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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Minissérie vai reviver criminoso nazista que se escondeu no Brasil por quase duas décadas

/ Sheila Sacks / 

Em 2026, o best-seller “Os meninos do Brasil”, de Ira Levin (1976), vai virar minissérie na plataforma de streaming Netflix,  que reúne 301,6 milhões de assinantes globais, sendo 25 milhões no Brasil. Anúncio divulgado na mídia em novembro passado (18/11/2025) informa que as gravações serão feitas na Espanha, Reino Unido e Bulgária.

Do mesmo autor de “O bebê de Rosemary”, levado ao cinema em 1968, “The boys from Brazil”, no título original, também teve uma versão cinematográfica em 1978. O livro revive a figura do médico nazista Josef Mengele, criminoso de guerra acusado de realizar experimentos cruéis em prisioneiros no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia ocupada. De acordo com a trama, trinta anos depois ele lidera uma organização com a finalidade de restabelecer o Terceiro Reich através de clones de Hitler. 

A obra de ficção parte do pressuposto, que se mostrou real, de que Josef Mengele, conhecido como O Anjo da Morte, vivia na América do Sul. De fato, Mengele fugiu para a Argentina após a guerra, residiu no Paraguai e se estabeleceu no Brasil por quase duas décadas sem ser importunado. Morreu em São Paulo, aos 67 anos, três anos após a publicação do livro (reportagem documental da Pública, agência de jornalismo investigativo, de 11/2/2025, aborda a estadia de Mengele no Brasil, sob o título ‘Anjo da morte: Como médico nazista Josef Mengele viveu com regalia por 18 anos no Brasil’).

Documentos secretos

Com a desclassificação de 1.850 documentos sobre nazistas que buscaram refúgio na Argentina, disponibilizados online pelo AGN - Archivo General de la Nación,  o público em geral já pode acessar detalhes da trajetória de Mengele e de outros criminosos nazistas que se esconderam no Cone Sul no pós-guerra.

Reportagem do El País assinala que Josef Mengele chegou ao porto de Buenos Aires em junho de 1949, a bordo do navio North King, quatro anos após o término da guerra. Tinha 38 anos e entrou na Argentina com um passaporte emitido pela Cruz Vermelha (‘O rastro dos nazistas Mengele e Eichmann na Argentina’, em 30/4/2025).

Dez anos depois, já com o nome na lista de nazistas mais procurados, ele foge para o Paraguai e, com a captura de Adolf Eichmann (1960) pelo Mossad, o serviço de inteligência israelense, esconde-se no Brasil.

Matéria da Fox News Digital (30/11/2025) revela que “Mengele entrou clandestinamente no Brasil em algum momento de 1960 pela Tríplice Fronteira. Ele foi auxiliado por fazendeiros germano-brasileiros, simpatizantes nazista, que lhe forneceram diversos esconderijos rurais por vários anos” (‘Como o criminoso de guerra nazista Josef Mengele escapou da captura na América Latina, revelado em arquivos desclassificados’, na tradução livre do inglês).

Retirado do mar sem vida na tarde de 27 de fevereiro de 1979, Mengele ficou estendido na areia da praia de Bertioga, no litoral paulista, até a chegada do policial que constatou que o corpo não apresentava sinais de afogamento, como vômito ou água saindo pela boca. O cabo da PM, Dias Romão, então conclui ”que se tratava de um caso de morte súbita ocorrida na água: talvez um ataque cardíaco ou um derrame.”

No documento do morto constava o nome de Wolfgang Gerhard, austríaco, viúvo de 54 anos, técnico mecânico, residente no bairro Novo Brooklin, na cidade de São Paulo. Um casal de amigos, ambos austríacos, Wolfram e Liselotte Bossert, que sabiam que o morto era Mengele e esconderam o fato, dividiam a casa de veraneio perto da praia e disseram que viram Gerhard entrar na água e depois cambalear.

Enterrado no dia seguinte no Cemitério do Rosário, na cidade de Embu, depois de o corpo ser liberado pelo Instituto Médico Legal, a causa da morte não foi conclusiva. Em 1985, após a exumação do corpo e a análise dos restos mortais, é confirmada a verdadeira identidade do carrasco nazista, um dos assassinos mais procurados do planeta.

Atrocidades

Médico em Auschwitz, de 1943 a 1945, o capitão Josef Mengele, da SS (abreviação de Schutzstaffel, organização paramilitar ligada ao partido nazista), fugiu do campo de extermínio dez dias antes da entrada das tropas soviéticas no local.

Nos dois anos em que esteve no comando do “hospital” do barracão 10, centenas de experimentos atrozes em judeus e ciganos foram realizados, segundo anotações e relatos de sobreviventes. As denominadas “pesquisas científicas” incluíam a exposição prolongada a raios-X, cirurgias, administração de medicamentos desnecessários, amputações de membros e inoculações intencionais de bactérias infecciosas.

Reportagem da plataforma de notícias Infobae, com sede em Buenos Aires, assinada por Daniel Cecchini, jornalista investigativo e um dos autores do livro Cárceles, sobre as prisões na Argentina, reporta as atividades de Mengele em Auschwitz. Uma das práticas usadas era transformar gêmeos em siameses, costurando as crianças pelas costas, o que resultava em mortes posteriores por infecção. Seus corpos então eram dissecados para “estudos comparativos” (‘El día que Mengele llegó a Auschwitz y los siniestros experimentos científicos que lo llevaron a ser el ángel de la muerte’, em 23/5/2023).

Tentativas de alterar a cor da íris dos olhos dos prisioneiros por meio de injeções de substâncias químicas também eram feitas juntamente com a extração dos globos oculares de pessoas com cores diferentes de íris que eram assassinadas para a realização dessa prática. Alguns globos eram enviados a Berlim para “análise” e outros eram exibidos em frascos em seu escritório.

Cobaias humanas

Matéria semelhante, ainda no Infobae (7/2/2025), esta do jornalista Alberto Amato, que foi editor da revista Clarín, apresenta o assustador depoimento do médico judeu Vexler Jancu, ex-prisioneiro de Auschwitz. “Ao entrar no consultório de Mengele, vi uma mesa de madeira. Sobre ela havia amostras de olhos. As cores variavam do amarelo pálido ao azul claro, verde e violeta. Os olhos estavam perfurados como borboletas. Pensei que tinha morrido e já estava no inferno."

