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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O leitor fiel

por Sheila Sacks
Publicado no site "Observatório da Imprensa"
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed712_o_leitor_fiel
“A leitura diária do jornal é a oração matinal do homem moderno” (G.W.F. Hegel, filósofo do século 19 e redator do Bamberger Zeitung, de 1807 a 1808)
Na obra A Cabala e o seu Simbolismo, o historiador e professor Gershom G. Scholem (1897-1982) observa o caráter conservador e tradicional do crente em relação à autoridade religiosa que o guia. Esse fato se deve, de acordo com Scholem, à educação e à herança antiga que carregam dentro de si. “Ele cresceu dentro do quadro de uma autoridade religiosa reconhecida e, mesmo quando começa a olhar independentemente para as coisas e procurar seu próprio caminho, todo o seu pensar e especialmente sua imaginação continuam permeados de elementos tradicionais”, explica.
Um dos maiores estudiosos contemporâneos das correntes místicas do judaísmo, Scholem procura referendar a sua tese com as seguintes indagações: “Por que um místico cristão sempre tem visões cristãs, e não as de um budista? Por que um budista sempre vê as figuras do seu próprio panteão, e não, por exemplo, Jesus ou Maria? Por que um cabalista, em busca de iluminação, se encontra com o profeta Elias, e não com a figura de um mundo estranho? A resposta é, evidentemente, que a expressão da experiência de um místico é por ele imediatamente transposta para símbolos de seu próprio mundo, mesmo que os objetos destas experiências sejam essencialmente iguais.”
A fidelidade do crente para com a sua religião encontra no mundo secular um paralelo análogo e curioso quando se analisa a relação, muitas vezes paranoica e até fundamentalista, do leitor com o seu jornal. Similar a um líder espiritual, o jornal o informa, orienta e o aconselha sobre temas relevantes, sempre sob uma determinada ótica – a sua visão –, levando o leitor a assimilar uma linguagem e uma experiência de conceitos e ideias que o tornam conservador e até impermeável a outros pontos de vista.
Espaço dos leitores
Ainda que variáveis possam ocorrer, essa constatação pode ser facilmente aferida no espaço que o jornal concede à opinião dos leitores – uma página, em se tratando de O Globo –, cujos comentários e argumentações nos remetem, inevitavelmente, ao pensamento editorial/político do jornal. Isso vem acontecendo com relação ao que ficou conhecido como o “julgamento do mensalão”. A retórica utilizada pela imprensa é reproduzida, muitas vezes inconscientemente, por seus leitores, que se transfiguram em porta-vozes informais dos jornais, justamente nesses raros e valiosos canais abertos para o que se convencionou intitular de opinião pública.
Há pouco mais de um mês (7/8/2012), o Observatório da Imprensa publicou um artigo do professor Venício A. de Lima (“Que 'opinião pública´é essa?") em que o articulista chama a atenção para a postura condenatória de jornalistas e colunistas para com os indiciados do mensalão, sob a alegação de uma suposta “pressão da opinião pública”. No entanto, segundo pesquisa publicada na CartaCapital, citada pelo autor, apenas uma em cada dez pessoas tem conhecimento do julgamento.
A doutrinação subliminar que a imprensa tem infundido a seus leitores ao longo do tempo tem criado a figura do leitor fiel, aquele que crê e segue incondicionalmente o ponto de vista editorial do jornal, mesmo sem ter consciência do fato. Assim como a religião é uma tradição familiar que se perpetua através de gerações, o jornal também se tornou uma tradição familiar que atinge todos que o acompanham. Dessa forma, o espaço dos leitores nos jornais estaria limitado a uma única retórica, a uma opinião direcionada que não se enquadraria na diversidade que o termo “opinião pública” engendra.
Despolitização e desencanto
Em 2010, em um seminário internacional em Lisboa sobre “Mídia, Jornalismo e Democracia”, Thomas Patterson, professor da Universidade Harvard na disciplina “Governo e Imprensa”, surpreendeu a plateia ao afirmar que a mídia norte-americana, apesar da grande quantidade de notícias, não tem contribuído para criar cidadãos informados e engajados no processo democrático. Autor de vários livros sobre a influência da mídia na participação política, Patterson acredita que o jornalismo crítico do jeito que vem sendo praticado enfraquece o interesse das pessoas pela política. “Jornalismo e democracia partilham um destino comum: sem instituições democráticas e sem espírito democrático, os jornalistas ficam reduzidos a propagandistas e entertainers.”
Esse comportamento da mídia já havia sido alvo da reprimenda de Patterson em 1998, em entrevista publicada no Diário de Notícias de Portugal. Na ocasião, o autor do premiado Out of Order (1993), considerado o melhor livro da década sobre comunicação e política pela APSA (The American Political Science Association), foi incisivo: “Há toda uma ideologia de notícias partilhada pelos jornalistas que pode acabar por afastá-los da realidade social. A informação não é um espelho da realidade, é uma visão refratada, moldada pela ideologia do jornalista.” E disparava: “A maioria acha que os jornalistas são demasiados críticos, negativos, desrespeitadores, sensacionalistas e opinativos.”
Visão semelhante à do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1939-2002), para quem o mundo jornalístico com seus mecanismos produz e impõe “uma imagem cínica do mundo político, espécie de arena entregue às manobras de ambiciosos sem convicções, guiados pelos interesses ligados à competição que os opõe”. Bourdieu dizia que esse tipo de exposição concorre para produzir um efeito de despolitização e desencanto com a política (Sobre a Televisão, 1997).
Paladino do bem
Com um discurso parecido, o veterano jornalista Lawrence Grossman, que presidiu a rede de rádio e TV americana NBC News de 1984 a 1988, acusa a mídia de “contribuir enormemente para o crescente cinismo do público, para o seu afastamento da política e para a desconfiança em relação ao governo”. Grossman faz uma apreciação sombria do jornalismo, que no seu entender está se tornando “um deserto vasto e inculto”. Autor da obra Eletronic Republic (1995), alguns anos mais tarde escreveu: “O jornalismo atual se concentra quase exclusivamente nos erros do governo e naquilo que ele não deveria fazer em vez de se concentrar nos serviços essenciais que ele fornece” (Caro McChesney, 1999).
Essas considerações foram dirigidas ao pesquisador e professor de Comunicação da Universidade de Illinois, Robert W. McChesney, defensor entusiasta de uma mídia pública, cívica e comunitária, regida por investimentos governamentais, uma proposição considerada por muitos como utópica e fora da realidade. Em seu livro Morte e Vida do Jornalismo Americano (2010), escrito em parceria com John Nichols, esse especialista em estudos dos meios de comunicação de massa reafirma seu ponto de vista alertando que “é inteiramente irreal esperar que a motivação do lucro proporcione algo próximo do nível de jornalismo necessário para uma cidadania informada e para um governo democrático”.
Nas condições atuais, percebe-se que dificilmente o leitor terá a chance de alcançar um grau relevante de independência em suas opiniões, basicamente formadas por crenças construídas a partir de um aforismo que se convencionou rotular de “interesse público”. Hoje as opiniões são crenças compartimentadas e compartilhadas por comunidades de fieis que, tal como nas doutrinas religiosas, colocam seus credos à frente da razão.
O psicólogo americano Michael Shermer, que estuda há três décadas esse fenômeno, acredita que as crenças vêm primeiro e as razões para justificá-las, depois. “Há um mundo verdadeiro lá fora, mas nosso cérebro não possui necessariamente uma correspondência com esse mundo de verdade. Nosso entendimento da realidade depende das crenças que formamos sobre ela”, explica Shermer, autor de Cérebro & crença (Caderno “Prosa” de O Globo, 15/9/12). Enfim, um processo mental coletivo capturado com habilidade pela “república da mídia”, que se utiliza da milenar crença do mal para consubstanciar sua imagem de paladino do bem e da verdade, nas sucessivas cruzadas que promove contra aqueles que são a sua representação dos dragões da maldade.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Dilma na contramão da notícia?

por Sheila Sacks
“O bom jornalista é aquele que consegue me fazer dizer o oposto do que eu disse sem mudar minhas palavras.” (Slavoj Zizek, filósofo)
Publicado no site "Observatório da Imprensa" http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed706_dilma_na_contramao_da_noticia

Se continuar a valer a máxima da língua inglesa sobre critérios de noticiabilidade, as notícias ruins ainda são as boas notícias para os profissionais das redações. O jargão bad news is good news, porém, não circula sozinho. Por extensão e complementando o ditado jornalístico, a boa notícia também não seria considerada notícia (good news is no news), pois a negatividade ainda permanece como um dos fatores mais atrativos a imprimir “valor” (no sentido de interesse público e potencialidade) à notícia. Fato já observado e analisado pelos cientistas sociais noruegueses Johan Galtung e Mari Holmboe Ruge em seu estudo-referência “The Stuctures of Foreign News”, nos idos de 1965.

