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terça-feira, 24 de maio de 2011

Estado, religião e mídia

por Sheila Sacks
Artigo publicado no site do CNJ (Conselho Nacional de Justiça)
http://cnj.myclipp.inf.br/default.asp?smenu=ultimas&dtlh=171064&iABA=Not%EDcias&exp=

Trecho da matéria: "Nos regimes democráticos todos são livres para a prática de sua religiosidade, um direito constitucional que muitas vezes se confunde com outras formas de levar adiante o exercício da liberdade e da cidadania. Muitos resvalam nesse terreno escorregadio e pouco iluminado onde nem sempre é fácil manter uma autonomia que propicie conciliar a liberdade individual com a igualdade social, distinguir conceitos de pessoa e de comunidades, separar os valores éticos pessoais dos princípios públicos aceitáveis, compatibilizar os direitos individuais com o bem da sociedade.

Dadas as sutilezas que rondam o tema e a existência de uma legislação severa no que possa ser entendido como manifestação preconceituosa ou intolerância religiosa, raros são os profissionais da mídia que se animam em emitir algum tipo de opinião sobre o assunto, limitando-se ao registro das notícias e às declarações dos envolvidos. A lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997, estipulou pena de reclusão de um a três anos, acrescida de multa, para quem “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”

E frente à possibilidade de ferir suscetibilidades e dessa forma correr o risco de infringir, muitas vezes de forma incauta e ingênua, a delicada fronteira que separa o admissível do não aceitável, jornalistas e empresas de comunicação, sem abdicarem da liberdade de informação, se rendem à prudência e ao cuidado no trato das palavras e da composição das frases – incluso o uso providencial das aspas - quando a notícia combina vida pública e religiosidade."

domingo, 8 de maio de 2011

Vida pública,religiosidade e derivativos

por Sheila Sacks

“A guerra é contra o terror, e não contra o islamismo” (Barack Obama, ao anunciar a morte de Osama bin Laden, líder da al-Qaeda, em 01.05.2011)

Padres, pastores, rabinos e clérigos muçulmanos são os representantes naturais das incontáveis comunidades religiosas, maiores ou menores, instaladas em mais de uma centena e meia de países do globo terrestre. Pouco ou muito influentes, de acordo com a quantidade de seus seguidores, essas coletividades se inserem basicamente no contexto de regras e de leis emanadas e exercidas pelo poder do Estado.

Nos regimes democráticos todos são livres para a prática de sua religiosidade, um direito constitucional que muitas vezes se confunde com outras formas de levar adiante o exercício da liberdade e da cidadania. Muitos resvalam nesse terreno escorregadio e pouco iluminado onde nem sempre é fácil manter uma autonomia que propicie conciliar a liberdade individual com a igualdade social, distinguir conceitos de pessoa e de comunidades, separar os valores éticos pessoais dos princípios públicos aceitáveis, compatibilizar os direitos individuais com o bem da sociedade.

Imparcialidade sem renunciar as convicções religiosas

O Estado laico e pluralista não impõe nenhuma religião, respeita todas e se mantém imparcial diante de cada uma delas. A afirmação é do teólogo Leonardo Boff, 73 anos, doutor honoris causa em Política pela Universidade de Turim, na Itália. Para o ex-franciscano que vive em Petrópolis, professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), essa imparcialidade não significa desconhecer o valor espiritual e ético de uma confissão religiosa. – Ao entrar no campo político e ao assumir cargos no aparelho de Estado, não se pede aos cidadãos religiosos que renunciem as suas convicções religiosas. O único que se cobra deles é que não pretendam impor a sua visão a todos os demais nem traduzir em leis gerais seus próprios pontos de vista particulares, escreve Boff no site da Fundação Lauro Campos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A laicidade, continua ele, obriga a todos a exercer a razão comunicativa, a superar dogmatismos em favor de uma convivência pacífica e diante dos conflitos buscar pontos de convergência comuns. Nesse sentido, conclui, a laicidade é um princípio da organização jurídica e social do Estado moderno (O Estado laico e pluralista e as igrejas, em 05.11.2010).
No caso de exposição de imagens e símbolos religiosos em repartições públicas brasileiras, fato observado principalmente nos fóruns e tribunais de Justiça, o Ministério Público Federal, seção São Paulo, ajuizou uma ação civil pública, em 2009, no sentido de retirar todos os símbolos religiosos afixados em locais de atendimento ao público nas repartições federais localizadas no estado. Na justificativa protocolada pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jefferson Aparecido Dias, é lembrado o princípio da laicidade estatal, a liberdade de crença e da isonomia, destacando que o símbolo religioso ostentado em local público demonstra uma “predisposição” para a religião que tal símbolo representa.

Tradição religiosa ainda é um fator influente nos julgamentos

Um ano depois, em agosto de 2010, essa ação foi indeferida pela juíza federal Maria Lúcia Lencastre Ursaia que decidiu, em caráter liminar, que a presença de símbolos religiosos em prédios públicos não ofende os princípios constitucionais da laicidade do estado nem da liberdade religiosa. Em seu despacho, a juíza considerou natural a presença de crucifixos em espaços públicos nacionais, dada a formação histórico-cultural cristã do povo brasileiro. Segundo ela, para os agnósticos ou pessoas de crenças diferenciadas, esses símbolos nada representam, “assemelhando-se a um quadro, escultura, adereços decorativos”. A magistrada ainda destacou, em sua exposição de motivos, um dado dos mais importantes: a de que não há, no ordenamento jurídico brasileiro, qualquer proibição para o uso de qualquer símbolo religioso em qualquer ambiente de órgão do Poder Judiciário.

Em março de 2011, em prosseguimento a esse processo da Procuradoria Geral dos Direito dos Cidadãos, foi a vez do cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odílio Scherer, testemunhar a favor da manutenção dos símbolos religiosos nas repartições públicas. Em depoimento no Tribunal Regional Federal, ele disse não acreditar que um determinado símbolo religioso possa ser ofensivo a quem não professa aquela fé, conforme alegação do autor do pedido da ação, o engenheiro Daniel Sottomaior Pereira, que se declara ateu: – O fato de a maioria da população ser católica (73%, de acordo com o censo de 2000), culturalmente justifica a presença desses símbolos cristãos, afirmou o cardeal. O religioso também considera legítimo o Estado custear a manutenção dos símbolos religiosos em suas repartições “em respeito aos anseios dos representados”.

Segundo a reportagem de Keila Cândido, publicada na revista Época, em 15.03.2011 (Dom Odilo depõe na Justiça Federal a favor dos crucifixos nas repartições públicas), apesar de o cardeal defender a exposição de crucifixos em locais nobres, como plenários, ou em áreas de atendimento ao público, como salas de espera e saguões de entrada, ele reconheceu que a presença de um símbolo muçulmano em um hipotético julgamento “poderia causar preocupação em virtude da inexistência de uma tradição muçulmana no Brasil”.

Pluralismo religioso no Tribunal do Rio

No Rio de Janeiro, o atual presidente do Tribunal Regional Eleitoral, o desembargador Luiz Zveiter, também provocou polêmica quando no exercício da presidência do Tribunal da Justiça do estado (2009/20010) mandou retirar o crucifixo que estava na sala principal do órgão e transformou a capela existente em um espaço de culto ecumênico. De ascendência judaica e Grão-mestre da Grande Loja Maçônica do Estado do Rio de Janeiro por dois mandatos (seu pai, Waldemar Zveiter é o atual Grão–Mestre pela terceira vez e foi ministro do Superior Tribunal de Justiça, de 1989 a 2001), a atitude de Zveiter agradou a maioria dos 25 desembargadores do Tribunal, muitos deles evangélicos e espíritas. A medida não atingiu os juízes dos tribunais que continuaram com autonomia para manter ou retirar as imagens referentes à sua religião.

No discurso de posse, Zveiter foi incisivo quanto a sua disposição de atender a um consenso geral: “A toga do Juiz deve ter o talhe da sociedade. Deve seguir o modelo querido pelo povo, de modo a expressar, em seus procedimentos, a justiça social.” Na ocasião a Arquidiocese do Rio se manifestou desfavoravelmente à providência adotada, dizendo que as medidas deveriam ser vistas com cautela para que não contribuíssem para a intolerância religiosa (revista Consultor Jurídico, de 03.02.2009).

Dois anos depois, uma outra situação do gênero passou despercebida pela grande imprensa, mas foi bastante noticiada pelos sites judaicos. Indicado pela presidente Dilma Rousseff, em fevereiro de 2011, para ministro do Supremo Tribunal Federal, o carioca de ascendência judaica, Luiz Fux, instalou um símbolo religioso judaico, a mezuzá (umbral, em hebraico), na porta de seu gabinete, em Brasília. Constituindo-se em um pequeno estojo que abriga em seu interior um pergaminho que contém duas passagens bíblicas manuscritas em hebraico, o artefato é colocado no umbral direito da porta com a função de proteger as pessoas que habitam aquele local e evitar infortúnios. Usado principalmente nas portas de entrada dos lares das famílias judaicas e em alguns estabelecimentos comerciais, a colocação desse símbolo religioso em uma dependência da mais alta Corte Jurídica do país provocou controvérsia entre os leitores da “Rua Judaica”, newsletter de Osias Wurman, jornalista e cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro.

Com uma visão humanista do Direito e da Justiça, Fux reiterou seu posicionamento ao ser sabatinado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal. Aprovado por unanimidade pelos 23 senadores integrantes da CCJ, o novo ministro destacou que a Constituição Federal é a fonte de todas as leis, mas que “a Justiça é algo que não está só na lei”, porque “também depende da sensibilidade, da humanidade do magistrado”. Segundo Fux, “o Direito vive para o homem, e não o homem para o Direito” e que as soluções devem ser humanas. “A justiça tem que ser caridosa e a caridade tem que ser justa”, afirmou.