Amato conta que o general Juan Perón, então presidente da Argentina, conheceu Mengele quando este realizava manipulação genética em animais para produzir gêmeos, “uma obsessão do nazista em Auschwitz” quando se servia de seres humanos como cobaias. Conforme descrição de uma testemunha, o judeu húngaro Miklós Nyiszli, “em uma única noite, Mengele matou pessoalmente 14 gêmeos com uma injeção de clorofórmio diretamente no coração”. Após os assassinatos, ele realizava estudos comparativos nos corpos, muitos deles infectados propositadamente com bactérias do tifo e escarlatina (‘El nazi que se refugió en Argentina, fabricó juguetes y fundó un laboratorio: el final de Mengele, el monstruo que nunca tuvo paz’).

Rede de apoio

Na Itália, antes de embarcarem para a Argentina, Mengele e Eichmann tiveram a ajuda do bispo austríaco Alois Hudal, que era próximo do Cardeal Giovanni Montini, secretário do Papa Pio XII e, posteriormente, do Papa Paulo VI. “Mengele obteve um cartão de identidade da Itália, número 114, em nome de Helmut Gregor. Eichmann tinha o seu, em nome de Riccardo Klement, número 131”, relata Amato.

Uma rede clandestina de oficiais da SS liderada por Hans-Ulrich Rudel, que serviu na força aérea nazista Luftwaffe, organizava as rotas de fuga, geralmente tendo a cidade de Gênova como ponto de embarque. Rudel trabalhava no setor aéreo argentino, desde 1948, e era amigo de Perón.

Com o apoio financeiro da família, estabelecida na cidade de Günsburg, na Baviera, e proprietária da fábrica Mengele Agrartechnik, de máquinas agrícolas, Mengele tornou-se empresário na Argentina. “Fabricava brinquedos, fundou um laboratório e era sócio da empresa Fadrofarm, um laboratório de medicamentos”. Mas, com a captura de Eichman, “dormia com uma pistola Walther carregada debaixo do travesseiro.”

Em 1977, dois anos antes de sua morte, o filho de Mengele, Rolf, valendo-se de um passaporte falso, visitou o pai em uma viagem clandestina ao Brasil. “Ele não admitiu ter feito nada de errado”, afirmou Rolf. “E não demonstrou culpa ou remorso. Disse que estava cumprindo ordens.”

Outras prioridades

Em entrevista ao correspondente Marcelo Ninio, da Folha de São Paulo (2010), Rafi Eitan, que comandou a operação de captura de Eichmann, contou que a inteligência israelense sabia do paradeiro do criminoso nazista. "Fui ao Brasil com outro agente em 1962 e confirmamos que Mengele vivia sob a identidade falsa nos arredores de São Paulo”. Eitan, na época com 84 anos, justificou que o governo desistiu da operação porque estava com outras prioridades como proteger as fronteiras do país. Também não desejava criar um possível incidente diplomático com o Brasil semelhante ao que ocorreu na Argentina (‘Mossad descobriu Mengele no Brasil, mas não o deteve’, em 31/10/2010).

Lembrando que em 1965 o nazista Herberts Cukurs, foragido no Brasil, foi atraído para o Uruguai e executado naquele país por agentes do Mossad, em 23 de fevereiro. Responsável por milhares de mortes de judeus na Letônia e conhecido como o “Açougueiro de Riga”, ele era empresário bem sucedido no Rio de Janeiro, onde vivia desde 1946. Um dos agentes, Yaakov Meidad, do grupo que capturou Eichmann, se passou por empresário austríaco em visita ao Rio e fez uma oferta de negócios a ser acertada no país vizinho. O corpo de Cukurs foi encontrado pela polícia uruguaia onze dias depois, em um baú de madeira, com um bilhete: "Aqueles que não esquecerão" (‘Os carrascos nazistas que fugiram para o Brasil’, Deutsche Welle, em 3/2/2025). 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Instituição judaica reúne em evento governadores de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Rio Grande do Sul

/ Sheila Sacks /

No jantar que abriu a 56ª Convenção da Confederação Israelita do Brasil (Conib), sábado à noite (8/11) ,no Clube Hebraica, em São Paulo, as estrelas foram os governadores Tarcísio de Freitas (São Paulo), Claudio Castro (Rio de Janeiro),  Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul). Juntos, esses estados somam perto de 40% da população do país, cerca de 82 milhões de pessoas de um total de 213,4 milhões, segundo o IBGE (28/8/25).

A saída do Brasil da Aliança Internacional em Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês) foi criticada pelo governador de São Paulo, o estado brasileiro mais populoso (46 milhões), que considerou “sem sentido” a atitude do governo.

Em seu discurso, Tarcísio de Freitas, potencial candidato à Presidência da República nas eleições de 2026, expressou seu agradecimento à comunidade judaica. "O Estado de São Paulo é muito grato à comunidade judaica e, obviamente, a gente tem que externar isso em todos os momentos, principalmente no momento em que a gente, às vezes, se aborrece ou fica indignado com algumas atitudes.” E exemplificou: “Não faz sentido, por exemplo, o Brasil abandonar a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Mas esse tempo sombrio vai acabar e o Brasil vai voltar para a Aliança”.

Destacou ainda o papel estratégico que o estado de Israel exerce na geopolítica internacional  “contra o avanço da intolerância, contra o avanço de regimes totalitários, contra o avanço do terrorismo.”

O prefeito da cidade de São Paulo, Ricardo Nunes, também marcou presença. Em 2023, ele assinou o documento de adesão à definição de antissemitismo da IHRA, tornando a cidade de São Paulo autorizada a usar essa definição  como recurso educacional para abordar e prevenir atividades relacionadas a preconceitos e discriminação motivados por antissemitismo, e evoluir na direção de uma legislação contundente no sentido de punir situações dessa natureza.

Dias depois do jantar da Conib, ele vetou o show do rapper Kanye West programado para o Autódromo de Interlagos. “Em equipamento público da prefeitura, ninguém que faça apologia ao nazismo vai tocar ou cantar nem uma palavra”, afirmou Nunes.

Violência urbana

O governador do Rio em seu discurso condenou a violência urbana e comparou as ações do crime organizado com atos terroristas pelo clima de violência e insegurança que produzem nas sociedades. “Não é paz aceitar que nos violentem todos os dias, mas é paz, sim, lutar por um mundo mais seguro, mais fraterno que todos, absolutamente todos, têm o direito de ir e vir salvaguardado“, disse.

