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quarta-feira, 13 de maio de 2020

Covid-19 : enquanto esperamos a cura


Por Sheila Sacks

E a chuva caiu sobre a terra por quarenta dias e quarenta noites (Bereshit - Gênesis 7:12); E a água prevaleceu sobre a terra cento e cinquenta dias ( 7:24).  

Quando o mundo efetivamente se deu conta da pandemia que avançava célere sobre as cidades, no início de março, um rabino aconselhou seus fiéis, pela redes social, a utilizar a força da oração (tefilá, em hebraico) e indicou a leitura do Salmo 91.
O livro dos Salmos (Tehilim), compilado pelo rei David, mil anos antes da Era Comum (a.E.C.), é considerado o único livro do Tanach (Bíblia Hebraica) comparável à própria Torá (Pentateuco). É o que escreveu nos idos do século 19, o rabino Menachem Mendel, o terceiro da linhagem do movimento ortodoxo chassídico judaico Chabad – Lubavitch. Para o religioso, os Salmos é um dos 24 livros sagrados contendo a grandeza dos cinco livros de Moisés e igualmente a grandeza da prece, a chave sagrada para a conexão direta com o Criador.
Refúgio e fortaleza
Diz o Salmo 91, em alguns de seus 16 versículos: “91.1 Quem habita na morada do Altíssimo estará sempre sob Sua proteção; 91.2 Sobre o Eterno declarei: Ele é meu refúgio e minha fortaleza, meu Deus, em Quem deposito toda a minha confiança; 91.3 Ele te livrará do laço do caçador traiçoeiro e da peste que assola tenebrosamente; 91.5 Não temas o terror que campeia durante a noite, nem a flecha que busca seu alvo durante o dia; 91.6 Nem a peste que se propaga nas trevas, nem tampouco o destruidor que ataca ao meio-dia; 91.10 Nenhum desastre se abaterá sobre ti e nenhuma calamidade se aproximará de tua tenda; 91.11 Pois Ele encarrega Seus anjos de cuidarem de ti e de te protegerem por todos os caminhos.”
Os sábios afirmam que muitos salmos foram compostos e recitados várias gerações antes do rei David, mas coube a esse personagem ímpar da história judaica compilar os sagrados cânticos de louvor ao Senhor. O rabino Menachem Mendel, conhecido como Tsêmach Tsêdec ( título de sua principal obra, ‘ Planta da Justiça’), relata que durante toda a vida o rei David constantemente fazia a recitação dos salmos. “Em tempos de dificuldade e sucesso, como um fugitivo caçado ou como um rei vitorioso, no auge da realeza e grandeza, seus lábios nunca pararam de pronunciar louvores a D’us.”
Reforçando esse pensamento, o primeiro rabino chassídico, o Baal Shem Tov (o Mestre de Bom Nome, em hebraico), que viveu no século 18, na Polônia, já dizia que não é preciso ser um sábio do Talmud (coleção de livros que abrangem leis e rituais judaicos) para se chegar a D’us. A simples recitação, com inabalável fé, dos Salmos de David seria o mais elevado nível de ligação com o Divino. A oportunidade de todo o ser humano expressar suas súplicas e agradecimentos a D’us.
É nesse contexto atual de medo e insegurança, frente a uma doença de contágio alarmante, que cresce a força de outro salmo, o de número 23, que em seu versículo 4 , reitera a grandeza do Senhor: “Ainda que eu siga pelo vale das sombras da morte, nada temerei, pois Tu estarás comigo; Teu cajado e Teu bordão me darão apoio e conforto.”
Mãos abençoadas
Em um artigo no Portal Chabad, fica-se sabendo que existem 14 aparições da raiz hebraica para cura (refuá) nos Cinco Livros de Moisés. Diz o texto: “Catorze é o valor numérico da palavra para ‘mão’ em hebraico (yad). Isso alude à conexão temática entre cura e mão, sugerindo que há poder curativo nas mãos.”
