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quinta-feira, 27 de março de 2025

Um sentido para a vida – Revisitando Viktor Frankl

Hoje aos homens é concedido confrontar-se com realidades que antes confrontavam somente no leito de morte (Ernst Bloch, filósofo)

/ Sheila Sacks /


Em 2023, um livro escrito em 1946, traduzido em 52 idiomas, best-seller mundial, ganhou uma tradução especial em português voltada para jovens leitores. Trata-se da obra “Em busca de Sentido – Um psicólogo no campo de concentração”, do médico e professor de Psiquiatria na Universidade de Viena, Viktor Frankl (1905-1997).

Com elementos que beiram ao gênero de literatura de autoajuda, pela ênfase à psicologia virtuosa da vontade pessoal e da força do espírito para superar as adversidades, o livro de Frankl traz a mensagem de que ao indivíduo cabe procurar um sentido e uma missão na vida. Uma visão que caminha em rumo diverso a de seu ilustre conterrâneo Sigmund Freud (1856-1939), com quem manteve correspondência e conheceu pessoalmente.

 Em uma conferência em Viena, Frankl reconheceu o fato e se justificou: “É verdade que Freud escreveu que ‘no momento em que alguém pergunta sobre o sentido ou o valor da existência, está doente’, mas eu penso que é nesse momento que a pessoa manifesta sua humanidade. É um empreendimento humano o interrogar sobre um sentido para a vida, e cabe perguntar se tal sentido é alcançável ou não.”

 Quase oitenta anos depois do lançamento da obra, que também enfatiza o valor e o sentido do sacrifício em qualquer situação, as teses de Frankl e Freud estranhamente se interagem. Isso porque em uma época na qual o sentido da vida para uma fatia da humanidade se centraliza em matar ou se imolar em sacrifício às causas associadas ao radicalismo religioso e político, a presunção de Freud torna-se cabível principalmente em relação às pessoas que aderem ao terror. A procura de uma razão para viver não é uma condicionante à busca do bem e se manifesta, de um modo geral, a partir de um desajuste pessoal que, mais adiante Frankl classificaria de “vazio existencial”.

 Mas, apesar das concepções de Frankl não entusiasmarem Freud nem tampouco a outro gigante da psicologia com quem manteve contato, o também austríaco Alfred Adler (1870-1937, que defendia a ideia de que o indivíduo é motivado mais pelas expectativas do futuro do que por suas experiências do passado), sua obra de estreia e as demais que se seguiram (escreveu 39 livros) receberam elogios e palavras de incentivo de líderes religiosos do porte do Papa Paulo VI, que o convidou para um encontro no Vaticano, em 1970. Seus livros também foram traduzidos para o árabe e o persa, sendo editados no Egito, Irã e Turquia, de populações muçulmanas.

Livro do século

 Em 1991, uma pesquisa realizada entre os leitores dos Estados Unidos apontou os 10 livros que mais influenciaram e fizeram a diferença em suas vidas. No topo da lista não houve surpresa: a Bíblia continuava liderando com facilidade (fato que se repete até os dias de hoje nos EUA). A consulta, conduzida pela prestigiosa instituição norte-americana “Library of Congress” - a maior biblioteca do mundo com um acervo de mais de 35 milhões de livros e outros impressos -, em parceria com o Clube do Livro, também consagrou o livro escrito por Frankl (‘Man’s Search for Meaning’, na edição em inglês).

 Uma escolha que se repetiu anos mais tarde, em 2000, no Japão, com os leitores do Yomiuru Shimbun, de Tóquio, o jornal de maior tiragem diária do mundo (10 milhões de exemplares), que listaram o livro de Frankl como um dos 10 mais importantes do século 20.

O autor tinha sobrevivido a três longos e sofridos anos em quatro campos de concentração, acompanhado de um caderno de anotações que serviu de base para descrever a sua terrível experiência e a de outros companheiros sob a ótica de um psicólogo. Publicado pela primeira vez em Viena, o livro de pouco mais de cem páginas, escrito em nove dias, trazia uma mensagem estimulante já a partir do título: “Trotzdem ja zum Leben sagen” (Diga sim à vida, de qualquer maneira, tradução livre do alemão). Espantoso para quem acabara de perder seus entes queridos de modo tão bárbaro: o pai, no campo de Theresienstadt (República Tcheca); a mãe e o irmão caçula, em Auschwitz (Polônia); e a esposa grávida, em Bergen-Belsen (Alemanha).

 Ao longo da narrativa, Frankl detalha situações inimagináveis de desumanidade e de degradação física, experimentadas por prisioneiros de todas as idades, inclusive crianças, no campo de Auschwitz, e analisa que todo ser humano submetido àquelas condições em pouco tempo irá apresentar um estado de espírito anormal o que não deixaria de ser uma reação psicológica “normal”. E lembra a frase do poeta e filósofo Gatthold Ephraim Lessing (1729-1781), mestre do Iluminismo: “Quem não perde a cabeça com certas coisas é porque não tem cabeça para perder.”

Frankl recorre a pensamentos de filósofos, poetas e escritores nas suas descrições dos cotidianos quadros sórdidos e terrificantes que compunham o dia a dia daquele exército deplorável de condenados. A sublimação do sofrimento é lembrada na afirmação do russo Dostoievsky (1821-1881) que dizia temer apenas uma coisa na vida: não ser digno de seu próprio tormento. Daí a importância das denominadas “alegrias miseráveis” que inoculavam um valioso fôlego espiritual nos prisioneiros despojados de todos os seus pontos de equilíbrio. “Nós éramos gratos ao destino quando ele nos poupava de sustos. Já ficávamos contentes quando à noite podíamos catar os piolhos do corpo antes de nos deitar.” Uma felicidade no sentido negativo de Schpenhauer (filósofo alemão do século 19) ou uma isenção de sofrimento em sentido muito relativo, segundo Frankl.

 Arte, política e religião

 Usada pelos prisioneiros como uma valiosa tábua de salvação contra a apatia, o desânimo e a loucura, a arte nos campos de concentração está presente nas narrativas da maioria dos livros, documentários e filmes sobre o tema, compondo, juntamente com o material salvo da hecatombe, um considerável legado cultural, se o termo é aplicável em relação à tragédia do Holocausto. Sessões de música, poesia, teatro e até de humor aconteciam com o beneplácito da guarda nazista adestrada contra possíveis focos de rebeliões. Os sentimentos de inconformismo ou revolta, canalizados para um escoadouro fictício de sonhos e fantasias, mantinham os prisioneiros sob controle, proporcionando uma sensação de bem estar, ainda que fugaz e ilusória. Valia “tudo para esquecer”, atesta Frankl.

Outras áreas de interesse que movimentavam o cotidiano dos campos eram a política e a religião. ”Em primeiro lugar, a política, o que não é de surpreender e, em segunda posição a religião, o que não deixa de ser notável”, conta. “Todos aqui discutem política quase sem parar, mesmo que se trate de ouvir sequiosamente os boatos infiltrados e passá-los adiante. Quanto à religião, o impressionante eram os cultos improvisados nos cantos de algum barracão ou num vagão de gado, escuro e fechado, no qual éramos trazidos de volta após o trabalho, cansados, famintos e passando frio em trapos molhados.” Médico psiquiatra, Frankl afirma que se manteve fora de privilégios. “Não é sem orgulho que digo não ter sido mais que um prisioneiro comum. Nada fui senão o simples nº 119104.”

Junto aos pais

Em sua autobiografia, publicada em 1995, Frankl relata como teve a oportunidade de escapar ao regime nazista: “Eu esperei alguns anos até obter o visto de imigração para os Estados Unidos. Finalmente, um pouco antes do ataque a Pearl Habor (07.12.1941), fui convidado a ir à embaixada para pegar o meu visto. Aí então, eu hesitei, pois como poderia deixar meus pais para trás? Eu já imaginava qual seria o destino deles: deportação para um campo de concentração. Poderia eu dizer adeus e deixá-los entregues a própria sorte? O visto era pessoal, exclusivo para a minha pessoa”. 