Sobre a polêmica em relação à recente operação policial na cidade do Rio para deter o avanço de facções criminosas, ocorrida em 28 outubro nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, e a resistência do governo federal em designar as organizações criminosas como terroristas, o governador Claudio Castro foi incisivo:Não aceitaremos mais instituições narcoterroristas, e é isso que eles são: instituições narcoterroristas. Não aceitaremos mais que o Judiciário, com todo o respeito que eu tenho a ele, e o governo central apoiem terroristas” (site O Antagonista, em 9/11).

O enfrentamento com os criminosos da facção Comando Vermelho recebeu a aprovação de 67% dos brasileiros conforme a pesquisa Quaest divulgada em 12/11. A mesma percentagem também “não considerou que a polícia empregou força exagerada na operação”.

A fala de Castro teve repercussão nacional e o jornal Folha de São Paulo postou no Facebook: “Governador do Rio foi tietado e aplaudido de pé em jantar da Conib, em SP. Ele disse que combate às facções seguirá queira ou não o Judiciário.” Em 2024, o governador do Rio igualmente assinou a declaração de adesão à definição funcional de antissemitismo da IRHA.

Visita a Israel

Por sua vez, o governador de Goiás elogiou a operação policial no Rio de Janeiro, ressaltando que nenhum civil foi atingido. O Diário de Goiás, em sua edição digital (9/11), destacou as declarações de Caiado sobre o governo do PT, que levaram a assessora do presidente Lula, Clara Ant, presente no evento, a se retirar do salão em meio ao discurso. Disse Caiado: “O governo atual, do PT, do Lula, é um governo que prega o radicalismo, prega o ódio de classe, prega uns contra os outros, ricos contra pobres. Isso é inadmissível, isso é inaceitável.” Ele ainda acrescentou que o governo federal “é complacente, conivente com o narcotráfico”.

Em março do ano passado, os governadores Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado estiveram em Israel e se encontraram com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em Jerusalém, quando externaram solidariedade aos israelenses em sua luta em Gaza contra os terroristas do Hamas.

Em entrevista ao portal IG (9/11), Caiado demonstrou sua admiração pelo estado de Israel. Ele ressaltou as qualidades de um país pequeno, territorialmente, mas que faz do conhecimento a sua grandeza. “Um país que tem 22 mil km², um pequeno espaço de terra. É um país que vive da pesquisa, da ciência e da qualidade da educação, trazendo cada vez mais alternativas para as pessoas viverem com mais dignidade e qualidade. É um país que eu admiro por ter sua base construída na solidariedade ao ser humano”, elogiou.

Fé e empreendedorismo

O portal de notícias do governo do Rio Grande do Sul deu relevância à presença do governador Eduardo Leite no evento da Conib e citou trechos de seu discurso. “A história do povo judeu é uma história de perseverança, de fé e empreendedorismo. Se hoje é uma noite de celebração, é também uma noite de chamado e compromisso. No Rio Grande do Sul, assinamos a carta de definição do antissemitismo da aliança internacional da memória do Holocausto, deixando muito claro nosso compromisso”, afirmou Leite.

O governador também enalteceu a força do povo judeu na superação de dificuldades e desafios. “Os povos que se tornaram fortes foram exigidos a isso para poder resistir e sobreviver, como aconteceu com o povo judeu. É uma trajetória que serve de inspiração para o Rio Grande do Sul, que hoje vive um período de reconstrução que exige força e resiliência depois da maior catástrofe climática da história do Estado.”

Em 2024, o Rio Grande do Sul foi assolado por enchentes devastadoras que impactaram 478 das 497 cidades do estado, causando alagamentos, inundações e deslizamentos de terra, afetando 2,4 milhões de pessoas.

Eduardo Leite, que tem 40 anos e é o primeiro governador reeleito da história do Rio Grande do Sul, falou ainda sobre o papel do representante político que “precisa saber conviver com as diferenças e contra a cultura do ódio”, liderando a sociedade para a direção correta. “Que possamos fazer desta noite uma escolha pela capacidade de convivência sem destruição, além de um momento de homenagem e gratidão ao povo judeu por tudo o que entregaram e entregam ao Brasil.”

De acordo com o Congresso Mundial Judaico (WJC, na sigla em inglês), vivem no país 92 mil judeus, sendo a segunda maior comunidade judaica da América Latina, atrás da Argentina (171 mil) e à frente do México (40 mil).

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Jornalistas em exílio forçado é “ferida aberta” na América Latina

/ Sheila Sacks /

Com apoio da Unesco, o relatório Vozes Deslocadas (Voces Desplazadas) - que faz um retrato da situação de risco que envolve profissionais de jornalismo na América Latina -  revela que 913 jornalistas, no período de 2018 a 2024, tiveram que sair de seus países de origem para resguardar sua segurança e a de seus familiares.  De acordo com os autores do estudo, “o número representa uma ferida aberta nas democracias latino-americanas” (LatAm Journalism Review, em 9/9/2025).

Para o coordenador da pesquisa, Óscar Mario Jiménez, da Universidade de Costa Rica, a saída forçada de jornalistas cria “um vácuo de notícias” que acaba afetando a própria democracia. A perseguição política, as ameaças do crime organizado e a corrupção de agentes paraestatais estão entre as principais causas dos deslocamentos desses profissionais. 

Venezuela lidera

Dos 15 países com jornalistas obrigados a cruzar as fronteiras, a Venezuela, com 477 profissionais, a Nicarágua (268)  e Cuba (98) representam 92% dos deslocamentos na região. Em seguida vem a Guatemala (19), Equador (13), Haiti e El Salvador (10, cada um). Por outro lado, sete países não tiveram registro de saída forçada de jornalistas no período: Brasil, Costa Rica, Belize, Panamá, República Dominicana, Porto Rico e Uruguai.

O relatório também destaca que de janeiro de 2018 a março de 2025 foram mortos 169 jornalistas na América Latina e Caribe, segundo o Observatório de Jornalistas Assassinados da UNESCO. Com 81 mortes, o México encabeça a lista de países com mais assassinatos, seguido pela Colômbia (22), Haiti (16), Brasil e Honduras (12, cada um) e Guatemala (11), entre outros com números menores.

