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domingo, 12 de maio de 2019

Israel e a maçonaria histórica


Por Sheila Sacks

No próximo ano, em maio, a cidade de Jerusalém vai sediar a “XVII Conferência Mundial de Grandes Lojas Maçônicas Regulares”, um evento que ocorre a cada 18 meses e congrega centenas de maçons de todo o planeta. Israel foi escolhido para sediar o encontro de 2020 pelos delegados presentes na conferência ocorrida em Bucareste, na Romênia, em 2014.
Atualmente reunindo cerca de 1.100 maçons – judeus, muçulmanos, cristãos e drusos israelenses - a maçonaria em Israel mantém 50 lojas ativas (já foram 70). Em maio de 2018, por ocasião da viagem a Israel de um grupo de maçons de Santa Catarina, o grão-mestre soberano honorário do supremo Conselho da Grande Loja do estado de Israel, Leon Zeldis (33º grau), fez uma explanação para os visitantes sobre a história da maçonaria na terra santa.
Com 88 anos e dezenas de livros publicados sobre a irmandade (alguns traduzidos para o português), Zeldis - que nasceu na Argentina, mas passou grande parte de sua vida no Chile -  veio residir em Israel nos anos 1960 e, em 1970 foi um dos fundadores da primeira loja maçônica de língua espanhola em Israel.
E foi justamente nesta loja, a “Fraternidade nº 62”, situada em Tel Aviv, que o venerável irmão falou aos brasileiros presentes, destacando a concepção humanista que rege a Ordem, a harmonia fraterna de seus membros e os grandes desafios frente a um mundo em contínuo processo de transformação social e tecnológica.
As Pedreiras do rei Salomão 
De acordo com Zeldis, a primeira reunião maçônica na terra prometida ocorreu em 13 de maio de 1868, na caverna de Zedequias (o 20º e último rei de Judá, morto em 697 antes da Era Comum), uma enorme gruta subterrânea de pedra calcária (reverenciada pelos maçons como ‘ As Pedreiras do rei Salomão’) que se estende por centenas de metros abaixo da cidade velha de Jerusalém.
Até a sua descoberta acidental, em 1858, por um missionário americano que passeava pela periferia da cidade, a existência da gruta foi considerada por centenas de anos como mais uma das lendas que envolvem Jerusalém. A comprovação de sua existência trouxe maior consistência à crença maçônica de que a origem da irmandade se remete aos trabalhadores que construíram o templo de Salomão e ao próprio rei, o primeiro e maior maçom segundo a narrativa histórica da Ordem.
Esse primeiro encontro de maçons, ocorrido há 151 anos na então província síria da Palestina Otomana, teve como condutor um ex-grão mestre da grande loja de Kentucky, Robert Morris, que viera ao país procurar vestígios de maçons na construção do templo do rei Salomão, três milênios atrás.
Participaram desse notável evento o governador turco da cidade de Jaffa, Nuredim Effendi, quatro maçons da comunidade americana local, o cônsul prussiano em Jerusalém e alguns oficiais do navio de guerra inglês Lord Clyde, ancorado no porto de Jaffa.
Zeldis chama a atenção para o fato de que o encontro reuniu pessoas de origens distintas, representantes cristãos católicos, anglicanos, luteranos e mórmons, assim como muçulmanos. “Esta é a fraternidade universal de nossa Ordem”, afirmou o grão-mestre israelense. Acrescentando: “Que segue preenchendo uma importante função em Israel, servindo como centro de união, onde abraçamos irmãos de qualquer origem ou religião, onde falamos qualquer idioma, todos unidos pelos mesmos ideais.”
Um mito maçônico 
A Caverna de Zedequias - localizada a poucos metros da Porta de Damasco, junto às muralhas da cidade velha de Jerusalém - , hoje um lugar turístico bastante visitado, ainda é utilizada pela maçonaria para reuniões de seus membros, principalmente em eventos internacionais com a participação de maçons de diversas nacionalidades.
Com 9 mil m² de área, mais de 100 metros de largura e altura média de 15 metros, a caverna se constitui em uma enorme pedreira de onde se supõe foram retiradas pedras de calcário branco conhecidas como “melekeh” (‘real’, da tradução do hebraico) para a edificação do templo de Salomão e de inúmeras construções milenares da cidade de Jerusalém. (Israel só teve acesso ao local após a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967). 
A maçonaria acredita que suas raízes se reportam aos construtores do templo (o primeiro Templo, destruído por Nabucodonozor, rei da Babilônia, em 586 antes da Era Comum), que seriam os trabalhadores pedreiros (‘maçons’, em francês, e ‘masons’, em inglês) citados no livro dos Reis (Melachim) da Bíblia hebraica (Tanach), muitos deles enviados por Hiram, rei de Tiro (Fenícia, atual Líbano) para ajudar a erguer o templo.
