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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Em Portugal, cidade medieval terá museu judaico

Sinais hebraicos na região datam de mais de 5 séculos

por Sheila Sacks

Catalogada como uma das doze “aldeias históricas” de Portugal, a cidade de Trancoso, no centro-norte de Portugal, surpreende os visitantes pela imponência de suas muralhas e pela beleza de seus monumentos, igrejas e castelos medievais. Foi nessas paragens que, em 1282, Isabel de Aragão, então com 12 anos (canonizada 400 anos depois como Santa Isabel), entra na Igreja de São Bartolomeu para se casar com D.Dinis, rei de Portugal, que lhe dá o povoado como dote.

Situado a uma mesma distância de Lisboa e de Madri (em torno de 350 quilômetros dessas capitais), o município de Trancoso, no distrito da Guarda, subregião da Beira Interior, abriga 11 mil moradores e um patrimônio histórico e arquitetônico que engloba um antigo bairro judeu, provavelmente estabelecido no século 15 por judeus fugitivos da Espanha, após o édito de expulsão assinado em 1492 pelos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela.

Nesse centro histórico rodeado por altas muralhas e um majestoso portão medieval – a antiga Porta d’El Rei em homenagem ao rei D.Dinis – está sendo construído pela municipalidade um museu judaico. Denominado “Centro de Interpretação Judaica Isaac Cardoso”, em memória ao médico e filósofo judeu nascido em Trancoso, em 1603, o prédio terá uma sala de exposições, espaço museológico dedicado ao passado da presença judaica na região, sala de documentação bibliográfica e um pequeno templo de orações para visitantes judeus (Beth Mayim Haim – Casa das Águas Vivas). De acordo com o presidente da Câmara Municipal de Trancoso, Julio Sarmento, está sendo investido 1,2 milhão de euros na construção do museu, com uma coparticipação comunitária de 85%.

Rabinos visitam Trancoso

Em dezembro de 2011 estiveram em Trancoso os rabinos Shlomo Riskin, presidente do “Centro para o Entendimento e Cooperação Judaico-Cristão de Israel” (Center for Jewish- Christian Understanding and Cooperation - CJCUC), e Elisha Salas, da organização “Shavei Israel” (que faz a conversão dos chamados “judeus perdidos”, aqueles descendentes dos judeus forçados a abandonar a religião), que atua em Portugal. Em visita ao local onde será implantado o museu, os religiosos mostraram-se entusiasmados com a solidariedade e o apoio do município de Trancoso e agradeceram à população, seus técnicos e os autores do projeto, arquitetos Gonçalo Byrne e José Laranjeira. “Este centro judaico dedicado a Issac Cardoso, uma destacada figura judaica portuguesa, e a sinagoga que vai comportar são uma expressão fantástica de que a memória dos perseguidos pela Inquisição e seus descendentes está viva, mais de 500 anos após a conversão forçada, a expulsão e a resistência, mesmo que em segredo, que preservou a cultura e a fé”, disse o rabino Riskin.

Júlio Sarmento adiantou que serão produzidos vários conteúdos multimídia e que haverá referências a judeus naturais e residentes em Trancoso que foram vítimas da Inquisição. A historiadora Carla Santos, que investiga a presença judaica na região, sustenta que os judeus já viviam em território português desde os primórdios da Idade Média e que essa vivência prolongou-se por um período de, pelo menos, mil anos, “balizados arqueológica e legalmente entre os anos de 482 e 1496”, data do édito de expulsão de Portugal da minoria religiosa. “Em consequência da expulsão dos judeus e mouros, alguns membros da comunidade judaica converteram-se ao cristianismo, ainda que, apenas, aparentemente. Naturalmente os mais abastados saíram do país constituindo parte da diáspora de origem sefardita”, explica.

Herança judaica

Outra estudiosa do tema, Antonieta Garcia, docente da Universidade da Beira Interior, afirma que é preciso aprofundar as investigações sobre as figuras judaicas que marcaram a região, mas cuja influência permanece desconhecida. “Por exemplo, onde houve uma forte presença judaica, o comércio teve um desenvolvimento espantoso. É o caso de Trancoso”, exemplifica. A historiadora aponta ainda como uma herança de prática religiosa e costumes judaicos, o forte significado da celebração da Páscoa. A proximidade com a Espanha é outro diferencial: “O que esta região tinha de diferente era a proximidade da fronteira. Desde que nasceu a Inquisição até o seu final, no século 19, circulavam muitos judeus neste local, entre Portugal e Espanha e por entre diferenças religiosas”, explica.

Atualmente várias excursões são realizadas tendo Trancoso e outras cidades do distrito da Guarda (antiga região da Beira Alta) como foco. Pesquisadores e turistas judeus de várias nacionalidades têm visitado essas localidades interessados em conhecer um passado medieval envolto em segredos e mistérios por força do poder do Santo Ofício que perdurou por três séculos em Portugal. A Rua da Alegria, no centro histórico de Trancoso, junto à muralha, seria uma das principais vias do antigo bairro judeu, cujos moradores, em 1496, antes do édito da expulsão, representavam a quinta parte de toda a população da cidade.

Um dos lugares mais característicos do antigo bairro é a “Casa do Gato Preto” ou a “Casa do Rabino”, que muitos acreditam ter sido uma sinagoga. O imóvel de arquitetura medieval apresenta desenhos de raízes hebraicas esculpidos na fachada principal. Investigadores interpretam como sendo as portas de Jerusalém, um pelicano ou pomba, quatro semblantes e o leão de Judá. Em um outro imóvel, descobriu-se uma mezuzá no interior da parede, artefato usado até hoje pelos judeus para santificar as suas casas. Colocado na parte superior do batente direito da porta de entrada, a mezuzá (do hebraico umbral) contém um pequeno rolo de pergaminho com duas passagens bíblicas e se constitui em uma proteção divina ao lar.

Sinais e caracteres gravados nas paredes de pedra e nos umbrais das portas da entrada das casas denominados cruciformes (cruzes de variados formatos) também revelam que aquelas habitações pertenciam aos chamados cristãos-novos, judeus que aparentemente professavam a fé cristã. Olhados com desconfiança pelos católicos tradicionais, que acreditavam que muitos desses conversos continuavam a praticar em segredo ritos judaicos, os cristãos-novos desenhavam cruzes nas portas de suas moradias com o intuito de serem poupados pela Inquisição, introduzida em Portugal em 1536.

Judeus ilustres

A cidade de Troncoso também é conhecida como o berço natal de Gonçalo Anes, o Bandarra (1500-1556), um misterioso trovador, provavelmente de ascendência judaica, que possuidor de um bom conhecimento das Escrituras, profetizou sobre o futuro do reino de Portugal. Seus versos messiânicos tiveram grande aceitação entre os cristãos-novos e serviu de inspiração e muitos escritores como Fernando Pessoa, o maior poeta português da era contemporânea. Acusado de judaísmo pela Inquisição, Bandarra – que era sapateiro de profissão – teve as suas trovas incluídas no catálogo de livros proibidos pela Igreja e foi condenado pelo tribunal do Santo Ofício a nunca mais interpretar a Bíblia e escrever sobre assuntos de teologia.

Sobre Bandarra, Fernando Pessoa escreveu: Sonhava, anônimo e disperso/ O Império por Deus mesmo visto,/Confuso como o Universo/E plebeu como Jesus Cristo./Não foi nem santo nem herói/Mas Deus sagrou com Seu sinal/ Este, cujo coração foi / Não português, mas Portugal (do livro “Mensagem” – uma coletânea de poemas sobre grandes personagens portugueses).

Já Isaac Cardoso, que dará seu nome ao Centro de Interpretação Judaica, embora nascido em Trancoso, ainda criança mudou-se com a família para a Espanha. Estudou em Salamanca e lecionou filosofia e depois medicina em Valladolid. Foi médico da corte real até que, em 1648, mudou-se para Veneza, onde assumiu publicamente a sua condição de judeu e adotou o nome de Issac (o de batismo era Fernando). De 1653 até o final de seus dias, em 1683, voltou a exercer a medicina em Verona, simultaneamente escrevendo dezenas de livros, entre eles, “Del Origen Del Mundo”, “Philosophia Libera” e “Las Excelências de los hebreus” (dedicado ao judeu português Jacob de Pinto), em que cita Bandarra como “o profeta de Trancoso”.

Encontro com Bento 16

No início de 2011, meses antes da visita a Trancoso, o rabino Shlomo Riskin se reuniu com o Papa Bento 16, no Vaticano, para falar sobre o trabalho desenvolvido pelo Centro para o Entendimento e Cooperação Judaico-Cristão (CJCUC), entidade a qual preside e que promove o diálogo teológico e de fé com os cristãos que vivem em Israel. Membro do Grão-Rabinato de Israel, o rabino Riskin disse ao Papa que tem procurado aliviar a pobreza nessa comunidade religiosa. Também está empenhado em permanecer solidário com os irmãos e irmãs cristãos em Israel e advogar por eles. “Pela primeira vez na história dos judeus, nós, como maioria, devemos tratar das minorias religiosas, e é obrigação do judaísmo aderir ao preceito bíblico que diz: Amarás o estrangeiro que vive em tua terra.” De acordo com o rabino Riskin, o Papa se mostrou satisfeito e respondeu: “Temos de trabalhar juntos”.

Uma das ações propostas pelo CJCUC foi a de criar programas para instruir os rabinos de Israel e da diáspora no diálogo entre judeus e cristãos visando melhorar a compreensão e cooperação em questões religiosas e morais. “Eu tive a oportunidade de contar isso brevemente a Sua Santidade”, disse Riskin. “Falamos das atuais oportunidades de diálogo para que os cristãos que viajam a Israel possam conhecer mais as raízes judaicas de sua fé.”

Entusiasmado com o que viu em Trancoso, o rabino Riskin considera que o museu judaico vai se constituir em uma referência não só para Portugal, mas também e sobretudo para o mundo, valorizando a tradição e o passado da presença judaica em termos culturais, sociais, históricos e patrimoniais. “Funcionará como um centro de aglutinação para judeus e cripto-judeus que retornaram ou pretendem retornar à identidade judaica, sempre numa atitude de cultura, conhecimento, estudo e fé”, reafirmou Riskin que desde 1983 dirige a comunidade de Efrat, cidade que fica entre Belém e Hebron.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Japão não é aqui

Por Sheila Sacks
publicado no site "Observatório da Imprensa"
http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed677_o_japao_nao_e_aqui


“Jornalismo é uma questão de ênfase” (Paulo Francis)

Quatro dias antes de se completar um ano do mais grave fenômeno climático em número de vítimas que atingiu o país, o jornal O Globo,se antecipando à data, encartou um suplemento especial sobre o tema em sua edição dominical [8/1], enfatizando o imenso esforço que a população atingida pela tragédia vem fazendo para retomar a rotina. A chuva torrencial sobre a região serrana do Rio de Janeiro, que matou 918 pessoas e deixou 215 desaparecidos, ocorrida na madrugada de 12 de janeiro de 2011 nas cidades turísticas de Petrópolis, Teresópolis, Friburgo e arredores, voltou a ter destaque na mídia por conta das chuvas que desde os primeiros dias de 2012 castigam o interior do estado, desta vez em municípios próximos da divisa com Minas Gerais.

