linha cinza

linha cinza

terça-feira, 2 de março de 2010

Bem-vindos ao paraíso

por Sheila Sacks

Quando papai comprou o plymouth de quatro portas, a minha vida mudou. Eu tinha sete anos e morava em um ponto esquecido à esquerda da linha férrea que cortava a zona norte. O carro seminovo tinha cromados reluzentes, pneus de bandas brancas e assentos de couro. Papai mostrou a novidade em uma tarde de primavera e mamãe, radiante, beijou-o no meio da rua. No domingo, de vestido florido e sandálias de solado alto, ela anunciou que íamos ao Cais do Porto. Emocionados, meu irmão e eu colamos os narizes nos vidros das janelas e assistimos o casario urbano correr frente aos nossos olhos, como um filme a céu aberto.

1

No cais os navios enormes causavam espanto. Sobreviventes da guerra, dois primos de papai chegavam da Europa. Os rapazes desembarcaram do velho cargueiro equilibrando-se em uma estreita escada de corda. Usavam casacos pesados e pareciam assustados. Papai abraçou-os e sussurrou qualquer coisa em ídiche. Mamãe traduziu a saudação, estendendo-lhes a mão. “Bem-vindos ao paraíso”, disse em voz alta, despertando a atenção das pessoas no píer.

Nos dias posteriores uma chuva persistente entristeceu a semana. Rezei para a chuva parar. Em uma manhã acordei com o sol no quintal. A claridade me cegava, mas assim mesmo eu teimava em encarar o sol. “Vamos à praia no domingo”, exclamei confiante, enquanto mamãe bordava. “De carro”, insisti, ao perceber um olhar maroto em minha direção.

Algumas semanas depois, brincando na areia do Arpoador, escutei os primos de papai anunciarem a novidade: fariam a aliá em breve. Mamãe traduzia as frases, e o entusiasmo com que falavam sobre a nova vida em Israel fez o meu coração disparar. “Mas, o paraíso é aqui”, imitei mamãe apontando o mar que espumava sobre a areia. Mas os jovens pareciam não entender, encolhidos sob a sombra do guarda-sol de gomos coloridos. Mamãe sentada sobre a esteira de palha, de maiô preto e chapelão de ráfia piscou o olho para mim e balançou a cabeça afirmativamente.
2

Naquele verão do final dos anos 50 papai iniciou um novo ritual aos domingos. Acordávamos cedo, entrávamos no carro e seguíamos para Copacabana. O prédio escondido pelos tapumes estava sendo finalizado. Enquanto ele conferia o avanço nas obras do futuro apartamento, ficávamos no carro. Mamãe, no banco da frente, abanava-se com o leque japonês não escondendo a impaciência. Após uma espera que parecia durar horas, papai surgia na calçada. Com um suspiro de alívio, mamãe saltava fora do veículo e lá íamos nós caminhando pela rua arborizada rumo à praia. “Um sonho antigo, esse de morar em Copacabana”, confidenciou mamãe, ao telefone, em conversa com vovó.
3

E assim foram-se passando os meus domingos. Como um pequeno milagre, o domingo de praia se incorporou aos hábitos da família, agora instalada no novo apartamento e surpreendida pela auspiciosa chegada de um bebê. Problemas e discussões podiam esperar. Compromissos, visitas e encontros eram adiados. Andar pela areia úmida, estirar os corpos ao sol e se banhar nas águas geladas redimiam as agruras da semana. Esquecido na garagem do prédio, o carro sem serventia foi dado ao porteiro. A lojinha no subúrbio passada adiante. Os livros e suas histórias mágicas, a praia em sua beleza inigualável e a pequena poupança de trinta anos de labuta bastavam para um viver de prazer e harmonia.

Dúzias de anos depois, já velhinhos, mamãe e papai ainda se sentavam na areia para ler e namorar o mar. “Bem-vindos ao paraíso”, eu lembrava da frase dita há tanto tempo na beira do cais. Meus pais sorriam e se entreolhavam imaginando, talvez, um paraíso celeste bem parecido com aquele em que viviam, com muito sol, areia e mar, e onde todos os dias seriam domingos de praia.