Recentemente, duas informações com altas doses de negatividade foram veiculadas pela mídia: uma, quantificando o montante anual de negócios do crime organizado internacional, algo em torno de 870 bilhões de dólares, segundo relatório divulgado pelo escritório da ONU Sobre Drogas e Crimes (UNODC, na sigla em inglês); e a outra, revelando os números da sonegação no país, calculados em cerca de 520 bilhões de dólares (mais de 1 trilhão de reais) não declarados à Receita Federal e depositados ilegalmente em bancos no exterior, nos chamados “paraísos fiscais”, de acordo com estudo realizado pela organização inglesa Tax Justice Network.

Mais que orçamentos governamentais
Em relação à primeira notícia, é dito ao leitor que a cifra de 870 bilhões de dólares, o equivalente a mais de 1,7 trilhão de reais, representa mais de seis vezes o total destinado ao desenvolvimento dos países, igual a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial (“Crime Internacional gera US$ 870 bi” – O Globo, em 17/7/2012). O estudo do UNODC destaca que o tráfico de drogas e a pirataria comercial são os carros-chefes dos ilícitos penais e têm nos países do Cone Sul, e principalmente no Brasil, mercados cada vez mais promissores. Relatórios anteriores desse escritório internacional já apontavam que a indústria da droga no Brasil movimenta 5 bilhões de dólares por ano (320 bilhões de dólares no mundo) e que o país é o maior mercado de cocaína da América do Sul, com 890 mil usuários (em 2008).

Por meio da segunda notícia fica-se ciente de que o Brasil detém a quarta posição no ranking mundial de dinheiro expatriado para bancos de países que operam à margem da legislação e incentivam a sonegação de impostos. Perdendo apenas para os chineses, russos e coreanos, essa fortuna não declarada de brasileiros, avaliada em mais de 1 trilhão de reais, grande parte advinda de ilícitos e da corrupção, corresponde a mais de 17 vezes o orçamento de 2012 do governo federal para o Plano Brasil Sem Miséria (que pretende tirar 16 milhões de brasileiros da extrema pobreza até o fim de 2014). Ou a metade de todos os recursos do PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento), o projeto de modernização das infraestruturas do país, nos quatro anos do governo de Dilma Rousseff (“R$ 1 trilhão em paraísos fiscais” – Correio Braziliense, em 23.07.2012).

Questionamentos

Em sentido contrário a essas notícias que expõem dados preocupantes e escancaram ameaçadoras fraturas no topo social das nações – e que singularmente nem mais produzem as tais “marolinhas”, para lembrar expressão usada pelo ex-presidente Lula –, o governo federal divulgou o aumento do valor médio do benefício pago pelo Bolsa Família (que atinge 13,5 milhões de famílias) para uma parcela de 1,97 milhão de famílias com filhos de até seis anos de idade. Os grupos familiares são participantes da Ação Brasil Carinhoso, programa anunciado pela presidente Dilma por ocasião da celebração do Dias das Mães. De acordo com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), os valores foram reajustados de R$ 153 para R$ 237, garantindo uma renda mensal de R$ 70 por pessoa àquelas famílias. “Cerca de 90% dessas famílias receberão até R$ 352. Apenas 16 mil famílias receberão um valor maior que R$ 532 – o que representa 0,1% dos 13,5 milhões que participam do programa”, acentuava o texto. A Secom também informava que o novo valor do benefício elevou a folha de pagamento do Bolsa Família de R$ 1,6 bilhão em maio para R$ 1,8 bilhão em junho (Em questão, edição nº 1564, de 03/7/2012).

As explicações tornaram-se necessárias face à reportagem de O Globo que, de forma investigativa, denunciava que o Bolsa Família estava pagando mais de dois salários mínimos de benefício, segundo dados obtidos pelo jornal através da Lei de Acesso à Informação (“Bolsa Família já registra benefício de até R$1.332”, em 26/6/2012). Diante do que parecia ser mais um escândalo a se avizinhar na esfera governamental, o leitor viu-se surpreendido ao verificar, lendo o parágrafo abaixo da manchete, que o tal benefício se referia a uma única família de brasileiros composta de 19 pessoas. Uma exceção no Brasil de hoje, onde as famílias são menores, segundo o pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marcelo Neri. Para ele o governo acertou no foco porque a taxa de pobreza das crianças é 7,8 vezes maior que a dos idosos.

Nesse episódio cabe lembrar primeiramente de Walter Lippmann, um festejado jornalista e analista político norte-americano (1889-1974), para quem “a ansiedade da imprensa reside mais em conquistar a atenção do público do que servir com informação privilegiada e relevante aos indivíduos”. Isso dito em 1922, no livro Public Opinion. E citar novamente o filósofo esloveno Slavoj Zizek, 63 anos, autor de mais de 50 livros, entrevistado por Diego Viana. Para o autor de Vivendo no Fim dos Tempos, a situação do mundo atual exige muito mais organização em nível global e por isso é preciso repensar certos conceitos: “Temos que acabar com essa ideologia de ver o Estado como inimigo, aquele que controla e oprime”, alerta Zizek, que lamenta não avistar no horizonte propostas animadoras para enfrentar as variadas crises já instaladas nos países (“A Ironia e o apocalipse” – revista Eu & Fim de Semana, doValor Econômico, em 20/7/2012).

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Os mistérios do Livro da Criação


“O sentido da revelação é concedido àqueles que têm a mente desarmada para o mistério” (Abraham Joshua Heschel) 
 
/ Sheila Sacks  /  

Talvez por ser um dos mais antigos e misteriosos textos do judaísmo místico, o Sêfer Ietsirá (O Livro da Criação), que trata das origens do mundo, tem sido estudado por teólogos, filósofos e historiadores ao longo dos séculos. O rabino norte-americano Arieh Kaplan, falecido aos 48 anos, em 1983, foi um dos inúmeros eruditos que se debruçaram sobre esse pequeno texto (1.300 palavras, em sua versão curta) envolto em superstições e proibições, em razão das dificuldades que o mesmo apresenta para o seu entendimento. 

De forma generosa e até ousada, Kaplan, que antes de se dedicar aos estudos da teologia judaica trabalhou como físico para o governo dos Estados Unidos, se dispôs a realizar a difícil tarefa de tornar mais acessível aos leigos, através de suas pesquisas, análises e comentários, os ditos e as expressões contidos neste texto milenar. 

Na apresentação da tradução brasileira, o estudioso da Cabalá (a dimensão mística do judaísmo), o paraense Erwin Von-Rommel Vianna Pamplona, alerta para a complexidade da obra. “Este não é um livro fácil”, escreve. “Necessita de pré-requisitos para ser aprendido.” 

O tradutor lista então certas condições indispensáveis ao leitor para o entendimento da obra: equilíbrio emocional, persistência, determinação, tranquilidade e merecimento, esse último item a ser atingido pela caridade e reza. Erwin também aconselha que a leitura do texto seja compartilhada por duas pessoas, porque “o praticante solitário pode, em dado momento, perder a noção do que é realidade e imaginação”. 

À parte esses cuidados, Erwin Von-Rommel faz uma afirmação empolgante: assegura que para o neófito o livro se constituirá na porta de entrada para os mistérios do Universo. Dando como exemplo a sua própria experiência como estudioso da Cabalá (‘recebimento’, em hebraico), ele diz que comprovou, no campo material, o poder dos ensinamentos interpretados e analisados por Kaplan, que lançam maiores luzes no conteúdo desse texto obscuro com “fortes insinuações mágicas”. 