 À época, Frankl tinha 36 anos e era diretor do setor de Neurologia do Hospital Rothschild, tendo trabalhado antes, por quatro anos, no Hospital Geral de Viena, no tratamento de pacientes com tendências ao suicídio. Ele conta que quando chegou em casa naquele dia, encontrou o pai, em lágrimas: “Os nazistas atearam fogo na sinagoga”, disse-me, mostrando um pedaço de mármore que ele conseguira salvar. Na peça estava gravada, em dourado, uma única letra hebraica, justamente a letra inicial do quarto Mandamento: Honra teu pai e tua mãe. Diante disso, Frankl telefonou para a embaixada americana e cancelou o visto. “Talvez a decisão que eu tomei já estivesse comigo há muito tempo, e na realidade somente escutei o eco da voz de minha consciência”, afirmou.

Ponto de vista

O jornalista e escritor norte-americano Matthew Scully, mais conhecido pela sua função de speechwriter (redator de discursos) do ex-presidente George W. Bush, observa que Frankl publicou “Em Busca de Sentido” um ano antes do surgimento de “O Diário de Anne Frank” (1947). Ambos os livros ganharam o mundo, mas os autores tiveram destinos distintos. “No caso de Frankl, a sorte o conduziu para uma direção diferente. Depois da perda da esposa no Holocausto, ele casou-se novamente, escreveu dezenas de obras, criou um método de psicoterapia, construiu um instituto em Viena que leva o seu nome, deu palestras ao redor do mundo, e permaneceu vivo para ver o seu livro ser traduzido para dezenas de idiomas.” 

No encontro que teve com Frankl, em Viena, em abril de 1995, o jornalista falou de sua surpresa pelo livro não ser, pelo menos, o segundo mais lido na biblioteca do Museu do Holocausto, em Washington, onde “O Diário de Anne Frank” ainda reina absoluto (35 milhões de cópias em 67 idiomas). Frankl atribuiu o fato ao tom conciliatório que sempre adotou em suas mensagens e que desagradava a muitos: “Em todo o meu livro Em Busca de Sentido você não vai encontrar a palavra ‘judeu’. Eu não acentuei a minha condição de judeu e nem de ter sofrido como um judeu”, afirmou.

Na entrevista, publicada pela revista americana First Things, Frankl fez questão de igualar a sua dor à de qualquer outro ser humano submetido a uma situação de horror. “Sou 100% contra a tese de culpa coletiva”, enfatizou. “Parto do fundamento de que a culpa, a priori, é individual.” Reforçando essa posição, Frankl já havia dito, em outra ocasião, que mesmo nos estreitos limites de um campo de concentração, ele somente encontrara dois gêneros de pessoas: as decentes e as sem decência. “Nenhuma sociedade está imune aos dois, portanto, havia no campo guardas decentes e prisioneiros, sem decência, notadamente os capos (prisioneiros que dispunham de prerrogativas especiais) que insultavam e torturavam os seus próprios companheiros em troca de vantagens pessoais.”

 Escondendo o inimigo

O antropólogo Richard A.Shweder, escritor, professor e presidente do Comitê de Desenvolvimento Humano da Universidade de Chicago, destaca o fato de que Frank surpreendeu o mundo ao afirmar que o espírito humano encontrava maneiras de alcançar a dignidade mesmo na lama de Auschwitz. “Ele argumentava que um prisioneiro tornava-se digno ou não a partir de uma decisão própria interior, e não somente em consequência das condições do campo.” Para Frankl, ninguém melhora ou evolui enxergando-se como vítima. Cada pessoa é capaz de se sobrepor a situações degradantes, “já que a saúde mental está relacionada com as decisões e não com as condições”.

Um fato ilustra esse ponto de vista. Quando os aliados libertaram os campos de concentração, duas prisioneiras judias sobreviventes do Holocausto esconderam um oficial da SS (Schutzstaffel, a tropa nazista de Hitler) de nome Hoffman, e só concordaram em entregá-lo às autoridades com a condição de que ele não fosse maltratado. Frankl foi testemunha no julgamento e durante algum tempo manteve correspondência com o oficial tentando confortá-lo, já que o homem vivia atormentado por sua participação na barbárie nazista.

Conselhos para se manter vivo

Frankl também lembra em seu livro uma das primeiras recomendações que, recém-chegado a Auschwitz, recebeu de um prisioneiro veterano: “Não tenha medo! Não se amedronte com as seleções! Mas uma coisa eu peço para você... faça a barba diariamente, mesmo que tenha de usar um fragmento de espelho... mesmo que tenha que dar o seu último pedaço de pão para isso. Você ficará com uma aparência mais jovial e o ato de se barbear dará a sua face mais rubor. Se quiser sobreviver, só existe um jeito: Mostre-se saudável para o trabalho.”

Já nos momentos de intensa frustração, recorda Frankl, o artifício era orientar os seus pensamentos para as coisas mais triviais, como por exemplo achar um pedaço de arame para substituir o cadarço podre de um sapato. Ele também se forçava a pensar acerca do futuro, após a libertação. Anos depois, nas diversas universidades onde lecionou – entre elas a de Harvard – Frankl sempre enfatizava aos seus alunos que cada pessoa deve ir ao encontro de sua missão. “O homem pode suportar tudo, menos a falta de sentido da vida. Por isso é preciso trabalhar por algo além de si mesmo.”

Indicado ao Nobel da Paz

Vitor Frankl foi professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Medicina de Viena até 1990, quando se aposentou aos 85 anos (ele também praticava o alpinismo e tirou o seu brevê de piloto de aeroplano aos 67 anos). Doutor em Filosofia, Frankl recebeu o título de “Doutor Honoris Causa” em 29 universidades de todo o mundo, entre elas, as federais do Rio Grande do Sul (1984) e de Brasília (1988).

Membro honorário da Academia Austríaca de Ciências e Cidadão Honorário de Viena, Frankl proferiu palestras em mais de 200 faculdades nas principais cidades do mundo e foi considerado pelo “American Journal of Psychiatry”, o mais importante pensador desde Sigmund Freud e Alfred Adler. A Logoterapia ou Análise Existencial - método psicológico criado por ele - é conhecida como “A Terceira Escola Vienense de Psicoterapia” (a primeira é a Psicanálise Freudiana e a segunda é a Psicologia Individual de Adler). Em 1985 recebeu “The Oskar Pfister Prize”, prêmio máximo da “American Society of Psychiatry”, e teve seu nome proposto para o Nobel da Paz pela “The Milton H. Erickson Foudation”, entre outras entidades.

Lembrando a visita que fez a Frankl em um hospital de Viena, poucos meses antes de seu falecimento, ocorrido em 2 de setembro de 1997, o escritor e doutor em psicologia Jeffrey K.Zeig - idealizador do ciclo de seminários internacionais “Evolution of Psychotherapy Conferences”, que teve em Frankl um dos seus participantes mais ilustres - buscou uma frase do romancista e filósofo francês Albert Camus, na sua obra póstuma “O primeiro homem”, para definir a personalidade de seu mestre: “Existem pessoas que justificam o mundo, que ajudam os outros somente com a sua presença.” A citação veio a propósito da insistência de Frankl em manter uma linha de telefone aberta para atender pessoas de tendências suicidas, mesmo doente e hospitalizado. Até o final de seus dias, Frankl recebia em média mais de 20 cartas diárias de pessoas que se diziam salvas após a leitura de seu livro.    

sexta-feira, 21 de março de 2025

Relatório sobre as maiores organizações criminosas da América Latina e Caribe inclui grupos do Brasil

 / Sheila Sacks /


Elaborado pela ONG InSight Crime e com o apoio financeiro da União Europeia(UE) foi lançado em fevereiro a publicação digital El Pacto2.0 que investiga e mapeia as maiores organizações criminosas da América Latina e Caribe e suas conexões com o continente europeu.

Segundo o informe o aumento da produção de cocaína gerou US$ 25 bilhões extras em lucros para o crime organizado transnacional em 2024, e apesar de outros ilícitos é a cocaína que sustenta o crime organizado na América Latina, sendo também o seu maior acelerador.  

Foram classificadas e investigadas as 28 redes criminosas mais ativas e relevantes que representam alto risco para os países da região. No Brasil, três grupos foram analisados em suas estruturas e atividades.