A reportagem (“A vida de Brayan”, em alusão ao menino nascido em uma maternidade de Teresópolis “enquanto o mundo desabava”) focaliza ações individuais de ajuda aos desabrigados; os mutirões que têm reunido moradores e instituições empenhados na construção de novas moradias; a recuperação da lavoura e a criação de uma cooperativa; a presença do poder público nas ações iniciais de emergência e socorro às vítimas, na transferência de verbas para a reconstrução dos acessos destruídos pelas enchentes e na ativação de programas de ajuda financeira às famílias que perderam suas casas (aluguel social), sem faltar o relato das investigações em curso, a cargo da Controladoria Geral da União (GCU), sobre possíveis irregularidades na utilização desses recursos por parte de funcionários das prefeituras, donos de construtoras e firmas de serviço.

Destruição e falência de empresas

Ainda que o encarte seja crítico em relação às ações governamentais (“Enxurrada de promessas só foi cumprida parcialmente”), houve espaço razoável na reportagem para que representantes do poder público falassem sobre o trabalho desenvolvido na região no decorrer de 2011. A insistência da mídia em minimizar as iniciativas levadas a efeito pelo governo (limpeza das áreas atingidas, remoção de barreiras, reconstrução de acessos, dragagem de rios, melhoria no sistema de alarme de cheias, mapeamento de áreas de risco geológico, instalação de sirenes e pluviômetros em áreas vulneráveis etc) porque sua abrangência e resultados não atenderam à totalidade da imensa demanda que tais tragédias costumam requerer, denota um tipo de ênfase tendencial, quase institucionalizada, por parte da maioria dos meios de comunicação.

Desta vez, o enquadramento noticioso se fixou em aspectos comparativos entre o Brasil e o Japão – país assolado, em março de 2011, por uma tríplice tragédia: terremoto, tsunami e vazamento nuclear – no que concernem à grandeza do estrago e os resultados obtidos em todo o processo de socorro às vítimas, atendimento às populações e recuperação física das localidades atingidas pelas catástrofes. Editoriais, colunistas e comentaristas de notícia repercutiram e ampliaram o enfoque das críticas, ancorados na afirmação simplista e padronizada de que “ muito pouco ou nada foi feito”, permitindo-se ainda desconsiderar os obstáculos geológicos, jurídicos e burocráticos que têm atrasado os trabalhos de reconstrução.

“Foram quatro dias de horror, nos quais os japoneses enfrentaram um terremoto, seguido de um tsunami e finalizado com explosões na usina nuclear de Fukushima Daiichi – com um saldo de cidades inteiras destruídas, 20 mil mortos ou desaparecidos, 70 mil refugiados nucleares, 800 mil casas total ou parcialmente destruídas, 400 mil pessoas deslocadas de seus lares, além de destruição de toda a infraestrutura de uma vasta área e a falência de milhares de empresas” (coluna de Ricardo Setti – Veja online de 14/12/11). O preço da reconstrução está sendo estimado pelo governo japonês em 235,8 bilhões de dólares.

A política é acalmar a população

Já na região serrana do Rio, segundo os parlamentares que integraram a CPI das chuvas na Assembleia Legislativa (Alerj), encerrada em setembro de 2011, a tempestade, além de provocar mais de mil vítimas, entre mortos e desaparecidos, afetou meio milhão de pessoas, deixando 35 mil desalojados, mais de 7 mil desabrigados, um prejuízo de 4 bilhões de reais, além da estimativa de recuperação das cidades em dois anos (“Um ano da tragédia na região serrana” – O Fluminense, em 11/1/12). Relatório da Comissão Especial de Medidas Preventivas e Saneadoras de Catástrofes Climáticas da Câmara dos Deputados revela que as tragédias naturais no estado do Rio de Janeiro foram agravadas pelo incremento da construção civil e a reocupação de áreas de risco. “Os deputados afirmam que, na serra fluminense, 85% das áreas atingidas por deslizamentos em 2011 foram desmatadas ou alteradas pela ação do homem” (“Mesmo com histórico de tragédias, Brasil não investe em prevenção” – O Globo, em 11/1/12). Um cenário, portanto, de causas e soluções diferentes daquelas propostas no Japão onde os moradores deverão retornar as suas moradias reconstruídas, excetuando aqueles que residiam nos arredores da usina nuclear de Fukushima.

Neste aspecto, aliás – o de realocamento de famílias –, o governo do Japão tem sido bastante questionado pelos habitantes das cidades próximas à usina por não estar adotando uma política séria de proteção à saúde. Protestos têm sido organizados em Tóquio contra a posição do governo de concentrar esforços em “aliviar” a preocupação pública prometendo reduzir a exposição radioativa em áreas afetadas ao invés de realizar remoções. Pesquisa realizada na região demonstrou que um terço dos cidadãos de Fukushima desejaria mudar, mas não o fazem pelos problemas e custos que isso acarretaria. Na manifestação antinuclear realizada em Tóquio para lembrar os seis meses do vazamento da usina, manifestantes exibiram faixas e cartazes que demonstravam a sua revolta: “A radioatividade não tem fronteiras” e “Do Japão ao mundo: Perdão!” (“Protestos antinucleares marcam 6 meses de crise em Fukushima” – agência EFE, em 11/9/11).

A ativista Aileen Mioko Smith, que lidera a organização não governamental Green Action Japan, critica as medidas do governo japonês: “Nossas reuniões com funcionários para pedir mais rapidez em programas de evacuação dos grupos de alto risco são respondidas com promessas de limpeza do lixo radioativo. Isto é totalmente irresponsável.” Também a representante da ONG Mães de Fukushima contra a Radiação, Ayako Ooga, mostra-se decepcionada com a posição do governo: “Não é a recuperação que imaginávamos. A política é acalmar a população, mas o que queremos são ações honestas do governo.” Para a Green Action Japan, os novos padrões adotados pelas autoridades com relação ao nível aceito de radiação não protegem a população mais vulnerável, como crianças, mulheres grávidas e idosos (“Muitos lutam para salvar a infância em Fukushima” – Inter Press Service, em 9/11/11).

US$ 30 milhões destinados à indústria baleeira

Em outra cidade, Ishinomaki, no noroeste do Japão, milhares de desabrigados passam o rigoroso inverno em casas improvisadas. Um vídeo produzido pela agência France Presse, em dezembro de 2011 (“Cidades japonesas continuam destruídas 9 meses após tsunami”), apresenta um panorama de devastação, com entulho, mato, escombros e casas arrasadas. Muitas famílias, com a chegada da neve, estão vivendo nas ruínas do que foram as suas casas. O governo admite que a reconstrução vai demorar e que ainda não há previsão de entrega de moradias permanentes. Os atingidos pela tragédia também se mostram preocupados com o fim da concessão do seguro-desemprego que termina em fevereiro de 2012. Em outra cidade, Onagawa, os desabrigados vivem em contêineres de navio, uma alternativa para os que ficaram sem teto.

Além das críticas à condução da política de realocamento e reparação de danos decorrentes do vazamento nuclear, o governo japonês também está sendo acusado de desviar 30 milhões de dólares dos fundos destinados à recuperação das áreas atingidas pelo terremoto e tsunami para subvencionar o programa anual de caça às baleias. A ONG Greenpeace denunciou que esses recursos estão sendo gastos para proteger a frota baleeira que já está no Ártico (“Japão promove caça de baleias com verba de pós-tsunami, diz ONG” – Folha de S.Paulo, em 7/12/11). As autoridades japonesas inicialmente justificaram o uso da verba como uma forma de ajudar na recuperação das comunidades costeiras que trabalham nesse tipo de atividade, depois recuaram e disseram que os recursos vieram dos impostos.

Apesar da pesca da baleia para fins comerciais ser proibida desde 1986 pela Comissão Baleeira Internacional (CBI), anualmente em torno de mil baleias são mortas pelos pesqueiros japoneses, sob protestos de países como a Austrália, Holanda e Estados Unidos e de várias organizações ambientalistas. Uma delas, a Sea Shepherd, que com seus barcos há sete anos tenta evitar as atividades da frota baleeira no oceano Antártico, lembra que a prioridade no uso de verbas é para atender os atingidos pela catástrofe. O fundador da ONG, Paul Watson, insiste nesse ponto. “De qualquer maneira, a pergunta deve ser feita: quando as pessoas estão desabrigadas por causa do desastre, por que 30 milhões de dólares são destinados à indústria baleeira para defender a sua operação de caça ilegal no Santuário Antártico das Baleias?”

Ações para reduzir riscos e mortes

Mas, voltando à região serrana, a intervenção nas áreas atingidas não ficará limitada à limpeza e desobstrução das vias, a remoção de entulhos, consertos emergenciais e a retomada dos serviços interrompidos. Isso já foi feito em grande parte das localidades. Será preciso realizar obras de razoável tecnologia de engenharia para tornar as cidades seguras do ponto de vista habitacional. O realocamento de centenas de famílias que residem em áreas de encostas e margens de rios muitas vezes esbarra na escassez de terrenos planos e seguros ofertáveis à compra pelo poder público ou mesmo passíveis de serem desapropriados para a construção de novas casas e bairros. Muitas vezes terrenos que parecem viáveis para a moradia acabam não recebendo o nada consta ambiental.