É a face mais trágica da violência e representa perdas irreparáveis de vidas humanas e golpes diretos à liberdade de expressão. O estudo menciona as ações do narcotráfico que têm um efeito inibidor que afasta o jornalista de realizar reportagens investigativas ou críticas, gerando um aumento da autocensura e “zonas silenciadas” impostas pelo medo de ameaças e coerção.

Com 86 páginas e escrito em espanhol,  o trabalho divulgado em julho deste ano foi desenvolvido em conjunto com o Programa de Liberdade de Expressão e Direito à Informação da Universidade da Costa Rica; a Organização de Liberdade de Imprensa Fundamedios; e a Cátedra Unesco em Comunicação e Participação Cidadã da Universidade Diego Portales, no Chile. A Unesco apoiou o projeto através de seu programa voltado para o direito à informação e segurança dos jornalistas.

Dificuldades no exílio

Entre os países que mais recebem jornalistas em fuga estão a Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Espanha, Estados Unidos e Canadá. A pesquisa evidencia, porém, que os profissionais deslocados enfrentam muitas dificuldades como a discriminação e xenofobia na busca de emprego formal, impedimentos legais, dependência de financiamento internacional, perseguição transnacional e rupturas familiares que afetam seu bem estar físico e mental e muitas vezes os impedem de desenvolver um projeto de vida estável.

Em consequência, muitos abandonam o jornalismo gerando com isso “zonas de silêncio e desertos informativos”, tornando mais vulnerável o direito da liberdade de expressão na região, tanto individual quanto coletivo.

 A pesquisa identificou que para os jornalistas no exílio a profissão supera a noção tradicional de “produzir notícias”, constituindo-se em “uma forma de ativismo democrático, um mecanismo de conservação da memória histórica, uma maneira de lidar com o deslocamento e uma prática que permite se sentir plenamente seguro e livre”.

O grupo de pesquisadores realizou entrevistas virtuais, entre outubro e dezembro de 2024, com representantes de 20 organizações nacionais e internacionais de diversos países latino-americanos que trabalham com jornalistas em situação de deslocamento. Também ouviu representantes de associações de imprensa, como a do Uruguai, e a Federação Nacional de Jornalistas (Brasil), além de enviar questionários à organização Repórteres Sem Fronteiras e a rede Voces del Sur, na qual  faz parte a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Em paralelo, foi implementada uma enquete digital respondida por 98 jornalistas no exílio registrados nas instituições constantes no estudo. Apurou-se que 32 abandonaram a profissão e 64 seguiram exercendo o jornalismo, às vezes de forma independente, mas sem uma remuneração adequada e muitos de forma precária. 

Em relação às mulheres jornalistas obrigadas a trabalhar em exílio, a pesquisa constatou que a intimidação é mais cruel, inclusive utilizando estratégicas específicas como a exposição das imagens dos filhos em redes sociais como forma de pressão para que não publiquem críticas sobre o país de origem. Em algumas situações, as crianças se encontram longe da mãe sob a guarda de parentes.

Um bem comum

O estudo também abre um capítulo sobre o conceito de jornalismo, citando fontes da Unesco  que o classificam de “um bem comum na medida em que é de interesse público para as democracias que as pessoas tenham acesso à informação verificada”. Menciona ainda um dos informes da ONU sobre o direito à liberdade de expressão (2012), quando o então relator especial Frank LaRue afirma que o jornalista é quem “observa, descreve, documenta e analisa os acontecimentos, assim como documenta e analisa declarações políticas ou qualquer proposta que pode afetar à sociedade, com o propósito de sistematizar as informações e reunir  fatos e análises para informar aos setores ou ao conjunto da sociedade”.

Relembra igualmente que um ano antes o Comitê de Direitos Humanos do Conselho Econômico e Social da ONU já tinha emitida a Observação Geral nº 34 sobre liberdade de opinião (artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) que assinala que na função jornalística “participam uma ampla variedade de pessoas, aí incluídos analistas e repórteres profissionais de dedicação exclusiva, autores de blogs e outros pessoas que publicam por sua própria conta na imprensa, internet e em outros meios de comunicação” (pág.22 do relatório).

Com base em várias resoluções e convenções aprovadas por organizações internacionais, o estudo subscreve os enfoques abordados e afirma que “o exercício  do jornalismo é uma prática indissociável ao direito à liberdade de expressão”.

Epicentro global do crime

Para a rede Voces Del Sur a expansão das estruturas do narcotráfico converteu a América Latina no “epicentro global do crime”. Em seu informe de 2023, a rede, que reúne 17 organizações da sociedade civil, assinala que as autoridades políticas são as que mais ferem a liberdade de expressão e da imprensa na região. “É possível observar um claro padrão de repressão estatal sistemática contra o jornalismo independente através de técnicas que incluem, entre outras, o uso político da pauta estatal, a propagação de discursos estigmatizantes, detenções arbitrárias, fabricação de processos judiciais, restrições de acesso à informação pública e a criação de leis que se contrapõem às normas internacionais e interamericanas de direitos humanos”.

No quadro demonstrativo sobre as causas responsáveis que forçam os jornalistas a procurar refúgio em outro país estão listados, pela ordem, as autoridades governamentais, o crime organizado, agentes paraestatais corruptos, poder judiciário, ministério público e as indústrias extrativas.

O relatório também ressalta que o sistema de mídia na América Latina é pouco competitivo e mantém vínculos não transparentes com setores dos poderes político e militar, assim como apresenta altos níveis de concentração de propriedade, publicidade e audiência. Na última década, a proliferação das redes sociais e as plataformas digitais, além de aumentar os desafios em termos de desinformação, também provocou uma redução de oferta no mercado de trabalho formal dos jornalistas, principalmente tratando-se de mídia impressa.


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Sites governamentais desempenham papel importante na checagem de notícias online, aponta estudo

 / Sheila Sacks /

Relatório divulgado este ano pelo Reuters Institute, instituição britânica especializada no estudo do Jornalismo, mostra que mais da metade do público consultado (58%) afirma estar preocupada com o que é real e o que é falso quando se trata de notícias online.