Apresentado por Jeremy McDermott e Steven Dudley - fundadores da ONG, o relatório de mais de cem páginas teve a cooperação da EMPACT (European Multidisciplinary Platform Against Criminal Threats)  e está disponível na Internet para leitura e conhecimento. Os autores são veteranos  pesquisadores  sobre organizações criminosas, autores de vários livros sobre o tema e com dezenas de artigos publicados na imprensa internacional.

A InSight Crime, criada em 2010, é uma organização de jornalismo investigativo e pesquisas, com sedes em Washington e Bogotá. Tem uma equipe de 50 profissionais pós-graduados em diversas áreas trabalhando nas Américas e Europa no sentido de aprofundar o debate sobre o crime organizado e a segurança do cidadão.  

Ameaça global

Na introdução, o estudo alerta para o crescimento das conexões entre as redes criminosas latino-americanas e europeias, principalmente as que lidam com o tráfico de drogas, ouro e de pessoas, e o fortalecimento dessa aliança que se constitui uma ameaça global em nível de geopolítica. Diferente dos anos 1980, os grandes cartéis agora operam com subcontratações de grupos para funções ou fases específicas, ajustando-se e garantindo a não interrupção do fluxo de ilícitos quando pressionados ou atacados por Forças de Segurança.

É fato que as organizações criminosas usam estruturas de corporações legais para ocultar as operações ilícitas e lavagem de valores. De acordo com a Europol, agência europeia de cooperação policial para combate ao crime e terrorismo, de 2021 a 2024 subiu de 71% para 86% a percentagem de empresas fantasmas criadas por esses grupos criminosos que operam na Europa.

Em relação aos países da América Latina e Caribe, essas redes criminosas representam a maior ameaça à democracia na região, segundo os autores do relatório. Isso porque se utilizam da corrupção e do suborno para se introduzirem na estrutura do Estado e são o principal motor de homicídios e de abusos contra os direitos humanos. Prejudicam o desenvolvimento e a estabilidade econômica, distorcem as economias, afastam os investimentos e afetam o financiamento internacional na região.

Ilícitos no Brasil

No mapa do crime, o Brasil aparece com três organizações criminosas: Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e “Tren de Aragua”, originária da Venezuela e presente também no Paraguai, Bolívia, Chile, Peru e Colômbia. Mas, conforme estudo divulgado em 2024 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) são 72 facções criminosas que operam no país, provocando com sua carteira de ilícitos prejuízos estimados em 453,5 bilhões de reais. O Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, vindo depois dos Estados Unidos.

O relatório faz um histórico sobre cada organização criminosa, detalhando sua geografia e atividades ilícitas. Sobre o PCC, que ocupa duas páginas, é informado que a “sede” fica em São Paulo e que surgiu nos anos 1990, através de detentos em presídios como grupos de autoproteção. O informe, que detalha as atividades da organização e a atuação-resposta do Estado, destaca que 30 mil homens fazem parte de sua estrutura. Sobre a conexão que mantém com outras redes internacionais, são apontados o Cartel de Sinaloa, do México (considerado pelo governo dos Estados Unidos o maior e mais poderoso cartel de tráfico de drogas do mundo), a Ndrangheta italiana, da Calábria, e a máfia albanesa que opera na Albânia, no sudeste da Europa.

Sobre o Comando Vermelho (CV), os autores relatam que o grupo surgiu nos anos de 1970 em um presídio no Rio de Janeiro, da união de criminosos com militantes da esquerda presos pela ditadura militar (1964-1985). Revelam que em 2002 o CV chegou a formar uma aliança com o PCC, mas que essa situação se desfez em 2016.

No entanto, artigo posterior ao relatório, divulgado pelo mesmo InSight Crime, em 21/2/2025, revela a recente trégua entre o PCC e o PV, após uma década de conflitos. O objetivo seria flexibilizar as regras do sistema prisional brasileiro e atuar em conjunto nas duas principais rotas de tráfico do país: a rota caipira, que começa na Bolívia e vai até o porto de Santos, e de lá para Europa e África; e a rota do Solimões, que transporta drogas pela floresta amazônica, através dos rios Solimões e Amazonas.

 Centrado no Rio, o Comando Vermelho já atua em diversos outros estados com uma série de atividades. Os pesquisadores chamam a atenção para o fenômeno das milícias que não recebem igual repressão exercida pela polícia em relação aos traficantes. O Brasil é uma das principais rotas de trânsito da cocaína em direção à Europa, e a Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo. Em 2023, a produção naquele país teve um aumento de 53%  em relação a 2022, alcançando 2.664 toneladas, conforme relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc.

O terceiro cartel citado em terras brasileiras é o Tren de Aragua que nasceu em uma penitenciária da Venezuela. Com um fluxo migratório que tem chamado a atenção de especialistas, a organização está presente em vários países da América Latina, inclusive no Brasil. Possui 4 mil membros. A organização pratica contrabando, tráfico de drogas, extorsão e sequestro. É responsável principalmente pelo tráfico de migrantes para a América do Sul. Em 2024, face à crescente preocupação com o potencial de ameaça do grupo, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos designou o Tren de Aragua como uma organização criminosa transnacional.

Cartéis na Europa

Em relação à União Europeia, formada por 27 países, a Europol em seu Informe 2024 (Decoding the EU’s Most Threatening Criminal Networks) identificou 821 redes criminosas de alto risco que operam no continente e que dispõem de 25 mil membros. Suas atividades envolvem tráfico de drogas e armas, fraudes, delitos contra a propriedade, tráfico de migrantes, falsificações, ciberdeliquência, crimes contra o meio ambiente e extorsão.

Os países com maior incidência de grupos e ações criminosas (segundo a Global Initiative Against Transnational Organised Crime - GITOC) são, pela ordem: Rússia, Ucrânia, Itália, Sérvia, Montenegro, Espanha e Bielorrúsia.

Na América Latina e Caribe, a Colômbia lidera o ranking, seguida do México, Paraguai, Equador, Honduras, Panamá, Brasil e Venezuela. De acordo com relatório de 2024 do Unodc, o número de pessoas que usam drogas aumentou para 292 milhões de usuários.

Em termos de crimes financeiros globais, o Relatório Nasdaq 2024 (Global Financial Crime Report) estima que em 2023 mais de três trilhões de dólares em fundos ilícitos fluíram através do sistema financeiro global servindo para atividades de lavagem de dinheiro e outros crimes destrutivos, incluindo US$ 782,9 bilhões em atividades de tráfico de drogas, US$346,7 milhões em tráfico de seres humanos e US$11,5 milhões em financiamento do terrorismo. Além disso, as perdas por golpes fraudulentos e esquemas de fraude bancária totalizaram US$485,6 milhões provocando uma série de danos devastadores em todo o mundo.

Diretora executiva da Europol desde 2018,  Catherine De Bolle, natural da Bélgica, chama a atenção para o novo DNA do crime organizado. “As redes criminosas evoluíram para empresas criminosas globais, movidas pela tecnologia, explorando plataformas digitais, fluxos financeiros ilícitos e instabilidade geopolítica para expandir sua influência. Elas estão mais adaptáveis e mais perigosas como jamais estiveram.”

 

quinta-feira, 6 de março de 2025

Covid-19/ano 5: pesquisas apontam novos vírus com risco pandêmico

/ Sheila Sacks /

Em fevereiro, um estudo publicado por cientistas chineses na revista científica americana Cell provocou turbulência nos mercados financeiros mundiais, inclusive no Brasil, com aumento do preço do dólar e queda na rentabilidade das ações.

A descoberta de um novo coronavírus com capacidade de infectar humanos, semelhante ao vírus SARS-CoV-2 causador da Covid-19, e seu forte potencial de disseminação ganharam repercussão midiática principalmente nos meios digitais.

Segundo a plataforma UOL, cientistas do Laboratório de Guangzhou (em conjunto com o Instituto de Virologia de Wuhan- WIV) constataram que o novo coronavírus (HKU5-CoV-2) contaminou tecidos pulmonares e intestinais cultivados artificialmente com células humanas. No entanto, eles também atestaram que o vírus ainda não foi detectado em humanos, e provém da mesma linhagem do merbecovirus causador da Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), que tem algumas características similares com a Covid-19, mas menos agressivo. Para esse vírus ainda não existe vacina.