Bento XVI vê a religião marginalizada da vida pública

Em 2010, em visita a Londres, o Papa demonstrou preocupação com o que classificou de “crescente marginalização da religião, especialmente do cristianismo, em alguns lugares, inclusive em nações que outorgam uma grande ênfase à tolerância”. Falando no Westminster Hall do Parlamento britânico, Bento XVI afirmou que “há alguns que desejam que a voz da religião se silencie ou pelo menos que se relegue à esfera meramente privada”.

O pontífice disse ainda que os cristãos que desempenham um papel público não deveriam agir contra a sua consciência, ainda que muitos sustentem que às vezes, com a intenção de suprimir a discriminação, lancem mão do uso da razão prática. O Papa lembrou que os princípios éticos nos processos democráticos não devem ser regidos apenas por meros consensos sociais, pois resultarão em estruturas frágeis. - Sem a ajuda corretiva da religião, a razão pode ser também presa de distorções, como quando é manipulada por ideologias, sublinhou. “O papel da religião consiste justamente em ajudar a purificar e iluminar a aplicação da razão à descoberta de princípios morais objetivos” (agência Zenit, em 17.09.2010).
Pensadores contemporâneos defendem neutralidade religiosa

De acordo com os mais recentes estudos de contextos sociais, nas sociedades modernas as pessoas têm de assumir e cumprir diferentes papéis em diferentes domínios da vida (família, cidade, classe, nação ou povo) que podem entrar em conflito uns com outros. A questão que se apresenta é de como a pessoa que se sente pertencendo a uma comunidade familiar e religiosa pode permanecer sendo a mesma e única pessoa diante de visões e exigências contrárias. De que maneira é possível conciliar a “identidade do eu” - que está vinculada de maneiras diversas a várias comunidades e associações constituídas - com a pessoa “sujeito de direito” de uma comunidade política de normas jurídicas.

A separação entre os princípios universais e as concepções éticas privadas, com a priorização do justo e imparcial, é defendida pelo filósofo norte-americano Thomas Nagel (The Possibility of Altruism/1970). Professor de Filosofia e Direito na Universidade de Nova York, Nagel, de 73 anos, julga imoral forçar alguém a compartilhar um fim sobre o qual não está convencido, mesmo quando a pessoa que exerce essa imposição esteja convicta de que isso seria vantajoso para o outro. “É ilegítimo recorrer à verdade de uma concepção ética para justificar uma coerção jurídica.” Nagel defende que as pessoas tenham um padrão elevado de objetividade ao assumirem um ponto de vista “universal” e “impessoal”, e que procurem distinguir o que é “crença pessoal” e “verdade”, mesmo diante de suas próprias convicções éticas.

A respeito, o alemão Rainer Forst, 47, doutor em Teoria Política e professor na Universidade Goethe, em Frankfurt, ressalta que existe uma diferenciação entre a pessoa ética e a pessoa de direito. “Preceitos jurídicos e normas morais têm a pretensão de serem válidos para todos, não importando as concepções éticas que as pessoas adotem. Em contraposição, os valores éticos são válidos apenas para os indivíduos que se identificam com esses valores como parte de suas identidades e de sua história pessoal.”

Na obra “Contextos da Justiça” (1994), Forst assinala que o Direito deve ser eticamente “neutro” em seu modo de validação, a fim de que ele mesmo não prescreva determinados “valores” como bens superiores que não podem ser justificados de modo recíproco e universal. Ele chama a atenção ainda para o fato de que uma comunidade política somente pode ser integrativa num sentido abrangente quando ela não absolutiza política e juridicamente uma determinada tradição ético-cultural.

A neutralidade ética do Direito também é defendida pelo norte-americano Bruce Akerman, 67, conceituado professor de Direito Constitucional e Ciências Políticas da Universidade de Yale (Connecticut-EUA). No livro “Social Justice in the Liberal State” (1980), ele assinala: “Nenhuma razão é uma boa razão quando exige que o dono do poder afirme que sua concepção do bem é melhor ou superior do que qualquer outra afirmada por seus concidadãos.”

Em tempo: A presidente brasileira Dilma Rousseff – que estudou em escola de freira e assume que é católica -, em sua primeira semana no Palácio do Planalto também foi motivo de polêmica ao retirar de seu gabinete o crucifixo e a bíblia. No dia seguinte à notícia, a Secretaria de Comunicação da Presidência informou que o crucifixo pertencia ao ex-presidente Lula, que havia recebido de um artista português, logo no início de seu mandato. Em relação à bíblia, a nota à imprensa afirmava que o livro permanecia em uma sala contígua ao gabinete, sobre uma mesa, onde a presidente encontrou ao chegar ao palácio.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Houve um tempo no Egito - A vida de Henri Curiel

por Sheila Sacks

(atualizado em 2015)


A menos de dois quilômetros da Praça Thair (libertação, em árabe), principal palco dos protestos que resultaram na queda do presidente Hosni Mubarak, em 11 de fevereiro, a ilha verde de Zamalek, com vista sobre os dois afluentes do Nilo, ainda é uma das regiões mais elegantes e aprazíveis do Cairo. Em suas ruas arborizadas se alinham confortáveis residências de classes abastadas, modernos hotéis cinco estrelas, suntuosas embaixadas e movimentados cafés, livrarias, teatros e museus. Esse oásis turístico que passou ao largo dos conflitos que sacudiram o Egito nos primeiros meses de 2011, guarda histórias centenárias por trás das imponentes fachadas das poucas mansões remanescentes das primeiras décadas do século 20. Época em que a nobreza egípcia e a oficialidade britânica frequentavam os salões restritos do Turf Club, jogavam tênis e golf no elitista Sporting Club, e eventualmente eram encontradas em esticadas noturnas no Casino Badia.

Hoje cercado por grades de ferro, o majestoso palacete de 17 quartos construído pelo banqueiro judeu sefardita Daniel Nessim Curiel, em meados de 1930, abriga a embaixada da República da Argélia no endereço Brazil Street nº 14. Entretanto, há mais de 80 anos, quando a Villa Curiel foi projetada na então Hassam Sabry`s Street, suas espaçosas dependências eram ocupadas pela jovem Zefira, esposa de Daniel – que ficou cego aos três anos- e seus dois filhos, Raoul e Henri. Havia um salão de música, outro salão para a coleção de moedas raras do dono da casa e um segundo pavimento de onde se podia contemplar o esplendor do Nilo. A residência servida por uma dezena de empregados estava sempre repleta de convidados, mas raramente oriundos da comunidade judaica. E em 1937 viviam 63.500 judeus nas cidades de Cairo e Alexandria.

Miséria “sem limites” dos egípcios ainda impressiona

A família Curiel havia sido expulsa da Espanha pela Inquisição e alcançado o Egito no final do século 19, via Portugal e depois Itália. O caçula Henri, nascido em 1914, apesar de pertencer a segunda geração dos Curiel no Egito, tinha a nacionalidade italiana e foi educado em um colégio jesuíta francês. Ele cresceu em um Egito ocupado pelos britânicos e tiranizado por uma monarquia feudal, e ainda jovem voltou-se para o marxismo. Porém, coube a ele suceder o pai na direção do banco, enquanto o irmão Raoul seguia para estudar em uma universidade na França. Por sua vez, a mãe de Henri era dona de uma livraria que divulgava autores socialistas, ponto de reunião da intelectualidade egípcia antifascista.

No livro “Um homme à part” (1984), o jornalista e escritor Gilles Perrault  conta que Henri conheceu a tragédia dos camponeses egípcios ao visitar as propriedades de sua família, no delta do Nilo. “Foi na companhia de Rosette Aladjem, que mais tarde se tornaria a sua esposa, que Henri Curiel descobriu a miséria sem limites do povo egípcio. O trabalho de um homem valia menos do que o serviço de uma mula. Crianças de 7 a 13 anos trabalhavam nas fábricas de algodão, em meio à poeira sufocante, sob o jugo de feitores. A esperança de vida girava em torno dos 27 anos e doenças como a tracoma e a malária devastavam a população.”

Situação de extrema pobreza que lamentavelmente ainda persiste no século 21, conforme descrição do jornalista Samy Adghirni, em reportagem para a Folha de São Paulo (01.02.2011). Destacando que parte dos egípcios mais pobres se manteve alheia aos recentes protestos “preocupada só em sobreviver”, o enviado do jornal ao Cairo visitou uma favela assentada em meio a um cemitério, com milhares de pessoas se amontoando em barracos erguidos nos vãos dos túmulos. Sem dinheiro para pagar aluguel, famílias inteiras foram transformando, ao longo do século 20, o cemitério de Majauirun em um labirinto de ruelas onde cada quarteirão é composto por túmulos coletivos. Uma tragédia social que pune um país em que 40% da população ganha menos que 2 dólares ao dia.

A luta por um Egito independente

Em 1943, vivendo sob a monarquia do rei Farouk, Henri Curiel funda o Movimento Egípcio de Libertação Nacional – depois Movimento Democrático de Libertação Nacional (Hadetu) – que vem a se tornar a maior organização comunista do Egito. Os acontecimentos no país durante a 2ª Grande Guerra, com parte da sociedade egípcia se aproximando dos nazistas em reação ao domínio britânico, mostram a Curiel que o anseio por uma pátria independente muitas vezes conduzem as pessoas por caminhos tortuosos.