Para os místicos, as epidemias e outras catástrofes da natureza, como terremotos, furacões e tsunamis, são sinais que o Divino envia ao mundo.  Perceber e interpretar essas severas mensagens do Todo Poderoso são desafios que tendem a se apresentar ininteligíveis para a maioria das pessoas.
 No caso de uma pandemia, isto é, de um vírus que se alastra por todo o planeta causando milhares de mortes, tende a prosperar uma plataforma paralela à da ciência e da medicina, onde o misticismo e a religiosidade têm espaços relevantes  em sua busca de explicações e interpretações acerca de tal catástrofe humana.
Face às repetidas recomendações médicas às populações da necessidade vital de lavar e higienizar as mãos várias vezes ao dia para se proteger deste novo vírus, o chamado Covid-19, rabinos lembram a milenar determinação da Torá de lavar as mãos (netilat Yadaym, em hebraico) antes das preces matinais diárias e das refeições.
O ato de lavar as mãos antes de comer é tão importante na religião judaica que seus sábios incluíram esta ação como uma das sete mitzvot (boa ação, em hebraico) rabínicas, ao lado de acender as velas de Shabat, ao anoitecer de sexta-feira.
Já na época do êxodo dos judeus do Egito, 1300 a.E.C., os sacerdotes (cohanim)  lavavam as mãos e também os pés antes de iniciarem os serviços diários no Tabernáculo (Mishkan, em hebraico), o santuário  móvel no deserto que abrigava a arca sagrada.  Ao verter água de uma vasilha especial sobre as mãos e os pés antes do serviço Divino, tais partes descobertas do corpo se santificavam (o corpo em si já estava santificado pelas vestes sacerdotais).
A importância de se manter as mãos lavadas e limpas está presente nos rituais tradicionais da religião judaica. Como explica o rabino Arieh Raichman, do Beitch Chabad de Manaus, “cada parte do corpo tem um componente espiritual, mas nenhuma parte é tão única quanto as mãos”. Ele cita a Cabalá ou Torat ha’Sod ( o ensinamento do secreto), que chama a atenção para o poder das mãos. “As forças negativas gostam de encontra-se onde há um potencial para uma grande elevação espiritual”, reforça o rabino, lembrando que a maioria das mitsvot é realizada com as mãos.
Misticismo e mistério
Ainda a respeito da singularidade das mãos, no livro de Isaías, um dos 48 profetas de Israel, está dito a respeito de D’us: “Minha Mão estabeleceu a Terra e Minha Direita alçou os Céus” (48:13). Esse versículo, segundo a interpretação dos antigos sábios, teria o significado de que D’us estendeu Sua Direita e criou os Céus e estendeu a Sua Esquerda e criou a Terra.
O Midrash, que trata das interpretações do conteúdo da Torá, explica que a mão direita indica luz e refere-se aos mundos superiores e que a esquerda alude ao termo “Terra”, onde a luz não se encontra de forma revelada, estando oculta ou escondida. 
 O mito da mão igualmente está presente em um pequeno livro do final do século 12, o Sefer ha-Bahir (Livro da Iluminação), surgido na Provença, Sul da França, um século antes da aparição do Zohar (O Livro do Esplendor), a espinha dorsal da Cabalá, a corrente mística do judaísmo.
O Bahir faz uma ligação das mãos com as sefirot (canais da emanação divina). Está escrito: “As mãos possuem 10 dedos, devido às 10 sefirot, de acordo com as quais céu e terra foram selados, em correspondência com as 10 palavras entre as quais estão contidos os 613 mandamentos (preceitos)”.
Também na Torá, na descrição da guerra dos hebreus contra a nação de Amelek (Êxodo 17:11 – Shemot, em hebraico) o poder das mãos fica evidente: “Aconteceu que, quando Moisés levantasse a mão, Israel prevaleceria e, quando pousasse a mão, Amalek prevaleceria.”  Moisés ficou até o por do sol com as mãos levantadas, ajudado por Aarão e Hur, e Israel venceu a batalha, a primeira depois do êxodo do Egito. “E ele disse: Porque há mão no trono do Eterno, que haverá guerra para o Senhor contra Amalek (inimigos de Israel), de geração em geração” (Êxodo 17:16).