A notícia veiculada numa sexta-feira, 21 de fevereiro, não atravessou o fim de semana e se perdeu em meio a eventos posteriores como o bate-boca de Zelensky, da Ucrânia, com o presidente Donald Trump na Casa Branca, e no caso de mídia nacional, a corrida do filme brasileiro ao Oscar e os preparativos para o Carnaval.

Mas, ressalva seja feita, um dia após o término dos festejos, uma matéria na plataforma digital do jornal Estado de São Paulo (5/3/2025) procurou tranquilizar os leitores afirmando que o novo vírus descoberto, o HKU5-CoV-2, “não está adaptado a seres humanos”. Pesquisadores brasileiros consultados classificaram a descoberta como “um trabalho de vigilância” e explicaram que o estudo em questão, apesar de mostrar “que há afinidade entre a proteína S do novo vírus de se conectar a células humanas”, não concluiu que isso significaria que o vírus tem capacidade de infectar o organismo humano.  

Em contrapartida, The Economic Times alerta que cientistas temem que experimentos arriscados com esse vírus, que incluem até “camundongos humanizados”, resultem em outro surto. Simon Clarke, especialista em microbiologia celular na Universidade de Reading, no Reino Unido, considerou a notícia inquietante, visto que a descoberta de outro coronavírus de morcego que consegue se introduzir em células humanas e animais, desbloqueando-as da mesma forma que a Covid-19, sugere um maior grau de transmissão. Também a relação genética do vírus com o coronavírus da MERS, conhecido por sua alta taxa de mortalidade, amplifica ainda mais as preocupações sobre potenciais implicações para a saúde.

No final de janeiro, o novo diretor da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), John Ratcliffe, divulgou relatório do órgão considerando muito provável que a pandemia da Covid-19 tenha se originado de vazamento em um laboratório na China, o WIV, que realizou pesquisas arriscadas com vírus turbinados. A descoberta do HKU5-CoV-2, no mesmo instituto da China, reacende os debates sobre a segurança laboratorial e as origens das pandemias, pondo em foco o papel da pesquisa virológica de alto risco na prevenção ou potencialmente na precipitação dessas infecções globais.

Pós pandemia

O novo vírus se junta à Covid-19 e dezenas de outros com potencialidade de infectar humanos e provocar pandemias descobertos por cientistas. Uma lista de 30 patógenos que já provocaram surtos, principalmente na Ásia e na África, foi divulgada em agosto de 2024 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e dentre eles estão a Mers, transmitida por dromedários infectados; a CCHF (febre hemorrágica da Crimeia-Congo), propagados por carrapatos; Ebola, oriunda de morcegos e com taxa de mortalidade de 90%; Febre de Lassa, transmitida por ratos; Niphan, cujo contágio se dá em contato com porcos doentes e carne contaminada; a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave); e, o Zika, transmitido pela picada do mosquito.

Em recente reportagem (1/3/2025), o jornal britânico The Guardian  marcou os cinco anos pós pandemia com uma matéria de consulta a especialistas de áreas diversas sobre os efeitos e consequências da Covid-19. Alguns lembraram que catástrofes de qualquer tipo alimentam reflexões sobre a condição humana e a necessidade de repensar a relação entre o indivíduo e o coletivo. Foi assim com o terremoto de Lisboa em 1775, que abalou os alicerces filosóficos e a pandemia de gripe de 1918-19 que forçou as pessoas a ter uma maior relação com a natureza.

A professora universitária Laleh Khalili, especialista em transportes, contou que a pandemia fez com que mais de 400 mil marinheiros ficassem confinados nos navios por mais de 22 meses, “vagando pelos mares do mundo”, já encerrados os contratos. Lembrou que em terra os entregadores de alimentos e mantimentos, enfermeiros e motoristas de ônibus foram os mais afetados pela Covid-19.

Comercialmente, de acordo com Khalili, a pandemia ajudou a acelerar o ambiente hoje instituído de guerra tarifária entre os Estados Unidos de Trump contra a China e outros parceiros. As características comuns do capitalismo - que são a deslocalização da indústria, a terceirização de mão de obra e os custos exorbitantes do transporte - foram exacerbadas pela Covid-19, diz a professora, que admite uma nova era comercial entre os países.

Educação e saúde

Sociólogo e economista político, William Davies destaca que com a pandemia o ensino on-line tornou a educação mais pulverizada e mecânica. A sala de aula e o campus foram substituídos pelo quarto e esse afastamento social devido aos lockdowns (confinamentos) resultou em legados de saúde mental que não privilegiam a frequência presencial e a ambiguidade do espaço social.

Na área de saúde pública, a especialista Devi Sridhar destaca que mais de 230 mil pessoas perderam a vida no Reino Unido com a Covid-19 e é sempre uma preocupação pensar que algo parecido possa se repetir. Ela alerta que a gripe aviária (cepa H5N1) está se espalhando pelos Estados Unidos (também já tem registro na Argentina) infectando pássaros, aves (principalmente galinhas: 20 milhões mortas e 13,2 milhões abatidas) e rebanhos de gado (cerca de 900).

Em sua opinião, se a doença atingir os humanos e tiver uma alta taxa de letalidade, as pessoas agora naturalmente irão se isolar em suas casas, sem que os governos precisem pedir ou impor regras (em janeiro foi confirmada a primeira morte de uma pessoa pela gripe aviária e 68 humanos já foram infectados). Então é preciso se preparar, em termos de resiliência, para enfrentar possíveis doenças pandêmicas, investir em ciência e especialmente em programas de vacinação. A amnésia coletiva é a resposta errada à Covid-19, afirma a especialista.  E a Covid longa – reconhecida pela OMS desde outubro de 2021- está a nos lembrar da doença, com milhares de casos de pessoas que, passados cinco anos, ainda sofrem de fadiga, muitas vezes incapacitante, problemas renais, falta de ar, tosse persistente e dor no peito.

Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Escola Paulista de Medicina, em 2021, mostrou que 36% dos pacientes que tiveram sintomas graves de Covid-19 acabaram desenvolvendo lesão renal aguda (LRA).

Histórico

Em 31 de dezembro de 2019, a OMS foi notificada sobre casos de uma "pneumonia de origem desconhecida" na cidade chinesa de Wuhan. Era o primeiro alarme da existência da Covid-19. Em 30 de janeiro de 2020, a doença era declarada emergência internacional e em 11 de março a OMS a configura como pandemia. No Brasil, as primeiras mortes pelo vírus também ocorreram em março de 2020 e até 2023 o vírus já tinha matado 710 mil pessoas, número inferior apenas aos Estados Unidos com 1,2 milhão de óbitos.  

A OMS totaliza que a pandemia contaminou 777 milhões de pessoas e ocasionou 7 milhões de mortes, embora considere que o número real de mortes seja até três vezes superior ao estimado e ultrapasse os 20 milhões.

Em 2024 ainda foram registrados 70 mil mortes pela Covid-19 e três milhões de casos em todo o mundo. Matéria recente do G1 (27/2/2025) chama a atenção para o aumento de casos de Covid-19 no estado do Amazonas, entre 27 de janeiro e 24 de fevereiro deste ano.  Foram 97 casos, sendo cinco óbitos, um aumento de 177% em relação ao período anterior.

De acordo com a plataforma UOL (27.02.2025) somente neste início de ano o Brasil somou mais de 108 mil casos e 511 mortes por Covid-19. Segundo a secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde o vírus é a maior causa das síndromes respiratórias graves e representa 48% das notificações, principalmente em idosos, e 87% das mortes.

Em face desses números, o Ministério da Saúde divulgou que a imunização contra a Covid-19 agora faz parte do Calendário Nacional de Vacinação, priorizando pessoas a partir de 60 anos que receberão uma dose da vacina a cada seis meses. A mudança também irá favorecer gestantes e crianças de 6 meses a menores de 5 anos.

