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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Israel mantém fechada embaixada em Assunção


Por Sheila Sacks
Permanece fechada, desde o início de setembro, a embaixada de Israel em Assunção, por conta da atitude do governo paraguaio de voltar atrás da decisão de transferir a sua representação diplomática de Tel Aviv para Jerusalém.
O imbróglio teve início em 21 de maio, quando o então presidente Horacio Cartes esteve em Israel e, juntamente com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, participou da cerimônia de inauguração da nova sede da embaixada no bairro de Arnona, na parte sul de Jerusalém, onde dias antes haviam sido instaladas as embaixadas dos Estados Unidos e da Guatemala.
Na época, apesar de Cartes continuar exercendo o cargo de presidente do Paraguai e ter a prerrogativa legal de transferir a localização da embaixada, um novo mandatário  já tinha sido eleito no país, no pleito realizado em 22 de abril. Tratava-se de Mario Abdo Benitez que ao assumir a presidência em 15 de agosto esperou pouco mais de duas semanas para anunciar, através de seu ministro de Relações Exteriores, Luis Castiglioni, o retorno da embaixada para Tel Aviv.
Reação imediata
Ao anúncio emitido em 5 de setembro pela chancelaria do Paraguai, a reação de Israel foi dura e imediata. No mesmo dia, Netanyahu comunicou o fechamento da embaixada israelense naquele país e o cancelamento de suas atividades. A visita de uma delegação de economistas israelenses também foi suspensa.
O gabinete israelense reforçou a reação emitindo um comunicado afirmando que a decisão do Paraguai foi vista com extrema gravidade e irá obscurecer as relações bilaterais entre os dois países.
Duas semanas depois, a Agência de Israel de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Mashav), que oferece programas técnicos e sociais gratuitos,  divulgou o cancelamento de todas as ações em andamento no país, como a suspensão de bolsas de treinamento, cursos móveis e projetos planejados para o último trimestre do ano.
O programa de bolsas da Mashav compreende mais de 60 cursos intensivos de especialização profissional desenvolvidos anualmente em centros de treinamento em Israel. Os cursos têm duração de um mês e incluem áreas como agricultura, educação, desenvolvimento social, comunicação, inovação, empreendedorismo, segurança cidadã e outras.
Dentre os cursos cancelados estão àqueles voltados para a evolução social da mulher, em cooperação com os Ministérios do Trabalho e da Mulher, e os que lidam com situações de emergência, que tem o apoio do Ministério do Interior e a Secretaria Nacional de Emergência (SEM) do Paraguai.
Também foi suspensa a doação de 270 cadeiras de rodas especiais para crianças com deficiências físicas ou com mobilidade limitada, segundo a imprensa paraguaia.
Mas, apesar da interrupção desses programas de cooperação, o setor de exportação de carnes do Paraguai divulgou, no início de novembro, que foi reativada a relação comercial entre os dois países e que empresários israelenses do ramo são esperados no país em janeiro próximo.
De acordo com a Câmara Paraguaia de Carnes, a expectativa é que 2018 se encerre com a estimativa de venda de 280 mil toneladas de carne para Israel, gerando um lucro de 1,2 bilhão de dólares.
Senado ratifica decisão
Cinquenta dias após a decisão do presidente Abdo Benitez, em 25 de outubro, o senado paraguaio ratificou a iniciativa, rejeitando a petição encaminhada por cinco senadores para rever a realocação da embaixada para Tel Aviv, onde atualmente está localizada. 
Dos 35 senadores presentes na votação, apenas nove congressistas ligados ao grupo do ex-presidente Cartes apoiaram o projeto que pedia a volta da embaixada a Jerusalém.
Antes da votação, o senador Rodolfo Friedmann assinalou que o Congresso não podia interferir nesse tipo de assunto que diz respeito ao Executivo. Outros senadores presentes reclamaram publicamente da insistência de alguns colegas de prosseguirem nessa questão que, consoante à maioria dos parlamentares, já foi definitivamente resolvida pelo governo do país.
No plano da diplomacia, o clima foi mais ameno. O ministro das Relações Exteriores Castiglioni enviou uma carta ao primeiro-ministro Netanyahu, em 31 de outubro, expressando a esperança de que Israel reconsidere a sua decisão de fechar a embaixada na capital paraguaia.
Ressaltando a amizade que une os dois países, o chanceler  afirmou que o Paraguai mantém a sua representação diplomática em Israel, tendo à frente o embaixador Max Heber, esperando que Israel reabra a sua embaixada em Assunção. “Israel é nosso amigo, nosso aliado”, reforçou.
Em 2002, para reduzir custos, Israel fechou a sua embaixada no Paraguai, reabrindo-a em 2015. Em ato recíproco, o Paraguai igualmente fechou a sua representação em Israel que voltou a funcionar em 2014.
Decisão “chocante”
No mundo judaico, a reviravolta do Paraguai levou a diretora de Assuntos Latino-Americanos do Comitê Judaico Americano (AJC, na sigla em inglês), Dina Siegel Vann, a classificar de “chocante” a inversão diplomática do país sul-americano. Ela chamou a atenção para o fato da Autoridade Palestina, dias depois do anúncio do Paraguai, declarar que abriria uma “embaixada” em Assunção.