O governo do estado do Rio afirma que aplicou 49 milhões de reais em 2011 em várias frentes de trabalho na Região Serrana, principalmente as emergenciais e as voltadas para restaurar a normalidade dos acessos e serviços nas localidades. Por sua vez, a reconstrução de dezenas de pontes, grande parte delas pequenas, vão ser realizadas após estudos de viabilidade. As enxurradas mudaram as margens dos rios e a quantidade de água que passava debaixo das pontes. Setores ambientais do estado tiveram que analisar os projetos. Com o mapeamento de 170 pontos de alto risco (os temporais de janeiro de 2011 provocaram 777 deslizamentos em sete municípios da serra fluminense), o cálculo dos técnicos é de que será preciso 1 bilhão de reais para tornar as encostas seguras, além dos 147 milhões de reais que já estão sendo investidos em 30 pontos considerados prioritários. Outros 265 milhões de reais serão necessários para a realização de trabalhos de dragagem, canalização, construção de barragens e implantação de um parque fluvial (“Estado diz que precisa de mais R$ 1 bi para encostas”, O Globo, em 12/1/12). A disposição do governo também é de construir cinco mil casas para atender aqueles que perderam ou tiveram as suas moradias interditadas ou condenadas pela Defesa Civil. Atualmente, 7.372 famílias recebem ajuda do governo por meio do aluguel social no valor de R$ 500 mensais.

Em 2007, quando da primeira conferência sobre redução dos riscos de catástrofes organizada pela ONU, a crescente vulnerabilidade das cidades já preocupava. “A progressiva urbanização, conjugada com as alterações climáticas, criará novas situações de stress para os povoamentos urbanos, tornando milhões de pessoas ainda mais vulneráveis a catástrofes”, alertava o então subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários e coordenador de ajuda de emergência, John Holmes, chamando a atenção ainda para a necessidade de se implementar ações que pudessem evitar ou reduzir os riscos e as mortes.“Um planejamento eficaz, a elaboração de orçamentos corajosos e a aplicação de políticas que impeçam a fixação de seres humanos em zonas de perigo são indispensáveis. Temos de velar para que os hospitais, as escolas, os transportes e as redes de água consigam resistir aos riscos decorrentes de catástrofes.”

Avanço “em direção ao fim”

Em relação à região serrana, “a ocupação de Áreas de Proteção Permanente- APPs (áreas cobertas ou não por vegetação nativa, que têm como função preservar os recursos hídricos, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo de fauna e flora e proteger o solo) maximizou os impactos dos desarranjos do clima e sua variabilidade”, explica a coordenadora do Programa de Mudanças Climáticas e Resposta a Desastres da organização não-governamental Care Brasil, Leila Soraya Menezes. Ela alerta para o fato de que áreas de extremo risco de desastre estão ocupadas por comunidades inteiras, em geral comunidades em situação de extrema vulnerabilidade social. “O que aconteceu na serra fluminense mostra como a ocupação intensa de APPs protegidas pelo nosso Código Florestal, como dunas, mangues, encostas e topos de morro, beiras de rio e matas, que cumprem papel natural de redução de riscos, podem potencializar uma tragédia.” Relatório de Inspeção do Ministério do Meio Ambiente já havia revelado que as áreas mais atingidas foram justamente as APPs, onde as pessoas habitavam irregularmente áreas à beira ou muito próximas às margens dos cursos dos rios e áreas de encostas de morros com grande declividade e que esses moradores morreram atingidos por inundações e deslizamentos de terra” (“Mudanças climáticas –Sociedade de risco”, portal Ipea).

Em suma, em ambas as catástrofes houve equívocos na condução dos trabalhos a serem realizados que resultaram em omissões e erros de avaliação. A reconstrução de qualquer área submetida à fúria de um desastre natural, além de requerer custos estratosféricos, é um desafio que exige, após os primeiros dias de reação emergencial, um planejamento gerencial conjugado envolvendo várias estruturas e mecanismos governamentais simultaneamente, com propostas e ações alternativas já prevendo os possíveis cerceamentos jurídicos e ambientais que costumam interromper e atrasar os cronogramas de obras. Consciente dessa questão, a ONU promoveu em maio de 2011, em Genebra, juntamente com o Banco Mundial, a primeira conferência sobre reconstrução (World Reconstruction Conference). Presente ao encontro, a diretora do departamento de finanças, economia e desenvolvimento urbano do banco, Zoubida Allaoua, resumiu a essência dos debates: “Queremos aprender com o passado e chegar a um acordo sobre uma nova estrutura que agilize a reconstrução após uma catástrofe, aprovar normas comuns, melhorar a qualidade e aumentar a transparência.”

Metas que precisam ser implementadas com certa urgência. Neste início de ano, face aos desastres climáticos de 2011, o relógio do Juízo Final foi adiantado em um minuto, deslocando-se para 23h55m. De acordo com o Boletim dos Cientistas Atômicos, grupo que criou este mecanismo em 1947, além da disseminação das armas nucleares, o que pesou no avanço “em direção ao fim” foi a falta de empenho global no combate às mudanças climáticas que têm provocado desastres naturais de grande monta, com prejuízos bilionários e milhares de mortes, principalmente em países em desenvolvimento pouco capacitados para lidar com esses tipos de catástrofes.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O jornalismo entre o real e o aparente


por Sheila Sacks

“... a vida só termina para os mortos” (Roberto DaMatta, antropólogo)
publicado no site Observatório da Imprensa
http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed673_prisao_de_nem__o_jornalismo_entre_o_real_e_o_aparente

Na semana em que as forças de segurança do Rio de Janeiro anunciavam a ocupação da favela da Rocinha, na zona sul da cidade, fatos ainda pouco esclarecidos antecederam e se seguiram ao evento, ocorrido em um domingo, 13 de novembro de 2011. A megaoperação planejada há pelo menos um ano, segundo a subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, contou com efetivos das polícias Federal e Estadual, fuzileiros navais e blindados da Marinha, equipamentos sofisticados e agentes infiltrados que se instalaram nas favelas meses antes para mapearam os principais pontos utilizados pelos traficantes de drogas.

Apontado pela polícia como chefe do tráfico de drogas da favela da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, de 35 anos, tinha essa atribuição desde 2004 quando sucedeu o traficante Luciano Barbosa dos Santos, o “Lulu”, morto por policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais). Capturado três dias antes da invasão da Rocinha, escondido no porta-malas de um carro, quando tentava escapar do cerco policial, Nem chegou a oferecer R$ 1 milhão por sua liberdade. Três homens o acompanhavam no veículo, que foi parado por policiais militares em uma das saídas da favela por estar com a suspensão baixa. Ao revistar o carro, os PMs encontraram Nem. A Delegacia de Combate às Drogas do Rio fez a estimativa de que o comércio ilegal da Rocinha é um negócio que movimenta cerca de R$ 100 milhões anuais ou quase R$ 2 milhões por semana (“Nem com R$ 1 milhão” - Correio Braziliense, em 11.11.2011).

Maior favela do país, com população estimada em 120 mil moradores, a Rocinha (que agrega as favelas do Vidigal e da Chácara do Céu) também é considerada o mais importante entreposto de drogas da cidade principalmente em relação à venda de cocaína. Em entrevista ao jornalista Gil Alessi, meses antes de sua prisão, Nem revelou que tinha sob a sua responsabilidade 300 homens e que todos recebiam salário, inclusive décimo terceiro, e que em caso de prisão ou morte a família recebia pensão vitalícia. Ele também comandava a facção Amigos dos Amigos (ADA) da Rocinha, um grupo criminoso com ramificações em numerosas favelas cariocas (“Conversas com Antônio” – Carta Capital, em 04.12.2011).

Nem negociava rendição

Levado preso para a sede da Polícia Federal do Rio, o traficante prestou depoimento e disse que negociava há cerca de dois meses a sua rendição com a ONG (Organização Não Governamental) Grupo Cultural AfroReggae que vem atuando como mediadora de conflitos sociais em favelas que envolvem traficantes, viciados e os próprios moradores (“Traficante Nem diz que negociava sua rendição com o AfroReggae há dois meses.” “Bandido revela ainda que faturava R$ 1milhão por mês” - O Globo, em 12.11.2011).

Originária do grupo musical Banda AfroReggae, a ONG criada nos anos 1990 instalou suas primeiras oficinas de música e dança afro para os jovens da favela de Vigário Geral, na zona norte da cidade, e depois expandiu seu trabalho para outras comunidades pobres do Rio. Do objetivo inicial de resgatar, através da música e da arte, as crianças e adolescentes da influência dos traficantes, a instituição ampliou a sua área de atuação e em anos recentes tem trabalhado na ressocialização de presos e foragidos, contando com apoio jurídico de escritórios de advocacia. De acordo com matéria publicada em O Globo, em 29.11.2011, cinco fugitivos do sistema penitenciário voltaram à prisão depois de procurarem a ONG. Eles são acusados de assaltos, homicídios e tráfico de drogas (“Afro Reggae faz mediação e 5 bandidos se entregam”).

O coordenador executivo da AfroReggae, José Junior, confirmou que a entidade negociava a rendição de Nem e que ele manteve contato com o traficante até algumas horas antes de sua prisão pela Polícia Militar. A informação, postada pelo próprio José Junior na rede de microblogs Twitter, foi veiculada um dia depois do subchefe operacional da Polícia Civil do Rio, delegado Fernando Velloso, anunciar que havia uma negociação em curso com o advogado de Nem para a rendição do bandido. “Venho a público esclarecer que os policiais civis estavam em uma missão legítima e legal, que foi autorizada por mim”, afirmou Velloso, justificando a ação dos três policiais que tentaram evitar que o traficante preso fosse levado para a sede da Polícia Federal, como acabou acontecendo. Porém, segundo os policiais federais, o traficante não citou qualquer policial civil na negociação (“Coordenador diz que Nem negociava rendição com AfroReggae” – Jornal do Brasil online, em 12.11.2011).

Sambista executado com oito tiros

A prisão de Nem na madrugada de quinta-feira, 10 de novembro, foi seguida, horas depois, pelo seqüestro e assassinato de uma “mediadora de conflitos” do AfroReggae, levada de sua casa em Vigário Geral, na zona norte do Rio, e encontrada morta, com um tiro na cabeça, em um matagal no bairro Campos Elísios, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Tânia Cristina Moreira, 44 anos, trabalhava na ONG há sete anos e fazia parte de um grupo com cerca de 20 pessoas que atua junto a criminosos e traficantes de facções rivais no sentido de diminuir a violência e o confronto nas favelas.

Com um filho preso por envolvimento com o tráfico de drogas, a mediadora teve a casa – que fica a poucos metros da sede da ONG - invadida por três homens que a levaram em um Gol branco, de acordo com a mãe e uma amiga que estavam no local. Nenhum objeto foi roubado e os policiais da Divisão Anti-Sequestro (DAS) disseram acreditar na hipótese de vingança relacionada a algum dos casos em que a funcionária da ONG serviu como mediadora. Mas, a direção do AfroReggae negou que o assassinato tivesse algo a ver com o seu trabalho. Vizinhos contaram que veículos de policiais civis foram vistos nas imediações da casa de Tânia na noite do crime. (“Mediadora do AfroReggae é sequestrada e morta no Rio de Janeiro” – Estado de São Paulo, em 11.11.2011).

