, “Estado de São Paulo”, “Folha de São Paulo”, “Estado de Minas”; as revista “Veja” e ‘Época”; e, principalmente, a rede Globo de rádio e TV, abriram amplos espaços para a veiculação de acusações contra assessores do governo, ligando-os às práticas de tráfico de influências e de malversação de dinheiro público. Os ataques continuados nos meios de comunicação ao seu governo e a sua candidata, apontada como inexperiente em gestão política, levaram o presidente Lula, em um comício na cidade paulista de Campinas, a comparar os veículos da imprensa a partidos políticos: “Nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como fossem partido político e não têm coragem de dizer que são partido político e têm candidato”, falou.

Críticas ao “Antiamericanismo primitivo”

Apesar do apoio dos grandes empresários por conta das centenas de obras nas áreas da construção civil e de infraestrutura (energia, estradas, saneamento, moradias, portos e aeroportos) que se espalham pelo país através da implantação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), e que somente no Rio de Janeiro vêm injetando bilhões de dólares na urbanização das favelas e nas obras de modernização da cidade para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, uma outra parcela da elite empresarial brasileira tem dado mostras de sua insatisfação diante do que chamam de “antiamericanismo primitivo” praticado pelo governo comandado por Lula, incluindo aí a sua aproximação com a ditadura militar-religiosa do Irã que nega o Holocausto e com os governos de esquerda dos vizinhos Equador, Bolívia e Venezuela (os dois últimos romperam relações diplomáticas com Israel, no início de 2009, devido ao conflito em Gaza).

Em resposta às críticas dos descontentes, Lula gosta de assinalar que as pessoas ricas foram as que mais ganharam dinheiro no seu governo. O empresariado lucrou na área da construção civil, na indústria, no comércio em geral e em todas as áreas de negócios e investimentos que tiveram forte crescimento.

Em contrapartida, no rastro desse cenário econômico mais favorável, foram criados mais de 10 milhões de empregos formais e cerca de 20 milhões de pessoas saíram da linha da fome e da extrema miséria ajudadas principalmente por programas sociais como o Bolsa Família, que atende 12 milhões de famílias com a transferência direta de até 130 dólares mensais para cada uma, beneficiando um total de 46 milhões de pessoas.

Também o salário mínimo mensal cresceu mais de 50% e hoje equivale a 280 dólares, com a perspectiva de que em janeiro de 2011 chegue aos 300 dólares. O aumento nas oportunidades de emprego e a oferta de maior crédio possibilitaram a entrada de 30 milhões de pessoas na classe C. Já as classes A e B, as mais ricas, tiveram um acréscimo de 6 milhões de pessoas.

Diplomacia brasileira é o ponto de discórdia

Contudo, apesar do louvável e meritório trabalho de erradicação da miséria e inclusão social que tem favorecido milhões de brasileiros, associado às efetivas melhorias que as demais classes sociais também alcançaram no governo Lula, os judeus brasileiros, em sua maioria, sentem-se incomodados com a política externa brasileira que em anos recentes intensificou a aproximação com governos árabes totalitários que pregam a eliminação do estado de Israel. Adotando a causa palestina de um ponto de vista ideológico, a diplomacia brasileira tem ignorado o real contexto do Oriente Médio que obriga os israelenses a manter um contínuo estado de alerta e de defesa de sua integridade.

Em entrevista coletiva concedida a alguns jornalistas brasileiros que visitaram recentemente Israel, o presidente Shimon Peres afirmou que o Brasil precisa se decidir se é pró-Irã ou pró-EUA.“ É preciso fazer uma escolha”, acentuou. Ele exortou o Brasil a levar a sério as ameaças do líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad a Israel, assim como sua pregação contra o Holocausto. Elogiando o presidente brasileiro, Peres disse que “a voz do Brasil deve ser ouvida” mas que a diplomacia brasileira deve se pautar por valores e não apenas pelo “puro poder”.