Em sua 14ª edição, o Digital News Report 2025, disponível na Internet, coletou dados de quase 100 mil pessoas em 48 países de cinco continentes, em uma análise abrangente do contexto dos mercados digitais.  Quando perguntada, a  maioria dos entrevistados identificou duas fontes principais a recorrer quando existem dúvidas sobre a veracidade da informação: o canal de mídia jornalística em que confiam (38%) e os sites governamentais (35%). As redes sociais foram mencionadas por 14% dos entrevistados. 

Para a verificação de uma notícia específica, o maior percentual dos pesquisados (44%) respondeu que também recorre às fontes oficias representadas pelos sites governamentais. Em seguida, 35% disseram que acessam sites especializados e, logo abaixo, empatados em 26%, aparecem a Wikipedia e a mídia jornalística tradicional. 

O fato reforça a importância e a responsabilidade dos jornalistas que trabalham nas assessorias de comunicação social de órgãos públicos nas várias instâncias de governo. 

Influenciadores e políticos

O relatório de 170 páginas verificou que a preocupação com notícias falsas é maior entre o público dos Estados Unidos e da África (73%), e mais baixa na Europa Ocidental (46%). Quando se trata de fontes subjacentes de informações falsas ou enganosas, influenciadores e personalidades on-line são vistos como a maior ameaça em todo o mundo, juntamente com políticos nacionais (47%).

A preocupação com influenciadores é maior em países africanos como Nigéria (58%) e Quênia (59%), enquanto os políticos são considerados a maior ameaça nos Estados Unidos e Espanha (57%), e em grande parte da Europa Oriental, incluindo Sérvia (59%), Eslováquia (56%) e Hungria (54%).

A mostra revela ainda que pessoas mais jovens, na faixa de 18 a 34 anos, e entrevistados de 35 anos ou mais, tendem a confiar em iguais fontes de busca e checagem. A diferença estaria no fato de que as pessoas mais jovens são muito mais propensas a dizer que confiam em comentários de outros usuários, mídias sociais e chatbots de IA.

Tratando-se de redes sociais, 21% dos mais jovens as usariam contra 12% dos mais velhos. A diferença também ocorreria no que se refere aos chatbots de IA, nomeados por 13% da ala jovem e 7% pelas pessoas com mais de 35 anos.

Nível educacional

Dados da pesquisa também apontam que o nível educacional tem influência nas opções de ferramentas utilizadas na checagem das informações. Observou-se que os entrevistados com níveis mais baixos de educação formal (21%) estão muito menos propensos a dizer que recorreriam à mídia de notícias, fontes oficiais, mecanismos de busca ou verificador de fatos, ao contrário daqueles com níveis mais altos de escolaridade (33%).

Outro sinal relativamente positivo é que a confiança geral nas notícias (40%) permaneceu estável pelo terceiro ano consecutivo. A proporção de assinantes que pagam por notícias online se conservou em 18% em um conjunto de 20 países mais ricos – com a maioria ainda satisfeita com as ofertas gratuitas.

A análise da pesquisa foi divulgada pelo professor Rasmus Kleis Nielsen, professor de Jornalismo na Universidade de Copenhague e diretor do Reuters Institute entre 2018 e 2024 (‘How the public checks information it thinks might be wrong’, ou em tradução livre, 'Como o público verifica informações que podem estar erradas', em 17/6).

Menos TV como fonte de notícia

Sobre o Brasil, o relatório observa que após décadas do domínio da TV aberta, o mercado de mídia no país vem sendo desafiado pelas plataformas digitais e serviços de streaming. Em 2013, 75% dos brasileiros tinham a TV como fonte de notícias e em 2025 apenas 46%. A maioria dos brasileiros (78%) busca informações online e 17% pagam pelo serviço.

As notícias impressas também tiveram uma forte queda no período, de 50% para 10%, enquanto as mídias sociais evoluíram de 47% para 54%, sendo as principais fontes de notícias para 33% dos brasileiros. Tratando-se de dispositivos de acesso às notícias, a TV registrou uma queda consistente, de 81% para 52% , com o celular dominando em 82% ( em 2013 eram 23%).

Sobre o nível de confiança das notícias apresentadas nas diversas mídias houve uma queda de credibilidade no período de 2015 a 2025, de 62% para 42%, notadamente com as notícias on-line. O relatório assinala que 67% dos brasileiros se preocupam com as fake news.

No que diz respeito ao alcance de público, apesar da rede Globo estar à frente em termos de abrangência no noticiário de TV ( 41% ) e notícias online (32%), o grau de confiança é menor (55%) em relação a outras emissoras, como a SBT News (64%), rede Record (62%) e Band (59%). A rede Globo também apresenta a maior taxa dos que não confiam (29%).

No caso de notícias impressas, o jornal O Globo soma 54% de credibilidade, um pouco acima de O Estado de São Paulo (53%) e Folha de São Paulo (52%). Porém, o percentual dos que não confiam é maior tratando-se de O Globo (27%) em relação aos jornais paulistas, 23% e 26% respectivamente. 

O relatório destaca que o Brasil ocupa a 63ª posição entre 180 países no índice de liberdade de imprensa - World Press Freedom Index Score 2025 – da organização Repórteres Sem Fronteiras. Dos oito países do continente americano incluídos na pesquisa, o Brasil é superado apenas pelo Canadá (221ª) e Estados Unidos (57ª) , estando em melhor posição de que o Chile (69ª), Argentina (87ª), Colômbia (115ª), México (124ª) e Peru (130ª).

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Argentina reestrutura polícia para enfrentar organização criminosa

/ Sheila Sacks /

Em entrevista à plataforma DEF online, que trata de temas de segurança, defesa e geopolítica, o secretário de Combate ao Narcotráfico e ao Terrorismo da Argentina, Martín Verrier, anunciou que o alvo número um recém-criado Departamento Federal de Investigação (DFI) da Polícia Federal do país é a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

A matéria foi publicada em 14 de agosto, e dois dias depois repercutida pelo site de notícias Infobae, um dos mais acessados de língua espanhola, com 38 milhões de usuários (Martín Verrier: “El grupo criminal brasileño PCC representa un nivel de amenaza alto para Argentina y la región”).

A nova unidade foi apresentada em junho pelo presidente Milei em uma cerimônia especial, quando foi destacado que o órgão terá atuação semelhante ao FBI com o objetivo primordial de atingir “o cerne das organizações criminosas que tentam ganhar poder e dinheiro no país”.  