Dias depois desse assassinato, um outro crime com características de execução vem a público, desta vez ocupando as primeiras páginas dos jornais cariocas. A vítima, de 32 anos, é o músico e vocalista da banda “Samba Firme”, Carlos Eduardo Mendes de Jesus, o Dudu, filho do coreógrafo e dançarino Carlinhos de Jesus.

Assassinado com 8 tiros ao sair do “Boteko Carioca”, na zona oeste do Rio, local onde havia se apresentado com a banda, o músico foi atacado por dois homens em uma moto que fizeram os disparos e fugiram. Também nesse caso a polícia disse acreditar na hipótese de vingança, “pela ausência de subtração de pertences e pela ausência de anúncio” (“Polícia investiga se filho de Carlinhos de Jesus foi executado” – O Globo, em 21.11.2011). Um policial militar que teria se envolvido em uma discussão com integrantes do grupo, uma semana antes, seria o principal suspeito de ter assassinado o músico (“PM é o principal suspeito de matar filho de Carlinhos de Jesus, diz polícia” – JB online, em 22.11.2011).

Atentado à bomba

Observa-se que, assim como o AfroReggae está presente na Rocinha e em várias comunidades pobres através de suas oficinas de música e arte, o coreógrafo Carlinhos de Jesus também é padrinho de um grupo da comunidade da Rocinha, que atende 60 jovens de 13 a 26 anos. Eles recebem aulas de dança na academia do artista, no bairro de Botafogo, e aprendem todos os ritmos para se apresentarem em festas de debutantes e outro eventos (“Grupo de Valsa Noite de Encantos e Carlinhos de Jesus”- site Rocinha.org). Por sua vez, a banda de Dudu de Jesus tinha entre seus convidados o cantor e compositor Renato da Rocinha, nascido e criado naquela favela, e que foi durante muitos anos a voz dos “Acadêmicos da Rocinha”, a escola de samba da comunidade.

A criação de grupos musicais, de dança e de arte nas favelas como tentativa de afastar as crianças e os jovens do vício e da possibilidade de envolvimento com o ilícito e a marginalidade que, infelizmente, muitas vezes fazem parte do cotidiano desses adolescentes, tem tido o apoio e a participação de artistas de renome e de ativistas sociais. Em 2008, em reconhecimento ao trabalho desenvolvido nas áreas artística e social, Carlinhos de Jesus e o grupo cultural AfroReggae (José Junior) foram condecorados pela Assembléia Legislativa do Rio (ALERJ): o primeiro com o título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, e o segundo, com a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração da Casa. Em 2009, a revista Época incluiu José Junior na sua lista anual das 100 pessoas mais influentes do país.

Uma semana após o assassinato do músico, dois homens em uma moto lançaram um explosivo contra carros estacionados em uma via importante da Tijuca, bairro de classe média da zona norte. O atentado ocorreu na madrugada de domingo, 29 de novembro, a 200 metros do batalhão da Polícia Militar e destruiu cinco veículos. No dia seguinte, a polícia prendeu em Bangu, zona oeste da cidade, a 40 quilômetros do ocorrido, dois homens suspeitos de chefiar o tráfico no Morro do Andaraí, comunidade de 13 mil habitantes que fica nos arredores da Tijuca. De acordo com as investigações, os traficantes perderam R$ 6 mil reais mensais com a entrada dos policiais naquela favela, em 2010. (“Incêndio a carros:suspeitos presos” – O Dia, em 01.12.2011).

Rocinha cresceu 23%

A migração dos bandidos das favelas da zona sul da cidade para outras mais distantes do foco prioritário da polícia é um fato que tem sido denunciado por moradores das comunidades das zonas norte e oeste, da Baixada Fluminense e da área metropolitana, que abrange municípios como Niterói e São Gonçalo. do outro lado da Baía de Guanabara. O desembarque de criminosos, traficantes e armamentos em favelas distantes 50 a 100 quilômetros do centro do Rio, muitas delas filiais menores das grandes facções criminosas dominantes no cenário carioca, tem elevado ainda mais os altos índices de criminalidade nessas regiões que contam com um efetivo policial insuficiente observando-se a extensão territorial dessas localidades (“Moradores:dois caminhões-baú levaram traficantes da Rocinha para Belford Roxo” – JB online, em 21.22.2011).

Por outro lado, a distância não tem sido obstáculo para as ações de intimidação e violência dos criminosos que comumente se valem da mobilidade das motos e de mototaxistas ligados ao ilícito para a prática de assaltos e assassinatos em qualquer ponto do estado. Desde a ocupação policial da Rocinha, em novembro, aumentaram os assaltos no local e moradores estão reclamando que cresceu a sensação de insegurança. “O clima é de muito medo, segundo relato de uma moradora, empregada da zona sul do Rio de Janeiro. Moradores estão fechados a sete chaves e apavorados dentro de suas casas.” (“Casas estão sendo assaltadas na Rocinha” -JB online, em 13.12.2011). Uma conhecida rede de eletrodomésticos que instalou uma filial na favela, em outubro, teve suas dependências invadidas por assaltantes. O imóvel de três andares foi inaugurado após um investimento de R$ 1 milhão (“Loja de eletrodomésticos é assaltada na Rocinha” – O Dia online, em 13.12.2011).

É importante lembrar que a cidade do Rio de Janeiro, de acordo com os mais recentes dados do Instituto Pereira Passos, órgão da prefeitura, tem 152 complexos de favela e 467 favelas isoladas (em 2009, o mesmo instituto somou 968 favelas), onde vivem perto de 1,1 milhão de pessoas, cerca de 18º da população carioca. Desse total de favelas, 28 estão ocupadas pela polícia que mantém 3,3 mil homens nesses locais. Há poucos meses, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um estudo onde mostra que algumas das maiores favelas do Rio, na última década, tiveram um aumento de população acima da média da cidade, que foi de 7,9. Somente a favela da Rocinha cresceu 23% (“População das favelas cresceu acima da média carioca” - Estado de São Paulo, em 01.07.2011).

Mundo do faz de conta

Três semanas após a prisão de Nem, um festejado líder comunitário da Rocinha, agraciado em 2004 pela ONG Sou da Paz pelos seus esforços no desarmamento na favela, é preso acusado de negociar armas para o traficante. William de Oliveira, 41 anos, que foi presidente da Associação de Moradores da Rocinha, tinha bom trânsito nas esferas política e social por sua popularidade entre os moradores - tornando-o uma cobiçada base eleitoral para os candidatos a cargos eletivos- e também pela sua proximidade com os traficantes, um detalhe recorrente “que costuma marcar a atuação de organizações sociais em favelas subjugadas pelo crime” (“O bom moço vendia fuzil” – Revista Veja, em 04.12.2011).

Funcionário da Câmara Municipal do Rio, William estava lotado no gabinete da vereadora Andréa Gouvêa Vieira, e ganhava como assessor parlamentar um salário de 5.300 reais. Um vídeo mostrando a negociação de um fuzil de fabricação russa para o traficante Nem, com a participação de William e do ex-vice-presidente da Associação de Moradores da Rocinha, Alexandre Leopoldino da Silva, o Peninha, também exercendo cargo na administração pública, colocou ambos na prisão, ao mesmo tempo em que foram sumariamente exonerados. De acordo com a polícia, o vídeo foi feito por uma moradora , em setembro, e entregue ao titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), Marcio Mendonça (“Vídeo com Nem leva líder comunitário à cadeia” –O Dia, em 03.12.2011).

Em artigo publicado em O Globo, o antropólogo Roberto DaMatta analisa as nuances e as inovações dos papéis sociais, sua falta de coerência institucional, e do mundo de faz de conta presente no comportamento de governantes e figuras públicas: “No teatro, mente-se quando se representa um papel, mas um ministro mentir, um presidente abusar de seu cargo ou um delegado mandar matar não ocorre num palco onde a peça se repete todo o dia e na qual os mortos (que fingem morrer) voltam a viver porque aquilo não é coisa de verdade, mas uma novela” (“Papéis e atores”, em 07.12.2011).

O traficante Nem, confinado desde 19 de novembro em um presídio federal, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul (assim como os três homens de sua escolta), tornou-se figurante de um obscuro “enredo” onde os “atores” dificilmente “morrem”, porque são titulares de papéis sociais “corporativos e outorgados através de uma investidura, ou obtidos por nomeação ou eleição competitiva e liberal”.

Sobra então, para os que estão atrás das grades e para os demais figurantes da bandidagem sob a mira da polícia, a consciência do peso da “vida real”, integralmente assumida no seu dia-a-dia pelos viventes comuns que, ao contrário do que ocorre no teatro, morrem de verdade. Muitos prematuramente, vitimados pela violência e pelo “poder que brutaliza”.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Troca de prisioneiros: quando um é muito


por Sheila Sacks
publicado no "Observatório da Imprensa"
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_troca_de_prisioneiros__quando_um_e_muito


“Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito.” (William Shakespeare)

Em maio deste ano, por ocasião das homenagens às vítimas holandesas da II Grande Guerra, pediu-se aos moradores de Amsterdã para sinalizarem com cartazes as casas onde residiam os judeus que foram deportados para os campos de concentração nazistas. Para isso, os atuais proprietários dessas casas receberam um cartaz com o seguinte texto: “Esta é uma das 21.662 casas em que viveram judeus antes de serem mortos durante a Segunda Guerra Mundial.”

Com o apoio do Arquivo Nacional da Holanda, procurou-se dar uma conotação mais emotiva e educativa ao evento, lembrando às gerações futuras os acontecimentos trágicos ocorridos há pouco mais de 70 anos. Em um artigo para a Radio Nederland Internacional (RNW), a jornalista Myrtille van Bommel constatou a boa receptividade dos moradores à ideia e lembrou que, em 1941, viviam cerca de 80 mil judeus em Amsterdã – 10% do total da população da cidade. “A maioria dos judeus de Amsterdã, 61.700 homens, mulheres e crianças, não sobreviveu à guerra. Morreram em campos de extermínio” (“Amsterdã sinaliza casas de judeus deportados”, em 2/5/2011).