Na reportagem publicada em 10 de novembro no jornal Estado de São Paulo, Peres destacou que a convivência harmoniosa de árabes e judeus no Brasil é um exemplo para o mundo. Contou que ele e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, ficaram impressionados ao se reunirem com o Comitê Olímpico brasileiro que prepara as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. “Eu vi que havia judeus e árabes trabalhando junto. Então eu disse a Abbas: Se eles conseguem, porque nós não?”

Em março de 2010, um dos mais importantes jornais de Israel, o Haaretz, já havia chamado Lula de “o profeta do diálogo” por suas intermediações em busca da paz no Oriente Médio.

A mulher que vai comandar um gigante econômico

O fato é que Dilma Vana Rousseff, uma economista de 62 anos, de pai nascido na Bulgária, e o seu vice, o deputado federal Michel Elias Temer Lulia, de 69 anos, filho de um imigrante libanês, assumem a partir de 1º de janeiro as rédeas de um país que de acordo com analistas estrangeiros caminha para ser a 5ª maior potência econômica mundial. Atualmente, o Brasil é a 8ª economia do mundo, com um PIB – Produto Interno Bruto (conjunto de todos os bens e serviços produzidos no país) de U$ 1,8 trilhão, sendo superado apenas pela Itália, Reino Unido, França, Alemanha e pelos líderes Estados Unidos, China e Japão. Daí que mesmo antes de ser empossada, a recém-eleita presidente do Brasil já figura na lista das pessoas mais influentes do mundo de acordo com a revista norte-americana Forbes. Das 68 personalidades mais poderosas entre 6,8 bilhões de habitantes do planeta, Dilma ocupa a 16ª posição, à frente de políticos como o presidente da França, Nicolas Sarkozy (19ª) e a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton (20ª).

Com o aval incondicional do presidente Lula que após oito anos governando o país ainda desfruta de uma espantosa popularidade advinda da aprovação e da avaliação positiva de seu governo por 83% da população, a nova presidente também terá a seu favor um Congresso formado, em sua maioria (3/5 dos congressistas) por deputados e senadores eleitos pelos partidos de coalizão que apoiam o governo.

Em tempo e para refletir: dos 135 milhões de brasileiros aptos a votar (o país tem 190 milhões de habitantes), 29 milhões se abstiveram de votar (21% do eleitorado) e 7 milhões anularam o voto. Oitenta e cinco mil eleitores votaram no exterior.
Na apuração final, Dilma obteve um total de 55,7 milhões de votos (56% do eleitorado) contra 43,7 milhões (44%) de Serra, ganhando por uma diferença de 12 milhões de votos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Os órfãos da Inquisição


por Sheila Sacks

São milhares de cidadãos com sobrenomes familiares aos brasileiros: Pereira, Araújo, Almeida, Albuquerque, Bezerra, Caldeira, Cabral, Carneiro, Dias, Cardoso, Coimbra, Melo, Lopes, Salgado, Oliveira, Mendes, Saldanha, Moreno, Pinto, Costa etc. Entretanto, há 500 anos, nas terras da Península Ibérica, os antepassados desses milhões de brasileiros portavam nomes e identidades diferentes: Aboab, Cohen, Abravanel, Aruch, Obadia, Abulafia, Danon, Eskenazi, Hakim, Finzi, Gabirol, Gabbai etc. A mudança drástica ocorrida em suas raízes familiares, culturais e religiosas e a ruptura radical com um passado milenar peculiar e único, resultaram em uma inimaginável legião de órfãos de pais biológicos vivos. Afinal, o que significa um estreito lapso de cinco séculos frente à imensidão de um cenário macro formado por mais de três milênios de história e tradição?