Decide permanecer no Cairo, apesar de uma grande fatia da comunidade judaica lotar os trens rumo a Jerusalém, atemorizada com a possível invasão dos áfricakorps do general Rommel (a força expedicionária nazista que combatia no Norte da África). Ele adquire a nacionalidade egípcia e começa a aprender o árabe. Mas a derrota egípcia na primeira guerra árabe-israelense, em 1948, muda o seu destino. Centenas de comunistas são presos e Curiel vai para a prisão de Huckstep, onde cumpre pena por 18 meses.

Para o seu companheiro de partido, Raymond Stambouli (1923-2004), a guerra de independência de Israel forçou os comunistas judeus egípcios a se confrontar com a sua identidade e a arcar com as conseqüências políticas desse fato. “A guerra na Palestina pôs fim ao sonho. Nós nos considerávamos egípcios, ainda que muitos nos vissem como estrangeiros. Porém, agora, não éramos estrangeiros, mas judeus, o inimigo, uma potencial quinta coluna. Nenhum de nós havia previsto isso.”


Em 26 de agosto de 1950, Curiel perde a cidadania egípcia e é colocado à força em um navio rumo à Europa. Expulso do país, ele se transforma em um exilado político para o resto da vida. “Ele foi o pai do comunismo egípcio”, escreveu Mohamed Sid-Ahmed, em 1998, no diário de maior circulação do país – Al-Ahram. Escritor, jornalista e por muitos anos editor de política do jornal, Sid-Ahmed (falecido em 2006) lembrou que apesar de Curiel ter sido expulso do Egito, “ele sempre esteve envolvido com os problemas egípcios, sua política interna e o conflito árabe-israelense.”

Ao lado dos argelinos, na Guerra da Independência

Deportado para a Itália com outros militantes expulsos do país, Curiel acaba por se instalar em Paris e reúne em uma associação – o Grupo de Roma - os judeus egípcios comunistas exilados. Tempos depois, se torna um dos homens-chave da Frente Nacional de Libertação da Argélia (FLN), movimento fundado em 1954, no Cairo, por Ahmed Ben Bella, líder da revolução e primeiro presidente da República da Argélia. No Egito, o coronel Gamal Abdel Nasser (1918-1970), que havia deposto Farouk em 1952, fecha as portas a Curiel, não obstante manifestar apoio ao FLN. Impedido de retornar ao Egito, Curiel doa a mansão de Zamalek para sede provisória do governo argelino no Cairo.

Entre 1954 e 1962, no decurso da guerra de independência argelina contra a França, cabe a ele disponibilizar recursos, documentos, cobertura e treinamento aos oficiais e estudantes anticolonialistas, apoiado por um esquema subterrâneo onde se misturam grandes somas não identificadas provenientes da Suíça, a rede árabe do Kremlin, os partidos comunistas europeus, intelectuais socialistas e sacerdotes cristãos.

Em 1960, após interrogatório sobre as suas atividades na FLN, é preso pelo serviço de segurança interno francês (DST) e permanece dois anos encarcerado na prisão de Fresnes, na periferia de Paris. Com o fim da guerra da Argélia é solto e funda a organização Solidarité, de apoio aos movimentos de libertação nacional em países antidemocráticos do Terceiro Mundo.

O militante político de esquerda e jornalista israelense Uri Avnery   fundador do movimento Gush Shalom (Bloco da Paz) e que na Guerra da Independência de Israel, em 1948, foi membro da organização paramilitar Irgun, conheceu Curiel em Paris, no final da década de 1950, quando a guerra na Argélia estava no auge. Curiel sonhava em estabelecer uma conexão argelina-israelense que Avnery considerou totalmente utópica, já que os judeus argelinos portavam identidade francesa e se identificavam completamente com o regime colonialista francês.

No artigo “The silent idealist”, publicado na revista Le Monde Diplomatique (1998), Avnery observa que Curiel era um idealista que jamais se deixou render. “Ele era determinado, jamais levantou a voz e nunca se desesperou. Apesar das inúmeras decepções, ele não desistia. Não se deixava levar pelas emoções e nem permitia que problemas pessoais interferissem em suas decisões. Para mim, Curiel foi um modelo de político idealista. Através de seu exemplo pessoal, ele me ensinou determinação, paciência e perseverança.”

Um dos companheiros de Curiel no “grupo de Roma”, Joseph Hazan, lembra que o fato de ambos terem nascido em um país com um sistema de produção extremamente cínico, em que a exploração do homem pelo homem atingira uma situação degradante, provocou em Curiel uma reação instintiva que permeou sua forma de ser e sua consciência para sempre. “Ele nunca se esqueceu que foi a miséria do povo egípcio que o levou à política.”

Hazan que militava no partido de Curiel tinha nacionalidade francesa e acolheu o amigo quando este procurou abrigo em Paris. Infelizmente, a onda de nacionalismo que se implantou na Argélia, após a saída dos franceses, atingiu em cheio a comunidade judaica, com a edição de decretos discriminatórios, confiscos e perseguições. Mais de 130 mil judeus nascidos na Argélia e portadores de cidadania francesa imigraram para a França e Israel, reduzindo a pó a tradicional comunidade sefardita (judeus originários de Portugal e Espanha) que veio a se formar, a partir do século XIV, em Argel.

Pedindo dinheiro e armas para derrubar o regime de Nasser

De acordo com André Marty (1886-1956), político francês que foi secretário do Partido Comunista na França e chefe das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola (1936-39), Curiel fez o possível para derrubar Nasser na década de 1950. “Em repetidos encontros com líderes de partidos comunistas europeus, Curiel insistia em solicitar armas e dinheiro para destituir Nasser”, relatou. A crise do Canal de Suez (1956-1957) que envolveu o Egito, Inglaterra, França e Israel havia resultado em mais um traumático êxodo para os judeus egípcios. Vinte e cinco mil foram expulsos, centenas tiveram a prisão decretada e bens e propriedades foram confiscados.

No livro “The Jews of Egypt, 1920-1970”, o professor Michael M.Laskier, do Departamento de História do Oriente Médio da Universidade Bar-Ilan, de Tel Aviv, descreve a dolorosa situação: “A expulsão e fuga tiveram início em larga escala com centenas de pessoas aglomerando-se nos escritórios do rabinato, consulados e embaixadas, procurando conselho, assistência e meios de escapar. O porto de Alexandria e o aeroporto do Cairo ficaram abarrotados de refugiados deixando o país. As dificuldades nos pontos de embarque, com os funcionários do governo confiscando arbitrariamente qualquer coisa que julgassem valiosas, fizeram com que muitas pessoas, diante da confusão, partissem com apenas algumas roupas nas bagagens.” Para o American Jewish Congress (AJC), a atitude de Nasser, em certo sentido, é comparável a de Hitler, pois o intento do coronel egípcio foi destruir a antiga comunidade judaica existente no país, privando-a de seus direitos e de meios de subsistência.

Uma central de ajuda a refugiados e revolucionários

Em 1962, aos 48 anos e após sair da prisão de Frasnes, Curiel amplia suas atividades até então centradas no Egito e na independência da Argélia. Através da organização Solidarité ele promove ajuda financeira e estratégica aos movimentos anticolonialistas de países da África e aos grupos que lutavam contra a Grécia dos coronéis e as ditaduras na Espanha (do general Francisco Franco), Portugal (Oliveira Salazar) e Chile (Augusto Pinochet).

A rede baseada em Paris contava com militantes de origens e filiações diversas, clérigos protestantes, padres católicos, sindicalistas, intelectuais, professores, socialistas e membros do partido comunista. Os seus filiados davam abrigo e proteção aos revolucionários de outras partes do mundo que, em fuga, chegavam a Paris. A organização também funcionava como uma central de prestação de serviços voltada para os ensinamentos das múltiplas técnicas de sobrevivência e clandestinidade, os quais os militantes, expostos à repressão violenta e sofisticada de estados opressores como a África do Sul do aparthaid, necessitavam dominar para permanecerem vivos.


Outro foco de atenção no curso político de Henri Curiel estava direcionado para o conflito árabe-israelense. Ele manteve contato com figuras proeminentes do Partido Trabalhista de Israel e com os membros do “Israeli Council for Israeli-Palestinian Peace” (ICIPP), em busca de um caminho de entendimento que chegasse à Organização para a Libertação da Palestina (OLP).


Perrault afirma que Curiel estava convencido de que era possível promover um diálogo entre as duas partes. “Em 1976, ele organiza com seus amigos judeus de origem egípcia, exilados na França, um encontro clandestino entre o general da reserva israelense e pacifista Matti Peled (1923-1995), e Issam Sartawi (assassinado em Portugal, quando participava do encontro da Internacional Socialista, em 1983), antigo terrorista convertido ao processo de paz e amigo de Yasser Arafat.” Entretanto, na mesma época, uma reportagem no semanário Le Point acusa Curiel de ser o cabeça de uma rede terrorista conectada com a KGB (serviço secreto da antiga União Soviética).