Vírus permanece

A especialista da OMS Maria Van Kerkhove, epidemiologista que lidera a resposta da agência à doença desde 2020, chama a atenção para o fato que a Covid-19 não desapareceu. "Ainda temos cerca de 4 mil mortes por mês, mas muitos países não informam os dados à OMS. Apesar de não estarmos na mesma situação de 2020, 2021 ou 2022, o vírus veio para ficar”, alerta.

A OMS trabalha há três anos para aprovar um tratado internacional sobre preparação contra futuras pandemias com o objetivo de operacionalizar os países para futuros agentes infecciosos com potencial pandêmico, sejam novos coronavírus ou qualquer outro agente ainda desconhecido, apelidado de "doença X". Entretanto, a assinatura do tratado sofre resistência dos países nas questões comerciais de distribuição de vacinas, tratamentos e testes de diagnóstico e quebras de patentes.

"As pessoas querem jogar a covid para o passado, fingir que nunca aconteceu porque foi traumático, mas isso impede que nos preparemos para o futuro", afirma Kerkhove.

Nesse início de 2025, já foi constatado um surto de Metapneumovírus humano (HMPV) na China, que tem causado infecções respiratórias, especialmente entre crianças e idosos. Da mesma família do Vírus Sincicial Respiratório (VSR) pode evoluir para uma forma grave, levando à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). A ausência de vacinas ou antivirais específicos para esse vírus é um fator preocupante. Aqui no Brasil, no final do ano passado, uma criança morreu no Paraná depois de contrair o vírus, e em janeiro deste ano o estado do Amazonas registrou dez casos de Metapneumovírus.

Mpox

Ainda em fevereiro a OMS manteve o status da Mpox, do gênero Orthopoxvirus (antes conhecida como varíola-dos-macacos ou monkeypox), como emergência de saúde pública internacional. Desde agosto de 2024 até o início de 2025, vários casos foram registrados fora do continente africano. No Congo, neste período, o vírus provocou 147 mortes e mais de 15 mil casos confirmados.

Identificada em 1970, a doença ficou muitos anos restrita a uma dezena de países africanos, mas em 2022 começou a se espalhar para o resto do mundo. De acordo com a OMS, de janeiro de 2022 a dezembro de 2024, foram confirmados 124 mil casos e 272 mortes pela doença em 128 países. Os sintomas incluem, além das erupções cutâneas, febre alta, dor de cabeça e cansaço. Em janeiro, no norte da França, foi detectada a contaminação por uma variante mais agressiva da Mpox, identificada como Clado 1b, em uma pessoa que teve contato com outra que esteve na África. Na China, a contaminação se deu em um viajante que regressou do Congo e no Brasil, no início de março foi confirmada em uma mulher internada em São Paulo.

Segundo a Agência Fiocruz de Notícias, em seu informe divulgado em 21de fevereiro, o Brasil é um dos países mais afetados pelo Mpox, contabilizando mais de 13 mil casos desde 2022, sendo cerca de 2 mil em 2024 e aproximadamente cem nesse início de 2025. Dezesseis mortes foram confirmadas no país. Atualmente existem duas vacinas contra o Mpox, uma proveniente de laboratório da Dinamarca e a segunda fabricada nos Estados Unidos.

O vírus Dengue (DENV) também tem feito estragos no Brasil e desde fevereiro do ano passado a vacina é encontrada nos postos públicos de saúde.  Do gênero Orthoflavivirus, com quatro sorotipos conhecidos, o vetor é a fêmea do mosquito Aedes aegypti (significa ‘odioso do Egito’).

Em 2024 foram mais de 6,6 milhões de casos prováveis de Dengue e mais de 6 mil óbitos. Nesse início de ano já foram registrados 52 mortes e outras 256 estão em investigação. O médico epidemiologista Alexandre Naime, da Sociedade Brasileira de Infectologia, acredita que pelo histórico de 2024, que totalizou mais casos de dengue do que os últimos oito anos somados, 2025 promete quebrar todos os recordes do ano passado.

Em relação à Chikungunya e ao Zika Vírus, doenças também transmitidas pelo Aedes aegypti, ainda não existem vacinas. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2024 a Chikungunya afetou 261 mil pessoas e matou 196, com 177 mortes em investigação.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Comunidade judaica no Quênia completa 121 anos

 / Sheila Sacks /


Cerca de  500 judeus vivem atualmente no país africano de acordo com o jovem rabino Netanel Kaszovitz, líder religioso da sinagoga Nairobi Hebrew Congregation. Nascido em Chicago, Kaszovitz, de 32 anos, e sua família residem na capital Nairobi há quase quatro anos.

Segundo o site do Congresso Mundial Judaico (WJC, na sigla em inglês), que tem afiliadas em mais de 100 países, a vida judaica no Quênia se estabeleceu em 1904, com a fundação da Congregação Hebraica de Nairóbi e a instalação da primeira sinagoga construída em 1913.

História

Em 1903, durante o Sexto Congresso Sionista, uma parte do Quênia (então colônia britânica) foi cogitada para ser oferecida aos judeus como pátria. A proposta partiu do político inglês Joseph Chamberlain, secretário de estado para as colônias britânicas, mas foi rejeitada dois anos depois pelos participantes do Sétimo Congresso. Na época, duas dezenas de famílias de origem judaica imigraram e se instalaram no país. Um cemitério judaico foi construído em 1907. Finda a Segunda Guerra e a catástrofe do Holocausto, novos grupos de judeus se estabeleceram em Nairobi, com a comunidade aumentando para 1.200 pessoas.

Durante a guerra de independência de Israel, em 1947, os britânicos montaram campos de detenção em Gilgil (nordeste de Nairóbi) para membros das organizações clandestinas judaicas Irgun Zvai Leumi (IZL; Irgun) e Lehi, deportados da Palestina. A comunidade judaica do Quênia prestou ajuda e apoio aos combatentes e, em 1948, com a independência de Israel, muitos judeus partiram para o novo país.

  Atualmente, a comunidade judaica do Quênia é formada por judeus nativos, inclusive convertidos, e de países diversos como Rússia, Polônia, Alemanha, África do Sul, Reino Unido, Canadá e, principalmente, Israel. Com a independência do Quênia, em 1963, foi aberta uma embaixada israelense em Nairobi e houve um incremento na comunidade com a chegada de dezenas de israelenses, diplomatas, profissionais de várias áreas e homens de negócios.

Vale mencionar que a 180 quilômetros de Nairobi, na zona rural, existe há mais de 20 anos uma comunidade singular composta de dezenas de famílias convertidas ao judaísmo sob o nome de Kehillat Israel Kasuku. O grupo, por vontade própria, em 2000, se separou da igreja messiânica e muitos foram formalmente convertidos pelo rabino Gershom Sizomu, de 54 anos, da comunidade vizinha de Abayudaya, em Uganda, que abriga 2 mil membros. Ele é o primeiro rabino negro nativo da África e o primeiro membro judeu do Parlamento de seu país, eleito em 2016. Ambas as comunidades seguem rigidamente os preceitos e rituais judaicos.

Personalidades

De uma família de empresários que se estabeleceu no Quênia no início do século 20, Israel Somen (1903-1984) foi eleito prefeito de Nairobi em 1955 e mais tarde cônsul honorário de Israel no país. Ele viveu no Quênia até o final da década de 1960, quando se mudou para a Suíça e depois Londres. Mas, vários parentes permaneceram no Quênia.

Em uma entrevista à revista on-line Tablet Magazine, de cultura judaica, o médico nascido nos Estados Unidos e que reside há mais de 40 anos em Nairobi, dr. David Silverstein, de 82 anos, contou que o falecido presidente do Quênia, Daniel arap Moi (1924-2020) visitou várias vezes o estado de Israel e foi o único líder internacional a estar presente na cerimônia de 30 dias da morte do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, de quem era amigo.

Cardiologista renomado, atendendo autoridades, políticos, o próprio presidente Moi e seu antecessor, Jomo Kenyatta, primeiro presidente do país,  dr. Silverstein preside a Congregação Hebraica de Nairobi. Além do amplo prédio da sinagoga e um local para banhos rituais (mikvê), a comunidade também tem uma construção adjacente ao arborizado terreno, o Vermont Memorial Hall, que funciona como sede social para eventos diversos.