Por outro lado, também como parte da programação em homenagem às vítimas, o canal NCRV da televisão pública holandesa exibiu um documentário sobre os chamados “soldados negros” (Zwarte Soldaten), oficiais holandeses da Gestapo ligados ao extinto partido pró-germânico NSB (Netherlands Socialistic Union) que atuaram nas forças de repressão durante a ocupação alemã. Dias antes, dada a expectativa gerada pela veiculação da fita, a imprensa holandesa adiantou alguns extratos do filme que, ao contrário do que seria o esperado, mostrou que “as feridas da II Guerra Mundial seguem abertas na Holanda”. No documentário, os seis entrevistados – o mais novo, com 85 anos – não demonstravam nenhum sinal de arrependimento ou remorso em relação à matança dos judeus e se negaram a pedir perdão a seus compatriotas por terem colaborado com os ocupantes nazistas.

“Ausência de arrependimento”

Na reportagem publicada pelo jornal espanhol El Mundo (“Ex SS holandeses hablan en público: “Hitler hizo lo correcto!”, em 27/4/2011), o diretor do documentário, Joost Seelen, apontou a idade avançada dos entrevistados como justificativa para as “surpreendentes” declarações dos antigos membros das SS holandesas, colhidas em 2009 através de depoimentos individuais que duraram até três horas. “Eles nada tinham a perder, conscientes que estavam que lhes restavam poucos anos de vida”, ponderou o diretor. Contando originalmente com o testemunho de oito participantes, dois deles vieram a falecer antes da exibição do filme.

Em seus depoimentos, os entrevistados defenderam Hitler e a estratégia da “solução final” dos campos de extermínio. “Eles se ocuparam de manter a pureza da raça e não sinto nenhum remorso até os dias de hoje”, afirmou Kris Kol, um dos antigos SS. “Hitler conseguiu fazer uma boa limpeza”, reforçou o seu colega Klaas Overmars, recentemente falecido. Segundo a reportagem, o que sobressaiu nos polêmicos testemunhos foi um indisfarçável “ódio aos judeus”, expresso de forma direta e sem rodeios. “Hitler fez o correto,” reafirmou Kol, demonstrando orgulho de seu passado.

Cinco meses depois da exibição do documentário holandês, quando da troca do soldado israelense Gilad Shalit por 447 prisioneiros palestinos condenados por terrorismo (de um total de 1027 a serem libertados), novamente a questão da “ausência de arrependimento” veio à tona no artigo da jornalista Frimet Roth, que teve a filha de 15 anos morta em agosto de 2001 no ataque à pizzaria Sbarro, em Jerusalém. Publicada pelo jornal israelense Haaretz (16/10), a matéria apelava ao primeiro ministro Benjamim Netanyahu para que não libertasse a jordaniana Ahlam Tamimi, envolvida no ataque, face à frieza demonstrada pela terrorista todas às vezes que fora instada a falar sobre o ocorrido. Tamimi, então com 20 anos, foi a encarregada pelo Hamas da missão de transportar, de Ramalah, na Cisjordânia, até Jerusalém, os 10 quilos de dinamite usados pelo homem-bomba que explodiu a pizzaria matando 15 pessoas e ferindo mais de 100.

Ações de Israel influenciam antissemitismo

Em um vídeo apresentado pelo canal 2 de notícias da TV israelense, Tamimi reafirmou o que já havia dito em 2006 sobre a sua participação no ataque. Respondendo ao repórter da emissora, ela disse que não se sentia mal ou com pena das vítimas e se houvesse uma nova oportunidade ela faria novamente. “Não me arrependo do que fiz. Por que tenho que me arrepender? Não fiz nada de errado”, disse. Condenada a 16 prisões perpétuas, Tamimi foi libertada em 18 de outubro pelo governo israelense e retornou a Jordânia. Em Amã, em entrevista à rede de TV Al Jazira, ela expressou lealdade ao braço militar do Hamas: “Deus tem escolhido seus soldados nesta terra, e eles são os soldados das brigadas de Al-Qassam (braço armado do grupo que controla a Faixa de Gaza)”, declarou à rede. Tamimi também revelou, em uma das entrevistas, que a escolha de Jerusalém para alvo do ataque levou em conta o grande número de judeus ortodoxos residentes na cidade, os quais são considerados pelo Hamas os seus principais inimigos pela ferrenha posição de defesa do território bíblico de Israel.

A declaração em si não traz nenhuma novidade mas intensifica o inquietante quadro político instalado, há décadas, no Oriente Médio, a partir da visível ascensão da sharia (leis islâmicas) e dos partidos islâmicos nos futuros governos dos países árabes sacudidos por rebeliões populares. A correspondente de O Globo, Graça Magalhães-Ruether, destacando a vitória dos islamistas na Tunísia, berço da chamada Primavera Árabe, chama a atenção para dois outros países, a Líbia e o Egito, ambos a caminho da islamização. “Na Líbia, o Conselho Nacional de Transição (CNT) já informou que a sharia (lei islâmica) será a fonte de inspiração legal do novo governo e no Egito a Irmandade Muçulmana desponta como força de peso no cenário pós-HosniMubarak.” Para o cientista político tunisiano Hammadi el-Aouni, da Universidade livre de Berlim, “há risco de se sair de uma ditadura para entrar em outra, a islâmica” (“Entre a sharia e a democracia”, 26/10/2011).

Em recente pesquisa sobre antissemitismo realizada pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA) e divulgada pela Delegação das Associações Israelitas da Argentina (Daia), 25% dos argentinos consultados creditaram as ocorrências de violência contra judeus na diáspora a um sentimento anti-Israel. Mas a esmagadora maioria, cerca de 75% dos entrevistados, respondeu que o sentimento antijudaico (antissemitismo) ainda é o principal motor das manifestações contra os judeus que vivem fora do Oriente Médio. O sociólogo argentino Patrício Brodsky lembra que, em 2009, uma pesquisa semelhante realizada na Europa pela Anti-Defamation League - ADL (Liga Antidifamação) mostrou que uma percentagem maior de europeus, cerca de 39%, via correspondência entre os atos contra os judeus e o sentimento anti-Israel, sendo que 17% admitiam que medidas políticas adotadas pelo estado de Israel influenciavam sua opinião sobre os judeus. Outro dado importante dessa pesquisa analisado por Brodsky é a visão da atual crise mundial e a percepção de possíveis culpados. Segundo 48% dos argentinos entrevistados, os judeus têm algum grau de responsabilidade nesse quadro econômico, percentagem superior aos 31% dos europeus que em 2009 tinham a mesma opinião. A Argentina tem a maior comunidade judaica da América Latina, com 300 mil membros.

Caminho certo

A pesquisa também abordou o Holocausto, um tema presente e recorrente nas consultas que incluem o antissemitismo na sua forma mais disseminada na diáspora: a de se constituir em um dispositivo sutil de preconceito e de embutir um mecanismo reticente de exclusão social. Ainda que o genocídio judaico seja uma das mais infames tragédias levadas a efeito pela mente humana conjugada com o poder do Estado – um marco aterrador na história do século 20 –, 49% dos argentinos e 44% dos europeus concordaram com a seguinte frase: “Os judeus falam demasiado sobre o que lhes aconteceu no Holocausto” (“El antisemitismo en Argentina”, publicado no site de notícias Aurora, em 18.10.2011).

Diante de situações controversas e de pesquisas que demonstram que o antissemitismo persiste, entende-se a preocupação dos líderes israelenses de preservar uma única vida, a do soldado Shalit, a despeito do desespero dos pais e parentes das vítimas dos ataques terroristas, inconformados com a decisão do governo de libertar mais de mil condenados por assassinatos. Sobre os pretensos dividendos políticos ganhos por Netanyahu nessa negociação com o Hamas, o inverso parece ser o mais lógico: mesmo sendo Israel uma das poucas democracias da região e o genocídio praticado pelo regime nazista apresentar uma inquestionável relevância histórica, o sentimento antijudaico não tem dado mostras de arrefecer.

E em tempo de desafios, com um planeta alcançando o incrível patamar de 7 bilhões de habitantes, o Estado de Israel e as comunidades judaicas instaladas em dezenas de países, que somam pouco mais de 13 milhões de pessoas, se rejubilaram pelo retorno do soldado israelense ao convívio de seus familiares. Para a maioria dos judeus, aplicou-se a máxima do Talmud (comentários e explicações das leis judaicas) que diz: “Quem salva uma vida é como se salvasse o mundo inteiro.” Para os 300 ex-prisioneiros palestinos que retornaram a Gaza, a jordaniana Ahlam Tamimi e a multidão que gritava “queremos um novo Shalit”, a troca estabeleceu a certeza de que o Hamas está no caminho certo, “sugerindo que o resultado prático da captura do soldado israelense pode incentivar a repetição da iniciativa para obter a liberdade de mais prisioneiros” (“Shalit tem feriado judaico em casa”, Correio Braziliense, 20/10/2011).

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A face judaica-templária da Maçonaria

por Sheila Sacks

Publicado em "Maçonaria.Net"
 http://www.maconaria.net/a-face-judaica-templaria-da-maconaria/

Na obra “Antigas Letras”, o Grão-Mestre Leon Zeldis, 33º da Maçonaria de Israel ( The Grand Lodge of the State of Israel), chama a atenção para o fato de que os textos religiosos hebraicos onde aparecem os nomes divinos de D’us não são destruídos quando envelhecem, mas enterrados ou guardados em um lugar especial da sinagoga conhecido como guenizá. Diz a tradição judaica que qualquer fragmento de um texto sagrado que contiver o nome do Criador deve ser enterrado de acordo com determinados rituais. Entretanto, com o passar dos séculos e em função das perseguições sofridas pelos judeus, muitos documentos hebraicos foram apenas escondidos, daí o nome de guenizá (esconderijo), que corresponde em hebraico ao termo lignoz e significa guardar, manter secreto.

Provavelmente, quando os primeiros templários chegaram à Terra Santa comandados por Hugues de Payen, em 1118, quase duas décadas após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados (1099), o objetivo real de sua presença não ficaria apenas circunscrito a dar proteção aos peregrinos que se deslocassem a Jerusalém. O grupo de nove nobres franceses oriundos da região de Provença que se estabeleceu na ala leste do palácio do rei Balduíno II, patriarca de Jerusalém, sob o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, passou quase dez anos promovendo escavações na área da Mesquista de Al-Aqsa, erguida sobre o local onde existiram dois grandes templos judaicos: o primeiro Templo, construído em 960 antes da Era Comum pelo rei Salomão e destruído por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.E.C., e o segundo Templo, reconstruído cinquenta anos depois no mesmo local e que resistiu até 70 da E.C. quando foi arrasado pelas legiões romanas.