Ameaça de alta dimensão

Com mestrado em Estratégia e Geopolítica pela Escola Superior de Guerra do Exército Argentino e em Inteligência e Segurança Internacional pelo King's College London, Verrier atuou como secretário de estado adjunto para o Controle de Drogas da Argentina de 2015 a 2019. Ele explica que há uma década já havia no Cone Sul alguns grupos de crime organizado, mas não do porte do PCC “que tem entre 30 a 40 mil membros e mais de dois mil no exterior, incluindo em países como Estados Unidos, Espanha e Moçambique”.   Na sua avaliação, o nível de ameaça da organização é bastante alto, “de uma dimensão com a qual a região Sul não está acostumada”.

Verrier assinala que a arregimentação de membros para o crime organizado ocorre principalmente no sistema prisional e para conter o crescimento desses grupos foram feitas mudanças na estrutura do governo. Uma das medidas foi a transferência dos presos de alto risco das penitenciárias provinciais para o sistema prisional federal, agora sob a alçada do ministério da Segurança.  “O que acontecia antes é que as prisões eram usadas como bases de operações e estavam sob o controle do Ministério da Justiça, que não tem poderes de polícia. Hoje, temos o controle de todo encadeamento: desde o potencial chefe que pode estar tentando operar na prisão até o comerciante dos bairros”, relata Verrier.

Conexão com Hezbollah

Meses antes, em uma reportagem do La Nacion sobre a fuga de 400 comandantes do Hezbollah para a América do Sul, Verrier denunciou a conexão entre o grupo terrorista e o PCC  que estaria dando proteção aos seus membros presos no Brasil sob acusações de narcotráfico, lavagem de dinheiro e outros ilícitos, em troca de armamentos (Una seria amenaza’. La nueva estrategia de Hezbollah en América Latina tras su debilitamiento en Medio Oriente, em 24/5).

A notícia em questão foi divulgada em primeira mão pelo canal saudita al-Hadhat , em abril, e segundo um representante da embaixada argentina no Líbano, a decisão do descolamento dos 400 terroristas e suas famílias para a América do Sul (Tríplice Fronteira, Venezuela, Colômbia e Equador) partiu da liderança do grupo xiita, temendo futuras retaliações por parte da defesa israelense. Outro motivo seria o plano de desarmamento do grupo a ser implementado pelo governo libanês, que tem seu próprio exército.

Também a plataforma libanesa de notícias This is Beirut publicou uma ampla matéria, na época, informando sobre o envio de centenas de terroristas à América do Sul, destacando a conhecida simbiose entre o terrorismo e o crime organizado na região. Em 2008, na Colômbia, a prisão do chefe de uma rede de tráfico de cocaína, Chekri Harb ,já revelava o pagamento sistemático de um “imposto”  de 12% ao Hezbollah, afirmava o artigo assinado pelo jornalista Mário Chartouni (Mullahs Wearing Sombreros: Hezbollah in Latin America, em 21/5).

Citando relatório da agência Antidrogas DEA (Drug Enforcement Administration), o jornalista escreve que o Hezbollah estabeleceu relações comerciais com cartéis de drogas sul-americanos, notadamente La Oficina de Envigado, da Colômbia ( que substituiu o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar), responsável pelo fornecimento de grandes quantidades de cocaína para os mercados europeu e americano. E prossegue: “Assim, o tráfico de cocaína tornou-se uma fonte de financiamento para o grupo, complementando o apoio financeiro de Teerã e garantindo-lhe crescente autonomia financeira. Essas atividades abrangem pelo menos doze países da região, de acordo com o relatório da RAND Corporation (instituição que fornece pesquisas e análises para agências de segurança do governo americano), de março de 2025, que documenta meticulosamente a presença do Hezbollah na Argentina, Panamá, Peru, Colômbia, Venezuela, Brasil, Curaçao, Bolívia, México, Honduras, Guatemala e Chile. As atividades incluem mineração ilegal na Venezuela e sofisticadas redes de lavagem de dinheiro no Panamá.”

Identificado como um site independente, “comprometido em perpetuar a tradição de liberdade de expressão e jornalismo de qualidade, pilares fundamentais da identidade libanesa”, This is Beirut agrega uma equipe de quase 100 profissionais entre jornalistas, tradutores, colunistas e colaboradores.

No ano passado, a Argentina selou um acordo de cooperação com a CIA para atuação nas Três Fronteiras visando o combate aos cartéis de droga e a sua conexão com grupos terroristas na arrecadação de fundos para recrutamento e atentados no Oriente Médio. Em agosto deste ano, o Paraguai celebrou acordo semelhante para implantação de uma base do FBI com foco no monitoramento da Tríplice Fronteira.  

Em paralelo, o governo dos Estados Unidos divulgou através de seu site oficial a recompensa de 10 milhões de dólares por informações que levem  aos mecanismos de financiamento do grupo na região.

Novo eixo

A matéria do La Nacion também destaca que o Hezbollah pode estar ampliando sua estrutura para o oeste da América do Sul, criando um novo eixo de atuação no Equador, Colômbia e Venezuela. No final de agosto, o governo dos Estados Unidos enviaram navios de guerra para o sul do Caribe, perto da costa da Venezuela, para conter o fluxo de  narcoterrorismo na região e, desde então, já realizou três ataques a embarcações que estariam transportando  drogas em direção aos EUA.  

Segundo especialistas entrevistados pela Fox News (em 7/9), o Hezbollah se tornou um dos principais financiadores e “lavadores” de dinheiro de grupos de narcotraficantes da Venezuela. “A parceria do Irã com Maduro permite que o Hezbollah opere naquele país sem problemas”, afirmaram, destacando que o Irã também tem investido bilhões de dólares na economia local.   

Outro fator que ajuda a encobrir as atividades ilícitas do Hezbollah, consoante aos especialistas, é a forte presença da comunidade xiita libanesa em países da América do Sul. O grupo terrorista se utiliza de laços familiares, a língua e as instituições comunitárias para aumentar e consolidar sua influência na região. Dessa forma, o Hezbollah pode interagir com cartéis locais, vender drogas e canalizar os lucros de volta para o Líbano por meio de esquemas elaborados para financiar atos terroristas no Oriente Médio (Cartel connection: Hezbollah and Iran exploit Maduro’s Venezuela for cocaine cash).