Está dito em “Melachim I – 5:32”:  “E os construtores de Salomão e Hiram e os gebalitas ( da cidade fenícia de Gebal) os lavraram e prepararam a madeira e as pedras para construir a casa.”
Mas, o mito maçônico de mestre maçom está focado essencialmente na figura de outro Hiram, também oriundo de Tiro, que trabalhou no embelezamento do templo. Para os maçons trata-se de Hiram Abiff , que segundo a maçonaria foi morto por se recusar a revelar os segredos do projeto do templo.  “E o rei Salomão mandou tirar Hiram de Tiro. Era filho da viúva, da tribo de Naftali, e pai era homem de Tiro, um latoeiro; e ele estava cheio da sabedoria e entendimento e habilidade para trabalhar todas as obras em cobre; e veio ao rei Salomão e executou toda a sua obra (Melachim I – 7:13-14).
Porém, outro artífice também é mencionado na construção do templo e incorporado às narrativas maçônicas. Trata-se de Adoniram (Melachim I – 5:28). Para os maçons era o mestre encarregado dos trabalhos de cortar e empilhar as madeiras das florestas do Líbano para serem utilizadas no templo. Ele e Hiram Abiff ( considerados por algumas correntes maçônicas como a mesma pessoa) seriam os mestres maçons precursores da Ordem.
A proximidade da caverna de Zedequias com o Monte do Templo, onde foram construídos, no século 7, a mesquita de Al-Aqsae e o Domo da Rocha (a Esplanada das Mesquitas) é para os maçons um forte indício de que as pedras da gruta foram transportadas para o local onde estava sendo construído o templo de Salomão.
Esta suposição fez com que durante o Mandato Britânico (1920 a 1948) pedras fossem retiradas da caverna e enviadas às novas lojas maçônicas que se instalavam em várias partes do mundo. É referida como “pedra angular” aquela que simbolicamente é o alicerce mais importante de uma construção.
Primeira loja em Jerusalém 
Mas, retornando à exposição do grão-mestre Leon Zeldis, este nos conta que Robert Morris, após retornar aos Estados Unidos, levou cinco anos para obter uma patente da maçonaria do Canadá e assim fundar, em 7 de maio de 1873, a primeira loja maçônica em Jerusalém, a “Royal Solomon Mother Lodge nº 273”. Entretanto, a loja não foi adiante e em poucos anos foi dissolvida.
Em 1880, foi instalada na cidade de Jafa a loja “A Porta do Templo de Salomão”, desta vez seguindo o Rito Mizraim, ativo no Egito. Porém, tampouco essa loja sobreviveu. Em 1906, foi obtida a patente do “Grande Oriente da França” e fundada a loja “L’Aurore”, também em Jafa, cujo nome hebraico é “Barkai”. A loja evoluiu e se tornou a mais antiga dentro da “Grande Loja do Estado de Israel”.
Nos anos seguintes, relata Zeldis, foram fundadas dezenas de lojas, com patentes das Grandes Lojas do Egito, Inglaterra, Escócia, Alemanha e Turquia. Somente em 1953 se logrou unificar todas as lojas do país, implantando a Grande Loja do Estado de Israel. “Nossa Grande Loja levantou colunas em quase todas as cidades do país”, atesta Zeldis. “Desde Nahariya, ao norte, a poucos quilômetros da fronteira com o Líbano, até Eilat ao sul, às margens do Mar Vermelho, nossas lojas trabalham em oito idiomas: inglês, francês, espanhol, romeno, turco e russo, além do hebraico e árabe que são os idiomas oficiais de Israel.”
Zeldis destaca que o passado da maçonaria em Israel está intimamente ligado ao processo de integração dos imigrantes que foram chegando ao país nos últimos séculos. “Não somente os judeus, mas também árabes muçulmanos e cristãos que vieram de outras regiões do Império Otomano (1299 a 1923), especialmente do Líbano, Síria e Egito.”
 Dificuldades contemporâneas
A diminuição do número de maçons em vários países, o envelhecimento dos atuais membros da Ordem, as fragmentações e cisões que continuam a ocorrer, “e não dão mostras de cessar”, foram apontados por Zeldis como fatores inquietantes que preocupam a maçonaria.
Entretanto, para o grão-mestre israelense a irmandade não pode se dissociar dos problemas de seu tempo, como “a instabilidade do mundo contemporâneo, a transformação veloz da tecnologia, o relativismo moral e a recusa a toda a autoridade, situações que produzem uma sensação de insegurança e incerteza”.
Nesse contexto sociocultural difícil, que impõe comportamentos, hábitos e estilos de vida bem diferentes de, por exemplo, 50 anos atrás, Zeldis faz questão de mencionar o que considera um fator positivo de inegável atrativo na maçonaria em um mundo onde o fugaz e o descartável imperam. Diz ele: “Nossas amizades têm valor permanente, nossos ideais não mudam de acordo com a moda ou o momento, nem variam segundo a geografia.”