O poder das mãos também é atestado pela guematria ou numerologia judaica, um método de análise dos valores numéricos das letras e palavras hebraicas. A palavra mão em hebraico (Yad - יד), como já foi dito, corresponde numericamente a 14, valor da soma de suas letras. O número de segmentos ósseos nos cinco dedos também corresponde a 14 e somadas ambas as mãos o resultado é 28, o valor numérico para a palavra Força (Koach – כוח ).
Sem esquecer que é reservada às mãos uma tarefa santificada. Até os dias atuais, a Torá é escrita à mão. Cada uma de suas 304.805 letras deve ser escrita no Rolo da Torá com tinta e pena sobre pergaminho, numa caligrafia especial, por um escriba habilitado.
Armas biológicas
Por outro lado, afastando-se do enfoque místico e caminhando em direção à ciência e a geopolítica, observa-se que a pandemia se revela como um aviso dramático para os  riscos das chamadas armas biológicas, que não distinguem religiões, ideologias e fronteiras. O uso e a manipulação de agentes biológicos (vírus, bactérias e toxinas) como o vírus da varíola e da febre amarela, as bactérias Bacillus anthracis (antraz), Brucellae, Yersinia pestis (peste bubônica) e ricina, citando alguns, se constituem numa ameaça real já por um longo tempo.
Antes mesmo da 2ª Guerra Mundial, exércitos aliados e as forças alemães e japonesas realizaram pesquisas com o intuito de desenvolver armas biológicas. Acidentes como o ocorrido na cidade russa de Sverdlovsk, em 1979, quando houve a dispersão acidental de  uma quantidade de Bacillus anthracis, na forma inalatória, de um centro de pesquisas militar soviético, causando 68 mortes, comprovam as experiências com substâncias mortais.
No livro “Biohazard – A verdadeira história do maior programa secreto de armas biológicas do mundo”, publicado no Reino Unido, em 1999, o russo Kanatjan Alibekov, também conhecido como Kenneth Alibek, médico, microbiologista e ex-diretor-adjunto do programa de armas biológicas da antiga União Soviética, demonstra que o país estava preparado para lançar um ataque biológico com o vírus da varíola sobre os Estados Unidos, no caso de uma guerra nuclear.
Em 2001, depois do ataque de 1/9, traços da bactéria antraz foram encontrados em cartas endereçadas à Casa Branca em uma agência postal. Dois carteiros morreram. À época, o presidente George W.Bush acusou a Al Qaeda pela correspondência contaminada.
Mais recentemente, em 2013, o serviço secreto americano interceptou cartas contendo ricina endereçadas ao então presidente Barak Obama e a políticos do país. A ricina, extraída da mamona,é uma substância tóxica de alto risco para os seres vivos, podendo ser letal.
Vale dizer que agentes biológicos - diferentemente dos químicos que tendem a afetar somente quem está na região do ataque – têm a capacidade de atravessar fronteiras e se irradiarem por vastas regiões. Especialistas assinalam que a produção de armas biológicas não necessita de grande aparato nem sofisticadas instalações, podendo ser facilmente oculta, transportada e disseminada. Uma facilidade que se estende à aquisição de insumos e ao acesso à biotecnologia, ferramentas básicas para se construir uma arma biológica de destruição em massa, muito mais barata que uma bomba atômica, com resultados semelhantes.
Armas químicas
Em 1995, a seita apocalíptica japonesa Aum Shinri Kyo matou 12 pessoas e feriu outras 50, em um atentado no metrô de Tóquio, usando o gás sarin. Na guerra civil na Síria há evidências de que tem sido usado o gás sarin nas populações pelo governo sírio. O Centro de Estudos para Não Proliferação James Martin (CNS, na sigla em inglês), que pesquisa e combate a disseminação de armas de destruição em massa (weapon of mass destruction – WMD) já denunciou a Síria como detentora de um dos maiores arsenais de armas químicas do mundo. A instituição americana afirma que o exército sírio possui diferentes tipos de agentes químicos, além do sarin, como o gás mostarda, gás cloro e o agente neurológico VX, um gás tóxico asfixiante.