Merece menção também a presença do grupo ortodoxo Chabad-Lubavitch, instalado no Quênia há quase dez anos, com sede própria em Nairobi, sinagoga e atendimento religioso e educacional  à comunidade. Em uma reportagem publicada em seu site, é informado que o Chabad mantém postos em 17 países africanos, como o Congo, Nigéria, Angola, África do Sul, entre outros.

Acerca da histórica Operação Entebbe, em Uganda (1976), quando as Forças de Defesa de Israel resgataram os reféns do avião da Air France sequestrado por terroristas da Frente Popular pela Libertação da Palestina (PFLP, na sigla em inglês), a matéria em questão lembra o importante papel do Quênia no episódio. Na época, os aviões de Israel não tinham autonomia de voo de ida e volta para Uganda sem uma parada para reabastecimento. O governo israelense teve o aceite do presidente Jomo Kenyatta para o pouso, o que inclusive resultou em represália do ditador de Uganda, Idi Amim, que deu ordem para assassinar o ministro de Agricultura queniano, Bruce Mackenzie, suspeito de auxiliar agentes do Mossad no resgate.  

Quatro anos depois, no rastro do apoio da comunidade judaica do Quênia ao sucesso da operação de resgate em Uganda, um atentado terrorista palestino ao Hotel Norfolk, o mais tradicional de Nairobi, de propriedade da família de Abraham Block, explodiu parcialmente o prédio, matando 20 pessoas, a maioria turistas, e ferindo 87.

Em recente reportagem, o Jerusalem Post divulgou a viagem de um rabino e mohel israelense, Hayim Leiter, à Congregação Hebraica de Nairobi para fazer uma circuncisão ritual (brit milah) em um recém-nascido (24.02.2025). Leiter contou sobre a sua satisfação em perceber que os quenianos têm grande simpatia por Israel e que a comunidade judaica local é muito acolhedora e participativa. Porém, face ao provável término da missão do atual rabino Kaszovitz, ele destacou que é sempre um grande desafio comunidades pequenas sobreviverem em suas jornadas judaicas sem uma liderança eficaz. − O rabino e a sua família construíram um oásis no deserto africano – elogiou − e temo que os judeus do Quénia possam perder o seu caminho sem ninguém no comando.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

O Círculo dos Gigantes

 

/  Sheila Sacks  /

Por ocasião da celebração dos 73 anos da fundação do estado de Israel, em abril de 2021, a plataforma de notícias online ISRAEL21c, focada em artigos tecnológicos e científicos, apresentou 73 curiosidades acerca do país como uma homenagem à diversidade e também à singularidade dessa pequena/ grande nação do Oriente Médio. Uma das mais interessantes se refere ao Círculo de Gigantes, um monumento pré-histórico descoberto na década de 1960.

A matéria assinada pela jornalista e diretora do site, a inglesa Nicky Blackburn, lista também outras peculiaridades como a ressurreição da língua hebraica, utilizada por séculos apenas na leitura da Torá (Bíblia antiga) e em ritos religiosos, transformada em língua nacional de Israel, um caso único nos tempos modernos.

Ainda destaca certas características do país que considera especiais: metade de Israel é tomada por deserto; 90% das águas residuais são recicladas; tem a metade do tamanho do Lago Michigan EUA); abriga o mais antigo cemitério em uso, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém (3 mil anos); possui mais de 300 vinícolas espalhadas pelas colinas de Jerusalém, Golã, Judeia, Galileia e o deserto de Negev;  exibe um conjunto de 400 edifícios de arquitetura Bauhaus, no centro da capital Tel Aviv, a chamada Cidade Branca, o que levou a Unesco em 2003 classificá-la de Patrimônio Mundial; tem mais museus per capita do que qualquer país do mundo; e mantém em seu serviço postal um departamento especial  de “Cartas a Deus”,  que chegam de todo mundo para serem colocadas nas rachaduras do Muro das Lamentações, depois de abertas. Um milhão de pedidos são deixados anualmente, via presencial ou através de missivas no Muro, segundo a jornalista.

Mas, a menção mais instigante da lista é sobre o misterioso Círculo dos Gigantes conhecido  como Gilgal Refaim , na tradução do hebraico, uma referência ao povo que, segundo fontes bíblicas, se distinguia por sua enorme estatura e viveu naquela região (reino de Bashan/Basã - Devarim/Deuteronômio).

Em 2020, o mesmo site já havia classificado Gilgal Refaim como um dos dez maiores mistérios da Terra Santa, e indagava: Quem construiu o Stonehenge israelense? (em alusão ao complexo pré-histórico megalítico do Reino Unido, um dos mais visitados do mundo). 

Na reportagem (The 10 greatest mysteries in Israel), Gilgal Refaim tem como companheiros nove outros elementos cercados de indagações e suposições, como a Arca da Aliança, que continha a tábua dos Dez Mandamentos; a caverna de Zedequias ou pedreira de Salomão, em Jerusalém, cujas pedras podem ter sido usadas na construção do primeiro Templo, no século 9 antes da Era Comum; e a vila neolítica submersa Atlit Yam de 8.500 anos, descoberta em 1984, a versão israelense de Atlântida que pode ter submergida no dilúvio de Noé.  

Estrutura de 5 mil anos

Situado no norte de Israel, a estrutura é formada por gigantescos círculos concêntricos de mais de 42 mil toneladas de pedra basalto, cuja construção, segundo arqueólogos, beira a 5 mil anos. Autor de uma tese de doutorado sobre o local, o arqueólogo Michael Freikman, da Universidade Hebraica de Jerusalém, calcula que a estrutura exigiu milhares de dias de trabalho. Segundo ele, a construção pode ter levado cerca de 25 anos para ficar pronta, isso se 100 pessoas estivessem trabalhando. “Um esforço tremendo e terrivelmente caro”, avalia o especialista.

O também arqueólogo Uri Berger, pesquisador de tumbas megalíticas, diz que o local é enigmático, "com fragmentos de informações",  e que cada estudioso tem uma versão sobre a sua edificação e finalidade. E muitos deles, talvez envolvidos com a grandiosidade da estrutura, buscam nas escavações  documentos antigos e interpretações bíblicas que demonstrariam os vestígios de um legado espiritual secreto. 

A civilização oculta

Várias décadas após o suíço Erich von Däniken surpreender milhões de pessoas com a teoria de que as divindades reverenciadas pela humanidade seriam seres extraterrestres - de uma civilização adiantada que visitou o planeta terra em tempos pré-históricos ('Eram os deuses astronautas', livro publicado em 1968) -, uma outra tese não menos polêmica sobre o tema tem sido defendida por dois pesquisadores ingleses. De acordo com Philip Gardiner, escritor, roteirista e diretor de documentários, e seu parceiro Gary Osborn, os deuses não seriam alienígenas, mas humanos e de origem terrena, oriundos de uma civilização misteriosa e avançada que sobreviveu aos dilúvios e outros cataclismos.

Na obra “O Priorado Secreto” (2006), os autores, que já publicaram uma dezena de livros sobre sociedades ocultas e profecias, escrevem: “Talvez seja difícil de acreditar, mas evidências consistentes sugerem que conhecimentos técnicos avançados circulavam entre nós muito antes das datas convencionais atribuídas à pré-história humana e que uma cultura desconhecida havia codificado indícios reconstituíveis desses conhecimentos.” 

Uma das evidências físicas citadas pelos ingleses se refere justamente ao Círculo de pedras de Refaim ( Rujm el-Hiri , monte de pedras do gato selvagem, em árabe)  que os autores consideram um dos maiores mistérios de Israel. Situado na região das Colinas de Golã, a 16 quilômetros a leste do mar da Galileia, o complexo de pedra foi erguido sobre uma planície cujas reais dimensões só podem ser vistas do alto. A estrutura passou despercebida por séculos e só foi detectada através de uma pesquisa aérea. Uma caverna, no centro da estrutura, talvez funcionasse como câmara mortuária. As imagens foram liberadas por Israel em 1968 após a “guerra dos seis dias” (1967), quando Israel pode administrar a região.