No livro “A Chave de Hiram”, os autores maçons Christopher Knight e Robert Lomas destacam que os clérigos que acompanhavam os cavaleiros templários eram “todos capazes de ler e escrever em muitas línguas e eram famosos por suas habilidades em criar e decifrar códigos”. E transcrevem um comentário do historiador francês Gaetan Delaforge sobre os reais motivos dos templários: “A verdadeira tarefa dos nove cavaleiros era realizar uma pesquisa na área para recuperar certas relíquias e manuscritos que continham a essência das tradições secretas do Judaísmo e do Antigo Egito, algumas das quais provavelmente datavam do tempo de Moisés” (The Templar Tradition in the Age of Aquarius).

Uma Ordem acima de reis e rainhas

Legitimada pelo papa Honório II, em 31 de janeiro de 1128, a Ordem do Templo ganhou estatuto, regras e um comandante: o Grão-Mestre Hugh de Payens. Havia mais de 600 artigos no estatuto dos templários, segundo o historiador inglês Piers Paul Read, autor de “Os Templários”, sendo que a regra 325 relacionava-se com o uso de luvas de couro, que era consentido apenas aos capelães e aos pedreiros construtores de santuários e fortalezas. Mas, “em nenhum lugar havia qualquer menção a peregrinos ou a sua proteção, aparentemente ignorando a única razão para a criação dessa Ordem” (A Chave de Hiram). O papa seguinte, Inocêncio II, através da bula “Omne datum optimum” (1139), estabelece privilégios que tornam a instituição independente de toda interferência de autoridades políticas e religiosas. Segundo a encíclica, os templários só deviam obediência ao Papa.

Durante os próximos 200 anos a Ordem do Templo cresce e se expande em poder e riqueza, recebendo doações em dinheiro e propriedades na Europa. De acordo com os investigadores históricos ingleses, Michael Baigent e Richard Leigh, que pesquisaram a herança templária no surgimento da maçonaria, “em meados do século 12, a Ordem do Templo já tinha começado a se estabelecer como a mais poderosa e rica instituição isolada em toda a Cristandade, com exceção do Papado, com frotas de navios, territórios extensos e ligações secretas com líderes sarracenos” (O Templo e a Loja). Esses mesmos autores e mais Henry Lincoln ainda afirmam que coube aos templários criar e estabelecer a moderna instituição bancária. “Através de empréstimos de vastas somas a monarcas necessitados, tornaram-se os banqueiros de todos os tronos da Europa” (O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).

Com a perda de Jerusalém para os muçulmanos em 1291, a Ordem do Templo se transfere para Chipre. A ilha tinha sido conquistada pelo rei Jayme I (Coração de Leão), da Inglaterra, em 1191, e vendida, anos depois, para os templários. Em 1312, a Ordem é oficialmente extinta por um decreto papal emitido por Clemente V, sem que um veredicto conclusivo de culpa tenha sido pronunciado. Através da bula "Vox in excelso" o Papa extingue a Ordem do Templo “proibindo estritamente qualquer um de conjeturar em entrar para a referida Ordem no futuro, ou de receber ou usar seu hábito, ou de agir como um templário” (Os Templários). Em bula subsequente, a "Ad Providam", todos os bens e propriedade dos templários são transferidos para a Ordem dos Hospitalários, uma instituição similar a dos templários, que também funcionava na Terra Santa.

Na França, por ordem do rei Filipe IV, o Belo, os templários são perseguidos, presos e torturados. A Inquisição também se alastra por toda a Europa. As acusações concentram-se em supostas heresias e rituais praticados pelos membros da Ordem. O seu Grão-Mestre, Jacques de Molay, é condenado a morrer na  fogueira, na Ile de la Cité, em 1314.

Estado templário preocupava a Igreja

Setecentos anos depois desses acontecimentos, dúvidas ainda persistem sobre a verdadeira natureza da Ordem e de seus cavaleiros. Seriam eles guardiões de um conhecimento secreto adquirido na Terra Santa em contato com outras culturas ou mesmo oriundo de documentos sobre as origens do Cristianismo descobertos nas escavações? Para Baigent e Leigh, o impacto de antigas formas de pensamento cristão, não Paulinas, podem ter influenciado as atividades da Ordem no seu projeto para a criação de um Estado Templário e na sua política de reconciliar o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. “Os templários não negociavam apenas dinheiro, mas pensamentos também. Através de seu contato com as culturas muçulmana e judaica começaram a atuar como introdutores de novas ideias, novas dimensões do conhecimento, novas ciências” (O Santo Graal...).

A pesquisadora da Biblioteca do Vaticano, Bárbara Frale, em artigo publicado no “L’Osservatore Romano” (21.08.2008), jornal oficial da Santa Sé, afirma que os documentos originais do processo contra os templários, encontrados no Arquivo Secreto do Vaticano, demonstram que foram infundadas as acusações de que os cavaleiros praticavam em segredo ritos pagãos e haviam abandonado a fé cristã. De acordo com a autora, os templários não eram hereges e o que se descobriu nas atas conservadas no Vaticano é que “a disciplina primitiva do Templo e o seu espírito autêntico se haviam corrompido com o passar do tempo, deixando a porta aberta para a difusão de maus costumes” (Revelações do Arquivo Secreto do Vaticano: templários não foram hereges,no portal 'Zenit').

Aí caberia a indagação: quais seriam os “maus costumes”, segundo a avaliação da pesquisadora, adquiridos pelos templários? No mesmo artigo, Frale reconhece que “ainda há verdadeiramente muito que investigar” e adianta que o estudo da espiritualidade desta antiga ordem religiosa dará à cultura contemporânea novos motivos de discussão.

Escócia: refúgio dos templários e berço dos maçons

Da extinção oficial da Ordem até a fundação da primeira grande Loja Maçônica em Londres (1717), os autores  do “Santo Graal e a Linhagem Sagrada” registram que os templários ingleses e franceses encontraram refúgio na Escócia (país que ignorou a bula papal), e muitos deles também se integraram a outras Ordens e sociedades secretas na Alemanha, Espanha e Portugal. Conta-se que em 1689, na batalha de Killiecrankie, na Escócia, um dos aliados do rei Jayme II da Inglaterra, John Claverhouse, Visconde de Dundee, estava usando uma antiga vestimenta da Ordem do Templo, de antes de 1307, quando foi morto na luta. A referência ao fato foi publicada no jornal da primeira Loja de Pesquisas Maçônicas do Reino Unido (Quatuor Coronati), em 1920: “Lorde Dundee perdeu sua vida como líder do Partido Escocês Stuart. Segundo o testemunho do abade Calmet, ele teria sido Grão-Mestre da Ordem do Templo na Escócia” (O Santo Graal...).

Mas, muito tempo antes, nos meados do século 16, um manuscrito já comprovava a existência dos chamados franco-maçons e a sua subordinação à monarquia dos Stuart, principalmente ao soberano escocês Jaime I (1566-1625), que também foi rei da Inglaterra e da Irlanda. O historiador maçônico, Robert F. Gould, em “The History of Freemasonry”, transcreve o que era exigido dos franco-maçons à época: “... que sejais homens leais ao rei, sem nenhuma traição ou falsidade e que não tolerais qualquer traição ou falsidade, tratando de combatê-las ou notificá-las ao rei”. Segundo definição de um ilustre estudioso maçom José Maria Ragon (1781-1866), o termo franco-maçom somente se aplicaria àqueles que efetivamente cooperassem na obra de instrução e regeneração da humanidade. Os demais membros de obreiros construtores e integrantes da corporação de pedreiros seriam denominados simplesmente maçons.

Observa-se que a Grande Loja da Inglaterra, criada para centralizar a franco-maçonaria inglesa e que se constituiu no marco oficial da imagem pública da Maçonaria, foi instituída em 24 de junho de 1717, data emblemática para os templários e que lembra o nascimento de João, o Batista. A devoção a essa figura histórica é um dos elos que ligam os franco-maçons aos templários. Segundo o “Dicionário de Maçonaria”, de Joaquim Gervásio de Figueiredo 33.º, João Batista é o patrono da Maçonaria e todas as lojas maçônicas simbólicas são intituladas Lojas de São João.

A tradição judaica dos essênios

Preso e decapitado em 32 da Era Comum por ordem de Herodes Antipas, governador da Galiléia, Yochanan ben Ezequiel (nome hebraico de João Batista) provavelmente era membro da seita dos essênios, uma comunidade judaica que existiu durante os dois últimos séculos da era do Segundo Templo (150 antes da E.C. a 70 da E.C.). Historiadores judeus do século 1, Flavio Josefo e Philo de Alexandria, registraram a presença desse grupo ascético, que praticava um judaísmo ultra-ortodoxo, com jejuns frequentes e banhos rituais diários, e que habitava o deserto da Judéia, entre Jericó e Ein Guedi.

A partir de 1947, e até 1956, com a descoberta dos pergaminhos nas cavernas de Qumran (os manuscritos do Mar Morto), a tese de que os essênios eram seus autores ganhou força entre estudiosos e peritos de várias nacionalidades. Segundo Leon Zeldis 33º, os iniciados da comunidade de Qumran, cujas idades variavam entre 25 e 50 anos, aprendiam a “amar a justiça e ter aversão à maldade”. Consideravam-se herdeiros dos reis sacerdotes, simbolizados por Salomão (do hebraico Shlomo, que deriva da palavra Shalom-paz) e Melquizedek (do hebraico Malki-Tzadik, rei justo), rei de Salem (a atual Jerusalém), à época de Abraão. Alguns de seus membros, como João, o Batista, faziam votos de nazareos - do hebraico “nazir” que corresponde a “separado” ou “consagrado”. Os autores do livro “A Chave de Hiram” acreditam que “a voz que clama no deserto” poderia ser a de João Batista “que viveu uma vida dura no deserto, de retidão qumraniana, comendo apenas os alimentos permitidos, usando um cinturão de couro e uma túnica de pelo de camelo”.

Na obra “Os Manuscritos do Mar Morto”, o professor e doutor em teologia Geza Vermes destaca que os membros da seita se consideravam “o verdadeiro Israel”, fiéis representantes das autênticas tradições religiosas. Os sacerdotes, chamados de “filhos de Zadok” (o sacerdote da Casa de David), se constituíam na autoridade máxima da comunidade. A hierarquia era rigorosa. Cada membro era inscrito na “ordem de seu grau”. O mais alto cargo recaía na pessoa do Guardião, conhecido também como “Mestre” (maskil, em hebraico). Eram também instruídos a reconhecer “um filho da Luz” de um “filho das Trevas”. Na lista de infrações e de suas penas correspondentes, o pecado mais grave que demandaria em imediata expulsão da congregação seria qualquer tipo de transgressão, por ato ou omissão, às diretrizes da Lei de Moisés.