No caso de grupos terroristas como o Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês), com base no Iraque e atuando na província do Sinai, Al Qaeda (Iêmen e Somália), Hezbollah (Líbano) e o Hamas (Faixa de Gaza), a posse de armas químicas ou biológicas é sempre um motivo de preocupação, notadamente para o governo israelense.
Reportagem do jornal “The Jerusalem Post” , em fevereiro deste ano, traz o alerta de um ex- funcionário da CIA, Trace Walder, sobre a possibilidade do uso de drones para desfechar ataques com armas químicas. “A maior ameaça que os EUA e Israel podem enfrentar são os enxames de drones armados com esses venenos químicos lançados pelo Irã ou pelo ISIS”, adverte.
O ex-agente afirma que grupos terroristas já podem ter em mãos armas químicas obtidas em países como Irã, Síria e, principalmente, a Coreia do Norte. Ele revela que desde os primórdios dos anos 2000, o fundador do Estado Islâmico e líder da Al Qaeda no Iraque, Abu Musab al Zarqawi (morto em 2006), estava interessado em adquirir armas químicas e biológicas como antraz e ricina. De acordo com Walder, a aplicação desses produtos, na atualidade, é muito fácil de ser feita tendo acesso a um drone. 
No início deste ano, o novo chefe do ISIS, Abu Ibrahim al-Hashimi al-Qurashi ( que substituiu Abu Bakr al-Baghdadi, morto na Síria, em outubro de 2019) pediu a seus militantes, na península do Sinai (Egito) e na Síria, que usem armas químicas contra Israel e os judeus, onde eles estiverem.
A posse de armas químicas pelo Hezbollah foi aventada, ainda em 2018, pelo ex-general sírio Zuhair al-Saqit em entrevista ao jornal israelense Maariv. O militar foi o responsável pelo desenvolvimento científico de armas químicas no país, mas em 2013 abandonou o exército e a Síria. Ele disse que o regime de Assad transferiu para o Hezbollah grande parte dos estoques dessas substâncias letais com o intuito de burlar órgãos internacionais de inspeção. Uma dessas armas é o gás cloro, um agente asfixiante cujo histórico se reporta à 1ª Guerra Mundial e que foi usado pelo governo de Assad contra civis nas cidades de Saraqeb, Duoma e Latamneh, segundo relatório de 2018 da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW, na sigla em inglês).
Na entrevista em questão, o ex-general também conta que cientistas, técnicos e militares iranianos estavam desenvolvendo, no território sírio, mísseis com ogivas químicas de alcance entre 5 e 35 quilômetros. E confirmou a cooperação síria com a Coreia do Norte, afirmando que na qualidade de oficial graduado do exército acompanhou oficiais norte-coreanos nas visitas às várias unidades para consultoria sobre o uso de armas químicas.
Em relação ao Irã, relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), divulgado em março, denuncia que aquele país triplicou a quantidade de urânio enriquecido – um elemento químico radioativo -  desde novembro do ano passado, atingindo 1,1 tonelada em estoque (é preciso 1,6 tonelada de urânio de baixo enriquecimento para chegar à capacidade de produzir uma arma nuclear). Justamente nos meses em que o foco das autoridades e dos chefes das nações se voltam para o combate da pandemia.
Sinal vermelho
Para o pesquisador israelense Shaul Shay, do Instituto Internacional de Contraterrorismo (ICT, na sigla em inglês) e ex-chefe adjunto do Conselho de Segurança Nacional de Israel, a pandemia da Covid-19 serve como uma lição objetiva dos riscos das armas biológicas e também como alerta para possíveis ameaças de bioterrorismo.