A procura pela identidade primeira, representada pela ancestralidade original, tem mobilizado milhares de pessoas em várias partes do mundo interessadas em encontrar respostas a uma série de sentimentos reprimidos e a incontáveis dúvidas existenciais. Com o intuito de ajudar a essas pessoas especiais a encontrar as suas raízes, foi fundada em 2004 a organização SHAVEI ISRAEL (Retorno a Israel), com sede em Jerusalém. A instituição está presente em vários países, inclusive no Brasil. Seu dirigente, Michel Freund, acredita que existam 13 milhões de descendentes de judeus que ainda guardam alguma prática judaica de seus antepassados, 500 anos depois da tragédia e das fogueiras da Inquisição.

Pelo retorno de um povo: A missão mais que possível

Michael Freund, 42 anos, é um novaiorquino formado em Finanças pela Columbia University e Política Internacional pela de Princenton. Vivendo em Israel há mais de de uma década, ele também percorre meio mundo para descobrir e ajudar os “judeus perdidos” a reencontrarem a sua herança milenar. Fundador da Organização SHAVEI ISRAEL, Freund mantém contato com as várias comunidades de descendentes dos chamados “falsos cristãos” ou “bnei anussim” (filhos dos forçados – descendentes daqueles que foram convertidos à força ao catolicismo, durante a Inquisição), na Europa, América do Sul, África e Ásia.

Organizando seminários e instalando centros de estudos e de apoio para atender a todos que têm um real interesse em recuperar as suas origens, o SHAVEI ISRAEL conta com um grupo de prestigiados educadores e rabinos que realizam as conversões sempre de acordo e com a aprovação do Rabinato de Israel.

Em 2005, Freund se encontrou com pessoas de Burma, Espanha, Peru, Índia, Colômbia e Japão que tinham feito o “monumental passo de formalmente se unir ao povo judeu”. Eram biólogos, tradutores, professores e até mesmo um ex-padre católico. “Nesta época em que tantos jovens judeus abandonam as suas raízes judaicas, ver este despertar sem precedentes acontecendo sob os nossos olhos, com pessoas batendo a nossa porta, com sinceridade, suplicando para entrar, é emocionante e inspirador”, enfatiza.

Os judeus perdidos do Nordeste

No Brasil, os emissários do SHAVEI já criaram um núcleo em Recife. Historiadores acreditam que o nordeste do Brasil abriga uma das maiores concentrações de bnei anussim do mundo. Em 2008, 45 famílias que descobriram as suas raízes judaicas (30 de Pernambuco e 15 da Paraíba) estudavam as leis, os costumes religiosos, as festas, o calendário e o significado do retorno. Segundo o rabino Eliezer Sabba que ministrava o curso, os bnei anussim podem ser encontrados principalmente nos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também existem judeus perdidos no Ceará, sertão da Bahia e norte de Minas Gerais.

Na reportagem para o Jornal do Comércio de Recife, o rabino explicou que muitos dos chamados cristãos-novos (judeu convertido à fé cristã) fugiram de Portugal para o sertão brasileiro porque era mais fácil manter as práticas judaicas. Embora a Inquisição também tenha chegado ao Brasil, a perseguição era menor.

Sobre as diversas maneiras de se reconhecer as raízes judaicas das pessoas, as mais importantes são os sobrenomes e os hábitos familiares. Os sobrenomes estão geralmente associados a árvores, animais ou aos locais onde viviam. Por exemplo, Matos e Selva, no interior do estado, e da Costa, no litoral. Bezerra é outro nome que identifica um cristão-novo. Quanto aos costumes, o rabino disse que conversou com pessoas que não comiam carne de porco, mas não sabiam explicar o motivo. Outras tinham aprendido com a família a acender velas todas as sextas-feiras para o anjo da guarda, sem fazer vinculação com o sábado dos judeus. Outro costume mantido no interior semelhante ao ritual judaico seria a forma de enterrar os mortos, enrolados numa mortalha e direto na terra.