A matéria assinada por Georges Suffert equivale a uma condenação capital. “Curiel abominava o terrorismo, considerava uma falta de bom senso político e uma monstruosidade humana. A acusação foi frívola, mas mortal”, revela Perrault. “Uma campanha na imprensa o fulminou e medidas administrativas baixadas pelo governo francês incluíram prisão domiciliar na cidade de Digne, nos Alpes franceses. Três meses depois, quando as acusações se mostraram infundadas, as restrições foram suspensas, mas o caminho estava aberto para os inimigos de Curiel.” (Henri Curiel, citizen of the third world, de Gilles Perrault - 1998)

Assassinato não esclarecido na Rive Gauche

Curiel foi assassinado com três tiros por dois pistoleiros de mãos enluvadas no elevador de seu apartamento, na Rive Gauche de Paris, em 4 de maio de 1978. No dia seguinte, a organização Delta, uma rede da extrema direita francesa composta de nostálgicos da Argélia francesa, reivindicou a autoria do crime. Mas a “Delta”, esquadrão de extermínio dos extremistas de direita francesa durante a guerra da Argélia estava extinta há mais de 15 anos.

Contudo, ainda que passado tanto tempo após a sua morte, as autoridades francesas não conseguiram elucidar o caso. Existem suspeitas que levam a radicais argelinos, donos de terra que perderam suas propriedades na Argélia; ao serviço secreto da África do Sul, que considerava Curiel um perigoso inimigo; ou mesmo ao terrorista palestino da al Fatah e assassino profissional Abu Nidal, mercenário a soldo da Síria e da Líbia e responsável por centenas de atentados a alvos israelenses e árabes (morto no Iraque em 2002). Quatro meses antes da execução de Curiel, o representante em Londres da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Sa’id Hammami, que participava com Curiel das iniciativas em prol de uma coexistência pacífica entre árabes e judeus, também fora assassinado.

O mistério da morte de Curiel foi tema de um documentário apresentado na TV francesa, em setembro de 2008. “Henri Curiel; un crime politique” explora a pista que imputa às autoridades francesas a responsabilidade direta pelo assassinato de Curiel. Isso porque seus passos eram monitorados pelos serviços secretos da França e nem a polícia ou a justiça francesa levaram adiante a investigação. Ninguém foi interrogado ou detido. É o que reclama Alain Gresh, diretor adjunto de Le Monde Diplomatique (revista mensal publicada em 25 idiomas, inclusive português, com tiragem de 2,4 milhões de exemplares), no artigo “Henri Curiel:la piste française”. Especialista em assuntos ligados ao Oriente Médio e filho natural de Curiel, Gresh nasceu no Egito, em 1948, de mãe judia de origem russa. Educado por um egípcio copta (cristão), só soube da existência de seu verdadeiro pai aos 28 anos, quando já vivia em Paris.

Apesar de Curiel estar morto há décadas, sua figura carismática e seu trabalho solidário a favor da emancipação dos povos continuam a despertar interesse e admiração. Livros, filmes e artigos sobre o curso de suas atividades ainda confundem estudiosos e leitores pela diversidade de opiniões e pontos de vista. “A estranha carreira de Henri Curiel” , assim definida por Claire Sterling (1919-1995), em seu livro a “A rede do terror” (1981), também mereceu um longo e polêmico capítulo.

Segundo a jornalista norte-americana que foi correspondente na Europa das revistas Life e The New York Times Magazine, nos 27 anos em que viveu na França, Henri Curiel constou nos arquivos do serviço secreto francês como o agente estrangeiro S531916, ligado à KGB. Todos os principais serviços ocidentais de contraespionagem tinham um dossiê a seu respeito, assegurava Sterling, e a confirmação veio em março de 1979 quando a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) registrou em seu relatório anual, de distribuição interna, na página 3, o seguinte obituário: “Revolucionários do mundo inteiro, inclusive terroristas, lamentam o assassinato de Henri Curiel, líder de uma organização de apoio sediada em Paris que fornecia dinheiro, armas, documentos, treinamento e outros serviços a dezenas de grupos esquerdistas.”

terça-feira, 8 de março de 2011

Xerifes urbanos contra os senhores do crime

por Sheila Sacks
Publicado no Portal da Federação Nacional dos Policiais Federais - FENAPEF

De tempos em tempos chegam à superfície ecos de supostas lambanças ocorridas nos subterrâneos da área da segurança pública em sua permanente batalha contra o crime organizado. Transitando por uma complexa rede de conexões que se interligam em voltagens diversas, se isso é possível, agentes públicos responsáveis por manter a ordem e a lei muitas vezes são levados a percorrer um intrincado e ambíguo sistema de alta tensão povoado de peças à margem da esfera oficial, mas nem por isso menos capazes de provocar curto-circuitos e panes avassaladoras à estrutura e hierarquia organizacionais estabelecidas.


As inevitáveis notícias que dali surgem, em um primeiro momento, e que a mídia transfere ao público, tendem a ganhar novas conotações e desdobramentos com o passar dos dias, muito deles contraditórios em relação aos primeiros publicados, em razão da entrada de outros dados vindos de fontes diferentes. Entretanto, o imediatismo e a dinâmica que regem o jornalismo diário muitas vezes interferem e precipitam decisões no âmbito administrativo do Estado, preocupado em dar por encerrado o episódio. Mas aí o estrago está feito e, com verdades reveladas ou não, sobram chamuscados a instituição e os personagens envolvidos.


Muito antes do fenômeno Tropa de Elite, filme brasileiro de 2007 construído a partir do livro Elite da Tropa (escrito por ex-policiais e um ex-secretário de Segurança), que enfoca as contradições morais e éticas que permeiam as ações de um batalhão de operações especiais no Rio de Janeiro, um seriado de TV de temática semelhante alcançava picos de audiência e arrebatava os mais importantes prêmios da televisão norte-americana. Isso, nos idos de 2002, quando o canal a cabo FX, da Fox Entertainment Group, lançou sua primeira série original, The Shield (O distintivo, em tradução livre), um trabalho audacioso assinado pelo jovem roteirista Shawn Ryan (no Brasil, o seriado foi apresentado no canal pago AXN).


Pressão da mídia e interesses políticos


À época com 36 anos, Ryan se inspirou em uma divisão do Departamento de Polícia da cidade de Los Angeles para mostrar, de forma intensa e incisiva, o dia-a-dia de cão de uma delegacia policial e de um eficiente e seleto grupo de profissionais que se utiliza de métodos violentos e pouco convencionais no combate ao crime e ao tráfico de drogas. Por sete anos e ao longo de 88 episódios, os telespectadores puderam acompanhar o périplo tenso e angustiante de policiais em mortificantes conflitos com os princípios morais e os valores éticos representados por suas insígnias e a realidade cruel e impiedosa que embrutece seus atos, congela seus sentimentos e conspurca de fel suas vidas nos âmbitos profissionais e familiares.


O fictício distrito de Farmington constituiu-se no perfeito microcosmo de centenas de centros urbanos existentes no planeta onde traficantes, viciados, aliciadores, informantes, denunciantes, desempregados, prostitutas e degenerados convivem em bolsões de pobreza ao lado de crianças e jovens provenientes de famílias desestruturadas pelo consumo de drogas e pelo subemprego que avilta e corrompe. Em outro patamar, atuando sobre esses conglomerados humanos, profissionais pagos pelo Estado para gerenciar a aplicação das leis e assegurar a ordem social se veem às voltas com situações em que o bom senso e o padrão regular de ações se revelam insuficientes ou inócuos. Fustigados por interferências de fatores díspares, que vão desde a pressão da mídia até ao assédio de interesses políticos e econômicos, os chamados homens da lei travam uma dura e dúbia batalha interior e que, no cômputo final, se revela, na maioria das vezes, desesperada e solitária.


A influência das redes ilícitas


No livro Ilícito (2005), o analista político Moisés Naim, 59, editor-chefe por mais de 10 anos da conceituada revista Foreign Policy, identifica as transformações tecnológicas e a abertura de mercados ocorridas nos anos 90 como fatos marcantes que propiciaram o advento de um tipo de crime mais evasivo e poderoso, que entrelaça "intimamente" redes ilícitas a atividades lícitas do setor privado, da área pública e do sistema político. "Eventos políticos como a queda do muro de Berlim, a derrocada da União Soviética, a multiplicação de nações que se democratizaram, a política liberal e o livre mercado, tudo isso associado à introdução de novas tecnologias, favoreceram não só a expansão do crime global como, graças à sua capacidade de acumular lucros colossais, torná-lo também uma poderosa força política."


Nascido em Caracas, Naím foi ministro da Indústria e de Comércio da Venezuela, diretor do Banco Central e diretor-executivo do Banco Mundial na década de 1990, antes de fixar residência nos Estados Unidos. Doutor em Ciências Econômicas pelo Massachusetts Institute of Technology, ele é autor de 10 livros sobre economia e política internacional e atualmente mantém uma coluna semanal no jornal espanhol El País, reproduzida em diversas mídias da América Latina, inclusive no site Observatório da Imprensa. Best-seller traduzido para 18 idiomas, o livro, que apresenta um longo subtítulo – "O ataque da pirataria, da lavagem de dinheiro e do tráfico à economia global" – serviu de base para o documentário Illicit: The Dark Trade, produzido pelo canal National Geographic e premiado com o Emmy Award de 2009.


Entre outras constatações, Naím observa que os criminosos globais mudaram o mundo, ainda que os governos custassem a perceber o teor dessas transformações. Ele alerta para o fenômeno: "À medida que as redes ilícitas se expandem em direção a empresas privadas lícitas, partidos políticos, parlamentares, governos locais, grupos de comunicação, tribunais, exército e setores beneficentes, elas assumem uma influência poderosa – e, em certos países, sem igual – nas questões de Estado."