Em 2017,na Conferência de Segurança de Munique, evento que se realiza anualmente nesta cidade alemã, com a participação de líderes mundiais, o magnata e filantropo Bill Gates, fundador da Microsoft, surpreendeu a plateia ao afirmar que “a próxima epidemia poderá se originar na tela do computador de um terrorista que pretenda usar a engenharia genética para criar uma versão sintética do vírus da varíola ou uma cepa supercontagiosa e mortal da gripe”.
O novo coronavírus surgiu na província chinesa de Wuhan que abriga laboratórios de alta tecnologia como o Instituto de Virologia Wuhan (WIV), fundado em 1956, que faz pesquisas nas áreas de microbiologia, biotecnologia e virologia. A instituição trabalha no isolamento de vírus de insetos e na produção de inseticidas virais. Segundo o site do laboratório, um de seus principais campos de pesquisa é o estudo patogênico de doenças infecciosas emergentes, com destaques para o coronavírus da síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-Covid) e o vírus da influenza aviária.
O vírus foi identificado em novembro de 2019 e no mês seguinte houve a primeira manifestação da doença na província. Antes de ser demitido, em janeiro deste ano, o prefeito de Whuan admitiu que mais de 5 milhões de pessoas puderam deixar a cidade antes que as restrições de viagem fossem decretadas.Porém, o mais grave é que as autoridades chinesas ocultaram as notícias e os detalhes do surto de vírus por dois meses, favorecendo à transmissão global da doença.
A respeito, o rabino Abraham Cooper, diretor de ação social global do Centro Simon Wiesenthal, afasta qualquer relação da pandemia com algum tipo de provação ou de manifestação do Divino, como alguns místicos evocam. Para ele, ninguém pode culpar D’us, quando o assunto é a Covid-19.
“São pessoas que nos trouxeram para esse desastre do coronavírus”, diz. “E não precisamos procurar os céus para encontrar a verdade neste caso”, prossegue. No artigo para “The Media Line” (30.03.2020), agência americana de notícias online sobre o Oriente Médio, o rabino novaiorquino, de 70 anos, que assina a matéria juntamente com o reverendo Jonnnie Moore, é enfático ao proclamar, já no título: “Não culpe D’us, culpem Pequim e Teerã.”
Cooper e Moore – um líder evangélico de 37 anos, dos mais influentes do país, comissário da Comissão de Liberdade Religiosa Internacional dos Estados Unidos  (USCIRF, na sigla em inglês) - acusam o governo chinês de se armar de suprimentos médicos, importando milhões de máscaras cirúrgicas e respiradores, grande parte da reserva mundial, antes de o mundo ter consciência da extensão da doença. Igualmente denunciam o Irã, que permitiu que os peregrinos continuassem a viajar para a cidade sagrada de Qom, quando o vírus já estava sendo disseminado, contaminando outras nações do Golfo Pérsico.
Os dois líderes religiosos conclamam para que a China admita e assuma a sua responsabilidade nas fases que antecederam a pandemia, e culpam o Irã pela saída da ONG Médicos Sem Fronteiras do país e de perseguir e matar membros da seita Bah’ai por sua ligação espiritual com Israel. Ambos, Cooper e Moore, trabalham na promoção do diálogo inter-religioso em todo mundo, principalmente nos países do Oriente e da Ásia
De acordo com a BBC News, até 30 de março, quando o vírus já era uma calamidade que se alastrava pelo mundo, a companhia aérea iraniana Mahan Air manteve seus aviões operando normalmente em suas rotas para cidades da China,  e realizando viagens e voos adicionais para Beirute, Damasco, Bagdá, Abu Dhabi (Emirados Árabes),  Sanaa (Iêmen) e Najaf e Karbala (Iraque).
A rede britânica de notícias apurou que a companhia aérea mentiu quando alegou que seus voos eram humanitários. Foram centenas de voos no período, possivelmente transportando passageiros com coronavírus, inclusive pousando em Barcelona, Istambul, Dubai e Kuala Lampur (Malásia).