Gardiner e Osborn defendem que edificações colossais como as pirâmides do Egito, o complexo monolítico Stonehenge, no sul da Inglaterra, as esculturas gigantes de pedra na Ilha de Páscoa (província do Chile), entre outras, foram erguidas sob a inspiração dessa civilização, originalmente formada por gigantes (a Bíblia também menciona povos gigantes – os nefilim, refaim e enacim - no Gênesis, Números e Josué) que, à parte as suas obras arquitetônicas majestosas deixaram um legado de conhecimento espiritual codificado em mitos, símbolos, lendas e fábulas. Histórias e “contos de fadas” passados oralmente de geração em geração, em grande parte por pessoas simples que não tinham consciência dos segredos contidos nas narrativas.

Conhecimento avançado

Para os pesquisadores, tanto a humanidade atual como as primeiras civilizações tradicionais que conhecemos jamais possuíram uma compreensão plena e acabada desse antigo sistema de conhecimento. As informações foram passadas através do tempo de forma fragmentada, sendo mal interpretadas e mal conceituadas. Gardiner e Osborn afirmam que essa misteriosa “ordem sacerdotal” teria civilizado a humanidade, talvez após uma catástrofe global. “Com o tempo, devido ao seu conhecimento científico, sabedoria espiritual e suposta capacidade extrassensorial, os povos menos desenvolvidos que conviviam pacificamente com esses seres mais avançados começaram a considerá-los deuses”. A base dessa argumentação vem da constatação da presença do mesmo sistema fundamental de crenças nas várias religiões existentes em todos os quadrantes do mundo, embora cada uma delas use denominações próprias, práticas e rituais diferentes.

A fonte desse sistema de crenças estaria nos antigos cultos solares e na experiência da “iluminação”. Segundo os autores, o padrão cíclico da natureza, a experiência renovadora do sol e os seus movimentos estão intrinsecamente vinculados ao efeito iluminador do “despertar” interior, do “renascer” e da experiência da “iluminação”. Eles citam a figura bíblica de Sansão, cujo nome deriva do hebraico shemesh (sol) e que é idêntico a shamash, o deus sol dos sumérios. Quando Sansão tem seus cabelos cortados por uma mulher e perde a sua força descomunal, observa-se a simbologia do sol presente na narrativa porque sua cabeleira representa o poder irradiador dos raios de sol.

Outro exemplo mencionado diz respeito ao maior profeta e libertador do povo de Israel, Moshé Rabenu ou Moisés, autor dos cinco primeiros livros (Pentateuco) da Bíblia hebraica (Torá) que contêm os fundamentos legais, morais e éticos do judaísmo. Gardiner e Osborn escrevem que em Êxodo 34, a citação é de que Moisés desceu do Monte Sinai com seu rosto “emitindo raios luminosos”. Os autores ressaltam que o profeta cresceu no palácio do faraó como um príncipe egípcio e provavelmente foi iniciado na tradição, simbologia e astrologia egípcias do culto ao sol, às estrelas e aos padrões cíclicos da natureza. Entretanto, em Devarim (Palavras), também chamado de Deuteronômio, o quinto livro de Moisés, é feita uma advertência para que os hebreus não se envolvam com esses cultos: “Levantando teus olhos ao céu e vendo o sol, a lua, as estrelas e todo o exército do céu, não te deixes seduzir para adorá-los e servi-los! (4:19).

Adiantando-se no tempo, os autores chegam até os essênios, uma seita judaica que existiu nos últimos séculos antes da Era Comum, cujos integrantes viviam em Qumrã, no deserto da Judeia, perto do Mar Morto. De acordo com os documentos escondidos em cavernas e descobertos a partir de 1947 (Manuscritos do Mar Morto), essa comunidade se autodenominava “Filhos da Luz” e o “governador”  era chamado de “coroa”, uma alusão à sua condição de “ser iluminado”. Os pesquisadores acentuam que a superação da morte também tinha no sol a sua inspiração. “Os movimentos do sol produziram lendas sobre o lugar para onde o deus sol vai e por que volta e serviram para encobrir ideias sobre como nós mesmos poderíamos, supostamente, reencarnar ou receber uma nova vida.”

O despertar do eu interior 

Para a dupla de ingleses, esse sistema de crenças que abrange as antigas ideias da árvore do mundo (a Árvore da Vida, na Cabalá), a reencarnação, o renascimento, o culto do céu - com tudo o que o envolve como o sol, a lua, as estrelas e os astros - , com nomes que de alguma forma significam “brilhar” ou “ser brilhante”, também migrou para a Europa, talvez levado pelas tribos do norte de Israel deportadas pelos assírios, no início do primeiro milênio antes da Era Comum (as chamadas tribos perdidas).

Pela tradição, os sacerdotes da Europa celta (formada por diversas etnias que povoaram o oeste do continente a partir do segundo milênio antes da Era Comum) eram chamados druidas, significando “o saber do carvalho”. Eles praticavam a adivinhação, a astrologia e o culto à árvore. Em suas narrativas é creditado a Hu Gadarn Hyscion (filho de Isaac), um hebreu egípcio, a fundação do terceiro templo no círculo de pedras gigantes de Stonehenge.

Mais evidências

No livro “As Digitais dos Deuses” (Fingerprints of the Gods, publicado em 1995), o jornalista e pesquisador nascido na Escócia, Graham Hancock, igualmente defende a tese da existência de uma civilização adiantada, anterior a pré-história convencional da humanidade. Ele se utiliza de um documento datado de 1513 - o mapa-múndi Piri Reis – desenhado pelo almirante do mesmo nome, em Constantinopla. O mapa mostra a costa ocidental da África, a costa oriental da América do Sul e, algo impensável,  a costa norte da Antártida, esta última região desconhecida até 1818, mas mostrada no mapa 300 anos antes de ser encontrada.

Outro mistério diz respeito à indicação de ausência de gelo em parte do território antártico conhecido como a Terra da Rainha Maud (área da Antártida oriental reclamada pela Noruega), uma prova geológica que confirma que o mapa se baseou em um documento original de pelo menos 4 mil anos antes da Era Comum quando a costa estava livre de gelo. “Em outras palavras, o verdadeiro enigma desse mapa de 1513 não está tanto no fato de ter incluído um continente que só foi descoberto em 1818, mas em mostrar parte da linha costeira desse mesmo continente em condições de ausência de gelo que terminaram há 6 mil anos e que desde então não se repetiram”, enfatiza Hancock. Ele conta que o almirante deixou uma série de notas escritas no mapa, admitindo que seu papel foi de compilar e copiar desenhos de cartógrafos que retroagiam a épocas anteriores à pré-história.

Ainda acerca do mapa de Piri Reis, o escritor e professor universitário norte-americano graduado em Harvard, Charles Hapgood (1904-1982), especializado em antropologia e história da ciência, argumentava que alguns mapas básicos antigos usados pelo almirante seriam fundamentados em fontes de uma época ainda mais recuada da antiguidade. Empenhado na formulação da teoria do deslocamento da crosta terrestre, considerada por Albert Einstein “fascinante”, Hapgood dizia  que a terra foi extensamente mapeada por uma civilização até então desconhecida e ainda não descoberta, dotada de alto grau de progresso tecnológico, que existiu há mais de 4 mil anos antes da Era Comum.

Catástrofes extinguiram civilizações 

Propondo a teoria de que o eixo de rotação da terra mudou pelo menos três vezes nos últimos 100 mil anos, por força de deslocamentos da crosta terrestre provocados pelo degelo das calotas polares, Hapgood considerava que tais rupturas globais podem ter dado origem a cataclismos e provocado a extinção de civilizações desconhecidas e avançadas como a da Antártida, destruída por uma mudança catastrófica. Para validar a tese, estudo das carcaças de mamutes congelados encontrados na Sibéria mostrou que esses animais extintos há 10 mil anos tinham em suas bocas um tipo de capim proveniente de climas quentes, apesar de tais animais terem sido descobertos em terras geladas.  

Seguindo a mesma linha de investigação, pesquisadores da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, revelaram a presença de palmeiras no território da atual Antártida, descobertas através de perfurações no gelo que trouxeram à tona o pólen de palmeiras e de outras árvores de climas quentes como os baobás oriundos das estepes africanas. Segundo os estudiosos, há 53 milhões de anos o clima desse continente era semelhante ao sul do Brasil, com invernos em torno de 10ºC e verões com temperatura de 25º C. Desde 1953, o professor Hapgood  já sustentava que grandes regiões da Antártida permaneceram livres do gelo até 4 mil anos antes da Era Comum, lembrando porém, que pelo consenso acadêmico, as primeiras civilizações se desenvolveram no crescente fértil do Oriente Médio por volta de 3 mil anos antes da Era Comum.