Texto remonta ao patriarca Abraham 

Os primeiros comentários conhecidos sobre o Sefer Ietsirá datam do século 10. À época, o rabino Saadia Gaon atribuiu a sua origem ao patriarca Abraham (Avraham), o primeiro hebreu da história. Nascido na Mesopotâmia no século 18 antes da Era Comum (atual Iraque), o patriarca viveu e morreu em Canaã (hoje Israel), sendo versado nos mistérios da astrologia e das letras hebraicas. Daquele início da trajetória do povo de Israel até os séculos seguintes, os ensinamentos teriam sido passados oralmente através das gerações. Entretanto, algumas fontes dizem que já havia comentários escritos sobre o Livro da Criação no período do Segundo Templo (516 a.E.C. a 70 E.C.). 

Um dos envolvidos nos mistérios do Sêfer Ietsirá seria Menhachem, o essênio, que profetizou que Herodes seria rei. Essa seita judaica monástica e ascética que vivia no deserto, em Qumran, a 32 quilômetros de Jerusalém (do século 2 a.E.C. até o século 1) e cujos rituais e práticas foram conhecidos com a descoberta dos rolos do Mar Morto, em 1947, mantinha um comportamento religioso ortodoxo e rigoroso no cumprimento das leis de Moisés. 

O historiador Flavio Josefo (século 1), em seu livro sobre as guerras judaicas contra os romanos, afirma que os essênios podiam predizer o futuro mediante diversas purificações e métodos dos profetas. Eles tinham desapego aos bens materiais e se empenhavam na busca da evolução espiritual. Menachem teria sido morto pelos soldados romanos no ano 4 a.E.C., segundo o historiador israelense Israel Knohl.

Outra figura histórica que teria vivido na comunidade de Qumran seria Yochanan ha-Matbil - João, o Batista, que morreu em 25 da E.C. O teólogo alemão Otto Betz assinala que o pregador recebeu forte influência mística da seita, principalmente no tocante às orações e hinos. 

Letras e números formam caminhos

Mas, é no século 16 que surge a versão escrita do Sêfer Ietsirá mais aceita pelos cabalistas, devido ao refinamento do texto e por estar em concordância com o Sêfer ha-Zohar (O Livro do Esplendor) – a obra principal e mais sagrada da Cabalá. Coube ao o rabino Isaac Luria (1534-1572), em Jerusalém, a compilação e interpretação do texto original que comporta 1.800 palavras. 

O interessante é que muitos estudiosos especulam que os ensinamentos originais seriam limitados a 240 palavras. Segundo Kaplan, a obscuridade do texto impõe uma cuidadosa análise de cada palavra e sua correspondência na literatura bíblica (Torá/Pentateuco, Neviim/ Profetas e Ketuvim/Escritos) e talmúdica (de Talmud, do hebraico ‘aprendizado’, obra de compilação, comentários e interpretação das leis e tradições judaicas). 

Quando o Sêfer Ietsirá se inicia assinalando que “com 32 caminhos místicos de Sabedoria gravou Yah (o Eterno)”, esse número corresponde a soma das 22 letras do alfabeto hebraico com os 10 dígitos ou dez Sefirot – as fontes nas quais os números se originam. Os cabalistas observam que esses 32 caminhos são aludidos na Torá (do hebraico ‘ensinamento’) no capítulo do Gênesis, quando 32 vezes aparece o nome de D’us no relato da Criação. 

Outro detalhe significativo: o número 32 é escrito em hebraico com as letras Lamed e Bet, que se lê Lev, a palavra hebraica para coração. Também a primeira letra do Gênesis é justamente Bet, da palabra Bereshit (No princípio), e a última letra do Torá é Lamed, de Israel, formando novamente a palavra coração. 

É importante ressaltar que a Torá é vista como o coração da Criação, sendo as letras entendidas tanto como responsáveis pelo começo do mundo – já que em cada ato da Criação está escrito “D’us disse“ – como também por sustentá-lo constantemente. Acerca da Torá, um dos muitos mestres do texto bíblico, o rabi Elazar ben Padat que chefiou a academia de Tiberíades, na Terra Santa, em 279 da E.C., defendia os poderes existentes no livro sagrado: “Os parágrafos da Torá não estão em ordem. Se estivessem na ordem correta, qualquer um que lesse seria capaz de ressuscitar os mortos e fazer milagres.” 

Segundo a tradição judaica os patriarcas através de suas visões proféticas transmitiam oralmente a Lei de D’us. Só mais tarde, Moshé (Moisés), o maior profeta e líder do povo hebreu, colocou parte dessa tradição por escrito na Torá. Mas o nível de interpretação mais secreto continuou sendo transmitido oralmente por Moshé para alguns iniciados, os nistarim (literalmente ‘os ocultos’). 

Passado, presente e futuro juntos 

Para Kaplan, se um indivíduo deseja obter uma experiência mística e aproximar-se da dimensão da Sabedoria (a Mente pura e indiferenciada), ele deve percorrer os 32 caminhos que os cabalistas antigos definem como “diferentes estados de consciência”. No livro “Universo Kabbalístico”, o inglês Z’ev bem Shimon Halevi,  escritor e professor de Cabalá, falecido em 2020, ensina que as 10 Sefirot são ligadas por 22 caminhos-fluxo de letras que formam uma rede de subsistemas. 

Essa busca pela Sabedoria é um anseio que persiste na alma humana indiferente ao progresso científico e tecnológico. O Talmud declara: “Quem é sábio? Aquele que percebe o futuro”. Kaplan explica que a Sabedoria é a força mental pura que transcende o tempo. “No nível da Sabedoria, o passado, o presente e o futuro ainda não foram separados. Portanto nesse nível, alguém pode ver o futuro exatamente como o passado e o presente.” 

 Ainda sobre a relação das Sefirot com o tempo, existe um dado interessante explicitado pelo cabalista Moisés ben Nachman, há 800 anos, no século 12. No livro “O Poder da Cabala”, o rabi Yehuda Berg, codiretor do “Kabbalah Centre” e autor de “Os 72 Nomes de D’us” (livro de exercícios de meditação), cita esse conceito de que existe um segredo cabalístico por trás da frase “Seis dias de Criação”, já que “um D’us todo-poderoso não necessitaria de qualquer quantidade de tempo para criar um Universo”. 

Os dias da Criação seriam as seis dimensões (sefirot) das 10 que precederam o nascimento de nosso Universo. Isso porque a Criação não tem nada a ver com o conceito de tempo conforme nós conhecemos. “Trata-se de um código para a união de seis dimensões do mundo superior em uma. As quatro que restam são as precursoras de nosso universo tridimensional (largura, comprimento e altura) e da quarta dimensão de espaço-tempo.” 

Assim, a realidade existiria em 10 dimensões, sendo que seis delas compactadas em uma. Berg assinala que os nossos cinco sentidos nos impedem de ver ou experimentar a dimensão do tempo. ”São unicamente os limites de nossa consciência que nos impedem de perceber o ontem e o amanhã nesse exato momento.” 

Ele dá como exemplo um prédio de 30 pavimentos em que o observador esteja em um apartamento no 15º andar. Os andares abaixo, do 1 ao 14, representam o passado, o tempo que o trouxe até este momento. Os andares de 16 a 30 representam o futuro. Mas, o observador através dos seus cinco sentidos somente vê onde está, no 15º andar. Contudo, todos os andares existem - isto é, o passado, o presente e o futuro - como um todo unificado. E se ele for para fora do edifício e olhar de longe, poderá ver todos os 30 andares juntos.

Letras hebraicas como símbolos

Sobre a mística das letras hebraicas, o rabino Kaplan chama a atenção para os três aspectos que envolvem a interpretação das letras:  1 – a representação física, que é a maneira como elas são no texto; 2 - seu valor numérico (guematria), quando cada letra representa um número; 3 – a sonoridade da letra e o modo como é pronunciada. 

No primeiro aspecto, a forma física da letra no texto (sêfer) está vinculada ao espaço, visto que sua forma só pode ser definida no espaço, ou seja, no Universo. Sua utilização como número (sefar) implica em sequencia, que tem correspondência no tempo, ou ano. Quanto ao som da letra, esse aspecto a remete à narração ou comunicação (sipur) e aplica-se à mente e à dimensão espiritual, ou à Alma. 

 Um dos mais importantes eruditos judaicos, Iehuda Halevi, nascido em Toledo em 1075, afirma que as letras hebraicas não são meros sinais. Elas simbolizam com exatidão aquilo que designam. Em sua obra “Cuzari”, no capítulo sobre a santidade e a importância do idioma hebraico, ele assinala: “Não surpreende, portanto, que certas invocações ou amuletos feitos com estas letras sejam eficazes.” Está escrito no Sêfer Ietsirá: “E criou Seu universo com três livros/com texto (Sêfer)/com número (Sefar)/e com comunicação (Sipur).” 