A Mahan Air teve seus voos proibidos na Alemanha e França no ano passado. Desde 2011 a companhia não opera nos Estados Unidos ( em contrapartida, iniciou voos diretos de Teerã a Caracas, na Venezuela, em 2019 ) devido a sua ligação com a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC, na sigla em inglês), uma unidade do exército iraniano que dá suporte financeiro, técnico e logístico ao Hezbollah e outros grupos islâmicos terroristas, como o Hamas, a Jihad Islâmica, que atua na faixa de Gaza e na Cisjordânia, os rebeldes houthis, no Iêmen, e as milícias xiitas no Iraque, Síria e Afeganistão. Com mais de 150 mil funcionários ativos, essas ações no exterior são operacionalizadas pela temida Força Quds, uma unidade especial da IRGC.
Disseminação
Frente à flagrante desconsideração com a vida humana e a propagação de desinformação e ocultação de dados por parte de Pequim e Teerã, o rabino Cooper e o reverendo Moore reforçam a opinião de que esses dois regimes ditatoriais ajudaram a transformar a Covid-19 em uma tragédia global.  Eles também criticam a postura de silêncio do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom - que esperou até 11 de março para caracterizar a Covid-19 como pandemia -  e do secretário-geral das Nações Unidas (ONU), o português Antônio Guterres, que pediu às nações que suspendessem as sanções ao Irã por motivos humanitários.
O inevitável é que o mundo terá que conviver com a letalidade do novo coronavírus por um longo período. De acordo com o epidemiologista Michael Osterholm, autor do livro “Inimigo Mortífero: Nossa Guerra contra Germes Assassinos“ (em tradução livre), publicado em 2017, a Covid-19 é tão infecciosa quanto a gripe de 2018 (conhecida como gripe espanhola) que matou 50 milhões de pessoas e infectou cerca de 500 milhões, um terço da população mundial na época. Aquela pandemia foi causada pelo vírus H1N1, com genes de origem aviária.
O especialista calcula que nos próximos 16 a 18 meses (a entrevista foi realizada em 22 de abril) o vírus vai se mostrar ativo em todo o mundo, indo e vindo, em ondas, não descartando a hipótese de que no inverno de 2021, no hemisfério Norte, a pandemia venha mais forte. “Devemos lembrar que a atual pandemia é causada por um coronavírus e não um vírus da gripe como foi o caso em 1918. A história dirá se os dois agem da mesma maneira em termos de epidemiologia das doenças”, explica.
Fundador do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota, Osterholm pondera que, por enquanto, não há outras ferramentas importantes para combater o vírus, exceto o distanciamento físico. Ainda que apareçam remédios eficazes, a transmissão do vírus continuaria, reforça o epidologista, já que os medicamentos apenas diminuiriam o impacto da pandemia em número de casos graves e mortes.
Mesmo que se lavem as mãos com sabão várias vezes ao dia e que o ambiente esteja descontaminado, tal fato não impede que o vírus possa infectar as pessoas, garante Osterholm. Isso porque o vírus pode estar no ar que compartilhamos e respiramos com pessoas infectadas. Quanto mais vezes a pessoa ir para espaços públicos, maior a possibilidade de trocar um pouco de ar com alguém que tem o vírus e não sabe. Registrando que pouca mais de três meses após a detecção do vírus, já havia mais de 4 milhões de pessoas infectadas e perto de 300 mil mortes.
Logo, a perspectiva de uma mudança substantiva, em curto período, no cenário de incertezas e dificuldades que se descortina para as nações e populações do planeta não passa de inocente quimera. Osterholm, inclusive, lança mão de uma frase de  Wilson Churchill, primeiro-ministro britânico durante a 2ª Guerra Mundial, para definir o momento atual : “Este não é o fim, nem sequer o começo do fim, mas, talvez, o fim do começo”.
A frase do estadista inglês foi dita em discurso proferido no centenário prédio da Mansion House, de Londres, em 1942, logo após os britânicos expulsarem as tropas alemães, do general Rommel, do Norte da África. Por certo, passaram-se mais de três anos para que a Alemanha nazista, enfim, se rendesse, em 08 de maio de 1945, encerrando uma trágica era de horror e mortes que marcou, de forma definitiva, a história contemporânea.