 Problema antigo

Em relação à Tríplice Fronteira, há três décadas a região é uma preocupação para o governo americano, mas somente agora, em razão do posicionamento político tanto do presidente do Paraguai, Santiago Peña, como do presidente da Argentina, Javier Milei, a vigilância terá o apoio explícito dos dois países. O alinhamento, inclusive, garantiu aos dois países taxas tarifárias de 10% aplicadas pelo governo Trump (o Brasil foi sancionado com taxas  de 50%).

Em várias reportagens ao longo do tempo órgãos da imprensa nacional e internacional têm citado nomes de integrantes de grupos terroristas indiciados e com mandados de prisão expedidos pelas justiças  norte-americana e argentina que transitam e operam nas cidades de Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina).

Alguns foram presos por tráfico de drogas, cumpriram a pena, foram soltos e desapareceram. Outros fugiram e mudaram os nomes. Atualmente são foragidos e com paradeiros ignorados.

Palavra de especialista

A presença do Hezbollah na América do Sul, segundo o agente da Polícia Federal e especialista de contraterrorismo, Christian Vianna de Azevedo, se iniciou no final da década de 1980, durante a guerra civil no Líbano, quando mais de 1 milhão de libaneses emigraram para países onde já existiam comunidades libanesas assentadas como as cidades da Tríplice Fronteira, Venezuela, Colômbia e Chile (também em São Paulo existe uma forte presença de libaneses).

Em entrevista on-line publicada pelo Instituto de Prevenção e Combate à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo (IPLD), em 212/5/2024 (‘Financiamento do terrorismo e a influência do Hezbollah na América do Sul’), Vianna de Azevedo ressalta que integrantes do grupo xiita-libanês, criado em 1982, se infiltraram nas comunidades praticando atividades ilegais acobertadas por negócios aparentemente legais, como agências de turismo e outras atividades comerciais.  Desde então o grupo terrorista opera diversas redes criminosas e foram responsáveis por atos terroristas em diversas partes do mundo e em particular na Argentina, como o ataque à bomba à Embaixada de Israel em 1992 (29 mortos e 247 feridos) e à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994 (85 mortos e 300 feridos), os maiores já ocorridos na América Latina.

O especialista ressalta que o Irã é a maior fonte de recursos dos terroristas, representando 60% de seu capital. As outras fontes seriam o “tráfico de drogas, tráfico de armas, contrabando de migrantes, lavagem de dinheiro, e outros tipos de contrabando, além de doações de simpatizantes ao redor do mundo”. Até um banco legalmente estabelecido, o Lebanese Canadian Bank, sediado em Beirute com representação em Montreal, foi usado como braço financeiro do Hezbollah para lavagem de dinheiro associado ao tráfico de cocaína em investigação denunciada pelo governo americano em 2011.

No Brasil, há vários casos documentados sobre transações ilícitas de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro envolvendo financiadores do Hezbollah. Vianna de Azevedo cita Farouk Omairi, preso por alguns anos no Brasil por tráfico de cocaína e identificado por órgãos de inteligência argentina como um dos mentores do atentado à AMIA. Também Assad Ahmad Barakat, dono de cassino em Porto Iguaçu, na Argentina, investigado por lavagem de dinheiro. Preso duas vezes no Brasil, foi extraditado para o Paraguai.

Para o agente federal é preciso uma visão única, das áreas públicas e privadas, para o combate ao grupo terrorista que atua igualmente como uma organização criminosa transnacional. “É essencial que instituições como bancos, o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e órgãos públicos como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, a Justiça Federal, a Receita Federal, o Banco Central do Brasil e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) tenham uma percepção unificada da ameaça que o grupo representa.”

Vianna de Azevedo explica que o Hezbollah não é reconhecido oficialmente no Brasil como grupo terrorista e isso atrapalha nas ações de enfrentamento. “A dificuldade aumenta porque o Hezbollah opera como uma organização híbrida, atuando tanto como grupo terrorista quanto como organização criminosa transnacional.“ O especialista assinala que seus membros aqui no país não se identificam como atuantes do grupo e são investigados por tráfico de drogas, tráfico de armas, lavagem de dinheiro, e falsidade ideológica.

“O dinheiro que eles arrecadam mesmo sendo por meio de crimes, usualmente acaba indo para um caixa comum no Líbano, o que complica a separação dos fundos destinados à política, assistência social ou atividades terroristas”, analisa o agente. “Então provar judicialmente é um grande desafio para as autoridades brasileiras e de qualquer país.”

Ferramentas tecnológicas

Acerca do financiamento ao terrorismo houve um avanço tecnológico e atualmente existe um novo cenário global apontado pelo GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional - Financial Action Task Force, FATF, em inglês).

Relatórios da organização enfatizam que as ameaças estão em constante evolução, impulsionadas pela tecnologia e pela mudança nas táticas utilizadas pelos grupos terroristas. A utilização de criptoativos ( moedas virtuais protegidas por criptografia), sistemas de pagamento peer-to-peer (sem a participação de bancos) e plataformas de crowdfunding (espaço on-line para arrecadação de fundos e doações) estão sendo cada vez mais utilizados para coletar e movimentar investimentos. As fontes de receitas também migraram para pequenos negócios e redes de caridade, por exemplo, financiando ataques de pequena escala executados por células descentralizadas e os chamados “lobos solitários”.

O recente atentado em um ponto de ônibus em Jerusalém, ocorrido em 8 de setembro, com 6 mortos e 22 feridos, é um exemplo dessas ações individualizadas. Dois palestinos armados, residentes na Cisjordânia, foram os autores do ataque e, como recompensa, suas famílias serão assistidas ao longo do tempo pelos fundos arrecadados pelos grupos terroristas.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

China em alta no Brasil apesar das críticas de organizações de direitos humanos

/ Sheila Sacks /

Pesquisa Quaest divulgada em 26/8/2025 mostra um aumento da percepção positiva dos brasileiros em relação à China. Houve uma alta de 11pontos em relação a fevereiro, evoluindo de 38% para 49% os percentuais dos que veem o país asiático de forma favorável. O levantamento também detalha que a China lidera a aprovação entre os mais pobres (45%).

A mídia nacional interpretou o tarifaço de Trump aos produtos brasileiros  como o principal fator de influência na sondagem, visto que a percepção negativa em relação aos Estados Unidos aumentou de 24% para 48%. Mas, entre os brasileiros que recebem mais de cinco salários mínimos, a avaliação positiva aos EUA lidera com 53%, aponta o mesmo levantamento. 