Segundo Kaplan, essas três palavras (sêfer, sefar e sipur) definem a palavra sefirá (dimensão) e seu plural, sefirot. Na Cabalá, as 10 Sefirot são os conceitos básicos da existência, os canais pelos quais as emanações divinas fluem, e os meios através dos quais o homem se comunica com D’us. Todos os nomes das sefirot são derivados da Escritura: Kéter (Coroa), Chochmá (Sabedoria), Biná/Dáat (Entendimento/Conhecimento), Chéssed (Amor), Guevurá (Força), Tiféret (Beleza), Nêtsach (Vitória), Hod (Esplendor), Iessód (Fundação) e Malchut (Realeza). 

Em sentido místico, as sefirot se constituem em uma escada através da qual se pode ascender e se aproximar do Infinito. De acordo com os comentaristas, o “princípio, a causa” é Kéter, e o “fim, o efeito” é Malchut, os pontos terminais das dimensões espirituais. Kéter também é identificado como “a Vontade”, a causa de todas as ações. Por estar mais perto de D’us, Kéter é chamada de “o Bem”. Já a sefirá Malchut, por ser a mais afastada e estar na direção oposta de D’us é dita como “o Mal”, com a ressalva de que o termo está associado aos estágios inferiores da Criação. 

A disposição completa das Sefirot é chamada de “A Árvore da Vida” e também está associada ao sonho de Yacoov (Jacob) – o terceiro e último patriarca hebreu, mais tarde chamado de Israel - representado por uma longa escada apoiada na terra, cujo topo se estende céu adentro. 

As bases para a meditação 

Segundo Rambam – o médico e rabino Moisés Maimônedes (1135-1204), nascido em Córdoba e um dos mais reverenciados teólogos da história judaica – “todo o despertar de baixo motiva um despertar de cima”. Significa que quando se eleva mentalmente alguma coisa a sua essência espiritual, similarmente também se faz descer o sustento espiritual a esse objeto particular. Essa correspondência, para os cabalistas, pode gerar mudanças físicas no mundo. 

A respeito do mundo físico, a questão mais básica para muitos estudiosos se concentra na indagação: por que D’us criou um mundo físico? Qual o motivo da existência de um mundo físico, se D’us criou o universo pra dar o Bem a sua Criação e este Bem é puramente espiritual. Sabemos que o espaço físico só existe no mundo físico. No espiritual, não há o espaço na forma que conhecemos. Kaplan explica: “D’us criou o conceito de espaço. As coisas espirituais podem se ligar ao material do mesmo modo que a alma está ligada ao corpo. E o fato de o bem e o mal existirem no mesmo espaço físico também permite o bem superar ao mal neste mundo.” 

Dessa forma, para influenciar alguma coisa no universo físico, deve-se fazer uso da forma física das letras hebraicas. Isso envolve técnicas de meditação que consistem em visualizar determinadas letras ou a combinação apropriada de letras, eliminando todos os outros pensamentos da mente. 

Por outro lado, para influenciar na dimensão espiritual, usa-se o som das letras ou de seus nomes. Entretanto, o anseio de alcançar a Sabedoria (Chochmá), um estado puro de consciência não-verbal, esbarra na dificuldade de esvaziar a mente dos devaneios e reflexões que habitam normalmente os pensamentos das pessoas. 

As técnicas de meditação consistem em eliminar, por momentos – e através dos exercícios ir estendendo o tempo desses momentos – os pensamentos que habitam nossa mente, através da visualização ou repetição das letras hebraicas. No Sefer Ietsirá está dito: “Ele as gravou (as 22 letras), esculpiu, permutou, pesou, transformou...”. 

Kaplan observa que cada letra representa um tipo diferente de informação e através das diversas manipulações das letras, D’us criou todas as coisas. Nota-se que as letras hebraicas têm três partes básicas: topo, centro e base. O topo e a base são feitas de linhas horizontais grossas, e o centro constituído de linhas verticais finas, como fossem lados de paredes a separar uma letra da outra. A meditação consiste em focalizar as letras hebraicas escolhidas, visualizando-as (gravando-as em sua mente), fazendo-as preencher toda a consciência, permutando-as ou manipulando-as através de seus valores numéricos e diferentes códigos. 

Escrever ou recitar as combinações das letras funcionaria como uma espécie de mantra para alcançar o estágio superior de consciência. Essas técnicas, porém, funcionariam apenas como meios para limpar a mente de todo o pensamento. A experiência real das Sefirot só ocorre quando a pessoa se encontra em um estágio em que todos os processos pensantes estão silenciados e a mente se fecha a todo pensamento verbal e descritivo. Daí a recomendação do Sêfer Ietsirá: “Refreia tua boca de falar e teu coração de pensar".


Os 231 portões da Criação 

O Sêfer Ietsirá também faz uma conexão das 22 letras hebraicas com “231 Portões”. Segundo os cabalistas antigos, as letras que formam a palavra Yisrael (Israel) igualmente formam a palavra Yeshrla, que significa “existem 231”. É uma alusão de que a Criação teve lugar através de 231 portões. 

Outra constatação: o número 231 representa a quantidade de modos que duas letras diferentes do alfabeto hebraico podem ser conectar. Este também é o número de palavras de duas letras que podem ser formadas, sempre que a mesma letra não se repita e a ordem não seja considerada. A meditação a respeito das conexões das 22 letras com os 231 portões é mostrada por Kaplan através da apresentação de vários quadros e tabelas em diferentes disposições das letras hebraicas e números formando sistemas de códigos, sequências e associações adotados por eruditos e cabalistas através dos séculos. 

Ele afirma que a utilização de Nomes Divinos também é efetiva na meditação, especialmente o Tetragrama, o nome mais elevado de D’us, que escrito com as letras hebraicas Yud, Hei, Vav e Hei unifica todas as Sefirot. 

Ainda sobre o Eterno, o Séfer Ietsirá declara: “Mestre único, D’us, Rei fiel”. Kaplan observa que ao descrever D’us, o livro não emprega a palavra Um (Echad, em hebraico), mas dita que Ele é Único (Yachid), isto é, Ele é tão absolutamente único que não existe qualidade alguma que Lhe possa ser atribuída. “Embora não possamos dizer o que Deus é, pelo uso de atributos negativos nós podemos dizer o que Ele não é. Do mesmo modo, com atributos de ação, nós podemos falar o que D’us faz.” Em hebraico, a frase em questão se lê “El Melech Neeman” e as letras iniciais de cada uma das palavras formam o termo hebraico “Amén”, usado nas orações judaicas. 


Enfim, o mistério do simbolismo está presente em todos os ensinamentos do Sêfer Ietsirá e Kaplan admite a complexidade em se entender suas expressões visto que, como já foi dito, todo o conceito do não-físico é de difícil compreensão para o ser humano. 

Acerca do tema, um dos mais importantes teólogos judaicos do século 20, Abraham Joshua Heschel (1907-1972) dizia que a percepção da glória é uma ocorrência rara em nossas vidas. Isso porque  o homem falha em responder ao acontecimento do milagre. “Essa é a tragédia de toda a humanidade: ofuscar o milagre com a nossa indiferença. A vida é rotina, e a rotina é a resistência ao milagre” (do livro ‘Deus em Busca do Homem’). 

E de fato, recorrendo ao Zohar, a obra máxima da Cabalá ( compilada e escrita pelo Rabi Shimon bar Yochai, no século 2), lá está dito: “Abram para mim uma abertura do tamanho do buraco de uma agulha, e Eu lhes abrirei os portões celestiais”.

Texto atualizado

domingo, 1 de julho de 2012

Rio+20: um líder polêmico na vitrine

por Sheila Sackspublicado no site "Observatório da Imprensa" , em 26.06.2012http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed700_um_lider_polemico_na_vitrine

Há pouco mais de um mês, em 17 de maio, as agências internacionais revelaram a vontade do presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, de estar presente nas Olimpíadas de Londres, a serem realizadas em julho e agosto próximos, para acompanhar o desempenho dos atletas iranianos. A notícia também deixava claro que a presença do político persa não seria bem vista pelas autoridades do Reino Unido. “Me encantaria estar ao lado dos atletas iranianos durante os Jogos Olímpicos para estimulá-los, mas eles (britânicos) têm problemas com minha presença”, disse Ahmadinejad. Vale lembrar que em novembro de 2011 um grupo de estudantes islâmicos invadiu, depredou e saqueou o prédio da embaixada britânica em Teerã, inclusive acuando os funcionários, o que levou o governo do Reino Unido a fechar a sua embaixada naquele país. Na ocasião, o primeiro-ministro David Cameron qualificou de “ultrajante” o ataque à embaixada e pediu ao governo iraniano que processasse os culpados.