Presente na posse de Abdo Benitez, em 15 de agosto, o ministro das Relações Exteriores da Autoridade Palestina, Riyad al-Maliki, no dia seguinte foi recebido pelo chanceler Castiglioni  em audiência privada. De Ramallah, ele confirmou que pressionou o governo paraguaio a mudar de rumo e considerou o fato como uma “nova conquista diplomática palestina”.
 “Reverter repentinamente uma decisão histórica, menos de quatro meses depois, suscita uma série de perguntas, inclusive quem exerceu pressão sobre o Paraguai para assim proceder”, avalia Siegel Vann. Para o governo israelense, houve sim pressão dos países árabes e promessas de futuros acordos e investimento no país influenciando a troca de posição do recém-eleito presidente.
A suposição é atestada pelo comportamento do presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, que dois dias após a decisão do governo paraguaio anunciou a abertura da embaixada de seu país em Assunção. Até então, os contatos diplomáticos eram feitos via Buenos Aires. Uma visita ao Paraguai foi agendada para dezembro.
Por sua vez, o secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Abulgueit, assegurou que a iniciativa do governo do Paraguai irá se refletir na relação com os países árabes, “consolidando a cooperação e a amizade” entre eles. Também o ministério de Exterior libanês aplaudiu a decisão paraguaia, afirmando em comunicado que “outros países deviam seguir esse exemplo”.
Outra demonstração de apoio veio do emirado do Qatar. O xeique Tamim Hamad bin Hamad al-Thani visitou o Paraguai em 3 de outubro, com uma comitiva de 100 empresários, e celebrou acordos de cooperação técnica e econômica, sendo condecorado com a mais importante láurea do país: a Ordem Nacional de Mérito no grau de “Collar Mariscal Francisco López”.
Meses antes, em abril, o ministério de relações exteriores paraguaio já tinha enviado um memorando diplomático aos Emirados Árabes Unidos (EAU) concedendo aos seus cidadãos a possibilidade de entrada sem visto no Paraguai por um período de 30 dias.
Comunidade pequena
Com 7 milhões de habitantes, o Paraguai foi destaque, no início do ano, de uma reportagem na Forbes, conceituada revista americana de negócios. Segundo a publicação, o país se apresenta hoje como “o novo líder emergente da América do Sul”, investindo em tecnologia, na construção civil, reduzindo a pobreza, diminuindo sua dependência da exportação de commodities (soja e carne, entre outras) e consolidando sua dívida pública em 22% do PIB, um dos mais baixos índices da região (no Brasil, a dívida pública, em julho, somava 77% do PIB).
A comunidade judaica no Paraguai é bem reduzida, com cerca de mil pessoas, a maioria residindo na capital. Possui 3 sinagogas (uma do Chabad, que oferece atividades complementares para crianças, jovens e adultos), uma escola judaica em tempo integral (‘Escola Estado de Israel’), um museu judaico ( com uma seção dedicada à Shoah) e associações culturais e recreativas como a Unión Hebraica do Paraguay, B'nai B'rith, Wizo, movimento Hanoar Hatzioni,  Asociasion Shalom y Amigos de Israel e mais a newsletter semanal “Hashavua”.
Em contraponto, a população muçulmana no país é calculada em 15 mil membros, conforme dados do Centro Benéfico Cultural Islámico Asunción . O atual presidente paraguaio é descendente de sírios. Seu avô, Reduan Abdo, chegou ao Paraguai na década de 1910, pela cidade de Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Brasil. A informação está no livro “Árabes en Paraguay”, de José Daniel Nasta.
Segundo a  Organização Islâmica para a América Latina e Caribe atualmente vivem 6 milhões de muçulmanos nos países do bloco. O Brasil tem 1,5 milhão, a Argentina, com 700 mil, a Venezuela (100 mil) e a Colômbia, com 40 mil. Números discrepantes em relação àqueles divulgados pela instituição americana Pew Research Center (2011) que estimou a população muçulmana nas três Américas em 5,6 milhões, incluindo os Estados Unidos (2,5 milhões) e Canadá (940 mil).
Pelos dados do centro de pesquisa Pew, que permanecem válidos, o Brasil contaria com 204 mil, o México, 111 mil, Venezuela (95 mil), Panamá (25 mil) e Colômbia, com 14 mil. Já a Argentina abrigaria 1 milhão de muçulmanos.
Casa Branca lembrou compromisso
Da parte da diplomacia americana, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, ligou para o presidente paraguaio no dia seguinte à decisão. A Casa Branca divulgou que na conversa com Abdo Benitez, a autoridade americana recordou “o compromisso prévio do Paraguai de mover a embaixada para Jerusalém como um sinal de sua relação histórica tanto com Israel como com os Estados Unidos”.
Assinalou também que o presidente paraguaio  “destacou a associação duradoura do Paraguai com Israel” e que concordou  em trabalhar conjuntamente com os Estados Unidos  para obter uma solução integral e duradoura para o conflito entre israelenses e palestinos”.