A partir dessa perspectiva, o estudioso observa que alguns dos mitos mais impressionantes e duradouros que a humanidade herdou dos tempos antigos dizem respeito a uma pavorosa catástrofe global. "De onde vêm esses mitos?", pergunta Hancock. "Por que os temas são parecidos, embora procedam de culturas diferentes? E se são realmente memórias, por que não existem registros históricos das catástrofes históricas que parecem aludir?" 

São indagações que se inserem nas narrativas do dilúvio bíblico e que também são encontradas na tradição de outros povos, como no livro sagrado dos maias (Popol Vuh). “Em todo o mundo são conhecidas mais de 500 lendas que falam do dilúvio" prossegue Hancock, "e em uma pesquisa sobre 86 delas em continentes diferentes, um pesquisador especializado, Dr. Richard Andree, concluiu que 62 eram inteiramente independentes da versão hebraica.”

Pistas falsas

Já o historiador e arqueólogo francês Robert Charroux (1909-1978) vai mais longe nas suas considerações sobre essas civilizações desconhecidas, afirmando que antepassados superiores construíram naves siderais, viajaram no cosmos e conheceram a energia atômica. Em seu livro “A história desconhecida dos homens desde há cem mil anos” (1963), o autor defende que os poucos sobreviventes dessa humanidade superior “legaram aos seus descendentes uma grandiosa mensagem”, advertindo-os, todavia, das consequências das suas próprias descobertas. Dessa forma, no decorrer dos séculos, afirma o francês, “centros de contraverdade têm ocultado este conhecimento, embora esse conhecimento seja mantido por sociedades de iniciados.”

Para Gardiner e Osborn existe uma espécie de “sacerdócio secreto” advindo dessa civilização desconhecida que desenvolveu um método de grande eficácia para chegar ao êxtase espiritual. Herdeiro e guardião do conhecimento da “iluminação interior” e das correntes místicas, esse priorado revela vestígios semelhantes nas grandes religiões e nas várias doutrinas esotéricas. “Platão foi um iniciado nesses mistérios. Ele diz que foi posto numa pirâmide durante três dias, morreu simbolicamente, renasceu e então conheceu os segredos dos mistérios”, escrevem os autores de “O Priorado Secreto”.

O esplendor da Cabalá

É interessante observar que a obra central da corrente mística do judaísmo, a Cabalá (‘tradição’, em hebraico), se denomina Sefer HaZohar ou o “Livro do Esplendor”, uma referência à luz e à iluminação. Atribuído ao rabi Shimón Bar Yochai (Rashbi), que viveu no século 2 da Era Comum, o Zohar também é chamado de “Chochmat ha-Emet” (a sabedoria da verdade). Até ser verbalizado, esse conhecimento advindo da Torá era transmitido oralmente pelos primeiros cabalistas denominados “nistarim” (os ocultos). 

O rabino Chaim David Zukerwar (1956-2009), em seu livro “As 3 dimensões da Cabalá: Essência, Infinito e Alma”, escreve: “A fonte da Luz é a causa e origem de toda a criação. Por essa razão a denominação empregada pela Cabalá para designar a energia de vidas é Or – luz, em hebraico.” Paradoxalmente, os sábios também afirmam que a luz que foi feita no primeiro dia da Criação ( E D’us disse “Que haja luz, e houve luz”) foi “oculta aos justos no mundo vindouro”. A explicação dada pelo Zohar indica que as palavras hebraicas “Or” (luz) e “Raz” (segredo) são numericamente equivalentes, isto é, que estão relacionadas uma com a outra. O significado seria que a luz original do início dos tempos só retornará em seu igual esplendor com a evolução espiritual e o compromisso do homem com o bem, em um tempo porvir.

A bênção do sol

Das muitas tradições judaicas, a bênção do sol, praticada ao longo das gerações, apresenta uma característica única: o seu ritual somente se dá a cada 28 anos, quando o sol, de acordo com os sábios, retorna à posição exata onde estava no momento da criação. Diz o Bereshit: “E fez D’us os dois luzeiros grandes: o luzeiro maior para governar o dia; e o luzeiro menor para governar a noite... E foi noite e foi manhã, dia quarto.” Para celebrar esse mandamento (mitzvá), as pessoas se reúnem ao ar livre e é recitada uma benção especial – Bircat Hachamá (benção do sol) - precedida e seguida de salmos e preces.

Sempre ocorrendo em uma manhã de quarta-feira (o dia da semana no qual D’us colocou em órbita o sol, a lua e todos os corpos celestes ), o último encontro se deu em 8 de abril de 2009 (ano judaico de 5769), quando mais uma vez foi recitada a prece que lembra os milagres divinos: “Bendito és Tu, Senhor nosso D’us, que reencena as obras da Criação.” (Baruch Ata Adonai, Eloheinu Melech HaOlam, Ossê Maassê Bereshit).

Mas, apesar das explicações rabínicas sobre a benção do Sol – que tem o intuito de louvar a Criação Divina -, pesquisadores como Gardiner e Osborn insistem em enxergar vestígios desse ritual ancorados a uma tradição desconhecida anterior a dos hebreus. O arqueólogo e historiador Zecharia Sitchin (1920-2010), estudioso dos idiomas antigos orientais, expõe em seu livro “O código cósmico” (2003), a familiaridade dos antigos hebreus com as constelações do zodíaco, iniciada com Terach, pai de Abrãao (Avraham) em Ur, na Suméria (atual Iraque). Ele faz uma correspondência entre os 12 signos zodiacais com os 12 filhos de Ismael (“Dele nascerão dozes chefes; E sua nação será grande” - Gênesis 17:20), os 12 filhos de Jacob (“E o número dos filhos de Jacob foram doze” – Gênesis 35), e as 12 tribos que povoaram a Terra Prometida, após o Êxodo, uma constância que, em sua opinião, “preserva a  exigência-santidade do Doze celeste”.

Sitchin, que viveu em Israel e nos Estados Unidos, revela que a expressão hebraica “mazal-tov”, pronunciada nas festividades e entendida pela maioria como “boa sorte”, significa literalmente “uma boa e favorável constelação zodiacal”. Segundo o arqueólogo o termo deriva do acadiano (a mãe das línguas semitas), em que manzalu significa “estação” – a estação zodiacal na qual o sol “estacionava” no dia do casamento ou nascimento. Ele também assegura que a monumental e enigmática estrutura de círculos de pedra na planície das colinas de Golã, o Gilgal Refaim, foi um observatório astronômico construído por uma civilização desconhecida, 7 mil anos antes da Era Comum.

Teoria que Uri Berger, membro do Departamento de Antiguidades de Israel, afirma ser plausível ao observar que já foi identificado que nos dias mais curtos e mais longos do ano ( solstícios de junho e dezembro) o nascer do sol se alinha com a abertura das rochas basálticas do monumento. 

Histórico de Golã

A ligação do povo hebreu às Colinas de Golã remonta a tempos bíblicos e conta a tradição que na região do Monte Hermon D’us prometeu a Abraão que daria a terra a seus descendentes.

Ao longo do tempo muitos povos viveram no local, centro de inúmeras disputas e guerras. De volta do exílio da Babilônia, no século 5 antes da Era Comum, os judeus povoaram a região até a primeira Revolta Judaica contra o Império Romano, entre 66 e 73 antes da Era Comum, quando suas vilas são destruídas.

A partir de 391 da Era Comum, Golã fica sob o domínio do império bizantino. Do século XV até o fim da 1ª Grande Guerra, é a vez dos turcos otomanos, e entre 1924 e 1944 a França assume o mandato na região. Depois do fim da da2ª Grande Guerra, por um acordo entre França e Inglaterra, o território fica com a Síria. Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, Israel volta a ter a posse de Golã.

Escrito originalmente em 2021 e atualizado em 2024