Uma máquina gigantesca


Tudo começou no início dos anos 1990, quando o comércio ilícito global criou os mesmos mecanismos que as organizações terroristas internacionais – como a Al-Qaida e a Jihad Islâmica – já utilizavam. As hierarquias fixas foram substituídas por redes descentralizadas; líderes autoritários, por agentes e células múltiplas relacionados e dispersos; linhas rígidas de controle, por transações em constante transformação, de acordo com as oportunidades. Segundo Naím, em países em desenvolvimento e naqueles que fizeram a transição do comunismo, as redes criminosas frequentemente constituem o capital investido mais poderoso que confronta o governo. E, em alguns países, os traficantes e seus sócios controlam os partidos políticos, dominam importantes meios de comunicação, são os maiores filantropos por trás das organizações não-governamentais (ONGs) e tornam-se "o grande empresariado" nacional.


Há ainda a internet. Para o crime organizado, um presente do céu. Naím ressalta que essa tecnologia é de um valor "imenso" para os traficantes e o comércio ilegal. "Aqueles que se envolvem em transações ilícitas, comunicam-se uns com os outros fazendo uso da privacidade e do anonimato de contas de e-mail, alteradas com frequência e acessadas de cibercafés e outros lugares impenetráveis. A internet permite que os traficantes se comuniquem reservada e eficientemente a fim de operar quantas transações sejam possíveis, tanto no espaço virtual quanto no real, e cria novas formas de movimentar e ocultar bens."


Maior mercado mundial de cocaína, correspondendo a quase 40% do total de consumidores da droga, os Estados Unidos há duas décadas vêm combatendo esse tipo de ilícito dentro e fora de suas fronteiras. Naím cita Washington como o centro da guerra contra as drogas, com milhares de funcionários federais contratados exclusivamente para combater o tráfico e impor a lei. São agentes da DEA (Drug Enforcement Administration, agência antidrogas dos Estados Unidos), funcionários da secretaria antidrogas da Casa Branca, especialistas em drogas do ICE (Immigration and Customs Enforcement – Departamento de Imigração e Alfândega), policiais federais, serviço secreto, FBI e a Guarda Costeira, para citar alguns. Uma máquina gigantesca que consome 20 bilhões de dólares anuais apenas em nível federal, na luta contra o uso e o comércio das drogas. No entanto, ressalta o analista, a poucos minutos desses escritórios estão os 60 pontos de venda de drogas que Washington abriga a céu aberto e que atendem os moradores de classe média, além de revendedores e intermediários que levam o produto para bairros ainda mais abastados.


O lucro ilícito gerando atividades legais


Em abril de 2009, poucos meses após a sua eleição, Barack Obama visitou o México para conversar com o presidente Felipe Calderón sobre a intensificação no combate ao comércio das drogas e à venda ilegal de armas vindas dos EUA que abastecem os cartéis mexicanos. Dois anos depois, amargando mais de 34 mil mortes na guerra contra o narcotráfico, sendo 15 mil somente em 2010, Calderón criticou as agências do governo norte-americano, como CIA e DEA, por sua suposta incapacidade de colaborar na guerra contra o narcotráfico. "A realidade é que eles não se coordenam. São rivais", disse Calderón (agência Reuters, em 03/03/2011).


Cerca de 30 mil agentes são disponibilizados pelo governo dos EUA para patrulhar os 3.169 quilômetros que separam os dois países. Mas tal aparato não inibe os fora da lei. A respeito, o sociólogo e político suíço Jean Ziegler reproduz, em seu livro Les Seigneurs du Crime (1999), o comentário de um procurador de Justiça de Berlim: "Os senhores do crime organizado são hoje em dia os únicos autênticos cosmopolitas. São cidadãos do mundo. Isso porque as fronteiras detêm a ação de juízes, mas não a dos criminosos."


Ziegler, de 77 anos, ganhou notoriedade com a obra A Suíça, o Ouro e os Mortos – Como os Banqueiros Suíços Ajudaram a financiar a Máquina de Guerra Nazista, publicado em 1997.


As Nações Unidas calculam que existem mais de 200 milhões de consumidores de drogas no mundo, o que gera um negócio de mais de 270 bilhões de euros por ano. Em entrevista ao jornal El País, o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe Gonzáles analisa o tema: "Se você liga a droga aos negócios associados com o tráfico de armas e de pessoas, aumenta esse volume de negócio. E não falamos do que se pode fazer com esse dinheiro: uma pizzaria, um hotel..., legais. A lavagem de dinheiro negro entra no aparato de circulação do sistema e proporciona emprego e gera atividades econômicas que não são ilegais."


Costa brasileira favorece tráfico


Moisés Naím denomina de "buracos negros geopolíticos" os lugares onde as redes de tráfico "vivem" e prosperam, lembrando que na astrofísica essas regiões do universo estão fora das tradicionais leis da física newtoniana. Ou seja, nesses locais não se aplicariam as formas tradicionais de pensamento sobre política mundial e relações internacionais. Um exemplo seria a cidade de Málaga, na Costa do Sol da Espanha, conhecida região turística. De 2000 a 2005 houve um aumento de 1.600% na construção de casas particulares, apesar da localidade ter uma das mais altas taxas de desemprego e um dos mais baixos índices de renda da Espanha. O motivo se encaixaria na explicação dada por um chefe de polícia espanhol ao jornal inglês Financial Times: "Os criminosos são os empresários de hoje... Eles querem boas escalas para suas viagens, um sistema bancário eficiente, um clima ameno e anonimato. Conseguem tudo isso em Málaga."


A reportagem de Leslie Crawford ("Hot money pays for boom on Spain´s Costa del Crime") revela os resultados de uma ação policial, realizada em 2005, que envolveu agentes de sete países e que constatou a presença de 550 grupos criminosos operando na Espanha. No caso de Málaga, o crime organizado lavava o dinheiro ilegal através da indústria da construção civil, que teve uma expansão extraordinária. "É talvez a mais importante força motriz por trás da indústria da construção", afirmou Per Stangeland, responsável pela cadeira de Criminologia da Universidade de Málaga. Em relação ao Brasil, documento elaborado pelo Departamento de Estado norte-americano e divulgado pela mídia em 3 de março de 2011 aponta o país como o maior consumidor de drogas da América do Sul (900 mil de usuários de cocaína) e com o consumo em crescimento. O Paraguai continua sendo o maior fornecedor de maconha para o Brasil, cujo cultivo local da droga está concentrado na região Nordeste.


O relatório anual "Estratégia para o Controle Internacional de Narcóticos" indica que o Brasil está aberto ao trânsito de pequenos aviões da Colômbia (maior produtor mundial de cocaína) e Peru (maior produtor mundial de coca, matéria-prima da cocaína), com destino à Venezuela e Suriname (principais áreas de saída da América do Sul com carregamentos de drogas ilícitas para Europa) e começa a se mostrar como uma fonte importante no fornecimento de compostos químicos para a produção de cocaína. "O Brasil não só é o maior consumidor de drogas da América do Sul, mas também tem a costa mais extensa do continente e isto o transforma em uma rota de passagem inevitável para o contrabando de narcóticos rumo à Europa, África e em menor quantidade aos Estados Unidos", conclui o estudo. A costa brasileira tem 7.367 quilômetros de extensão.


Um submundo capaz de controlar nações inteiras


O Brasil também apresenta números significativos na venda ilegal de armas. Pesquisa divulgada pela Subcomissão de Armas do Congresso Nacional, em novembro de 2010, revela que quase a metade das armas que circulam no país é ilegal – 7,6 milhões de um total de 16 milhões de armas. Em seu livro sobre os cartéis do crime organizado, Jean Ziegler procura demonstrar que a progressiva institucionalização desse exército de criminosos representa o estágio supremo e a própria essência do modo de produção capitalista. Ele explica: as redes criminosas realizam a "maximização" do lucro, acumulam sua mais-valia a uma velocidade vertiginosa, criam oligopólios, a noção de contrato social lhes é estranha, agem no imediato e numa liberdade quase total e seus capitais atravessam as fronteiras cibernéticas do planeta sem qualquer obstáculo. Qual capitalista, pergunta Ziegler, em seu foro íntimo, não sonharia com tamanha liberdade, uma tal rapidez de acumulação, semelhante ausência de transparência e lucros dessa ordem?


Doutor em Direito e Ciências Econômicas, escritor, professor de Sociologia nas Universidades de Genebra e Sorbonne, em Paris, e membro do parlamento suíço por quase 20 anos, Jean Ziegler dedica a parte final do livro aos policiais e magistrados que em diversos países estão engajados no combate às redes criminosas. Segundo ele, nessa "guerra da liberdade", dentre todos os policiais que lutam contra o crime organizado, a figura do undercover agent (agente infiltrado), agindo sob identidade falsa e participando das atividades criminosas, é a mais ambígua e a mais difícil.


Entrevistando fontes policiais da Europa, Ásia e Estados Unidos, peritos, juízes, procuradores e diretores de serviços secretos, Ziegler chegou à conclusão de que esse tipo específico de policial é "um herói de nossa época". "Ele não é nem um delator nem um informante da polícia, explica. É um agente encoberto. Age sob identidade falsa e mantém as autoridades informadas sobre uma infração que está sendo cometida ou um projeto, enquanto se encontra ele mesmo infiltrado entre os delinquentes visados. Constitui-se uma arma decisiva na guerra contra os senhores sanguinários."