Abdo Benitez estudou nos Estados Unidos e seu pai, acusado de enriquecimento ilícito, foi assessor direto do presidente Alfredo Stroessner, que governou o país por 35 anos, até 1989.
Preocupação com terrorismo
Entre as lideranças judaicas, houve a manifestação  do presidente do Congresso Judaico Latino-Americano (CJL), o argentino Adrián Werthein. Em entrevista ao jornal La Nación, do Paraguai, ele admitiu que “cada país traça suas próprias linhas de estratégia geopolítica”, mas, disse esperar que o novo governo paraguaio “mantenha o caminho de relações de amizade com Israel que têm sido históricas desde a criação do estado, em 1948”.
Werthein ainda enfatizou a preocupação do CJL com a chegada de grupos terroristas na região. Ele citou a presença do Hezbolah na tríplice fronteira, afirmando que é um fato inquietante não somente para as comunidades judaicas, mas também para países e governos.
O dirigente do CJL lembrou que há um ano, na cidade de Córdoba, a organização judaica juntamente com entidades representativas do cristianismo e do islamismo assinaram um documento declarando a América Latina e Caribe como “Zona de Convivência Interreligiosa”. Um passo importante no sentido de fortalecer a tolerância e a convivência harmônica, a cooperação mútua e o pluralismo das distintas crenças religiosas.
Faltou diplomacia
Mais enfático foi o desabafo do presidente da “Comunidad Judia Del Paraguay”, Jack Fleischman. Falando ao jornal ABC color, um dos maiores do Paraguai, ele lamentou a ruptura diplomática entre Israel e Paraguai e criticou a decisão do presidente Abdo Benitez .“A um amigo não se faz o que o Paraguai fez com Israel”, disse. Para Fleischman faltou diplomacia na forma como foi decidido o retorno da embaixada paraguaia para Tel Aviv.
O dirigente fez um alerta sobre a recente proximidade diplomática do Paraguai com países dominados pelo fundamentalismo muçulmano. “Eu não me preocupo com Israel. Israel sabe se cuidar sozinho. Eu me preocupo conosco, com nossos filhos, com nosso Paraguai querido, para que não seja influenciado por ideologias que vão contra o nosso modo de vida.”
Acentuando o tom do discurso, Fleischman ressaltou o perigo dessa aproximação com “países sem democracia, sem liberdade de imprensa, de culto, de movimentos sociais, onde as mulheres não podem trabalhar”. Para o ativista, as embaixadas desses governos “somente querem trazer suas ideologias e seu proselitismo para acabar dividindo a sociedade”.
Caso Messer
Foragidos da justiça do Paraguai, os brasileiros de origem judaica Dario Messer e seu filho, Dan Wolf Messer, são notícias quase diárias na mídia paraguaia. Uma situação constrangedora que de alguma forma impacta a pequena comunidade judaica do Paraguai. Eles têm paradeiro ignorado desde a expedição de uma ordem de captura internacional assinada em maio por uma juíza federal do país.
Acusado de lavagem de dinheiro e associação criminosa, Dario tem cidadania paraguaia e sempre manteve laços estreitos com o ex-presidente Horacio Cartes. Seus principais auxiliares, Ilan Crinspun e Juan Pablo Jiménez Viveros, primo de Cartes, se entregaram à Justiça e cumprem prisão preventiva desde 31 de outubro.
Os advogados de Dario Messer alegam que não há garantias legais para que o acusado se apresente ao Ministério Público paraguaio. Questionam a instalação, no Congresso, de uma comissão de deputados e senadores para investigar as atividades de Messer presidida justamente por um seu desafeto, o senador Ronaldo Friedmann.
Acusam, ainda, o estado paraguaio de confiscar ilegalmente oito propriedades de Messer, totalizando 10 mil hectares de terras, e mais 12 mil cabeças de gado, que agora estão sob o poder da Secretaria Nacional de Bens Apreendidos e Confiscados (Senabico, na sigla em espanhol).
Segundo a imprensa paraguaia, Messer criou ao menos quatro empresas, desde 2011, para a prática de lavagem de dinheiro. Ele seria dono de 152 propriedades que alcançariam mais de 100 mil hectares, quase 10 vezes o tamanho da cidade de Assunção.
 O jornal espanhol “El Pais” ( na edição brasileira online), em reportagem publicada no início de maio, quando do alerta da Interpol contra Messer, relatou que ele é acusado de ter coordenado um esquema que movimentou mais de 1,6 bilhão de dólares em 52 países. No Paraguai, os promotores do caso acreditam que o montante de recursos ilegais no país chegaria a 40 milhões de dólares.
Indagado pelo paradeiro de Messer, em uma entrevista ao canal de TV Telefuturo,um de seus advogados, Ricardo Galeano,respondeu que por dever profissional não pode revelar a localização do cliente. Mas, as suposições se voltam para Israel, onde a família de Messer se mudou em 2015. Dois anos antes, ele integrou a comitiva  do então presidente Horacio Cartes que visitava Israel pela primeira vez.