Da selva peruana à China pessoas regressam ao Judaísmo

Ainda na América do Sul, Freund enviou, em 2006, um rabino para uma cidade na selva amazônica peruana, a pedido da comunidade de Tarapoto, a 600 quilômetros ao norte de Lima, capital do Peru. Conhecida como a cidade dos Salmos, ela possui algumas centenas de descendentes de judeus marroquinos que conservam sobrenomes como Ben-Zaken, Ben-Shimon e Cohen.

Outro grupo que o SHAVEI tem dado assistência é aquele formado pelos descendentes da tribo perdida de Menashé (7.200 membros) que vive no noroeste da Índia, nas cidades de Mizoran e Manipur. Mil e quatrocentos deles já imigraram para Israel e outros 700 esperam fazer o mesmo. Eles se declaram descendentes dos judeus exilados da terra de Israel, pelos assírios, há 2.700 anos. Quatro dos cinco livro da Torá já foram traduzidos diretamente do hebreu para a língua local – Mizo.

Na China, os judeus da cidade de Kaifeng foram descobertos no século 17, e apesar da assimilação e da pobreza da comunidade, alguns ainda conservam a sua identidade. Também os judeus da Polônia e da Rússia, devido as guerras e ao regime comunista esconderam as suas identidades judaicas e agora participam de um movimento de retorno às suas origens.

Na Espanha e Portugal, os países mais afetados pela Inquisição, muitos desses bnei anussim conservaram a sua identidade judaica secretamente, por 500 anos, como foi o caso dos judeus de Palma de Mallorca e de Belmonte. Nesta última cidade, no norte de Portugal, 150 desses cristãos-novos que se mantiveram leais às práticas do Judaísmo já foram formalmente reconhecidos por uma Corte Rabínica de Jerusalém.

De braços abertos para os que retornam

Em 2007, fiz algumas perguntas via email ao Sr. Freund que antes de se dedicar à causa dos “judeus perdidos” trabalhou com o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no cargo de vice-diretor de Comunicações e Planejamento Político do Governo (1996-1998). Freund também escreve periodicamente para o jornal “Jerusalém Post” e o seu blog – Fundamentally Freund – foi escolhido entre os três melhores de Israel, em 2005, na categoria de política e negócios e de defesa dos interesses do país.

O que levou o senhor a fundar, em 2004, uma instituição como o SHAVEI ISRAEL?

- Eu decidi lançar o Shavei Israel porque percebi que o povo judeu encontrava dificuldades em ajudar mais efetivamente os descendentes dos judeus ao redor do mundo que desejassem investigar as suas origens judaicas. Em anos recentes, o fenômeno da globalização surgiu e alcançou aqueles indivíduos e comunidades que tinham uma conexão histórica com o povo judaico, e que começaram a manifestar um crescente interesse em se reconectarem à sua herança judaica. Eu acredito que é nossa responsabilidade, como judeus, adotar essas pessoas, estender-lhes a mão e dar as boas-vindas em seu retorno ao lar.

Através dos séculos, como conseqüência de uma cruel perseguição e exílio, muitos judeus foram forçados a se converterem a outras religiões ou deixar de lado a sua identidade judaica. Tomemos, por exemplo, Espanha e Portugal no século XV, quando centenas de milhares de judeus foram obrigados a se converterem ao Catolicismo contra a sua vontade. Apesar disso, muitos continuaram a seguir o Judaísmo em segredo preservando a sua identidade judaica, mesmo conscientes do grande risco que esta prática envolvia. Eles eram conhecidos como marranos ou bnei anussim, na língua hebraica, que significa “aqueles que foram forçados”. Eles mantiveram a sua identidade judaica secretamente, de geração em geração, e, atualmente, seus descendentes podem ser encontrados em toda a parte do mundo onde se fala espanhol e português, incluindo, logicamente, o Brasil, onde, talvez, esteja localizado o maior número de descendentes de judeus, possivelmente uma cifra que chega a milhões de pessoas. São exatamente estas pessoas que nós desejamos alcançar.