Em sua palestra, o grão-mestre israelense igualmente avalia a importante influência da maçonaria na evolução da humanidade ao longo do tempo. “Muitos dos postulados da maçonaria como a igualdade diante da lei, a fraternidade das pessoas e dos povos, a liberdade de expressão, a educação universal, a responsabilidade mútua e a ajuda aos necessitados e muito mais passaram a integrar o acervo cultural das nações evoluídas, conduzindo a criação de numerosas instituições políticas e associações voluntárias que cumprem e põem em prática esses conceitos.”
Simbolismo e filosofia esotérica


Oficialmente, a maçonaria como hoje a conhecemos se estabeleceu em 24 de junho de 1717, em Londres, com a junção de quatro lojas locais. A primeira Grande Loja da Inglaterra (United Grand Lodge of England) tinha objetivos limitados, de acordo com Zeldis. “Apenas pretendiam eleger um grão-mestre e reunir-se duas vezes ao ano por ocasião dos solstícios, em junho e em dezembro.”
Surge aí a maçonaria especulativa (até então existia a maçonaria primitiva das primeiras civilizações e, a partir da Idade Média, a maçonaria operativa, dos construtores e cortadores de pedras de catedrais, mosteiros, castelos, muralhas e outras construções que se reuniam em associações) que absorveu as influências das doutrinas filosóficas e esotéricas que floresceram nos séculos 17 e 18.
“As cerimônias, os rituais e o textos maçônicos incorporaram rapidamente conceitos, símbolos e tradições da alquimia, da cabala, do hermetismo, das lendas da cavalaria, do neoplatonismo e dos cavaleiros templários”, explica Zeldis. “Esse conjunto de ideias e ideais atraíram filósofos, cientistas, aristocratas e pensadores que encontraram nas lojas maçônicas um ambiente propício para expor seus pensamentos e revelar suas descobertas, sem temer repressão política ou religiosa.”
Um espírito de liberdade, igualdade e fraternidade que também entusiasmou os chamados “apóstolos da liberdade”. Eram maçons os grandes revolucionários que promoveram a independência das colônias das Américas: George Washington (1732-1799), Simón Bolívar (1783-1830), Benito Juarez ( 1806- 1872), Giuseppe Garibaldi (1807-1882) e José Martí (1853-1895).
Plantio de árvores
Avi Baranes cumprimenta o representante do Keren Kayemet
A Grande Loja de Israel tem como grão-mestre, desde 2017, o árabe-israelense Suliman Salem. É o quarto grão-mestre dessa comunidade a ser empossado como líder maior da Ordem. Anteriormente, o grão-mestre israelense de origem judaica, Avi Baranes, exerceu o mandato por quatro anos.
Sob sua gestão, em 18 de setembro de 2015, foi inaugurada no Vale Arazim (Vale dos Cedros), nos arredores de Jerusalém, uma praça florestal, a “Masonic Forest Square”. O vale Arazim faz parte do Parque Metropolitano de Jerusalém administrado pelo “Keren Kayemet LeYisrael” (Fundo Nacional Judaico).
Na ocasião, após o plantio das primeiras mudas de árvores na praça, Baranes enfatizou os vínculos da maçonaria com Jerusalem, já que as tradições da Ordem são baseadas na construção do templo do rei Salomão. “Jerusalém é mencionada em todas as nossas reuniões ao redor do mundo. Assim, garantiremos que toda delegação que chegar a Israel venha visitar o parque e cumprir a “mitzvá” ( boa ação) de plantar uma árvore”, assegurou.  
Também o ex-grão-mestre dos maçons em Israel, Ephraim Fuchs, autor da iniciativa, comemorou: “Foi aqui, no Vale do Arazim, que os súditos do rei Salomão recolheram madeira de cedro para a construção do templo, e por isso esse local tem grande importância simbólica para os maçons. A partir dessa praça, avistamos Jerusalém, o berço internacional da maçonaria”. E completou: ”Esperamos que todos os maçons que visitam Israel venham até aqui para conhecer o local."
De acordo com a Grande Loja da Inglaterra existem hoje 6 milhões de maçons reunidos em 176 países dos cinco continentes. Somente nos Estados Unidos são 1 milhão de maçons.Na Inglaterra, 200 mil; no Brasil, 170 mil; e na França, 160 mil.
Fontes:
Leon Zeldis : “El papel de la masonería en la sociedade israeli: passado-presente–futuro”
Jerusalem Post: “Inauguration of the Masonic Forest Square in Jerusalem’, em 22.09.2015
Beith Chabad: "Melachim I "
Grande Loja de Santa Catarina
United Grand Lodge of England