Enfim, na batalha crucial contra o tráfico global e as perversas variantes do comércio ilícito, ainda são os policiais que permanecem na linha de frente, sujeitos a sofrerem incalculáveis reveses e pesadas baixas, físicas e morais, em ações potencialmente arriscadas e limitadas pela hierarquia e a burocracia de Estado. "Frequentemente os agentes policiais fazem parte da engrenagem da máquina, mas não são o seu motor", atesta o venezuelano Moisés Naím, para quem o crime organizado é o outro lado da moeda da globalização. Um submundo com poder político e econômico capaz de controlar nações inteiras.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Nosso amigo Kadafi


por Sheila Sacks

Entre tantas figurações bizarras registradas pela mídia associadas ao desastre climático que devastou grande área da região serrana do Rio de Janeiro (com destaque para as performances dos ilustres tagarelas de plantão, sempre dispostos a palpitar sobre qualquer assunto), uma delas focalizou a aprazível conversa telefônica entre a presidente Dilma Rousseff e o ditador líbio Muammar Kadafi, ocorrida uma semana depois do horrendo cataclismo da madrugada de 12 de janeiro de 2011, que vitimou mais de 850 pessoas.


Por dez minutos Kadafi papeou com Dilma sobre assuntos variados, inclusive sobre a tragédia que foi o motivo que ensejou o oportuno contato entre os dois. Depois de prestar solidariedade às vítimas dos deslizamentos e oferecer ajuda ao governo brasileiro, Kadafi parabenizou Dilma pela vitória nas urnas. A presidente agradeceu o envio de uma delegação da Líbia à posse e disse que “se necessário, recorreria à Líbia” (O Globo online de 20.01.2011). Vale lembrar que o governo brasileiro, dois dias depois da tragédia, recusou a ajuda oferecida pelo Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, sediado em Genebra, que se colocou à disposição para auxiliar no resgate e atendimento à população.


Segundo a agência Estado, a instituição estava pronta para entrar em ação na região serrana. A porta-voz da ONU, Elisabeth Byrs, confirmou que o pedido de ajuda “não foi transmitido” pelo governo brasileiro, uma maneira diplomática para dizer que a oferta de participação da ONU não foi aceita pelo governo brasileiro (Brasil recusa ajuda da ONU no resgate e auxílio a vítimas da chuva, em 15.01.2011).


Reunião em Lima deve juntar Dilma e Kadafi


Mas, voltando ao bate-papo amigo de Dilma e Kadafi, o colóquio telefônico também serviu para a brasileira cobrar do líbio a sua honorável presença na 3ª Cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa), que até então seria realizada de 13 a 16 de fevereiro de 2011, em Lima, no Peru (posteriormente adiada para o mês de abril, por conta da onda de protestos no Cairo). O encontro pretende reunir os 12 líderes sul-americanos, incluindo a nova presidente do Brasil, e os 22 chefes de Estado da liga árabe que integram o conclave.


Segundo o Portal Terra, a presidente finalizou a ligação afirmando que “terá prazer em encontrar Kadafi na Cúpula”. A troca de gentilezas se justificaria porque Kadafi é tratado pelo Palácio do Planalto como “líder da revolução líbia” (O Estado de São Paulo, de 21.01.2011). Imagem reforçada pela agência de notícias “Jana”, da Líbia, que dias antes já tinha informado que Dilma “manifestou-se disponível para trabalhar com Kadafi para o êxito de um outro evento: o da próxima “Cimeira África-América Latina”, prevista para ser realizada no segundo trimestre de 2011, no país líbio.


A agência também divulgou que logo depois da posse, em reunião com a delegação da Líbia, a presidente brasileira salientou o papel pioneiro de Kadafi a favor das questões de liberdade, justiça e de promoção da mulher. Dilma falou das relações históricas entre o Brasil e a Líbia e de sua vontade em incrementar ainda mais esse relacionamento entre os dois países. A Líbia possui as maiores reservas comprovadas de petróleo da África. Em Brasília, a delegação líbia também manteve contato com Hugo Chávez, da Venezuela, Fernando Logo (Paraguai), Sebástian Piñera (Chile) e Allan Garcia, do Peru (Dilma Rousseff trabalha com Kadafi - Jornal de Angola de 07.01.2011).


Kadafi subvencionava a OLP com 40 milhões de dólares anuais


Apontado pela jornalista norte-americana Claire Sterling (1919-1995) como “o papai rico do terrorismo”, Muammar Kadafi proveu de fundos, armas e treinamento o terrorismo palestino responsável pelo massacre nos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, que matou 11 atletas israelenses.


Em seu livro “A rede do terror” (The Terror Network - 1981), publicado em 22 países, a autora revela que Kadafi, de 69 anos, nascido numa tenda de nômade no deserto e educado no Alcorão, subvencionava as atividades terroristas da Organização Para a Libertação da Palestina (OLP) com uma verba anual de 40 milhões de dólares retirada de um fundo especial de 580 milhões de dólares para obras terroristas em todo o mundo. “A lista ia dos sandinistas da Nicarágua, Monteneros da Argentina e Tupamaros do Uruguai aos Provos do IRA, bascos espanhois, bretões e franceses e separatistas corsos, sardos e sicilianos, turcos, iraquianos, japoneses e rebeldes muçulmanos da Tailândia, Indonésia, Malásia e Filipinas”, escreve Sterling.


O ditador libio também gastou somas milionárias para derrubar governantes árabes “conservadores”. Manteve de pé uma oferta de um milhão de dólares a qualquer pessoa disposta e capaz de matar o presidente egípcio Anwar Sadat, (assassinado no Cairo em 1981) e gastou uma quantia seis vezes superior para tentar derrubar o primeiro presidente da Tunísia, Habib Bourguiba (1903-2000), destituído do cargo em 1987. Ambos os dirigentes procuraram se aproximar do Ocidente e de Israel.


Vivendo na Itália desde o fim da 2ª Grande Guerra, Sterling foi correspondente de importantes jornais e revistas, incluindo “The New York Times” e “Washington Post”. Compilando fatos e desvendando ligações, ela foi capaz de traçar um surpreendente mapa do terror que emergiu na Europa, entre 1970 e 1980, na forma de uma vasta rede internacional, com campos de treinamento, arsenais poderosos, pontos de apoio para fugas, enfim, como um exército moderno, bem equipado e pronto para atacar em qualquer lugar do planeta.


Campos de treinamento na Líbia exportavam o terror


A Líbia de Kadafi era o centro logístico do terrorismo internacional, afirmava Sterling. O país se pôs a serviço da criminalidade do terror e em seus campos de treinamento havia mais de 20 mil estrangeiros recrutados no Egito, Sudão, Tunísia, Mali, Nigéria, Etiópia, Mauritânia, Camarões, Chade, Senegal, Costa do Marfim, entre outros da África. “Os campos de guerrilheiros de Kadafi também fervilhavam de europeus e os instrutores eram tanto soviéticos como cubanos.”


Para Sterling, os países ocidentais dependentes do petróleo líbio gostavam de pensar que o coronel só desejava a libertação da Palestina. “Ele insistia em afirmar que todos os judeus que se haviam instalado na Palestina desde 1948 deveriam voltar aos locais de origem. Certa vez, ao enviar uma equipe de palestinos para metralhar o aeroporto de Istambul, suas ordens foram: - Matem o máximo possível de judeus.” A jornalista e pesquisadora assinala que, em 1978, dois anos após fechar um contrato de 12 bilhões de dólares para a compra de armamentos russos, Kadafi disse ao New York Times que o marxismo estava mais próximo dos muçulmanos que o cristianismo e o judaísmo: “São os cristãos e os judeus que cometem genocídios e são o ateus que clamam pela paz e pela causa da liberdade.”


Nessa época, o “queridinho” do ditador líbio era um ex-capitão do exército sírio, guerrilheiro profissional, marxista, um dos fundadores da Frente Popular para a Libertação da Palestina-FPLP. Tratava-se de Ahmed Jibril (atualmente com 72 anos e secretário-geral da FPLP), que gozando da plena confiança de Kadafi e de seu principesco patrocínio, tinha prestígio suficiente, conforme observava Sterling, de convocar a imprensa e anunciar numa entrevista coletiva que recebera dos soviéticos “pesados mísseis de longo alcance”, capazes de penetrarem “bem fundo em território israelense”.


Vivendo hoje em Damasco, Ahmed Jibril continua ativo e em dezembro de 2010 se encontrou com o iraniano Ali Baqeri, secretário-adjunto do Supremo Conselho de Segurança iraniano, que em visita à Síria exortou o chefe da FPLP a fortalecer a “resistência” no Oriente Médio. Jibril, por sua vez, fez um agradecimento público ao Irã pelo apoio à causa palestina, segundo a Press TV, rede iraniana de notícias.


Armas nucleares para os palestinos, diz Kadafi


Em abril de 1986, depois de um punhado de anos aterrorizando a Europa com atentados a bomba e sequestros de aviões, Kadafi enfim recebe o troco dos Estados Unidos. Trípoli é bombardeada e a Organização das Nações Unidas (ONU) impõe sanções econômicas ao país. Passada uma década de “suposto” ostracismo, o ditador sanguinário aceita pagar as indenizações às famílias das vítimas no atentado ao boeing da Pan Am - que explodiu quando sobrevoava a cidade escocesa de Lockerbie, matando 270 pessoas de 21 nacionalidades (dezembro de 1988) – e anuncia que desistiu do terrorismo e de seu programa de armas nucleares.


Em 2003, o Ocidente acolhe um Kadafi “arrependido” e carimba o nada consta em sua ficha criminal. Entretanto, o coronel líbio que afirma praticar um “socialismo islâmico” jamais desistiu de falar o que pensa em suas viagens pelas capitais europeias. Em 2010, em Roma, Kadafi propôs o islamismo como religião de toda a Europa. A declaração feita em um país majoritariamente católico foi considerada provocativa e ofensiva ao Papa. “As palavras de Kadafi mostram seu perigoso projeto de islamização para a Europa”, afirmou o parlamentar europeu Mario Borghezio ao jornal “Il Messaggero” (30.8.2010).