Diferentemente de Londres, Ahmadinejad não deve ter sido assolado por dúvidas quanto a conveniência de sua presença na Rio+20 – a conferência da ONU para o desenvolvimento sustentável que ocorreu no Rio de Janeiro, de 13 a 22 de junho - e a possível receptividade que mereceria das autoridades brasileiras, a grande maioria ainda sob a chancela carismática do ex-presidente Lula. Com efeito, nas 48 horas que passou em solo carioca, o líder iraniano teve uma cobertura da imprensa brasileira acima da esperada, levando em conta a quantidade de chefes de Estado e personalidades políticas presentes ao evento representando 193 países. A mídia o acompanhou quando ele discursou emoldurado por coleção de bandeiras e o logo da ONU; em sua conversa com os jornalistas iranianos; na entrevista coletiva para a imprensa internacional; no café da manhã para 70 intelectuais brasileiros, do qual foi anfitrião; e na reunião com Ban Ki-Moon, o secretário geral das Nações Unidas.

Performance midiática

Presente no plenário da Cúpula de Chefes de Estado, Lula ouviu o discurso de Ahmadinejad que o cumprimentou logo depois de finalizar a sua participação, quando ambos conversaram. Segundo a agência O Globo, “após um abraço caloroso, os dois trocaram algumas palavras com a ajuda de um intérprete e Ahmadinejad disse a Lula que o povo do Irã reza por sua total recuperação”. Momentos antes, em mais uma de suas performances midiáticas, o iraniano havia aconselhado os “amigos” governantes a recorrerem ao sentimento da “compaixão” no gerenciamento do mundo.

“Detentor de um dos pronunciamentos mais aguardados do primeiro dia de reunião dos chefes de Estado”, de acordo com a jornalista Ângela Chagas, do Portal Terra, Ahmadinejad também aproveitou os seus 20 minutos de fama (a Rio+20 reuniu 4 mil jornalistas) para atacar os países ricos e a atual ordem mundial que, segundo ele, ”é formada por um grupo minoritário de nações desenvolvidas que está sempre impondo padrões para os outros seguirem”.

A repercussão de suas palavras ganhou destaque através da Agência Brasil (‘Presidente iraniano pede que países usem amor e compaixão para garantir o futuro do mundo’);agência EFE, espanhola (‘Na Rio+20, Ahmadinejad pede ordem mundial que se baseie na compaixão’); Uol notícias (‘Em discurso rápido, Ahmadinejad pede compaixão para enfrentar crise’); BBC-Brasil (‘Ahmadinejad defende mundo mais igualitário na Rio+20’); agência Estado (‘Ahmadinejad critica imposições de países desenvolvidos’); portal G1 (‘Presidente do Irã defende mundo igualitário na Rio+20’); Folha de São Paulo (‘Presidente do Irã pede mudanças com base em um Deus único’), e de centenas de sites e blogs repetidores de notícias.

Diante desse despudor de repisar o óbvio, da pregação falsa e enganosa, da impostura das palavras que soam como galhofa frente ao continuado martírio de grupos religiosos minoritários, como os Bahá´is (350 mil fiéis no país), perseguidos pelo braço autoritário e sem compaixão do líder iraniano, que inclusive os impede de ter acesso ao ensino superior, a mídia nacional, talvez premida pelo tempo, repercutiu as frases de efeito e os parágrafos propositalmente pseudo sentimentalistas, sem contestação ou crítica, face ao conhecido histórico de Ahmadinejad - possuidor de um currículo povoado de atentados e assassinatos contra aqueles que o contestam.

Recente relatório do Conselho de Direitos da ONU (março de 2012) apontou para um aumento assustador de execuções no Irã, que cresceram de 100, em 2003, para 670, em 2011, sendo 249 realizadas secretamente. O relator especial para o Irã, Ahmed Shaheed, sem permissão para visitar o país, contou com depoimentos que indicaram padrões recorrentes de violações de direitos humanos fundamentais, como o de opinião e de opções religiosas. Não poupando nem menores de idade em suas execuções, o regime de Ahmadinejad também é acusado pela justiça argentina por sua responsabilidade no atentado ao prédio de uma associação judaica, ocorrido em 1994, em Buenos Aires, quando morreram 85 pessoas e 300 ficaram feridas. Há poucos meses, em entrevista à TV estatal alemã ZDF, Ahmadinejad voltou a despejar afirmações cínicas acerca do Holocausto (‘é mentira’), do estado de Israel (‘eles nunca foram os governantes dessa terra’) e das reais finalidades do programa nuclear iranino (‘bombas atômicas são amorais. Em princípio, sou contra’).

Energia nuclear para todos

Na coletiva à imprensa, realizada um dia após o pronunciamento de “paz e amor” na plenária da Rio+20, o presidente do Irã outra vez se valeu de premissas ilusórias para advogar proposições que teriam como base a sua verdade que é contestada pela maior parte das democracias respeitáveis integrantes da ONU. Ahmadinejah afirmou que os Estados Unidos usam o discurso de temor pela fabricação de bombas atômicas para “mascarar” o interesse pelo petróleo iraniano. Também acusou os EUA e o grupo de países que fazem parte das negociações (Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha) de serem contra o uso da energia nuclear pelo Irã porque, segundo ele, “não querem o progresso” de seu país. Acenando para o Brasil e os amigos bolivarianos Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Hugo Chávez (Venezuela) e Raúl Castro (Cuba), o iraniano disse acreditar que a energia nuclear, como outros meios energéticos, devem ser acessíveis para todas as nações.

Também em relação à entrevista, a mídia embarcou na performance teatral de Ahmadinejad, na sua fala mansa e no seu jeitão dissimulado, somando frases e opiniões que em nada remetem para a figura ditatorial, radical e fria desse político que mente, solenemente, acerca de tudo que envolva as suas ações. A entrevista produziu os seguintes títulos: ”Ahmadinejad contesta críticas do Ocidente sobre programa nuclear do Irã” (agência EFE); “Ninguém deve possuir armas nucleares, diz Ahmadinejad no Brasil” (G1); “Ahmadinejad critica monopólio da energia nuclear” (O Globo); “Presidente do Irã defende democratização da energia nuclear para mudar a ordem mundial” (R7 Notícias); “Brasil pode ter papel importante na nova ordem mundial, diz presidente do Irã” (Agência Brasil).

“Roubando os nossos bolsos”

Por fim, coube a um café da manhã em um hotel à beira do mar, na Zona Sul do Rio, com a participação de 70 brasileiros convidados do presidente do Irã, tornar-se o evento mais retrô da Rio+20, no melhor estilo déjà vu (expressão francesa que significa ‘já visto’) dos anos 1960. Na reportagem de Rafael Lima, publicada pela Veja.com os leitores são informados da presença de professores universitários, lideranças estudantis, UNE e políticos de partidos como PSB, PCdoB e PT, entre os comensais, que adoraram ouvir “o ditador” lançar ataques deliberados aos Estados Unidos. ”É como se enquanto estamos aqui, tomando esse café da manhã, os Estados Unidos estivessem roubando os nossos bolsos”, disse o iraniano para delírio dos antiamericanos, registrou o repórter (‘O fã clube brasileiro de Ahmadinejad’).