Em um dos manuscritos – o Preceito do Messianismo – é especificado que somente a partir dos 30 anos os homens eram tidos como maduros, podendo participar das assembleias, de casos em tribunais e tomar assento nos altos escalões da seita. O neófito vindo de fora que se arrependia de seu “caminho de corrupção”, iniciava-se “no juramento da Aliança” no dia em que conversava com o Guardião, mas nenhum estatuto da seita deveria ser divulgado a ele. Na avaliação do professor Geza Vermes, o retrato que assoma da leitura dos manuscritos em relação às ideias e aos ideais religiosos dos essênios é uma observância fanática à Lei de Moisés. No campo político, os essênios eram frontalmente contra a dinastia de Herodes e o domínio dos romanos sobre a Terra Santa.

Os livros secretos de Moisés

Dizimada pelos romanos em 66-70 da E.C., a comunidade de Qumram pode ter enterrado sua história, seus segredos e sua tradição secreta ligada a Moisés em algum lugar do templo de Jerusalém, seguindo a prática judaica de não destruir documentos sagrados (a cidade de Jerusalém fica a 40 minutos de carro de Qumram). Na obra “A Chave do Hiram”, os autores aventam a hipótese desses manuscritos terem sido descobertos pelos templários, no século 12, em função das sigilosas escavações realizadas no local por mais de uma década. No livro “A Odisseia dos Essênios”, o historiador britânico Hugh Schonfield faz referência aos livros secretos que Moises teria dado a Josué para que ele os mantivesse ocultos “até os dias de arrependimento”.

No livro do escritor francê Michel Lamy - "Os Templários. Esses senhores de Mantos Brancos"(1997) -  é lembrado o interesse do abade Estevão Harding, amigo e mentor de Bernardo de Clairvaux (incentivador da criação da Ordem dos Templários e autor de suas regras), por textos hebraicos. O abade procurava a ajuda de rabinos nas suas traduções do hebraico dos livros do Velho Testamento. Para Lamy, esse intenso interesse por textos hebraicos demonstram a crença na existência de um tesouro oculto enterrado sob o monte do Templo e algum tipo de relação com o lugar que mais tarde se tornou a moradia dos templários. O historiador Piers Paul Read também destaca que uma das primeiras traduções encomendadas pelos templários na Terra Santa foi a do “Livro dos Juízes”, do Velho Testamento. “Havia uma íntima e inquestionável identificação dos cristãos da Palestina com os israelitas de antigamente” (Os Templários).

Erguido pelo rei Salomão para abrigar a “Arca da Aliança” – relicário das palavras divinas a Moisés no deserto - , o grande Templo de Jerusalém concentrava nesse local toda a sua santidade. Construído sobre o Monte Moriá, o aposento onde ficava a arca sagrada era o lugar mais recôndito do Templo, chamado de “o Sagrados dos Sagrados” (Kodesh há-Kodashim), recinto cuja santidade era tal que somente o grande sacerdote (Cohen Gadol, em hebraico) tinha permissão de lá entrar, uma única vez durante o ano, no Dia do Perdão - Yom Kipur (Revista Morashá).

A adoção pelos templários e maçons dessa simbologia estruturada nos mistérios e segredos que se iniciam com Abraão, tem seu ápice em Moisés, se perpetua com a construção do Primeiro Templo por Salomão e sofre transmutações generalizadas a partir dos primórdios da Era Comum (após a destruição da comunidade de Qumram), ainda permanece envolta em véus em sua nascente e tem se mostrado um desafio para a Igreja Católica. De igual forma, a imensa quantidade de publicações, teorias e suposições a respeito do tema ainda não produziu uma resposta diferente daquela que anima e justifica o trabalho da maioria dos pesquisadores: a da “busca pela verdade” .

Os guardiões da Aliança

Em “As Intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto”, o leitor acompanha a trajetória dos manuscritos, desde das primeiras descobertas no deserto da Judeia, em 1947, durante o mandato britânico na Palestina, até o início da década de 1990, quando o conteúdo de muitos documentos ainda não tinha sido divulgado. A batalha para o livre acesso e publicação de mais de 800 manuscritos por parte de inúmeros pesquisadores de renome mundial é relatada por Michael Baigent e Richard Leigh que culpam a chamada “equipe internacional” comandada pelo padre Roland de Vaux, da École Biblique de Jerusalém, de manter por longo tempo o monopólio sobre os manuscritos. A polêmica se estendeu até a imprensa através das páginas do influente jornal americano "New York Times" que em editorial publicado em 9 de julho de 1989 criticou a morosidade das pesquisas, observando que “passados 40 anos, um círculo de estudiosos indolentes continua esticando o trabalho, enquanto o mundo espera e as preciosas peças vão se desmanchando em pó”.

Hoje sabemos que os membros da comunidade de Qumram costumavam referir-se a si próprios como “os guardiões da Aliança”. Tal conceito se baseia essencialmente na grande importância da “Aliança”, que impunha um voto formal de obediência, total e eterna, à Lei de Moisés. Daí a expressão “Ossei ha-Torá”, encontrada em um dos pergaminhos, que pode ser traduzida por “Agentes da Lei”, expressão talvez que fosse a origem da palavra essênio (As intrigas em torno dos Manuscritos...). Mas, para o pesquisador Robert Eisenman, autor de vários livros sobre os Manuscritos, termos como essênios, zadoques, zanoreanos, zelotes, sicários, ebionitas (os pobres) apontam para um mesmo grupo ou movimento ortodoxo de rigoroso cumprimento da lei mosaica.

Em seu estudo “Paulo como herodiano”, apresentado na Sociedade de Literatura Bíblica (Society of Biblical Literature), em 1983, Eisenman credita a Paulo (Saulo de Tarso) o papel de agente secreto dos romanos, após ser ameaçado de morte pelos “zelosos da Lei”. A partir dos manuscritos e de referências encontradas no Novo Testamento, o pesquisador afirma que a entrada de Paulo em cena mudou o rumo da história. “O que começou como um movimento localizado dentro da estrutura do judaísmo existente, e cuja influência se restringia aos limites da Terra Santa, se transformou em algo de uma escala e magnitude que ninguém na época poderia ter previsto. O movimento que estava nas mãos da comunidade de Qumran foi efetivamente convertido em algo que não tinha mais lugar para seus criadores” (As Intrigas em torno dos Manuscritos...).

Para os autores ingleses de “A Chave de Hiram”, Saulo de Tarso não conhecia profundamente os ritos nazoreanos da comunidade de Qumram e a sua simbologia da “ressurreição em vida”, cerimônia adotada pela Maçonaria em seu ritual de 3º Grau. Em um dos manuscritos encontrados, denominado “Preceitos da Comunidade”, é explicado que ao entrar na comunidade o sectário era elevado a uma “altura eterna” e unido ao “Conselho Eterno” e à “Congregação dos Filhos do Céu” (Geza Vermes, em “Os Manuscritos do Mar Morto”).

Outro importante estudioso dos manuscritos, o historiador John Allegro, em seu livro “The Treasure of the Copper Scroll” que traz a tradução completa do Manuscrito de Cobre, explica que “Qumram” é uma palavra árabe moderna e que no século 1 da E.C. o local era conhecido como Qimrôn, raiz da palavra hebraica que significa abóbada, arco, portal. O pesquisador também observou a utilização de códigos no Manuscrito de Cobre quando são citados os 64 esconderijos com metais preciosos e manuscritos pertencentes à Comunidade. Detalhe igualmente notado pelo padre J.T.Milik, que fazia parte da equipe internacional que analisou os manuscritos em Jerusalém. O religioso constatou a presença de técnicas de codificação críptica em alguns documentos secretos que continham informações sobre eventos futuros.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Em Israel não existe gente comum

por Sheila Sacks

O jornalista Clóvis Rossi, colunista da Folha de São Paulo, conta que quando foi escalado pelo jornal para cobrir as eleições em Israel, nos idos de 1996, ele primeiro resolveu ter contato com as pessoas comuns, antes de procurar autoridades e políticos, para sentir o clima eleitoral no país. Na época já existia o que ele chamou de salas de conversações eletrônicas, no caso um desses chats frequentados somente por israelenses.

Ao explicar que queria conversar com gente comum sobre as eleições, não demorou muito para receber uma resposta curta e grossa que deixou o jornalista pasmo: “Em Israel, não há pessoas comuns”. Rossi confessa que na hora chegou a ficar com raiva da arrogância de seu interlocutor virtual, mas depois entendeu que talvez aquela inusitada afirmação tivesse a sua razão de ser. Na visão do jornalista, Israel é realmente um país com características inéditas no planeta porque reúne a maior concentração de história e religiosidade do mundo cercada por uma das maiores concentrações de força militar. Segundo Rossi, uma das coisas que mais o fascina em Israel é justamente a presença de todas as religiões monoteístas que pregam a paz terem alguns de seus maiores símbolos sempre cercados pelos símbolos da guerra.

Essa historinha está no prefácio de “Israel, Terra em Transe: Democracia ou Teocracia”, da jornalista Guila Flint, correspondente da BBC Brasil em Israel, em parceria com a socióloga Bila Grin Sorj, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O livro é um apanhado de 16 entrevistas realizadas com intelectuais, religiosos, laicos, judeus e árabes que vivem em Israel e aborda aspectos do fundamentalismo judaico que turbinam a vida política israelense. Publicado em 2000, os depoimentos contidos no livro, muitos deles surpreendentes e polêmicos, não perderam a sua contemporaneidade.

Sem uma Constituição escrita

Conforme explicam as autoras, Israel é um país sem uma Constituição escrita, porque à época do primeiro Parlamento,em 1949, os partidos religiosos se opuseram à adoção de uma Constituição, argumentando que o povo judeu tem apenas uma lei suprema, a Torá (o Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia antiga). Dessa forma, o Parlamento (Knesset) tem poderes quase ilimitados e funciona, de fato, como uma assembleia constituinte permanente que edita leis que podem ser, contudo, facilmente modificadas. A bancada dos religiosos no Parlamento aumentou consideravelmente desde a fundação de Israel, passando de 16 para 30 representantes, 25% da totalidade dos parlamentares.

