/ Sheila Sacks /
O Brasil amazônico apresentou a maior taxa de perda florestal do planeta na última década atingindo 2,8 milhões de hectares (28 mil km²), somente no ano de 2024. A informação foi divulgada no balanço anual GameChangers 2025, da organização Insight Crime, de jornalismo investigativo, em dezembro do ano passado, tendo como fonte a plataforma Global Forest Watch , de monitoramento das florestas mundiais. No total, o desmatamento nas regiões da bacia amazônica em 2024 chegou a mais de 4,7 milhões de hectares (47 mil km²), área maior que países como a Suíça e a Dinamarca.
Com foco na América
Latina e Caribe, o relatório assinado por Maria Fernanda Ramírez e Beatriz
Vicent Fernández, especialistas em
estudos e análises sobre economias ilegais nas fronteiras, aponta a
extração ilegal de ouro entre os crimes ambientais que mais cresceram nos
países amazônicos em 2025.
As pesquisadoras
assinalam que a mineração não autorizada disparou no Brasil, Peru e Venezuela, e
também ao longo do rio Puruê, na fronteira entre a Colômbia e o Brasil, incentivada
pelos altos preços do metal no mercado internacional. Entre 2015 e o final de
2025 “o preço da onça de ouro (31,1 gramas) subiu de US$ 1.060 para US$ 4.030,
representando um aumento de 280%” (‘El imparable auge de los delitos
ambientales en la Amazonía’, em 30/12/2025).
Garimpo ilegal e grupos criminosos
Atualmente existem mais
de quatro mil locais de mineração ilegal por toda a Amazônia afetando
principalmente áreas protegidas e territórios indígenas que também sofrem com a
grilagem de terras, cultivo de cocaína, extração de madeira e desmatamento para
a agricultura. Os dados são da ONG Amazon Conservation que trabalha com
ambientalistas do Brasil, Bolívia e Peru.
Entre 2018 e 2024, o garimpo
ilegal causou a perda de mais de 2 milhões de hectares de floresta ao longo da
bacia amazônica, área equivalente ao
estado do Sergipe, lembrando que o uso do mercúrio para separar o ouro dos
sedimentos é fator de contaminação do solo e da água das comunidades. Altamente
tóxico, o mercúrio é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como
uma das dez principais substâncias químicas que representam grande preocupação
para a saúde pública.
De acordo com Ramírez e
Fernández, grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV
(Comando Vermelho) têm se estabelecido nas regiões de fronteiras abrangendo
Brasil, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador e Venezuela para lucrarem com crimes
ambientais. “É comum que as redes
criminosas usem carregamentos de madeira para transportar cocaína, compartilhem
rotas de tráfico e usem o lucro do narcotráfico para abrir garimpos ilegais,
construir estradas clandestinas e negociar terras”, afirmam. “Além disso, o CV
cruzou a fronteira e se estabeleceu no Peru, promovendo o cultivo de folha de
coca e a produção de pasta de coca nos departamentos de Loreto e Ucayali, onde
a área cultivada aumentou drasticamente nos últimos cinco anos.”
A Bolívia, o Peru e a
Colômbia também figuram entre os dez países com o maior desmatamento no mundo, segundo
o gráfico apresentado pelo Insight Crime, onde o Brasil encabeça a lista. Em novembro passado, dias antes da COP 30, a
Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Belém,
o ministério do Meio Ambiente convocou a imprensa e anunciou uma redução na
taxa de desmatamento na Amazônia brasileira em relação ao mesmo período de
2024. (‘Em 2025, desmatamento tem redução de 11,08% na Amazônia e 11,49% no
Cerrado, em 30/10/2025).
Porém, as autoras do
relatório criticam a declaração final da Conferência que “não inseriu um
roteiro preciso para reduzir o desmatamento e combater os fatores causadores —
incluindo o crime organizado”. Segundo a
Global Witness, uma organização investigativa internacional, 1.018 defensores
da terra e do meio ambiente foram assassinados em países da Amazônia, entre
2012 e 2024, com o Brasil e a Colômbia respondendo por 90% dos casos.
Operações policiais
Apesar de o governo
brasileiro ter intensificado ações policiais contra os garimpos ilegais,
principalmente em territórios indígenas, e contar com o suporte jurídico da resolução
129 emitida pelo Ministério de Minas e Energia (23/2/2023) de combate à lavagem
de dinheiro, a mineração ilegal é o crime mais disseminado e prejudicial nas
regiões das fronteiras da Amazônia.
Reportagem do Greenpeace
Internacional (8/4/2025), com base em análises de dados de satélites de 2023 e
2024, observa que o endurecimento das operações policiais no Brasil resultou em
uma diminuição da mineração ilegal nas terras Yanomami (7%), Munduruku (57%) e
Kayapó (31%). Em contrapartida, na reserva indígena de Sararé, na região de
Mato Grosso fronteiriça à Bolívia, a mineração ilegal cresceu 93%, revelando um
deslocamento da extração ilícita do metal. Nos quatro territórios, o total de
floresta destruída no período atingiu 4.219 hectares, “uma área superior ao
Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e equivalente a quase 6 mil
campos de futebol”.
Os ambientalistas do Greenpeace
reforçam que o comércio mundial de ouro ilegal oriundo do Brasil é um fator de
ameaça global aos povos indígenas, à floresta amazônica, ao clima e à biodiversidade.
No relatório “Ouro Tóxico” (abril/2025), a organização assinala discrepâncias
em relação aos dados relacionados ao comércio internacional do metal. Em 2022,
a Suíça importou 67% a mais de ouro do que o Brasil declarou ter exportado. Em
2023, a diferença foi de 62%, totalizando quase 19 toneladas de ouro de origem
duvidosa nesses dois anos.
O documento de 35
páginas destaca que a floresta amazônica se estende por nove países (Brasil,
Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Equador, Guiana, Suriname e Guiana
Francesa), abriga mais de 45.000 espécies de flora e fauna, 40 milhões de
pessoas, cerca de três milhões de indígenas de 410 povos, bem como quilombolas
e outros grupos tradicionais. Assinala que a Amazônia é um ecossistema único e
essencial para a estabilização do clima global, funcionando como um vasto
sumidouro de carbono, absorvendo gases de efeito estufa e regulando os padrões
climáticos globais.
Segundo a consultoria
Mining Technology, com sede em Nova York, o Brasil produz cerca de 70 toneladas
do metal por ano sendo o décimo maior produtor mundial. Contudo, estima-se que
um terço desse total é de procedência ilícita. Em fevereiro, com o objetivo de
suprir omissões legislativas em relação à exploração de minérios, o ministro
Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu prazo de dois anos para que
o Congresso aprove uma lei que regularize a participação dos indígenas na
mineração legal no país.
A liminar atendeu originalmente
a uma ação protocolada pela comunidade indígena dos Cinta-Larga que foi
autorizada pelo ministro, em caráter provisório e cumprindo determinadas
normas, a realizar atividades de mineração em suas terras, no sudoeste da
Amazônia (entre Rondônia e Mato Grosso), área que apresenta um longo histórico
de conflitos e massacres decorrentes de invasões de garimpeiros.
Nota: Com a eclosão da
guerra USA/Israel x Irã, a cotação do ouro subiu para US$ 5.266 a onça, informa
The Guardian, em sua edição digital (3/3/2026).