Contudo, eu precisaria acrescentar que o Judaísmo não é uma religião missionária e nós não somos uma organização missionária. Em vez disso, nós trabalhamos com pessoas que não apenas têm uma ligação biológica com o Judaísmo e os judeus, mas também uma natural identificação e que estejam interessadas em fortalecer esta conexão mais adiante.

Israel e o povo judeu defrontam-se com um imenso desafio demográfico. Nós somos um pequeno povo – apenas 13,5 milhões de judeus em todo o planeta! – e nossos números não crescem como seria desejável. Por conseguinte, indo ao encontro de nossos irmãos e irmãs perdidos e trazendo-os de volta para a congregação, nós poderemos nos fortalecer, tanto espiritualmente como numericamente.

Quais são as grandes vitórias do SHAVEI ?

- A instituição tem se expandido de forma extraordinária nesses anos, e nós estamos presentes, agora, em oito países ao redor do mundo, incluindo Espanha, Portugal, Brasil, Índia, Peru, Rússia, Polônia e China. Na Índia, nós temos dois centros educacionais para os “bnei Menashé”, um grupo de descendentes de uma Tribo Perdida de Israel.

Em março de 2005, o Rabino Chefe Sefaradit de Israel, Rabbi Shlomo Amar, reconheceu formalmente os bnei Menashé como descendentes de Israel, e então nós organizamos a ida de uma Corte Rabínica (Beit Din) à Índia, em setembro do mesmo ano, onde foi possível converter 200 membros da comunidade que retornaram ao Judaísmo.

Na Espanha, Portugal e Brasil, nós temos emissários atuando em Palma de Mallorca, na cidade do Porto e Recife, onde trabalham com os rabinos para a comunidade local e ao mesmo tempo realizam serviço voluntário com os bnei anussim em diversas áreas. Nós organizamos seminários e simpósios, várias vezes ao ano, e temos publicado um bom número de livros e folhetos em espanhol sobre a história judaica, sua cultura e tradições. Também em Jerusalém nós mantemos o Instituto “Machon Miriam”, de língua espanhola, para conversão e “retorno”, onde estudantes se preparam para submeter-se à conversão formal ao Judaísmo.

Nós trabalhamos, ainda, com os descendentes dos judeus da comunidade de Kaifeng, na China, com os judeus de Subbotnik, na Rússia, e com os “judeus secretos” da Polônia. Igualmente patrocinamos uma variedade de cursos profissionalizantes para os novos imigrantes que chegam a Israel, providenciando bolsas de estudo e computadores para os estudantes carentes e fornecendo ajuda de custo nos primeiros meses de sua chegada ao país. Todo o nosso trabalho é conduzido de acordo com a Lei Judaica e sob a supervisão contínua da Chefia do Rabinato de Israel.

De que forma as pessoas podem ajudar o SHAVEI ISRAEL?

- Um de nossos objetivos também é formar uma consciência entre a comunidade Judaica acerca da existência de grupos como os do bnei Menashe e do bnei anussim. As pessoas precisam entender que estes grupos não existem apenas em livros de história – eles estão bem vivos e estão clamando ao povo judeu para que os ajudem e apoiem. Pessoas interessadas em conhecer um pouco mais sobre o nosso trabalho podem visitar o nosso site http:www.shavei.org/ onde encontrarão informações em inglês, espanhol, português e catalão. Também podem enviar e-mail , no endereço spanhish@shavei.or .Todos serão muito bem-vindos. O Shavei Israel também está no facebook.

Nota: Em 2010 já emigraram para Israel 1.320 judeus da Etiópia. Da América do Sul e Central foram 1.360 judeus, sendo 330 da Argentina, 240 do Brasil, 160 do México, 140 do Peru, 120 da Venezuela e 90 do Uruguai. Ao todo escolheram residir em Israel, nos últimos doze meses, quase 18 mil judeus de várias partes do mundo, sendo 7.400 da ex-União Soviética e mais de 5 mil de países como Estados Unidos, África do Sul, França, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e outros.