Vigilância e intimidação 

De acordo com o relatório anual da Anistia Internacional sobre os direitos humanos no mundo, disponibilizado em abril deste ano em sua plataforma on-line, o governo chinês continua a aplicar leis e políticas repressivas que restringem o direito à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. Ao longo de 2024, defensores dos direitos humanos foram perseguidos, processados ​​e condenados a longas penas de prisão. Ativistas que viviam no exterior enfrentaram ameaças e intimidação. Líderes religiosos foram presos e novos regulamentos limitando ainda mais a liberdade de religião e crença entraram em vigor no país.

“Novos regulamentos foram emitidos pelo ministério de Segurança concedendo poderes adicionais aos agentes da lei para inspecionar dispositivos eletrônicos, incluindo os de visitantes estrangeiros na China”, afirma o documento, que destaca ainda outros pontos de assédio e constrangimento ocorrido ao longo do ano passado:

- estudantes chineses, alunos em universidades na Europa Ocidental e Estados Unidos, enfrentaram vigilância e censura on-line e off-line por parte de agentes estatais;

- defensores dos direitos humanos, incluindo ativistas, advogados e jornalistas continuaram a enfrentar intimidação, assédio, detenção arbitrária, tortura e maus-tratos;

- regulamentos religiosos sofreram revisões mais restritivas e entraram em vigor limitando ainda mais a liberdade de religião e crença;

– o acesso às informações sobre dados do Estado, incluindo a aplicação da pena de morte, ficou ainda mais rigoroso pelas revisões da Lei de Proteção de Segredos de Estado;

- o espaço para a liberdade de expressão, já altamente cerceado pela Lei de Segurança Nacional (NSL) e outras normas repressivas, diminuiu ainda mais;

- e em Hong Kong uma nova lei de segurança nacional restringiu ainda mais o espaço cívico e dezenas de ativistas pró-democracia foram condenados a duras penas de prisão.

Órgão jurídico da ONU faz alerta

O relatório da Anistia (Amnesty International), disponível na internet, expõe a situação de ativistas e advogados presos pelo regime enquanto atuavam em defesa de direitos civis e trabalhistas, de melhores condições de saúde para as mulheres, e de um espaço maior de discussões na sociedade. Em outubro do ano passado, a ativista He Fangmei  foi condenada a cinco anos e seis meses de prisão por sua campanha por vacinas seguras. Também condenadas a cinco e três anos e meio de prisão as ativistas do movimento #MeToo e de direitos trabalhistas, Sophia Huang Xueqin e Wang Jianbing, denunciadas por "incitação à subversão do poder estatal". Defensores dos direitos humanos, os advogados Li Yuhan e Chang Weiping, após cumprirem as penas prisionais e serem libertados, sofreram mis sanções e foram privados de seus “direitos políticos”.
A Anistia também nomeou a China como o “principal carrasco do mundo”, com milhares de pessoas sendo executadas, 40% relacionadas ao tráfico de drogas. Na ONU, a Relatora Especial sobre a Independência de Juízes e Advogados, Margaret Satterthwaite, expressou preocupação “sobre as restrições administrativas, criminalização e outros padrões de interferência no trabalho de advogados”. Para a especialista, “profissionais de direitos humanos que trabalham em casos delicados foram particularmente visados no país”.

Perseguição religiosa com prisões

Artigo publicado pela Catholic News Agency (CNA), em 21/10/2024, revelou a repressão a dez bispos católicos chineses por resistirem a se submeter ao controle estatal da Associação Católica Patriótica Chinesa (CPCA), uma organização criada em 1957, ligada ao Partido Comunista, e que na prática exerce vigilância e emite diretrizes para os religiosos. 
A informação está contida no relatório “Ten Persecuted Catholic Bishops in China”, de 17/10, assinado pela advogada de direitos humanos Nina Shea, diretora do Centro para a Liberdade Religiosa do Instituto Hudson, uma instituição americana de pesquisa sobre políticas publicas, relações internacionais, segurança e demais questões da atualidade. Ela escreve que sete sacerdotes estão presos, “sem o devido processo legal, alguns deles sob detenção contínua por anos ou décadas”, como o bispo Julius Jia Zhiguo, de 90 anos, cujo “crime” foi ter permitido que hinos fossem cantados em sua igreja sem a permissão do governo.
O documento de 56 páginas assinala que os bispos mencionados foram submetidos a “investigações policiais sem prazo determinado, banimentos de suas dioceses e outros impedimentos ao seu ministério episcopal, incluindo ameaças, vigilância, interrogatório e a chamada reeducação”. 

Lembrando ainda que a Organização Repórteres Sem Fronteiras classificou a China como "a maior prisão de jornalistas do mundo". Em seu relatório divulgado em maio, a ONG internacional denuncia que atualmente 109 jornalistas estão presos em condições severas na China, inclusive a jornalista Zhang Zhan que divulgou a epidemia de Covid-19. Ela cumpriu pena de quatro anos de prisão e voltou a ser detida em agosto do ano passado. No ranking mundial de liberdade de imprensa, a China este ano ocupa a 178ª posição entre 180 países como um dos piores lugares para jornalistas trabalharem e viverem, atrás apenas da Coreia do Norte e Eritreia. Caiu seis posições em relação a 2024. 

O estudo relata que “para silenciar os jornalistas, o governo chinês acusa-os de ‘espionagem’ e ‘subversão’ ou de ‘incitar tumulto e provocar desordem’, três crimes cuja definição é tão vaga que podem ser invocados praticamente em qualquer contexto”. A mídia é controlada pelo Estado que “multiplica os obstáculos ao trabalho dos correspondentes estrangeiros”. Todos os dias o departamento de Propaganda do Partido Comunista envia aos meios de comunicação uma lista detalhada de tópicos a serem destacados e outra de tópicos cuja abordagem é proibida, sob pena de sanções. 

A China é a segunda maior economia do mundo, depois dos Estados Unidos e o terceiro país em extensão territorial, só perdendo para a Rússia e o Canadá.  Uma em cada cinco pessoas no mundo (1,4 bilhão) vive na China que até 2023 era o país mais populoso. Atualmente cabe à Índia esse título. O salário mínimo mensal é de 378 dólares (2.740 yens chineses ou em torno de 2 mil reais), de acordo com o site China Briefing.