A importância e a força da religião no estado judeu tem gerado situações de conflitos e impasses entre grupos ultraortodoxos e seculares, geralmente encaminhados à decisão da Suprema Corte, órgão que funciona como uma espécie de guardião dos valores democráticos, com ênfase na proteção dos direitos humanos. Conciliar os diversos interesses, posições e pensamentos da complexa sociedade israelense - moderna, participativa e tradicionalista – é sempre um grande desafio que, ao longo dos anos, tem sido enfrentado a contento face aos sólidos princípios de justiça e liberdade que norteiam as decisões judiciais. A complexidade das respostas dos entrevistados e a diversidade de seus pontos de vista expressos de maneira incisiva demonstram essa heterogeneidade de pensamentos que é, afinal, a marca da nação judaica: a controvérsia levada ao extremo.

Afinidades com a população árabe

Assim ficamos sabendo que Uri Avnery, 88 anos, jornalista que trabalhou nos jornais mais importantes do país, como o Haaretz e Maariv, ex-parlamentar, membro do mítico Irgun (resistência armada judaica que combateu os ingleses durante o Mandato Britânico na Palestina, de 1931 a 1948) e fundador do movimento “Gush Shalom” (Bloco da Paz), se declara muito mais próximo de um cidadão árabe de Israel (em seus ideais e nacionalismo, ainda que em campos diferentes) do que de um cidadão ultraortodoxo judeu (haredi), de Jerusalém. Ele é autor do livro "Meu amigo, o inimigo" que narra seus encontros com Yasser Arafat e outros líderes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Em agosto de 2002, em entrevista à revista inglesa New Internationalist (action for global justice), Avnery lembrou de seu passado de luta armada para a instalação do estado de Israel. Quando questionado sobre a sua posição em relação aos ataques suicidas e os atentados à bomba praticados por grupos palestinos radicais contra civis israelenses, ele retrucou: “Você não precisa me dizer o que é terrorismo. Eu fui terrorista. E quando se está envolvido com movimentos de libertação se lida com a intransigência, a brutalidade e um diferente conjunto de valores", justificou.

Ainda atuando na vida pública israelense, o combativo jornalista, que já sofreu várias ameaças de morte e foi vítima de um atentado em 1975 que o deixou gravemente ferido, tem seus artigos traduzidos para o português e republicados pelo site "Vermelho", do Partido Comunista do Brasil (PcdoB).

Outro entrevistado é Haim Hanegbi, 76 anos, antigo jornalista e ativista político (um dos líderes do extinto movimento comunista e antissionista Matzpen), oriundo de família ortodoxa, neto de rabino e cuja família emigrou da Espanha para Hebron, a Cidade dos Patriarcas, à época da Inquisição. Desde 1996 sob a administração da Autoridade Palestina, Hebron fica a 10 quilômetros de Jerusalém e abriga os túmulos de Abraão, Isaac e Jacó. Há três mil anos, David foi ungido rei de Israel nessa cidade e lá reinou por sete anos até estabelecer Jerusalém como capital do reino.

Muito identificado com os costumes e o modo de viver dos árabes, Hanegbi culpa o sionismo pela extinção das antigas comunidades judaicas do mundo árabe, como as de Damasco, Cairo, Alexandria, Bagdá, Marrocos e Casablanca. A criação do estado de Israel e as guerras advindas deste fato histórico desencadearam uma onda de perseguições aos judeus nascidos e estabelecidos, há várias décadas, no mundo muçulmano, ocasionando o esfacelamento desses núcleos que viviam integrados e adaptados aos costumes e as culturais locais.

Estado democrático e judaico

Para Avraham Burg, do Partido Trabalhista, por três vezes eleito parlamentar e presidente da Agência Judaica Mundial (1995-1999), é preciso separar a religião e o estado. “Pessoalmente, creio que seria necessário acabar com a participação que a religião tem na estrutura do governo de Israel e reposicionar a religião e o judaísmo, que passariam a fazer parte da cultura, parte da responsabilidade individual, em vez de estarem sujeitos a elementos coercitivos do estado.”

Por sua vez, o professor de pensamento e filosofia judaica da Universidade Hebraica de Jerusalém, Moshe Halbertal, 54 anos, acredita que qualquer tentativa de definir o judaísmo através de uma legislação fará com que os judeus de várias partes do mundo sintam que esta não é sua casa. Isso porque, na sua concepção, existem diferenças profundas entre os judeus sobre o judaísmo. Para ele “Israel precisa decidir basicamente se deseja ser a casa dos judeus ou se pretende ser um estado judeu”.

Defendendo a integração estado-religião, a jornalista Bambi Sheleg, 43 anos, de uma família de judeus religiosos e sionistas, acredita que a comunidade não-religiosa em Israel perdeu muitos de seus ideais. “O sionismo religioso considera o retorno a Sion a verdade histórica mais importante. Mas em função disso também será necessário aceitar os valores da modernidade? É essa a grande questão.” Participando de grupos que se reúnem para ler a Torá, Sheleg vê o estado de Israel democrático e judaico ao mesmo tempo. “O estado de Israel é uma anomalia histórica, deve incluir esses dois valores, caso contrário deixará de existir.”

Indo mais longe, ela insiste que os israelenses devem ter consciência de onde vieram e para onde estão se dirigindo "pois o estado de Israel não foi criado para fornecer empresas para desenvolver alta tecnologia para os EUA. Não foi esse o sonho de retorno a Sion". E conclui: - Em minha opinião, é muito importante que Israel seja um país que tenha compaixão, que tenha um comportamento digno em relação aos trabalhadores estrangeiros, aos árabes, e a todos aqueles que chegam de outras regiões.

Esse aliás é o cerne da questão, segundo Clovis Rossi: “Na batalha entre religiosos e laicos, as armas são os argumentos e argumentos não se medem em calibres, não atingem o corpo, visam a alma – e aí tudo fica muito mais complexo.” Daí que ao término das 357 páginas do livro e diante do monumental “desfile” de personagens e argumentos, Rossi dá a mão à palmatória e se rende à afirmação julgada pretensiosa, em um primeiro momento: - Em Israel, não há pessoas comuns.

Observação:
Atualmente vivem em Israel mais de 120 mil judeus negros da Etiópia. Também existem outras comunidades de judeus negros, como os Black Hebrews, que vieram dos Estados Unidos. Judeus asiáticos, principalmente chineses, têm emigrado para Israel.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Lição de cidadania:portal do governo publica matérias desfavoráveis (ao governo)

por Sheila Sacks

Notícia alvissareira: o site governamental Portal ClippingMP (do Ministério do Planejamento), implantado na era Lula, tem se mantido intacto em sua saudável originalidade nesses primeiros seis meses do governo de Dilma Rousseff. Exemplo singular de um espaço institucional livre e democrático que expõe com uma generosidade inusitada as notícias desfavoráveis e as opiniões críticas mais relevantes registradas pelos mais influentes jornais e revistas do país (muitas delas só possíveis de serem lidas mediante a compra das publicações), o portal se constitui em uma pujante lição de democracia ao alcance de todos os brasileiros.

A disponibilização diária de uma qualificada listagem de textos, incluindo matérias de capa, economia, colunas, artigos e editoriais das mais variadas tendências políticas, eximida das omissões e exclusões intencionais tão a gosto de 99% dos sites oficiais de estatais, prefeituras e governos estaduais, é um balde de água fria sobre os jornalões que insistem em apregoar a suposta ojeriza do ex-presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores (PT) pela imprensa em geral.

A facilidade no acesso à leitura e a praticidade na impressão das matérias são itens a destacar em face da lerdeza de muitos sites jornalísticos tomados por grandes imagens que demoram a se materializar, interferindo e atrasando a apresentação do texto que vem a reboque. Um exercício de paciência que não combina com a estreita margem de tempo que a maioria das pessoas tem, no seu dia-a-dia, para se manter atualizada.

Fatiar reportagens em capítulos

A suposta falta de interesse da imprensa em divulgar as iniciativas e eventos considerados positivos pelos governos e entidades públicas municipal, estadual e federal, costuma levar seus dirigentes a elaborar mecanismos próprios de irradiação de notícias, valendo-se de múltiplos expedientes como a inserção de publicidade institucional nos veículos de comunicação, a inclusão de “notinhas” em colunas, o adiantamento de pautas exclusivas para editores e articulistas e a criação de sites que abrigam os incansáveis releases em sua função básica de detalhar as diversas atividades desenvolvidas pela administração pública e os serviços disponíveis para a população.

É voz corrente que a atenção e o interesse da imprensa passam longe dessas informações oficiais, sempre focados em repercutir denúncias de falcatruas, obras superfaturadas, nepotismo, tráfico de influências e outras mazelas recorrentes na esfera pública. Filho dileto das redações, o jornalismo investigativo, com a sua tática cruel de fatiar as reportagens em capítulos estarrecedores, é hoje uma das armas mais eficientes e letais na missão de expor, à luz dos holofotes e às vistas da sociedade distraída, as maracutaias e os crimes de lesa pátria acertados no bar da esquina, à beira da piscina ou via celular (se bem que, em muitos casos, assim como as denúncias surgem e se ampliam no correr dos dias, elas se evaporam, repentinamente, e nas semanas e meses subsequentes o tema em questão sequer volta a ser ventilado).

Jogando por terra preconceitos

No Portal ClippinMP o cidadão brasileiro tem a oportunidade de acompanhar as reportagens investigativas que sacodem, de tempos em tempos, a letargia reinante e descobrir o que pensam e dizem os mais importantes formadores de opinião acerca do governo de Dilma e do ex-presidente Lula. Retrato da grande imprensa nacional, o site apresenta uma maior quantidade de matérias críticas e desfavoráveis às ações e às personalidades públicas que habitam a capital federal. O que espanta, tratando-se de um site oficial, é a correção e a transparência na exibição de artigos e editoriais contundentemente contrários à presidente Dilma e sua equipe de governo, algo pouco provável de ocorrer até em nações com uma larga tradição democrática. Descartados países do Cone Sul como Venezuela e Equador, onde jornais de oposição são fechados e jornalistas impedidos de trabalhar.

Enfim, enquanto os brasileiros puderem dispor de um site oficial de notícias de tamanha qualidade e integridade – que joga por terra os preconceitos que ainda animam grande parte da mídia em se tratando do núcleo governamental e suas relações com a imprensa – não será demais nem exagerado ou estapafúrdio proclamar, parafraseando Lula em seus rompantes juvenis, que nunca, jamais, em tempo algum, na história do Brasil se viu coisa assim...

( o artigo foi reproduzido no site da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (SECOM), em 27.07.2011, no link Sala de Imprensa-clipping)

Nota: O Portal em questão, infelizmente, foi extinto no ano seguinte.