Um ano antes, em Londres, o coronel líbio tinha afirmado aos jornalistas britânicos que os palestinos deveriam ter o direito de possuir armas nucleares, assim como o Egito, a Síria e a Arábia Saudita. As declarações foram feitas durante uma entrevista em que Kadafi foi cobrado pela participação da Líbia no atentado de Lockerbie e sobre as alegadas atividades terroristas do país, centradas em suas embaixadas em todo o mundo (Palestina tem direito a bomba!, matéria veiculada no site “área militar”, de Portugal ). Em agosto de 2009, com o apoio da Inglaterra, Kadafi consegue que a Escócia liberte o líbio condenado à prisão perpétua pela explosão do boeing da Pan Am. O autor do atentado segue para Trípoli onde é recebido com honras de herói.


Ditador líbio propõe um terrorismo justificável


Um mês depois da libertação do terrorista, o ditador que governa a Líbia há mais de 40 anos, faz sua primeira visita à América Latina para participar da Cúpula de líderes da África e países do continente. No encontro com Hugo Chávez, na Venezuela, assina uma declaração sugerindo a realização de uma conferência global para redefinir o conceito de terrorismo. Os dois disseram rejeitar “as tentativas de vincular a luta legítima do povo pela liberdade e autodeterminação” ao terrorismo (Hugo Chávez e Kadafi propõem nova definição para o terrorismo no mundo - Correio do Brasil, em 29.9.2009).


Um comportamento público leviano beirando ao deboche, considerando que países como os Estados Unidos e Israel estão na linha de fogo dos atentados das organizações terroristas palestinas, justamente os grupos radicais armados que ambos os políticos pretendem redimir. Uma atitude, porém, que faz sentido, levando-se em conta que em 2008, mesmo dando por “definitivamente arquivado” o conflito entre a Líbia e os Estados Unidos, Kadafi não se furtou em declarar que seu país descartava qualquer amizade com os norte-americanos. “Tudo o que queremos é que nos deixem em paz”, avisava em tom teatral o chefão líbio que foi eleito, em 2009, a personalidade africana do ano por mais de 200 ONGs da África.


Resultado que decerto não contaria com o beneplácito do prêmio Nobel da Paz, Andrei Sakharov (1921-1989). O físico russo que recebeu o Nobel em 1975 pela sua luta em defesa dos direitos humanos na antiga União Soviética, considerava o terrorismo, em todas as suas manifestações, a mais degradada forma de linguagem. Dizia ele: “Não importa o quanto sejam elevados os objetivos pregados pelos terroristas, suas atividades são sempre criminosas, sempre destrutivas, lançando a humanidade de volta a uma era de ilegalidade e caos, contradizendo os objetivos de paz e progresso. Espero que os povos de todo o mundo compreendam a natureza mortífera do terrorismo, quaisquer que sejam seus objetivos e lhes neguem qualquer espécie de apoio, mesmo o mais passivo, circundando-os com um muro de condenação.” (Washington Post, em 1980).


O terror por trás da Guerra Santa


Os tumultos nos países muçulmanos que já provocaram a queda do governante da Tunísia, Zine al-Abidine Ben Ali, em 14 de janeiro, e mudanças nos rumos da política egípcia dominada pelo regime de Hosni Mubarak, levaram o aiatolá Ahmad Khatami, do Irã, a comparar os conflitos do mundo árabe à revolução iraniana que em 1970 derrubou a monarquia no Irã e passou o poder para os aiatolás. ”Um Oriente Médio Islâmico está tomando forma, emergindo com base no Islã e na democracia religiosa”, comemorou em seu sermão semanal (O Globo de 29.01.2011).


Motivada pela ebulição dos acontecimentos, a facção iraquiana da Al-Qaeda (Islamic State of Iraq – ISI) também se pronunciou, convocando os manifestantes egípcios anti-Mubarak a promoverem uma guerra santa, estabelecendo no país um Estado baseado em leis islâmicas. A mensagem divulgada na Internet afirma que a missão da guerra santa é defender os fracos e oprimidos no Egito e na região da faixa de Gaza. “Cada muçulmano que foi afetado pela opressão do tirano do Egito e de seus patrões de Washington e Tel Aviv deve reagir”, diz o texto (Agência Lusa, de 09.02.2011).


Por sua vez, o nosso amigo Kadafi, mantendo-se fiel ao que sempre advogou, desde o tempo em que era conhecido como “o papai rico do terrorismo”, culpou Israel pelos protestos violentos no Egito. Atribuindo tudo a uma conspiração de Israel – “O que acontece hoje no Egito é obra dos serviços secretos de Israel” - Kadafi afirmou ao jornal Libya al-Youm que “é errado ficar culpando Mubarak, pois ele é um homem pobre, não tem dinheiro nem para comprar roupas novas e a quem ajudou muitas vezes”. Fontes internacionais estimam em 40 a 60 bilhões de dólares a fortuna pessoal de Mubarak e seus familiares.


E as conseqüências desse clima de animosidade e de incitamento ao ódio já começam a aflorar: na noite de 31 de janeiro, a sinagoga de El Hamma, perto da cidade de Gabes, no sul da Tunísia, foi incendiada por desconhecidos. O representante da comunidade judaica de Djerba, Trabelsi Pérez, disse por telefone que os rolos da Torá foram queimados. Ele ainda contou que na semana anterior, vários carros tinham sido destruídos no bairro judeu de Houmt-Souk, a capital da ilha de Djerba, e que a pequena comunidade judaica, de 1.600 membros, estava com muito medo. (Diário de Notícias de Portugal, em 01.02.2011).

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A prática da democracia inocente

por Sheila Sacks

"Uma das vantagens deste mundo é que podemos odiar e ser odiados sem sequer nos conhecermos." (Alessandro Manzoni, poeta italiano do século 19)
publicado no "Observatório da Imprensa

Os vários comentários feitos pelo ex-presidente Lula no decorrer de seus dois mandatos sobre a ação da imprensa proporcionaram uma farta e prodigiosa munição aos articulistas e editorialistas de jornais influentes, mestres consagrados na exímia arte da esgrima linguística. A palavra escrita tem um poder de fogo que os profissionais do vernáculo, cientes dessa prerrogativa, buscam aperfeiçoar em diários e suados exercícios de arquitetura mental. Protegidos por estandes de vidro e armados com um teclado de laptop, eles têm a seu favor uma arena majestosa e ensolarada para a prática do tiro ao alvo. Afinal, a democracia é um campo aberto que favorece a exposição pública de pensamentos e opiniões e, por conseguinte, as réplicas e tréplicas de variados matizes.

Nas vésperas do pleito presidencial de 2010, uma reportagem de Lucas Abreu Maia publicada no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida pelo Observatório da Imprensa, em 21/9, revelava o grau de irritação de instituições representativas como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e a Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão), diante das declarações do então presidente Lula sobre o papel da imprensa. Sob o título "Entidades reagem a ataques de Lula", a matéria colocava na mesa a bazófia dita em tom magoado por um presidente empenhado em uma campanha de tudo ou nada, e emocionalmente arisco em suas colocações, resultado talvez do confronto diário com uma mídia beligerante em seu poder magnificente.

A gramática do óbvio


Desde a época de líder sindical, nos idos da década de 1970, Lula deu mostras de se sentir mais em casa e desbragadamente à vontade exorcizando os demônios em praça pública e em mangas de camisa. A tal da compostura que um cargo presidencial costuma exigir de seus ocupantes jamais inibiu o ex-presidente de soltar a voz em concorridos comícios eleitorais e soletrar o óbvio que habita no inconsciente coletivo. "Lula presidente surpreenderá a nação, pois adotará outra gramática do poder", escreveu o amigo e coordenador inicial do Programa Fome Zero, o frade dominicano, escritor e militante dos movimentos de Direitos Humanos Frei Betto, logo após a confirmação da vitória de Lula nas eleições de 2002.

Oito anos depois, em uma inauguração em Brasília com representantes da comunidade científica, Lula creditou o sucesso de seu governo à coragem de ter feito "o óbvio". Anteriormente, em um evento no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o ex-presidente já havia sublinhado que "o óbvio é a única coisa que um governante tem que fazer". Uma deixa providencial para os caçadores de bordões sempre atentos e ávidos em desossar uma presa linguística de fácil digestão. Imediatamente, o Estadão pôs em campo o eficiente Rolf Kuntz para ministrar lições de "óbvio", convenientemente traduzido como sinônimo de bom senso, qualidade esta que, segundo o jornalista, faltou a Lula em muitas de suas realizações políticas. "Se o óbvio é o sensato, Lula fez o oposto do óbvio em parte de sua gestão" ("Lula e a política do óbvio", 29/12/2010).

Sem papas na língua

Ressuscitando os palanques e os comícios a céu aberto de sua militância sindicalista, Lula introduziu um novo estilo de impor sua presença na mídia, menos como primeiro mandatário e muito mais como porta-voz dos brasileiros.

Essa disposição de encarnar o protótipo do cidadão comum na correlação de alguns de seus pontos mais sensíveis, como o trabalho, a família e a paixão pelo futebol, alçou o ex-presidente a um inquestionável e extraordinário patamar de liderança e popularidade pessoais, criando-se um fenômeno surpreendente e, de certa forma, perturbador, aferido imediatamente pela sensível ótica da mídia e de outros setores elitistas do país, dadas as inevitáveis implicações que um possível culto à personalidade tende a introduzir em uma sociedade democrática.