A reportagem também confirma o intento estratégico de Ahmadinejad de se aproximar dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e particularmente do Brasil e dos brasileiros para “limpar sua imagem” que na opinião dele tem sido distorcida pela mídia “que apresenta uma visão desfavorável do Irã e do mundo islâmico.” Uma tarefa, diga-se de passagem, que parece já estar sendo delineada, tendo em vista o teor da cobertura oferecida ao presidente iraniano na Rio+20, o que o levou a avaliar sua estadia carioca como “positiva” no café da manhã com seus admiradores brasileiros. De fato, o contato incidental de uma mídia nacional apressada e pouca cuidadosa no quesito da pesquisa com as múltiplas agências de notícias europeias de viés ideológico, e mais a presença oficial da Agência Brasil, a competente e eficaz estatal de notícias vinculada à Presidência da República (que distribui seus textos, muitos em inglês, para todo o país, América Latina, Portugal e países africanos), devem ter proporcionado a Ahmadinejad a surpreendente sensação de que não está só, nem tampouco isolado, nesse quadrante do mundo. Pelo menos, por enquanto.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O Holocausto sob a ótica do Vaticano

Designar algo como mal é uma maneira de assinalar que aquilo abala nossa crença no mundo” (Susan Neiman, escritora)

Por Sheila Sacks

A partir da visita do papa Bento 16 aos campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, em 2006, o Vaticano vem anualmente enfatizando, por ocasião das celebrações do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto (instituído pela ONU em 27 de janeiro de 2005), a importância da lembrança dessa tragédia humana que marcou de forma ignominiosa o século 20.

Cruzando o portão de entrada do campo principal sobre o qual havia o letreiro original em alemão “Arbeit macht frei” ( o trabalho liberta) – roubado em 2009 e substituído por uma réplica- o papa rezou, acendeu uma vela em memória às vítimas do nazismo e manifestou a esperança de que “Deus não permita coisas como estas”, nunca mais. Ainda que, segundo o pontífice em seu discurso, o horizonte político seja preocupante e “que forças obscuras pareçam emergir de novo no coração dos homens”.

Em visita às celas dos prisioneiros e as áreas onde funcionavam as câmaras de gás, Bento 16 lembrou do teor das atrocidades cometidas naquele local que resultaram em mais de um milhão de mortes e expressou todo o seu espanto diante da força do Mal: “Falar neste lugar do terror é quase impossível. Neste local falham as palavras e só pode haver um silêncio comovente – silêncio que é um grito interior a Deus. Por que, Deus, o senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias?”, indagou o papa diante de sua comitiva, convidados e alguns sobreviventes presentes à cerimônia.

Símbolo extremo do Mal

Três anos depois, na residência de verão de Castel Gandolfo, o papa voltou a falar sobre o terror do nazismo, ao recordar o sacrifício da freira carmelita Edith Stein (de pais judeus) e do padre franciscano Massimiliano Kolbe que morreram no campo de Auschwitz e foram canonizados pela Igreja. “Os lagers (campos de morte) nazistas como todo campo de extermínio devem ser considerados símbolos extremos do Mal, do inferno que se abre sobre a terra”, evocou Bento 16 para um grupo de fiéis.

Meses antes, em maio de 2009, o pontífice já tinha ressaltado o papel da memória no combate ao esquecimento. Em Jerusalém, ao lado do presidente de Israel, Shimon Peres, Bento 16 falou da importância da lembrança “para impedir que um horror semelhante pudesse desonrar novamente a humanidade”. Na sala dos Nomes do Museu do Holocausto Yad Vashem, (até 2010 já haviam sido identificados nominalmente quatro milhões de judeus assassinados pela Alemanha nazista), o papa exortou os homens de bem a honrar aqueles que perderam a vida, mas jamais perderam seus nomes. “Que os nomes dessas vítimas não pereçam nunca! Que o seu sofrimento não seja nunca negado, diminuído ou esquecido! E que toda pessoa de boa vontade vigie para erradicar do coração do homem qualquer coisa capaz de acarretar tragédias semelhantes a essa!”, declarou, após conversar com sobreviventes e depositar uma coroa de flores no local.

Repercutindo as palavras do papa, o porta-voz do Vaticano e diretor da sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi, expressou o desejo de que “a lembrança da Shoá (‘catástrofe’, em hebraico) leve a humanidade a refletir sobre a imprevisível potência do Mal quando conquista o coração do homem”. Em editorial, no programa semanal “Octava Dies” do Centro Televisivo do Vaticano (2009), padre Lombardi advertiu que o extermínio de seis milhões de judeus se configura em uma “espantosa manifestação da potência do Mal que desafia a fé na própria existência de Deus”. Segundo o porta-voz, o papa não só condena toda forma de esquecimento e de negação da tragédia do extermínio como também expõe as dramáticas interrogações que esse evento tem proposto à consciência do homem e do crente.

A memória que confronta o Mal

Em janeiro de 2012, lembrando mais uma vez a data da libertação do campo de Auschwitz, o Vaticano reafirmou a importância das pessoas não se esquecerem, passados 67 anos, “da tragédia infame do Holocausto”. Sob o título “Preservar a Memória”, padre Lombardi redigiu a mensagem em que remete à memória dolorosa do Holocausto como “o lugar teológico da pergunta mais radical sobre Deus e sobre o Mal”. Segundo o religioso, “a memória do Holocausto é um ponto de confronto crucial na história da humanidade para entender o que está em jogo quando se fala em dignidade irrenunciável de toda a pessoa humana, da universalidade dos direitos humanos e do compromisso por sua defesa”.

Sacerdote jesuíta de 69 anos, o italiano Federico Lombardi estudou matemática e teologia na Alemanha. Em 1990 foi nomeado diretor Geral da rádio Vaticano e dez anos depois assumiu a direção do Centro Televisivo. Indicado por Bento 16, em 2006, para chefiar a Sala de Imprensa, Lombardi tornou-se responsável pela gerência de todas as mídias do Vaticano.

Daí a importância de seu comunicado que representa o pensamento oficial da Igreja Católica sobre a tragédia. De acordo, ainda, com o porta-voz da Santa Sé, “se existiram homens capazes de chegar a tão absurda atrocidade, ninguém nos assegura que no futuro isso não possa se repetir”. Lembrando que a geração das testemunhas, que viveu os tempos e horrores do Holocausto, está diminuindo rapidamente, padre Lombardi acentuou que “a memória dolorosa se torna advertência para o hoje e para todos os tempos”. E assume um compromisso: “ Nós também continuaremos a fazer isso (lembrar as vítimas) neste dia, em solidariedade, em primeiro lugar, ao povo de Israel e a todas as vítimas do absurdo ódio homicida.”

O Mal na esfera do homem

A tocante indagação do sumo pontífice sobre a ausência de Deus diante do horror de Auschwitz – um fato histórico que ameaça a noção teológica tradicional do sentido do mundo e da existência humana – mostra uma perplexidade que o pensamento filosófico já tentou responder em tempos anteriores frente a outros eventos caracterizados pela ascendência do Mal.

No século 18, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) já havia retirado Deus e outros enunciados incompreensíveis presentes na metafísica (área da filosofia que busca dar explicações sobre a essência dos seres e as razões de estarmos no mundo), dos limites do conhecimento humano. Dessa forma, fora da perspectiva religiosa, a questão do Mal não estaria intrinsecamente ligada a Deus, e questionamentos à Sua presença (ou ausência) diante de males naturais, como terremotos e tsunamis, e males morais - dos quais o Holocausto é um exemplo assustador – soariam descabidos e alienados de propósito.

Na obra “Trabalho sobre o Mito”, o filósofo Hans Blumenberg (1920-1966), que chegou a ser preso e levado a um campo de concentração, em 1944, ao analisar o célebre poema “Prometheus”, de Goethe (1749-1832), escrito em 1774, e seu impacto sobre a filosofia alemã, observa que a ideia central transmitida pelo autor é a de que “ Deus teria que organizar o mundo de forma diferente caso houvesse se preocupado com o homem”. A tragédia de Prometeu, submetido ao suplício diário por um poder despótico e arbitrário, reflete a impotência do homem para entender ou explicar o Mal em suas formas mais avassaladoras. Essa dificuldade de compreensão é sempre profundamente perturbadora à consciência moral clássica que vincula o sofrimento ao castigo e ao pecado. Considerando uma situação como a dos campos de extermínio, onde seres humanos, sob os auspícios do estado, violaram as normas da sensatez e da razão praticando atos contra cidadãos inocentes que não deixam espaço para justificação ou explicação, pode-se afirmar que Auschwitz revelou uma nova face do Mal ainda mais espantosa: a da barbárie burocratizada, alienada, e altamente desenvolvida.

Uma ameaça à alma humana

É o que observa a autora do livro “O Mal no Pensamento Moderno”, a norte-americana Susan Neiman, que dirige o “Eistein Forum” , instituição alemã que discute os grandes temas universais : “O que choca e modifica nossa compreensão do mal em Auschwitz é que os assassinos não eram bestas e demônios e se comportavam como tais e sim seres humanos comuns, que levavam uma vida mundana como qualquer outro. Isso foi conceitualmente devastador porque revelou uma possibilidade na natureza humana que esperávamos não ver.”