Desabafos do tipo "Vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem um partido político" ou "Nós somos a opinião pública e nós mesmos nos formamos", expelidos de maneira atabalhoada em exacerbados comícios eleitorais durante a campanha da candidata do PT, Dilma Rousseff, foram prontamente revidados de forma coesa e emparelhada, no melhor estilo de artilharia pesada, visando à neutralização das declarações do então presidente.

Em editorial, O Globo deduziu das palavras de Lula um provável plano de cerceamento da liberdade da imprensa e "um entendimento autoritário da função dos meios de comunicação". Valendo-se de palavras afetadas e de sentenças pedantes de difícil compreensão, o jornal creditou os desabafos pessoais de Lula a uma espécie de complô da "vulgata ideológica dos intelectuais orgânicos do lulopetismo" e à "percepção lulista" de considerar a imprensa "um instrumento de manipulação da sociedade". No mesmo editorial ("Lula e a visão autoritária da imprensa", 21/9/2010), o ex-presidente foi apontado como déspota ("como se tomado pelo espírito do Rei Sol, um Luís 14 tropicalizado"), desequilibrado ("o presidente foi jogando às favas o equilíbrio"), insensato ("Lula radicaliza na insensatez") e burro ("tosca engenharia de raciocínio").

Já na reportagem do Estadão, o ex-presidente foi taxado de intolerante pelo presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, que viu na atitude de Lula um ato "contra a liberdade de imprensa" e "um desserviço à Constituição e ao Brasil". Declarações essas que receberam considerável reforço, alguns dias depois, na entrevista do mesmo Cavalcanti veiculada pela Folha de S.Paulo ("Presidente da OAB condena ataques à imprensa", 25/9/2010). Avaliando o "clima de acirramento" pré-eleitoral da campanha, o presidente da OAB tocou no ponto nevrálgico da questão, responsável por todo o arsenal bélico arremessado sobre Lula. Disse ele: "Homens e pessoas não devem ter a mesma força que as instituições." Pensamento compartilhado pela Abert, que conclamou "as entidades representativas da liberdade de imprensa a ficarem sempre atentas". Indo mais fundo na reação conjugada da imprensa, a Anaj detectou em Lula um lamentável e preocupante desconhecimento em relação ao papel da imprensa nas sociedades democráticas.

Um "culto despropositado"

Passados alguns meses dessa contenda de viés mercadológico, a imprensa retornou ao tema, dias após a posse de Dilma Rousseff, desta vez utilizando-se do aguerrido esgrimista linguístico Demétrio Magnoli. Tendo como pretexto a análise dos discursos proferidos pela nova presidente, o articulista se sentiu a cavaleiro para desacatar o dirigente que se despedia, a quem chamou de "chefe de facção", pouco merecedor da "louvação desmedida" de Dilma. Repetindo o argumento-padrão adotado pelas empresas de comunicação – "Democracia é o regime das instituições, não dos líderes" –, Magnoli afunilou o conceito desse regime político, reduzindo-o a um embate maniqueista e interesseiro entre dois polos antagônicos: instituições e empresas, que seriam o lado bom da história, versus líderes populares, o aspecto negativo e de risco. Uma metáfora ardilosa, já que a democracia não exclui a presença carismática de autoridades políticas legalmente constituídas.

Desmerecer autênticas qualidades positivas, tais como a simplicidade, simpatia e o discurso caloroso – para citar alguns atributos pessoais que parecem acompanhar o ex-presidente –, pela possibilidade de as mesmas favorecerem "o culto despropositado" a um dirigente ou político na vida pública, é um ponto de vista que chega a ser ofensivo ao eleitor brasileiro que avança no caminho de sua maturidade política. A democracia não é um sistema frágil que possa ruir por conta de um presidente sem papas na língua que falou o que devia e o que não devia em discursos desaforados no decorrer de uma campanha eleitoral. A afirmação de que "o culto a Lula é uma ferida na alma da democracia" ("Dilma, interrompida", 06/01/2011, no Globo e Estadão) soa como artificial e forçada, já que a admiração por um político não se configura, no significado exemplar do termo, em adoração, veneração ou "culto".

Poder econômico e imprensa

Mas qual seria de fato o papel da imprensa nas sociedades democráticas do século 21? Retornando ao editorial de O Globo, a resposta do jornal a essa questão brigaria com "a visão maniqueista lulopetista da imprensa" para a qual a mídia precisa estar subordinada ao Estado. "É inconcebível para esses (lulopetistas) que a imprensa profissional – que precisa ser rentável para se manter independente, e o mais distante possível de verbas administradas pelos poderosos do momento – cumpra uma função pública, e disto têm consciência profissionais e acionistas das empresas de comunicação", assinalava o editorial.

Para o jornalista e sociólogo espanhol Ignacio Ramonet, autor do livro "A Tirania da Comunicação" (1999), com o avanço da globalização as grandes empresas de mídia juntaram todas as formas de comunicação em um mesmo saco, da cultura de massa à publicidade e informação. Um exemplo perceptível é a mudança ocorrida nos suplementos literários dos jornais, hoje travestidos em desembaraçados balcões de venda das editoras e livrarias, tornando difícil o leitor distinguir o que é processo de persuasão, marketing ou utilidade cultural.

Constituindo-se em grandes grupos que englobam a imprensa, rádio e TV (com suas linguagens e mensagens, antes distintas, agora misturadas e mercantilizadas), essas megaempresas acabam exercendo pressão sobre os governos no sentido de que não sejam cerceadas ou limitadas em seus negócios. Ramonet afirma que a mídia no Ocidente sobrepujou o poder do Estado, representado pelo Executivo, Legislativo e Judiciário, ficando abaixo apenas do poder econômico. Lembra ainda que, há algumas décadas, os meios de comunicação representaram no contexto democrático um recurso dos cidadãos contra os abusos desses três poderes, daí serem mencionados como um quarto poder.

Diretor da edição espanhola do jornal "Le Monde Diplomatique", Ramonet, de 67 anos, observa também que, à medida que a globalização se acelerou, a imprensa perdeu a sua função de reagir e resistir, de se impor como um "contrapoder", de ser, enfim, "a voz dos sem-voz". De acordo com o sociólogo, hoje a mídia seria de fato o segundo poder pela sua ação e influência, funcionando como um aparato ideológico da globalização. "O mais difícil de perceber não é a informação distorcida, mas a informação oculta", alerta. "Na atual fase de globalização assiste-se a um confronto brutal entre o mercado e o Estado, entre o setor privado e os serviços públicos, dando a impressão de que grupos econômicos planetários ou conglomerados de comunicação de dimensão continental são mais importantes, pelo peso de seus negócios, do que os governos e Estados."

Discursando na cidade de Barcelona, em agosto de 2010, depois de receber o Prêmio Antonio Asensio de Jornalismo, Ignacio Ramonet surpreendeu a plateia ao afirmar que o jornalismo atravessa uma "grave crise de identidade". Ao sentenciar que a imprensa escrita vive um dos momentos mais difíceis, Ramonet desmentiu aqueles que proclamam que "a informação circula mais livre, mais abundante e mais transparente do que nunca". Ao contrário do que muitos pensam, disse, "a massa de informação oculta supera o imaginável em muitos temas".

Deslizamentos na região serrana

Nem bem 2011 se iniciou e já se pôs em marcha o processo de desestruturação daquilo que muitos entendem como o "mito" Lula. Na recente tragédia na região serrana do Rio de Janeiro – um dos dez maiores deslizamentos do mundo nos últimos 111 anos, pela avaliação da ONU – achou-se imediatamente um culpado na figura do governo federal (gestão Lula), que somente liberou 39% dos R$ 425 milhões previstos para 2010 para prevenção de desastres, sendo que a região serrana nada recebeu ("Verba para prevenção fica no papel", O Globo, 13/01/2011). No final da matéria fica-se sabendo que foram destinados R$ 377 milhões ao Rio de Janeiro pelo Programa de Resposta aos Desastres e Reconstrução, o segundo maior volume de recursos federais, ficando apenas atrás de Pernambuco (R$ 380 milhões).

Porém, o que faltou dizer em meio a tantos números é que um presidente da República não tem a função de monitorar as mais de 5 mil prefeituras brasileiras em seus variados projetos, inclusive de contenção de encostas, nos procedimentos técnicos adequados para se habilitarem a pleitear verbas federais necessárias à execução das obras. Por incapacidade e falta de conhecimento, muitas prefeituras perdem a oportunidade de manter profícuas e permanentes parcerias técnicas com o governo federal e somente após alguma tragédia climática, sob o regime de calamidade pública, se lançam ao encalço das verbas emergenciais para remediar o irremediável.

Em outra reportagem, também em tom acusatório, a administração Lula é culpabilizada pelo "inchaço" de funcionários públicos na esfera federal ("No governo Lula, mais 82 mil servidores" – O Globo, 16/01/2011). Segundo os números apresentados, "pelo menos 82.749 funcionários civis foram incorporados à máquina do governo federal nos últimos oito anos". Dito isso e lendo um pouco mais, topa-se com os seguintes dados: "Os funcionários civis do Executivo na ativa passaram de 485.741 em dezembro de 2002 para 568.490 em novembro de 2010 (...) Em números absolutos, a maioria das contratações foi feita na área de educação: 49.286. Isso decorre da criação de universidades públicas e escolas técnicas." Enfim, dos 82,7 mil novos servidores contratados quase 50 mil foram professores e pessoal auxiliar. Um percentual que faz sentido, em se tratando de um país que vem sendo estimulado por todos os setores da sociedade a investir maciçamente em educação e treinamento.