Segundo Neiman, Auschwitz modificou nossa compreensão sobre o problema do mal, já que as condições de educação e cultura na Alemanha não deveriam conduzir a formas de barbárie tão sofisticadas quanto avassaladoras, mas a uma genuína civilização. As câmaras de gás foram introduzidas para, simultaneamente, matar o maior número de pessoas possível poupando as vítimas de uma morte agonizante e os assassinos de visões que atormentassem suas consciências. De acordo ainda com a pensadora, os agentes da SS realizavam seu trabalho seguindo a ordem burocrática das atividades cotidianas, paradoxalmente “despidos de sinais de má-intenção”. Para o filósofo judeu alemão Gunther Anders (1902-1992) - que exilou-se nos Estados Unidos em 1936 e retornou à Alemanha em 1950 - os crimes cometidos em Auschwitz e nos demais campos de extermínio se constituíram em ameaças, não à humanidade em si, mas à alma humana, porque seria preciso um coração muito duro (ou mesmo ausência de alma) para levar uma criança a uma câmara de gás.

E assim como o Talmud (livro milenar das leis judaicas e comentários rabínicos) ensina que salvar uma vida é como salvar o mundo, o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821- 1881), de forma literária, adverte que assassinar uma criança é suficiente para amaldiçoar o mundo. Porém, em Auschwitz, “o pensamento parou, pois as ferramentas da civilização pareciam tão impotentes para lidar com aquele acontecimento quanto o foram para evitá-lo. Dessa forma, qualquer um poderia levar um tiro por fazer bem o seu serviço, assim como outros poderiam escapar da seleção da morte fazendo o mesmo”(Neiman). Os campos da morte, continua Neiman, distorceram os pressupostos mais básicos da racionalidade que ordena os mundos normais, instituindo “assassinatos em massa no século 20 que não foram nem fruto da paixão, nem da ignorância”.

Ilógico e irracional

Sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald, na Polônia, e por mais de uma década exercendo a função de grão-rabino de Israel, Israel Meir Lau, de 75 anos, teve os pais e irmãos assassinados nos campos da morte. Para o religioso, o fato do nazismo e da solução final para a eliminação dos judeus terem como berço uma Alemanha onde a população judaica se encontrava mais integrada e adaptada à sociedade secular, mostra que o antissemitismo é ilógico e que não é possível enfrentá-lo de maneira racional. “Alguns perguntam onde estava D´us durante o Holocausto, mas nós devemos perguntar onde estava o homem durante o Holocausto. Como foi possível que homens cultos, que amavam a filosofia e a música, cortassem crianças em pedaços e à noite retornassem aos seus lares para beijar seus filhos e regar suas flores? Essa é a pergunta que jamais deverá calar”, afirma Lau.

Autor do livro de memórias “Lúlek – a história do menino que saiu do campo de concentração para se tornar o grão-rabino de Israel”, Meir Lau é atualmente rabino-chefe da cidade de Tel-Aviv e presidente do Museu em memória das vítimas do Holocausto (Yad Vashem), de Jerusalém.

Lembrança coletiva

Em 1953, cinco anos após a fundação do estado de Israel, o então primeiro-ministro David Bem Gurion instituiu o Yom HaShoá – Dia de Memória do Holocausto, escolhendo a data de 27 de Nissan (calendário hebraico) para a celebração por sua associação ao “Levante do Gueto de Varsóvia”, a rebelião armada de jovens judeus contra a ocupação nazista, ocorrida em 19 de abril de 1943. A homenagem acontece geralmente cinco dias depois do término da Páscoa judaica (Pessach), quando o país para e seus cidadãos, onde estiverem, guardam dois minutos de silêncio, honrando a memória dos que pereceram nos formos crematórios ou foram covardemente fuzilados.

Enfim, uma data dolorosa a ser lembrada ainda que a memória de fatos tão escabrosos envergonhe a humanidade. Nesse aspecto, aliás, tanto o Vaticano quanto as lideranças judaicas estão de acordo que a lembrança deve funcionar como um aviso de alerta para governos e cidadãos. E para aqueles que têm o dom ou a capacidade de perceber o Mal em todas as suas formas sutis e enganadoras, vale a ressalva de que de nada servirá essa percepção se a omissão e o silêncio forem as opções escolhidas. Citando Kant: “Só as escolhas mais difíceis revelam liberdade absoluta”. Auschwitz que o diga!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O médico e o livro: lembrando Moacyr Scliar



por Sheila Sacks

“Às vezes, o meu lado médico estranha o meu lado escritor...” (Moacyr Scliar)

Um dos mais importantes escritores brasileiros de origem judaica, Moacyr Scliar faleceu no ano passado, em 27 de fevereiro, para tristeza de milhares de leitores que o admiravam. Paralelamente aos seus escritos, Scliar manteve-se fiel a sua profissão de médico, atuando na área da saúde pública como médico sanitarista e exercendo o magistério como professor universitário na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

Em 2007, repercutindo as pesquisas do Ibope realizadas em anos anteriores que indicavam o alto grau de credibilidade da classe médica entre os brasileiros, entrevistei o escritor e médico gaúcho, então com 70 anos e irradiando vitalidade. Ele não se mostrou surpreso com o resultado que apontava um índice de confiabilidade de 81% para a categoria dos médicos, à frente de instituições como as Forças Armadas, a Igreja Católica, jornais e TV (em 2011, esse índice ficou em 76%). Para o escritor, um componente influente nessa avaliação estaria relacionado com a própria imagem da profissão médica que arrola qualidades altruístas admiradas e reconhecidas pela população, como a dedicação e o sacrifício pessoal.

Livros sobre Oswaldo Cruz e Noel Nutels

Autor de mais de 70 obras, várias delas premiadas no Brasil e no exterior, Moacyr Scliar (1937-2011) iniciou-se na literatura em 1962, com o livro “Histórias de um Médico em Formação”. Em 2005 lançou “O Olhar Médico: crônicas de medicina e saúde”, que também enfocava a área médica, reunindo 55 crônicas publicadas no jornal gaúcho Zero Hora. Com obras traduzidas em 12 idiomas e eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 2003, o “imortal” Scliar também escreveu sobre as vidas dos médicos sanitaristas Oswaldo Cruz (Sonhos Tropicais) e Noel Nutels (A Majestade do Xingu), este último um indigenista judeu que realizou trabalho pioneiro com os índios da Amazônia, nas décadas de 1940 e 1950.

Filho de imigrantes russos, Scliar formou-se pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (fez curso de pós-graduação em Medicina em Israel, em 1970) e atuou como professor visitante na Brown University (Rhode Island) e na Universidade do Texas (Austin), nos Estados Unidos. Doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública (Rio de Janeiro), sua tese de doutorado, apresentada em 1999 sob o título “Da Bíblia à Psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica”, obteve nota máxima, com louvor. Em um trecho do trabalho, Scliar destaca que entre 1899, data da introdução do Prêmio Nobel de Medicina, até 1989, foram laureados trinta e nove médicos judeus.

Em Porto Alegre, sua idade natal, Scliar coordenou o Programa de Educação em Saúde na Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, trabalhou na Fundação Nacional de Saúde e foi consultor do Ministério da Saúde. Também chefiou o Departamento de Saúde Coletiva da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre.

Entre os 100 melhores livros

Em 2007 publicou “O Texto ou a Vida”, uma coletânea de crônicas, contos, trechos de romances, ensaios e comentários do autor sobre o processo criativo de cada um deles. Vale lembrar que a sua obra "O Centauro no Jardim", publicada em 1980, foi selecionada entre os 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos de acordo com o National Ydish Book Center, dos Estados Unidos. Scliar assim resumiu o tema do livro: “É a história de uma criatura com dupla identidade, assim como os filhos de imigrantes judeus. O ambiente familiar e da escola israelita é diferente do ambiente universitário e do trabalho. Ter várias identidades não é problema nenhum, ao menos que a pessoa tenha alguma dificuldade emocional para lidar com essas identidades. O meu personagem, o centauro, tinha. E é por isso que deu um romance”. Figura da mitologia grega, o centauro é um ser metade homem, metade cavalo.

Abaixo, Moacyr Scliar responde as nossas perguntas:

Qual é a sua leitura sobre o resultado da pesquisa do Ibope, em 2005, que apontou a categoria dos médicos como a instituição de maior credibilidade do país?
MS- Um resultado mais ou menos esperado. Em outras pesquisas os médicos também estavam nos primeiros lugares. Isto corresponde à imagem da profissão, que envolve desprendimento, dedicação e até sacrifício pessoal, mas corresponde também à experiência pessoal de cada um. Não há ninguém que não seja grato a, pelo menos, um médico.

Muitos médicos são também filósofos, escritores, artistas, políticos e até presidentes da República como foi Juscelino Kubitschek. A que o senhor atribui essa dualidade presente na carreira de tantos médicos?
MS- Ao lado humanista da profissão. Ser médico é interessar-se pela condição humana, em geral na doença, mas também na vida cotidiana. Este interesse, junto com a disposição especial que a pessoa eventualmente tenha, acaba se estendendo a outras áreas.

Na sua tese de doutorado o senhor relata a enorme quantidade de médicos judeus na Espanha e Portugal, à época da Inquisição. A fuga desses profissionais para o Brasil permite afirmar que os primeiros médicos do país foram judeus?
MS- Certamente. Muitos historiadores médicos em nosso país apontam para este fato. Depois da Inquisição, outros períodos de perseguições provocaram a fuga de médicos judeus para o Brasil.

O trabalho desses doutores de alguma forma contribuiu para a evolução da medicina brasileira?
MS- De novo, a resposta é afirmativa. Para ficarmos num único exemplo, podemos citar o Hospital Albert Einstein (São Paulo), que é um verdadeiro centro de referência.

A percentagem de médicos judeus no Brasil e no mundo é extraordinariamente alta em comparação com a proporção de judeus na população em geral. A religião ou a tradição judaica é um fator de peso nesta escolha?
MS- Sim. Saúde e doença são mencionadas abundantemente no Tanach e no Talmud. Na Antiguidade, o médico era basicamente alguém que dava conselhos, e isto de novo está dentro da tradição do Judaísmo, que sempre respeitou a figura do "chacham", do sábio. Mas havia também um motivo prático e penoso. A medicina é uma profissão "portátil", resulta de um conhecimento que está na cabeça do médico e em sua habilidade. Para um grupo humano que não raro era expulso de países, isto era uma coisa importante, tanto mais que a medicina dava status. Não foram poucos os judeus que trabalharam como médicos de reis, de sultões e de nobres. Maimônides, que atendia o sultão Saladino, é um exemplo.

Nota: Tanach (os 24 livros que compõem o chamado Antigo Testamento); Talmud (Leis judaicas e Comentários); Maimônides (médico e filósofo nascido na Espanha, no século XII).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Dia do Holocausto à moda da casa

por Sheila Sacks

"A segunda coisa melhor do que saber aproveitar uma oportunidade é saber deixá-la passar." (Benjamim Disareli, político inglês)
Publicado no site Observatório da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed681_dia_do_holocausto_a_moda_da_casa


Instituído pela ONU em 2005, o Dia Internacional do Holocausto tem sido celebrado anualmente na maioria dos países que contam com comunidades judaicas. A data escolhida, 27 de janeiro, lembra o dia da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, em 1945, pelas tropas soviéticas, na Segunda Guerra Mundial (em Israel, a cerimônia ocorre em data diversa e de acordo com o calendário hebraico. Em 2012 será em 19 de abril). No Brasil, a homenagem às vítimas do genocídio nazista – que culminou com o extermínio de um terço da população judaica à época (6 milhões, sendo 1,5 milhão de crianças) e de milhares de negros, ciganos, maçons, homossexuais, deficientes físicos, comunistas, socialistas, dissidentes políticos e outros grupos minoritários considerados inferiores e descartáveis pela Alemanha de Hitler – tem sido prestigiada por governadores, ministros e principalmente pelo gabinete da Presidência da República, nas figuras do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff.

Em 2012, o evento mudou de data e endereço, deslocando-se de São Paulo e Porto Alegre para a Bahia em razão da agenda da presidente Dilma, que visitava o estado no dia 30 de janeiro para dar início às obras do Complexo de Camaçari, incluídas no PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento). Horas depois, a presidente viajaria com o governador da Bahia, Jacques Wagner, para Cuba e Haiti. No dia anterior, um domingo (29/1), foi então realizada a cerimônia no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, que ganhou uma inabitual visibilidade na mídia nacional (geralmente discreta em relação a esse tipo de evento), em razão do teor do discurso da presidente e da própria presença do governador petista, de ascendência judaica.

Estado palestino é lembrado

Fadada a ser mais uma cerimônia de recordação, entre tantas que se celebram em várias partes do mundo, a homenagem atraiu o interesse da mídia por um detalhe fora do contexto que funcionou como uma senha mágica tão a gosto dos repórteres de plantão. Ainda na noite de domingo, a fala presidencial já repercutia na maioria dos noticiosos da internet, e na manhã de segunda-feira os jornais destacavam, nos títulos, o pronunciamento que, lamentavelmente, atropelou as mais comezinhas normas de delicadeza que todo convidado deve ter com seu anfitrião.

Utilizando-se da oportunidade oferecida pela cerimônia aberta ao público e diante da comunidade judaica presente que patrocinava o evento, a presidente Dilma, de posse do discurso preparado por sua assessoria, reafirmou a posição brasileira de defesa de um estado palestino que, curiosamente, desejou que fosse “democrático e não segregador”. Sabendo-se que o Itamaraty advoga, desde dezembro de 2010, o reconhecimento de um estado palestino com fronteiras de antes da Guerra dos Seis Dias (1967), postura ratificada pela presidente brasileira na abertura dos trabalhos da ONU, em setembro de 2011, lamenta-se que seus assessores tenham inserido esse item no texto da homenagem, de forma superficial e atemporal, visto que as negociações de paz acerca dos chamados territórios ocupados é um dos mais sensíveis temas enfrentados pelo governo de Israel, em sua política externa e interna (até o conflito, a população israelense estava subjugada a graves fatores de vulnerabilidade e insegurança).

Recados presidenciais

Mas, se o palanque não foi o mais adequado, a tática para atrair manchetes se revelou positiva. Vejamos os títulos das matérias publicadas nos dias 29 e 30 de janeiro: “Na Bahia, Dilma defende estado palestino” (O Estado de S.Paulo); “Na Bahia, Dilma defende criação do estado palestino” (O Globo); “Em evento sobre Holocausto, Dilma defende estado palestino (Jornal do Brasil e Terra Notícias); “Na Bahia, Dilma volta a defender criação do estado palestino” (UOL notícias). Também a agência espanhola de notícias, EFE, distribuiu a matéria sobre o evento de forma semelhante: ”Holocausto commemoración: Rousseff destaca la necesidad de un Estado palestino para la paz em Oriente Medio”. “Al acto vários representantes de la comunidad judia en Brasil y representantes diplomáticos israelíes, así como el gobernador del estado de Bahía, del que Salvador es capital, Jacques Wagner.” O site de notícias israelense de língua espanhola Aurora veiculou no seu link sobre América Latina, em 30.01.2012: “Brasil: Es necessário um Estado palestino para la paz em O. Medio”. “Gobierno considera ‘imprescindible’ la creación de un Estado palestino para lograr la paz en Oriente Medio durante en un acto de homenaje a las víctimas del Holocausto.”

Acredita-se que o Dia de memória das vítimas do Holocausto foi criado para lembrar, de alguma forma, as atrocidades que os homens e seus regimes políticos são capazes de praticar sob a égide de um poder discriminador, prepotente e sem limites. O uso da data, em Salvador, com o intuito de produzir mensagens políticas ideológicas, sub-reptícias e extemporâneas à homenagem, se mostrou um equívoco do ponto de vista de atender à finalidade do evento, ainda que satisfizesse alguns assessores palacianos que sentindo-se em casa, pelo fato da Bahia ter um governador petista, puseram a presidente Dilma para apadrinhar o Estado palestino em meio à cerimônia aos mortos do regime nazista. Uma manobra que deve ter levado os convidados a engolirem em seco, mas que, no final das contas, rendeu uma boa pauta de fim de semana para a mídia, sempre atenta e disposta a repercutir recados presidenciais que possam resultar em observações críticas ou polêmicas. Só que desta vez, se alguém se sentiu ofendido ou desconfortável com o rumo imposto à solenidade, estranhamente calou-se e permaneceu em silêncio.